Caio prado jr



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caio prado jr. e o sentido da revolução brasileira: um debate político e historiográfico (décadas de 1950 e 1960)

Paloma Alves de Oliveira da Silva1

RESUMO

Este artigo objetiva recompor, em linhas gerais, o debate que se deu - a partir da publicação de A Revolução Brasileira de Caio Prado Jr. em 1966 - no interior das esquerdas brasileiras e da historiografia contemporânea sobre a teoria da revolução brasileira, ou seja, sobre a viabilidade de um processo revolucionário de efetiva transformação social no país. Apesar dos múltiplos estudos sobre a obra desse renomado historiador brasileiro, a análise desse tema sob uma perspectiva da ontologia marxiana, ao colocar em cheque a viabilidade de uma revolução burguesa nos moldes da ocorrida na Europa, ganha relevância pelo debate que abre sobre o papel da burguesia em sociedades de desenvolvimento capitalista híper-tardio, como a brasileira e as demais latino-americanas.


Palavras-chave: Caio Prado Jr.; Revolução Burguesa; Historiografia Brasileira.

ABSTRACT

This article aims to recover, in general, the discussion that took place from the publication of A Revolução Brasileira of Caio Prado Jr. in 1966, inside the left and the Brazilian historiography on the contemporary theory of the Brazilian revolution, or on the feasibility of a revolutionary process of effective social transformation in the country. Despite multiple studies on the work of renowned Brazilian historian, the analysis of this theme in a Marxist view of ontology, to put in check the feasibility of a bourgeois revolution in the way of occurring in Europe, won the important debate that opens on the role of bourgeoisie in the very late capitalism development societies such as Brazil and other Latin Americans.


Key words: Caio Prado Jr., Bourgeois Revolution, Brazilian Historiography.
No momento em que atravessamos a mais profunda crise vivida pelo capital mundial desde 1929 e ao mesmo tempo, ironicamente, comemoramos os aniversários de décadas de diversas revoluções de cunho socialistas como a Revolução Chinesa (60 anos), a Revolução Cubana (50 anos) e a Revolução Sandinista da Nicarágua (30 anos), nada mais pertinente do que recompor, em linhas gerais, o debate que se deu no interior das esquerdas brasileiras, entre os anos 1950 e 1960, e da historiografia contemporânea sobre a viabilidade de um processo revolucionário de efetiva transformação social no país.

Embora o Brasil, não tenha atravessado, a exemplo dessas regiões citadas, um processo revolucionário de cunho socialista, e nem mesmo esteja mais na pauta do dia a discussão sobre a viabilidade deste projeto, houve um momento específico na história brasileira em que o debate sobre a configuração específica do capitalismo no país, bem como as perspectivas de sua superação, através de uma revolução, esteve latente. No cenário brasileiro, o momento nevrálgico na discussão da viabilidade e da natureza de um processo revolucionário no país acontece na década de 1960. Em 1966, dois anos haviam se passado após o golpe militar que deu início à instauração de um Estado autocrático burguês “bonapartista”2 e, a esquerda brasileira, mais explicitamente expressa na figura do Partido Comunista Brasileiro (PCB), atônita em ter visto naufragar seu projeto para a uma revolução democrático-burguesa, ainda não havia se pronunciado acerca daquele momento de grave crise política que o Brasil passava a enfrentar. É exatamente neste ano que Caio Prado Jr.3, importante historiador marxista brasileiro, escreve A Revolução Brasileira, a primeira reflexão de peso produzida por um historiador crítico em relação ao fracasso político de 1964.

Para além de ter sido o primeiro trabalho de interpretação sistemática a propor a utilização dialética do materialismo histórico para analisar a natureza da revolução no Brasil, esta obra pradiana se insere num período de revisão teórico-político-ideológica pelo qual a esquerda brasileira passava, após a repercussão das denúncias dos crimes de Stálin, feitas por Kruschev, em 1956, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (Segatto, 1988: IV-V). Após a crise política que assolou o Brasil com a instituição do Estado autocrático a partir de 1964, essa obra alcança uma enorme repercussão4 por expor uma crítica contundente à teoria política da revolução democrático-burguesa, de viés stalinista, defendida pelo PCB - que vinha sendo conduzida até então - e teria aberto um caminho sem precedentes na história do pensamento marxista brasileiro para discutir a natureza da revolução no Brasil dentro de uma teoria marxista renovada. Vejamos a origem desta discussão.

