Bridget Jones, Becky Bloom é a primeira personagem inglesa a ter a mesma veia cômica.” Bookstreet Contracapa



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Capa:
Becky Bloom está de volta... e com o maior barrigão!
“Desde que Helen Fielding nos apresentou à adorável Bridget Jones, Becky Bloom é a primeira personagem inglesa a ter a mesma veia cômica.” Bookstreet
Contracapa:
A vida de nossa querida Becky Bloom vai muito bem, obrigada! Além de estar trabalhando numa loja como compradora pessoal, ela e Luke estão à procura de uma casa nova (um lugar bem espaçoso, com direito a um closet só para guardar os sapatos!) e... BECKY ESTÁ GRÁVIDA!!!
Nossa amiga gastadora não poderia estar mais feliz – sobretudo porque descobriu que fazer umas comprinhas é ótimo para enjôos matinais. E tudo tem de estar perfeito para o bebê: a decoração do quarto, o carrinho de última geração e a obstetra mais badalada da cidade. Mas surge um pequeno problema. A doutora famosinha nada mais é que uma ex-namorada de Luke (hummm). Ao que parece, a gravidez de Becky não vai ser assim tããão tranqüila...
Abas:
Ai, ai, ai... comprar o carrinho de bebê ou levar um par de sapatos e uma saia?
A vida da nossa Becky Bloom anda às mil maravilhas! Além do novo emprego como compradora pessoal (uau!) em uma loja, ela e Luke não vêem a hora de comprar uma casa nova. Imagine só, um lugar amplo e bem iluminado, onde Becky pode ter um closet só para guardar os sapatos. Além do mais, a cobertura do casal não parece o espaço mais adequado para um BEBÊ... Sim... Becky Bloom vai ser mamãe!
A consumista n° 1 não poderia estar mais feliz, principalmente após descobrir que ir às compras é um santo remédio para enjôo matinal. Ah!, e tudo tem de ser perfeito para o neném: o quarto precisa ser planejado pelo decorador mais bacana possível; é imprescindível que o carrinho do bebê seja de última geração; sem falar na obstetra, é claro, a melhor da cidade... mas, ops, o problema é que ela é ninguém menos que a ex-namorada de Luke.
O mundo fofo-e-gracinha de Becky então vem abaixo. A médica de todas as estrelas de cinema é simplesmente perfeita, com direito a “parto holístico na água, com flor de lótus e massagem tailandesa”. Mas Becky, que não é boba, logo percebe que a doutora quer fisgar Luke de volta, o que a futura mamãe está decidida a não permitir.
Becky Bloom está fazendo compras para dois... mas será que há três em seu casamento?
__________________________________________________
Sophie Kinsella é escritora e ex-jornalista de economia, com especialização na área financeira. Dela, a Editora Record já publicou Samantha Sweet: Executiva do lar, O segredo de Emma Corrigan além de outros livros da irresistível compradora: Os delírios de consumo de Becky Bloom , Becky Bloom: Delírios de consumo na 5ª avenida, As listas de casamento de Becky Bloom e A irmã de Becky Bloom. Os livros da autora já foram traduzidos para mais de trinta idiomas, e sempre entram nas listas de mais vendidos na Inglaterra, EUA, Canadá, Alemanha, entre outros. O número de exemplares vendidos já ultrapassou os 8 milhões em todo o mundo.
www.sophiekinsella.com

Para Oscar

AGRADECIMENTOS


Gostaria de agradecer a Linda Evans, Laura Sherlock e às incontáveis pessoas maravilhosas da Transworld – um número grande demais para que todas sejam citadas, mas sinto-me realmente em dívida com todos vocês.

Gostaria de agradecer à minha agente, Araminta Whitley, sempre fabulosa e dando apoio, sem a qual eu não conseguiria funcionar. Um gigantesco muito obrigada a Lizzie Jones, Lucinda Cook, Nicki Kennedy, Sam Edenborough, Valerie Hoskins e Rebecca Watson.

Como sempre, um grande olá à diretoria e à minha família em expansão: Henry, Freddy, Hugo e Oscar. E, claro, ao Sr. Patrick Plokington-Smythe; sem ele esses agradecimentos não estariam completos.

E, finalmente, obrigada ao verdadeiro obstetra “imprescindível”, Nick Wales, que ajudou no parto do último bebê e do livro – e à “imprescindível” enfermeira da maternidade, Michelle Vaughan.




KENNETH PRENDERGAST

Prendergast de Witt Connell


Conselheiros de Finanças

Forward House

High Holborn, 394. Londres WC1V 7EX
Sra. R. Brandon

Maida Vale Mansions, 37

Maida Vale

Londres NW6 0YF


30 de julho de 2003

Cara Sra. Brandon,


Foi um grande prazer conhecê-la e ao Sr. Brandon, e estou ansioso para assumir o papel de conselheiro de finanças de sua família.
No momento, estou estabelecendo a situação bancária e uma caderneta de poupança para seu filho ainda não nascido. No devido tempo, poderemos discutir que investimentos a senhora e seu marido desejarão fazer em nome do bebê.
Estou ansioso para conhecê-la melhor nos próximos meses; por favor, não hesite em me contatar para falar de qualquer assunto, por menor que seja.
Atenciosamente,

Kenneth Prendergast

Especialista em Investimentos de Família

KENNETH PRENDERGAST

Prendergast de Witt Connell


Conselheiros de Finanças

Forward House

High Holborn, 394. Londres WC1V 7EX
Sra. R. Brandon

Maida Vale Mansions, 37

Maida Vale

Londres NW6 0YF


1° de agosto de 2003

Cara Sra. Brandon,


Obrigado por sua carta. Em resposta às suas perguntas: sim, haverá um valor de cheque especial na conta do bebê – ainda que, naturalmente, eu não esperaria que fosse usado!
Atenciosamente,

Kenneth Prendergast

Especialista em Investimentos de Família

KENNETH PRENDERGAST

Prendergast de Witt Connell


Conselheiros de Finanças

Forward House

High Holborn, 394. Londres WC1V 7EX
Sra. R. Brandon

Maida Vale Mansions, 37

Maida Vale

Londres NW6 0YF


7 de agosto de 2003

Cara Sra. Brandon,


Obrigado por sua carta.
Fiquei intrigado ao saber da “mensagem psíquica” que a senhora recebeu recentemente de seu filho ainda não nascido. Entretanto, creio que seja impossível acessar o cheque especial neste estágio. Ainda que, como a senhora diz, “o bebê deseje isso”.
Atenciosamente,

Kenneth Prendergast

Especialista em Investimentos de Família

UM
Tudo bem. Não entre em pânico. Vai dar tudo certo. Claro que vai.
Claro que vai!
- Poderia levantar a blusa, Sra. Brandon? – A técnica em ultra-sonografia tem uma voz agradável, profissional, enquanto me olha. – Preciso aplicar um pouco de gel na sua barriga antes de começarmos o exame.
- Sem dúvida! - respondo sem mover um músculo. – O negócio é que... estou só um tiquinho... nervosa.

