Axé music e a produçÃo musical na bahia contemporânea



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Mito II – Baixa qualidade técnica
O segundo grande mito relacionado a Axé Music é estabelecido a partir da suposta “baixa qualidade técnica” de seus artistas e profissionais. Mas o que caracterizaria e fundamentaria esta expressão? Arranjos mal elaborados? Canções repetitivas? Músicos tecnicamente pouco habilitados? Excesso de unidade temática composicional? A participação no campo permite afirmar que tais críticas estão alicerçadas a partir da disseminação do senso comum plugado em desconhecimento e preconceito.

A sensibilidade e qualidade técnica dos músicos, arranjadores e diretores musicais em atividade nas bandas de Axé Music são relevantes no processo de legitimação desta, ainda que tais informações sejam restritas ao meio musical. Assim, como em qualquer outro gênero musical popular massivo, o virtuosismo não é regra fundante para alcance do sucesso, necessitando, ainda, de elementos outros - rede de relacionamentos, carisma, oportunismo, sorte, inteligência, habilidade e senso estético.

Na Axé Music, autodidatas e doutores atuam intensamente numa rotina nacional e internacional de ensaios, shows, viagens, gravações, estúdios, etc. Músicos vinculados ao universo Axé, não raro, também acumulam experiências profissionais em outros estilos e gêneros musicais em Salvador, tais como o Choro, Jazz, Samba, Rock, Funk, Forró, Eletrônico, entre outros. O Rock, por exemplo, estabelece diálogo constante com a Axé Music, proporcionando informações relevantes a bandas como Asa de Águia, Netinho, Ivete Sangalo e Jammil e uma Noites. Estas influências são percebidas nos arranjos, nos fraseados, timbres e agressividade de alguns efeitos, distorções e riffs de guitarra. Adail Scarpelini, natural de Aracajú/SE, guitarrista e diretor musical da banda Voa Dois – banda Revelação do Carnaval de Salvador 2008 -, informa que a centralidade da produção musical para Sergipe era – para muitos, segundo ele, ainda é - a Bahia. Visibilidade e retorno financeiro, mas, acima de tudo, pela experiência de estar ao lado de músicos que sempre respeitou e admirou.
Por muito tempo toquei e dirigi musicalmente bandas e cds de forró. Calcinha Preta (SE), Caviar com Rapadura (CE), Colher de Pau (BA), mas sempre quis ter a experiência da Axé Music, da união entre percussão/harmonia. Toquei com Netinho, e agora estou com a Voa Dois, além de sempre estar produzindo e gravando com outros artistas. Quando as bandas de Axé iam a Aracajú, a gente ia aos shows, procurava conversar com os músicos, lia os encartes. A Bahia era nossa maior referência musical.
Em 2008, o Prêmio Multishow de Música Brasileira premiou um destes renomados músicos, o tecladista e arranjador Radamés Venâncio, na categoria Melhor Instrumentista, enquanto Ivete Sangalo, representante de uma vertente acentuadamente pop da Axé Music, foi agraciada nas categorias de Melhor Cantora e Melhor DVD (Multishow ao Vivo – Ivete Sangalo no Maracanã).

Detentor de inúmeros prêmios nacionais e internacionais, Carlinhos Brown consegue aproveitar estas situações para discursar sobre uma Bahia sempre planetária e referencial na música nacional, exaltando a capacidade de diálogo estético da produção musical baiana contemporânea. Sua ampla concepção musical não dispensa os ensinamentos e provocações herdadas de músicos contemporâneos - baianos ou radicados na Bahia -, como Ernest Widmer, Walter Smétak e Lindemberg Cardoso, assim como, numa escala internacional, negocia espaços mediante novos encontros musicais. De sua parceria com o DJ Dero, em 2004, resulta o disco com forte influência eletrônica Candyall Beat, que tem como principal hit a obra “Mariacaipirinha”. Lançados inicialmente na Espanha, disco e obra alcançam sucesso, remetendo, neste mesmo ano, Carlinhos Brown - naquelas plagas conhecido por Carlito Marron -, à condição de convidado musical do Fórum Universal das Culturas, realizado em Barcelona.

