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Introdução
«[Tom Sawyer] descobrira sem o saber uma grande lei que rege a humanidade e que é: para se conseguir que um homem ou um rapaz cobice uma coisa, basta tornar essa coisa difícil de obter.
Se fosse um grande e sábio filósofo, como o autor deste livro, teria compreendido então que o trabalho consiste em tudo o que se é obrigado a fazer, e o prazer consiste naquilo que se não é obrigado a fazer. Este raciocínio tê-lo-ia ajudado a entender por que se chama trabalho aos trabalhos forçados e a fazer flores artificiais, enquanto jogar ao berlinde ou escalar o monte Branco não passa de um divertimento. Há senhores muito ricos, em Inglaterra, capazes de guiar carros de passageiros puxados por quatro cavalos num caminho de vinte ou trinta milhas todos os dias no Vero, porque para isso têm de pagar uma quantia razoável, mas que se recusariam a fazê-lo se lhes oferecessem um ordenado, pois isso passaria então a ser trabalho.»
Mark Twain
0.1. A Economia
O que é a Economia? Esta é a pergunta natural no início da abordagem a esta ciência. A possibilidade de uma definição exacta será discutida adiante, mas logo de entrada é importante ter consciência da existência e da importância dos problemas económicos.
I) A ECONOMIA É ESSENCIAL
_Jbdos os dias tomamos decisões económicas. Algumas menores, mas importantes para nós, outras maiores, que afectam a sociedade, o país ou, até, o mundo.
É importante ter presente que a Economia está ligada ao essencial da vida de cada um. Cada pessoa depende dos outros, do funcionamento da Economia para a maior parte das coisas: alimentação, vestuário, informação. Somos incapazes de produzir as coisas mais básicas: um pão, um fósforo, uma lâmpada, um par de calças, um motor de automóvel. Foi a compreensão desta ideia que deu início à teoria económica.

Introdução
Na verdade, Adam Smith, no seu livro Ensaio sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, descreveu, de forma notável, este facto A forma como ele se maravilhou com a contemplação do que hoje chamamos o «sistema
económico» levou-o a iniciar uma investigação que fez dele o Pai da Economia.
ADAM SMITH (1723-1790)
Escocês de nascimento e professor de Moral da Universidade de Glasgow Smith, particularmente preocupado com a moral social, publicou em 1776 um livo, que pretendia usar como manual nas suas aulas, mas que se tornou rapidamente um scesso de vendas. O Ensaio sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações demonstrava, com múltiplos exemplos, como, naturalmente as relações económicas se ordenavam de forma espontânea, formando um sistema harmónico. O interesse por esta visão foi grande, não só nos salões elegantes mas também nas universidades e meios políticos, nascendo uma ciência para estudar esse sistema e fazendo de Smith o Pai da jovem Economia. Já professor e filósofo de renme, com obras em outros ramos do saber, a sua fama como economista levou-o a nomeação, dois anos depois da publicação do Ensaio, como comissário das Fronteiras da Escócia, onde passou os seus últimos anos.
Esta ideia, tão simples mas tão importante, colocou-a Smith logo no início do seu livro, com a história do casaco de lã, hoje célebre, que demonstra bem o fascínio que motivou Smith:
«... Por exemplo, o casaco de lã que cobre um jornaleiro, por mais grosseiro e tosco que possa parecer, é o produto do labor combinado de grande número de trabalhadores. O pastor, o classificador da lã, o cardador, o tintuteiro, o fiandeiro, o tecelão, o pisoeiro, o curtidor, e muitos outros, têm de reunir’as diferentes artes para que seja possível obter-se mesmo este produto comezinho. E quantos mercadores e carreteiros hão-de, além disso, ter sido empregados no transporte dos materiais de uns desses trabalhadores para os outros, que, muitas vezes, vivem em regiões do país muito distantes! Quanto comércio e quanta navegação especialmente, quantos construtores navais, marinheiros, fabricantes de velas e de cordas terão sido precisos para reunir as diferentes drogas usadas pelo tintureiro, que muitas vezes provêm dos mais remotos cantos do Mundo! E que variedade de trabalho é ainda necessário para produzir as ferramentas do mais ínfimo desses trabalhadores! Para já não falar de máquinas tão complicadas como o navio do marinheiro, a prensa do pisoeiro, ou mesmo o tear do tecelão, consideremos tão-somente a variedade de trabalho requerida para originar essa máquina tão simples, a tesoura com que o pastor tosquia os carneiros. O mineiro, o fabricante da fornalha para fundir o minério, o lenhador, o carvoeiro que produziu o carvão que a fundição utiliza, o fabricante de tijolos, o assentador de tijolos, os operários que trabalham com a fornalha, o operário da fundição, o ferreiro, todos têm de juntar as suas artes para as produzir. Se examinássemos da mesma forma as diferentes partes que compõem o seu vestuário e a mobília da sua casa, a camisa de linho que usa junto à pele, os sapatos que lhe protegem os pés, a cama em que se deita e as várias partes de que se compõe, o fogão de cozinha em que prepara os seus alimentos, o carvão que utiliza para esse fim, arrancado às entranhas da terra