Estou deitada numa cama no hospital Chelsea and Westminster, tensa de ansiedade. A qualquer minuto, Luke e eu veremos nosso neném na tela pela primeira vez desde que ele era somente uma bolinha minúscula. Ainda não acredito. Na verdade, ainda não superei totalmente o fato de que estou grávida. Dentro de dezenove semanas, eu, Becky Brandon, née Bloom... serei mãe. Mãe!


Luke é meu marido, aliás. Estamos casados há pouco mais de um ano e este é um genuíno, cem por cento, bebê de lua-de-mel! Viajamos de montão na lua-de-mel, mas praticamente deduzi que o neném foi concebido quando estávamos num resort estupendo no Sri Lanka, chamado Unawatuna, todo cheio de orquídeas, bambus e paisagens lindas.

Unawatuna Brandon.


Srta. Unawatuna Orquídea-Bambu Brandon.
Hum. Não sei bem o que mamãe diria.
- Minha mulher teve um pequeno acidente nos primeiros estágios da gravidez – explica Luke em sua cadeira ao lado da cama. – De modo que está um pouco ansiosa.
Ele aperta minha mão, dando apoio, e eu aperto de volta. O meu livro de gravidez, Nove meses da sua vida, diz que a gente deve incluir o parceiro em todos os aspectos da gravidez, caso contrário ele pode se sentir magoado e isolado. Por isso estou incluindo o Luke o máximo que posso. Tipo: ontem à noite eu o incluí assistindo ao meu novo DVD, Braços tonificados durante a gravidez. De repente, ele se lembrou que precisava dar um telefonema profissional bem no meio e perdeu um pedação - mas o fato é que ele não se sente isolado.
- Você teve um acidente? – A técnica parou de digitar no computador.

- Caí de uma montanha quando estava numa tempestade, procurando minha irmã há muito perdida – explico. – Na época não sabia que estava grávida. E acho que talvez tenha dado uma pancada no neném.


- Sei. – A técnica me olha com gentileza. Tem cabelos castanhos meio grisalhos, presos num nó, com uma caneta enfiada. – Bem, os bebês são umas coisinhas resistentes. Vamos dar uma olhada, certo?
Pronto. O momento com o qual estive obcecada durante semanas. Cautelosamente levanto a blusa e olho para a barriga estufada.
- Poderia empurrar os colares para o lado? – acrescenta ela. - É uma bela coleção que você tem aí!
- São pingentes especiais. – Junto todos, chacoalhando-os. – Este é um símbolo asteca da maternidade e este é um cristal de gestação... e este é um guizo para acalmar o neném... e esta é uma pedra do parto.
- Uma pedra do parto?

- A gente a aperta num ponto especial da palma da mão e ela afasta as dores do parto - explico. – Vem sendo usada desde os tempos antigos pelos maoris.


- Humm humm. – A técnica ergue uma sobrancelha e espreme um pouco de gosma transparente na minha barriga. Franzindo a testa um pouco, ela pressiona o negócio do ultra-som na minha pele, e instantaneamente uma imagem turva, em preto-e-branco, aparece na tela.
Não consigo respirar.
É o nosso neném. Dentro de mim. Lanço um olhar para Luke, e ele está grudado na tela, hipnotizado.
- Ali estão as quatro câmaras do coração... – A técnica está movendo o aparelho. – Agora estamos olhando os ombros... – Ela aponta para a tela e franzo os olhos obedientemente, ainda que, para ser honesta, não esteja vendo nenhum ombro, somente curvas borradas.
- Ali está o braço... a mão... – Sua voz fica no ar, e ela franze a testa.
Há silêncio na sala pequena. Sinto um súbito aperto de medo. Por isso ela está franzindo a testa. O neném só tem uma das mãos. Eu sabia.

Uma onda de amor e proteção avassaladores sobe por dentro de mim. Lágrimas crescem nos meus olhos. Não me importa se nosso bebê tem apenas uma das mãos. Vou amá-lo do mesmo modo. Vou amar mais ainda. Luke e eu vamos levá-lo a qualquer lugar do mundo para os melhores tratamentos e vamos criar um fundo de pesquisas, e se alguém ao menos ousar a olhar para o meu neném...


- ...e a outra mão. – A voz da técnica interrompe meus pensamentos.
- Outra mão? – Levanto os olhos, engasgada. – Ele tem duas mãos?
- Bom ... tem. – A técnica parece pasma com minha reação. – Olhe, dá para ver aqui. – Ela aponta para a imagem e, para meu espanto, consigo deslumbrar os dedinhos ossudos. Dez.
- Desculpe. – Engulo em seco, enxugando os olhos com um lenço de papel que ela me entrega. – É um tremendo alívio.
- Tudo parece absolutamente ótimo, pelo que dá para ver – diz ela num tom tranquilizador. – E não se preocupe, é normal ficar emocionada durante a gravidez. São os hormônios se agitando.
Honestamente. As pessoas vivem falando de hormônios. Tipo Luke ontem à noite, quando chorei durante aquele anúncio de tevê com o cachorrinho. Não estou cheia de hormônios, estou perfeitamente normal. Só foi um anúncio muito triste.
- Aqui está. – A técnica batuca de novo no teclado. Uma tira de imagens em preto-e- branco sai da impressora e ela me entrega. Olho a primeira e consigo ver a silhueta nítida de uma cabeça. Tem um narizinho, uma boca e tudo mais.
- Bom, fiz todas as verificações. – Ela gira na cadeira. – Só preciso saber se vocês querem conhecer o sexo do neném.
- Não, obrigado - responde Luke com um sorriso. – Já conversamos muito sobre isso, não foi, Becky? E os dois achamos que, se soubermos, vai estragar um pouco a magia.
- Muito bem. – A técnica sorri de volta. – Se é o que vocês decidiram, não direi nada.

