Bestiário: um processo de registro de escrita para o pensamento mitohermêneutico



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Bestiário: uma proposta de Ensino de Arte e o pensamento mitohermenêutico.

Andrea Cavinato

(FEUSP)
Ignoramos el sentido del dragón, como ignoramos el sentido del universo,

pero algo hay em su imagem que concuerda com la imaginacion de los hombres (...)”

Jorge Luis Borges
Temos aqui dois momentos de discussão: uma proposta de Ensino de Arte que discute o Imaginário e aprofunda sua intrincada rede de relações no âmbito da Antropologia da Educação e da Filosofia da Imagem. E outro: de como seria possível contextualizar uma proposta de Ensino de Arte que valoriza o Imaginário na História do Ensino de Arte e na Contemporaneidade, na condição pós-moderna.

O texto mescla a prática como professora de crianças com a prática de artista pesquisadora. Os relatos de experiência desse texto tratam de uma proposta nomeada de “Bestiário” e as minhas reflexões sobre essa necessidade do ser humano de criar monstros e seres imaginários, sobretudo os seres que misturam as características animais com as humanas e as narrativas em que esses serem se casam com um humano.

Os símbolos e suas relações morfológicas, sua complexa rede servirão de guia para o desvelamento da alma humana. Aquilo que se esconde nas dobras do inconsciente, longe da luz, o que se oculta na sombra.

A proposta de Ensino de Arte a que me refiro parte da premissa de que Arte é uma possibilidade de conhecer-se a si mesmo e esse conhecimento possibilita transformação. Compreende Arte como experiência formativa que nos dá a possibilidade de nomear o que não se deixa ver e promover o desenvolvimento da Sensibilidade, conceituada como campo da percepção humana e explicitada por autores como João Francisco Duarte Jr, Marcos Ferreira- Santos, considerando que possa ser refinada e assim facilitadora do conhecimento de si e do Outro ou embotada gerando tantas outras questões.

Para a condução dessas propostas, desses processos simbólicos de criação é necessário que se tenha experimentado, vivenciado a prática artística e que se re-conheça o caminho. Esse caminho para o inconsciente pode ser propiciado pelo rito, pelo mito e está franqueado a todos através de uma educação do Imaginário e da Sensibilidade.

Tornar-se uma pessoa adulta que reconheça a criança muito próxima, dentro de si e tal qual Sócrates dar especial atenção ao seu daemon pessoal.1 Sócrates, segundo nos relata Platão disse em seu julgamento que ouvia seus “deuses” internos e que estes não tinham juízo de valor moral. Foi acusado de criar “deuses domésticos”. Referimos aqui essa noção de “deus” dentro de nós, sem julgamento de bem ou mal.

O pensamento mitohermenêutico ou estilo como o caracteriza Marcos Ferreira Santos (FERREIRA-SANTOS, 2004) - que nos tem servido de instigante guia -, pode ser definido segundo as palavras do autor:
(...) o trabalho filosófico de interpretação simbólica, de cunho antropológico, que pretende compreender as obras da cultura e das artes a partir dos vestígios (vestigium) – traços míticos e arquetipais – captados através do arranjo narrativo de suas imagens e símbolos na busca dinâmica de sentidos para a existência, se instala e é herdeiro desta filosofia latinomediterrânea, produtora e produto da cultura latina. (FERREIRA-SANTOS, 2005, p. 65).
A hermenêutica serve-nos então como um instrumento, uma forma de compreensão do mundo e das obras da arte e da cultura.

A prática de Ensino de Arte da qual falamos, valoriza o tempo da infância, um tempo da magia, pré-industrial no qual as relações humanas não são regidas pela mercantilização e está distante daquilo que é praticado na maior parte das salas de aula, pois não corresponde ao macrocosmo social ao qual se insere.


Relato de uma experiência
O processo ao qual chamei de “Bestiário” é o processo de criação de seres imaginários com diferentes materiais em diferentes etapas e o considero como um dos desdobramentos do meu aprendizado em arte junto ao grupo de teatro Ventoforte, importante referência desde os anos setenta que, em sua proposta de Ensino da Arte, buscava garantir espaço para experimentação e expressão dos desejos, dar continuidade até a elaboração, até chegar à forma.

