Bilac, Olavo



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Ano Bom


Ano bom. De madrugada,

Bebê desperta, e, assustada,

Avista um vulto na cama.

Que será? Que medo! E, tonta,

Eis que Bebê se amedronta,

Chora, grita, chama, chama...
Mas, quando se abre a cortina,

Quando o quarto se ilumina,

Bebê, de pasmo ferida,

Vê que o medo não é justo:

pois a causa do seu susto

É uma boneca vestida.


Que linda! é gorda e corada,

Tem cabeleira dourada

E olhos cor do firmamento...

Põe-na no colo a criança,

E de olhá-la não se cansa,

Beijando-a a todo o momento.


Nisto a mamãe aparece.

Como Bebê lhe agradece,

Com beijos, risos e abraços!

— porém, logo, de repente,

Diz à mamãe, tristemente,

Prendendo-a muito nos braços:


“Mamãe! como sou ingrata!

Com tantos mimos me trata,

Tão boa, tão delicada!

Dá-me vestidos e fitas,

Dá-me bonecas bonitas,

E eu, mamãe, não lhe dou nada!...”


“Tolinha! (A mãe diz, num beijo)

As festas que eu mais desejo,

Ó minha filha, são estas:

A tua meiga bondade

E a tua felicidade...

Não quero melhores festas!”



As flores


Deus ao mundo deu a guerra,

A doença, a morte, as dores;

mas, para alegrar a terra,

Basta haver-lhe dado as flores.
Umas, criadas com arte,

Outras, simples e modestas,

Há flores por toda a parte

Nos enterros e nas festas,


Nos jardins, nos cemitérios,

Nos paúes e nos pomares;

Sobre os jazigos funéreos,

Sobre os berços e os altares,


Reina a flor! pois quis a sorte

Que a flor a tudo presida,

E também enfeite a morte,

Assim como enfeita a vida.


Amai as flores, crianças!

Sois irmãs nos esplendores,

Porque há muitas semelhanças

Entre as crianças e as flores...







O Rio


Da mata no seio umbroso,

No verde seio da serra,

Nasce o rio generoso,

Que é a providência da terra.
Nasce humilde, e, pequenino,

Foge ao sol abrasador;

É um fio d’água, tão fino,

Que desliza sem rumor.


Entre as pedras se insinua,

Ganha corpo, abre caminho,

Já canta, já tumultua,

Num alegre burburinho.


Agora o sol, que o prateia,

Todo se entrega, a sorrir;

Avança, as rochas ladeia,

Some-se, torna a surgir.


Recebe outras águas, desce

As encostas de uma em uma,

Engrossa as vagas, e cresce,

Galga os penedos, e espuma.


Agora, indômito e ousado,

Transpõe furnas e grotões,

Vence abismos, despenhado

Em saltos e cachoeirões.


E corre, galopa. cheio

De força; de vaga em vaga,

Chega ao vale, larga o seio,

Cava a terra, o campo alaga...


Expande-se, abre-se, ingente,

Por cem léguas, a cantar,

Até que cai, finalmente,

No seio vasto do mar...


Mas na triunfal majestade

Dessa marcha vitoriosa,

Quanto amor, quanta bondade

Na sua alma generosa!


A cada passo que dava

O nobre rio, feliz

Mais uma árvore criava,

Dando vida a uma raiz.


Quantas dádivas e quantas

Esmolas pelos caminhos!

Matava a sede das plantas

E a sede dos passarinhos...


Fonte de força e fartura,

Foi bem, foi saúde e pão:

Dava às cidades frescura,

Fecundidade ao sertão...


E um nobre exemplo sadio

Nas suas águas se encerra;

Devemos ser como o rio,

Que é providência da terra:


Bendito aquele que é forte,

E desconhece o rancor,

E, em vez de servir a morte,

Ama a Vida, e serve o Amor!



A Infância

O berço em que, adormecido,

Repousa um recém-nascido,

Sob o cortinado e o véu,

Parece que representa,

Para a mamãe que o acalenta,

Um pedacinho do céu.
Que júbilo, quando, um dia,

A criança principia,

Aos tombos, a engatinhar...

