Biblioteca das Moças 132 Amor pelo Telefone Florence L. Barclay Amor pelo Telefone The Wall Partition



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(Biblioteca das Moças 132) Amor pelo Telefone – Florence L. Barclay

Amor pelo Telefone

The Wall Partition

Florence L. Barclay

Biblioteca das Moças - volume 132

Do original inglês: The Wall Partition - 1948

Tradução de Paulo de Freitas

Companhia Editora Nacional

Impresso nos Estados Unidos do Brasil






Disponibilização: Marisa Helena

Digitalização: Marina

Revisão: Aline M.

I

DEZ ANOS DEPOIS
Na tarde de 12 de dezembro, espesso nevoeiro cobria Londres. Ninguém se surpreendia, porém, ante tal fenômeno atmosférico, pois se estava apenas a uma quinzena do Natal.

Não obstante, nesse mesmo dia a travessia da Mancha se efetuava sob um céu azul e radioso sol, embora o mar estivesse agitado. Quais cavalos marinhos, as ondas se erguiam sacudindo brancas crinas, a correr ao encontro do vapor e quebravam-se nos seus flancos, atirando espuma para o ar, espalhando-se na ponte e molhando os raros passageiros que até ali se haviam aventurado. Depois, atirando-se para a popa do barco, levantavam-no bem alto e, desfazendo-se ruidosamente, deixavam-no rumar a custo para Folkestone.

"O trem da barca" atravessou a toda a pressa o condado de Kent. Entre os viajantes ainda capazes de algum esforço, porque a travessia foi na verdade horrível, procuravam alguns limpar o embaçado das vidraças, para contemplar a campina que se desenrolava a seus olhos. A geada cobrira os jardins, pequenas igrejas surgiam por entre pomares e chácaras e aqui e ali, o brilho purpurino das flores de azevinho se destacava sobre um fundo verde, dando uma nota alegre à paisagem hibernal.

Londres parecia ter reunido todo o seu vigor para fazer honra ao Natal e dar maior êxito a milhares de comerciantes. Estes pareciam inquietar-se um pouco com o nevoeiro que, ademais, se mantinha a uma certa altura, parecendo uma vasta cúpula dum amarelo opaco que atravessava de súbito o sol, semelhante a um globo de fogo prestes a se apagar. Quanto à multidão apressada, ela passeia comodamente ao sol, satisfeita, enquanto não cai o véu amarelo suspenso sobre sua cabeça, para mergulhar tudo na escuridão e abafar mesmo os ruídos transformados em surdos rumores.

Chegara a hora em que o "trem da barca" devia entrar na estação de Charing Cross e os longos carros destinados a receber as bagagens estavam desimpedidos, a fim de receber os numerosos fardos que aí deviam ser empilhados. Os empregados da alfândega, cada qual em seu posto, no último carro, entretinham-se nas suas horas de lazer a passear de um lado para outro ou a traçar, a giz, nas tábuas dos carros, sinais cabalísticos.

O expresso afinal apareceu. Um exército de funcionários prontos e alertas surgiu no cais de chegada e os amigos vindos para receber os viajantes acomodaram-se apressadamente por trás deles. Imediatamente, deitando para o ar novelos de fumo, com grande estrondo, a pesada locomotiva se desenhou na bruma e, moderando a marcha, veio colocar-se junto à plataforma.

Um homem de alta estatura salta bruscamente dum dos primeiros vagões, volta sobre seus pés e, destacando-se da multidão, dirige-se para o centro do embarcadouro e desembarcadouro da estação.

Tem as mãos enterradas nos bolsos do comprido casaco de inverno e parece não trazer bagagens. Somente um xale, atirado negligentemente ao ombro, trai-lhe a qualidade de viajante, denunciada pela cor bronzeada que traz a pátina duma temporada recente sob céus do Oriente. Sua atitude indolente é a dum simples mortal, ao desembarcar dum trem de subúrbio. No entanto, faz agora dez anos que não vê um nevoeiro de Londres, nem ouve o zumbido formidável da sua vida comercial. Durante esse tempo, atravessou os continentes, visitou os mais diversos países e agora, caminhando a passos iguais na estação de Charing Cross, respira, com íntimo prazer, por se encontrar de novo numa estação de Londres. Esforça-se, no entanto, para que se não perceba a emoção de que está tomado ao reencontrar os espetáculos e sons que lhe são familiares.

