Brincadeiras de Ontem



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Brincadeiras de Ontem


Brincadeiras de Ontem - Carlos Alberto Almeida Marques

menumark




Carlos Alberto Almeida Marques

 

Brincadeiras de Ontem

Edição Especial para Download Grátis pela Internet

 

Juazeiro do Norte


2001

Endereço do Autor:
Rua Dr. José Gonçalves, 1781
Lagoa Nova
59056-570 NATAL – RN
Telefone: 0xx84.206.6272/231.0591
E-mail: artvicio@zaz.com.br

DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS

Versão para eBook
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Dedicatória

 

Aos meus pais,


Zeca Marques e Maria Almeida,
por terem sempre me liberado para todas as brincadeiras.

Às minhas crianças
Carlos Alexandre, Aline e Luana.

Em memória de meus irmãos

Válter e Samuel,
que foram brincar no céu.

Agradecimentos

À minha esposa, Ozenir,
pela empolgada divulgação prévia deste livro.

Aos meus irmãos Daniel e Jorge Luiz,
pelo grande incentivo e pela valiosa
ajuda nas lembranças das brincadeiras.


Sumário

Prefácio
Apresentação
Introdução
As brincadeiras
Triângulo – Futebol de Poeira – Bandeirinha – Bila – Castanha – Meia-Linha – Empunhação – Cobra-Cega – Cinturão Queimado – Cantigas e Brincadeiras de Roda – Jogo de Botão – Peteca – Banho de Rio – Baladeira – Carrapeta – Bola de Meia – Caçar Borboletas – Troca de Revistas – Patinete – Coleções – Cinema – Cowboy – Roda – Jogos de Mesa – Emissora de Rádio – Catar Besouro – Circo – Banho de Chuva – Briga – Corrida – Macaca – Salva Companheiro – Bicheirinha – Futebol de Prego – Sinuca – Esconde-esconde – Comício – Concurso de Cuspe, de Mijo à distância e Pau melado de bosta – Adivinhação – Corrida de Carro – Revólver – Raia e Papagaio – Nego de Cera – Carrinho de Pé – Guerra – Tratorzinho – Rádio-transmissor – Badoque – Setinhas
– Glossário
O Autor

Prefácio



 

     Ainda não existe (a não ser no mundo da ficção) e jamais haverá uma “máquina do tempo” capaz de nos transportar para passado com a força e a rapidez que a leitura de um livro proporciona. Aliás, alguém já disse: quem lê viaja no tempo. Isto é uma grande verdade. Voltar ao passado, ao meu tempo de infância, foi justamente o que experimentei ao ler os originais deste opúsculo sobre brincadeiras de infância/adolescência escrito em boa hora por meu irmão Carlos Alberto, mais novo do que eu apenas dois anos.


