Bilac, Olavo



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Bilac, Olavo. Poesias Infantis. RJ: Francisco Alves. 1929.

Índice


Ao leitor

Prefácio da primeira edição
A avó

O pássaro cativo

O Sol

As estrelas



A borboleta

Natal


Os Reis Magos

Os pobres

A boneca

As estações

O inverno

A primavera

O verão

O outono


As formigas

O Universo

Domingo

Plutão


O boi

A vida


O avô

Deus


O remédio

Justiça


O tempo

A madrugada

Meio-dia

Ave Maria

Meia noite

Os meses


Janeiro

Fevereiro

Março

Abril


Maio

Junho


Julho

Agosto


Setembro

Outubro


Novembro

Dezembro


Ano Bom

As flores

O rio

A Infância



A mocidade

A velhice

As velhas árvores

O trabalho

A coragem

Modéstia


O Credo

A Pátria


A casa

A rã e o touro

O soldado e a trombeta

O leão e o camundongo

O lobo e o cão

Hino à Bandeira Nacional

Hino à Bandeira Nacional (partitura)

Ao Leitor

Quando a casa Alves & Cª me incumbiu de preparar este livro para uso das aulas de instrução primária, não deixei de pensar, com receios, nas dificuldades grandes do trabalho. Era preciso fazer qualquer coisa simples, acessível à inteligência das crianças; e quem vive e escrever, vencendo dificuldades de forma, fica viciado pelo hábito de fazer estilo. Como perder o escritor a feição que já adquiriu, e as suas complicadas construções de frase, e o seu arsenal de vocábulos peregrinos, para se colocar ao alcance da inteligência infantil?


Outro perigo: a possibilidade de cair no extremo oposto – fazendo um livro ingênuo demais, ou, o que seria pior, um livro, como tantos há por aí, falso, cheio de histórias maravilhosas e tolas que desenvolvem a credulidade das crianças, fazendo-as ter medo de coisas que não existem. Era preciso achar assuntos simples, humanos, naturais, que, fugindo da banalidade, não fossem também fatigar o cérebro do pequenino leitor, exigindo dele uma reflexão demorada e profunda.
Mas a dificuldade maior era realmente a da forma. Em certos livros de leitura que todos conhecemos, os autores, querendo evitar o apuro do estilo, fazem períodos sem sintaxe e versos sem metrificação. uma poesia infantil conheço eu, longa, que não tem um só verso certo! Não é irrisório que, querendo educar o ouvido da criança, e dar-lhe o amor da harmonia e da cadência, se lhe dêem justamente versos errados, que apenas são versos por que rimam, e rimam quase sempre erradamente?
Não sei se consegui vencer todas essas dificuldades. O livro aqui está. É um livro em que não há animais que falam, nem fadas que protegem ou perseguem crianças, nem as feiticeiras que entram pelos buracos das fechaduras; há aqui descrições da natureza, cenas de família, hinos ao trabalho, à fé, ao dever; alusões ligeiras à história da pátria, pequenos contos em que a bondade é louvada e premiada.
Quanto ao estilo do livro, que os competentes o julguem. Fiz o possível para não escrever de maneira que parecesse fútil demais aos artistas e complicada demais ás crianças.
Se a tentativa falhar, restar-me-há o consolo de ter feito um esforço digno. Quis das à literatura escolar do Brasil um livro que lhe faltava.

O.B.


N.B. — Os editores declaram que este prefácio deixou de ser publicado na 1ª edição por esquecimento da oficina impressora.

Prefácio da 1ª edição

O autor deste livro destinado às escolas primárias do Brasil não quis fazer uma obra de arte: quis dar às crianças alguns versos simples e naturais, sem dificuldades de linguagem e métrica, mas, ao mesmo tempo, sem a exagerada futilidade com que costumam ser feitos os livros do mesmo gênero.


O que o autor deseja é que se reconheça neste pequeno volume, não o trabalho de um artista, mas a boa vontade com que um brasileiro quis contribuir para a educação moral das crianças de seu país.
Se, nas escolas, as crianças gostarem dos seus versos, o rimador das Poesias Infantis

ficará satisfeito, e dará por otimamente empregados o seu tempo e o seu trabalho.



A Avó

A avó, que tem oitenta anos,

Está tão fraca e velhinha!...

Teve tantos desenganos!

Ficou branquinha, branquinha,

Com os desgostos humanos.