Desde as primeiras décadas de sua formação, o PCB havia elegido como estratégia política, a luta pela realização de uma revolução democrático-burguesa, antiimperialista e antifeudal no Brasil. Além disso, é importante dizer, a crítica de Caio Prado a essa teoria política de viés estalinista defendida pelo PCB, precede à publicação de A Revolução Brasileira em 1966. Como nos mostra Gorender (1989), desde 1947, o historiador na condição de militante do PCB já alertava nas teses preparatórias do IV Congresso do partido, a incoerência desta teoria política diante da concretude social brasileira. Porém, como o partido teve seu registro legal cassado, esta discussão ficou postergada para 1954 quando Caio Prado,



[...] manteve sua posição e identificou o pecado original no VI Congresso da Internacional Comunista, realizado em 1928, em Moscou. Uma resolução do VI Congresso colocou o Brasil entre os países dependentes, juntamente com os países coloniais e semi-coloniais, todos eles com o passado no modo de produção asiático ou no feudalismo. Todos eles, concluía a Resolução, com a tarefa de uma revolução democrático-burguesa pela frente. (Gorender apud Souza, 2009:231).

A despeito das observações de Caio Prado, que nunca tiveram respaldo dentro do partido, alguns anos depois, a declaração política de março de 1958 feita pelo PCB - documento considerado de grande importância, pois balizaria a orientação do partido nos anos seguintes, inclusive no momento do golpe em 1964 - terminou por ratificar a luta da esquerda por uma revolução democrático-burguesa. É neste contexto que se põe A Revolução Brasileira. Neste trabalho, diante das condições objetivas postas a partir da grave crise política que assolou o país a partir de 1964, os objetos centrais da crítica de Caio Prado, dirigiram-se às duas “peças de resistência do arsenal doutrinário do PC e das correntes nacionalistas” que compartilhavam análises e alternativas para a sociedade brasileira (Garcia, 1989: 273-274). Tratam-se das teses sobre a persistência de restos feudais ou semi-feudais no campo e o conceito de burguesia nacional originárias, como vimos através da observação pioneira de Caio Prado, do VI Congresso da Internacional comunista em 1928. É justamente a partir delas que o PCB constituirá seu projeto para “uma revolução democrática, antiimperialista e antifeudal para o Brasil”. Neste documento, “ao substituir o conflito de classes por aquele que opõe nação e anti-nação”, o PCB colocava como diretriz política o estabelecimento de “um amplo arco de alianças para combater o imperialismo e o latifúndio, feudal ou semi-feudal” (Garcia, 1989: 273-274).

Para Caio Prado, essa teoria política defendida pelo PCB teria sido “um dos fatores que contribuíram para levar as esquerdas por caminhos errados e cheios de ilusões que deram no desastre de abril de 1964” (Prado Jr., 2004: 74). O que decorreria de uma visão deformada “da economia e das relações de produção e classe no campo brasileiro” bem como da crença na existência “de uma ‘burguesia nacional’ progressista e contrária ao imperialismo por sua posição específica de classe” (Prado Jr., 2004: 74). A partir dessa sua análise, então, abriu-se uma grande repercussão e polêmica, tanto no âmbito político, quanto no da nossa historiografia.

