Caderno de Teresina



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Cadernos de Teresina

Ana Regina Barros Rêgo Leal

Profa. UFPI

Mestra em Comunicação e Cultura- ECO-UFRJ

Doutoranda em Comunicação-UMESP




Resumo

Este trabalho analisa a importância da Revista Cadernos de Teresina na difusão, fomento, debate e aprofundamento das questões relativas às manifestações culturais piauienses, nas duas últimas décadas. O foco da investigação centra-se no processo de divulgação da cultura, com vistas a fomentar o afloramento de uma identidade a partir do mapeamento da diversidade cultural realizada pela publicação em pauta.


Palavras-chave: Revista, Cultura, Identidade, Teresina.
Numa época em que continua proliferando a difusão em massa de bens simbólicos e produtos culturais gerados, ou não, a partir da indústria cultural, entendida aqui no conceito frankfurtiano, através dos suportes midiáticos, inclusive da mídia reticular, na internet, ou segmentada, nos canais de televisão ou revistas direcionadas a públicos específicos, surgem reações conscientes ou inconscientes de resistência, transformação, hibridação e propagação de culturas como forma de preservar, constituir e dar visibilidade à manifestações regionais/locais.

O Brasil, um país multiétnico e multicultural, é, portanto, um país com muitas identidades regionais, mas também com marcas constitutivas de uma grande identidade nacional, cujo cerne centra-se, principalmente, na língua e no conjunto aglomerado das culturas de cada região, que compõem, com certeza um acervo inominável da rica diversidade cultural brasileira. Ressalte-se que estamos considerando também o aspecto antropológico da questão.

Diante desse contexto, este trabalho analisa a trajetória de um veículo comunicação, que na contramão da difusão massiva, tem procurado ao longo de quase 20 anos, não somente divulgar aspectos culturais do Piauí e Brasil, mas também aprofundar o debate sobre as questões abordadas.Desta forma, a amostra escolhida para análise abrange exemplares dos anos 1988, 1990, 1993, 1994, 1995, 1997, 1998, 2000 e 2002, em um total de 13 edições. O percurso metodológico empreendido tem início com uma pesquisa bibliográfica que vem fundamentar teoricamente o trabalho. Nesse momento, realizamos um breve passeio pelos conceitos de cultura e identidade, para a seguir, nos lançarmos no processo de análise dos exemplares do periódico definido como corpus desta investigação, e, que se dividiu em duas vertentes, de um lado, se procurou traçar um diagnóstico das editorias e temas mais comuns à publicação, e, de outro, se buscou definir o perfil dos colaboradores da revista, na primeira vertente, o objetivo foi investigar os assuntos abordados e a importância deles no debate dos temas recorrentes à cultura piauiense, e, na outra vertente investigativa, o intuito foi definir o processo de credibilidade/legitimidade do discurso cultural encontrado no periódico a partir dos autores dos textos.
CULTURA ANIMI
Trabalhar o conceito de cultura é uma tarefa na qual já se lançaram teóricos e filósofos ao longo da história. Para os romanos, cultura que deriva de cultivar (colere) implicava em cultura animi, o ato de cultivar o espírito, e, tudo que contribuía positivamente para isto, possuía lugar de destaque, assim, artes, letras, filosofia e o direito constituíam o foco do conhecimento na sociedade romana.

Sodré(1988, p.14) afirma que a palavra cultura encontra-se intimamente relacionada com “as práticas de organização simbólica, de produção real de sentido, de relacionamento com o real”, para ele, “a delimitação da estrutura cultural, ou seja, a demonstração da irredutibilidade ou da especificidade dessa prática vai implicar em estabelecer as condições de admissão de um fenômeno como elemento de cultura”. Nesse sentido a idéia de cultura, esteja ela, dentro ou fora de um discurso antropológico, encontra-se centrada na idéia de campo normativo, um espaço próprio de identificação de elementos comuns e exclusão de elementos outros.

