Bilac, Olavo



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A borboleta


Trazendo uma borboleta,

Volta Alfredo para casa.

Como é linda! é toda preta,

Com listas douradas na asa.
Tonta, nas mãos de criança,

Batendo as asas, num susto,

Quer fugir, porfia, cansa,

E treme, e respira a custo.


Contente, o menino grita:

“É a primeira que apanho,

Mamãe! vê como é bonita!

Que cores e que tamanho!


Como voava no mato!

Vou sem demora pregá-la

Por baixo do meu retrato,

Numa parede da sala.”


Mas a mamãe, com carinho,

Lhe diz: “Que mal te fazia,

Meu filho, esse animalzinho,

Que livre e alegre vivia?


Solta essa pobre coitada!

Larga-lhe as asas, Alfredo!

Vê como treme assustada...

Vê como treme de medo...


Para sem pena espetá-la

Numa parede, menino,

É necessário matá-la:

Queres ser um assassino?”


Pensa Alfredo... E, de repente,

Solta a borboleta... E ela

Abre as asas livremente,

E foge pela janela.


“Assim, meu filho! perdeste

A borboleta dourada,

Porém na estima crescente

De tua mãe adorada...


Que cada um cumpra a sorte

Das mãos de Deus recebida:

Pois só pode dar a Morte

Aquele que dá a Vida.”


Natal

Jesus nasceu! Na abóbada infinita

Soam cânticos vivos de alegria;

E toda a vida universal palpita

Dentro daquela pobre estrebaria...
Não houve sedas, nem cetins, nem rendas

No berço humilde em que nasceu Jesus...

Mas os pobres trouxeram oferendas

Para quem tinha de morrer na Cruz.


Sobre a palha, risonho, e iluminado

Pelo luar dos olhos de Maria,

Vede o Menino-Deus, que está cercado

Dos animais da pobre estrebaria.


Não nasceu entre pompas reluzentes;

Na humildade e na paz deste lugar,

Assim que abriu os olhos inocentes,

Foi para os pobres seu primeiros olhar.


No entanto, os reis da terra, pecadores,

Seguindo a estrela que ao presépio os guia.

Vêem cobrir de perfumes e de flores

O chão daquela pobre estrebaria.


Sobrem hinos de amor ao céu profundo;

Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!

Sobre esta palha está quem salva o mundo,

Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!


Natal! Natal! Em toda Natureza

Há sorrisos e cantos, neste dia...

Salve, Deus da Humildade e da Pobreza,

Nascido numa pobre estrebaria!




Os Reis Magos

Diz a Sagrada Escritura

Que, quando Jesus nasceu,

No céu, fulgurante e pura,

Uma estrela apareceu.
Estrela nova... Brilhava

Mais do que as outras; porém

Caminhava, caminhava

Para os lados de Belém.


Avistando-a, os três Reis Magos

Disseram: “Nasceu Jesus!”

Olharam-na com afagos,

Seguiram a sua luz.


E foram andando, andando,

Dia e noite a caminhar;

Viam a estrela brilhando,

sempre o caminho a indicar.


Ora, dos três caminhantes,

Dois eram brancos: o sol

Não lhes tisnara os semblantes

Tão claros como o arrebol


Era o terceiro somente

Escuro de fazer dó...

Os outros iam na frente;

Ele ia afastado e só.


Nascera assim negro, e tinha

A cor da noite na tez:

Por isso tão triste vinha...

Era o mais feio dos três!


Andaram. E, um belo dia,

Da jornada o fim chegou;

E, sobre uma estrebaria,

A estrela errante parou.


E os Magos viram que, ao fundo

Do presépio, vendo-os vir,

O Salvador deste mundo

Estava, lindo, a sorrir


Ajoelharam-se, rezaram

Humildes, postos no chão;

E ao Deus-Menino beijaram

A alava e pequenina mão.


E Jesus os contemplava

A todos com o mesmo amor,

Porque, olhando-os, não olhava

A diferença da cor...



Os Pobres

Aí vêem pelos caminhos

Descalços, de pés no chão,

Os pobres que andam sozinhos,

Implorando compaixão.
Vivem sem cama e sem teto,

Na fome e na solidão:

Pedem um pouco de afeto,

Pedem um pouco de pão.


São tímidos? São covardes?

Têm pejo? Têm confusão?

Parai quando os encontrardes,

E dá-lhes a vossa mão!


Guia-lhes os tristes passos!

Dá-lhes, sem hesitação,

O apoio de vossos braços,

Metade de vosso pão!


Não receies que, algum dia,

Vos assalte a ingratidão:

O prêmio está na alegria

Que tereis no coração.


Protegei os desgraçados,

Órfãos de toda a afeição:

E sereis abençoados

Por um pedaço de pão...



A Boneca

Deixando a bola e a peteca,

Com que inda há pouco brincavam,

Por causa de uma boneca,

Duas meninas brigavam.
Dizia a primeira: “É minha ! “

— “É minha!” a outra gritava;

E nenhuma se continha,

Nem a boneca largava.


Quem mais sofria (coitada!)

Era a boneca. Já tinha

Toda a roupa estraçalhada,

E amarrotada a carinha.


Tanto puxavam por ela,

Que a pobre rasgou-se ao meio,

Perdendo a estopa amarela

Que lhe formava o recheio.


E, ao fim de tanta fadiga,

Voltando a bola e a peteca,

Ambas, por causa da briga,

Ficaram sem a boneca...