Gorender o criticou, por exemplo, por considerar que Caio Prado insistiu não apenas no caráter colonial da economia ainda na década de 1960, mas também na concepção do sistema de parceria como forma de assalariamento no mundo rural brasileiro, quando o eixo da produção brasileira já era constituído pelo mercado interno e a parceria era uma “manifestação do atraso em que o capitalismo se encontrava na agricultura” (Gorender, 1989: 264-265). Compartilhando dessas críticas levantadas por Gorender, Bresser Pereira (1989: 285-288) e Carlos Nelson Coutinho (1989: 126-127) procuraram ressaltar, ainda, que Caio Prado não teria reconhecido a distinção entre capital mercantil e capital industrial, nem, muito menos, teria feito a distinção entre a burguesia agrário-mercantil e a burguesia industrial na crítica que fez à esquerda sobre a possibilidade de uma aliança entre os trabalhadores e o partido comunista com a “burguesia nacional”. Ruy Fausto (1967: 8-23), Garcia (1989: 277-278) e Lincoln Secco (2008: 116) apontaram o fato de Caio Prado não ter compreendido a autonomia relativa do político na sua caracterização do processo revolucionário excessivamente presa às determinações sócio-econômicas. Haveria, então, na concepção desses três últimos analistas, “uma inadequação entre a análise econômica feita no livro e a ambigüidade de seu programa político”, uma vez que o autor “criticaria acertadamente a estratégia de alianças de classes do PCB, mas por outro lado separaria o socialismo da luta imediata” (Secco, 2008: 116). Já Florestan Fernandes discordou de Caio Prado quando afirmou que “não se pode associar, legitimamente, o senhor de engenho ao ‘burguês’” ou como “antecessor do empresário moderno” em nossa formação colonial, porque, na sua visão, o processo de mercantilização da produção agrária “só aparecia, como tal, aos agentes econômicos que controlavam as articulações das economias coloniais com o mercado europeu”, o que não era o caso da maioria dos senhores de engenho do Brasil colonial (Fernandes, 1976: 16).

No entanto, neste debate historiográfico, a discussão que Caio Prado enseja sobre a viabilidade de uma revolução democrático-burguesa no Brasil, assim como sua análise central sobre os limites de atuação da burguesia brasileira, colocando em cheque exatamente a análise do seu perfil e das suas condições objetivas de capitanear as transformações no modo de produção, para impulsionar o próprio capitalismo no país, aparece relegada a um segundo plano. E é justamente sobre esta questão que gostaríamos de nos ater a partir de agora. É claro que nossa pesquisa atua no sentido de verificar também, no interior desse debate, em que medida essas críticas pontuais, genericamente aqui sintetizadas, se confirmam ou não na gênese do pensamento pradiano expressa não somente nessa obra, mas em outros dos seus escritos mais relevantes sobre o tema. Mas por ora, dentro dos limites desse artigo, gostaríamos de chamar a atenção do leitor para uma problemática mais relevante para a sociedade brasileira nesta conjuntura histórica atual que marca, como já dissemos inicialmente, uma crise profunda do capital e, ao mesmo tempo, não apenas a comemoração de diversas revoluções de caráter socialistas que ocorreram ao longo do século XX, mas o repensar sobre a construção e a viabilidade de processos revolucionários de efetiva transformação social numa sociedade de desenvolvimento capitalista híper-tardio5 como a brasileira. Em outras palavras, queremos chamar a atenção do leitor para o fato de que, ao lançar a problemática da função social que a burguesia cumpre nesse processo de desenvolvimento capitalista, em curso no cenário brasileiro a partir do século XIX, na crítica que fez ao PCB em 1966 – expressa em A Revolução Brasileira - Caio Prado nos auxilia a delinear, na análise da conjuntura histórica contemporânea brasileira, não apenas a particularidade de uma revolução burguesa inconclusa no Brasil, mas o papel que a burguesia brasileira cumpriu e vem cumprindo nesse processo6.

Ao realizar este estudo específico, o historiador dialoga diretamente com a conjuntura político-econômica brasileira que vai dos anos 1950 até o golpe de 1964, quando se observa, conforme afirma Maria Aparecida Rago (2004), um processo de acumulação capitalista industrial que tem como característica principal o “aprofundamento da subordinação da economia, por sua crescente e contínua internacionalização” (Rago, 2004: 132). Isso significa dizer que, ao escrever A Revolução Brasileira, Caio Prado procurou entender os desdobramentos dessa lógica do capital na formação econômica nacional, assim como a configuração e a atuação das diferentes classes de que se compõem a sociedade, principalmente, a burguesia brasileira em seus distintos segmentos.