     Das brincadeiras relatadas neste livrete eu participei praticamente de todas. Pena que durou tão pouco, só agora eu sei. Quando se chega à idade adulta precocemente, como foi o meu caso, é que a gente lamenta ter saído tão cedo da infância e da adolescência. E aí, de nada adianta lamentar, pois, o passado, inexorável como é, sempre anda para trás e, quando por acaso volta, só o faz através do pensamento.
     Lendo este livro a gente percebe quanto Carlos Alberto tem razão, quando diz que a modernidade vem acabando com as brincadeiras das crianças. Realmente, muitas das brincadeiras salutares e agradáveis de antigamente não combinam com a modernidade. Enquanto o lugar onde moramos não conhece o progresso, as brincadeiras disponíveis e utilizadas são em número muito grande. De fato, cidade pequena, sem ruas pavimentadas, com muitos terrenos baldios e pouca iluminação é o lugar ideal para se praticar a maioria das brincadeiras descritas nesta obra de Carlos Alberto.
     É fácil perceber que ruas asfaltadas e movimentadas não oferecem condições para se brincar, por exemplo, de carrapeta, de triângulo, de bila de buraco, etc.; ruas claras, bem iluminadas, são igualmente desapropriadas para se brincar, por exemplo, de esconde-esconde ou do famigerado “pau melado de bosta”; calçadas de ladrilhos não prestam para se brincar com castanhas de caju, uma excelente brincadeira (ou jogo?) na qual se podia até ganhar umas moedas, porquanto ela só pode ser praticada em calçada de cimento liso; e em ruas com prédios altos e atravessadas por cabos elétricos e telefônicos fica difícil soltar pipa ou brincar de raia, como se dizia no passado.
     Em Juazeiro do Norte o progresso já chegou e é exatamente por essa razão que é raro se encontrar crianças brincando das brincadeiras tão comuns nas décadas de 50 e 60, quando a cidade não contava com os benefícios da vida moderna, como a energia elétrica de Paulo Afonso que provocou em nossa cidade o advento dos brinquedos eletrônicos, e também da televisão, videogame, videocassete, enfim, essas coisas modernas e modernosas que a gente não sabe ao certo se delas usufrui ou padece.
     Eu já estou mais ou menos adaptado à vida moderna, mas se pudesse – nem que fosse por pouco tempo – voltar ao meu tempo de infância, não vacilaria um segundo sequer, pois, aquele sim, é que era, realmente, um tempo bom. A gente era feliz e não sabia, para repetir uma expressão tão repisada. Ninguém conhecia, naquele tempo, o que era violência, drogas, pornografia. É claro que essas coisas existem há bastante tempo, mas nos anos 50 e 60 a dimensão era insignificante, nada que se compare à época atual.
     Com a publicação deste livro, Carlos Alberto, hoje engenheiro, casado, pai e avô, presta um significativo serviço às gerações dos “anos dourados” e à seguinte, a dos “anos rebeldes”, ao resgatar brincadeiras que a modernidade implacavelmente vem afastando da meninada, e o pior, conduzido-as ao esquecimento. Então, relembrá-las através deste trabalho primoroso proporciona um excelente exercício de memória, um verdadeiro mergulho num fascinante e inesquecível mundo de fantasias, o mundo lúdico inerente à vida de toda criança, independentemente de sua condição social ou econômica.
     Se você, amigo leitor, foi criança um dia, parabéns. Pegue carona aqui, vista sua calça curta (hoje se chama bermuda), relaxe, esqueça todo e qualquer problema, deixe-se invadir pela emoção de voltar ao passado, transforme-se novamente numa criança, a criança que você foi ontem, junte-se aos seus companheiros, escolha a brincadeira e vamos todos brincar que ainda é tempo.
     E como este é um livro de brincadeiras, deixe sua imaginação fluir à vontade.

 

Daniel Walker



Apresentação

 

     A idéia de escrever este livro surgiu no final de 1984, quando dei de presente ao meu filho Carlos Alexandre, então com 10 anos, um brinquedo eletrônico chamado Atari, que utilizava o aparelho de televisão como complemento e era uma verdadeira coqueluche na época. Morando sempre em zonas urbanas de capitais, senti que meu filho jamais iria ter os tipos de brincadeiras que eu tive quando menino. Ele iria ser criado sob a influência da informática e da recém iniciada revolução dos jogos eletrônicos, que consolidava a televisão como o instrumento determinante maior do novo modo de brincar das crianças. Então pensei em escrever um pequeno resumo das brincadeiras de minha infância e adolescência em Juazeiro do Norte, pretendendo que meu filho pelo menos as conhecesse através da leitura.