Da parceria feita com Sérgio Mendes, em 1985, conseguiu emplacar cinco composições no álbum "Brasileiro" – ganhador do Grammy de melhor disco de World Music. Em Salvador, neste mesmo ano, recebe também o Troféu Caymmi. Inúmeros outros prêmios vieram nos anos seguintes, coroando Brown como um dos maiores nomes da Axé Music, ora como músico, produtor ou compositor.

A preocupação com a qualidade profissional dos músicos acompanhantes também se constitui verossímil no momento da formação das bandas. José Raimundo, tecladista, arranjador e diretor musical que acompanhou Netinho de 1989 a 1998, declara:



Jomar entrou no grupo em 1996... A decisão de termos dois tecladistas foi uma sugestão minha, pois usávamos muito sequencer (programação), e sempre quis muito ter outro tecladista tocando comigo, por conta dos muitos detalhes de teclados que minhas duas únicas mãos não conseguiam executar. O primeiro tecladista que tocou com a gente foi Glauton Campelo - um excelente pianista jazzista carioca que morou 8 anos nos EUA e que tocava com Djavan ao lado de Paulo Calazans.
Arranjos, neste sentido, corroboram com a lógica de identificação e diferenciação do artista, e são inúmeros os exemplos de arranjos que se tornaram referências, remetendo, diretamente, músico/arranjador a artista, e vice-versa.

A estética musical da Axé Music encontra-se nos referenciais de timbragem e sonoridade contidos nos arranjos, mas, também, a partir do entrosamento musical das bandas e artistas que souberam aliar a força da sonoridade percussiva local à variedade de timbres e recursos tecnológicos aplicados à música ocidental, como guitarra, bateria, contrabaixo, saxofone, etc. Em outras palavras, o encanto se dá pela magia e carisma do artista, seu entrosamento com seus pares, repertórios selecionados e previamente testados nas dezenas de shows e micaretas realizadas durante o ano, dentro e fora do Brasil.

Entrosamento, carisma, virtuosismo e sensibilidade são elementos referenciais nas justificativas de obtenção do sucesso por parte dos artistas e bandas de Axé Music. As musicalidades desta são frutos do encontro entre músicos formados nos conservatórios e academia, nas igrejas e terreiros de candomblé, na generosidade presente nos conselhos informais, e, principalmente, nas dinâmicas das ruas da cidade.

A partir de investimentos dos próprios artistas/empresários, a Axé Music vem oportunizando ao Estado o surgimento e desenvolvimento de estúdios profissionais de gravação de áudio que se tornaram referências na produção musical nacional, tais como o estúdio Ilha dos Sapos (Carlinhos Brown), Groove (Asa de Águia), Canto da Cidade (Daniela Mercury), Ed Dez (Edilson, jogador de futebol), entre outros, evidenciando um campo em que há recursos tecnológicos atualizados a partir da experiência, conhecimento e profissionalismo dos técnicos e músicos.



Mito III – Fim da Axé Music
A especulação, neste sentido, acerca da decadência, ou fim da Axé Music é antiga e pode ser melhor percebida a partir do início do século XXI, e os maiores argumentos encontram-se centrados no declínio de vendas dos produtos fonográficos, e na escassez e ausência de renovação de seus quadros artísticos. Seus principais defensores parecem ignorar que a crise é do setor fonográfico mundial - mais acentuadamente, do formato CD -, irrompendo-se em inúmeras fusões e desaparecimentos de gravadoras internacionais, além da migração dos artistas para as plataformas de música online. Sendo a crise fonográfica mundial, evidente que haveria repercussão produção musical baiana contemporânea, promovendo quebras de contrato e desligamentos de artistas dos casts das gravadoras – fato que impulsionou o surgimento e fortalecimento da produção fonográfica local, com inúmeros selos, editoras, produtores e distribuidores de menor porte.

As agendas de shows, as estratégias de diferenciação e inscrição estética e mercadológica são elementos relevantes e não podem ser desconsiderados em tais reflexões. Não obstante, inúmeros artistas e bandas musicais vem sendo incorporadas ao texto da Axé Music, o que demonstra sua capacidade de renovação estética junto às suas células matrizes advindas do samba-reggae, enquanto marca e território simbólico em processo afirmação, expansão e internacionalização.

