Bowlby, John



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BOWLBY, John. Formação e rompimento dos laços afetivos. São Paulo: Martins Fontes, 1982.
Formação e rompimento dos laços afetivos.
Série Psicologia e Pedagogia.

Coordenação editorial: Luis Lorenzo Rivera.

Aprender a Sentir — Sentir para Aprender — Harold C. Lyon Jr.

Orientação Vocacional — A Estratégia Clínica — Rodolfo Bohoslavsky.

Carl Rogers: O Homem e suas Idéias — Richard I. Evans

Tornar-se Pessoa — Carl R. Rogers.

O Primeiro Ano de Vida — René A. Spitz.

O Não e o Sim — René A. Spitz.

A Entrevista de Ajuda — Alfred Benjamin.

O Tratamento clínico da Criança-Problema — Carl R. Rogers.

Grupos de Encontro — Carl R. Rogers.

Sobre o Poder Pessoal — Carl R. Rogers.

Ciência e Comportamento Humano — B. F. Skinner.

A Família como Paciente — Horst E. Richter.

A Formação do Ego — René A. Spitz.

Temas de Psicologia — José Bleger.

A Imagem do Corpo — Paul Schilder.

O Processo Psicodiagnóstico e as Técnicas Projetivas

— M. L. S. de Ocampo, M. E. G. Arzeno, E. G. de Piccolo e colaboradores.

Cuidados Maternos e Saúde Mental — John Bowlby.

Teoria do Vínculo — E. Pichon-Rivière.

Formação e Rompimento dos Laços Afetivos — John Bowlby.

O Processo Grupal — E. Pichon-Rivière.

John Bowlby.

Formação e rompimento de laços afetivos.

Tradução – Álvaro Cabral.

Revisão – Luis Lorenzo Rivera.

Livraria Martins Fontes Editora Ltda.


Título original:

The Making and Breaking of Affectional Bonds © 1979 R. P. L. Bowlby and others.

1a edição brasileira: outubro de 1982.
CIP-Brasil. Catalogação na Publicação, Câmara Brasileira de Livro. SP.
Bowlby, John. 1907

Formação e rompimento dos laços afetivos /

John Bowlby; tradução Álvaro Cabral; revisão Luiz Lorenzo Rivera. São Paulo: Martins Fontes, 1982.

(Psicologia e pedagogia).



  1. Crianças — Desenvolvimento 2. Pais e filhos 3. Psicologia infantil 4. Relações interpessoais 5. Separação (Psicologia) 1. Título.

82-1553 CDD-155.418.
Índices para catalogo sistemático:

1. Crianças: Desenvolvimento afetivo: Psicologia infantil 155.418.

2. Crianças: Relações familiares: Psicologia infantil 155.418.

3. Laços afetivos: Crianças: Influencia no desenvolvimento: Psicologia infantil 155.418.

4. Pais e filhos: Relações: Psicologia infantil 155.418.

5. Rompimento afetivo: Crianças: Influência no desenvolvimento: Psicologia infantil 155.418.

6. Separação familiar: Crianças: Influência no desenvolvimento: Psicologia infantil 155.418.
Produção gráfica: Nilton Thomé.

Assistente de produção: Carlos Tomio Kurata.

Composição: Lúcia Spósito.

Revisão tipográfica: Gilda Tomiko Hara.

Paste-up: José Saris Jr.

Capa: Vitonno C. Martins.


Todos os direitos desta edição reservados à

LIVRARIA MARTINS FONTÉS EDITORA LTDA.

Rua Conselheiro Ramalho, 330/340

01325 — São Paulo — SP — Brasil.


A MEUS COLEGAS DE PESQUISA.

Mary Salter Ainsworth.

Anthony Ambrose.

Mary Boston.

Dorothy Heard.

Christoph Heinicke.

Colin Murray Parkes.

James Robertson.

Dina Rosenbluth.

Rudolph Schaffer.

Ilse Westheimer.
Prefácio.

De tempos em tempos, ao longo dos últimos vinte anos, fui convidado para falar a colegas, ou a um público mais numeroso, em alguma ocasião formal. Esses convites proporcionaram-me uma oportunidade para um reexame crítico dos resultados de pesquisas e para descrever, em linhas gerais, o pensamento atual.