Na mesma linha de pensamento, a noção de cultura dos sofistas gregos no século IV a.C, cujo sentido relaciona-se com a educação do homem enquanto cidadão, e que se resume na noção de paidéia, como conjunto que reúne poesia, artes, ciências e leis possui equivalência à cultura animi dos romanos, que já citamos.

Entre os alemães, cultura ou kultur relacionava-se com as particularidades de cada grupo social distinto. Ainda segundo Sodré (1988, p. 22), “Kultur permitia ao alemão definir-se, porque era uma noção capaz de exprimir o espiritual (das rein geistige) e suas realizações materiais (Leistunger: arte, ciência e filosofia, etc) que se incorporavam ao individuo através da Bildiung ( formação, erudição)”.

Freud apud Sodré (1988, p.28) afirma que cultura é a promoção da vida humana acima de suas condições animais.

Desta forma, no processo evolutivo das sociedades, cultura termina por ressurgir a partir de uma visão burguesa de excelência ligada à noções de progresso, e de distinção social, a partir de elementos da intelectualidade burguesa. De um lado, consolidavam-se os espíritos evoluídos, lado em que se encontravam os ricos de posse e de cultura e, de outro, os pobres de espírito, por conseguinte sem recursos. Nascem assim, as diferenças ainda hoje discutidas entre cultura erudita e cultura popular, dentre outras classificações.

A cultura passa a ser também um território de verdades concebidas a partir das noções de poder, conforme Foucault, e, de bem e mal, conforme Nietzsche.

O’Sullivane (2006, p. 64) vai afirmar que o termo cultura é multidiscursivo e pode estar atrelado a inúmeros e diferentes contextos, abrangendo inúmeras concepções, como por exemplo, desde a idéia de nacionalismo até a noção de senso comum. Assim, o sentido de cultura vai estar relacionado ao contexto discursivo de cada ambiente cultural, segundo o autor “em cada caso, o sentido da cultura é determinado de forma relacional, ou negativamente, por sua diferenciação com relação a outros naquele discurso...”

Williams (2000, p.11) ao debater uma sociologia da cultura vai elencar as dificuldades das bases teórico-conceituais da mesma. Nesse sentido, afirma que esta é subdesenvolvida, mas que está propondo novas evidências. Segundo este autor existem vários significados para cultura “desde (i) um estado mental desenvolvido - como em “pessoa culta”, passando por (ii) os processos desse desenvolvimento - como em “interesses culturais”, até ( iii) os meios desses processos- como em cultura como “as artes” e “o trabalho intelectual do homem”.

Ribeiro (2004) ao confrontar o conceito de cultura em Pierre Bourdieu e Raymond Williams vai expor algumas singularidades do pensamento desses autores. Assim, Williams apud Ribeiro (2004 p.13) afirma que o termo cultura “assinala” o esforço para uma avaliação qualitativa total, para ele, o conceito de cultura está ligado à noção de “experiência”. Segundo Ribeiro (2004, p.13) ao afirmar que a “cultura não é apenas um corpo de trabalho imaginário e intelectual, é também, essencialmente um modo de vida. Williams a identifica com noções mais abstratas, como as de processo, totalidade, história e sociedade”. Dessa forma, para Williams cultura refere-se a indivíduos presentes na mesma processualidade histórica.“Há nesse sentido a “experiência comum” de compartilhamento...” . (Williams apud Ribeiro, 2004, p.15).

Ribeiro (2004, p.15) confirmando o exposto no pensamento de Raymond Williams afirma que “a cultura se processualiza a partir de um “ patrimônio comum”, herdado do passado, sobre o qual incidem as ações diferenciadas dos indivíduos”. Nesse momento, recorremos rapidamente a Hallbwachs (1990) para quem a memória é o lugar do social, do grupo, da não-liberdade e, compõe a identidade dos grupos.