Não contava nem com parentes, nem com amigos. A felicidade do seu regresso é-lhe apenas uma suave recordação. Mas, eis que, na plataforma até há pouco deserta, uma moça, pequena, gorda, meio oculta nas peles que emolduram um rosto encantador, caminha em sua direção a passos apressados. O ramalhete de violetas que ela traz no casaco, move-se levantando e caindo, à medida que apressa os passos. Aproximando-se dele, abre os braços e sempre correndo, grita:

— Ó meu querido! Sejas bem-vindo!

O viajante esperou então ser tomado nos seus braços e apertado contra o ramalhete de violetas. Pensava em como havia de corresponder a este acolhimento inesperado, quando, subitamente, reparou que aqueles lindos e brilhantes olhos olhavam para além de sua pessoa, e atirando um olhar por sobre seu ombro descobriu ali mesmo, ao pé de si, um menino extremamente pálido, que, pelos modos, acabava de chegar de um colégio do continente e se ressentia ainda da travessia horrível que tivera de agüentar.

O viajante colocou-se de lado.

A senhora passou-lhe à frente, com retintins de jóias e um hálito de perfume.

Instantes após, o pobre menino, cansado e muito abalado da viagem por mar, estava nos braços de sua mãe. Ela abraçava-o, perguntava de tudo, abraçava-o de novo. Ele deixava que ela assim fizesse, pois os colegas não estavam ali para verem. E era, na verdade, reconfortante, após longa viagem solitária, sentir o abraço materno e no rosto a carícia da pele cheirando a violeta, agasalho que lhe era tão familiar. Esquecia os horrores da travessia e os fastidiosos episódios da longa viagem de inverno de Lausanne a Londres. Ainda que estivesse apenas na estação de Charing Cross ele já se julgava em casa.

O viajante sorriu e prosseguiu um tanto triste o seu caminho.

Que tolice também o ter pensado, mesmo por alguns instantes, que as palavras de boas-vindas, que surpreendera de passagem, lhe tivessem sido dirigidas. Não sabia ele então não existir sobre a terra pessoa alguma, para a qual a sua volta à Inglaterra, após dez anos de ausência, tivesse a menor importância? Com um suspiro involuntário, dirigiu-se ao quiosque de jornais, ampliado e mais bonito, que estava à sua frente.

Seus olhos pesquisadores descobriram imediatamente uma pilha de suas próprias obras, em edições diversas e atraentes. Um livro para cada ano de viagem tal foi o seu balanço. Um cartaz em grandes caracteres assinalava uma pilha, chamando para ela a atenção dos compradores:
Últimas obras de Rodney Stelle

O vôo da Boomerang
Ele tomou um exemplar do ''Vôo da Boomerang", primeiro que via, porque havia mandado as provas por via mais direta que aquela que tomara para vir. Folheou-o rapidamente.

O vendedor do quiosque imediatamente se aproximou.

— Livro muito interessante, senhor. O último de Rodney Steele. Acaba de aparecer.

Steele alegremente atirou um olhar ao seu interlocutor. Tais palavras eram as primeiras que lhe soavam aos ouvidos desde que tocara o solo inglês. Seriam elas de bom agouro?

— Vende-se bem o livro? — perguntou.

— Todos os livros de Steele são muito vendáveis, senhor. Têm eles os ingredientes que agradam aos viajantes: muita aventura, muita cor local, muito amor... Nada de problemas sociais, nada que fadigue o espírito e, depois, um feliz desenlace... Eis o de que gostam os leitores.

— Eu compreendo. E são esses os ingredientes com que são compostos os livros de Rodney Steele?

— Sim, pouco mais ou menos, mas a variedade reside na maneira de os apresentar. O Sr. Steele é um grande viajante, que nos envia um livro de cada país que visita. Cá estão: "A Esposa Borboleta" é o Japão; "O Príncipe de longo rabicho", a China; "Entre as bolotas de púrpura", é uma história do Faroeste americano; "A Sentinela do deserto" é o Egito. O único país que ainda não o inspirou foi a Índia, mas de lá seguramente ainda virá algum.