Esse processo de acumulação marca o “acirramento das contradições enfrentadas pelo capitalismo brasileiro e seus reflexos no posicionamento dos diferentes setores das classes proprietárias” (Rago, 2004: 132), ou seja, entre a fração da burguesia brasileira que aspirava por um desenvolvimento capitalista industrial que assegurasse relativa independência econômica7, e outra fração dessa burguesia que optou por compactuar com a política de favorecimento dos grupos internacionais em detrimento dos capitais nativos. É com base nesse conturbado contexto, em que se sucedem as medidas implementadas pelos governos Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart e que culminam na montagem da autocracia burguesa “bonapartista” definida pelo golpe ditatorial de 1964, que Caio Prado dialoga e tece as críticas aos setores de esquerda; ao imperialismo; e à existência de um nacionalismo na burguesia brasileira assim como a de uma economia agrária feudal no país.

Em meados da década de 1950 e início de 1960, durante os governos de Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, a relação entre as esferas do político e os interesses do capital privado começaram a se transformar na medida em que se aprofundaram os compromissos com os capitais estrangeiros. Dessa forma,



o acesso aos canais de comunicação e a participação direta no poder não mais puderam garantir o atendimento dos interesses mais imediatos e particularistas do capital nacional, atingindo de forma profunda amplos setores empresariais brasileiros. (Rago, 2004: 133-134).

Já o governo João Goulart, para além de marcar uma retomada dos compromissos do Estado com os setores nacionais, assumiu como projeto as Reformas de Base e a inclusão das massas populares. Essas medidas do governo Goulart trouxeram uma conseqüência fatídica para a burguesia brasileira de aspiração “nacionalista”:



(...) Foi quando parte significativa dos setores proprietários nacionais, que antes buscava uma rearticulação mais confortável nas esferas decisórias, sentindo-se ameaçada por uma radicalização popular ou por uma possível “República Sindicalista”, acabou apoiando a solução antidemocrática do golpe militar, pondo fim a quaisquer “ilusões heróicas” da burguesia nacional. (Rago, 2004: 133-134).

É nesse contexto de acirramento político entre as frações das classes proprietárias, que Caio Prado, ao analisar o papel e a configuração social da burguesia brasileira, dedica-se a compreender como, numa economia subordinada como a brasileira, carente de uma acumulação em bases nacionais, seria possível falar da existência de uma burguesia em condições de capitanear a liberação das forças produtivas para um desenvolvimento independente do capitalismo, tendo em vista, ou sua atávica associação ao capital internacional ou a neutralização de suas tentativas de manter-se autônoma8.

À vista disso, nesse debate que o historiador marxista trava com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) em sua obra de 1966, observa-se sua preocupação, não apenas em criticar os analistas que se punham como formuladores de uma teoria da revolução no país calcada em modelos externos e definidos a priori, mas sim em descortinar a especificidade da configuração, das condições objetivas de ação da burguesia brasileira e de suas possibilidades reais de capitanear o desenvolvimento nacional rompendo com os segmentos conservadores. É nesta perspectiva do que poderíamos denominar um marxismo renovado, que o autor busca dar respostas para a derrota das esquerdas diante do golpe militar instaurado em 1964. Rompe assim, com o marxismo de influência stalinista e passa a utilizar o marxismo enquanto abordagem que lhe permite objetivar as características imanentes da realidade social e, enquanto análise historiográfica, sem tentar transpor modelos externos para tratar a realidade nacional – Caio Prado anteciparia no Brasil, inclusive, a influência das abordagens que buscam resgatar a ontologia do ser social, nos moldes resgatados por Lukács.

