Bilac, Olavo



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Justiça


Chega à casa, chorando, o Oscar. Abraça

Em prantos a Mamãe.

“Que foi, meu filho?”

—“Sucedeu-me, Mamãe, uma desgraça!

Outros, no meu colégio, com mais brilho,

Tiveram prêmios, livros e medalhas...

Só eu não tive nada!”

—“Mas porque não trabalhas?

porque é que, a uma existência dedicada

Ao trabalho e ao estudo,

Preferes os passeios ociosos?

Os outros, filho, mais estudiosos,

Pelas suas lições desprezam tudo...

Pois querias então que, vadiando,

Os outros humilhasses,

E que, os melhores prêmios conquistando,

Mais que os outros brilhasses?

Para outra vez, ao teu prazer prefere

O estudo! e o prêmio alcançarás sem custo:

E aprende: mesmo quando isso te fere,

É preciso ser justo!”



O Tempo


Sou o Tempo que passa, que passa,

Sem princípio, sem fim, sem medida!

Vou levando a Ventura e a Desgraça,

Vou levando as vaidades da Vida!
A correr, de segundo em segundo,

Vou formando os minutos que correm...

Formo as horas que passam no mundo,

Formo os anos que nascem e morrem.


Ninguém pode evitar os meus danos...

Vou correndo sereno e constante:

Desse modo, de cem em cem anos,

Formo um século, e passo adiante.


Trabalhai, porque a vida é pequena,

E não há para o Tempo demoras!

Não gasteis os minutos sem pena!

Não façais pouco caso das horas!























A Madrugada


Os pássaros, que dormiam

Nas árvores orvalhadas,

Já a alvorada anunciam

No silêncio das estradas.
As estrelas, apagando

A luz com que resplandecem,

Vão tímidas vacilando

Até que desaparecem.


Deste lado do horizonte,

Numa névoa luminosa,

O céu, por cima do monte,

Fica todo cor-de-rosa;


Daí a pouco, inflamado

Numa claridade intensa,

Se desdobra avermelhado,

Como uma fogueira imensa.


Os galos, batendo as asas,

Madrugadores, já cantam;

Já há barulho nas casas,

Já os homens se levantam,


O lavrador pega a enxada,

Mugem os bois à porfia;

— É a hora da madrugada

Saudai o nascer do dia!



Meio-dia

Meio-dia. Sol a pino.

Corre de manso o regato.

Na igreja repica o sino;

Cheiram as ervas do mato.
Na árvore canta a cigarra;

Há recreio nas escolas:

Tira-se, numa algazarra,

A merenda das sacolas.


O lavrador pousa a enxada

No chão, descansa um momento,

E enxuga a fronte suada,

Contemplando o firmamento.


Nas casas ferve a panela

Sobre o fogão, nas cozinhas;

A mulher chega à janela,

Atira milho às galinhas.


Meio-dia! O sol escalda,

E brilha, em toda a pureza,

Nos campos cor de esmeralda,

E no céu cor de turquesa...


E a voz do sino, ecoando

Longe, de atalho em atalho,

vai pelos campos, cantando

A Vida, a Luz, o Trabalho.



Ave Maria


Meu filho! termina o dia...

A primeira estrela brilha...

Procura a tua cartilha,

E reza a Ave Maria!
O gado volta aos currais...

O sino canta na igreja...

Pede a Deus que te proteja

E que dê vida a teus pais!


Ave Maria!... Ajoelhado,

Pede a Deus que, generoso,

Te faça justo e bondoso,

Filho bom, e homem honrado;


Que teus pais conserve aqui

Para que possas, um dia,

Pagar-lhes em alegria

O que sofreram por ti.


Reza, e procura o teu leito,

Para adormecer contente;

Dormirás tranqüilamente,

Se disseres satisfeito:


“Hoje, pratiquei o bem:

Não tive um dia vazio,

Trabalhei, não fui vadio,

E não fiz mal a ninguém.”



Meia Noite




O filho:
Ó Mamãe! quando adormecem

todos, num sono profundo,

Há mesmo almas do outro mundo,

Que aos meninos aparecem?


A mãe:
Não creias nisso! É tolice!

Fantasmas são invenções

Para dar medo aos poltrões:

Não houve ninguém que os visse.


Não há gigantes nem fadas,

Nem gênios perseguidores,

Nem monstros aterradores,

Nem princesas encantadas!


As almas dos que morreram

Não voltam à terra mais!

Pois vão descansar em paz

Do que na terra sofreram.


Dorme com tranqüilidade!