     De início, deparei-me com algumas pequenas dificuldades. Eu tinha que descrever as brincadeiras com a maior clareza possível e com bastante simplicidade. A narrativa tinha que ser técnica e detalhada, na explicação das regras e dos objetivos das brincadeiras, e ao mesmo tempo leve e agradável, para despertar o interesse na leitura por uma criança. Além do mais, estava morando em uma capital, longe dos locais das brincadeiras e, devido o longo tempo já passado desde a minha infância, alguns de seus detalhes e características me fugiam da memória. De qualquer forma iniciei o livro e interrompi a escrita em pouco tempo, tendo na época esboçado apenas a descrição de umas poucas brincadeiras.
     Só agora, passados dezesseis anos, com meu filho já adulto, tendo já me dado uma netinha, foi que decidi a qualquer custo concluir o trabalho, com a intenção de deixar registrado pelo menos uma parte das minhas atividades naquele tempo de infância e adolescência. Ao descrever as brincadeiras, tive a mesma satisfação ao lembrar os antigos amigos, principalmente aqueles engraçados ou exóticos. Muitos são citados nominalmente e não são do conhecimento dos leitores que não foram da Pracinha ou do meu tempo. No entanto, acredito que personagens semelhantes fazem parte da infância de todos.
     Esqueci que não sou escritor e preocupei-me apenas em ativar a memória e relembrar várias passagens, o que se tornou para mim uma nostálgica, porém agradável viagem a um belo tempo passado.
     É bem verdade que ainda hoje podemos ver nas periferias das cidades, onde existem terrenos baldios e ruas não calçadas, meninos brincando de algumas daquelas brincadeiras. Mesmo assim preferi fazer a narrativa empregando os verbos no tempo passado, tentando, talvez inconscientemente, reforçar a sensação de que aquela realidade (do meu tempo) não mais existe.

 

Carlos Alberto Almeida Marques



Introdução



 

     Havia algumas características comuns à maioria das brincadeiras naquele tempo longínquo em Juazeiro do Norte, quando o progresso estava apenas chegando. As brincadeiras eram praticadas em quadras ou terrenos baldios, em ruas não calçadas e em locais sem iluminação. Estas peculiaridades eram comuns na época, uma vez que existiam na cidade muitas áreas abertas, poucas ruas calçadas e a chamada luz de Paulo Afonso, recém chegada, só beneficiava umas poucas ruas privilegiadas. Nesse tempo, dávamos a maior prioridade às brincadeiras, vestíamos calça curta, calçávamos alpercatas e sandálias de rabicho (depois apareceram as sandálias japonesas) e tornávamo-nos rapazes quando pedrávamos e quebrávamos o cabresto, expressões estas que denotavam nossas alterações fisiológicas íntimas.


