Biografias de grandes iniciados do fogo



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CURSO XXV

Biografia dos

Grandes Iniciados do Fogo

Ensinança 1: A Morte de Cleópatra

Antes de começar o relato de algumas vidas de Iniciados do Fogo do Signo do Pescador – a era na qual o sentimento desempenharia um papel tão importante na luta entre o amor e o ódio – convém conhecer a de um Iniciado do Fogo da época pré-cristã.

Para isso escolheu-se Cleópatra, uma das figuras históricas mais discutidas. Seu nome chegou a ser sinônimo de perfídia, pois os deuses sempre se tornam demônios em mãos dos conquistadores.

No Signo de Apis, sobretudo no final, a grande unidade expressiva dos valores diretivos, culturais e espirituais, começava a se ressentir, provocando, com seu desmoronamento, um predomínio da mente sobre o coração, predomínio que se manifestava como crueldade e despotismo, se bem que ficasse de pé a antiga força do poder e do valor.

Cleópatra encarna a decadência definitiva de Apis, aparecendo com todas as deficiências de sua raça caduca e com toda a grandeza atávica de seu extraordinário saber e responsabilidade diretiva. Sua obra é a de avivar a chama na última hora para trasladar a tocha aos anais akásicos e deixar sua figura, enroscada pela áspide, incisa na história como testemunho misterioso do passado.

É a hora solene da morte. Mas desta vez não é somente da morte de um ser; é a de uma Rainha Iniciada. Hora da morte de Cleópatra e, com ela, a do reino egípcio, da dinastia dos Ptolomeus e da raça poderosa das pirâmides. Alexandria, que Cleópatra quis tornar a levantar como cabeça do Oriente e exemplo do mundo, último baluarte dos faraós helenistas conquistados pelos romanos, está rodeada pelo gelo da morte.

Já o pão de Deus, a sabedoria dos livros - encarnada em sua grandiosa biblioteca - não existe; foi levada pelas chamas de um grande incêndio.

O potente farol que iluminava seu porto e que se acendia misteriosamente, movido por quem sabe que fórmula sacerdotal de correntes elétricas, também foi destruído.

As cúpulas de ouro da grande cidade estão envoltas num manto fúnebre. Fantasmas aparecem dentro da noite anunciando o fim próximo e forças sísmicas sacodem a Terra durante vários dias, como presságio de um terrível advento.

E não é presságio de morte o silencioso desespero da Rainha? Cleópatra já não pede aos Reis do Oriente que se unam a ela e venham em seu auxílio, para derrotar o inimigo latino; já não urde tramas nem experimenta venenos mortais nem cinge sua coroa sobre a fronte.

Sua tranqüilidade é demasiado grande para crer que se tenha resignado à derrota e à perda de seu reino.

Além disso, seus fiéis a ouvem murmurar: “Não me arrastará atrás dele; não me levará em seu cortejo”. Otávio daria sua mão direita para entrar em Roma levando amarrada a seu carro a Rainha do Egito, como César havia feito com sua irmã Arsinoe.

Mas não com ela; será rainha até o fim.

Mesmo na tarde fúnebre, quando caminha para o Mausoléu para se encerrar nele toda vestida de azul - luto das viúvas do Egito - uma secreta aspiração a anima: que o poder espiritual dos faraós possa dominar o poder das armas e da organização dos romanos.

Com ela estão os tesouros do Egito, o corpo de seu esposo Marco Antonio e seus mais fiéis amigos e servidores.

Chora ajoelhada sobre o sarcófago que encerra o corpo do homem que tanto amou, mas suas lágrimas não são de dor.

Uma mulher assim não pode sofrer por amor.

Ela tem um ideal; ela só pertence a esse ideal: reconstruir a grandeza do Egito.

Esse foi o grande delito de Cleópatra: ser fiel a seu ideal.

Quis reviver o poder dos egípcios, herdeiros dos atlantes; restabelecer o reinado da sabedoria do espírito. Mas fracassou.

Para consegui-lo passou sobre mil mortes e mil claudicações. Sobrepôs-se aos sentimentos que fazem a vida diária agradável ou desagradável; chegou até o umbral da divindade mental. Mas agora tem que dar passagem à era do ódio e do amor.

Na última hora, toda a potencialidade de sua força mental está concentrada nisto: ou manter seu reino ou saber morrer como Rainha e trasladar-se voluntariamente ao mundo astral, com toda a grandeza de seu poderio e de seu cortejo.

Os espiões de Otávio - que querem conservar sua vida a todo custo - vigiam-na estritamente; mas a Rainha, calmamente, pensa.

Foi educada pelos Sacerdotes de Amon que conhecem os mecanismos mais secretos do corpo humano e também a arte de morrer, não pode usar este derradeiro recurso porque o juramento iniciático a liga a outras seis pessoas, que deveriam, nesse caso, morrer com ela. Se um morrer, os sete devem morrer. Existia entre os juramentados um laço magnético que não permitia fazer efetiva a força destrutiva no organismo se os sete não o consentissem ao mesmo tempo.

Concentra-se mais e mais.

Sua única esperança de salvar a grandeza do Egito está posta em seu filho Cesário, que foge. Mas ao chegar a notícia de que ele foi traído e morto, a Rainha perde toda a esperança de salvação.