No presente volume, foram selecionadas para reimpressão algumas dessas conferências e contribuições para simpósios, na esperança de que possam fornecer uma introdução às idéias que são expostas sistematicamente nos três volumes recém-concluídos sob o título geral de Attachment and Loss (*1). Como cada conferência ou contribuição foi dirigida a um público particular numa ocasião particular, achei preferível reeditá-las em sua forma original, em vez de tentar qualquer revisão substancial. Portanto, cada uma delas é publicada numa forma próxima daquela em que foi originalmente divulgada, com um parágrafo introdutório que descreve a ocasião e o público. Aproveitou-se a oportunidade para corrigir a gramática e padronizar a terminologia e as referências; e foram acrescentadas algumas notas explicativas entre colchetes, sempre que pareceram necessárias. Toda vez que uma afirmação exigia modificação ou ampliação, à luz de novas provas ou novos estudos, acrescentei um comentário e forneci referências complementares (remetendo freqüentemente o leitor para um dos volumes de Attachment and Loss) numa anotação no final do capítulo. Foi omitida uma seção do Capítulo 3 por razões explicadas no texto.
Nota de rodapé:

(*1). A ser publicado por esta editora sob o título de Ligação e Perda.

VII
Meu interesse pelos efeitos de diferentes formas de experiência familiar sobre uma criança em desenvolvimento começou em 1929, quando trabalhei durante seis meses no que hoje se chamaria uma escola para crianças desajustadas. Uma década depois, após completar minha formação psiquiátrica e psicanalítica, e trabalhar durante três anos na London Child Guidance Clinic, apresentei algumas observações num artigo intitulado “The Influence of Early Environment on the Development of Neurosis and Neurotic Character” [A Influência do Meio Ambiente Inicial no Desenvolvimento da Neurose e do Caráter Neurótico] (1940); e estava também coligindo material para a monografia “Forty-Four Juvenile Thieves” [Quarenta e Quatro Delinqüentes Juvenis] (1944, 1946). Foram muitas as razões pelas quais, depois da guerra, escolhi como campo especial de estudo a remoção de uma criança do lar para uma creche ou hospital, e não mais o amplo campo da interação pais-filhos. Em primeiro lugar, era um evento que, acreditava eu, poderia ter efeitos perniciosos sobre o desenvolvimento da personalidade de uma criança. Em segundo lugar, não poderia haver dúvidas sobre o fato, o que contrasta enormemente com a dificuldade em obter informação válida sobre como os pais tratam uma criança. Em terceiro lugar, parecia ser um campo onde poderiam ser possíveis medidas preventivas.

Embora nessa pesquisa tenha me esforçado constantemente para aplicar o método científico, estive sempre profundamente cônscio de que, como em outros campos da medicina, quando um psiquiatra empreende um tratamento ou tenta a prevenção, ele deve ir, com freqüência, além do que é cientificamente aceitável. A distinção entre os critérios necessários em pesquisa e os aceitáveis em terapia e prevenção nem sempre é entendida, e resulta em muita confusão. Numa conferência recente, “Psychoanalysis as Art and Science” [Psicanálise como Arte e Ciência] (1979), tentei deixar clara a minha posição.

A minha dívida para com muitos colegas que colaboraram comigo ao longo dos anos, e a quem este volume é dedicado, será salientada nas próprias conferências que se seguem. Estou profundamente grato a todos eles. Também estou muito grato à minha secretária, Dorothy Southern, que trabalhou desde o início em cada uma dessas conferências, em suas numerosas versões e rascunhos, e o fez com infatigável cuidado e inquebrantável entusiasmo.
Índice.
1. Psicanálise e cuidados com a criança (1956-8) 1.

2. Abordagem etológica da pesquisa sobre desenvolvimento infantil (1957) 23.

3. O luto na infância e suas implicações para a psiquiatria (1961) 41.

4. Efeitos sobre o comportamento do rompimento de um vínculo afetivo (1967-8) 63.

5. Separação e perda na família (1968-70) 77.

6. Autoconfiança e algumas condições que a promovem (1970-3) 97.

7. Formação e rompimento de vínculos afetivos (1976-7) 119.

Referências 151.