O Inverno

Coro das quatro estações:
Cantemos, irmãs, dancemos!

Espantemos a tristeza!

E dançando, celebremos

A glória da Natureza!


O Inverno:
Sou a estação do frio;

O céu está sombrio,

E o sol não tem calor.

Que vento nos caminhos!

Tragos a tristeza aos ninhos,

E trago a morte à flor.


Há nevoa no horizonte,

No campo e sobre o monte,

No vale e sobre o mar.

Os pássaros se encolhem,

Os velhos se recolhem

À casa a tiritar.


Porém fora a tristeza!

Em breve a Natureza

Dá Flores ao jardim:

Abramos a janela!

Outra estação mais bela

Já vem depois de mim.


Coro das quatro estações:
Cantemos, irmãs, dancemos!

Espantemos a tristeza!

E dançando, celebremos

A glória da Natureza!



A Primavera

Coro das quatro estações:
Cantemos! Fora a tristeza!

Saudemos a luz do dia:

Saudemos a Natureza!

Já nos voltou a alegria!


A Primavera:
Eu sou a Primavera!

Está limpa a atmosfera,

E o sol brilha sem véu!

Todos os passarinhos

Já saem dos seus ninhos,

Voando pelo céu.


Há risos na cascata,

Nos lagos e na mata,

Na serra e no vergel:

Andam os beija-flores

Pousando sobre as flores,

Sugando-lhes o mel.


Dou vida aos verdes ramos,

Dou voz aos gaturamos

E paz aos corações;

Cubro as paredes de hera;

Eu sou a Primavera,

A flor das estações!


Coro das quatro estações:
Cantemos! Fora a tristeza!

Saudemos a luz do dia:

Saudemos a Natureza!

Já nos voltou a alegria!



O Verão

Coro das quatro estações:
Que calor, irmãs! Cantemos

Como ardem as ribanceiras

Cantemos, irmãs, dancemos,

À sombra destas mangueiras.


O Verão:
Sou o Verão ardente,

Que, vivo e resplendente,

Acaba de nascer;

Nas matas abrasadas,

O fogo das queimadas

Começa a se acender.


Tudo de luz se cobre...

Dou alegria ao pobre;

Na roça a plantação

Expande-se, viceja,

Com a vinda benfazeja

Do provido Verão.


Sou o Verão fecundo!

Nasce no céu profundo

Mais rútilo o arrebol...

A vida se levanta...

A Natureza canta...

Sou a estação do Sol!


Coro das quatro estações:
Que calor, irmãs! Cantemos

Como ardem as ribanceiras

Cantemos, irmãs, dancemos,

À sombra destas mangueiras.



O Outono

Coro das quatro estações:
Há tantos frutos nos ramos,

De tantas formas e cores!

Irmãs! enquanto dançamos,

Saíram frutos das flores!


O Outono:
Sou a estação mais rica:

A árvore frutifica

Durante esta estação;

No tempo da colheita,

A gente satisfeita

Saúda a Criação,


Concede a Natureza

O premio da riqueza

Ao bom trabalhador,

E enche, contente e ufana,

De júbilo a choupana

De cada lavrador.


Vede como o galho,

Molhado inda de orvalho,

Maduro o fruto cai...

Interrompendo as danças,

Aproveitai, crianças!

Os frutos apanhai!


Coro das quatro estações:
Há tantos frutos nos ramos,

De tantas formas e cores!

Irmãs! enquanto dançamos,

Saíram frutos das flores!



As formigas

Cautelosas e prudentes,

O caminho atravessando,

As formigas diligentes

Vão andando, vão andando...
Marcham em filas cerradas;

Não se separam; espiam

De um lado e de outro, assustadas,

E das pedras se desviam.


Entre os calhaus vão abrindo

Caminho estreito e seguro,

Aqui, ladeiras subindo,

Acolá, galgando um muro.


Esta carrega a migalha;

Outra, com passo discreto,

Leva um pedaço de palha;

Outra, uma pata de inseto.


Carrega cada formiga

Aquilo que achou na estrada;

E nenhuma se fatiga,

Nenhuma para cansada.


Vede! enquanto negligentes

Estão as cigarras cantando,

Vão as formigas prudentes

Trabalhando e armazenando.


Também quando chega o frio,

E todo o fruto consome,

A formiga, que no estio

Trabalha, não sofre fome...


Recorde-vos todo o dia

Das lições da Natureza:

O trabalho e a economia

São as bases da riqueza.



O Universo

(Paráfrase)



A Lua:
Sou um pequeno mundo;

Movo-me, rolo e danço

Por este céu profundo;

Por sorte Deus me deu

Mover-me sem descanso,

Em torno de outro mundo,

Que inda é maior do que eu.
A Terra:
Eu sou esse outro mundo;

A lua me acompanha,

Por este céu profundo...

mas é destino meu Rolar, assim tamanha,

Em torno de outro mundo,

Que inda é maior do que eu.


O Sol:
Eu sou esse outro mundo,

Eu sou o sol ardente!

Dou luz ao céu profundo...

Porém sou um pigmeu,

Que rolo eternamente

Em torno de outro mundo,

Que inda é maior do que eu.
O Homem:
Porque, no céu profundo,

Não há-de parar mais

O vosso movimento?

Astros! qual é o mundo,

Em torno ao qual rodais

Por esse firmamento?


Todos os Astros:
Não chega o teu estudo

Ao centro d’isso tudo,

Que escapa aos olhos teus!

O centro d’isso tudo,

Homem vaidoso, é Deus!




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