Resta-lhe um último triunfo: morrer de morte psíquica.

Os poderosos e organizados romanos, tão grandes energeticamente, como pobres em sabedoria, jamais compreenderam o mistério da morte de Cleópatra, e tiveram de conformar-se em acreditar que uma cobra a havia envenenado, construindo depois uma estátua que representava a Rainha Iniciada nessa atitude.

É que o fiel discípulo da Rainha respondeu ironicamente ao emissário romano que se apresentou para reclamá-la: “Morreu, a serpente divina a picou”.

E havia morrido assim, verdadeiramente. A serpente interior do poder vital impulsionada pela vontade consciente de Cleópatra, a havia ferido de morte, a ela e a seus seis companheiros.

Assim morreu Cleópatra. Assim, conscientemente, entrou no reino das sombras com seu cortejo real.

Mas, há algo que deve ser aclarado. Onde havia aprendido o mistério excelso da consciente transmutação?

Foi ela educada pelos Sacerdotes do Templo de Armakis, onde se conservava o colégio sacerdotal mais antigo, que descendia em linha direta dos antigos sacerdotes atlantes.

Se bem que estes sacerdotes tenham sido, no princípio, inimigos acérrimos dos Ptolomeus e que tenham facilitado a morte e a desgraça de mais de um deles, tiveram, no entanto, que se render ante seus descendentes que se haviam adaptado inteiramente aos costumes egípcios e eram, por seu espírito dominador e vigoroso, os únicos que podiam defender o cambaleante trono dos faraós.

Isto é demonstrado pelo costume que haviam adotado, completamente egípcio e faraônico, de casar os irmãos entre si para que dirigissem o destino do reino.

Cleópatra, reencarnação da antiga rainha atlante de Soma Mu, unia à desmedida ambição para reinar e à sua extraordinária beleza física, a concepção clara de que o Egito estava para perecer ante o Império Romano se não o impedisse o esforço poderoso de alguns de seus dirigentes.

Ela reuniu em si este esforço supremo.

O lema de toda sua vida foi este: ou conservar a grandeza do Egito íntegra ou levar consigo, através da morte, a dignidade e a grandeza do reino extinto.

Desde os quatorze anos foi educada no Templo, onde lhe foram ensinadas as doutrinas secretas de matar os inimigos e de se destruir a si mesma, se fosse necessário. Numa palavra, foram-lhe entregues as chaves da vida e da morte.

O Sumo Sacerdote de Armakis, que lhe ensinou o segredo, tem também a chave do Tabernáculo onde se guardam os tesouros intactos de Ramsés II e, com eles, a maldição que levará aquele que chegar a tocá-los.

Mas, como poderá conquistar e fazer frente ao poderoso Império Romano uma Rainha sem riquezas?

Toma o lugar do Sumo Sacerdote e jura usar o tesouro somente para a grandeza do Egito. Este ato, ainda que realizado por uma forte inspiração idealista, não a livra de arcar com as forças do mal, provenientes das emanações negativas que envolviam os túmulos faraônicos.

E chegará o dia em que ela usará os tesouros do Templo para salvar desesperadamente a herança dos Ptolomeus.

Ao cumprir este ato extremo, Cleópatra levará consigo, em seu séqüito, ao mundo astral, também os poderes do mal da velha raça.

É preciso olhar o Iniciado do tempo de Apis em seus dois aspectos: grandeza no bem e no mal, mas fiel sobretudo a seu ideal.

A Rainha preparou regiamente os detalhes da última hora. Colocou sobre seus ombros o manto real bordado de amarelo e branco, salpicado de safiras. Pôs sobre sua cabeça a tríplice coroa faraônica que representa o domínio sobre o mundo, sobre os mortos e sobre os espíritos.

Fez com que se fechassem hermeticamente todas as portas do mausoléu e sentou-se em seu trono, rodeada por seus fiéis discípulos.

Resolutamente, estão dispostos a passar para o país da morte. Olham-se fixamente nos olhos uns dos outros e um ligeiro estremecimento percorre os membros e, especialmente, os ombros dos místicos suicidas. Lentamente começam a adormecer, a ser invadidos pelo aprazível e agradável sono anunciador do fim.

Mas, por que não morrem ainda? pergunta-se o fiel discípulo que, atrás da porta, aguarda a hora solene. É que a consciência latente ainda está percorrendo, retrospectivamente, os caminhos de suas vidas.

Mas terminaram. Um grito, um estremecimento, um cair repentino, um sorriso...e nada mais.

A Rainha entrou na região das sombras.

Além, vislumbra seu novo reinado: o reinado da paz.

Toda sua corte a espera. Adianta-se primeiro o Sumo Sacerdote de Armakis: “Ó Rainha, diz-lhe, aqui venho para buscar-te e para render-te vassalagem. Vês, atrás de mim, esta infinidade de seres? São teus súditos, os que te acompanharão em teu novo reino. Teu sonho de poder e de grandeza não foi em vão. Aqui uniremos nossas forças, forjaremos uma nova grandeza e sabedoria e, quando for nossa hora, voltaremos à Terra para realizar nossos sonhos num mundo e num povo novos. Forjaremos um reinado onde o amor dos filhos do Pescador não signifique desprezo e humilhação, mas beleza, poder e grandeza”.