Ela "não dirá nada"? Isso significa que já viu qual é o sexo. Poderia contar agora mesmo!


- Nós não decidimos exatamente, não é? – digo. – Não é definitivo.

- Bem... decidimos sim, Becky. – Luke está perplexo. – Não lembra? Falamos disso durante uma noite inteira e concordamos que queríamos que fosse surpresa.

- Ah, certo, é. – Não consigo afastar os olhos da imagem borrada do bebê. – Mas poderíamos ter nossa surpresa agora! Também seria mágico!

Certo, talvez isso não seja exatamente verdadeiro. Mas ele não está desesperado para saber?

- É isso que você realmente quer? – Quando levanto os olhos vejo uma tira de desapontamento no rosto de Luke. – Ficar sabendo agora?

- Bem... – hesito. – Não, se você não quiser.

A última coisa que quero é chatear Luke. Ele tem sido tão doce e amoroso desde que fiquei grávida! Recentemente ando com desejo de todo tipo de combinações – tipo outro dia tive um desejo súbito de abacaxi e um cardigã cor-de-rosa. E Luke me levou às lojas especialmente para conseguir isso.

Ele está para dizer alguma coisa quando seu celular começa a tocar. Ele o tira do bolso, mas a técnica levanta a mão.

- Sinto muito, mas o senhor não pode usar isso aqui.

- Certo. – Luke franze a testa ao ver o identificador de chamadas. - É o Iam. É melhor ligar de volta para ele.

Não preciso perguntar que Ian. É Ian Wheeler, o chefão de marketing do Grupo Arcodas. Luke tem uma empresa de relações-públicas, a Brandon Communications, e o Arcodas é o novo grande cliente de Luke. Foi um tremendo feito quando ele conseguiu conquistá-lo, e isso deu um tremendo impulso à empresa – ele já contratou mais um monte de funcionários e por causa disso está planejando abrir um monte de novos escritórios no resto da Europa.

De modo que tudo está maravilhoso com a Brandon Communications. Mas, como sempre, Luke se mata de tanto trabalhar. Nunca o vi tendo de dar tanta atenção a alguém antes. Se Ian Wheeler teleona, ele sempre, sempre liga de volta em cinco minutos, ou mesmo no meio da noite. Diz que o ramo de serviços é assim e que a Arcodas e seu megacliente, e que é para isso que estão pagando.

Só posso dizer que, se Ian Wheeler telefonar enquanto eu estiver em trabalho de parto, o telefone vai voar direto pela janela.

- Tem alguma linha fixa que eu possa usar aqui perto? – pergunta Luke à técnica. – Becky, se você não se importa...

- Tudo bem. – Balanço a mão.

- Vou mostrar – diz a técnica, levantando-se. – Volto num instante, Sra. Brandon.

Os dois desaparecem pela porta, que se fecha com um clunk pesado.

Estou sozinha. O computador continua ligado. O negócio do ultra-som está ao lado do monitor.

Eu poderia esticar a mão e...

Não. Não seja idiota. Nem sei usar um ultra-som. E, além disso, estragaria a surpresa mágica. Se Luke quer que a gente espere, tudo bem, vamos esperar.

Ajeito-me na cama e examino as unhas. Posso esperar pelas coisas. Claro que posso. Posso facilmente...

Ah, meu Deus. Não posso. Até dezembro, não. E está bem ali na minha frente... e não tem ninguém perto... só vou dar uma espiadinha de nada. Bem depressa. E não vou contar a Luke. Ainda teremos a surpresa mágica no nascimento – só que não será bem uma surpresa para mim. Exatamente.

Inclinando-me, consigo pegar o aparelho de ultra-som. Encosto-o no gel na minha barriga – e imediatamente a imagem turva reaparece na tela.

Consegui! Agora só preciso mexer ligeiramente para chegar ao pedacinho crucial... Franzindo a testa em concentração, mexo o aparelho sobre o abdômen, inclinando para um lado e para o outro, esticando a cabeça para enxergar a tela. É muito mais fácil do que eu havia pensado! Talvez eu devesse virar técnica em ultra-sonografia. Obviamente levo jeito para isso.

Ali está a cabeça. Uau, é enorme! E aquilo deve ser...

Minha mão congela e prendo o fôlego. Acabo de ver. Vi o sexo do meu neném!

É um menino!

A imagem não é tão boa quanto a da técnica – mas mesmo assim é inconfundível. Luke e eu vamos ter um filho!

- Olá – digo alto para a tela, a voz embargando ligeiramente. – Olá, garotinho!

E agora não consigo impedir que as lágrimas rolem pelas bochechas. Vamos ter um menino maravilhoso! Posso vesti-lo com macacões lindinhos, comprar um carrinho de pedal, e Luke pode jogar críquete com ele, e vamos chamá-lo de...

Ah, meu Deus. Como vamos chamá-lo?

Imagino se Luke gostaria de Birkin. Então eu poderia conseguir uma bolsa Birkin para carregar as fraldas.

Birkin Brandon. É chique.

- Oi, nenezinho – cantarolo gentilmente para a grande imagem redonda da cabeça, na tela. – Quer se chamar Birkin?

- O que você está fazendo? – A voz da técnica faz com que eu dê um pulo. Ela está parada junto à porta com Luke, pasma.

- Desculpe – digo, enxugando os olhos. – Mas eu precisava dar mais uma olhadinha. Luke, estou falando com nosso bebê. É simplesmente... incrível.

- Deixe-me ver! – Os olhos de Luke se iluminam, e ele atravessa rapidamente a sala, seguido da técnica. - Onde?

Não me importo se Luke vir que é um menino e a surpresa ficar arruinada. Tenho de compartilhar esse momento precioso com ele.

- Olhe, ali está a cabeça! – aponto. – Olá, querido!