Quando, agarrada às cadeiras,

Agita-se horas inteiras

Não sabendo caminhar!


Depois, a andar já começa,

E pelos móveis tropeça,

Quer correr, vacila, cai...

Depois, a boca entreabrindo,

Vai pouco a pouco sorrindo,

Dizendo: mamãe... papai...


Vai crescendo. Forte e bela,

Corre a casa, tagarela,

Tudo escuta, tudo vê...

Fica esperta e inteligente...

E dão-lhe, então, de presente

Uma carta de A.B.C...




A Mocidade


A Mocidade é como a Primavera!

A alma, cheia de flores, resplandece,

Crê no Bem, ama a vida, sonha e espera,

E a desventura facilmente esquece.
É a idade da força e da beleza:

Olha o futuro, e inda não tem passado:

E, encarando de frente a Natureza,

Não tem receio do trabalho ousado.


Ama a vigília, aborrecendo o sono;

Tem projetos de glória, ama a Quimera;

E ainda não dá frutos como o outono,

Pois só dá flores como a Primavera!



A velhice




O neto:
Vovó, por que não tem dentes?

Por que anda rezando só.

E treme, como os doentes

Quando têm febre, vovó?


Por que é branco o seu cabelo?

Por que se apóia a um bordão?

Vovó, porque, como o gelo,

É tão fria a sua mão?


Por que é tão triste o seu rosto?

Tão trêmula a sua voz?

Vovó, qual é seu desgosto?

Por que não ri como nós?


A Avó:
Meu neto, que és meu encanto,

Tu acabas de nascer...

E eu, tenho vivido tanto

Que estou farta de viver!


Os anos, que vão passando,

Vão nos matando sem dó:

Só tu consegues, falando,

Dar-me alegria, tu só!


O teu sorriso, criança,

Cai sobre os martírios meus,

Como um clarão de esperança,

Como uma benção de Deus!



As velhas árvores


Olha estas velhas árvores, — mais belas,

Do que as árvores moças, mais amigas,

Tanto mais belas quanto mais antigas,

Vencedoras da idade e das procelas...
O homem, a fera e o inseto à sombra delas

Vivem livres de fomes e fadigas;

E em seus galhos abrigam-se as cantigas

E alegria das aves tagarelas...


Não choremos jamais a mocidade!

Envelheçamos rindo! envelheçamos

Como as árvores fortes envelhecem,
Na glória da alegria e da bondade,

Agasalhando os pássaros nos ramos,

Dando sombra e consolo aos que padecem!


O Trabalho


Tal como a chuva caída

Fecunda a terra, no estio,

Para fecundar a vida

O trabalho se inventou.
Feliz quem pode, orgulhoso,

Dizer: “Nunca fui vadio:

E, se hoje sou venturoso,

Devo ao trabalho o que sou!”


É preciso, desde a infância,

Ir preparando o futuro;

Para chegar à abundância,

É preciso trabalhar.


Não nasce a planta perfeita,

Não nasce o fruto maduro;

E, para ter a colheita,

É preciso semear...



A Coragem


Não sejas nunca medroso!

Fraco embora, tem coragem!

Para fazer a viagem

Da vida, sem hesitar,

É preciso, de alma forte,

Sem ostentar valentia,

Dominar a covardia,

Para o perigo enfrentar.
O medo é próprio do pérfido,

Do pecador, do malvado:

Quem não se entrega ao pecado

Não receia a punição.

Não tem medo quem caminha

Com a consciência tranqüila,

Quem o inimigo aniquila

Com a força da razão!


Não abuses da bravura;

Não afrontes o inimigo;

Não procures o perigo;

Prega o amor! e prega a paz!

Mas, se isso for impossível,

Não fujas! cai batalhando!

E, se morreres lutando,

Morre! feliz morrerás.