Ensinança 2: Amônio Saccas e o Neoplatonismo

A cultura grega penetrou no mundo cristão, primeiro através do neoplatonismo pagão, e depois por meio da adaptação deste aos dogmas e ensinanças cristãs.

No século II, Alexandria já não era a florescente cidade dos Ptolomeus.

A Academia Filosófica, fundada por Auletes, havia decaído enormemente e os luminares intelectuais da época já não a freqüentavam.

Os romanos que conquistavam todos os países e destruíam todas as relíquias, fizeram da filosofia grega sua tributária, relegando a religião egípcia.

Não obstante, os imigrantes judeus e os novos cristãos haviam contribuído para um renascimento no estudo das filosofias, com o afã de adaptá-las a seus respectivos credos.

Este movimento deu vida à escola eclética, à qual pertenceram homens ilustres como Clemente de Alexandria, São Justino Mártir e Antenágoras.

O cristianismo nascente, que havia traçado um plano de trabalho especialmente dogmático para contrabalançar as numerosas heresias, começou a olhar este novo movimento com desconfiança, mesmo quando figuras eminentes de seu credo pertencessem ao mesmo. Finalmente, houve uma separação definitiva.

Isto favoreceu o florescimento do neoplatonismo.

Amônio Saccas havia nascido em Alexandria, no século II, de pais cristãos. Desde pequeno mostrou aptidões extraordinárias. Durante os ofícios divinos não podia seguir as preces vocais e ficava como extasiado, diz ele, absorto numa idéia luminosa. Este hábito de se abstrair das coisas materiais lhe valeria mais tarde o sobrenome de Theodidaktos (instruído por Deus).

Sendo muito jovem ainda, entrou na escola de Clemente de Alexandria e aprendeu com ele a amar intensamente a escola acadêmica, que não abandonaria durante o resto de sua vida.

Nessa ocasião, os cristãos haviam-se declarado abertamente contrários às idéias culturais gregas. O Bispo de Alexandria lançou o primeiro grito: “Com Cristo ou com os gregos”. Os mais fanáticos invadiram as escolas, saquearam as bibliotecas e os textos foram alimento das chamas. Foi tal a indignação de Amônio que rompeu definitivamente com o cristianismo.

Nesses dias, uma visão admirável se mostrou a ele: viu uma montanha coroada por um fogo perene e uma mulher de brancas vestes que o conduzia até a boca, da cratera mostrando-lhe, sobre as chamas, diferentes quadros que se refletiam no lume. Toda a história do mundo passava por ali; via as civilizações perdidas, as diversas religiões, via nascerem, surgirem e desaparecerem todos os povos. Só o fogo continuava brilhando e brilhando.

Desde então a missão de Amônio Saccas foi traçada para sempre: o fogo é um, muitas são as sombras que suas chamas projetam. E considerou o cristianismo como um grande ideal humano-religioso, mas não único.

Grandes homens se reuniram a seu redor, admirados por sua inesgotável sabedoria e ansiosos por serem dirigidos por ele. Isto o decidiu a fundar a escola neoplatônica que ele chamou Filaletea e que se dividiu depois em analogista e teurgista.

Desta escola saíram: o extático Plotino, o divino Porfírio, o insuperável Jâmblico, o tenaz Orígenes e o devoto Herênio.

O neoplatonismo triunfou por dois séculos, mas a mão de ferro do cristianismo esperava o momento oportuno para se apoderar de sua essência e depois destruí-lo.

A escola neoplatônica era dirigida então por Hipatia, filha do matemático Theon, que havia aprendido de seu pai a álgebra do número e do Universo. Foi ela quem ensinou a doutrina eterna ao Bispo Sinésio e que ele transmitiu naquele admirável “Livro da pedra filosofal”. Mas Hipatia tinha um inimigo terrível em Cirilo, sobrinho do Bispo Teófilo de Alexandria. Era um homem severo, fanático e muito zeloso de seu dogma; mais tarde, tornar-se-ia famoso no Concílio de Éfeso.

Em vão Cirilo havia tentado convencer a sábia jovem de que se fizesse cristã. O povo fanático acreditou-se açoitado por Deus através de alguns anos de miséria; e Cirilo afirmou que a culpa era de Hipatia por não querer abdicar de suas crenças.

Então, foram buscá-la. Rasgaram sua branca túnica de virgem pagã, arrastaram-na para fora da cidade e lapidaram-na ignominiosamente.

Teriam que passar treze séculos antes que Marcílio Ficino fundasse em Florença a Academia Escolar, que marcou o renascimento do neoplatonismo.

Herênio foi discípulo de Amônio Saccas. Conhece-se dele somente um traço, relatado por Porfírio, em sua “Vida de Plotino”.

Amônio Saccas lhe havia dado o dom de iniciá-lo na parte mais secreta de sua doutrina, da mesma forma que a Plotino e a Orígenes. Os três se comprometeram mutuamente a não divulgar jamais as ensinanças de seu Mestre. Tendo Herênio faltado a sua palavra, os dois restantes se acreditaram liberados de seu juramento.