A Axé Music transcendeu, rompendo fronteiras e barreiras mercadológicas e territoriais. Por outro lado, impulsionou o surgimento de setores e atividades que corroboram com o desenvolvimento da música no Estado, além de disseminar a marca Bahia nos quatro cantos do mundo. Nos campos estéticos ou organizacionais, inovou, criando novos mercados e possibilidades de experiências. Novas redes de profissionalidade foram, e continuam sendo implementadas na Bahia, assim como a tessitura de uma ampla teia de relações a partir da legitimação deste gênero em outras localidades.

Por outro lado, a Axé Music dinamizou o surgimento e desenvolvimento de carnavais extemporâneos pelo Brasil - mais conhecidos como micaretas -, o mercado de trios elétricos e carros de apoio, a promoção de eventos, produção fonográfica, tecnologia aplicada à musica, entre outros.

Nacionais ou internacionais a Axé Music está presente em eventos relevantes no show business musical contemporâneo, comprovando sua vertente pop repleta de influências e informações. Em eventos como o Axé Brasil (BH) – exclusivo do gênero -, Brazilian Day, Festival de Montreux, Rock in Rio, a Axé Music conquista espaços. Nas edições 2008 do Rock in Rio Lisboa e Madrid, artistas como Carlinhos Brown e Ivete Sangalo foram recebidos por um público que, em sua maioria, conhecia e cantava seus principais sucessos.

Dentre as primeiras iniciativas de internacionalização do gênero baiano, está a Copa do Mundo de 1990, na Itália, como assinala o tecladista José Raimundo:


Fomos para Copa do Mundo, na Itália, em 1990. Foi uma grande estratégia comercial da Perdigão que levou o Trio-elétrico para Torino. Foi o primeiro trio-elétrico que chegou na Europa de navio e montado. Na época em que estivemos na Itália, a lambada estava no auge por lá com o grupo Kaoma. Música brasileira eles só conheciam Caetano, Gil, Benjor, Djavan, etc. Enfim, MPB. O Axé era conhecido por uma minoria de italianos que frequentavam o carnaval da Bahia. Quando começamos a tocar ninguém dançava, pois eles têm uma cultura de assistir ao espetáculo e nunca tinham visto um caminhão com um som daquele tamanho. Há um ponto interessante nisso, pois tinha gente lá de todas as culturas, pois era uma Copa do Mundo. Eles começaram a ficar fascinados com o ritmo da música e, meio desajeitados, imitaram muitos brasileiros que estavam lá dançando, e começaram a entrar no clima de festa que a Axé proporciona.
Desde a segunda metade da década de 1990, os responsáveis pelo Festival de Montreaux, Suíça, agendam apresentações de artistas baianos da Axé Music, corroborando com o processo de expansão e internacionalização da carreira de seus artistas. Margareth Menezes, Olodum, Araketu, Ilê Aiyê, entre outros.

Também o Brazilian Day – Rede Globo como uma de suas maiores empresas articuladoras – reserva a participação de artistas da Axé Music como protagonistas. A atuação da maior empresa de comunicação e entretenimento da América Latina junto aos artistas baianos tem sido crescente nos últimos anos, principalmente a partir da parceria com a Rede Bahia – organização e registro de boa parte dos shows no Festival de Verão, cabendo à Rede Globo a divulgação e distribuição comercial através de sua gravadora, a Som Livre.

Outro vetor relevante na expansão dos mercados da Axé Music é o próprio Carnaval soteropolitano que - apesar das recentes controvérsias acerca de seus custos e acentuação de seu viés comercial -, ao se profissionalizar e internacionalizar, corrobora e termina por disseminar, à reboque, as musicalidades e artistas presentes no evento. A lista internacional de convidados famosos é extensa, mas só para citar os anos de 2007 e 2008: a banda irlandesa U2, o produtor musical Quincy Jones, Naomi Campbell, Arto Lindsay, e tantos outros que ou não foram captados pelas câmeras ou preferiram o anonimato, se é que é possível, mas que representam a possibilidade de maior publicização, nível internacional, de uma dinâmica centrada, mas não exclusiva à Axé Music.