     Brincávamos sempre descalços e na maioria das vezes de calção, sem camisa, como dizíamos, nus da cintura pra cima.
     Os dias e horários eram naturalmente definidos: de segunda a sexta-feira iniciávamos as brincadeiras a partir das cinco horas da tarde, após a volta da escola, com um pequeno intervalo para o jantar, e prosseguíamos até às nove horas da noite, no máximo. Nos sábados, domingos e feriados era o dia todo.
     Brincávamos muito, mas muito mesmo, sem, contudo, atrapalhar os estudos. O dia parecia ser mais longo e permitia a quem quisesse, estudar, brincar e até ajudar em algumas tarefas caseiras. O horário de recreio das escolas, normalmente meia hora, era também aproveitado para brincar de bila ou de trocar figurinhas. É claro que havia alguns meninos, os alunos relaxados, que viviam atrasados nos estudos, mas os motivos eram outros.
     Brincadeiras e jogos, ainda hoje é difícil caracterizar o que era uma coisa ou outra. Poderíamos definir que os jogos eram as brincadeiras em que existiam competição e um vencedor, ou vários. Mas isso não era o importante. Afinal de contas, o objetivo final era um só, diversão sadia. O jogo tem necessariamente regras, enquanto que a brincadeira pode ou não ter regras.
     Algumas brincadeiras eram sazonais e estavam relacionadas diretamente com a estação do ano ou com as férias escolares. As típicas de inverno eram banho de chuva nas calçadas, aproveitando a abundância da água que jorrava das bicas dos telhados das casas, triângulo, banho de rio, caçar borboleta (era impressionante a grande quantidade e variedade de borboletas que existiam na época), fazer bonecos de barro e outras. No verão, durante a safra de caju, era jogo de castanha nas calçadas de cimento liso. Inúmeras eram permanentes, como futebol de poeira, bandeirinha, corrida. Outras só eram praticadas à noite, como esconde-esconde, cobra-cega, cinturão-queimado, cowboy.
     Devido às poucas opções de brinquedos industrializados existentes no comércio da cidade e, principalmente, ao baixo poder aquisitivo dos nossos pais, nós mesmos com alguma competência construíamos os nossos brinquedos. Naquele tempo recebíamos presente dos pais apenas no nosso aniversário, no Natal ou quando o nosso pai chegava de uma longa viagem. Por isso, se quiséssemos brincar, fazíamos caminhões de madeira, revólveres, cartucheiras, petecas, bolas de meia, patinetes, traves de jogo de botão, aviõesinhos de cambão de milho e de flandres, raias, papagaios, badoques e muitos outros.
     Com a pavimentação das ruas e o ajardinamento das praças, surgiram os Comissários de Menores. Eram senhores temidos, implicantes, cuja função, segundo nosso modo de interpretar, era impedir de brincarmos. Os comissários eram uma verdadeira praga em nossas vidas. Surgiam do nada para atrapalhar nossas brincadeiras. Não podíamos brincar de bola, entrar nos jardins das praças, nem subir em árvores. Nos cinemas, implicavam com a brincadeira de troca de revistas (que eles consideravam um comércio), apreendendo as consideradas proibidas...
     É um fato indiscutível que o calçamento das ruas e a pavimentação das praças contribuíram definitivamente para eliminar nossas brincadeiras e jogos, hoje limitados à periferia das cidades de pequeno porte. Enquanto naquele tempo as brincadeiras eram bastante sociáveis, havendo muito pouca discriminação, uma vez que praticamente todos tinham as mesmas opções, hoje apenas o pessoal da periferia é que ainda pratica algumas dessas brincadeiras, mesmo assim bastante modificadas por imposição dos tempos modernos.
     Nas páginas seguintes são relembradas, sem o compromisso com a ordem cronológica, algumas brincadeiras que foram uma constante na minha infância. São também relembrados alguns amigos da época e descritos alguns locais de Juazeiro antigo. É possível que mesmo com o esforço de memória exercido eu incorra em falha por omissão de algum detalhe. Peço a todos que lerem estes relatos que me corrijam quando este fato ocorrer.
      Não escondo a pretensão de minha parte de que haja uma interação com os leitores, contemporâneos meus ou não, no sentido de que cada um relembre suas próprias passagens e fatos da infância, como também acrescentem mais detalhes sobre suas brincadeiras preferidas.

As Brincadeiras

     Eu daria tudo que eu tivesse
     Pra voltar aos dias de criança
     Eu não sei pra que que a gente cresce
     Se não sai da gente essa lembrança
     ...
     Eu igual a toda meninada
     Quantas travessuras eu fazia
     Jogos de botões pelas calçadas
     Eu era feliz e (não) sabia
     (Extraído e adaptado da música de Ataulfo Alves)

