Biblioteca das moças 18 o rapto de jadette dyvonne dyvonne



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BIBLIOTECA DAS MOÇAS 18 - O RAPTO DE JADETTE - DYVONNE



DYVONNE

O que teria acontecido a Jadette no dia de seu casamento? A igreja decorada. Toda a pompa e circunstância que a cerimônia exigia e o noivo, seu primo Maximo, que sempre a tratara na ponta do sapato, aguardava no altar ansiosamente. Mas cadê a noiva? Teria passado mal? Teria fugido? Teria sido raptada?

Jade Astier, uma órfã jovem e pobre viveu de favor desde os sete anos de idade na casa de seus parentes por afinidade: sua tia, a viúva Astier e os seus três filhos do primeiro casamento, Maximo, Luiza e Berta Fourtou.

Tratada como uma serviçal de baixa categoria, sua situação mudou quando recebeu a noticia de que se tornou uma herdeira...

Disponibilização: Marisa Helena

Digitalização: Marina

Revisão: Rassul

PRÓLOGO

Ao meio-dia daquela terça-feira de outubro, quando as lojas se fecharam e as vendedoras sairam para o almoço, não houve uma só que ao atravessar a praça da Igreja deixasse de pensar ou de murmurar, que lindo casamento!

Isso se ouvia vindo de fora, dito pela turba de curiosos, juntar-se à fila de espectadores, que bordejavam o tapete de purpura, que cobria os degraus do templo, atravessava a calçada e dobrava-se sobre a sarjeta.

Os basbaques desocupados, as caixeiras que almoçavam o seu sanduíche sentadas nos bancos do Jardim do Luxenburgo, desertaram de seus lugares habituais e vieram curiosos, juntar-se à fila de espectadores que bordejavam o tapete vermelho.

O cortejo não chegara ainda, “Chegará atrasado, certamente” afirmou o suíço, magnífico em seus galões dourados sem ilusões quanto à pontualidade dos jovens nubentes. Os amigos da família já se encontravam no interior do templo, sob as altas abóbodas curvilíneas de arcadas maciças à frente do altar-mór de mármore antigo, decorado com bronzes dourados e beatificamente velado por oito estátuas de apóstolos. Palmas de prata dourada faiscavam sobre o altar juncado de rosas brancas o reflexo de uma centena de lâmpadas elétricas modeladas em flores tudo quanto se podia exigir para adornar um casamento de altas personagens.

— Ela pôde dar-se a esse luxo, com a herança que lhe coube. — observou uma jovem ao fundo da igreja.

— Cinquenta milhões, dizem.

— Qual! Dez apenas.

— Nem isso! A vila na Itália e três ou quatro milhões, mais nada.

— Enfim, o bastante para viver com decoro.

— Ainda mesmo com crise.

— Ela vem com véu de renda? — perguntou uma jovem a uma amiga ao lado.

— Não, de filó.

— Com cauda de oito metros de setim prateado — afirmou uma outra.

— Não apenas cinco. E já é demasiado.

— Há pouco tempo assisti aqui a um casamento em que a noiva trouxe um véu de cauda que parecia não ter mais fim. Era lindo! No entanto, ao se dirigirem para a sacristia tiveram tão pouco cuidado e tanto pisaram a cauda do veu que de volta à nave a noiva mais parecia arrastar atrás de si um saco de carvão.

Nesse momento um reboliço veio interromper estes comentários. Era o primeiro carro que chegava.

As senhoras que desceram vestiam-se com simplicidade e os curiosos tiveram um murmúrio de surpresa, um gesto de descontentamento com se tivessem pago para assitir a um espetáculo montado em grande estilo.

— São as primas — disseram as amigas.

— Elas nunca tiveram oportunidade de assistir a um casamento como este!

— Mais surpresa deverá estar a própria Jadette, você bem se lembra da habitação em que ela vivia até o ano passado, não a queria eu nem de graça.

— Sem ar, sem luz!

— Levava então a vida de criada para todos os serviços em casa da tia. Tratavam-na com tamanha dureza!

— Por isso espanta-me vê-la casar-se com seu primo Máximo que a cobria de sarcasmos quando ela era pobre.

— Parece que Jadette está louca por êle agora.

— Maximo é que conta essa história... Quanto a mim já ouvi dizer que ela sonha com um jovem aristocrata a quem conheceu o ano passado.

— Silêncio! Calem-se! — exclamou o suiço energicamente batendo a pesada bengala de castão de prata.