Orígenes, o cristão, pertence ao período de alumbramento teológico que se seguiu à pregação do Evangelho. As novas noções sobre Deus e sobre o mundo que as ensinanças de Jesus continham, precisavam ser desenvolvidas, redigidas e constituídas em corpo de doutrina.

Daí o imenso trabalho que dariam, nos séculos seguintes, certas obras como a da Redenção, a Trindade, a Graça, a Encarnação, etc.

Estes dogmas apareceram a princípio somente sob formas obscuras, confusas e, por conseguinte, indecisas. É possivelmente Orígenes o primeiro que compreendeu a necessidade de reuni-las e de sistematizá-las; mas, para poder cumprir esta obra tão laboriosa, era-lhe indispensável o apoio da filosofia.

Profundo conhecedor das filosofias antigas, empregou todo o poderio de seu gênio em conciliar a dupla autoridade da fé e da razão. É isto o que lhe outorga um caráter particular e o distingue na história intelectual dos primeiros séculos da Igreja.

Nascido em Alexandria por volta do ano 185, de pais cristãos, mas educado no estudo das ciências gregas, Orígenes demonstrou desde sua infância uma viva inteligência. Como lhe faziam aprender de cor passagens das Escrituras, não podia se contentar com seu sentido literal e procurava sempre uma interpretação mais elevada. Teve por Mestres São Clemente e São Panteno, que foram os primeiros a ensinar filosofia cristã em Alexandria. São Clemente o iniciou no platonismo e São Panteno no estoicismo.

O pai de Orígenes, Leônidas, foi preso durante as perseguições que, por ordem do Imperador Septímio Severo foram dirigidas contra os cristãos de Alexandria. Unicamente os rogos da mãe puderam impedir que o jovem seguisse as pegadas de seu pai e afrontasse o martírio que seu progenitor sofreu no ano 202. Orígenes tinha então dezessete anos.

Para poder sustentar sua mãe e seis irmãos, teve que se dedicar ao ensino da gramática. Havia terminado em Alexandria o livre exercício da religião cristã. São Clemente, ameaçado por seus perseguidores, havia-se refugiado na Capadócia. Os cristãos, privados de ensinança religiosa, juntaram-se ao redor do jovem professor que retomou os estudos teológicos com renovado ardor. Conseguiu brilhantes conversões e Demetrius, Bispo de Alexandria, o colocou, na idade de vinte anos, na cátedra de São Clemente e São Panteno.

Começa então para ele uma época de trabalho, de atividade intelectual e de austeridades.

Partidário das idéias orientalistas que consideravam o corpo como inimigo, esgotava-se à custa de jejuns e macerações. Para dominar as tentações carnais, chegou a mutilar-se por suas próprias mãos. Este ato - de que se arrependeria mais tarde – convém ser destacado, por ser um sinal evidente de sua doutrina que considerava o corpo como um inimigo da alma, e por ser a causa primeira de suas desgraças posteriores. Reconheceu mais tarde que a luta contra os sentidos deve ser exercida com a própria energia do espírito; é na alma que se devem domar as paixões sem atentar contra o corpo.

Sua obra principal, “Os Princípios”, foi um esforço para abraçar a doutrina cristã em seu conjunto e cimentá-la sobre princípios gerais e científicos.

A maior parte de suas obras chegou até nós através da tradução latina feita por Rufino, o qual alterou os textos nas passagens mais audaciosas, sobretudo no da Trindade, para torná-lo mais ortodoxo. É ali onde se descobre o plano de Orígenes; plano audaz para sua época, de apresentar os princípios fundamentais do cristianismo num conjunto sistematizado.

Talvez pelo fato de que este ensaio tivesse algo de audaz, resultou malogrado. Este escrito foi o que atraiu para ele, ser censurado como herético, e que levantou contra ele um acúmulo de inimizades.

O traço mais importante da doutrina de Orígenes estriba na fusão que ele procura obter entre a filosofia antiga e o cristianismo.

Venerando Platão, relega-o quando observa que, na prática, aplicam-se melhor as teorias de Epicteto.

É acusado de ser o causador das heresias que depois dividiram a Igreja; mas, se é verdade que Orígenes não conseguiu fixar claramente o símbolo da fé cristã sobre os dogmas da Trindade, da Graça e da Encarnação, estes dogmas – ainda indecisos naquela época, para toda a Igreja – não haviam chegado ainda a seu ponto de maturidade e ao momento propício para seu desenvolvimento. Foram necessários os subseqüentes trabalhos de Atanásio, São Basílio, Santo Agostinho, Cirilo, etc., para preparar uma solução suficientemente precisa destes dogmas, que Orígenes não havia feito mais que esboçar.

Orígenes também aspirava a conciliar a noção da unidade inalterável de Deus, tal como é encontrada em Platão, com a idéia da energia na qual Aristóteles coloca a essência de Deus.

A noção platônica está, segundo ele, integralmente na noção de Deus Pai; em troca, a idéia aristotélica se encerra na do Filho de Deus. Ao mesmo tempo, Orígenes nos apresenta Deus como a substância que penetra o mundo inteiro e vive a mesma vida que a alma racional. No sistema de Orígenes, a morte de Cristo redime todos os seres, mesmo Satã e as almas condenadas.

Demétrio, que tanto o protegera num princípio, transformou-se em seu inimigo jurado.