Hall (2003. p.135) referindo-se a Williams afirma que “a concepção de cultura é, em si mesma socializada e democratizada. Não consiste mais na soma de o “melhor que foi pensado e dito””.

Em outra frente, Bourdieu apud Ribeiro (2004, p. 12) ressalta que a cultura opera “ a transmutação das coerções naturais em regras culturais, propriamente humanas”. Ao que Ribeiro complementa afirmando que em Bourdieu, a cultura “é, portanto, coercitiva arbitrária, particular e histórica. Sua função político ideológica: assegurar os mecanismos de “distinção” entre classes sociais”. Há, portanto uma hierarquia dos bens simbólicos que corresponde à hierarquia das classes sociais. Nesse contexto, Ribeiro (2004,p.54) afirma que para Bourdieu não há uma cultura popular autônoma ou separada da cultura dominante.

Bosi (2002) ao analisar a dialética da colonização dedica-se a descobrir os caminhos da cultura brasileira, para tanto, classifica a cultura, em cultura erudita, vivenciada a partir da educação formal e acadêmica, cultura popular , cultura de massa, que se propaga a partir do consumo de bens materiais e simbólicos vendidos pela mídia e, em cultura criadora, presente nas mentes e corpos privilegiados dos artistas. Para este autor, existem no Brasil, duas vertentes dualistas que trabalham o conceito de cultura paralelamente e antagonicamente, a culta, que estigmatiza a cultura popular como um fóssil correspondente a estágios primitivos da evolução da sociedade, e, a romântico-nacionalista que eleva ao patamar de valores culturais válidos somente os transmitidos pelo folclore, ignorando as interseções com a cultura de massa e com a cultura erudita. Para o autor, se faz pertinente uma nova visão que ele denomina de aculturação, visão esta que exorcize os fantasmas elitistas e populistas, ambos, em sua concepção, fortemente ideológicos e preconceituosos.

Ainda de acordo com Bosi, a cultura popular ao se relacionar com a cultura de massa sofre “vampirismo” duplo, de um lado, destrói-se a cultura popular em seu próprio meio e, de outro, exibe-se a mesma como atração exótica. Todavia, Bosi considera que o processo exploratório, processado pela mídia e cultura de massa, não interrompe, o que ele denomina de dinamismo lento, que se reproduz em micro-escala, e o autor vai mais longe, ao enfatizar que o povo encontra na mídia, novas simbologias que incorpora ao seu sistema de significados e que adapta às manifestações, criando processos híbridos culturais, que novamente alcançam o imaginário social. No tocante ao relacionamento da cultura erudita com a popular, Bosi é enfático ao afirmar que a erudita desclassifica as manifestações folclóricas, enquanto cultura, para ele, os eruditos somente consideram o povo no mundo da erudição, da excelência e da estética perfeita, pelo viés do pitoresco, contudo, enfatiza ainda, que a cultura popular sofre influências da academia, pois está sujeita ao processo educacional, encampado por esta, e, por outro, a cultura erudita também se apossa de traços da popularidade, exemplos disso, povoam a nossa literatura. Nesses pontos de interseção acontecem os processos de transmissão de valores e hibridação de culturas.
IDENTIDADE
Na última década, sobretudo, em virtude do processo denominado por muitos de “globalização” que abrange além da economia, a “mundialização” da cultura, tem se debatido, diariamente, temas correlatos, como identidade e diversidade cultural e patrimônio imaterial. As culturas que de um modo ou de outro, ocupam posições de poder econômico e político, e, que possuem, portanto, mais acesso aos meios de comunicação procuram estes, visando proporcionar visibilidade a determinados traços de sua cultura que escolhem para representar a identidade de seu povo, credibilizando o processo. Este processo é, contudo dinâmico, e a necessidade de retroalimentação é constante, desta forma, em se tratando de Brasil, neste ano de copa do mundo, o futebol volta com força total, na mídia e na venda de produtos. No Rio de Janeiro, por sua vez, nunca se falou tanto em samba e nunca se exaltou tanto o samba, como agora. No sul, a identidade gaúcha comum aos habitantes da antiga Cisplatina, se arraigou de tal forma, que é possível encontrar cidadãos comuns em plena Porto Alegre com trajes típicos. Na Bahia, o sincretismo religioso e a africanidade dos ritmos, da música e da literatura retratam os aspectos principais daquela cultura. Enquanto isso, no Piauí e em vários Estados de colonização tardia, o processo se inicia com um debate desordenado, e inúmeros esforços de mapeamento da diversidade cultural que se descobre hoje, como rica, extremamente rica, mais ainda não publicizada, e, portanto, não reconhecida.