- Onde está o rosto? – Luke parece meio perturbado.

- Não sei. Do outro lado. – Balanço a mão ligeiramente. – Aqui são a mamãe e o papai! E nós amamos você muito, muito...

- Sra. Brandon – interrompe a técnica. – A senhora está falando com sua bexiga.


Bom, como é que eu ia saber que era a minha bexiga? Parecia um neném.

Enquanto entramos na sala do obstetra, ainda estou me sentindo com as bochechas quentes. A técnica me fez um discurso enorme sobre como eu poderia ter causado um dano a mim mesma ou quebrado a máquina, e só conseguimos nos livrar quando Luke prometeu uma grande doação para o laboratório.



E ela disse que, como eu nem havia chegado perto do bebê, era muito improvável que tivesse visto o sexo. Humf!

Mas, quando me sento diante do Sr. Braine, nosso obstetra, começo a me sentir animada. O Sr. Braine é um homem muito tranqüilizador. Tem 60 e poucos anos e um leve aroma de loção pós-barba antiquada. E deu à luz milhares de bebês, inclusive Luke! Para ser honesta, não consigo imaginar Elinor, a mãe de Luke dando à luz, mas acho que isso deve ter acontecido, de algum modo. E assim que descobrimos que eu estava grávida, Luke disse que precisávamos descobrir se o Sr. Braine ainda exercia a medicina, porque era o melhor do país.

- Meu garoto. – Ele aperta calorosamente a mão de Luke. – Como vai?

- Muito bem. – Luke senta-se ao meu lado. – E como vai o David?

Luke estudou com o filho do Sr. Braine e sempre pergunta por ele quando nos encontramos.

Há silêncio enquanto o Sr. Braine pensa na pergunta. É a única coisa que acho meio irritante nele. O sujeito pensa em tudo que você diz, como se fosse da maior importância, quando na verdade você só estava fazendo alguma observação aleatória para manter a conversa. Na nossa última consulta, perguntei onde ele havia comprado sua gravata, e ele pensou durante uns cinco minutos, depois telefonou para a esposa, para verificar, e foi uma tremenda novela. E eu nem gostei daquela gravata idiota.

- David vai muito bem – diz finalmente, assentindo. – Mandou lembranças. – Há outra pausa enquanto ele examina o impresso da ultra-sonografia. – Muito bom – acaba dizendo. – Está tudo em ordem. Como está se sentindo, Rebecca?

- Ah, estou bem! – respondo. – Feliz, porque o bebê está ótimo.

- Continua trabalhando em horário integral, pelo que vejo. – O Sr. Braine olha para meu formulário. – Não é um trabalho pesado demais para você?

Ao meu lado, Luke dá uma fungadela abafada. Ele é muito grosseiro!

- Bom... – tento pensar em como dizer. – meu trabalho não é tão pesado assim.

- Becky trabalha na The Look – explica Luke. – O senhor sabe, a nova loja de departamentos na Oxford Street.

- Ah. – A expressão do Sr. Braine afunda. – Sei.

Toda vez que conto às pessoas o que faço, elas desviam o olhar, embaraçadas, mudam de assunto ou fingem que nunca ouviram falar na The Look. O que é impossível, porque todos os jornais vêm falando nela há semanas. Ontem o Daily World chamou-a de “maior desastre do varejo na história britânica”.

O único lado bom de trabalhar numa loja falida é que isso significa que posso tirar o tempo que for necessário para ir ao médico ou fazer aulas pré-natais. E se eu não voltar correndo, ninguém nem nota.

- Tenho certeza que as coisas vão melhorar logo – diz ele, encorajando. – Bom, vocês têm mais alguma pergunta?

Respiro fundo.

- Na verdade, eu tinha uma pergunta, Sr. Braine. – Hesito. – Agora que os resultados dos exames estão bons, o senhor diria que é seguro... o senhor sabe...

- Sem dúvida. – Assente o Sr. Braine, compreendendo. – Muitos casais se abstêm de ter relações no início da gravidez...

- Não quis falar de sexo! – digo, surpresa. – Estou falando de fazer compras!

- Fazer compras? – O Sr. Braine fica perplexo.

- Ainda não comprei nada para o neném – explico. – Não queria estragar as coisas. Mas, se tudo parece bem, posso começar esta tarde!

Não consigo deixar de parecer empolgada. Estive esperando e esperando para começar a fazer as compras do neném. E acabei de ler sobre uma nova loja fabulosa para bebês na King’s Road, chamada Bambino. Na verdade, tirei uma tarde de folga especialmente para ir lá!

Sinto o olhar de Luke grudado em mim, viro a cabeça e vejo que ele está me olhando com incredulidade.

- Querida, como assim, “começar”? – pergunta ele.

- Ainda não comprei nada para o neném! – digo, na defensiva. – Você sabe que não.

- Então... Você não comprou um roupão Ralph Lauren miniatura? – Luke conta nos dedos. – Ou um cavalinho de balanço? Ou uma roupinha de fada cor-de-rosa com asas?

- Essas coisas são para quando a criança estiver andando – retruco com dignidade. – Não comprei nada para o neném.

Honestamente. Luke não vai ser um bom pai se não sabe a diferença.

- E o que faremos se for um menino? – pergunta Luke. – Vai vestir a roupinha de fada cor-de-rosa nele?

Estava planejando usá-la eu mesma. Na verdade, já experimentei e ficou muito esticada! Não que eu vá admitir isso para Luke.

- Sabe, estou surpresa com você, Luke. – Levanto o queixo. – Não achava que fosse preconceituoso.

O Sr. Braine acompanha nossa conversa, perplexo.

- Imagino que não queiram saber o sexo do bebê, não é? – intervém ele.

- Não, obrigado – diz Luke, decidido. – Queremos manter a surpresa, não é, Becky?

- Ah... é. – Pigarreio. – A não ser que o senhor talvez ache, Sr. Braine, que deveríamos saber por motivos bons, médicos, inevitáveis.

Olho intensamente para o Sr. Braine, mas ele não capta a mensagem.

- De jeito nenhum. – Ele ri de orelha a orelha.