TRIÂNGULO

     Triângulo era uma das brincadeiras típicas de inverno. Para praticá-la eram necessários dois jogadores e um terreno plano, molhado, mas não encharcado, sem grama ou qualquer tipo de vegetação rasteira. O único dispositivo utilizado era um pedaço de arame grosso, reto e rígido, de mais ou menos 20 centímetros de comprimento, com uma extremidade pontiaguda e outra com uma dobra circular. Este dispositivo era impropriamente denominado triângulo.
     Para iniciar o jogo era feito um risco no terreno com o triângulo. Os dois jogadores, um após o outro, lançavam o triângulo no chão, tentando enfiá-lo o mais próximo possível do risco para ter direito a começar os lançamentos. O risco era desfeito e o vencedor da saída lançava sucessivamente o triângulo em distâncias escolhidas a seu critério e ia ligando os pontos dos furos, em linha reta, formando um polígono aberto. O terreno ligeiramente molhado facilitava a penetração do triângulo e o traçado das linhas retas. O objetivo era fechar o polígono, mantendo preso o outro jogador. Este tinha o direito de efetuar seus lançamentos sempre que o primeiro errasse, ou seja, quando não enfiasse o triângulo, ou não fizesse o furo dentro do polígono. O segundo jogador fazia seus furos sucessivos, tentando sair do cerco formado pelo primeiro. Quando conseguia sair, prosseguia com os lançamentos, tentando a seu modo contornar o traçado do primeiro. O jogo seguia neste ritual, até que um deles conseguia fechar o seu contorno, o que ocorria quando era conseguido enfiar o triângulo em cima da linha.
     A dificuldade do jogo consistia em sair do cerco criado pelo adversário. A tendência era este objetivo ficar cada vez mais difícil. No final do jogo o chão ficava marcado com um desenho complexo. Os erros ocorriam quando o triângulo não penetrava no chão, penetrava pouco e caía por falta de sustentação, ou encontrava uma pedra enterrada.
     Não existia um prêmio fixado para o vencedor do jogo. Podia ser apenas satisfação do ego, por sentir-se o melhor, ou podia ser acertado previamente o que o perdedor deveria dar ao vencedor. Acertava-se comumente um brinquedo de pequeno valor.
     Nunca entendi a razão do nome do dispositivo de arame ser também triângulo. Na realidade o traçado final no chão, resultante da prática do jogo, também não era um triângulo e sim um polígono irregular. Talvez o nome triângulo, emprestado ao jogo, se devesse ao fato de ser esta a menor figura geométrica que se poderia formar para ganhar o jogo logo no início.

FUTEBOL DE POEIRA

     Era a mais popular das brincadeiras, praticada em qualquer época do ano, em qualquer faixa de idade. As regras eram quase as mesmas do futebol profissional, sendo do conhecimento de todos. Existiam porém algumas características inerentes ao futebol de poeira praticado no tempo que falávamos ofissaide ("off side", impedimento), córner (escanteio), bater o fora (lateral), banho de cuia (chapéu), rasteira (carrinho) e outros termos hoje em desuso.
     O campo era um terreno baldio, ou uma área reservada para uma praça pública, de preferência plano, sem acidentes ou vegetação. Não era marcado e os limites podiam ser alguns acidentes do terreno, caso existissem, tipo uma moita, um buraco, um fio de pedra, um muro, ou qualquer outro obstáculo. No máximo se permitia marcar os quatro cantos, usando-se pedras ou varetas de pau.
     Em jogos mais importantes, em domingos ou feriados, por exemplo, ou em partidas com equipes de fora, era feita a marcação do campo e das áreas com cal, pó de carvão ou sulcos no terreno. As traves também eram duas pedras ou varetas de pau. A bola era de borracha. Na falta de uma dessa, era improvisada uma bola feita com bexiga de boi, obtida nos açougues. A bola de couro não servia porque desgastava rapidamente pelo atrito com a terra. Só era usada quando o campo era gramado (fato raríssimo) e algum menino rico possuía uma bola dessas. O número de jogadores de cada equipe dependia do tamanho do campo, mas em qualquer situação era desejado um número mínimo de seis participantes por equipe, sendo um goleiro, duas defesas e três atacantes. Um dos times jogava com camisa e o outro sem. Todos jogavam descalços. Apenas os goleiros tinham o direito de jogar de camisa e até usar tornozeleira.
     No início do jogo era feita no “par ou ímpar” a escolha dos lados do campo, dos jogadores por equipe e da equipe que deveria bater o centro para iniciar o jogo. Não tinha juiz; ganhavam-se as discussões sobre falta, gols, laterais, tudo na base do grito ou da pressão da torcida. O gol tinha que ser bem marcado, para não deixar dúvidas se a bola passou por cima da pedra (trave) ou se passou muito alto, de modo que o goleiro realmente não poderia alcançá-la.
     Uma lembrança muito particular do futebol de areia foi a criação de uma equipe de futebol mirim, formada só com crianças na faixa dos dez aos doze anos, mais ou menos. Era um time com uma certa organização, uma espécie de embrião de escolinha de futebol. Para fazer parte do time, o menino era submetido a uma seleção. Eu era o treinador e o goleiro.