Não obstante, a presença de celebridades nacionais também corrobora neste processo, pois revela a também extensa programação de shows, lavagens, festas populares, feijoadas e ensaios, reforçando, em grande medida, a idéia mítica de existencialidade exclusivamente festiva do território baiano. Nesta lógica de retro-alimentação das marcas - Axé Music e Carnaval -, como que numa espécie de feedback, também é apontada por Dantas (2005, p.20), quando afirma a disposição da nova geração de artistas da música baiana em ampliar suas fronteiras profissionais, corroborando no processo de legitimação e ampliação do receptivo turístico no carnaval:


O carnaval baiano dobrou de tamanho nos anos 90: de um para dois milhões de foliões por dia participando da festa. Isso se deveu a políticas públicas de atração de turistas? Não. Ainda que, efetivamente, as políticas públicas tenham sido fundamentais para viabilizar infra-estrutura, equipamentos e capacitação de pessoal para receber turistas, o que duplicou a presença desses turistas foi a música baiana.

Outro aspecto relevante na argumentação contrária ao fim da Axé Music, é a cobertura midiática internacional do Carnaval de Salvador, que registra números ascendentes de profissionais cadastrados - fato incontestável de que boa parte do mundo já manifesta interesse no maior evento de rua do mundo e sua musicalidade maior. Não raro, seus artistas excursionam por diversos países, configurando Espanha e Portugal como líderes neste receptivo.

Sua inscrição no mercado de bens simbólicos também contempla registros de não aceitação, aversão e restrição de sua execução pública, inclusive com leis, como nos casos dos carnavais de Recife e Olinda, que proibiram artistas e repertórios vinculados ao gênero com argumentos que contemplam o respeito e valorização aos costumes locais. A medida visa salvaguardar laços identitários com o frevo, e as danças deste, enquanto dinâmicas culturais. Contudo, não se pode argumentar que Pernambuco não contribua para a disseminação e legitimação da Axé Music pelo Brasil, ao contrário. O Recifolia, carnaval fora de época, encontra nos artistas baianos, seus trios elétricos, performances, refrões e repertórios, os moldes do carnaval soteropolitano.

Relevante exemplo de carisma na Axé Music, e, naturalmente ambientada em apresentações nacionais e internacionais, a Chiclete com Banana recebeu o Prêmio Press Award 2007, na categoria de Show Brasileiro, pelo seu destaque nos EUA, e, em julho de 2008 apresentou-se nas cidades de Roma, Milão, Porto e Lisboa, em eventos de grande porte e com ingressos esgotados antecipadamente.

Ainda que não se constituam referências em técnica e virtuosismo musical, a banda estruturou sua carreira no carisma de seu líder. A capacidade de performance, diálogo e construção de repertório, neste sentido, apresenta a Chiclete com Banana como das mais relevantes bandas da Axé Music, em se tratando de regularidade na produção fonográfica, embora, historicamente, não apresente altos índices de vendas de CDs e DVDs, como Ivete Sangalo, Netinho e Banda Eva. Seu público mais fiel pode ser conhecido como Nação Chicleteira, Chicleteiro, Maluquetes do Chiclete, etc.

Artista e defensora da Axé Music em suas inúmeras entrevistas, Ivete Sangalo pode ser considerada a protagonista de maior sucesso mercadológico do gênero. Mesclando elementos da música pop internacional, como efeitos de guitarra e teclados, à percussividade local, também se apresenta como relevante empresária articulada entre shows, publicidade, prêmios, discos de ouro, platina, platina duplo, platina triplo, e sua presença na mídia televisiva é certeza de audiência para uma artista que já supera a marca de oito milhões de unidades fonográficas comercializadas, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Disco [ABPD] (2008).

A articulação empresarial desta artista e de tantos outros deste universo musical, envolve inúmeros blocos carnavalescos não restritos a Salvador, camarotes, agenciamento de marca, estúdio, editora musical, selo fonográfico, promoção de shows e eventos, mercado de trios elétricos, além de agenciamento de artistas locais e nacionais, evidenciando organização, profissionalismo e empreendedorismo institucional.
Axé Music à luz do empreendedorismo institucional
Empreendedorismo institucional está relacionado aos modos pelos quais os indivíduos e/ou organizações desenvolvem novas normas e regras institucionais que reconfiguram socialmente comportamentos (Dacin et al., 2002; DiMaggio, 1988; North, 1990). Não raro, estes fenômenos acontecem através da criação de novas instituições e organismos que empreendem, em seguida, um novo "campo organizacional" (Aoki, 2001; DiMaggio, 1991).