Droga.
Passam-se mais vinte minutos antes de sairmos do consultório, três dos quais como Sr. Braine me examinando, e o resto com ele e Luke recordando algum jogo de críquete na escola. Estou tentando ser educada e escutar – mas não consigo deixar de me remexer, impaciente. Quero ir à Bambino!

Por fim, a consulta acaba, e estamos saindo para a movimentada rua de Londres. Uma mulher passa com um antiquado carrinho de bebê Silver Cross, e eu o examino discretamente. Definitivamente quero um carrinho assim, com aquelas estupendas rodas que balançam. Só que vou pedir um acabamento em rosa-shoking. Vai ficar fabuloso. As pessoas vão me chamar de a Garota do Carrinho de Bebê Rosa-shoking. Só que, se for menino, mando pintar com spray azul-bebê. Não... água-marinha. E todo mundo vai dizer...

- Falei com Giles, da corretora de imóveis, hoje cedo. – Luke interrompe meus pensamentos.

- Verdade? – Levanto os olhos, empolgada. – Ele tem alguma coisa?

- Nada.

- Ah. – Fico murcha.



No momento, moramos numa cobertura incrível que Luke tem há anos. É estonteante, mas não tem jardim, e há um carpete bege imaculado por toda parte e não é exatamente o tipo de lugar para um neném. De modo que há algumas semanas nós a pusemos à venda e começamos a procurar uma bela casa.

O problema é que o apartamento foi comprado imediatamente. O que – não quero contar vantagem nem nada – se deveu totalmente à minha decoração brilhante. Pus velas em toda parte, uma garrafa de champanhe no banheiro, e um monte de toques “de estilo”, como programas de ópera e convites para acontecimentos sociais chiques (que peguei emprestados com Suze, minha amiga riquésima.) E um casal chamado Karlsson fez uma oferta no ato! E eles podem pagar em dinheiro vivo!

O que é fantástico – só que, onde é que vamos morar? Não vimos uma única casa da qual tenhamos gostado e agora o corretor fica dizendo que o mercado está muito “seco” e “pobre” e: será que já pensamos em alugar?

Eu não quero alugar. Quero ter uma linda casa nova para onde levar o neném.

- E se não encontrarmos um lugar? – Olho para Luke. – E se formos jogados na rua? Vai ser inverno! Eu vou estar tremendamente grávida.

Tenho uma imagem súbita de mim mesma andando pela Oxford Street enquanto um coro canta “Bate o sino pequenino, sino de Belém”.

- Querida, não vamos ser jogados na rua! Mas Giles disse que talvez devêssemos ser mais flexíveis nas exigências. – Luke faz uma pausa. – Acho que ele estava falando nas suas exigências, Becky.

Isso é tão injusto! Quando mandaram um Formulário de Busca de Imóveis, o papel dizia: “Seja o mais específico possível em seus desejos.” E eu fui. E agora estão reclamando!

- Podemos esquecer o quarto de sapatos, aparentemente – acrescenta ele.

- Mas... – Paro ao ver sua expressão. Uma vez vi um quarto de sapatos no Estilo de vida dos ricos e famosos, e desde então morro de vontade de ter uma. – Então tá – digo humildemente.

- E talvez tenhamos de ser mais flexíveis com relação à localização.

- Não me importo com isso! – digo enquanto o celular de Luke começa a tocar. – Na verdade, acho boa idéia.

Luke é que sempre gostou tanto de Maida Vale, não eu. Há um monte de lugares onde eu gostaria de morar.

- Luke Brandon falando – diz ele, de seu jeito profissional. – Ah, oi. Já fizemos o exame. Está tudo ótimo. – Ele se volta para mim. – É a Jess – diz. – Ela tentou falar com você, mas seu telefone ainda está desligado.

- Jess! – digo, deliciada. – Deixe-me falar com ela!

Jess é minha irmã. Minha irmã. Ainda acho o máximo dizer isso. Durante toda a vida pensei que era filha única – e então descobri que tinha uma irmã há muito perdida! A princípio a gente não se entendeu exatamente, mas desde que ficamos presas juntas numa tempestade e conversamos direito, somos amigas de fato.

Não a vejo há uns dois meses porque ela esteve na Guatemala, num projeto de pesquisa geológica. Mas telefonamos e trocamos e-mails, e Jess me mandou fotos no topo de um penhasco. (Usando um anoraque azul medonho, em vez da jaqueta maneira, de couro falso, que dei a ela. Francamente.)
- Vou voltar ao escritório agora – está dizendo Luke ao telefone. – E Becky vai fazer compras. Quer falar com ela?

- Shh! – sibilo, horrorizada. Ele sabe que não deve falar a palavra “compras” para Jess.

Fazendo careta para ele, pego o telefone e encosto no ouvido.

- Oi, Jess! Como vão as coisas?

- Fantásticas! – A voz está distante e cheia de estalos. – Só liguei para saber como foi o exame.

Não consigo deixar de me sentir tocada com a lembrança. Ela provavelmente está pendurada numa corda sobre alguma fenda em algum lugar, tirando lascas da face da rocha, mas mesmo assim lembrou de ligar.

- Está tudo ótimo!

- É, Luke disse. Graças a Deus. – Posso escutar o alívio na voz de Jess. Sei que ela sente culpa por eu ter caído da montanha, porque fui lá para procurá-la, porque...

Bom, é uma longa história. O fato é que o bebê está ótimo.

- E aí, Luke disse que você vai fazer compras?

- Só algumas coisas essenciais para o neném – digo casualmente. – Umas... é... fraldas recicladas. No brechó. – Posso ver Luke rindo de mim, mas me viro depressa.

O negócio da minha irmã Jess é que ela não gosta de gastar dinheiro nem de arruinar a Terra como consumismo maligno. E acha que eu também não. Acha que segui seu caminho e abracei a frugalidade.

Abracei mesmo, por uma semana. Encomendei um saco grande de aveia, comprei umas roupas na Oxfam e fiz sopa de lentilha. Mas o problema de ser frugal é que é muito chato! A gente enjoa de sopa, de não comprar revistas porque são um desperdício de dinheiro e de grudar sobras de sabonete para fazer uma bola grande e nauseante. E a aveia estava sendo tão usada quanto os tacos de golfe do Luke, de modo que acabei jogando fora e comprando um pouco de Weetabix.