Índice de nomes 163.
1. Psicanálise e cuidados com a criança *(1).
Em abril e maio de 1956, como parte das comemorações do centenário do nascimento de Freud, membros da Sociedade Psicanalítica Britânica promoveram seis conferências públicas em Londres sobre “Psicanálise e Pensamento Contemporâneo”. Fui convidado a proferir uma delas sobre “Psicanálise e Cuidados com a Criança”. As conferências foram publicadas dois anos depois.

Talvez nenhum outro campo do pensamento contemporâneo mostre mais claramente a influência da obra de Freud do que o que se refere aos cuidados com a criança. Embora sempre tenha havido aqueles que sabem ser a criança o pai do homem e o amor materno algo indispensável ao bebê em crescimento, antes de Freud essas verdades antiqüíssimas nunca tinham sido temas de investigação científica; portanto, eram prontamente postas de lado como sendo sentimentalismo sem fundamento válido. Freud não só insistiu no fato óbvio de que as raízes de nossa vida emocional mergulham na infância, como também procurou explorar de um modo sistemático a ligação entre acontecimentos dos primeiros anos de vida e a estrutura e funcionamento da personalidade adulta.

Embora, como todos sabemos, as formulações de Freud tenham encontrado muita oposição — ainda recentemente, em 1950, psiquiatras eminentes nos diziam não haver provas de que o que acontece nos primeiros anos de vida é importante para a saúde mental —, muitas de suas proposições básicas são tomadas como certas.
Nota de rodapé:
*(1). Originalmente publicado em Sutherland, J. D. (org.), Psychoanalysis and Contemporary Thought. Londres: Hogarth Press. Reproduzido com autorização da Hogarth Press.

1
Não só vemos revistas populares, como Picture Post *(1), informarem seu público de que “a criança infeliz converte-se no infeliz adulto neurótico” o que importa é

“o comportamento daqueles entre os quais uma criança cresce... e, nos primeiros anos, especialmente o comportamento da mãe”; mas essas opiniões tiveram eco nas publicações oficiais. O Home Office [do Ministério do Interior britânico] (1955), ao descrever o trabalho do seu Departamento da Criança, assinala que “as experiências passadas de uma criança desempenham um papel vital em seu desenvolvimento, e continuam sendo importantes para ela... e adverte que “a finalidade deve se garantir, tanto quanto possível, que cada bebê seja regularmente cuidado pela mesma pessoa”. Finalmente, existe um relatório preparado por uma comissão nomeada pelo Ministro da Educação que trata, de um modo abrangente, de todos os problemas da criança desajustada (Ministério da Educação, 1955). Baseia suas recomendações, inflexivelmente, em proposições tais como “A pesquisa moderna sugere que as influências mais formativas são aquelas que a criança recebe antes de iniciar a sua escolaridade, e que, por essa época, certas atitudes que podem afetar decisivamente todo o seu desenvolvimento subseqüente já adquiriram forma”; e “A felicidade e estabilidade de uma criança nesse período (o estágio final da infância) ou sua infelicidade e desajustamento na sociedade ou na escola dependem predominantemente de uma coisa: a adequação de sua formação nos primeiros anos de vida”. Ao celebrar-se o centenário do nascimento do fundador da psicanálise, é apropriado registrarmos essa revolução no pensamento moderno.

Existe hoje, entre os psicanalistas e aqueles que são por eles influenciados, uma ampla área de concordância, pelo menos quanto a algumas das questões cruciais que se referem aos cuidados com a criança. Todos reconhecem, por exemplo, a importância vital de uma relação estável e permanente com uma mãe (ou mãe-substituta) amorosa durante toda a infância, e a necessidade de aguardar a maturação antes de arriscar intervenções tais como o desmame e o treinamento de hábitos pessoais de higiene — e, na verdade, todas as outras etapas na “educação” de uma criança. Sobre outras questões, entretanto, existem diferenças de opinião e, em virtude da complexidade e da relativa novidade do estudo científico desses problemas, seria surpreendente que não existissem.


Nota de rodapé:
*(1). [Um semanário de grande circulação, subseqüentemente suspenso.]

