Bordeline, como é avaliado



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Borderline, exame dos estados mentais e estrutura

Aline Mocelin


Trabalho efetuado sob exigência parcial para aprovação na disciplina Psicopatologia II, professoras Ana Marta Meira e Marta Regina D’Agord.

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Instituto de Psicologia

Departamento de Psicanálise e Psicopatologia

Dezembro/2005



Bordeline, como é avaliado?
Trecho do poema do autor Carlos Felipe Moisés, “Lagartixa”
“O ventre é quase nada”,

pura transparência

onde se escondem

o dorso e seus andaimes.

Não tem entranhas.

A pele


de tão fina

já não é:

limita

semovente



o nada de fora

e o quase nada

de dentro”
(Este trecho foi tirado do livro Borderline, de Mauro Hegenberg. Acredito que ele ilustre bem o sentimento de vazio que é tão característico do Border).


Exame dos estados mentais:

A conduta destes pacientes é bastante impulsiva e ou autodestrutiva (gastos exagerados, sexo, abuso de drogas, direção perigosa, distúrbios alimentares, etc.), alguns autores falam em condutas autolesivas; há um distúrbio na compreensão das regras morais e hábitos culturais. Pode haver nos casos mais graves comportamentos delinqüentes e ou bizarros. Ocorrem ainda comportamentos suicidas e automutilação.

O afeto era inicialmente classificado como “bobo” e pueril; apresenta instabilidade marcante, sentimentos crônicos de vazio e estar só. Raiva intensa e inapropriada e dificuldade de controlar esta raiva. Além de raiva e ira, apresentam depressão e ansiedade, a primeira não está relacionada a culpa, mas a um sentimento de profunda solidão e rejeição.

O pensamento sofre de desagregação progressiva, geralmente não apresentam idéias delirantes, mas fala-se que com a evolução do quadro podem apresentar idéias deliróides de auto-referencia.

O humor destes pacientes apresenta flutuações abruptas que vão de uma melancolia profunda a uma grande expansão, ficando facilmente irados, não suportam a frustração e tendem a dissociar; essas flutuações acompanham o afeto e o pensamento.

A inteligência nestes pacientes não é comprometida eles discutem os mais variados assuntos com facilidade, mas apesar disso apresentam uma certa dificuldade em apreender de forma precisa a realidade.

A Senso-percepção pode ser afetada variando com a gravidade do caso, a auto-imagem e o senso de si mesmo podem ser instáveis e persistentes.

Muitos problemas referentes a sua identidade, muitas vezes os comportamentos autodestrutivos são também uma tentativa de conquistar uma identidade ainda que provisória, como a do drogado ou da promíscua.

Podem ainda em alguns casos mais graves apresentar síntomas psicóticos, estes sintomas tendem se apresentar com as seguintes caracteristicas:


  • São geralmente relacionados à situação de estresse;

  • São rapidamente reversíveis e transitórios;

  • Tendem a não ser sistematizados;

  • E geralmente são egdistonicas.

Um ponto importante a se salientar é como pode ser feita a diferenciação entre Borderline e outros transtornos. Quando observamos um paciente borderline m suas relações intimas percebemos o quanto elas são instáveis e intensas e tendem à manipulação e a dependencia. É esse tipo de ralação que os diferencia dos pacientes com personalidade do tipo esquizóide. Já a ausencia dos sintomas psicóticos estáveis os diferencia das personalidades esquizotípicas e dos pacientes esquizofrênicos.



Estrutura
Borderline é uma estrutura? Essa é a discussão que permeia muitos, na verdade a maioria dos ensaios publicados sobre o assunto. Esta é uma pergunta que vai ter resposta positiva para algumas linhas teóricas, negativa para outras e não terá resposta para uma parte significativa de estudiosos.

Segundo Hegenberg (2000), Freud não ocupou – se do estudo do Border propriamente dito, mas muitos dos autores que se ocuparam deste estudo embasam – se, pelo menos inicialmente nas idéias freudianas. As contribuições de Freud a respeito do narcisismo e das complicações que esse causa no ego foram utilizadas para os estudos pós-freudianos sobre o conceito de borderline.