Só que não posso contar a Jess, porque vai arruinar nosso lindo elo entre irmãs.

- Você viu a matéria sobre fazer seus próprios paninhos de limpeza do bebê? – ela esta dizendo com entusiasmo. – Deve ser bem fácil. Comecei a guardar uns trapos para você. Podemos fazer juntas.

- Ah. Hum... é!

Jess vive me mandando exemplares de uma revista chamada Bebê frugal. Tem títulos de matérias como “Tricote seu quarto de bebê por 25 libras!” e fotos de bebês vestindo velhos sacos de farinha, e fico deprimida só de olhar. Não quero fazer o neném dormir num cesto de plástico feito para roupa suja. Quero comprar um bercinho lindo com babados brancos.

Agora ela está falando de alguma coisa chamada “macacão de cânhamo sustentável”. Acho melhor acabar com esta conversa.

- Preciso desligar, Jess. Você vai à festa de mamãe?

Minha mãe vai dar uma festa de 60 anos no fim de semana que vem. Um monte de gente foi convidada, haverá uma banda, e Martin, o vizinho, vai fazer truques de mágica.

- Claro! – responde Jess. – Não perderia por nada! Vejo você lá.

- Tchau!


Desligo o telefone e me viro, vendo que Luke conseguiu parar um táxi.

- Posso deixar você no brechó? – pergunta ele, abrindo a porta.

Ah, rá rá.

- Bambino, na King’s Road, por favor – digo ao motorista. – Ei, quer ir, Luke? – acrescento, num entusiasmo súbito. – Poderíamos olhar uns carrinhos maneiros e tudo o mais, e tomar um chá em algum lugar legal...

Pela expressão de Luke, já sei que ele vai dizer não.

- Preciso voltar, querida. Reunião com Ian. Na próxima eu vou, prometo.

Não adianta ficar desapontada. Sei que Luke está trabalhando integralmente na conta do Arcodas. Pelo menos conseguiu arranjar tempo para acompanhar o exame. O táxi parte, e Luke passa o braço em volta de mim.

- Você está luminosa – diz ele.

- Verdade? – Sorrio de volta. Tenho de dizer que estou me sentindo muito bem, hoje. Estou usando meu fabuloso jeans Earl novo, de grávida, espadrilles de salto alto e uma blusa sensual, de gola alta, da Isabella Oliver, que franzi para cima, mostrando só um pouquinho de barriga bronzeada.

Nunca havia notado – mas estar grávida é um barato! Certo, a barriga cresce – mas é como deve ser. E em comparação as pernas parecem mais finas. E de repente a gente fica com um decote estupendo. (Do qual, devo dizer, Luke gosta muito.)

- Vamos dar outra olhada naquelas imagens do ultra-som – diz ele.

Enfio a mão na bolsa e pego o rolo de imagens brilhantes, e por um tempo ficamos olhando juntos: a cabeça redonda; o perfil do rostinho.

- Estamos começando uma pessoa totalmente nova – murmuro, com os olhos fixados. – Dá para acreditar?

- Eu sei. – Os braços de Luke me apertam. – É a maior aventura que jamais teremos.

- É incrível como a natureza funciona. – Mordo o lábio, sentindo as emoções subindo outra vez. – Todos esses instintos maternais surgiram. Eu sinto como... se quisesse dar tudo ao nosso neném!

- Bambino – diz o motorista, parando junto à calçada. Levanto os olhos das imagens de ultra-som e vejo a fachada da loja mais fantástica, nova em folha. A pintura é creme, o toldo é de listras vermelhas, o porteiro se veste como um soldadinho de chumbo e as vitrines são como um tesouro para crianças. Há lindas roupinhas de bebê em manequins, uma cama de criança em forma de Cadillac dos anos 1950, uma roda-gigante de verdade girando e girando...

- Uau! – ofego, estendendo a mão para a maçaneta do táxi. – Será que aquela roda-gigante está à venda? Tchau, Luke, vejo você mais tarde.

Já estou passando pela entrada quando ouço Luke gritar:



- Espera! - Viro-me e vejo uma expressão de ligeiro alarme no rosto dele. – Becky. – Ele se inclina para fora do táxi. – O bebê não precisa ter tudo.

DOIS
Como, afinal, consegui adiar tanto as compras para o neném?
Cheguei ao departamento de bebes da Bambino, no primeiro andar. O carpete é macio, há cantigas de ninar tocando no sistema de som e enormes bichos de pelúcia decorando a entrada. Um vendedor vestido como coelho Peter me dá um cesto de vime branco, e, quando olho ao redor, segurando-o, sinto o entusiasmo subir.
Dizem que a maternidade muda a gente – e estão certos. Pela primeira vez na vida não estou pensando em mim mesma. Estou sendo totalmente altruísta! Tudo isso é para o bem do meu neném que ainda não nasceu.
Numa direção, há fileiras de berços estupendos e móbiles girando e tilintando. Em outra, posso vislumbrar o brilho cromada e atraente dos carrinhos de bebê.
À minha frente há araras com roupinhas diminutas. Dou um passo adiante, em direção ás roupas. Olha só aqueles lindos sapatinhos de coelho. E as minúsculas jaquetas de couro almofadado... e há uma gigantesca seção de Bebê Dior... e, ah, meu Deus, júnior Dolce...
Tudo bem. Calma. Vamos nos organizar. I que preciso é de uma lista.
Pego na bolsa o Nove meses de sua vida. Vou ao capítulo oito, “Fazendo compras para o seu bebê”, e começo a examinar a página, ansiosa.