Rodney, os supercílios carregados, repõe em seu lugar o volume que tinha em mão.

— Tudo isso parece não ter o menor valor.

O rosto expressivo do vendedor mostrava, porém, que ele estava enganado.

— Enfim, senhor, eu não digo que isto seja a "literatura". — Rodney sorriu. Os críticos lhe haviam tornado familiar essa expressão. — E pode ser que não sejam do seu agrado. Mas são de leitura fácil, com muita cor local, como já lhe expliquei e é isso que agrada aos leitores.

Examinava a pilha de volumes que equilibrava cuidadosamente, dando mais realce ao cartaz reclame, quando casualmente vendeu o exemplar que Rodney Steele tinha tido em mãos. Voltou-se então para o interlocutor, com uma expressão de triunfo no olhar. Mas Steele parecia ter perdido de vista o "Vôo da Boomerang". Apoderara-se de um romance de encadernação preta, que trazia na capa, em grandes letras douradas, o título e o nome do autor:
A Grande Separação

Max Romer
O cartaz colocado sobre a pilha dizia:

"O livro da estação. — Um novo romance por um novo autor".

Steele interrogou o vendedor:

— Que livro é este?

— Ah! senhor, é o livro que lhe convém. Nosso patrão afirma que ele sozinho vale mais que todos os livros de Steele reunidos. É verdadeiramente o livro do momento. Todos o compram, todos falam dele, o que é mais importante... Sim, senhora — responde a uma freguesa — "A Grande Separação!" Aí está um exemplar, seis shillings. Muito obrigado.

— Quem é Max Romer? — continuou, com voz lenta, Rodney Steele.

— Impossível dizer-lhe, senhor. Creio que é um pseudônimo. Segundo ouvi dizer, é uma mulher, mas duvido.

— E quais são os "ingredientes"?

O moço vendedor hesitou um segundo. Depois, falando com simplicidade;

— O amor. O amor e a vida.

— O amor? — continuou Rodney Steele — mas, parece que me havia dito que aqueles outros volumes que lá estão contêm uma história de amor?

— De fato, neles se têm histórias de amor. Mas, nesse volume é o amor verdadeiro.

O viajante, rindo-se, respondeu:

— Não há dúvida, dê-me o amor verdadeiro.

Ao mesmo tempo que introduzia um volume no bolso do seu casaco de inverno, passava uma moeda às mãos do vendedor.

— Guarda a moeda, amigo. Tomei seu tempo, que valia mais que uma libra. E agora, diga-me sinceramente, qual deles prefere: Max Romer ou Steele?

Um ligeiro rubor subiu à face do jovem que, com visível esforço, respondeu:

— A verdade é que não li "A Grande Separação". Conheço-a apenas por ouvir dizer. Mas li todas as obras de Steele, menos "O vôo da Bomerang". Tenho-as todas em casa.

Depois, com uma franqueza britânica, fixando bem o interlocutor, continuou:

— O fato é, senhor, que Steele é o meu autor favorito.

— Eu lhe agradeço, ter-me dito isto, caro amigo.

E, tomando um volume, Steele escreveu qualquer coisa na primeira folha e prazenteiramente deu-o ao vendedor, dizendo:

— Ponha este livro em sua biblioteca. E aqui estão dois shillings. Tudo isto, pelas boas vindas que de sua parte recebi, após dez anos de ausência.

Então, fazendo meia-volta, Steele pensou em cuidar de sua bagagem. No seu rosto moreno e magro, flutuava um sorriso vago, pois no bolso da direita se achava o famoso romance de Max Romer, "que, sozinho, valia mais que todas as obras de Steele reunidas", como o declarava "nosso patrão" e como sem dúvida o julgava o público. Apesar disso, o jovem vendedor se mantivera fiel ao seu "autor favorito".

— Graças ao céu, há sempre compensações! — concluiu Steele.
II

A VOLTA SEM BOAS-VINDAS
Quando Steele chegou à alfândega, os viajantes se comprimiram ao redor dos balcões para reconhecer suas bagagens e unanimemente afirmavam não ter nada a declarar.