2
Isso causa, com freqüência, confusão e perplexidade nos pais, especialmente os “ávidos de certezas nesta vida”. Como seria bem mais fácil para todos nós se conhecêssemos todas ou, pelo menos, a maioria das respostas ao problema de como criar os nossos filhos! Mas isso está longe de ser a situação atual e não desejo, nem por um instante, dar a impressão de que é. Entretanto, acredito que a obra de Freud nos dotou de alguns conhecimentos sólidos e, além disso, o que talvez seja ainda mais importante, mostrou-nos um modo fecundo de considerar os problemas que envolvem os cuidados com a criança e procurar uma compreensão mais profunda dos mesmos.


Ambivalência e sua regulação.
Donald Winnicott, em sua conferência sobre psicanálise e culpa *(1), discutiu o papel vital, no desenvolvimento humano, do desenvolvimento de uma capacidade saudável para sentir culpa. Deixou claro que a capacidade para experimentar um sentimento de culpa constitui atributo necessário da pessoa saudável. Embora seja desagradável, como a dor física e a ansiedade, é biologicamente indispensável e constitui parte do preço que pagamos pelo privilégio de sermos seres humanos. Mostra, depois, como a capacidade para sentir culpa “implica que a ambivalência seja tolerada” e uma aceitação da responsabilidade pelo nosso amor e o nosso ódio. Estes temas têm merecido o profundo interesse dos psicanalistas britânicos, em virtude da influência preponderante exercida por Melanie Klein. E minha intenção ampliar agora o exame do papel da ambivalência na vida psíquica — essa tendência inconveniente que todos possuímos para ficarmos com raiva e, por vezes, com ódio da mesma pessoa que nos é mais querida — e considerar aqueles procedimentos nos cuidados com a criança que parecem tomar mais fácil ou mais difícil a uma criança crescer capaz de regular esse conflito de um modo maduro e construtivo. Pois acredito que um critério principal para se julgar o valor de diferentes procedimentos nos cuidados com a criança reside nos efeitos, benéficos ou adversos, que eles têm sobre a capacidade em desenvolvimento de uma criança para regular seu conflito de amor e ódio, e, através disso, a capacidade para sentir de um modo saudável sua ansiedade e culpa.

Façamos uma descrição sucinta das idéias de Freud sobre o tema da ambivalência. Dos inúmeros temas que são ventilados em toda a sua obra, nenhum é mais brilhante nem mais persistente do que esse.


Nota de rodapé:
*(1). [Uma conferência anterior na série.]

3
Ele surgiu logo no início da psicanálise. Durante sua investigação dos sonhos, Freud (1900) percebeu que um sonho em que a pessoa amada morre indica freqüentemente a existência de um desejo inconsciente de que essa pessoa morra — uma revelação que, embora menos surpreendente do que quando foi exposta pela primeira vez, talvez não seja hoje menos perturbadora do que há meio século. Em sua busca da origem desses desejos inoportunos, Freud voltou-se para a vida emocional da criança e formulou a hipótese — que era, na época, audaciosa — de que, em nossos primeiros anos de vida, é regra, e não exceção, sermos impelidos por sentimentos de raiva e ódio, tanto quanto de interesse e amor, em relação a nossos pais e nossos irmãos. De fato, foi nesse contexto que Freud apresentou ao mundo, pela primeira vez, os temas, hoje familiares, de rivalidade entre os irmãos e de ciúme edipiano.

Nos anos que se seguiram à publicação de sua grande obra sobre sonhos, o interesse de Freud pela sexualidade infantil fez com que o tema da ambivalência passasse a ocupar um lugar menos proeminente em seus escritos. Reaparecerá em 1909 quando, num artigo sobre neurose obsessiva, lembra-nos que “em todas as neuroses, deparamo-nos com os mesmos instintos reprimidos por trás dos sintomas... o ódio mantém-se reprimido no inconsciente pelo amor...” Alguns anos depois, a fim de enfatizar o significado fundamental desse conflito, Freud (1912) introduziu o termo ambivalência, que fora criado recentemente por Bleuler.