No entanto, a despeito disso, é importante atentar para o fato de que embora a atualidade marque, após um longo período de silêncio, um retorno dos estudos sobre o pensamento desse importante historiador paulista - como se pode perceber nos mais recentes artigos, dissertações, teses e livros a ele dedicados9, uma parte considerável desses trabalhos continua lendo Caio Prado a partir de preceitos epistemológicos, de modo a imputar-lhe inferências exteriores ao seu pensamento. Este tipo de leitura é realizado, por exemplo, por Jayro Melo (1997) e Costa Pinto (1993) quando afirmam que “haveria em Caio Prado um sentido teleológico na história, consubstanciado no ideal de construção da nação”, e que “seu projeto político-filosófico se resumiria à tríade etapista: Nação-Socialismo-Comunismo” (Melo e Pinto apud Souza, 2004: 182-183). Na mesma linha, Márcia Victoriano interpreta “o sentido da colonização” em Caio Prado como uma “categoria lógico-histórica explicativa da realidade” (Victoriano, 2001: 181). A análise de Raimundo Santos (2007) sobre excertos extraídos das obras de Caio Prado Evolução Política no Brasil, História Econômica do Brasil, A Revolução Brasileira e alguns de seus artigos na Revista Brasiliense, acabam por reiterar algumas críticas reducionistas dirigidas pela historiografia ao historiador, particularmente quando considera seu conceito de revolução, conforme aparece explicitado nessas obras, como uma proposta “reformista” que tem como objetivo promover adaptações no seio do próprio capitalismo (Santos, 2007: 19). Da mesma forma, Del Roio, ao analisar a crítica de Caio Prado à teoria política do PCB exposta em A Revolução Brasileira, classifica seu pensamento como um “marxismo de cátedra (...) em função de seu ecletismo teórico e da forte convergência com a reflexão liberal-democrática marcada pelo evolucionismo” (Del Roio, 2007, vol.4: 102). Já Quartim de Moraes (2007) considera Caio Prado um “economicista” que concebe a evolução histórica “como faticidade unidimensional” e que ao afirmar, na mesma obra polêmica, que “não houve uma economia camponesa” em nosso passado colonial, não apenas “nega a necessidade da reforma agrária”, como também “desqualifica as aspirações sociais que não estão na ponta da ‘modernidade’ tecnológica, retomando, nesse aspecto, o ponto de vista da social-democracia européia, que justificou a opressão colonial em nome do ‘progresso’ econômico” (Moraes, 2007: 196).

Assim, o conjunto dessas análises sobre a obra pradiana, nos permite constatar, como bem explicitou Ângela Souza, “o destino trágico do pensamento de Caio Prado” (Souza, 2004: 180) que, a nosso ver, não apenas foi, mas continua sendo mal compreendido e interpretado em virtude de, fugindo da lógica interior de seu pensamento, continuarem a lhe imputar inferências exteriores à sua interpretação da realidade brasileira. Então, como uma boa parte da historiografia sobre Caio Prado persiste em analisar seu pensamento a partir de um “saber eclético, intimamente vinculado à posição de classe, à consciência interessada, à filosofia que assumem, o que se opõe aos lineamentos ontológicos da filosofia marxiana” (Souza, 2004: 180), nosso estudo, utilizando-se desse arcabouço teórico marxiano, busca resgatar a lógica interna do conceito de revolução nos escritos desse ilustre historiador. Nesse processo, objetivamos levar em conta de que mais do que propor soluções, Caio Prado nos lança problemas sobre a configuração particular do capitalismo no Brasil, muitos dos quais permanecem em aberto no campo das ciências humanas, carecendo ser deslindados, atentando-se, principalmente, às especificidades de nossa formação histórica. É o caso, por exemplo - o que explica nosso esforço até aqui - da função social que a burguesia brasileira cumpre na lógica de uma revolução burguesa que assume especificidades dentro de um processo de desenvolvimento capitalista híper-tardio.

Diante dessa particularidade de nossa formação histórica, as análises de Caio Prado Jr. nos permitem inferir que embora a burguesia agrária e a industrial tenham muitas vezes divergências sobre os rumos do desenvolvimento capitalista no país, a função social que cumprem nesse processo de transformação é, em primeiro lugar, compor rearranjos que garantam a perpetuação de sua hegemonia econômica e política em detrimento dos interesses da classe trabalhadora.