Hoje, na sua cadeira,

Repousa, pálida e fria,

Depois de tanta canseira:

E cochila todo o dia,

E cochila a noite inteira.
Às vezes, porém, o bando

Dos netos invade a sala...

Entram rindo e papagueiando:

Este briga, aquele fala,

Aquele dança, pulando...
A velha acorda sorrindo.

E a alegria a transfigura;

Seu rosto fica mais lindo,

Vendo tanta travessura,

E tanto barulho ouvindo.
Chama os netos adorados,

Beija-os, e, tremulamente,

Passa os dedos engelhados,

Lentamente, lentamente,

Por seus cabelos doirados.
Fica mais moça, e palpita,

E recupera a memória,

Quando um dos netinhos grita:

“Ó vovó! conte uma história!

Conte uma história bonita!”
Então, com frases pausadas,

Conta histórias de quimeras,

Em que há palácios de fadas,

E feiticeiras, e feras,

E princesas encantadas...
E os netinhos estremecem,

Os contos acompanhando,

E as travessuras esquecem,

- Até que, a fronte inclinando

Sobre o seu colo, adormecem...

O Pássaro Cativo

Armas, num galho de árvore, o alçapão;

E, em breve, uma avezinha descuidada,

Batendo as asas cai na escravidão.


Dás-lhe então, por esplêndida morada,

A gaiola dourada;

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:

Porque é que, tendo tudo, há de ficar

O passarinho mudo,

Arrepiado e triste, sem cantar?


É que, crença, os pássaros não falam.

gorjeando a sua dor exalam,

Sem que os homens os possam entender;

Se os pássaros falassem,

Talvez os teus ouvidos escutassem

Este cativo pássaro dizer:


“Não quero o teu alpiste!

Gosto mais do alimento que procuro

Na mata livre em que a voar me viste;

Tenho água fresca num recanto escuro

Da selva em que nasci;

Da mata entre os verdores,

Tenho frutos e flores,

Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!

Pois nenhuma riqueza me consola

De haver perdido aquilo que perdi...

Prefiro o ninho humilde, construído

De folhas secas, plácido, e escondido

Entre os galhos das árvores amigas...

Solta-me ao vento e ao sol!

Com que direito à escravidão me obrigas?

Quero saudar as pompas do arrebol!

Quero, ao cair da tarde,

Entoar minhas tristíssimas cantigas!

Por que me prendes? Solta-me covarde!

Deus me deu por gaiola a imensidade:

Não me roubes a minha liberdade...

Quero voar! voar!...”
Estas cousas o pássaro diria,

Se pudesse falar.

E a tua alma, criança, tremeria,

Vendo tanta aflição:

E a tua mão tremendo, lhe abriria

A porta da prisão...


O Sol

Salve, sol glorioso! Ao teu clarão fecundo,

A natureza canta e se extasia o mundo.

Que tristeza, que dó, quando desapareces!

Vens, e a terra estragada e feia reverdeces;

Abres com o teu calor as sebes perfumadas;

Dás flores ao verdor das moitas orvalhadas;

Os ninhos aquecendo, as gargantas das aves

Dás gorjeios de amor, e harmonias suaves;

E, cintilando sobre os tufos de verdura,

Em cada ramo põe uma fruta madura.

A noite é como a morte; o dia é como a vida.

Ó Sol, quando te vais, a alma vaga perdida...
Os pensamentos mais são os filhos da treva:

Fogem, quando a brilhar, no horizonte se eleva

O Sol, pai to trabalho, o Sol, pai da alegria...
Salve, anúncio da Vida, e portador do Dia!

As Estrelas

Quando a noite cais, fica à janela,

E contempla o infinito firmamento!

Vê que planície fulgurante e bela!

Vê que deslumbramento!

Olha a primeira estrela que aparece

Além, naquele ponto do horizonte...

Brilha, tremula e vívida... Parece

Um farol sobre o píncaro do monte.
Com o crescer da treva,

Quantas estrelas vão aparecendo!

De momento em momento, uma se eleva,

E outras em torno dela vão nascendo.


Quantas agora!... Vê! Noite fechada...

Quem poderá contar tantas estrelas?

Toda a abóbada esta iluminada:

E o olhar se perde, e cansa-se de vê-las


Surgem novas estrelas imprevistas

Inda outras mais despontam...

Mas, acima das últimas avistas,

Há milhões e milhões que não se contam...


Baixa a fronte e medita:

— Como, sendo tão grande na vaidade,

Diante desta abóbada infinita

É pequenina e fraca a humanidade!





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