O significado clínico que Freud atribuiu à ambivalência reflete-se em suas construções teóricas. Na primeira de suas duas principais formulações, o conflito intrapsíquico tem lugar entre os instintos sexuais e os do ego. Como nessa época considerava os impulsos agressivos parte integrante dos instintos do ego, Freud resumiu sua proposição afirmando que “os instintos sexuais e os do ego desenvolvem facilmente uma antítese que repete a do amor e ódio” (1915). O mesmo conflito básico reflete-se de novo na segunda de suas formulações — a que se refere ao conflito entre os instintos de vida e de morte. Nesta terminologia, verificamos que a ambivalência com que um paciente neurótico se defronta é considerada por Freud como resultante de uma falha no processo de fusão dos instintos de vida e de morte, ou a um colapso ulterior da fusão, ou seja, a defusão (1923). Conclui, portanto, que o problema clínico e teórico crucial está em compreender como o conflito entre amor e ódio chega a ser satisfatoriamente regulado ou não.

As opiniões sobre os méritos dessas formulações metapsicológicas de Freud variam, e continuarão variando ainda por muitas décadas. Por vezes, pergunto-me se as controvérsias teóricas que essas formulações

4
suscitaram e estimularam, e a linguagem abstrata em que se expressam, não terão obscurecido a nudez crua e a simplicidade do conflito que oprime a humanidade — o de se encolerizar com a pessoa que é mais amada e desejar magoá-la. Essa é uma disposição da humanidade que sempre ocupou uma posição central na teologia cristã, e que é bem conhecida de todos nós em frases coloquiais como “morder a mão que nos alimenta” e “matar a galinha dos ovos de ouro”. E o tema da Balada da Prisão de Reading, de Oscar Wilde, da qual um trecho diz:


Yet each man kills the thing he loves,

By each let this be heard,

Some do it with a bitter look,

Some with a flattering word,

The coward does it with a kiss,

The brave man with a sword! *(1).


É graças a Freud que o significado desse conflito na vida do homem foi percebido de novo, e é também graças a ele que pela primeira vez é objeto de investigação científica. Sabemos hoje que o medo e a culpa provenientes desse conflito estão subjacentes a muitas doenças psicológicas, e a incapacidade para enfrentar esse medo e essa culpa está subentendida em muitos distúrbios de caráter, incluindo a delinqüência persistente. Embora nosso trabalho deva dar um grande passo à frente quando as questões teóricas estiverem mais claras, acredito que, em muitos casos, poderemos progredir bastante usando conceitos do dia-a-dia, como amor e ódio, e conflito — o inevitável conflito que se desenvolve em nós quando amor e ódio são dirigidos para uma só e mesma pessoa.

Ficará claro que os passos dados pelo bebê ou a criança ao avançar no sentido da regulação dessa ambivalência têm importância decisiva para o desenvolvimento de sua personalidade. Se a criança seguir um caminho favorável, ela crescerá consciente de que existem, em seu íntimo, impulsos contraditórios, mas estará apta a dirigi-los e controlá-los, e a ansiedade e culpa que eles engendram será suportável. Se o seu progresso for menos favorável, a criança será assediada por impulsos sobre os quais sente não ter controle ou ter um controle inadequado; em conseqüência disso, sofrerá uma ansiedade aguda com relação à segurança das pessoas que ela ama e também temerá o revide que, acredita ela, não deixará de cair sobre sua própria cabeça.


Nota de rodapé:
*(1). Tradução literal: “No entanto, mata cada homem a coisa que ama, / Que isto seja ouvido por todos eles, / Alguns matam com um olhar amargo, / Outros com uma palavra de adulação, / O covarde o faz com um beijo, / O valente com uma espada!” (N. do T.).

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É nesse caminho que está o perigo — o perigo de a personalidade recorrer a uma série de manobras, cada uma das quais cria mais dificuldades do que resolve. Por exemplo, o medo da punição que é esperada como resultado de atos hostis — e também, é claro, de intuitos hostis, pois nunca é fácil para uma criança distinguir claramente uns dos outros — acarreta freqüentemente mais agressão. Assim, vemos em inúmeros casos uma criança agressiva agir baseada em que o ataque é a melhor defesa. Do mesmo modo, a culpa pode levar a uma exigência compulsiva de demonstrações de amor que a tranqüilizem e, quando essas exigências não são satisfeitas, a novos sentimentos de ódio e, por conseguinte, a mais culpa. São esses os círculos viciosos que resultam quando a capacidade de regular o amor e o ódio se desenvolve de modo desfavorável.