Steele descobriu prontamente suas malas e, dirigindo-se a um carregador, perguntou:

— Pode colocar-me estes pacotes num "hanson", ou devo tomar um carro?

— Um taxi os levará — respondeu o funcionário. E estas simples palavras fizeram sentir a Steele a espécie de abismo que se abrira atrás de si, nos dez anos em que estivera ausente.

— Regent-House, 49, Regents Park — disse ele ao chofer — Uma casa nova, ao fim de Herley Street. Se o nevoeiro não o incomoda, pode atravessar o parque, porém não a muita velocidade, que cada polegada de terreno me interessa muito.

E enquanto o taxi deslizava ao longo do Strand atravancado, atravessava Trafalgar Square e passava pela arcada que vai à larga avenida que leva a Buckingham Palace, Steele olhava para fora com avidez, observando os monumentos que podia distinguir na bruma. E, quando surgiu o mármore branco, comemorativo da majestade da Rainha falecida, ele se descobriu respeitosamente.

Em Hyde Park Corner, o nevoeiro era mais baixo. O chofer, procurando as ruas mais claras, de iluminação melhor, contornou Piccadilly, subiu a Bond Street e atravessou Oxford Street.

As casas comerciais iluminadas davam a Steele a sensação de progresso geral nesses dez anos. A multidão havia aumentado ainda mais. Finalmente, seu taxi penetrou em Wimpole e achou-se de novo na atmosfera das coisas imutáveis. Lá naquela rua antiga de fachadas uniformes e tristes, ele se esforçava por encontrar a de número 50, diante da qual jamais passara sem um arrepio de emoção. Seus olhos procuravam descobrir a placa comemorativa colocada ao alto da casa e que dizia: "Nesta casa viveu a poetisa Elisabeth Barrett Browning, de 1838 a 1846".

Eis, finalmente, a escadaria tantas vezes galgada por Roberto Browning, poeta aclamado e um dos melhores homens de sua geração, que levara à frágil e melancólica Elizabeth Barrett a homenagem dum amor, no qual ela se recusava a crer, entrincheirando-se na impossibilidade de o inspirar naquele deplorável estado de saúde, que parecia condená-la a uma perpétua reclusão ... Fora desta casa, triste como uma prisão, que o poeta enamorado arrancara enfim a criatura enferma, a quem restituiu a saúde e a vida e com a qual viveu o mais belo poema de amor jamais sonhado, até o dia em que, satisfeita, morreu em seus braços.

Ah! certamente, esses poetas que se amaram, conheceram a "felicidade", pensou Steele, quando o taxi já o levava longe da casa do amor. Mas, quantos fantasmas teriam conseguido barrar a estrada destes entes privilegiados, se eles tivessem hesitado ou olhado para trás, em vez de caminhar para a frente como fizeram nesse perfeito amor, que baniu o receio... Amor perfeito? Perfeita confiança?

Deus de bondade! Existem coisas tais em um mundo em que reina a desconfiança? Algum amor digno deste nome pode existir onde não há confiança?

Antigamente, num passado já longínquo, dizia Steele de si para consigo, ter sido não um herói, mas um homem honesto, que as circunstâncias põem freqüentemente em situação difícil... e aquela a quem amava de toda sua alma, a quem votava uma confiança extrema, havia dele se afastado uma semana apenas antes do dia em que a devia fazer sua para sempre! As últimas palavras de sua noiva tinham sido estas: "O que de melhor tem você a fazer, Rodney Steele, é desaparecer e nunca mais tentar dirigir-me a palavra." E ele partira, havia já dez anos, e não mais lhe havia falado.

De súbito, atravessando Marylebone Road, o taxi se desviou, e esteve a ponto de se chocar com um auto-ônibus que, sem atender ao nevoeiro e às ruas escorregadias, corria numa marcha desordenada. A derrapada, os gritos, o acidente evitado tão no momento, despertaram o homem para quem o perigo, sob uma forma qualquer, constituía o sal da vida. Ele se inclinou para a frente, gozando a cólera do condutor do ônibus e a severidade oficial do guarda.

Finalmente, o taxi atravessou uma grade e parou a uma das portas de uma bela construção de pedra, que se erguia em frente a Wimpole Street, e onde se encontrava o apartamento posto à disposição de Steele por seu primo e amigo Billy Cathcart.