No curso “Teatro da Imaginação” coordenado pelo diretor do grupo, Ilo Krugli, eram sugeridas improvisações a partir de temas simbólicos. Na criação do processo do herói tivemos possibilidade de vivenciar a criação a partir da sugestão do Animal. O personagem herói que criávamos deveria ter um animal e experimentávamos nos tornar esse animal. Na sequência, trabalhamos corporalmente a imagem, que foi desenhada e pintada. Depois, a aula me trouxe um estranho sonho, em que eu mergulhava para nadar e me transformava em um tubarão e via tudo em volta pelos olhos do tubarão.

Na condução das aulas de Teatro com as crianças pequenas sempre brincávamos de bicho, a floresta e seus conflitos: o perigo do caçador, o fogo, a falta de água eram temas de improvisação preferida das crianças até 8 anos.

Na prática como professora de Arte com crianças procuro na medida do que é possível, ouvir as crianças, suas sugestões e desejos e observar o que criam quando podem escolher os materiais. As aulas propõem experiências e experimentos com materiais considerando os processos pessoais e de artistas - com os quais entram em contato através da apreciação de obras e da narrativa de seu percurso criador - e que experimentam muito antes de chegar a definir uma obra.

O “Bestiário” é um processo de criação a partir de um tema. Sugiro que criem animais imaginários misturando os que conhecem... Fazem esculturas de argila, massinha, biscuit, desenho, em um desenrolar processual, em etapas: primeiro a argila, depois o desenho e a partir daí dos materiais que escolherem. Alguns criam primeiro no pensamento: “eu vou fazer uma serpente com olhos de tigre”, “patas de tiranossauro rex, rabo de escorpião, cérebro de baleia...” Mas na prática as coisas são muito outras.

O material oferece resistência ao ser manipulado: “como é mesmo que torço essa argila para o rabo de um escorpião?” “Eu nunca vi um...” Muitas crianças, na verdade, nem galinha viva viram, mas não importa. O que como professora desejo nesse momento, o que quero é: que a criança esteja atenta ao que o material sugere. Qual bicho pode aparecer daí?

Em uma perspectiva fenomenológica poderíamos dizer que a matéria em contato com as mãozinhas curiosas gera um entrelaçamento, o “chiasma”: a união entre o visível e o invisível. (MERLEAU-PONTY, 1992)

Dar forma, formar implica em transformar.


Seguindo a matéria e sondando-a quanto a “essência do ser”, o homem impregnou-a com a presença de sua vida, com a carga de suas emoções e seus conhecimentos. Dando forma à argila, ele deu forma à fluidez fugidia de seu próprio existir, captou-o e configurou-o. Estruturando a matéria, também dentro de si ele se estruturou. Criando, ele se recriou. (OSTROWER, 1987, p. 51)
Arte ensina sobre o mundo e sobre nós mesmos, é o que acredito e quero aprender a dizer com essa reflexão escrita, o objetivo maior é conhecer-se, saber de si, explorar através da linguagem expressiva a luz e a sombra, a sujeira, a plasticidade que foge ao controle, a tinta que se espalha... A argila que se deforma ao toque. Sem se preocupar se está “certo” ou “errado”. Existem caminhos possíveis que posso sugerir como professora e adulta, portanto com mais experiências naquele material, mas não o certo e o errado.

Mas porque sugerir que as crianças criem seus animais imaginários? Desde quando o ser humano cria esses seres que estão por toda parte? Na imponência dos escudos dos cavaleiros do Rei Arthur, no dragão de Uther Pendragom, nas flâmulas dos clubes que meus tios colecionavam, nos cavalos alados no estandarte da retreta de São Luiz de Paraitinga no Estado de São Paulo e no “logo” do Starbucks Coffee (rede americana de cafés).

Grifos, gárgulas, o Minotauro, sereias, centauros, as harpias, esfinge, vampiros, lobisomens, Pégasus: o cavalo alado, a Medusa, todos eles representam sentimentos, desejos, graficamente falam de origens, de ancestralidade, de onde viemos e para onde vamos. Premissa do ser humano.

E temos as “figuras” das criaturas heráldicas (em brasões) o Dragão, a Sereia, o Unicórnio, o Basilisco, a Fênix, a Salamandra e a Melusina, que estão presentes em escudos, bandeiras e em relevo nas paredes.