Compreendendo campo organizacional enquanto "[...] organizações que, em conjunto, constituem uma reconhecida área da vida institucional"(DiMaggio & Powell, 1983, p. 148), estudos anteriores observaram que a emergência de novos campos organizacionais são processos complexos para os empreendedores institucionais, envolvendo considerável nível de articulação, busca de apoio e recursos, negociação e resolução de conflitos (DiMaggio, 1988; Greenwood et al., 2002). Entre os estudos empíricos que têm procurado analisar a formação institucional, principalmente nos Estados Unidos (DiMaggio, 1991; Holm, 1995; Walter, 2001), a relação cultura e desenvolvimento como um novo campo organizacional tem oferecido uma oportunidade atraente para examinar fatores que moldam e influenciam o processo de empreendedorismo institucional.

A diversidade cultural brasileira, os inúmeros casos emblemáticos envolvendo gestão cultural em regiões distintas, e a relevância econômica da cultura têm oportunizado estudos e publicações crescentes acerca do empreendedorismo institucional no país. Entretanto, é preciso mais estudos e revisão da teoria existente acerca da evolução dos novos campos organizacionais, na transição rápida de muitas economias emergentes para novos quadros de ordem institucional.

Passando ao campo organizacional relacionado ao gênero musical baiano contemporâneo, pode-se perceber que, a partir da atuação de seus artistas e empresários, a produção musical na Bahia ampliou suas atividades para muito além da venda de shows, posicionando-se destacadamente no contexto nacional tanto pelos elementos estéticos quanto mercadológicos. Dentre as novas atividades já citadas ao longo do texto, destaque para o quadro de editoras musicais abaixo e a análise classificatória dos artistas/empresários como empreendedores institucionais (DiMaggio, 1988).

A literatura acerca do empreendedorismo institucional, regra geral, enfatiza como o processo organizacional e instituições são desenvolvidas a partir de forças criativas empreendedoras que oportunizam mudanças, produzindo, ainda, estudos e leituras críticas das propriedades que diferenciam o empreendedor dos outros atores do campo, via abordagem da psicologia cognitiva, mas, também do empreendedor como ator reflexivo e crítico.

Por outro espectro, o campo da música massiva na Bahia, compreendendo, desde já, os gêneros musicais massivos e populares – Axé Music, o pagode e o forró -, é marcado por relações de poder, assimetria de informações, oportunismo, barreiras à entrada, recompensas, custos de transação, mas também de criatividade e convergência empresarial entre seus agentes, fortalecendo o campo, segundo aportes institucionalistas. DiMaggio e Powell (2001, p.106) afirmam que o campo organizacional só pode ser considerado se houver legitimação empírica e com definições institucionais. Para tal, os autores afirmam que são necessários quatro elementos:

a) um aumento na amplitude da interação entre as organizações no campo;

b) o surgimento de estruturas de dominação e padrões de coalizões interorganizacionais claramente definidos;

c) um aumento na carga de informação com a qual as organizações dentro de um campo devem lidar;

d) o desenvolvimento de uma conscientização mútua entre os participantes de um grupo de organizações de que estão envolvidos em um negócio comum.
Neste sentido, é o que pode ser percebido a partir de 1999, onde, visando o maior grau de profissionalismo, solução de problemas coletivos do setor e ampliação dos destinos e públicos da Axé Music, surge a APABahia – Associação dos Produtores de Axé para o Desenvolvimento da Música da Bahia -, comumente chamada de APA.

O surgimento e desenvolvimento da Axé Music e de organismos coletivos como a APA Bahia, tanto nos aspectos estéticos quanto organizacionais, remete, em boa parte, à profissionalização e dinamismo da produção artística e musical no Estado da Bahia. Dentre as atividades da APA, a representação política coletiva, o monitoramento da execução de seus repertórios em localidades estratégicas, assim como, a própria empresarização de horários nas rádios comerciais de outros estados, visando exposição e execução musical dos seus associados.

Uma transformação recente no campo musical baiano contemporâneo é a gestão da obra musical, via surgimento de algumas dezenas de organizações denominadas de Editoras Musicais, fazendo surgir no Estado novas organizações como as editoras musicais, e uma nova categoria profissional: o editor, o gestor da obra musical. Ainda que se configure como etapa não obrigatória para o autor, segundo a Lei 9.610/98, muitos o fazem, por diversas razões, e, dentre elas, destaque para a negociação financeira com o artista e editora interessada na obra.