Além disso, quando a criança pequena não tem confiança em sua aptidão para controlar seus impulsos ameaçadores, há o risco de que, inadvertidamente, recorra a um ou mais dos incontáveis mecanismos psíquicos primitivos e bastante ineficazes destinados a proteger seus entes queridos de danos e ela própria da dor de um conflito que parece insolúvel por outros meios. Esses mecanismos psíquicos, que incluem a repressão de um ou dos dois componentes do conflito — ora o ódio, ora o amor, e, por vezes, ambos — o deslocamento, a projeção, a supercompensação e muitos mais, têm, todos, uma coisa em comum: em vez de o conflito ser trazido para campo aberto e enfrentado pelo que é, todos esses mecanismos de defesa são evasões e negações de que o conflito existe. Não admira que sejam tão ineficazes!

Antes de chegarmos ao nosso tema principal — as condições que, na infância, favorecem ou retardam o desenvolvimento da capacidade de regular o conflito — quero enfatizar mais uma coisa: não existe nada de mórbido no conflito. Muito pelo contrário: conflito é, em todos nós, a condição normal de nossas transações. Todos os dias redescobrimos em nossas vidas que, se adotarmos um determinado curso de ação, teremos de renunciar a outros que também são desejados; descobrimos, de fato, que não podemos comer o doce e ficar com ele. Portanto, em cada dia de nossas vidas, cabe-nos a tarefa de decidir entre interesses rivais em nosso próprio íntimo, e de regular conflitos entre impulsos irreconciliáveis. Outros animais têm o mesmo problema. Lorenz (1956) mostrou que, antes, pensava-se que somente o homem era vítima de impulsos conflitantes mas que hoje sabe-se que todos os animais são constantemente acossados por impulsos que são mutuamente incompatíveis, como ataque, fuga e abordagem sexual.

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Um excelente exemplo é o pintarroxo no período de acasalamento. *(1) O macho e a fêmea têm plumagem idêntica — ambos têm o papo vermelho. Na primavera, o macho delimita um território para si mesmo e tem propensão a atacar todos os intrusos que tenham papo vermelho. Isso significa que, quando uma esposa potencial penetra em seu território, o primeiro impulso do macho é atacá-la, e o primeiro impulso da fêmea é fugir. Somente quando ela se mostra arisca é que os impulsos hostis do macho são inibidos e suas respostas de corte suscitadas. Portanto, nas fases iniciais do namoro, ambos os sexos se encontram num estado de conflito, o macho dividido entre o ataque e o avanço sexual, a fêmea entre o flerte e a fuga.

Toda a pesquisa recente em psicologia e biologia demonstrou incontestavelmente que o comportamento, seja no próprio homem ou em outros organismos, é resultante de um conflito quase contínuo de impulsos interatuantes: nem o homem como espécie nem o homem neurótico como um subgrupo atormentado têm o monopólio do conflito. O que caracteriza o indivíduo psicologicamente doente é a sua incapacidade para regular satisfatoriamente seus conflitos.


Condições que geram dificuldade.
O que sabemos, pois, das condições que geram a dificuldade? Não pode haver dúvida de que uma característica principal do conflito que toma difícil regulá-lo é a magnitude de seus componentes. No caso de ambivalência, se o impulso para obter satisfação libidinal *(2) ou o impulso para magoar e destruir a pessoa amada for extraordinariamente forte, aumentará o problema de regular o conflito. Freud percebeu isso desde o começo. Logo no início de sua obra, rejeitou a idéia de que aquilo que distinguia os indivíduos mentalmente sãos dos menos afortunados era a existência ou a natureza dos conflitos experimentados; ele sugeriu, pelo contrário, que a diferença reside no fato de os neuróticos apresentarem, “em escala ampliada, sentimentos de amor e ódio por seus pais, o que ocorre de modo menos evidente e menos intenso nas mentes da maioria das crianças” (1900). Este é um ponto de vista que foi abundantemente confirmado pelo trabalho clínico dos últimos cinqüenta anos.

Portanto, uma chave para os cuidados com a criança é tratá-la de tal maneira que nenhum dos dois impulsos que põem em perigo a pessoa amada — a voracidade libidinal e o ódio — se tome demasiado intenso.



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