As vozes baixaram de tom.

Lá do alto no coro um dos primeiros organistas de Paris incumbia-se de abafar ao órgão esses murmúrios inconvenientes com um preludio de Saint-Sulpice, considerado um dos mais célebres da capital. Em seu improviso os rugidos da tempestade uniam-se a um ciciar aflautinado, as vozes dos anjos alternavam-se com o rugir de animais pela garganta metálica dos seis mil cento e oitenta e oito tubos do órgão que variavam desde os que parecem uma chaminé de dez metros de altura, até os que, pequeninos como gaitinhas, não vão além de um centímetro. As cinco claves, os cento e dezoito registros, os vinte pedais de combinação, variavam até ao infinito aquela melodia, às vezes imensa como o mar, outras suave como o hálito de um querubim...

Lá fora começavam a chegar outros carros, e deles desciam damas vestidas com rara elegância. Continuaram os comentários:

— Chegaram Ginette, Paulina e Tereza Rivolié, as damas de honra.

— Vestidas à custa de Jadette.

— Vejam Luiza e Berta Fourtau, damas de honra, e irmãs do noivo. E essa encantadora jovem...

— Climéne de Panneblé, uma amiga que encontraram na Itália.

Na praça, toda iluminada por um cálido e delicioso sol de outono, a multidão se acotovelava para admirar as damas de honra, vestidas em seda rosa, chapéu azul-natier, um ramalhete de miosótis à mão — uma verdadeira ressurreição das elegantes de 1.830...

Mexendo-se para todos os lados do átrio da igreja, faziam farfalhar as sedas dos vestidos, trocando, aos cochichos, impressões sobre a noiva, que acabavam de deixar em casa dela.

— Você notou como Jadette estava pálida? — disse Ginette a Climéne.

— Imagino como vai sentir-se mal — afirmou esta.

— E que olhares terríveis lançava-lhe Máximo! — retrucou Ginette Rivolié.

— Oh, esse Máximo não é nada amável. — acrescentou Climéne.

— Um bruto! — disse a vizinha.

— Detesto! — completou Climéne.

— Cuidado, as irmãs dele estão ouvindo! — Ginette Rivolié segredou a Climéne

— Minha prima Jadette cochichou aos meus ouvidos, ainda há pouco, que ia dizer não na igreja.

— Santo Deus! Que escândalo! — murmurou Climéne. — E você sabe por que?

— Se sei! Jadette e eu somos muito íntimas, desde há algum tempo, e ela me contou que, na Itália...

— Naquele famoso palácio? — perguntou Paulina.

— Sim. Ela encontrou um jovem que... Silêncio! Aí estão Máximo e a mãe.

O noivo efetivamente, acabava de chegar. Era alto, musculoso, considerado a gloria de sua equipe de futebol. Em compensação, corpos como aquele nunca grangeiam fama para o seu alfaiate. Exprimido num fraque azul escuro, mais parecia um estivador.

A sra, Astier mostrava-se radiante no seu vestido de gala. Sorria. Conseguira afinal casar seu filho Máximo com a pupila, e assegurar, magnificamente, o futuro desse minus habens1. Glorioso dia para ela!

Esperavam, apenas, o carro da noiva. Deveria acompanhá-la seu tutor legal, o sr. Marmondet, que a conduziria ao altar.

E a noiva fazia-se esperar... Um pouco mais do que é hábito nessas ocasiões. Na igreja, o organista atacou a marcha nupcial depois, a um sinal do mestre de cerimónia, interrompeu-a abruptamente, com alguns acordes improvisados. No átrio, a multidão se impacientava... Era então, meio-dia e quarenta, e o suíço tamborilava, febrilmente com as solas dos sapatos, Máximo, escarlate como um apoplético, disse, entre dentes, à sua mãe:

— Que houve? Pelos chifres do diabo!

Sempre a sorrir, prodigalizando seus cumprimentos, ela murmurou:

— Jadette estava muito pálida quando saímos. Pareceu-me que estava precisando de um cordial. As criadas estão desorientadas, e aquele estúpido do Marmondet não sabia onde encontrar vinho do porto!

— Vou vê-la, disse Máximo, sem se dar ao trabalho de responder aos cumprimentos que seus amigos lhe faziam.

Entre dentes, a sra. Astier o advertiu:

— Não faça isso; você vai cair no ridículo... Pôde acontecer que, apenas você saia, ela apareça... Vocês parecem que estão brincando de esconde-esconde.