Roupas

Não fique tentada a comprar muitas roupas para bebês pequenos. O branco é recomendado pela facilidade de lavagem. Três macacões simples e seis camisetas vão bastar.
Olho aquelas palavras por um momento. Na verdade, nunca é boa idéia seguir um livro muito á risca. Até dizia na introdução: “você não vai querer seguir absolutamente todos os conselhos. Cada bebê é diferente, e você deve ser guiada por seus instintos. “
Meus instintos estão dizendo para comprar uma jaqueta de couro.
Corro até o mostruário e examino as etiquetas de tamanho: “bebê recém-nascido”, “bebê pequeno”. Como vou saber se terei um bebê pequeno ou não? Até agora parece bem pequeno, mas quem vai saber? Talvez eu devesse comprar as duas, para garantir.
- É a roupa para a neve da Baby in Urbe! – A mão com unhas impecáveis aparece na arara á minha frente e pega uma roupa acolchoada, num chique cabide preto. – Eu estava doida para achar uma dessas.
- Eu também! – digo instintivamente, e pego a ultima que resta.
- Sabe que na Harrods a lista de espera para isso é de seis meses? – A dona da mão é uma loura gravidésima usando jeans e uma blusa stretch turquesa. – Ah, meu Deus, eles têm toda a coleção Baby in Urbe. – Ela começa a empilhar as roupas de bebê em seu cesto de vime branco. – E olha! Têm sapatos Piglet. Preciso comprar uns para minhas filhas.
Nunca sequer ouvi falar em Baby in Urbe. Nem em sapatos Piglet.
Como posso ser tão chique? Como posso não ter ouvido falar de nenhuma dessas grifes? Enquanto examino as roupas minúsculas á minha frente, sinto um ligeiro pânico. Não sei o que é chique e o que é cafona. Não tenho a mínima idéia sobre moda de bebê. E só tenho uns quatro meses para me atualizar.

Sempre posso perguntar a Suze. Ela é minha melhor e mais velha amiga, e tem três filhos. Ernest, Wilfrid e Clementine. Mas com ela a coisa é meio diferente. A maioria das roupas de seus bebês é bordada á mão, passada de geração em geração e cerzida pela velha empregada de sua mãe, e os bebês dormem em antigos berços de carvalho da casa senhorial da família.


Pego dois pares de sapato Piglet, vários macacões Baby in Urbe e um par de Jellie Wellies, só para garantir. Então vejo o vestidinho cor-de-rosa mais lindo do mundo. Tem botões de arco-íris, calcinha combinando e meias minúsculas. É absolutamente estupendo. Mas e se tivéssemos um menino?
É impossível, esse negócio de não saber o sexo. Deve haver algum meio de descobrir secretamente.
- Quantos filhos você tem? – pergunta a garota de blusa turquesa, em tom de bate-papo, enquanto olha dentro dos sapatos para ver os tamanhos.
- É o meu primeiro – indico a barriga.
- Que ótimo! Igualzinha á minha amiga Saskia. – Ela indica uma garota de cabelos escuros que está parada ali perto. É magra como um palito, sem qualquer sinal de gravidez, e está falando concentrada num celular. – Ela acabou de descobrir. É tão empolgante!
Neste momento, Saskia fecha o telefone e vem na nossa direção, com o rosto luzindo.
- Consegui! – diz ela. – Vou fazer com a Venetia Carter!
- Ah, Saskia! É fantástico! – A garota de blusa turquesa larga o cesto de roupas bem no meu pé e envolve Saskia com os braços. – Desculpe! – acrescenta, animada, para mim quando lhe entrego o cesto de volta. – Mas não é uma noticia fantástica? Venetia Carter!

- Você também está com a Venetia Carter? – pergunta a mim, com interesse súbito.

Estou tão por fora dos baratos de bebê! Não faço a mínima idéia de quem, ou o quê, é Venetia Carter.
- Não ouvi falar nela – admito.
- Você sabe. – A garota da blusa turquesa arregala os olhos. – A obstetra! A celebridade obstetra imprescindível!
Celebridade obstetra imprescindível?
Minha pele começa a se arrepiar. Há uma celebridade obstetra imprescindível e eu não sabia?
- A de Hollywood! – explica a garota de blusa turquesa. –Ela faz o parto de todos os bebês das estrelas de cinema. Você deve ter ouvido falar. E agora se mudou para Londres. Todas as supermodelos estão se consultando com ela. Ela dá chás comemorativos para as clientes, não é fabuloso? Todas levam os bebês e ganham umas bolsas de brindes fabulosas...
Meu coração esta martelando enquanto ouço. Bolsas de brinde? Não acredito que estou perdendo tudo isso. Por que nunca ouvi falar de Venetia Carter?
É tudo culpa de Luke. Ele fez a gente ir direto ao velho e chato Sr. Braine. Nem chegamos pensar me mais ninguém.
- E ela é boa em... bem... fazer partos? – pergunto, tentando permanecer calma.
- Ah, Venetia é maravilhosa – diz Saskia, que parece muito mais intensa que a amiga. – Não é como esses médicos antiquados. Ela realmente se conecta com a gente. Minha chefe, Amanda, teve o mais fabuloso parto holístico na água, com flores de lótus e massagem tailandesa.
Massagem tailandesa? O Sr. Braine jamais sequer mencionou massagem tailandesa.
- Meu marido não quer pagar para eu ter o neném com ela – diz a garota de blusa turquesa. – É um pão-duro. Saskia, você tem tanta sorte!
- Como conseguiu uma consulta com ela? – As palavras se derramam antes que eu consiga impedir. – Você tem o endereço? Ou o telefone?
- Ah. – A garota de blusa turquesa troca olhares de dúvida com Saskia. – Você provavelmente está atrasada demais. Ela deve estar com a agenda cheia.

- Posso lhe dar isso. Você pode tentar. – Saskia enfia a mão na bolsa Mulberry e pega uma brochura na qual está escrito “Venetia Carter” em elegantes letras em relevo azul-marinho e o desenho de um bebê. Abro, e a primeira coisa que vejo é uma página de testemunhos resplandecentes, com nomes discretos embaixo. Todos famosos! Viro a parte de trás e há um endereço em Maida Vale.