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1 Este artigo integra parte da dissertação de mestrado Caio Prado Jr. e o sentido da revolução na especificidade da burguesia brasileira (1955-1966), ainda em desenvolvimento pelo Programa de Estudos Pós-Graduados da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo sob a orientação da profª. Dra. Vera Lúcia Vieira. Esta pesquisa objetiva situar o conceito de revolução na produção intelectual de Caio Prado Jr., particularmente explicitado em seu livro A Revolução Brasileira, abrangendo o período que vai de 1955 a 1966, mas também presente em outros escritos do autor, inclusive alguns ainda inéditos. Integra-se, também, ao Centro de Estudos Históricos da América Latina e ao projeto temático Violência Institucional e Autocracia de Estado, coordenados pelos professores Dra. Maria Aparecida de Paula Rago, Dra. Vera Lúcia Vieira e Dr. Antônio Rago Filho e que, surgido em 2003, tem como grandes objetivos refletir sobre a natureza do Estado em países latino americanos, particularmente no Brasil, bem como, situar o papel das burguesias nas configurações da violência institucional. Email: paloma_alves@hotmail.com

2 Entendemos por autocracia burguesa “bonapartista” o mesmo conceito desenvolvido por Chasin e utilizado por Ângela Souza (2004.) e Maria Aparecida Rago (2004.) em seus respectivos trabalhos: “Por bonapartista entende-se a forma radicalizada, ditatorial de dominação dos proprietários que, nos países de via colonial, dada a sua incompletude de classe, oscilam dessa modalidade de poder nos ‘tempos de guerra’, para a autocracia burguesa institucionalizada, nos ‘tempos de paz’”. (Chasin apud Souza, 1995: 19).

3 É impossível tentar compreender a produção historiográfica brasileira na contemporaneidade, sem passar pela análise das obras de Caio Prado Junior. Esse historiador marxista e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que viveu entre os anos de 1907 a 1990, é um dos primeiros pensadores latino-americanos a produzir obras que trazem reflexões de peso acerca da configuração particular do capitalismo no Brasil e na América Latina. No cenário brasileiro, Caio Prado é quem inaugura uma linha investigativa dialética do materialismo histórico, rompendo, de maneira pioneira no país, com a influência dogmática do marxismo de viés estalinista. É importante notarmos, ainda, que com este tipo de abordagem materialista realiza uma ruptura com a historiografia tradicional que o distinguirá na historiografia brasileira.

4 Esta repercussão foi tão grande que Caio Prado, em 1966, foi distinguido com o troféu “Juca Pato” destinado ao intelectual do ano. É importante frisar que este prêmio, mantido e criado em 1962 pela União Brasileira de Escritores - seção de São Paulo -, era destinado àqueles que, com sua obra, mais tivessem contribuído para o debate das idéias.

5 Utilizamos a expressão “capitalismo hiper-tardio” com base nas indicações de Chasin (2000) para designar as formas não-clássicas de constituição do capitalismo, próprias de países de extração colonial como o Brasil: “(...) enquanto a industrialização alemã é das últimas décadas do século XIX, e atinge, no processo, a partir de certo momento, grande velocidade e expressão, a ponto de a Alemanha alcançar a configuração imperialista, no Brasil a industrialização principia a se realizar efetivamente muito mais tarde, já num momento avançado das guerras imperialistas, e sem nunca, com isto, romper sua condição de país subordinado ao pólos hegemônicos da economia internacional. De sorte que o ‘verdadeiro capitalismo’ alemão é tardio, enquanto o brasileiro é híper-tardio” (Chasin, 2000: 45).

6 A discussão sobre a configuração e a função social da burguesia perpassava, naqueles idos anos da década de 50 e ainda nos anos 60, pela preocupação em situar quais poderiam ser as alternativas para o desenvolvimento brasileiro. A democratização vivenciada no período JK, embora parcial, e no período do governo Goulart aventou a possibilidade de diferentes segmentos da sociedade, como intelectuais, operários, líderes camponeses, profissionais liberais, expressarem suas idéias sobre os rumos a serem dados ao desenvolvimento nacional, cujos problemas todos sentiam no cotidiano, em decorrência da inflação, das secas no nordeste, dos imensos bolsões de pobreza e miséria, assim como da falta de infra-estrutura para uma sobrevivência digna em que vivia grande parte da população brasileira. A historiografia sobre estas questões, resultante desse debate - como vimos até agora - é das mais ricas no que se refere às análises sobre a realidade nacional colocada em termos de retrospectiva histórica, conjuntural e proposições alternativas à situação vigente. É no interior desta historiografia que se põe A Revolução Brasileira que, diferentemente de outros debatedores, centrou a perspectiva na capacidade e nos limites de atuação de determinados sujeitos sociais em sua condição específica, ou seja, a burguesia. Portanto, a hipótese que se aventa em nossa pesquisa, ressalte-se ainda em andamento, é a de que é possível recuperar-se não só o perfil e a função social da burguesia, conforme posto naqueles anos, mas também a particularidade de nossa revolução burguesa, a partir da análise desta obra de Caio Prado. Ao centrar a dinâmica social em sujeitos historicamente postos, embora condicionados pelas circunstâncias vigentes, este autor levantou problemas sobre a configuração do capitalismo no Brasil que até os dias de hoje vêm sendo objeto de reflexões de inúmeros autores que o tomam com uma perspectiva crítica para, a partir daí, avançarem na discussão.