Mas o que forma a identidade de um povo, de uma nação? Segundo Hall (2003, p.50) as culturas nacionais são compostas por instituições, símbolos e representações. Para ele, “uma cultura nacional é um discurso” que constrói sentidos e determina o que somos e nossas ações, e este discurso, provido de determinado sentido, constrói identidades; assim a “identidade nacional” é uma “comunidade imaginada” . Ernest Revan apud Hall(2003, p.88) ressalta que o espírito de uma nação possui três componentes: “ - a posse de um rico legado de memórias, - o desejo de viver em conjunto e, a vontade de perpetuar, de uma forma indivisiva, a herança que recebeu”, assim como traduz Hall, as memórias do passado, o desejo de viver conjuntamente e a herança perpetuada forma o espírito de uma “comunidade imaginada”. A nação é assim, “uma comunidade simbólica com poderes para criar um sentimento de identidade e lealdade” (Hall, 2003, p.47), sob sua “proteção” as diferenças étnicas e regionais são suprimidas e subordinadas. Todavia, Hall , alerta para o fato de que as culturas nacionais não devem ser pensadas “como um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade” ( p.60), para ele, as macro-culturas dos estados nações possuem fissuras profundas e graves diferenças internas, sendo “unificadas” apenas através do exercício de diferentes formas do poder cultural”.( Hall, 2005, p.60).

Na atualidade, porém, o indivíduo não possui mais uma identidade única constituída somente de valores assumidos por sua região ou nação; pois muitas são as variáveis que intervém no processo de construção das identidades, que se deparam com mudanças constantes e cada vez mais rápidas. Giddens apud Hall (2003, p.14) argumenta que nas sociedades tradicionais o passado e os símbolos são valorizados porque contêm a experiência de gerações. Assim, verificamos que a volta ao passado em um movimento regressivo e anacrônico sugere o retorno às origens com interesse na continuidade do passado, ressaltando as tradições e expulsando os traços culturais que identifiquem alteridades visíveis.

Hall (2003, p.17) enfatiza, contudo, que as sociedades da modernidade tardia, são caracterizadas pela “diferença”, “são atravessadas por diferentes divisões e antagonismo sociais que produzem uma variedade de diferentes “posições” de sujeito”.

Na verdade a exposição excessiva dos indivíduos a novas formas simbólicas propagadas em todo o mundo pela indústria cultural através das tecnologias da comunicação, tem proporcionado a mutação dos princípios identitários, e, por conseguinte , dos referentes que tradicionalmente ligavam o indivíduo à sua sociedade. Nessa troca simbólica e contínua ocorrem transgressões, agressões e hibridações culturais a partir do conhecimento de novos repertórios e códigos culturais que terminam por estabelecer novos vínculos entre as culturas, sejam elas eruditas, de massa ou popular, proporcionando o surgimento de novas identidades. De acordo com Montiel (2003, p.20) “ já não são os espaços comunitários e a história compartida os que conformam sua identidade, mas uma pluralidade de símbolos desarraigados”.