Já Lacan, havia três estruturas, neurose, psicose e perversão e todas elas eram vinculadas à castração. Para quem segue a linha lacaniana o border “não existe”, a tendência é que seja considerada uma histeria grave ou uma perversão.

Para Otto Kenberg existe uma “organização de personalidade Borderline”, que inclui o transtorno de personalidade borderline, mas não só. Para o autor esta designação é mais abrangente porque inclui uma gama maior de pacientes muito diferentes entre si, mas que tem um funcionamento semelhante. Essa organização pode tanto estar em uma estrutura neurótica quanto em uma estrutura psicótica.

Creio que Kenberg assemelhe-se em alguma medida a Jean Bergert, que fala de estruturas fixas a saber, neurótico e psicótico, mas também fala em um estado limite que é chamado por ele de organização. Estas estruturas podem, tanto se apresentar saudáveis, como adoecidas, são estados estáveis e irreversíveis. Já a organização é provisória, mas pode se prolongar indefinidamente.

Creio que poderia falar em muitos outros nomes que também merecem referencia a respeito de seus estudos, no entanto não creio que seja necessário para este trabalho.

Certamente estes autores discordam em muitos pontos, no entanto, tentarei esboçar aqui algumas idéias que ficaram para mim, após as leituras.

Uma peculiaridade importante no que tange o funcionamento do Border é a sua relação com o objeto. O Border sofre de uma intensa angústia de separação, teme a perda do objeto. Necessita do outro como um apoio e não o tem em sua subjetividade, por isso sempre precisará estar com o objeto. Acredito que se assemelhe com o bebê que ainda não tem a conservação dos objetos e se desespera quando não vê a mãe, pois acredita que não a verá mais.

O Border apresenta uma diferenciação insuficiente em relação ao outro e esta dificuldade é responsável pelo vazio crônico e pela falta de reconhecer-se de ter uma identidade e pelas percepções empobrecidas do outro. No entanto, este algum limite é o que o diferencia do psicótico.

Alguns autores, (Kleinianos) falam em clivagem e outros falam em dissociação. O fato é que estes pacientes não conseguem ver o outro como mau, pois para tanto teriam que teme-lo e isso para o Border é inadmissível, porque eles já são por demais frágeis. Eles sempre dividem o objeto bom do objeto mau, separando-os ele pode proteger-se daquele que é mau.

Muitas vezes o Border não consegue controlar sua agressividade em situações que para uma pessoa saudável seriam perfeitamente contornáveis. Creio que isso se deva ao turbilhão de emoções que o Border tem dentro de si sem controle nenhum. Pode –se dizer que há uma violência intrínseca com a qual ele tem de lidar a todo o momento e isso o torna vítima de seus impulsos.

Estes arroubos do Border podem ter muitas explicações, mas acredito que remetam à luta do Border para conseguir afastar-se de relações que o prendem entrando em contradição com o medo da perda do objeto. Podem ser uma tentativa de afastar e manter o objeto ao mesmo tempo, por isso são tão abruptas, senão o medo controlaria estas ações.

Estas últimas características têm como uma das principais conseqüências as tentativas de suicídio e as automutilações. O fato de estes pacientes terem de lidar constantemente com um turbilhão de sentimentos e sensações ameaçadoras leva-os ao desespero e isso unido a outra característica marcante que é a impulsividade tem como resultado, muitas vezes, a tentativa de suicídio.

Há, certamente, muitas coisas a dizer sobre este assunto depois de um semestre dedicado a leituras a respeito deste tema e com certeza ficaram muitas questões a serem respondidas ou não. Estas dúvidas serão o impulso para a busca de mais informação e conhecimento sobre o assunto.


Referencia
Bergeret, J.(1991). Personalidade normal e patológica. Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

Dalgallarrongo, P. e Vilela, W. A. (1998). Transtorno borderline: história e atualidade. Em Revista Latino-americana de Psicopatologia Fundamental II, 2. Pág. 52-71.



Hegenberg, M.(2000). Borderline. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo

Kernberg, O.F. (1995). Transtornos graves de personalidade: estratégias terapêuticas. Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

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