Mas... a noiva não aparecia.

Na sacristia, os doze coroinhas em roquette de Veneza já não conseguiam conservar-se quietos, não obstante os olhares de vigilância dos padres em casula e alva de gala. Apenas monsenhor Renier, o celebrante, parecia não notar a fuga do tempo.

Lembrava-se de uma chistosa explicação que seu amigo, o cardeal de Valdeblore, dava a esses casos, afirmava ele que, quando a noiva chega muito atrasada, o lar não seria feliz, porque esse atraso era prova de que a noiva seria irremediavelmente impontual e isso, quase sempre, provoca cenas conjugais — ou, então, que esse atraso — o que ainda seria mais grave — demonstrava, relativamente ao noivo, uma repugnância confessada ou secreta, uma falta de entusiasmo que, durante toda a manhã do dia do casamento, tivesse atuado inconscientemente sobre ela, de forma a lhe embaraçar os atos, impedir-lhe as resoluções, aumentar ainda mais o atraso...

— Também, quase sempre, a falta é das costureiras, sussurrou um padre. Enfim, sejamos filósofos.

Entretanto a multidão, à frente da igreja, não comungava com essas ideias. Começaram os primeiros motejos, e os gestos de impaciência se sucediam sem o menor respeito pelo caráter sagrado daquela cerimónia.

Máximo, sua mãe (pelas segundas núpcias, a sra. Astier), as damas de honra, todos, enfim, volviam o olhar para o lugar de onde devia surgir o automóvel de Jadette

Astier.

De repente Berta Fourtau, sua prima, exclamou:



— Reparem, à direita... O auto de Jadette!

— De onde virá ela por ali?

Um engraçado sussurrou:

— A noiva foi comprar lenços na Galeria La Fayette!

Com efeito, era o carro nupcial. Debruçado sobre a porta, o tutor, o sr, Marmondet, fazia sinais. Todos, já serenados, sorriam, enquanto os sinos, carambolando, enchiam os ares de notas festivas, ensurdecendo a multidão.

— Você está vendo a noiva no carro? — perguntou Climéne.

— Estou.

— Pois não está lá.

— Está, sim!

— Não está, repito!

Então, de repente, cabelos ao vento, o sr. Marmondet saltou do carro. Não houve mais dúvidas: a noiva não viera mesmo. Subindo os degraus aos pulos, ele explicou, arquejante:

— Jadette... a noiva...

— Que houve?

— ...não virá! Mandem parar os sinos!

— Como assim? Que houve, afinal? — perguntavam de todos os lados.

— Grandíssimo idiota! — explodiu Máximo, segurando-o pelo colarinho.

— Velho mentecapto! — exclamou a sra. Astier.

No coro, o organista, tomando aquele reboliço como a chegada da noiva, fez vibrar por sob as arcadas os acordes magníficos da marcha do Profeta... As palmas de prata dourada faiscavam, as rosas brancas perfumavam o ambiente, e lá fora, os sinos bimbalhavam alegremente.

E a noiva não veio mesmo.

— Doença? Fuga? Rapto?



CAPÍTULO I

PRIMEIRA PARTE

A EXILADA

Seis meses antes, em Saint-Sulpice, um dos bairros mais curiosos de Paris.

A julgar-se pelo grande número de luxuosos palácios particulares que lá se encontram, esse bairro fora escolhido pela nobreza, ao tempo de Luiz XV, e mesmo antes, quando reinava Luiz XIV. Destacam-se, entre essas vivendas, os palácios de Sourdeac, à rua Garancière, o de Mahé de la Bourdonnais, à rua Férou, e muitos outros de nomes ilustres, e não menos elegantes.

Infelizmente, essas belas residências foram construidas cem anos antes de se pensar em urbanismo, a arte de construir cidades sobre um traçado previamente delineado. Construia-se sem economizar as grandes áreas fronteiriças às casas. Não havia, então,o desconforto das ruas extraordinariamente estreitas, porque era uso do tempo erguerem-se à frente das casas jardins encantadores, que eram largamente desfrutados.

Mas, pouco a pouco, esses jardins foram desaparecendo, e neles ergueram-se novas casas, até que um dia as fachadas mais altas se encontraram, face a face, num vão de cinco metros... As ruas, antes, alegres e ensolaradas, tornaram-se vielas escuras e úmidas, os aposentos, primitivamente festivos de sol e visitados pelas abelhas douradas dos jardins das vizinhanças, tornaram-se sombrios, e, para evitar que fossem devassados, as janelas cobriram-se de brocado e tulle.

