Bilac, Olavo



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Domingo


Domingo... Os sinos repicam

Na igreja, constantemente,

E todas as ruas ficam

Alegres, cheias de gente.
Todo um dia de ventura...

Como o domingo seduz!

O homem, cansado, procura

Ter paz, ter ar, e ter luz.


Paradas e sem trabalho,

Dormem na roça as enxadas;

Dormem a bigorna e o malho

Nas oficinas fechadas.


Também, meninos cansados,

Os vossos livros deixai!

Deixai lições e ditados!

Dormi! Sorri! Cantai!


Fechem-se as aulas! e o bando

Ruidoso das criancinhas

Livre se espalhe, voando,

Como um bando de andorinhas!


Deus, quando o mundo fazia,

Sete dias trabalhou,

E ao fim do sétimo dia

Do trabalho descansou...



Plutão


Negro, com os olhos em brasa,

Bom, fiel e brincalhão,

Era a alegria da casa

O corajoso Plutão.
Fortíssimo, ágil no salto,

Era o terror dos caminhos,

e duas vezes mais alto

Do que seu dono Carlinhos.


Jamais à casa chegara

Nem a sombra de um ladrão;

Pois fazia medo a cara

Do destemido Plutão.


Dormia durante o dia,

Mas, quando a noite chegava,

Junto à porta se estendia,

Montando guarda ficava.


Porém Carlinhos, rolando

Com ele ás tontas no chão,

Nunca saía chorando

Mordido pelo Plutão...


Plutão velava-lhe o sono,

Seguia-o quando acordado

O seu pequenino dono

Era todo o seu cuidado.


Um dia caiu doente

Carlinhos... Junto ao colchão

Vivia constantemente

Triste e abatido, o Plutão.


Vieram muitos doutores,

Em vão. Toda a casa aflita,

Era uma casa de dores,

Era uma casa maldita.


Morreu Carlinhos... A um canto,

Gania e ladrava o cão;

E tinha os olhos em pranto,

Como um homem, o Plutão.


Depois, seguiu o menino,

Segui-o calado e sério;

Quis ter o mesmo destino:

Não saiu do cemitério.


Foram um dia à procura

Dele. E, esticado no chão,

Junto de uma sepultura,

Acharam morto o Plutão.



O Boi


Quando ainda no céu não se percebe a aurora,

E ainda está molhando as árvores o orvalho,

Sai pelo campo afora

O boi, para o trabalho.
Com que calma obedece!

Caminha sem parar:

E o sol, quando aparece,

Já o encontra, robusto e manso, a trabalhar.


Forte e meigo animal! Que bondade serena

Tem na doce expressão da face resignada!

Nem se revolta, quando o lavrador, sem pena,

Para o instigar, lhe crava a ponta da aguilhada.


Cai-lhe de rijo o sol sobre o largo cachaço;

Zumbem moscas sobre ele, e picam-no sem dó;

Porém, indiferente às dores e ao cansaço,

Caminha o grande boi, numa nuvem de pó.


Lá vai pausadamente o grande boi marchando...

E, por ele puxado,

Larga e profundamente o solo retalhando,

Vai o possante arado.


Desce a noite. O luar fulgura sobre os campos.

Cessa a vida rural.

Há estrelas no céu. Na terra há pirilampos.

E o boi, para dormir, regressa ao seu curral...











A Vida


Na água do rio que procura o mar;

No mar sem fim; na luz que nos encanta;

Na montanha que aos ares se levanta;

No céu sem raias que deslumbra o olhar;
No astro maior, na mais humilde planta;

Na voz do vento, no clarão solar;

No inseto vil, no tronco secular,

— A vida universal palpita e canta!


Vive até, no seu sono, a pedra bruta...

Tudo vive! E, alta noite, na mudez

De tudo, – essa harmonia que se escuta
Correndo os ares, na amplidão perdida,

Essa música doce, é a voz, talvez,

Da alma de tudo, celebrando a Vida!

O Avô


Este, que, desde a sua mocidade,

Penou, suou, sofreu, cavando a terra,

Foi robusto e valente, e, em outra idade,

Servindo à Pátria, conheceu a guerra.
Combateu, viu a morte, e foi ferido;

E, abandonando a carabina e a espada,

Veio, depois do seu dever cumprido,

Tratar das terras, e empunhar a enxada.


Hoje, a custo somente move os passos...

Tem os cabelos brancos; não tem dentes...

Porém remoça, quando tem nos braços

Os dois netos queridos e inocentes.


Conta-lhes os seus anos de alegria,

Os dias de perigos e de glórias,

As bandeiras voando, a artilharia

Retumbando, e as batalhas, e as vitórias...


E fica alegre quando vê que os netos,

Ouvindo-o, e vendo-o, e lhe invejando a sorte,

Batem palmas, extáticos, e inquietos,

Amando a Pátria sem temer a morte!



Deus


Para experimentar Octávio, o mestre

Diz: “Já que tudo sabe, venha cá!

Diga em que ponto da extensão terrestre

Ou da extensão celeste Deus está!”
Por um momento apenas, fica mudo

Octávio, e logo esta resposta dá:

“Eu senhor mestre, lhe daria tudo,

Se me dissesse onde é que ele não está!”



O remédio


A Amelinha está doente,

Chora, tem febre, delira;

Em casa, está toda gente

Aflita, e geme, e suspira.
Chega o médico e a examina.

Tocando a fronte abrasada,

E o pulso da pequenina,

Diz alegre: “Não é nada!


Vou lhe dar uma receita.

Amanhã, o mais tardar,

Já de saúde perfeita

Há de sorrir e brincar.”


Vem o remédio. Amelinha

grita, faz manha, esperneia:

“Não quero!”

O pai se avizinha,

Mostrando-lhe a colher cheia:
“Toma o remédio, querida!

Dar-te-hei como recompensa,

uma boneca vestida

De seda e rendas, imensa...”


“— Não quero!”

Chega a titia:

“Amélia é boa, não é?

Se fosse boa, teria

Toda uma arca de Noé...”
“— Não quero!”
Prometem tudo:

Livros de figuras cheios,

Um vestido de veludo,

Brinquedos, jóias, passeios...


Teima Amelinha, faz manha.

E diz o pai, já com tédio:

“— Menina! você apanha,

Se não toma este remédio!”


E nada! a menina grita,

Sem querer obedecer.

Mas nisto, a mamãe aflita,

Põe-se a gemer e a chorar.

Logo Amelinha, calada,

Mansa, acolher segurando,

Sem já se queixar de nada,

Vai o remédio tomando.


“—Então? mau gosto sentiste?”

Diz o pai... E ela, apressada:

“— Para não ver mamãe triste,

Não sinto mau gosto em nada!”





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