Atualmente, editar música extrapola o comércio de música impressa em papel, alcançando o envolvimento com a administração de relações estratégicas e concorrenciais, das novas tecnologias, poder, inovação, conflitos de interesses, profissionalização e autonomização, entre outros.

No mercado musical, Editoras Musicais são empresas formalmente constituídas junto ao Ministério da Fazenda, e têm como objetivo principal a gestão das obras musicais de determinados compositores (pessoa física). Sabe-se que nem todo artista musical em atividade na Bahia possui relação com produtoras, editores e agenciadores de shows; entretanto, parcela considerável deste segmento profissional não somente estabelece esta relação como empreende suas próprias empresas ligadas ao meio artístico, fortalecendo o mercado e a economia local, além de implementarem uma nova categoria profissional no Estado: o editor musical.
Quadro 2 - Editoras Musicais/Salvador
Artista/Autor/Empresa Produtora Editora Musical (Bahia)


Carlinhos Brown

Janela do Mundo

Candyall Music

Daniela Mercury

Canto da Cidade

Páginas do Mar

Asa de Águia

Duma Produções

Duma Editora

Ivete Sangalo

Caco de Telha

Caco Discos e Edições

Cláudia Leitte

Pedaço do Céu

Pedaço do Céu

Mano Góes

Carreira Solo

Malu Edições

Jammil

Carreira Solo

TAO

Banda Eva

Grupo EVA

Pedra Velha Edições

Cheiro de Amor/Pimenta Nativa/Bafafá/Chica Fé

Cheiro de Amor

Oxalá Edições

W3 Edições



Harmonia do Samba

Harmonia Produções

Muralha Edições

Oz Bambaz

Ed Dez

Ed Cem Editora

Tchan!/Os Sungas/Vixe Mainha

Babado Novo/Nata do Tchan/Toque Novo



Bicho da Selva

Bichinho Edições

Fábrica da Música



Chiclete com Banana

Mazana

Babel

Granola


Estakazero

Leke Produções

Editora LEKE

Terra Samba

Terra Samba Produções

Terra Samba

Motumbá

Motumbá

Motumbá Edições

Semba Produções



Selakuatro

Buxixos Produções

Buxixos Editora

Pida!

Pida!

Pontual Editora

Tenisson Del Rey

Faro Fino

Faro Fino Edições

Netinho

Bem Bolado

Bem Bolado

Rapazolla

Thibiron

Thibiron

Ricardo Chaves

Rafa Produções

Rafa Edições

Ademar da Furta Cor

Periferia Estúdio e Produções

Furta Cor Edições Musicais

Gerônimo/Alfredo Moura e outros

Mundus et Fundus

Mundus et Fundus Edições

Margareth Menezes

Central Produções

Estrela do Mar Edições

Vários

Wave Music

Wave Music Edições

Vários

Pato Discos

Pato Discos e Edições

VoaDois

Penteventos

Penteventos

Maianga

Maianga

Maianga

Vários

MusiRoots

MusiRoots

Vários

Vevel

Vevel

Vários

Plataforma de Lançamento

Plataforma de Lançamento

Vários

WR Produtora e Estúdio

WR Edições

Vários

Stalo Produções

Stalo Edições

Psirico

Penteventos

Xanguá

Tomate

Penteventos

FK

Estação CD

Estação CD

Estação CD

Rede Bahia

Rede Bahia

Bahia Discos

Rafael Pondé

GV Produções

Good Vibration

Parangolé

Salvador Produções

Sofá da Sogra

Vários

SalvadorSat Comunicações

SalvadorSat

Via Circular

Jerm Produções

Jerm

Olodum

Bloco Afro Olodum

Olodum

Olodum

Grupo Cultural Olodum

Olodum

Vários – Gospel

Verticall Produções

Verticall

Márcio Mello

Bizarro Produções

Bizarro

Vânia Abreu

Casada Canção

Casada Canção

Chica Fé

Chica Fé Produções

Chica Fé

Araketu

Araketu Produções

Disco Music

Levi Lima / Via Circular

Jerm Produções

Elo

Fonte: Pesquisa de Campo do autor.
Pode-se perceber, no quadro acima, a preponderância dos artistas relacionados ao universo Axé Music, enquanto campo musical e simbólico, apresentando boa parte dos artistas baianos deste gênero musical como também proprietários de editoras musicais, e, sendo assim, gestores de suas próprias obras musicais e repertórios.