7 O grupo mais expressivo desta fração é formado pelo empresariado paulista que busca por esta independência econômica em defesa de seus próprios interesses. Ver RAGO (2004: 133).

8 É o que tenta compreender também Aparecida Rago em seu estudo sobre a práxis política de uma fração da burguesia brasileira (2004: 135).

9 Além dos já citados, neste sentido ver a tese de doutorado de Paulo Iumatti que, partindo da hermenêutica, busca interpretar o conjunto das produções de Caio Prado “no contexto de suas relações dialógicas com o ideário brasileiro e internacional, com o intuito de entender em que consistiu a originalidade do seu pensamento no âmbito da historiografia” (Iumatti, 2007: 182). Ou Rubem Murilo Rego (2000) cuja obra intitulada Sentimento do Brasil: Caio Prado Júnior – Continuidades e Mudanças no Desenvolvimento da Sociedade Brasileira busca revelar a articulação lógica das idéias de Caio Prado apresentadas no conjunto de suas obras, para fazer transparecer sua compreensão dos elementos fundamentais e contraditórios que foram constitutivos da formação e do desenvolvimento da sociedade brasileira. O cientista político Bernardo Ricupero (2000), por sua vez, considera que o pensamento pradiano promove a “nacionalização do marxismo no Brasil” ao realizar de maneira original e pioneira a fusão da teoria marxista com a análise da realidade brasileira sem dogmatismos. Paulo Henrique Martinez (1998), em seu trabalho de doutoramento, dedicou-se à análise de Evolução Política no Brasil - aquela que é tida pela historiografia como o primeiro ensaio de interpretação marxista dedicado à compreensão de nossa formação política - e do momento de ruptura histórico-cultural que o país atravessou entre os anos 1920 e primeira metade de 1930. Veja-se, também, a já citada dissertação de mestrado de Ângela Maria Souza (2004) que, através da ontologia marxiana, analisou os artigos de Caio Prado sobre a realidade nacional nos anos de existência da Revista Brasiliense, 1955-1964, ou mesmo a dissertação de Elisabete Pádua (1989) que objetivou compreender os limites e as principais contribuições de Caio Prado à luz de seus pressupostos filosóficos. O artigo de Renato Colistete (1990: 179-368) que analisa a visão de Caio Prado sobre o processo de desenvolvimento industrial brasileiro na década de 1950. A dissertação de Marcus Ianoni (1991: 160-161) que discute o conceito de Revolução do PCB em três importantes fases do partido, confrontando-o às idéias de pensadores como Caio Prado, Octavio Ianni e Florestan Fernandes acerca da natureza da revolução no Brasil. Este autor identificou que parte da dificuldade do PCB em se construir como partido operário em toda sua trajetória histórica poderia ser explicada através da precariedade de seus posicionamentos sobre o tema da revolução brasileira e de suas relações com a revolução socialista. E ainda o recente livro de Lincoln Secco (2008) que trouxe uma biografia teórica e política do autor, analisando no âmbito de um capítulo, inclusive, as principais polêmicas que envolveram A Revolução Brasileira. Por último o recente artigo de Jorge Grespan (2008) que assumiu como propósito analisar “as obras em que Caio Prado Jr. trata de temas de metodologia e filosofia”, para entender como este historiador formulava os principais conceitos da dialética; como ele os vinculava à tradição filosófica de Marx e Hegel; e o conceito de sentido “em sua riqueza dialética”.



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