Contudo, há que se ponderar que a desterritorialização da cultura, visível a partir dos processos massivos de comunicação e que comungam dos mesmos princípios da globalização econômica, encontra processos que extrapolam o reducionismo de uma resistência pura, pois o campo cultural dificilmente perde totalmente os referenciais simbólicos. Esses processos situam-se entre a afirmação das identidades e o dialogismo entre as culturas, quando identidade e diferença permitem o afloramento de uma interculturalidade, que racionalmente respeita as diferenças e reconhece outros valores.



CADERNOS DE TERESINA
A revista Cadernos de Teresina, foco da presente investigação, é uma publicação quadrimestral da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, órgão de cultura da Prefeitura Municipal de Teresina. Seu primeiro exemplar foi lançado em 1997 com o objetivo de divulgar e aprofundar o debate sobre aspectos da cultura piauiense, brasileira e universal.

Ao longo de quase 20 anos a revista em pauta tem se destacado no cenário jornalístico e cultural piauiense como um dos poucos veículos a publicizar aspectos importantes da nossa cultura, e, portanto, tem se afirmado como uma revista que procura trazer para o presente, resquícios de um passado, aliados a um fazer cultural do presente, proporcionando uma visão sistêmica de aspectos culturais que se firmaram no discurso da identidade piauiense e que participam do imaginário simbólico do povo, ou, assuntos, que mesmo não estando nesse universo comum de compartilhamento de conhecimentos, também são tratados visando exatamente proporcionar uma reflexividade dos temas menos abordados na agenda cultural do público e da mídia.

A revista proporciona inclusive o debate acerca de questões polêmicas que compõem a simbologia e a identidade do Piauí frente a seu povo e frente ao Brasil, para quem, desde meados do século XX tornou-se a alteridade visível, embalada pelos princípios e pelo discurso do atraso econômico o que acarreta, em pobreza de espírito, logo em ausência de uma cultura com estética perfeita, conforme Langon (2003, p.82) a pobreza é o mal , a riqueza é o bem. Princípios estes, já amplamente debatidos de Nietzsche a Hall.

A metodologia analítica escolhida procura inicialmente determinar o perfil da revista no tocante às editorias e aos assuntos tratados, também visa identificar o modo como são abordados, para em seguida definir o perfil dos colaboradores, com vistas a determinar o grau de credibilidade do discurso do veículo de comunicação em pauta. Por último, pretende diagnosticar o papel da Cadernos de Teresina na consolidação da identidade cultural piauiense. Trata-se, portanto, de uma pesquisa quantitativa e qualitativa, que tem na observação direta do objeto pela pesquisadora, o seu principal foco de investigação. A amostra de 13 edições e 09 anos, dos 19 de existência da revista, foi escolhida aleatoriamente e abrange várias gestões municipais, portanto, apresenta-se, a princípio, como um discurso pluralista, muito embora, ressalte-se que durante todos esses anos, o Partido Social Democrata Brasileiro, tem se mantido no poder municipal da capital piauiense, mas não verificamos traços de seu discurso dentro da revista.



Os quadros I e II abaixo especificam, respectivamente, as editorias e os assuntos mais tratados pela revista Cadernos de Teresina, nas treze edições analisadas, com destaque para os que atravessaram as duas décadas e continuam fomentando o debate no cenário cultural piauiense, como história, literatura, artes plásticas e músicas.
QUADRO I