Mais tarde, foram aproveitadas as estreitas faixas dos terrenos que ladeavam esses palacetes imponentes na construção de casas de aluguel. Então, os construtores já não dispunham nem de verba nem de terreno para fazer levantar as escadarias majestosas, as entradas nobres, de linhas puras, tiveram de aproveitar, da maneira mais rendosa, os terrenos concedidos. Eis aí por que Saint-Sulpice ostenta, em suas vielas estranguladas, ao lado de palacetes aristocráticos, uma série de casas incrivelmente escuras e abafadas.

Não longe daí, verdeja o vasto oásis do jardim do Luxemburgo, cheio de árvores frondosas, ladeados de roseiras, os tanques, onde tremula a superfície azulada da água. Nessa manhã de abril, o sol espalhava uma poeira dourada sobre o veludo macio da folhagem verde dos castanheiros em flor.

Ali tudo é poesia, enlevo, amor!

As borboletas de asas irisadas, que pousam com a delicadeza de beijos sobre o mármores das estatuas. Os jovens estudantes, de ambos os sexos, que caminham, de manhãzinha, lendo sob a fronde das árvores, e que, muitas vezes esquecem os livros e ficam-se a sorrir, mutuamente, ou então, a sorrir para o céu, para a beleza do dia, para si mesmos...

Sim, nesse oásis encantado, tudo é juventude, alegria, vida... Mas, deixai-o de lado, caminhai para ali, bem à vossa frente, para essa garganta serpenteante e negra chamada rua Servandoni, cujo leito exíguo é ladeado de calçadas que mais parecem duas fitas sujas de cada lado, afora algumas construções dignas desse nome, velhos imóveis entre os quais alguns miseravelmente apoiados sobre estacas podres, tais como os mendigos de Callot sobre suas impossíveis muletas. E não julgueis que os aluguéis ali são baratos, nem que tais ruas sejam habitadas pela plebe, como as de La Villette ou Menimoltant. Não! Essas casas escuras são caras, porque o bairro latino está à sua ilharga, seus locatários, frequentemente são intelectuais e, muitas vezes, essas escadarias danificadas conduzem a apartamentos mobiliados com fino gosto.

Quem terá a certeza de que o sol existe, quando ele penetra por essas fachadas mal alinhadas? Na escadaria que torce e retorce a ponto de causar tonturas, encontram-se lances de outras escadas, inteiramente às escuras, que conduzem a apartamentos construídos em planos diferentes dois ou três por andar... Às apalpadelas, ia-se ter a um corredor cuja pintura melancólica ainda mais o emsombrecia, como se fora necessário, fazendo-o parecer imundo, embora não fosse. Um pouco de luz filtrava-se por uma trepadeira, aberta num dia longínquo. Enfim, uma porta sem molduras, impiedosamente gasta...

Era aí a residência da viúva Astier e seus três filhos, do primeiro casamento, Máximo, Luiza e Berta Fourtau.

Todos se esprimiam nesse lugar insalubre, e viviam de suas rendas... Talvez, se as duas moças se dispusessem a trabalhar pudessem viver com mais conforto, mas não pensavam assim, e não era possível fazê-las mudar de vida.

Máximo dormia num divã, na sala de jantar, em luto de claridade. Ao fundo do corredor num cubículo, que parece mais claro que o resto da habitação, por ser muito pequeno. Nele não há lugar nem para um leito. À guisa de cama, instalaram ali um divã em que dormia Jade Astier, a órfã de Jacques Astier e de quem a sra. Astier era tutora e tia por afinidade.

Jade acordou de repente e com um pulo saltou pela ponta do divã, pois pelos lados as paredes o impediam. Com uma pirueta, atirou-se para o assoalho gelado do seu quarto.

Uma rápida passada do pente, um pouco de água fria sobre o rosto — mais tarde faria sua toilette quotidiana e cuidadosa — e sem rumor alcançou a cozinha.

Que cheiro a mofo! Ali tudo tresandava a umidade, a decomposição paulatina das madeiras, as pedras esverdinhadas.