Neste sentido, o resultado coletivo aponta a Bahia como o terceiro estado em número de Editoras Musicais no país, média de quinto em arrecadação pública, inscrevendo alguns de seus autores na liderança de rankings nacionais e regionais no quesito recebimento de Direitos Autorais – categoria Execução Pública2.

Sob outra ótica, a do artista, na trama contemporânea engendrada pelos avanços da telemática e da reestruturação pós-capitalista/fordista, dos avanços das transnacionais nos novos mercados, e do competitivo mercado de eventos musicais e entretenimento, a administração da carreira musical deve ser estratégica, onde o artista/autor/editor representa a tomada de poder e independência pelo próprio artista.

A gestão da obra musical pelos artistas/editores/empresários representa poder, rentabilidade e capital político. Poder no sentido dos rumos da obra musical, decidindo acerca de autorizações e registros fonográficos que protejam o repertório artístico-musical de outros interessados, evitando concorrências e possíveis assédios aos autores. Rentabilidade a partir de dois pontos: a considerável participação de artistas da Axé Music no cenário musical nacional e internacional, configurando a obra musical como ferramenta estratégica de mercado, uma vez que publicizam os próprios artistas e seus repertórios, corroborando com a inserção e manutenção destes entre os promotores e contratantes de shows; por último, rentabilidade pelo percentual de administração destas obras envolvendo a arrecadação por execução pública, via Escritório Central de Arrecadação de Direitos - ECAD3.

Quanto ao capital político, a gestão da obra musical agrega conhecimento e a possibilidade de independência frente aos grandes organismos da indústria fonográfica internacional. Na Bahia, a partir da década de 1980, quando os primeiros artistas e intérpretes da Axé Music começaram a surgir e integrar os catálogos das chamadas majors daquela época (Continental, BMG Ariola, Polygram, entre outras), ocorreu uma considerável apropriação de conhecimento por parte dos artistas e empresários locais quanto aos trâmites da produção e show business musical. À época, não raro, a partir dos primeiros contratos de edição chegados na Bahia, os discos lançados tinham suas obras editadas nas editoras vinculadas às gravadoras. Poucos anos depois, artistas como Daniela Mercury, Durval Lélys (Asa de Águia) e Chiclete com Banana iniciavam a própria administração de carreira, incluindo as obras de seus repertórios com a criação de suas editoras.

O comportamento empreendedor destes artistas baianos contemporâneos reduziu, consideravelmente, as incertezas e instabilidades próprias deste mercado. No campo da edição musical, uma obra administrada por um artista que também é seu intérprete, é a certeza de exclusividade sobre a mesma. Para Toyoshima (1999), a prioridade das Instituições é a redução de incertezas existentes no ambiente, a partir de estruturas estáveis e reguladoras. É o que também afirma North (1990) acerca das Instituições versus redução de incertezas características da ação e interação humana. Para ele, as incertezas existem por conta da complexidade, e as regras do jogo – direito comercial e de propriedade, trâmites burocráticos, idéias, valores e crenças – podem afetar a criação, atuação e o desenvolvimento de novos organismos empresariais.

A gestão da obra musical na Bahia não é fixa, imutável e exclusiva de organizações locais. A Universal Music Publishing, editora vinculada à gravadora Universal MGB, por exemplo, administra vinte editoras locais4, estabelece contratos de exclusividade com autores mediante oferta de adiantamento de valores de direitos autorais, entre outros. O contrato de exclusividade, por exemplo, dada a pujança econômica da Universal Music, pode representar inúmeros riscos às editoras locais, dificultando novos contratos, representando, ainda, barreiras à entrada.

O ambiente da música baiana massiva contemporânea pode ser caracterizado por intensa competitividade entre autores, editores e associações arrecadadoras, ressaltando elementos próprios da lógica do mercado. Ainda que inscritos no campo simbólico, artistas e empreendedores institucionais estão subjugados ao mercado e suas regras. Uma delas é a capacidade de gestão e implementação de mudanças nos arranjos institucionais estabelecidos.



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