EDITORIAS

Quantidade / Edições

Memória/História

13

Literatura/ Ensaio

13

Música

13

Poesias

13

Conto

11

Crônica

08

Arquitetura/Urbanismo

12

Teatro

10

Artes Plásticas

13

Fotografia/Ensaio Fotográfico

06

Cultura Popular/Folclore

10

Ecologia

07

Resenha Crítica

13

Educação

02

Arte educação

01

Comunicação/charge/cartoon/

03

Política

01

Racismo

01

Cinema

01

Comportamento

02

Sociologia

04

Economia

01

Personalidade

05

Agenda/Notícias

13



QUADRO II


ASSUNTOS

Quantidade / Edições

Memória/História

44

Literatura/ Ensaio

29

Música

16

Poesias publicadas

85

Contos publicados

11

Crônicas publicadas

08

Arquitetura/Urbanismo

12

Teatro

10

Artes Plásticas

16

Fotografia/Ensaio Fotográfico

06

Cultura Popular/Folclore

10

Ecologia

07

Resenha Crítica

14

Educação

02

Arte educação

01

Comunicação/charge/cartoon/

03

Política

01

Racismo

01

Cinema

01

Comportamento

02

Sociologia

04

Economia

01

Personalidade

05

Notícias publicadas

164

A predominância de temas históricos todos relacionados à história do Piauí aponta um movimento de retorno às origens com vistas à legitimação de um processo identitário atual, conforme encontramos em Giddens já citado anteriormente. Qual a importância do Estado, ou melhor, da antiga província no cenário nacional? Quem formava o Piauí no passado? O que faziam nossos avós? O que faziam de bom e de que podemos nos orgulhar? Com certeza as matérias não foram feitas com o objetivo preciso de responder a estes questionamentos e tantos outros, mas inconsciente ou não, buscavam respostas que pudessem dar conta do universo cultural piauiense. A edição de número 148 de outubro de 2000 foi completamente dedicada ao Conselheiro José Antônio Saraiva, Presidente da Província do Piauí e Chefe de Gabinete algumas vezes durante o Segundo Reinado, e responsável pela fundação da cidade de Teresina. A publicação especial dedica-se ainda ao contexto em que se processou a mudança e aos aspectos da sociedade e da corte brasileira ao longo do império.

Muitos textos referentes à literatura e à imprensa também apresentam caráter histórico, demonstrando as origens, ou localizando algum período. A edição de nº 21 de dezembro de 1995 traz na editoria literatura uma matéria que expõe o cenário cultural piauiense no início do século XX. Nesta mesma edição também, em literatura, encontramos um ótimo texto da historiadora Teresinha Queiroz sobre a poesia na belle-èpoque. Por outro lado, a cultura popular também se fez presente em 10 edições apresentando textos como o encontrado na edição de número 18 de dezembro de 1994, que aborda e debate sobre a religiosidade popular. Esta mesma edição traz ainda uma matéria do historiador Pe. Cláudio Melo sobre a vida em Teresina cem anos antes, desta se tornar cidade e capital do Piauí.

Urbanismo e Arquitetura, muito embora, não sejam temas tratados com muita freqüência, se apresentam importantes para a compreensão dos processos sociológicos, político e cultural de formação das cidades, logo necessários para a compreensão e consolidação de identidades, assim, a revista sempre levanta os assuntos quando estes se fazem pauta na agenda do público piauiense, como o processo de revitalização do centro histórico de Teresina, a vida nos e dos rios e, a urbanização das favelas, temas tratados nos exemplares analisados.

Em muitos ensaios históricos analisados verificam-se posições diferentes entre os autores, alguns da tradicional escola de história clássica continuam a tratar o universo cultural dentro dos limites da cultura erudita e acadêmica, conforme enfatiza Bosi, já referenciado neste texto. Outros, no entanto, adeptos da Escola dos Anais ou simplesmente da historiografia moderna, já se posicionam questionando o processo de formação e consolidação das bases do poder no Piauí, e a direta influência deste processo na visibilidade de determinadas formas de cultura, em detrimento de outras silenciadas, ou porque, eram entendidas como representantes do “arcaísmo” e da falta de progresso e educação, ou porque, representavam ameaça à cultura burguesa e provinciana que se formava por estas bandas. Dentre as matérias que questionam o processo de formação da sociedade piauiense destacamos a do historiador Alcebíades Costa Filho sobre o trabalho escravo na construção de Teresina, veiculada na edição de número 5 de agosto de 1988, e ainda, a da também historiadora, Miridan Britto Knox denominada “ Teresina... rabiscos históricos-sentimentais” que se encaixa no processo regressivo de resgate da história e memória do nosso povo, visando compartir conhecimentos antes restritos, com o intuito de incentivar o amor à terra, já presente no historiador. Por outro lado, textos como o da historiadora Teresinha Queiroz, publicado na edição de númeroo 18 de dezembro de 1994, trazem também como cerne a análise crítica da literatura piauiense na abordagem da história social.