Jade apanhou de sob a mesa os sapatos de toda a família. Ainda tem sono. Que serviço repugnante! E esse Máximo com as suas lanchas cheias de lama do estadium. Tanto pior! Que ele diga o que quiser, mas, de agora em diante, ela se recusaria a limpar os sapatos grosseiros desse vadio de vinte e dois anos!

Vamos! Sete horas e meia. Uma boina à cabeça, a garrafa do leite, um saco de lona por sob o braço, ei-la pela escada abaixo, cujos volteios lhe são familiares. Jade saltava, virava e revirava com uma rapidez de peixe dentro d'água.

A rua...

Levantou o nariz. Ali havia sol! De seu quarto nunca poderia ter essa certeza. Chegou à leiteria. Os compradores esperavam em fila. Como isso não era habitual, Jade estava impaciente por saber a razão.

— O leite chegou com atrazo ao mercado, por causa de um descarrilhamento. —informaram-lhe. — A leiteira não veio ainda, é preciso esperá-la.

Jade preferia deixar de tomar o seu leite a ter de esperar ali, na fila. Mas, que diriam sua tia e suas primas se o chocolate delas viesse a faltar um só dia? E Máximo?

A jovem meteu-se na fila, com um suspiro, o saco por sob o braço, os olhos dirigidos para o fim da rua Servandoni, além, para o jardim do Luxemburgo, onde vislumbrava galhos de castanheiros. Seu coração saltava!

Oh! Pôr de lado a casa, o mercado, a cozinha, e por uma dessas manhãs luminosas ir ao Luxemburgo, ver o sol... o sol de sua infância!

Jade não nascera em Paris. Quando sonhava, o que lhe vinha à memória era a sua infância ensolarada, e não as ruas escuras da velha Paris, as avenidas de tamarindeiros, um cidade branquejante sob os trópicos, não as tristonhas casas altas daquele quarteirão Saint-Sulpice, mas, as vilas abobadadas, coloridas com a sombra de palmeiras e mangueiras, rodeadas de jardins luxuosos, onde caíam, silenciosamente, as flores das cerejeiras e as pétalas, brancas dos frangipaneiros. Os melros empenachados, que saltavam sobre as lianas, e o perfume do ylang-ylang, que embalsamava o ar e a acariciava, blandiciosamente...

Nesse paraíso, em Hanoi, a cidade dos pagodes, foi onde nascera, filha de um francês casado com a herdeira de um mandarim arruinado. Sua mãe, uma esbelta jovem, translúcida como o jade, falecera quando a filha completava dois anos, deixando-a aos cuidados do pai, um industrial. Tivera pagens, um quarto decorado com lacas de Coromandel, um auto de luxo. Conhecera o luxo tropical, ruidoso, brilhante...

Contava apenas sete anos, quando seu pai falecera, deixando-lhe grande legado de dívidas.

Jade — Jadette, como a chamava a sra Astier, fôra levada para a França, para junto do irmão de seu pai, Jacques Astier, recentemente casado com uma viuva, mãe de três filhos — os Fourtau.

Caira, então, do céu luminoso da Ásia encantada para aqueles cómodos prosaicos, de onde não se via o céu.

O metropolitano substituiu o seu automóvel. De rainhazinha que era passou a criada disfarçada. Coisa pior ainda, depois da morte do tio.

Era preciso coragem! Assim era a vida. Para ela, a escola pública, enquanto que para Berta e Luiza, professores pagos. Depois, aos dezesseis anos, a arrumação da casa, o mercado, a cozinha, do meio-dia em diante, trabalhos de escrituração, ganhava bem o seu pão, e, à tarde, os remendos. Máximo praticava o futebol, e estragava tanto a roupa!

Esse Máximo!

Impertinente até a crueldade, Jadette aparecera em sua vida como uma vítima providencial. Se suas irmãs, Berta e Luiza, gozaram de alguma tranquilidade, quando crianças, e puderam ter por algum tempo suas bonecas intactas, o deviam ao encantador Máximo, que, aos doze anos, forte como um vaqueiro, pudera, então, desviar suas travessuras sobre a selvagem, como ele apelidara Jadette, quatro anos mais moça do que ele.

A menina nunca conseguira ter um brinquedo sem que o doce Máximo não se apoderasse dele por direito de conquista, arrancando a cabeleira de suas queridas bonecas, destroçando-lhes os olhos, descolando as conchas de sua esplêndida caixa de Dieppe, apropriando-se e arrebentando todos os objetos da menina, fazendo-a chorar várias vezes por dia. Importunava-a impertinentemente, o dia todo, sem que a sra. Astier interviesse. Quando o fazia, era com admoestações conciliatórias.