— Nada receia, meu filho,

Quem não se afasta do trilho

Da Justiça e da Bondade.



Os meses



I
Janeiro

Coro das crianças:
Venham os meses desfilando!

Cante cada um por sua vez!

Dancemos todos, escutando

O que nos conta cada mês...


Janeiro:
Eu sou o mês primeiro,

O cálido Janeiro!

Ouvi minha canção!

Dou festas e presentes...

E os corações contentes,

Quando apareço, estão.


Quando apareço, os sinos

Começam cristalinos,

A erguer o alegre som.

Trago para as crianças

Afagos, esperanças,

E festas de Ano-Bom.


Mas, se a alegria espalho,

Desejo que o trabalho

Vos possa reunir:

Meses, eu vos saúdo!

Eu sou o mês do estudo:

As aulas vão se abrir!


Coro das crianças:
Saia da roda o mês primeiro!

Prossiga a dança jovial!

E entre na roda Fevereiro,

Que é o belo mês do Carnaval!



II


Fevereiro

Coro das crianças:
Venham os meses desfilando!

Cante cada um por sua vez!

Dancemos todos, escutando

O que nos conta cada mês...


Fevereiro:
Fevereiro, muitas vezes,

No meio dos doze meses,

É o mês mais jovial.

É o mês da mascarada,

Da alegria desvairada,

Das festas do Carnaval.


Saem à rua os diabos,

De longos, vermelhos rabos,

E caras de horrorizar,

E o velho, que, dando o braço

Ao dominó, e ao palhaço,

Diz graçolas, a pular.


Brincai! por estes treze dias

De festas e de alegrias,

Os vossos livros deixai!

Para alegrar vossas almas,

Batei aos máscaras palmas,

— Depois... aos livros voltai!


Coro das crianças:
Saia da roda Fevereiro,

Pois já passou a sua vez!

Entre na roda o mês terceiro!

Venha outro mês! venha outro mês!




III
Março
Coro das crianças:
Venham os meses desfilando!

Venha cada um por sua vez!

Dancemos todos, escutando

O que nos conta cada mês.


Março:
Março, que se adianta,

Traz a Semana Santa,

Em que Jesus morreu:

Foi pela Humanidade

Que ele, todo bondade

Viveu e padeceu.


Há luto na cidade...

Quem se humilhar não há-de,

Pensando na Paixão?

Na igreja os órgãos cantam,

E as almas se levantam,

Cheias de gratidão.


Orai também, crianças!

E, suspendendo as danças,

Lembrai-vos de Jesus,

Que, mártir voluntário,

Morreu sobre o Calvário,

Nos braços de uma cruz.


Coro de crianças:
Março morreu! Prossiga a dança!

Prossiga a ronda juvenil!

E vamos ver que mês avança:

É o mês de Abril!

É o mês de Abril!


IV
Abril

Coro de crianças:
Passem os meses desfilando!

Venha cada um por sua vez!

Dancemos todos,escutando

O que nos conta cada mês!


Abril:
Eu sou Abril! O seio

Tenho cheiroso, e cheio

De frutos, e de flores.

Abril o outono encerra:

Já pesam sobre a terra

Os últimos calores.


Foi neste mês que, um dia,

O ódio da tirania

Um mártir consagrou.

Saudai o Tiradentes,

E os sonhos resplandentes

Que o seu Ideal sonhou!


Quis ver a Pátria amada

Do jugo libertada,

Digna do seu amor...

— Vós, decorai-lhe a história,

Honrando-lhe a memória!

Saudai o Sonhador!


Coro das crianças:
Um novo passo agora ensaio:

Dancemos todos outra vez!

Entre na toda o mês de Maio,

Saia da roda o quarto mês.




V
Maio

Coro de crianças:
Passem os meses desfilando!

Venha cada um por sua vez!

Dancemos todos, escutando

O que nos conta cada mês!


Maio:
Dai-me vivas! Dai-me palmas!

Exultem todas as almas,

Cheias de um vivo fulgor

Todo o Brasil, congregado,

Saúde o mês consagrado

da Liberdade e do Amor!


A grande raça oprimida

Abri as portas da vida,

As portas da redenção!
Mudei em risos as dores,

Mudei em tufos de flores

Os ferros da escravidão!
Treze de Maio! A desgraça

Findou de toda uma raça!

— Aos beijos, dando-se as mãos

Os brasileiros se uniram,

e o cativeiro aboliram,

Ficando todos irmãos.


Coro de crianças:
Maio já deu o seu recado...

Prossiga, em danças, a função!

Entre na roda o mês amado,

O alegre mês de São João!





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