Algumas dessas figuras são acompanhadas de narrativas sobre sua origem e trajetória mítica.

E ainda o Garuda, os Elfos, Golem, Gnomos, Hipogrifo, Quimera, Lâmias, Trolls, Sátiros, Lêmures, Mancúspias, o Pássaro Roca e o Gato de Cheshire.

Minha proposta às vezes intrigava pais mais sensíveis. As crianças tomadas por grande entusiasmo com suas criações continuavam a vê-las em sonhos e neles apareciam os monstros.

As crianças têm grande fascinação pelos monstros, na literatura temos, por exemplo, O Livro dos Monstros. A indústria cinematográfica se encarrega se produzir uma série de monstros, Os Monstros S.A, e o mais adorável deles: Edward Mãos de Tesoura no filme de Tim Burton e ainda o Transformers, criação contemporânea que mescla seres e máquinas.

Não só o ser humano primitivo e o medieval criavam seres. O Imaginário humano é repleto dessas criações em diferentes culturas. Na Idade Média, nasceram os livros ricamente ilustrados com iluminuras pelos monges em seus mosteiros e que foram nomeados Bestiários inspirados nos gregos e latinos. Na literatura do século XX temos o Bestiário de Cortázar e O livro dos seres imaginários de Borges.

No Bestiário de Cortázar, um livro de contos, o autor é mestre em desvelar o animal que nos espreita, nossa Sombra desconhecida, a proximidade dos instintos que nos transforma em monstros como no conto As portas do céu. E cria animais imaginários como as “mancúspias” no angustiante conto Cefaléia.

Uma proposta em Arte que claramente procura refletir sobre os processos simbólicos de elaboração interna das crianças e entende Arte como possibilidade de expressão numa perspectiva antropológica e que abre possibilidade para que a criança elabore o desenho, aprecie seres criados por artistas em fotos, nos desenhos de outras crianças, em esculturas da Notre Dame de Paris, nas heráldicas de brasões, nas Iluminuras da Idade Média amplia então possibilidades de olhar, de conhecimento de si e do outro, dos códigos da linguagem visual. Enquanto professora, artista e educadora estou sempre muito atenta em oferecer essa intrincada possibilidade no Ensino de Arte para as crianças e, a partir de elementos de seu interesse, elaborar propostas que desenvolvam vários aspectos e proponham uma experiência significativa associada ao Imaginário, à imaginação.

Segundo Durand a alvorada de toda criação, do espírito humano, teórica e prática é governada pela função fantástica.


Não só essa função fantástica nos parece como universal na sua extensão da espécie humana, mas ainda na sua compreensão: ela está na raiz de todos os processos de consciência, revela-se como marca originária do Espírito. (DURAND, 1997, p. 397)
O símbolo está presente na criação, dar vazão à criação sem respeitar padrões externos a não ser os impostos pela materialidade do material, tornar visível o invisível, educar a sensibilidade, o sentimento. Criar monstros é dar-lhes forma para melhor lidar com eles, uma luta perpétua que o ser humano trava contra a morte, é dar-lhes um rosto, uma face para lidar com a finitude, com o escoamento do Tempo, simbolizados de forma que o ser humano possa tentar combatê-los.

Assim, a criação pelo ser humano de seres imaginários empresta a eles características que são humanas mescladas às animais. Para Jung, anima e animus, o espírito que insufla o humano tem características animais e uma androginicidade.



Dois substantivos para uma única alma são necessários a fim de expressar a realidade do psiquismo humano. O homem mais viril, com demasiada simplicidade caracterizado por um forte “animus”, tem também uma “anima” – uma “anima” que pode apresentar manifestações paradoxais. De igual modo, a mulher mais feminina apresenta também ela, manifestações psíquicas que provam haver nela um “animus” (BACHELARD, 2001, p. 58)
Na Bússola de Ouro, os daemon criados pelo autor são a exteriorização materializada das características que não podem ser civilizadas, “domadas”, mas são conhecidas, “conhece-te a ti mesmo”; até mesmo as fissuras, a sombra, aquilo que não pode ser aceito socialmente.