Excomungado e exilado de Alexandria, depois da morte de Demétrio continuou sendo perseguido por seu sucessor, o Bispo Heraclas, durante quinze anos. Ao morrer este, Denys, amigo de Orígenes, não teve valor para fazê-lo voltar do exílio.

Era uma verdadeira guerra de dogmas, na qual Orígenes representava o cristianismo sintetizado pela escola de Platão; e Demétrio o cristianismo da escola judaica de São Marcos. Esta guerra duraria três séculos. Começou ao rejeitar a ordenação de Orígenes como sacerdote, aduzindo que era um mutilado que ultrajava a humanidade.

Posteriormente foi redigido um cânon especial no concílio de Nicéia para declarar que a integridade sexual era indispensável para se ordenar sacerdote.

Orígenes passou algum tempo em Atenas e o resto de seus dias em Cesaréia e Tiro. Viveu ainda 24 anos mais, prosseguindo no desenvolvimento de suas idéias, mas sem ter escola. Sua autoridade, desaparecida no Ocidente, aumentava no Oriente. Era o oráculo da Palestina, Fenícia, Capadócia, Arábia e da própria Acádia.

Encontrava-se na Palestina quando se desencadeou a perseguição de Decius e foi uma de suas primeiras vítimas. Jogado num calabouço aos sessenta e nove anos, com ferros nos pés e no pescoço, resistiu corajosamente às torturas, mas ficou estropiado e morreu em Tiro, pouco depois de haver sido libertado, no ano 255, aos setenta anos.



Ensinança 3: O Misticismo Extático

do Mundo Antigo

Plotino nasceu em Licópolis, no Egito no ano 205.

Todos os detalhes da vida deste grande ser estão plenos de um profundo significado no tocante ao desenvolvimento de sua missão na Terra. Como devia trazer do Oriente para o Ocidente - através da ponte do neoplatonismo - a sabedoria dos extáticos, nasce no Egito, berço do misticismo religioso, e é iniciado na Grande Ciência da concentração interior. É educado por Amônio Saccas, o fundador do neoplatonismo e ensina e morre em Roma, futura sede do cristianismo.

O jovem Plotino teve uma infância e uma adolescência felizes. Foi amado por seus pais e estimado por todos. Sob a tutela de um sábio preceptor, estudou todas as ciências daquela época: gramática, oratória, mística, geometria, astronomia e matemática.

Dono de um grande talento, logo chegou a sobressair em seus estudos e a sentir a necessidade de ampliar seus horizontes. Quando foi enviado a Alexandria levou consigo o tesouro do Egito.

Na cidade dos Ptolomeus, devido a seu físico agradável, sucumbiu à influência da beleza e da vida sensual. Mas bem depressa reagiu.

Paulatinamente foi penetrando no mundo encantado do espírito, através do estudo e da busca dos grandes tesouros da Biblioteca de Serapião. E chegaria a ver Deus face a face, no silêncio de seu coração, ensinando essa única realidade aos homens do Ocidente, à futura raça triunfadora. Isolou-se pouco a pouco dos estudos e dos gozos do intelecto, especialmente pela influência que Amônio Saccas exercia sobre ele.

Plotino conviveu onze anos com Amônio e seguiu sua vontade inquebrantável na forte disciplina que seu Mestre lhe impôs. Durante um lapso de tempo submeteu-se também, numa colina ao sul de Alexandria, ao treinamento dos terapeutas. Esta organização ascética estava composta por homens célibes que alcançavam poderes psíquicos e curavam com a força mental.

No princípio do ano 244, Ardexir, revolucionário persa, invadiu a Mesopotâmia. Plotino se alistou nas fileiras de Gordiano para cumprir um dever patriótico e, sobretudo, para seguir os conselhos de Amônio, que desejava que seu discípulo fizesse uma peregrinação pelo Oriente. Morto Gordiano, vítima de Filipo, Plotino conseguiu refugiar-se na Antióquia e dali passou definitivamente a Roma.

Na Cidade Eterna adquiriu, em breve, grande prestígio.

Teve, no entanto, que suportar uma dura prova. Ao chegar à cidade, um alexandrino chamado Olimpo, dono de vasta cultura e conhecedor de todas as escolas filosóficas, começou a se atribuir às preferências de Amônio. Humilhado pela superioridade espiritual de Plotino, recorreu a artes mágicas para fazer-lhe dano. Mas teve logo que advertir que a alma de Plotino era tão forte que todo o mal que se dirigia a ele, repercutia em seus próprios agressores.

Teve muitos e esclarecidos discípulos, entre eles: Porfírio; Amélio, que assistiu o Mestre até a morte; Rogamino, senador romano; e a matrona romana Gêmina, a qual ofereceu a Plotino sua casa – que aceitou – para fazer ali um ensaio de vida em comum.

Plotino ensinou constantemente. O valor de toda sua filosofia está na definição de que a suprema filosofia é amar a Deus e esforçar-se para encontrá-lo, unindo-se a Ele mediante a concentração.

Plotino morreu no ano 272, depois de haver realizado a Deus em íntima e divina união por duas vezes.