— Vamos rapaz, deixe-a sossegada! — Tia Astier era um tanto dura, mas, pelo menos, a ajudava no arranjo da casa e na cozinha, enquanto que Berta e Luiza viviam como aristocratas, com receio de estragar as unhas polidas. Berta, todavia, consentira em legar seus vestidos a Jadette, quando, infelizmente, mal eles podiam ser apresentados. Luiza, porém, sentia-se desfalecer só com a ideia de oferecer um alfinete à prima cozinheira! Entre elas e Jadette não entrava, o ciúme em nada. E por que as srtas. Fourtau haviam de ter ciúmes? A prima era pobre, apenas passável, ela mesma não duvidava disso. Ademais, não possuía a brancura das duas louras, e era muito delgada, com uma carinha miúda por sob uns cabelos negros, finos e brilhantes. Ah, que lhe importaria ser feiosa, como lhe repetiam sempre, se, ao menos, pudesse ter uma hora de sua para ir ao Luxemburgo, embriagar-se de sol!

Vamos, Jadette, esqueça essa quimeras.

Onde paira o seu espírito, quando você se põe a sonhar.

A leiteira acabava de chegar, e todos os da fila se agitavam, avançando.

Não vá perder a sua vez, Jadette!



* * *

— Pois é, garanto-lhe que você perdeu muito tempo esta manhã. — disse Luiza acremente, sentando-se à mesa, alguns instantes mais tarde.

— Complicações diplomáticas! — respondeu Jadette com frieza, servindo-lhe o chocolate.

— Cesta de papel! — ressoou uma voz tonitroante. — E eu? Esqueceram-se de mim? Saúde, frangotas, bom dia, mamãe! Olá, Febre Amarela, e o meu café?

Máximo Fortau, aos vinte e dois anos, era qualquer coisa assim como um touro. Era engraçado ver a pequenina Jadette atirar-se como uma cabrita contra, esse rapagão musculoso. Apertando a cafeteira na mão, ela lhe disse:

— Máximo, se você me chamar mais uma vêz de Febre Amarela, atiro-lhe esta cafeteira na cara!

Ele resmungou, surpreso:

— Mas, sempre a chamei assim... porque você é amarela.

— Mentira!

— Você se tem na conta de branca, assim como nós? — disse Luiza, irritada.

— A mim que importa isso? Não vivo a dizer-lhes que vocês são macilentas como pergaminho, quando não estão pintadas. Deixem-me tranquila com a côr de minha pele!

— Macilentas como pergaminho! — sufocou-se Berta, que era de natural pálido.

— Pílulas! Desprezemo-la! — berrou Máximo, furioso. A sra. Astier não quis ver o fim da briga, e interrompeu majestosa:

— Jadette, vá tomar café no seu quarto, nós ficaremos em paz, e você também.

Jadette levantou-se quando o carteiro se fazia anunciar.

Isso os distraiu, ainda mais porque havia uma carta destinada à sra. Astier, timbrada com selo italiano, e em cujo envelope reconheceram a letra do tio Anselmo, o terceiro irmão Astier e o único sobrevivente, residente nas colónias, como o pai de Jadette, tinha-se retirado para um vilarejo da Itália, onde vivia parcimoniosamente. Havia mais de um ano que êle não dava notícias de si. A sra. Astier abriu a carta, leu-a, e disse:

— Ele vai bem, e não tem nada de novo a contar. Deseja, entretanto, que Jadette vá para junto dele, prontificando-se a pagar as despesas de viagem.

— Esplêndido! — exclamou a jovem, corando repentinamente.

— Se eu consentir em me separar de você. — completou a sra, Astier. — Sou sua tutora, não se esqueça disso.

— Como? Jadette vai viajar? — perguntou Berta invejosa.

— Sim, para S. Gennaro, via Streza... Você conhece aquilo por lá, Máximo? —indagou Luiza.

— Certamente, — respondeu o rapaz. — Fui visitar tio Anselmo o ano passado, quando minha equipe se dirigia a Monza, para defrontar-se...

— Como é S. Gennaro? — perguntou Jadette, ansiosa.

— Um vilarejo atoa, sem campos de esporte...

— Que jeito tem?

— Nada que preste. Tio Anselmo possue um cochicholo numa rua, atrás de umas casas tipo Chapigny ou Asnières.

— E os arredores?