Na última edição analisada, dois textos chamam atenção nesse sentido, ou seja, de um regresso que busca valorizar as origens, porque estas merecem ser valorizadas no presente. O primeiro deles sobre a participação da mulher na literatura piauiense entre as últimas décadas do século XIX e a primeira metade do século XX, procura mostrar os valores femininos em um universo dominado por homens; e, o segundo, do escritor Manuel Paulo Nunes, “ A cidade da memória” bem ao estilo de Bobbio em O Tempo da Memória- De Senectude, ou de Saramago, em José Saramago: el amor posibile. Neste texto, Paulo Nunes realiza um percurso pela cidade a partir de fragmentos de sua memória revitalizados no presente, com um outro olhar, não mais o vivido, mas o que destaca focos antes não verificados, o texto, assim como, outros de A. Tito Filho, por exemplo, outro escritor piauiense, também proclama o amor pela terra e por seus valores e, aqui se faz pertinente lembrar de Halbwachs, Giddens e Hall, nos termos já colocados anteriormente neste texto.

No que concerne ao perfil dos colaboradores verificamos no quadro III, que em 13 edições analisadas, os historiadores dominam a revista com 47 participações, inclusive com historiadores escrevendo sobre religião, cinema, música, dentre outros temas, em segundo lugar, os escritores com 34 participações, e os jornalistas participaram somente 24 vezes, como também, os professores universitários que tiveram 26 participações. Vejamos então:


QUADRO III


COLABORADORES

Quantidade de participação em edições

Historiador

47

Professor Universitário

26

Escritor

34

Dramaturgo/Diretor

09

Jornalista

24

Sociólogo

03

Advogado

02

Ator

01

Cartunista

02

Arquiteto/Urbanista

05

Fotógrafo

02

Artista plástico

01

Músico

09

Outras formações/ocupações

26

Equipe da Revista

28

O cenário desvendado mostra que a revista preocupa-se muito mais com a credibilidade e com aprofundamento dos temas do que com os aspectos jornalísticos, recorrendo, portanto, a especialistas visando consolidar um processo de legitimação do discurso. Há que se considerar que o texto difere muito do texto jornalístico informativo, mas também não traz muito de opinativo, a não ser nas resenhas, nos editoriais e nos artigos, em geral, o estilo é muito mais acadêmico, mesmo que procure às vezes um estilo coloquial ou jornalístico diversional.



POR ENQUANTO, E , POR FIM
A análise mostra que a revista Cadernos de Teresina se volta, predominantemente para assuntos históricos que buscam resgatar traços de memória e história que possam ser ressocializados e apreendidos pelo imaginário simbólico da sociedade piauiense, por outro lado, a publicação procura dar visibilidade a aspectos marcantes das manifestações culturais do Estado e do país, com destaque para literatura, artes plásticas, música, fotografia, cultura popular e ainda para o debate de temas importantes como ecologia e educação.

Assim, consideramos que no tocante ao conteúdo a revista desempenha papel importante no debate acerca da identidade e diversidade cultural piauiense, pois apresenta abertura para a difusão de aspectos tanto da cultura popular como da cultura erudita, no entanto, há que se considerar que sua tiragem reduzida e sua distribuição restrita a formadores de opinião e classe artística, dificulta o acesso ao povo como um todo, muito mais influenciado pela cultura de massa do que pela erudita e popular, e que, de certa forma, continua à margem do debate acerca dos valores culturais de nossa terra.




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