Plotino não somente era versado na história das doutrinas religiosas e filosóficas, mas também em geometria, aritmética, mecânica e música. Havia estudado astronomia, possivelmente mais do ponto de vista da astrologia do que da metafísica mas, tendo reconhecido a falsidade de várias predições, renunciou a esta pretensa ciência e até escreveu refutando-a como tal.

Era muito eloqüente em seus ensinamentos, apesar de um vício de pronúncia e da ausência absoluta de um método nos mesmos. Na realidade não eram conferências, mas consistiam em responder com muito ardor às perguntas que lhe eram propostas.

Dez anos após haver começado a dar seus ensinamentos, começa escrever suas obras.

A filosofia, cuja última palavra acreditava possuir, era para ele uma iniciação, patrimônio dos sábios e das almas seletas, e não a herança da humanidade.

Herênio e depois Orígenes, que tinham jurado, como ele, não publicar a doutrina de seu mestre Amônio Saccas, foram os primeiros a faltar com sua promessa, e somente depois de tal coisa acontecer, Plotino se decidiu a escrever.

Não somente faltava-lhe o hábito de fazê-lo, senão também tinha dificuldades com a ortografia. Suas frases ficavam inconclusas, seus razoamentos apenas eram insinuados, o que dificultava a difusão de suas idéias. Era unicamente a força de seu pensamento o que o tornava eloqüente, sem nenhuma arte. Não se propunha nunca um plano determinado; às vezes, desenvolvia uma doutrina que o preocupava, outras, refutava um livro que acabava de aparecer.

Estes trechos esparsos, reunidos e corrigidos por Porfírio, formaram cinqüenta e quatro livros divididos em seis Enéadas. Mesmo depois da revisão de Porfírio, feita logo após a morte de seu mestre, as Enéadas são somente um conjunto de dissertações filosóficas sobre todos os temas possíveis, através dos quais deve-se procurar, não sem dificuldade, a unidade do pensamento de Plotino.

Sobre as portas do santuário platônico estavam escritas estas palavras: “É difícil descobrir o autor e pai do mundo, e quando se o tiver encontrado, é impossível dá-lo a conhecer aos homens”. Sabe-se que o nobre espírito de Platão ali detinha o esforço da ciência.

Além do ser, último termo científico que ele quis admitir, percebia claramente sua Unidade, superior ao ser, mas não se atrevia a aceitar este princípio. A razão exigia dele colocar esse princípio acima do ser em si mas, ao mesmo tempo, a razão não podia compreendê-lo nem explicar por intermédio desse princípio a existência e a vida do resto das idéias e de todos os fenômenos. Dessa maneira, toda a cadeia de deduções dialéticas era racional e rigorosa, sempre que ficasse inacabada, já que o último termo da razão contradiz a si mesma. Por outro lado, se a razão se negasse a dizer essa última palavra, não só invalidaria a existência de um princípio que ela mesma não ousava propor em sua extrema conseqüência, senão que ela ficaria inconclusa e, por conseqüência, sem um sistema verdadeiro. Pode-se ver em Parmênides e no sexto livro “A República”, até que ponto Platão havia-se preocupado por essa dificuldade capital.

Como sair dessa dificuldade sem escapar do campo da razão?

Só um místico poderia encontrar a solução.

A razão gera a dialética e a dialética, levada a sua última conseqüência, contradiz a razão. Desta maneira Plotino tirava a conclusão que a razão é somente uma faculdade subordinada. Cessam de ser absolutas para ele as regras da razão, e se o ser humano carece de faculdade superior à razão, existe, não obstante, um meio de fugir ao império das faculdades, de conhecer sem ajuda delas: este meio é o êxtase.

O êxtase é a participação do ser humano à felicidade e inteligência de Deus pela fusão completa e momentânea da natureza infinita com a individual. Graças ao êxtase, Deus, conseqüência suprema da dialética, pode ao mesmo tempo contradizê-la e, não obstante, este resultado ser aceitável.

Também a psicologia de Plotino caminha paralelamente com sua metafísica. Aceita o valor dos sentidos, coloca sobre eles a razão - com os princípios, as leis gerais e todo o sistema das idéias; e acima da razão coloca o êxtase, que nos descobre a unidade absoluta para a qual não foram feitas as leis da razão.

Chegados a este ponto do sistema de Plotino, eis aqui os três problemas que são propostos:

1°) O que é o êxtase?

2°) Quem é esse Deus demonstrado pela razão mas que esta não sabe compreender?

3°) Como se retorna de Deus para o homem?

O êxtase é um estado de união do espírito do ser humano com Deus. Nesse estado o corpo físico se transforma num palácio deserto, desabitado por seu amo e que não obedece a outras leis que as de sua natureza orgânica. É uma morte antecipada; ou melhor, uma vida antecipada já que é, sobretudo para os místicos, extremamente real a frase de Platão que diz: “Morrer é viver”.

É a morte da multiplicidade, da consciência, da personalidade. É a absorção momentânea da individualidade em Deus.

As causas geradoras do êxtase são três: o amor, secundado pelo conhecimento e pela vontade.

O conhecimento, ao dissipar os véus que obscurecem nosso espírito, coloca-nos frente à Unidade; a vontade se esforça para escapar à variabilidade e romper o último envoltório, sob o qual resplandece o Absoluto em sua glória; e por último, o amor, que encontra por fim o único objeto que pode nutri-lo, lança-se como uma chama viva e, por seu intermédio, alcança-se a unificação.