A sra. Astier entrou, então, na conversa:

— É a planície de Lombardia, que conheço por tê-la atravessado em trem-onibus, quando de uma peregrinação a Pádua. Como toda Itália, campos sob um sol de fogo. Para resumir, Beauce em ponto maior.

Jadette suspirou, pouco tentada por aquela descrição, e, sem mais insistir sobre o assunto, começou o amanho da casa... Depois, a feira, a cozinha e uma sopa de ervilhas, cuja relação a sra Astier ajudou, e na qual as unhas reais de suas filhas não entraram.

O almoço transcorreu silencioso, na sala de jantar, tão escura de manhã como ao meio-dia. Depois, Máximo sumiu-se para o seu estadium.

— Você compreende, —disse êle a Jadette, com aquele seu vozerio de atleta. — o Comite Executivo da Federação Internacional de Futebol interrompeu-se nos planos da organização Coupe-Blue. Minha equipe enfrentará logo ao chegar a Nice, no próximo mês, as da Iugoslavia e do México. Depois de Nice, irá à Suiça. Devo, portanto, “dar duro” até lá, se desejo ser um bom arqueiro, compreende, meu rico limão galego?

E foi-se rindo, dessa delicada frase de espírito.

Sua tia, Berta e Luiza vestiram-se para ir a um concerto. Vendo-as sair, o coração de Jadette apertou-se, porque ela adorava a música, embora nunca tivesse oportunidade para ir ouvi-la.

Ficando sozinha, sentou-se à frente da alta janela da sala de jantar, que se abria para uma área interna, e era de tal forma velha, emperrada e suja de poeira, que Jadette, só para não ver aquela sujeira, seria capaz de mandar limpá-la à sua custa. O pensamento de S. Gennaro voltou-lhe de novo, enquanto abria os livros da Casa Prosper Jacombier — cuja escrita fazia.

Partir! Ainda que fosse para viver com um tio talvez reumático e resmungão, mas, sob o céu da Itália, que não tivesse nada de semelhante com o de Paris...

Ela já se via lá, no cochicholo descrito por Máximo, quando teve um sobressalto.

Bateram na porta. Jadette foi abrir.

Um rapaz forte estava no patamar sombrio. Ele sorriu embasbacado. Jadette adivinhou logo tratar-se de um futebolista, companheiro de Máximo. Certamente, havia entre os jogadores, rapazes bem educados e encantadores. Infelizmente, Máximo ligara-se aos indivíduos menos distintos de sua equipe, e aquele tal devia ser um simplório. Jadette não se enganara. O palerma declarou chamar-se Felisberto e procurar o sr. Fourtau. Depois, rindo-se com ar estúpido, concluiu:

A senhorita, sem dúvida, é a sua prima? A Fe...

Emudeceu, enleado por ter quase proferido o apelido cruel que Máximo havia posto em sua prima. Jadette recuou ofendida pelo sorriso do rapaz, que tentava umas desculpas confusas.

— Não poderia imaginar que a senhorita fosse assim.,. Máximo chama-a sempre de selvagem... Então... então...

Jadette não quis saber o que mais poderia seu primo ter dito. Bateu de súbito a porta no nariz do rapaz, que ficou confundido, atónito, pasmado, julgando estar sonhando.

— Mas, por que Máximo a chama de Febre Amarela, de selvagem? Ela tem uma carinha linda, de um branco mate... a côr das pérolas... uma figurinha de... como diabo se diz isso? Ah! sim... de musmê. Ve-la-ei com prazer, a essa jovem, Tem até mais encantos do que as irmãs dele, verdadeiras Medusas.

Enquanto isso, Jadette calculava com raiva os débitos e créditos da Casa Jacombier: 120 + 4 igual a 124... 127... 130... 139... 9 e vão 13...

Selvagem! Seu primo a chamava de selvagem, a ela que nascera em lugar muito mais distinto do que o dos Fourtau. Ainda ouvia tilintar os braceletes de jade de sua mãe e o farfalhar das sedas bordadas de suas túnicas, revia as pequeninas sandálias aljofradas, que sua mãe usava — tão diferentes das horríveis chinelas de feltro, acalcanhadas, de suas primas, e os quartos, cobertos de finos tapetes, com seus leitos de madeira dourada, filigranados — alcovas encantadas, onde tivera seus primeiros sonhos, e na penumbra, as preciosas estatuetas de quartzo rosa, ágata e ametista. Luxo adorável e delicioso, da Ásia dourada. Seu primeiro vestido foi de setim bordado, e a chamavam de selvagem!