Não acredito. Maida Vale é onde nós moramos. Ah, isso tem tudo a ver.
- Obrigada – digo, sem fôlego. – Vou tentar.
Enquanto Saskia e a amiga se afastam, pego o celular e aperto o botão de memória para ligar para o Luke.
- Luke! – exclamo assim que ele atende. – Graças a Deus você atendeu! Adivinha só!
- Becky, você está bem? – pergunta ele, alarmado. – O que houve?
- Estou bem! Mas escuta, temos que mudar de médico! Acabo de descobrir sobre uma brilhante obstetra celebridade chamada Venetia Carter. Todo mundo se consulta com ela e parece que ela é incrível, e o consultório é perto de nós! Não poderia ser mais perfeito! Vou ligar pra ela!
- Becky, que diabo você esta falando? – Luke parece incrédulo. – Não vamos mudar o médico! Nós temos um médico, lembre-se. Um médico muito bom.
Será que ele não escutou?
- Sei que temos. Mas Venetia Carter faz o parto de todas as estrelas de cinema! Ela é holística!
- Como assim, “holística”? – Luke não parece impressionado. Meu Deus, ele tem uma mente tão fechada!
- Quero dizer que todo mundo tem um parto fabuloso. Ela faz massagem tailandesa! Acabo de conhecer duas garotas na Bambino, e elas disseram...
- Realmente não vejo que vantagens essa mulher pode ter sobre o Sr. Braine – interrompeu Luke. – Nós sabemos que ele é experiente, sabemos que faz um bom trabalho, é amigo da família...
- Mas... mas... – Estou pulando de frustração.
- Mas o quê?

Estou atarantada. Não posso dizer: “Mas ele não dá chás freqüentados por supermodelos. “


- Talvez eu queira ser tratada por uma mulher! – exclamo numa inspiração súbita. – Já pensou nisso?
- Então vamos pedir que o Sr. Braine recomende uma colega – responde Luke com firmeza. – Becky, o Sr. Braine é obstetra da família há anos. Realmente não acho que a gente deveria correr para uma doutora da moda, desconhecida, só porque duas garotas disseram.
- Mas ela não é desconhecida! Essa é a questão! Ela trata de celebridades!
- Becky, pára com isso. – De repente, Luke parece incisivo. –É má idéia. Você já está na metade da gravidez. Não vai mudar de médico e fim de papo. Iain está aqui. Preciso desligar. Vejo você depois.
O telefone fica mudo, e eu o encaro, lívida.
Como ele ousa dizer com que médico vou me consultar? E o que há de tão fantástico em seu precioso Sr. Braine? Guardo o celular e a brochura de volta na bolsa e começo a encher furiosamente o cesto com roupinhas de bebê Petit Lapin.
Luke não entende nada. Se todas as estrelas de cinema se consultam com a mulher, ela tem de ser boa.
E seria muito chique. Muito chique!
Tenho uma visão súbita de mim mesma deitada num hospital, com meu novo neném no colo, e Kate Winslet na cama ao lado. E Keidi Klum na outra cama. Viraríamos amigas! Compraríamos presentinhos umas para as outras, e todos os nossos bebês ficariam ligados por toda a vida, e iríamos ao parque juntas e seriamos fotografadas pela revista Hello! “Kate Winslet empurra seu carrinho de bebê, batendo papo com uma amiga. “
Talvez “com sua melhor amiga, Becky”.
- Com licença, a senhora precisa de outro cesto? – Uma voz interrompe meus pensamentos, levanto os olhos e vejo um vendedor indicando minha pilha transbordante de roupas de bebê. Estive enfiando-as no cesto sem realmente notar.
- Ah, obrigada – digo, num atordoamento. Pego o segundo cesto de vime e vou até um mostruário de chapéus minúsculos em que está escrito “Estrelinha” e “Pequeno tesouro”.

Mas não consigo me concentrar.


Quero me consultar com Venetia Carter. Não importa o que Luke pensa.
Num desafio súbito, pego de novo o celular e a brochura. Vou até um canto silêncioso da loja e digito cuidadosamente o número.
- Boa tarde, consultório de Venetia Carter – responde uma voz de mulher muito metida a chique.
- Ah, olá! – digo, tentando parecer o mais charmosa que posso. – Vou ter um bebê em dezembro e ouvi dizer que Venetia Carter é maravilhosa, e fiquei imaginando se poderia haver alguma chance de eu marcar uma consulta com ela, será?
- Sinto muito – diz a mulher em voz firme mas educada. A Srta. Carter está com a agenda totalmente ocupada no momento.
- Mas estou realmente desesperada! E realmente acho que preciso de um parto holístico na água. E moro em Maida Vale e estaria disposta a pagar acima do preço normal.
- A Srta. Carter está absolutamente...
- Só gostaria de acrescentar que sou compradora pessoal, e ficaria satisfeita em oferecer meus serviços gratuitamente a Srta. Carter. – As palavras saem num jorro. – E meu marido tem uma empresa de divulgação e poderia trabalhar em relações-públicas de graça para ela! Não que ela provavelmente precise, claro – acrescento depressa. – Mas será que poderia perguntar? Por favor.
Há silêncio.
- O seu nome é? – diz a mulher, por fim.
- Rebecca Brandon – digo ansiosa. – Meu marido é Luke Brandon, da Brandon Communications, e...
- Um momento, por favor, Sra. Brandon. Venetia... – A conversa é cortada por um trecho animado de “as quatro estações”.
Por favor, que ela diga sim. Por favor, que ela diga sim...
Mal posso respirar enquanto espero. Estou parada junto a um mostruário de coelhos de tricô brancos, cruzando os dedos com o máximo de força que posso, segurando os pingentes no pescoço, para garantir, e enviando preces silênciosas á deusa Vishnu, que foi muito útil no passado.

- Sra. Brandon?


- Olá! – Largo todos os pingentes. – Estou aqui!
- É provável que a Srta. Carter tenha um horário inesperado na agenda. Poderemos informar á senhora nos próximos dias.
- Certo – ofego. – Muito obrigada!

R E G A L A I R L I N E S
Escritório Central
Preston House
KINGSWAY, 354 • LONDRES WC2 4TH

Sra. Rebecca Brandon


Maida Vale Mansions, 37
Maida Vale
Londres NW6 0YF

14 de agosto de 2003


Cara Sra. Brandon,

Obrigada por sua carta, pelos itinerários de vôo, o bilhete do médico e as imagens de ultra-som anexos.

Concordo que seu filho ainda não nascido voou muitas vezes pela Regal Airlines. Infelizmente, isso não se qualifica como milhas aéreas, já que ele não comprou passagem para nenhum desses vôos.

Lamento desapontá-la, e espero que a senhora escolha a Regal Airlines de novo em breve.

Atenciosamente,

Margaret McNair


Gerente de Atendimento ao Consumidor.



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