BANDEIRINHA

     Em versatilidade, movimentação e emoção a bandeirinha era a brincadeira que mais se aproximava do jogo de futebol. Era disputada em uma rua larga, de preferência não calçada. A rua era dividida por uma linha perpendicular, feita por um risco de carvão ou gesso, se fosse calçada; ou com um sulco no chão, se não o fosse. Os limites laterais eram as paredes das casas.
     A brincadeira era disputada por duas equipes, com o mesmo número de participantes, sendo recomendado o mínimo de seis para cada equipe. Para diferenciar, uma equipe ficava com camisa e a outra sem. O jogo era disputado obedecendo-se a regras bem definidas. As equipes posicionavam-se estrategicamente em cada lado do campo. Eram utilizadas duas bandeirinhas, normalmente duas camisas de participantes, colocadas no chão, dispostas simetricamente a uma certa distância da linha divisória. Embora não fosse obrigatório, era conveniente que cada equipe definisse os atacantes, que ficavam posicionados próximos à linha divisória, e os defesas, próximos à bandeirinha. Para marcar um ponto, o jogador de uma equipe devia transpor a linha divisória, sem pisá-la, correr até a bandeirinha, apanhá-la e trazê-la para seu campo. Tudo isto tinha que ser feito sem ser tocado por nenhum adversário, sob pena de ficar preso, isto é, parado no local em que foi tocado. Para evitar ser preso o jogador devia correr, fazendo malabarismos com o corpo, visando desviar dos adversários. Era o que chamávamos "dar um pitu", uma espécie de drible sem bola. Caso o jogador fosse tocado por um adversário portando a bandeirinha, esta deveria ficar no mesmo lugar do jogador preso. O jogador permanecia parado até que viesse um companheiro de equipe para libertá-lo, bastando tão somente tocá-lo. Ao mesmo tempo a bandeirinha podia ser carregada. O jogo terminava quando uma das equipes atingia determinado número de pontos, previamente acertado (em geral dez), ou quando uma equipe conseguia prender todos os adversários.
     Um bom praticante de bandeirinha era aquele que corria muito, sabia "dar um pitu" e tinha senso de oportunismo, para saber a ocasião apropriada para invadir o campo adversário.

BILA

     Esse jogo era praticado usando-se umas esferinhas de vidro, normalmente azuladas, conhecidas por bolas de gude e, impropriamente, por bilas. Tratava-se de um jogo bastante simples e de poucas regras, praticado por dois jogadores em um terreno seco, de preferência plano. No terreno eram feitos três buracos rasos alinhados e distanciados mais ou menos um metro e meio um do outro. Cada jogador usava uma bola de gude mestra e três a cinco bolas de gude peões. O jogo consistia em cada jogador colocar as esferinhas do adversário nos buracos, através de toques utilizando a bola de gude mestra. As jogadas eram alternadas, mas o jogador tinha direito a continuar o toque quando conseguia colocar uma bola de gude num buraco. Era permitido, ao invés de tentar colocar as bolas de gude do adversário num buraco, afastar uma própria que estivesse próximo deste, para dificultar a jogada do adversário. Ganhava o jogo quem conseguisse colocar as três bolas de gude nos buracos, sendo o prêmio pela vitória as esferinhas do adversário que foram colocadas nos buracos. Era exigido do praticante deste jogo uma boa habilidade manual. As esferinhas de vidro podiam ser substituídas por esferas de aço, pouco usadas por serem mais caras.
     Uma variação desse jogo era o jogo de bila, em que eram utilizados pequenos seixos redondos, substituindo as esferinhas de vidro. Nesse caso não existia um número fixo de bilas e o pagamento do prêmio pela vitória era feito com notas de cigarro, que tinham um valor monetário correspondente a cada marca.



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