Oh, partir! Partir! Parecia-lhe que alguma coisa de bom a esperava, e que sua felicidade estava na Itália.

Abriu-se a porta e a sra. Astier entrou, dizendo a Jadette:



Encontrei o sr. Jacombier, que lhe trouxe o salário quinhentos francos.

A tia mostrou as notas, e, sem nem ao menos desviar cinco francos para a sobrinha, guardou-as todas na bolsa. Era bem justo que lhe pagasse uma pensão. Pois Jadette não estava em sua casa? Aí não encontrava agasalho, teto, pão, roupa lavada e vestidos? Quanto aos donativos que a tia lhe fazia de seus sentimentos, a proteção que lhe dispensava, a ternura com que a tratava, isso lhe dava gratuitamente. Todo o mundo sabe que não há preço que pague esses tesouros espirituais, de que a vida de Jadette estava repleta.

A moça suspirou, e pediu-lhe:

— Tia, dê-me cinco francos.

— Para que?

— Pará comprar novas luvas, imitação suêde. Meus dedos já estão espiando pelos buracos.

— Eu mesma lhe comprarei as luvas, qualquer dia, quando sobrar dinheiro, respondeu-lhe, com frieza, — a gorda sra. Astier. — E, a propósito, isso me lembra que tenho de comprar umas de cano longo, côr malva, de que Berta precisava para combinar com seu vestido novo, feito pára o chá dos Roner. Vou até o Bon-Marché, onde vi uma verdadeira pechincha, por sessenta francos.

A majestosa sra. Astier dissera isto muito calmamente, sem sequer pensar na sua crueldade em recusar à sobrinha um objeto de cinco francos, e afirmar logo em seguida que esse mesmo, objeto, por sessenta francos, para sua filha, lhe era indispensável. Não agira assim por maldade, apenas por indiferença. E se alguém lhe reprovasse o seu egoísmo materno, ficaria como uma fera. Responderia, por exemplo, que Jadette bem sabia que suas primas tinham rendas, por insignificantes que elas fossem, enquanto que ela tinha de trabalhar para viver. Teria a sra. Astier culpa de que seu cunhado falecesse deixando à filha somente dívidas? E ela se tinha na conta de muito generosa por ter arranjado trabalho para sua sobrinha em casa, sem ter de sair à rua.

A sra. Astier levantou-se para ir comprar as cobiçadas luvas côr de malva, de cano longo.

— E, a propósito de tio Anselmo, quando partirei? — perguntou repentinamente Jadette, palpitante.

A esta pergunta, sua tia pareceu cair das nuvens. Na verdade, seria possível que essa jovem sonhadora pudesse crer um só instante que sua tutora a deixaria partir? Que loucura! Aquilo era impossível, com tanta coisa que havia para fazer em casa! Essa moça estava perdendo a cabeça. E sem ao menos ouvi-la — não se discute com loucos, não é verdade? — a sra. Astier, fortalecida com seu poder de tutora — que o tutor legal, o sr. Marmondet, a deixava exercer, respondeu calma e lacônicamente:

— Isso é impossível. Você tem muito que fazer aqui, ademais, a Casa Jacombier precisa de você, e os deveres a prendem em Paris. Paciência, Jadette, a vida não é como a desejamos. A propósito, já são cinco horas e meia, e você deve começar a fazer o jantar.

— Eu queria ir passear no Luxemburgo! — suspirou Jadette, aniquilada.

— Que fazer lá? Está chovendo.

Era verdade — chovia. E logo começaria a chover no coração dessa pobre moça, como chovia sobre a cidade triste. Seus belos sonhos dourados ruiam sob um aguaceiro moral...

Adeus Itália, adeus viagem, adeus possibilidades de encontrar sua felicidade! Mais uma vez a porta da gaiola fechava-se sobre aquela cujo pai a apelidara, com tanta ternura:

“Minha boneca de jade”.

Ai! Seu pobre papaizinho estava tão longe, no tempo e no espaço, dormindo havia onze anos, sob as palmeiras flexíveis do cemitério de Hanoi, ao lado da jovem que também descansava entre as suas lindas jóias de jade e cornalina...

E Jadette, quem a tiraria dali? Quem lhe daria oportunidade de viver um pouco sob a luz dourada e carinhosa do sol?



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