Modéstia


Se a todos os condiscípulos

Te julgas superior,

Esconde o mérito, e cala-te

Sem ostentar teu valor.
Valem mais que a inteligência,

A constância e a aplicação:

Sê modesto! estuda, aplica-te,

E foge da ostentação!


Mais vale o mérito próprio

Sentir, guardar e ocultar:

Porque o verdadeiro mérito

Não gosta de se mostrar.



O Credo


Crê no Dever e na Virtude!

É um combate insano e rude

A vida, em que tu vais entrar.

Mas, sendo bom, com esse escudo,

Serás feliz, vencerás tudo:

Quem nasce, vem para lutar.
E crê na Pátria!

Inda que a vejas,

Preza de idéias malfazejas,

Em qualquer época, infeliz,

— Não a abandones! porque a Glória

Inda hás de ver numa vitória

Mudar cada uma cicatriz.
E crê no bem! inda que, um ida,

No desespero e na agonia,

Mais desgraçado que ninguém,

Te vejas pobre e injuriado,

De toda a gente desprezado,

— Perdoa o mal! E crê no Bem!


E crê no Amor! Se pode a guerra

Cobrir de sangue toda a terra,

Levando a tudo a assolação,

— Mais pode, límpida e sublime,

Caindo sobre um grande crime

Uma palavra de perdão!



A Pátria


Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!


Criança! não verás nenhum país como este!

Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!

A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,

É um seio de mãe a transbordar carinhos.

Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,

Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!

Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!

Vê que grande extensão de matas, onde impera

Fecunda e luminosa, a eterna primavera!

Boa terra! jamais negou a quem trabalha

O pão que mata a fome, o teto que agasalha...
Quem com seu suor a fecunda e umedece,

vê pago o sue esforço, e é feliz, e enriquece!


Criança! não verás país nenhum como este:

Imita na grandeza a terra em que nasceste!



A Casa


Vê como as aves têm, debaixo d’asa,

O filho implume, no calor do ninho!...

Deves amar, criança,a tua casa!


Ama o calor do maternal carinho!
Dentro da casa em que nasceste és tudo...

Como tudo é feliz, no fim do dia,

Quando voltas das aulas e do estudo!

Volta, quando tu voltas, a alegria!


Aqui deves entrar como num templo,

Com a alma pura, e o coração sem susto:

Aqui recebes da Virtude o exemplo,

Aqui aprendes a ser meigo e justo.


Ama esta casa! Pede a deus que a guarde,

Pede a Deus que a proteja eternamente!

Porque talvez, em lágrimas, mais tarde,

Te vejas, triste, d’esta casa ausente...


E, já homem, já velho e fatigado,

Te lembrarás da casa que perdeste,

E hás de chorar, lembrando o teu passado...

— Ama, criança, a casa em que nasceste!



A Rã e o Tesouro

(fábula de Esopo)

Pastava um touro enorme e forte, à beira d’água.

Vendo-o tão grande, a rã, cheia de inveja e mágoa,

Disse: “Por que razão hei de ser tão pequena,

Que aos outros animais só faça nojo e pena?

Vamos|! quero ser grande! incharei tanto, tanto,

Que, imensa, causarei às outras rãs espanto!”
Pôs-se a comer e a inchar. E às rãs interrogava:

Já vos pareço um touro?” E inchava, inchava, inchava!

Mas em vão! tanto inchou que, num tremendo estouro,

Rebentou e morreu, sem ficar como o touro.


Essa tola ambição da rã que quer ser forte

Muitos homens conduz ao desespero e à morte.

Gente pobre, invejando a gente que é mais rica,

Quer como ela gastar, e inda mais pobre fica:

— Gasta tudo o que tem, o que não tem consome,

E, por querer ter mais, vem a morrer de fome.



















O Soldado e a Trombeta


(fábula de Esopo)

Um velho soldado

Um dia por terra

A espada atirou;

Da guerra cansado,

Com nojo da guerra.

As armas quebrou.
Entre elas estava

Trombeta esquecida:

Era ela que no ar

Os toques soltava,

E à luta renhida

Tocava a avançar.