Nossos ancestrais sabiam disso e traziam à tona seu lado animal para melhor lidarem com a agressividade ou para emprestar deles a força, a astúcia e a coragem. Os índios norte-americanos têm muitas narrativas sobre o animal que habita em nós. E no xamanismo se pode dizer, grosso modo, que alguns rituais são feitos para que se procure saber qual é o animal que domina o seu lado instintivo. Edgar Morin (2008) em suas pesquisas enfatiza, a partir de Mac Lean, a complexidade do cérebro humano, um cérebro triúnico, herdeiro da afetividade do mamífero e da herança reptiliana, o cio, a agressão e a fuga; “enfim, temos o córtex e o neocórtex que desenvolveu incrivelmente o cérebro do “homo sapiens” e é a sede das operações da racionalidade” (MORIN, 2008, p. 36).


As criações dos animais imaginários, nas aulas de Arte são uma maneira das crianças explorarem através da criação da imagem essas possibilidades. E através da apreciação de obras, da escuta de narrativas e mitos compartilhar experiências humanas representadas simbolicamente, entrar em contato com o maravilhoso, com os mistérios e com o encantamento.
Um exercício de análise: a Fada Melusina.
As águas doces e salgadas são pródigas em fadas, ninfas, naiádes, nixies, janas, ondinas, iaras, mães da água que com canto melodioso encantam os cavaleiros ou roubam crianças ou ainda atraem para o afogamento. A Dama do Lago Viviane, a Senhora de Avalon, seria uma nixie que roubou Lancelot, ainda bebê. Nimue, Viviana, Vivien, Niniana, Ninie, Nineve, Niamh seriam derivados do rio Ninian na Bretanha. Para a palavra ninfa em grego nýmphés e nymphae em latim.

A narrativa da Fada Melusina tem origem à época dos feudos, da disputa por terras, das cruzadas na disputa por terras e por religião. A luta entre mouros e cristãos.

A história da Fada Melusina narra a trajetória dos descendentes do rei Elinas e sua maldição. O rei Elinas se casa com uma fada, Presina, a irmã da Senhora de Avalon, com a condição de que ele não a visite nos dias após o parto e não a veja banhando as filhas. Quando ela dá à luz três filhas: Melusina, Melior e Palestina; o marido se esquece do interdito e da promessa e entra no quarto, por isso ela tem que ir viver com a irmã em Avalon, A Ilha Perdida. Aos quinze anos, para vingar a mãe, as irmãs fadas aprisionam o infeliz rei Elinas e como castigo Presina amaldiçoa as filhas: Melior, a irmã de Melusina aparece no ciclo arturiano como a dama do castelo do Gavião, Palestina a outra irmã também é amaldiçoada a ser encarcerada na rocha, mas voltemos a Melusina.

Melusina é uma fada das águas doces que carrega consigo a maldição de sempre aos sábados se transformar em serpente-dragão, essa será sua maldição lançada por sua mãe, Presina. Melusina atrai para a si os cavaleiros que estão a caminho das Cruzadas. E então, atrai o cavaleiro Raimondin, justamente através de uma caçada a um misterioso javali. Uma caçada que é quando os homens se dispõem a demonstrar através da força sua superioridade aos animais. Ela lhe promete fortuna, casa-se com ele com a condição de que ele nunca poderá vê-la aos sábados.

Melusina tem oito filhos, todos eles com marcas de animais ou formas bizarras como orelhas muito grandes, olhos de cores diferentes e num deles assume as mais violentas características animalescas: Godofredo, o Dentuço que nasceu com uma polegada de dente para fora parecendo a presa de um javali e era dotado de grande força física.

Certo dia, Raimondin insuflado pelo ciúme e pela desconfiança, desrespeita o combinado e espia Melusina no banho. Ele, então, vê a fada imersa na água, com sua grande cauda de peixe-dragão-serpente. Segundo sua maldição, ela deveria tomar a forma de grande dragão serpente e ir embora para sempre, mas Raimondin promete não contar nada.