No momento em que o taxi se colocava diante da porta principal, um outro taxi, penetrando por uma porta oposta, executara manobra idêntica. O porteiro, alerta e atento, desceu aos saltos, imediatamente, os degraus da escada, a fim de cuidar das bagagens e, enquanto Steele descia e pagava o chofer, o freguês do segundo taxi atirou uma valise ao porteiro e deteve-se um momento ocupado em examinar com as mãos o seu dinheiro miúdo.

No mesmo instante, estrepitoso rufar de tambores fez-se ouvir na janela logo acima da entrada. Os dois homens levantaram a cabeça. Graças às numerosas fotografias enviadas por Billy, a longa fachada onde estava situado o apartamento que o esperava, era familiar a Steele. Ele distinguiu logo as janelas ricamente iluminadas, embora os escores estivessem descidos. Ao contrário, no apartamento à direita do seu, os escores estavam erguidos, mas o interior das salas permanecia mergulhado na escuridão. À esquerda, os escores estavam levantados, as salas alegremente iluminadas e de encontro à vidraça apareciam três rostos de crianças. De pé, por trás das cabeças frisadas, cercando-as com os braços erguia-se uma encantadora silhueta feminina.

Três pares de mãozinhas batiam ao mesmo tempo sobre os vidros.

O viajante que acabara de descer, respondeu-lhes com um gesto vivo e alegre, fazendo um cumprimento com a mão.

— Acompanhe-me imediatamente, Maloney — diz ele ao porteiro — você voltará depois para as bagagens.

— Muito bem, senhor — respondeu Maloney — dê-me somente o tempo de pôr os pacotes em segurança.

O hall foi atravessado rapidamente pelos recém-chegados, que tomaram lugar no elevador. O porteiro os acompanhou sem demora e o elevador subiu até o segundo andar.

As portas dos dois apartamentos ficavam fronteiras. Uma delas estava aberta e ouvia-se distintamente o ruído alegre de vozes infantis.

Quando o elevador parou, Steele se afastou para deixar passar seu companheiro. Seguindo-o tão de perto, não pôde escapar de ser testemunha daquilo que o ia surpreender.

Primeiramente ouviu o rumor confuso de pequenos pés, depois ruído de seda. Os braços de uma mulher atiram-se ao pescoço de seu companheiro e Steele viu a alegria que irradiava do lindo rosto levantado:

—Bem vindo! meu querido, bem vindo — ouviu ele. — Estes dez dias pareceram-me dez anos! Ah! que felicidade tornar a vê-lo! — Depois, com um gesto carinhoso, levou-o ao interior e a porta se fechou.

Steele continuou sozinho no patamar da escada, entre duas portas fechadas.

Que alarido as esposas e as mães fazem, nesta tarde em particular, pela volta dos seus... Ele sorriu, um sorriso difícil de interpretar e tocou a campainha do número 49.

A porta abriu-se prontamente e apareceu o sargento Jake, que, mau grado os louváveis esforços por parecer um criado de casa rica, se revelou com toda a evidência um soldado. Fora o sargento Jake quem havia ajudado Steele a pôr Billy a salvo, quando este caía gravemente enfermo em Spion Kop... Jake, os calcanhares unidos, o peito encurvado, fez a saudação militar com a mão direita. Seu braço esquerdo deixado na África do Sul, fora o preço por que havia pago a vida de seu jovem capitão.

— Ah! Jake! é você? Que surpresa — diz cordialmente Steele. — Não esperava encontrar aqui um velho camarada!

E transpondo o limiar, entrou no confortável "hall" do apartamento de Billy.


III

NASCEU UM FILHO...
Uma hora mais tarde, Steele, metido bem à vontade numa das grandes poltronas da biblioteca, gozava, fumando seu cachimbo, a sensação agradável de um repouso absoluto e a certeza de estar finalmente de volta. Dentre os prazeres que esperava, não havia deixado de contar aquele de uma paz tão perfeita, apesar da proximidade de uma das mais barulhentas artérias de Londres.

Jake tinha levado a bandeja do chá e posto um exemplar do Times sobre o aparador.