E disse: “Meu dono,

É justo que a espada

Tu quebres assim!

Mas que, no abandono,

Fique eu sossegada!

Não quebres a mim!


Cantei tão somente...

Não sejas ingrato

Comigo também!

Eu sou inocente:

Não piso, não mato,

Não firo a ninguém...


Nas horas da luta

Alegre ficavas,

Ouvindo o meu som.

Atende-me! escuta!

Se então me estimavas,

Agora sê bom!”


E o velho guerreiro

Lhe disse: “Maldita!

Prepara-te! sús!

Teu som zombeteiro

As gentes excita,

À guerra conduz!”


Terrível, irado,

Jogou-a por terra,

Sem dó a quebrou...

E o velho soldado,

Cansado da guerra

Por fim repousou.



O leão e o Camundongo


(fábula de Esopo)

Um camundongo humilde e pobre

Foi um dia cair nas garras de um leão.

E esse animal possante e nobre

Não o matou por compaixão.
Ora, tempos depois, passeando descuidoso,

Numa armadilha o leão caiu:

Urrou de raiva e dor, estorceu-se furioso...

Com todo o seu vigor as cordas não partiu.


Então, o mesmo fraco e pequenino rato

Chegou: viu a aflição do robusto animal,

E, não querendo ser ingrato,

Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal...


Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo,

Pode sempre trazer em paga outro favor.

E o mais forte de nós, do orgulho esquecendo,

Deve os fracos tratar com caridade e amor.



O Lobo e o Cão


(fábula de Esopo)

Encontraram-se na estrada

Um cão e um lobo. E este disse:

“Que sorte amaldiçoada!

Feliz seria, se um ida

Como te vejo me visse.

Andas gordo e bem tratado,

Vendes saúde e alegria:

Ando triste e arrepiado,

Sem ter onde cair morto!

Gozas de todo o conforto,
E estás cada vez mais moço;

E eu, para matar a fome,

Nem acho às vezes um osso!

Esta vida me consome...

Dize-me tu, companheiro:

Onde achas tanto dinheiro?”

Disse-lhe o cão:

“Lobo amigo!

Serás feliz, se quiseres

Deixar tudo e vir comigo;

Vives assim porque queres...

Terás comida à vontade,

Terás afeto e carinho,

Mimos e felicidade,

Na boa casa em que vivo!”
Foram-se os dois. em caminho,

Disse o lobo, interessado:

“Que é isto? Por que motivo

Tens o pescoço esfolado”

— “É que, às vezes, amarrado

Me deixam durante o dia...”


“Amarrado? Adeus amigo!

(Disse o lobo) Não te sigo!

Muito bem me parecia

Que era demais a riqueza...

Adeus! inveja não sinto:

Quero viver como vivo!

Deixa-me, com a pobreza!

— Antes livre, mas faminto,

Do que gordo, mas cativo!”

Hino à Bandeira Nacional


Salve, lindo pendão da esperança!

Salve, símbolo augusto da paz!

Tua nobre presença à lembrança

A grandeza da Pátria nos traz.
Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito juvenil,

Querido símbolo da terra,

Da amada terra do Brasil!


Em teu seio formoso retratas

Este céu de puríssimo azul,

A verdura sem par destas matas,

E o esplendor do Cruzeiro do Sul...


Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito juvenil,

Querido símbolo da terra,

Da amada terra do Brasil!


Contemplando o teu vulto sagrado,

Compreendemos o nosso dever:

E o Brasil, por seus filhos amado,

Poderoso e feliz há de ser!


Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito juvenil,

Querido símbolo da terra,

Da amada terra do Brasil!


Sobre a imensa nação brasileira,

Nos momentos de festa ou de dor,

Paira sempre, sagrada bandeira,

Pavilhão da justiça e do amor!


Recebe o afeto que se encerra

Em nosso peito juvenil,

Querido símbolo da terra,

Da amada terra do Brasil!



Hino à Bandeira - partituras

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