Em determinada parte da narrativa, já adulto Godofredo recebe uma carta contando de como seu irmão Fromont (que tem no nariz uma parte peluda como a de uma toupeira) havia se tornado monge. Indignado com a decisão e vocação religiosa do irmão ele vai até o mosteiro e “perdendo a razão” queima o mosteiro com os monges dentro, o irmão inclusive. O pai Raimundin quando ouve a notícia não pode acreditar. Quando vê a dimensão da tragédia fica desolado. E quando Melusina em meio ao séquito da corte lhe diz que aquela foi a vontade de Deus, que Godofredo foi instrumento delE e que se emendaria, Raimondin responde: Ah serpente imunda! Todos aqueles que ficam ensandecidos pela cólera estão sob o domínio do príncipe do inferno. Nunca nenhum dos filhos que geraste acabará bem.

Então por ter sido assim denunciada como serpente imunda na frente de todos Melusina tem que partir em forma da serpente-dragão e tornar a aparecer somente três dias antes de um de seus descendentes morrer, sendo esta a sua sina pela maldição de Presina. Lança-se da mais alta torre do castelo que criou na rocha, no dia de seu casamento, e que até hoje está lá na França; dando gritos de angústia lancinante ela sai voando com suas grandes asas. Voltará a aparecer somente três dias antes da morte de um dos seus descendentes até os dias de hoje.

Metade mulher, metade serpente, Melusina e sua narrativa nos trazem o imaginário feudal. A narrativa contém fortes elementos do imaginário celta que divinizava as nascentes de água doce como deusas. O cristianismo fez delas demônios.

Da água e seus simbolismos temos a angústia da morte e os ciclos regidos pela Lua, “o sofrimento da água é infinito” (BACHELARD, 1989, p. 7) e como água, lua e Melusina são simbolicamente uma e a mesma coisa, a fada padece dos males cíclicos femininos.

Melusina traz o simbolismo da serpente e suas características lunares, o feminino, a fecundidade, a prosperidade e a riqueza. Também detentora dos mistérios da Morte, está condenada a aparecer três dias antes da morte de um descendente de sua linhagem; como seu aparecimento se dá só para seus descendentes pode-se ver nela o simbolismo da serpente mais uma vez, do retorno à origem.

Podemos encontrar na narrativa de Melusina os elementos da morfologia do símbolo da Lua. Segundo Eliade (1998, p. 136) “O simbolismo da serpente é de uma polivalência perturbadora, mas todos os símbolos convergem para uma mesma idéia central: é imortal porque se regenera, portanto é uma força da Lua e como tal, distribui fecundidade, ciência (profecia) e mesmo imortalidade”.

Temos na narrativa a idéia do surgimento de um “homem novo”, Melusina recomenda a Raimondin que tome medidas da terra que lhe será doada. A raiz arcaica indo-ariana ainda segundo Eliade da palavra que significa lua é me, em italiano mesura, medir. Tempo e destino, a lua “mede”, “tece” os destinos.

Um sistema articulado, uma explicação de mundo para o ser humano medieval que, assim como para o contemporâneo, traduz em metáforas suas angústias, seu medo da Morte e do Tempo. O ser humano cria monstros para melhor lidar com eles. Na visão durandiana são símbolos que articulados em forma narrativa relatam os anseios e desejos humanos.

Citando Ferreira-Santos em uma síntese do pensamento de Durand.
(...) Dessa forma quando irrompe a consciência da nossa finitude, a angústia do tempo que nos escapa e da morte que, de forma incógnita sempre virá, essa mesma angústia é simbolizada através de imagens arquetipais cujo monstro e todo bestiário humano e seus correlatos são excelentes exemplos: símbolos animalescos (teriomorfos), da queda (catamorficos) e da escuridão (nictomórficos). Esses símbolos têm a função cognitiva de tentar dar uma identidade à angústia dessa finitude. Ela passa a ter uma face. (FERREIRA-SANTOS, 2005, p. 33)
Representação heráldica, a figura de Melusina está em brasões, escudos protegendo seus descendentes. O Duque de Berry, que se julga seu descendente mandou que se registrasse a história da genealogia de sua família, os originais estão na França. E a questão da linhagem também faz parte do simbolismo da serpente, esse animal lunar como decorrência da fertilidade, fecundidade.