Por duas vezes, Steele estendera a mão para dele se apoderar, mas das duas não lhe tocou, preferindo a calma de seus próprios pensamentos à leitura de fatos indiferentes. Ele tinha ademais perdido o hábito quotidiano de ler jornal e foi com uma espécie de repugnância que se decidiu a desdobrar o Times.

Ainda que Steele tivesse claramente consciência de que a escada e o elevador, que conduzem aos andares superiores, eram comuns aos habitantes do vasto imóvel, contudo, quando a porta do número 49 se fechou e ele se achou sozinho no "hall" pacífico, onde ardia um lindo fogo, que clareava as estampas antigas que o ornavam; quando teve de seguir o longo corredor silencioso que levava ao seu quarto; e, quando enfim, se viu instalado, logo adiante, na biblioteca de Billy, onde o rumor de fora não chegava, experimentou a ilusão agradável de se encontrar em uma vasta casa de campo, bem longe de outras habitações. A calma era tão completa que a idéia de estar rodeado de perto por desconhecidos parecia-lhe inadmissível. Como acreditar que atrás daquela parede esquerda, alguém, segundo toda a probabilidade, provava o chá e que, do outro lado da sala de jantar, o mortal feliz que há pouco tinha sido objeto de um tão exuberante acolhimento, estava provavelmente sentado ao pé da gentil esposa e rodeado de três cabecinhas encaracoladas?

Ele sentia qualquer coisa estranha por se encontrar ao mesmo tempo tão isolado e tão rodeado... Enfim, dentro de cinco minutos, Billy estaria lá; ele havia telefonado que chegara, mas que o nevoeiro lhe causara um atraso. O telefone estava situado no "hall" e a campainha já havia soado muitas vezes.

Jake tinha respondido e ninguém atendera. Steele concluiu que os recados não lhe diziam respeito e demais, quem podia pedir uma comunicação com ele? Todos, menos Billy e seus editores, ignoravam a sua volta.

A sensação de estar em Londres e de aí não estar, parecia-lhe singular. Seria ele capaz de retomar os fios que prendem aos interesses quotidianos?

Descansou o cachimbo e, desta vez, tomou um jornal. De súbito, um nome prendeu sua atenção. Ele leu, não fez um movimento, mas tornou-se lívido.

"Em Shimla, a 26 de novembro, nasceu um filho do casal Hilary."

Rodney Steele descansou o jornal.

Após dez anos, ele se esforçava por aceitar o fato de, pouco tempo depois da ruptura com ele, a moça a quem amava, que já era quase sua, ter-se casado com outro, embora ele ainda vivesse!

Durante algum tempo, esperara um aviso da espécie do que acabava de ler... Mas nada veio e ele soube muito tarde, de uma maneira segura, que aquela que o torturara com tanto desgosto não dera um filho a seu marido.

E hoje: em Shimla... nascera um filho do casal Hilary!

Retomou o cachimbo que estava apagado.

Uma vez, num passado longínquo, ele e ela passeavam num atalho florido de Surrey. O amor para eles era novo então e cheio de maravilhas. Saltaram juntos uma pequena barreira a fim de penetrar num campo de primaveras. As crianças que sua predileta conhecia estavam a ponto de assaltá-lo. Um pequeno, todo de cor-de-rosa, segurou-se no seu vestido branco, quando ela lhe roçou, passando. Inclinou-se então para a criança, tomou-a nos braços jovens e fortes, levantou-a bem alto e balançou-a por sobre sua cabeça, sorrindo ao encantador rostinho. Depois, docemente abaixou o pequeno, que se agachou contra seu peito, acariciando-lhe ao mesmo tempo o pescoço com as mãozinhas rechonchudas.

Então, voltada para Steele, que a olhava com olhos do amor, disse-lhe:

— Oh! Roddie, gosto tanto de uma criança como esta!

E ele compreendeu o que significava para ele vê-la um dia com um filho de ambos.

O perfume das primaveras flutuava em redor dele...

"Nasceu um filho ao casal Hilary."

Uma chave rangeu na fechadura do "hall." A porta foi então violentamente fechada de novo.

Rodney Steele levantou-se e, solene, firme e ereto pôs-se sobre o tapete do fogão, olhando a porta.

Ela se abriu ruidosamente e Billy rompeu pela sala.



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