A virtude e a prece nos fazem dignos desta suprema felicidade. A prece se traduz em Plotino em fervente aspiração, num enérgico impulso do amor em direção a seu único fim. À medida que a escola avançar e que a força de inspiração diminuir, a prece começará a ceder seu lugar e depois o amor é substituído pelos ritos teúrgicos. A iluminação é, em Plotino, uma doutrina filosófica cheia de profundidade apesar de seus excessos; em Jâmblico será somente uma superstição.

O Deus de Plotino responde a todos os problemas que Platão havia proposto e resolve-os por todas as soluções propiciadas por Platão. Este havia compreendido que o último grau da dialética é, de certa forma, a última aspiração do espírito humano; é a unidade absoluta, a unidade superior do ser. Plotino, sem hesitar, proclama que a unidade absoluta é realmente o conceito mais adequado à verdadeira perfeição de Deus. Mas, ao mesmo tempo que relegava a divindade a essas inacessíveis profundidades, nas quais o movimento e a variabilidade estavam desterrados, Platão via abrir-se entre seu Deus e o mundo, um abismo infranqueável. E sobre a borda desse abismo, sua mente se detinha cambaleante. Tudo, no Universo, demonstrava-lhe que o rei do mundo deve ser inteligente e ativo; tudo na mente o constrangia a elevar seu Deus acima da ação e da inteligência.

Daí, essas oscilações de sua doutrina, entre os sonhos do Parmênides e as afirmações do Timeu.

Plotino não sonha nem titubeia. A necessidade do Deus organizador é evidente e, portanto, ele o admite. É o Rei, o Pai, o Organizador, a Providência, o Demiurgo, o Deus vivo e ativo, de cuja energia é engendrada toda energia, cuja vida é vida de todas as vidas; que expande sem cessar de seu seio e que sem cessar faz regressar a seu seio torrentes de vida universal. Este Deus, pela razão de que vive, é móvel; acima deste Deus dotado de movimento, paira um princípio e, por assim dizer, um Deus mais elevado: a inteligência. Platão também não se elevou até ali? O Deus ativo que no Timeu separa a luz das trevas e outorga o movimento à matéria, é o mesmo Deus que no Parmênides, no Fedro e até no Timeu, é o rei do mundo inteligível, o sol da mente, essa inteligência imóvel da qual Aristóteles dirá, formulando por sua conta a mesma doutrina de seu Mestre - o que é o pensamento do pensamento?

Seguindo Platão, Plotino se eleva até esta perfeita e divina inteligência, e sem tremer como Platão ante a visão destas necessidades contraditórias, coloca resolutamente a inteligência imóvel - que é o primeiro dos seres - sobre a atividade móvel, que é o rei do mundo da variabilidade, e abaixo de um terceiro conceito mais completo ainda, ou seja, a unidade absoluta, superior ao ser, da qual faz o primeiro elemento da Trindade Divina. Deste modo este Deus, esta Tríade Divina, resolveria todos os problemas.

Deus produz necessariamente o Universo, sem começo nem fim. Ele o produz tal como é, porque é tal sua natureza, a que devia ter. Numa palavra, Deus não podia deixar de criá-lo nem fazê-lo de outra maneira.

Acostumados como estamos a julgar as coisas de acordo com nossa própria natureza, pretendemos julgar o poder de Deus através de nossa debilidade. Não compreendemos nossa liberdade e pretendemos compreender a de Deus. Se Deus pudesse fazer o Universo de forma diferente, Deus não seria livre; mas é livre porque não tinha possibilidade de escolher. O que é a escolha, senão a possibilidade de escolher entre duas rotas, a pior? Supor que Deus escolhe é supor que Ele pode vacilar em seu julgamento ou sucumbir em sua ação, ou seja, supô-lo imperfeito.

A possibilidade de se enganar ou fracassar diminuiria o poderío e por conseguinte, a liberdade divina. Plotino não é o único panteísta que, desejando aprisionar o poder criador nas mãos de Deus, deu o nome de liberdade a esta necessidade inevitável e considerou essa consagração do fatalismo como um hino à liberdade.

Como é criado o Universo? Há algo fora de Deus que possa servir de receptáculo a suas emanações?

Segundo Plotino, o espaço é nada. A matéria, enquanto está nos seres, desce a eles ao mesmo tempo que a forma, porque cada princípio gera por sob si a multiplicidade, ou seja, a matéria, e a unidade, ou seja, a forma ou imagem do princípio mesmo. Desta maneira, não há nada fora de Deus, nem espaço nem matéria. Se existisse algo fora de Deus, mesmo o próprio Universo, Deus estaria limitado, o que é impossível. Portanto, tudo está dentro de Deus e em Si mesmo é que fatalmente produz o Universo.

Assim como a inteligência divina é o laço dos espíritos, a alma divina o é dos corpos.

Tal é a lei que explica a origem do Universo e para buscar a lei do movimento é preciso, de certa maneira, subir a corrente. Tudo é expansão e concentração no movimento vital. Por estes pares de opostos, o Universo se mantém indefinidamente semelhante e igual a si mesmo. Apenas o ser foi gerado começa a luta para regressar à fonte de origem.