Como narrativa da Idade Média, a Melusina recupera simbolismos celtas, pagãos e os incorpora ao mundo cristão e suas questões em que a principal delas é a posse da terra. Tanto a terra prometida como no caso das Cruzadas quanto a dominada pelos senhores feudais o que fazia com que reinasse a fome e a miséria como nos relatam as pesquisas de Umberto Eco sobre esse período.

Melusina resolve para o jovem Raimondin e sua linhagem o problema da terra e faz surgir, da rocha, castelos, ou seja, fertiliza a região. E assim como a serpente tece o véu cósmico: o destino dos homens porque a Lua “liga” conjuntamente, pelo seu modo de ser, uma multidão imensa de realidades e de destinos (ELIADE, 1998, p. 148)

Raimondin quando encontra Melusina na fonte pela primeira vez, vinha fugido da caçada ao misterioso javali na qual “sem querer” matou o tio. Atraído pela fada que parecia saber de tudo chega até a fonte e ela lhe dá as indicações do que fazer e como agir, faz assim dele um “homem novo” e temos aqui novamente o aspecto da regeneração da serpente que como se transforma e conhece o mistério da morte, pois que a Lua desaparece do Céu para reaparecer sempre nova, se regenerando continuamente (lua nova, crescente, cheia e minguante) a serpente conhece todos os segredos, é fonte de sabedoria e entrevê o futuro.



O ser humano através do inconsciente cria lógica para o que lhe acontece. Os poetas, os artistas, as crianças e os loucos também têm acesso a esse universo.

E o que dizer do interdito de Melusina em que não pode ser vista porque se transforma em um monstro, uma sábia alusão simbólica ao universo feminino.

As imagens da Fada Melusina proliferam na internet e em livros ricamente ilustrados. A imagem acima, se diz, seria característica da heráldica dos brasões, do Sacro Império Romano Germânico. Essa informação não é de todo confiável, mas nos chama atenção pela dupla cauda de serpente que sugere a idéia dominante do animal lunar, de ritmo realizado pela sucessão de contrários, do devir ser – não ser, formas – estados latentes, vida – morte.

Como teria se tornado a figura dos brasões do Sacro Império Romano essa fada de triste sina? Coroada, com coroa de marquesa, estaria responsável por guardar e proteger as fronteiras ou ainda seus descendentes? Não sabemos, mas na França muitos que se julgam seus descendentes continuam a vê-la e a usar sua imagem em selos e “logos”. Sua narrativa na contemporaneidade continua a encantar e povoar a imaginação. O Imaginário, mesmo com a “explosão do vídeo” diagnosticada por G. Durand, mesmo que as imagens possam ser facilmente reproduzidas, o simulacro convive com o símbolo.

A educação do Imaginário e da Sensibilidade não é privilegiada no universo escolar ainda que algumas práticas tenham nos chamado atenção nos últimos tempos como a da Reggio Emilia, apelidada pelo nome da região italiana onde é praticada e da qual poderíamos dizer sem a intenção de -por ora- nos aprofundarmos, que as crianças são protagonistas do processo de aquisição do conhecimento e que as linguagens artísticas são respeitadas e estimuladas em ateliêrs que estão à disposição para experimentação, mas infelizmente o tempo da infância está diminuindo e a prática costuma ser vinculada às crianças de até seis anos. No ensino fundamental no ciclo I, as aulas de Artes, quando existem, estão a serviço da confecção de presentes, datas comemorativas e ainda quando “bem intencionadas” procuram apresentar obras de arte para crianças, na maioria das vezes, clássicos nacionais e principalmente da Arte européia, em que os antigos mimeógrafos são substituídos pela releitura da obra. A cópia ainda é a região de conforto em relação aos mistérios da criação, à desestabilizadora possibilidade de acesso às profundezas perturbadoras do inconsciente. É necessário normatizar para controlar e na escola as regras a serem seguidas são muitas e as aulas de Artes não estão excluídas.

Finalizo essa reflexão escrita convidando os gentis leitores, assim como faz Borges, em seu “Livro dos Seres Imaginários”, que nos remetam o nome, a fiel descrição e os hábitos mais notáveis dos seus monstros locais, uma vez que já foram iniciados no caminho de como podem ser encontrados.
Bibliografia
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1 Temos conhecimento que os autores James Hillman e Henry Corbin desenvolvem conceitos de alma diferentes do que é desenvolvido aqui.





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