Tudo sai de Deus e para Deus deve regressar.

O Deus de Plotino é também igual ao alfa e ao ômega das Escrituras; é o princípio do movimento porque o gera e é também a causa final, porque o retrai. Não somente é a perfeição, mas também o bem. Não é só o sol das inteligências, mas também o centro a que aspiram todos os amores.

A moral de Plotino é similar à de Platão: pura, austera, desligada do mundo, invariavelmente aplicada a reproduzir o ideal da perfeição divina.

As virtudes do filósofo são, para Plotino, virtudes purificadoras, iniciáticas, que nos desligam completamente do mundo e nos preparam para o êxtase. Estas virtudes são: justiça, sabedoria e amor. Para ele como para Platão, a sabedoria é uma virtude porque eleva e gera o amor e por sobre todas as virtudes, como coroação das mesmas, chega à união com Deus: o êxtase.

Amélio ou Amério, discípulo de Plotino, florescia pelos fins do século III da era cristã. Havia nascido na Etrúria e se chamava Gentilianus. Provavelmente em seu desejo de destacar seu desprezo pelas coisas mundanas escolheu o nome de Amélio que em grego significa “negligente”.

No princípio havia-se amparado junto ao estóico Lysímaco, mas os escritos de Numenius, perdidos na atualidade, caíram em suas mãos e o seduziram de tal forma que os aprendeu de cor e os copiou por suas próprias mãos. Desde esse momento, evidentemente, ele pertenceu à escola de Alexandria, da qual Plotino era o mais ilustre representante. Amélio foi procurá-lo em Roma e, durante vinte e quatro anos, desde 246 até 270, seguiu suas lições com rara assiduidade.

Ele redigia tudo o que ouvia da boca de seu Mestre, acrescentando seus próprios comentários. Compôs assim cem volumes, segundo o testemunho de Porfírio. Infelizmente nenhum deles chegou a nossos dias, já que possivelmente dissipariam muitas nuvens que existem sobre a filosofia neoplatônica. Esta perda é tanto mais sensível na medida em que Plotino o considerava como o discípulo que melhor compreendia o sentido de suas doutrinas.

Entre as obras que são atribuídas a Amélio, havia uma que mostrava as diferenças entre as idéias de Plotino e as de Numenius, e que justificava o primeiro ante a acusação,tentada contra ele, de que havia sido plagiador de Numenius.

Depois da morte de Plotino, Amélio abandonou Roma para ir se estabelecer em Apamée, na Síria, onde passou o resto de seus dias.

Havia procurado levantar, como outros filósofos da mesma escola, por meio da filosofia, o paganismo que morria.

De Jâmblico, filósofo e ilustre representante da escola de Alexandria - cuja data de nascimento, assim como a de morte, são desconhecidas – sabe-se somente que nasceu em Chalcais, em Coelesiria, de pais ricos e considerados, e que floresceu no reinado de Constantino.

Considera-se como seu primeiro Mestre um tal Anatólio, que o apresentou a Porfírio. Pela morte deste, foi o oráculo da escola de Alexandria, para o qual afluíam os discípulos. Não obstante a austeridade de sua linguagem e as áridas formas de sua ensinança, era tal a ascendência que conseguia sobre seus discípulos que, uma vez apegados a ele, não o abandonavam mais, compartilhando sua mesa e seguindo-o a qualquer parte para onde se trasladasse. O entusiasmo que despertava entre eles era tão grande que se lhe atribuía o dom de fazer milagres, a levitação, etc.

De suas numerosas obras só chegaram a nossos dias uma “Vida de Pitágoras” e uma “Exortação à Filosofia”.

Por comentários de Proclus, conhecem-se as teorias filosóficas de Jâmblico que, se bem fossem uma continuação das ensinanças de Plotino e Porfírio, divergiam destes em alguns conceitos. Por exemplo, sobre a variabilidade dos seres individuais. Porfírio a atribuía à matéria. Jâmblico, ao contrário, explica essa variabilidade distinguindo no mundo inteligível princípios de unidade e de identidade, por um lado e princípios de diversidade, pelo outro.

Diferentemente de seus antecessores, Plotino e Porfírio, a psicologia de Jâmblico testemunha um espiritualismo menos severo e menos absoluto. Jâmblico reprova em Plotino o fato de ter feito da alma um princípio impassível e sempre pensante e por conseguinte, de tê-la identificado com a própria inteligência. Nesta hipótese, pergunta-se Jâmblico: “Quem falha em nós quando arrastados pelo princípio irracional nos precipitamos nas desordens da imaginação? E se por outro lado admitimos que a vontade falhou, como pode a alma continuar a ser infalível?” Jâmblico se manifesta mais moderado em suas doutrinas, mais platônico que seus predecessores. Sua própria moral de um ascetismo mais moderado. Repete que o ser humano é o verdadeiro autor de suas ações e da mesma forma é seu próprio demônio – daimon - mas também, seguindo seus Mestres, acrescenta que o fim que a alma persegue é a contemplação das coisas divinas e que a virtude é o meio para chegar a ela. Apesar de que em sua teologia, seja muito mais supersticioso do que Plotino e Porfírio, professa uma moral mais prática e mais humana.



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