A economia15
e trazido até ele provavelmente depois de uma longa viagem por terra e por mar, todos os outros utensílios da sua cozinha, tudo aquilo que utiliza na sua mesa, as facas e os garfos, os pratos de barro ou de estanho, nos quais serve e divide os seus alimentos, as várias mãos necessárias para produzir o seu pão e a sua cerveja, a vidraça que deixa entrar o calor e a luz e o protege do vento e da chuva, com todo o saber e a arte exigidos pelo fabrico dessa bela e feliz invenção sem a qual dificilmente se poderia proporcionar locais de habitação muito confortáveis nestas zonas frias do mundo, e ainda todas as ferramentas a que os operários empregados na produção de todos esses bens têm de recorrer; se examinarmos todas essas coisas, dizia eu, e considerarmos a variedade de actividades incorporada em cada uma delas, tornar-se-nos-á claro que, sem a ajuda e cooperação de muitos milhares, as necessidades do cidadão mais ínfimo de um país civilizado não poderiam ser satisfeitas, nem mesmo de acordo com aquilo que nós muito falsamente imaginamos ser a forma simples e fácil como elas são habitualmente satisfeitas. Na verdade, comparadas ao mais extravagante luxo dos grandes, as suas necessidades parecem, sem dúvida, extremamente simples e chãs; e, no entanto, talvez seja verdade que a satisfação das necessidades de um príncipe europeu não excede tanto a de um camponês industrioso e frugal, como a deste excede a de muitos reis africanos, senhores absolutos da vida e da liberdade de dez mil selvagens nus.» [Smith (1776), vol. i, págs. 89-91.]
Foi a compreensão do facto de que esta realidade, tão complexa e intrincada na aparência, funcionava de forma tão regular e coordenada, sem que ninguém dela cuidasse, que deu origem ao estudo da Economia. E Smith sublinhava não só que a complexidade do sistema não impedia uma eficiência nos resultados, como também levava a que as suas diferenças internas, embora importantes, fossem muito pequenas em comparação com as diferenças que o separavam dos outros sistemas (a distância de nível de vida entre o prncipe e o jornaleiro é muito menor que a que separa o jornaleiro do rei indígena, na expressão datada de Smith). A harmonia do sistema económico moderno não residia só na eficiência do seu funcionamento, mas também na redução das diferenças entre as pessoas, embora ainda grandes.
Esta maravilha fascinou Adam Smith e justificou um estudo que ele iniciou:
a Teoria Económica. É importante notar que esta descoberta fez-se quase na altura em que Lavoisier na Química, Newton na Física, Mendel na Biologia e tantos outros, encontravam a mesma harmonia nos vários aspectos da Natureza. A descoberta de Smith, porém, parecia ainda mais extraordinária que as outras, porquanto esta harmonia saía do resultado de múltiplas acções voluntárias e independentes, por parte de seres racionais. Não se tratava de encontrar leis naturais, onde o instinto ou outras forças profundas prendessem a realidade nessa harmonia. Era o encontrar dessa ordem na própria acção humana.
Como se consegue esta maravilhosa harmonia? A Economia baseia-se na troca. Na verdade, se cada um de nós tivesse de produzir tudo o que precisa e consome, da comida aos talheres, dos transportes ao mobiliário, não lhe seria possível possuir um décimo do que consome.
Mas, no fundo, cada família produz o que consome. Na verdade, ela não produz cada uma das coisas que utiliza, mas produz uma coisa, que troca pelas outras. Um engenheiro, um barbeiro, um agricultor, só exercem uma actividade, a qual lhes serve, a eles e aos outros, para muito pouco. Mas, ao vender o produto da sua actividade, pode trocar por aquilo que pretende e essa troca dá-lhe acesso a muito mais coisas. Nós não produzimos directamente as coisas que consumimos. Só temos o que consumimos por troca. Este, como veremos, é um dos princípios essenciais da Economia.
A troca está na base da nossa economia e, se ela falhasse, o nível de vida das sociedades desceria muito, mesmo que cada um continuasse a produzir o que produz. Vemos isso claramente quando por razões várias (guerras, revoluções, catástrofes naturais) algumas sociedades vêem o seu sistema de trocas deixar de funcionar. O sofrimento e a morte que esse facto provoca são consequências patentes da interrupção do funcionamento do sistema económico.
Destas reflexes sai a primeira grande conclusão da nossa análise: o grande poder da Economia. Ela estuda factos e fenómenos que são essenciais à vida concreta das pessoas e sociedades de sempre. As suas análises podem induzir ou prevenir enormes catástrofes pessoais ou sociais. Os temas que vamos tratar, por muito abstractos que pareçam, estão ligados directamente a questes de que depende a prosperidade e o desenvolvimento do Mundo ou a fome de gerações e. o desemprego de milhões.
II) A ECONOMIA É UMA CIÊNCIA
Estes problemas tão importantes e cruciais para a vida real das pessoas podem ser analisados de muitas formas diferentes. Visto que se trata de questões tão centrais para a vida de cada um, é normal que todos se preocupem em ter opiniões sobre elas. De entre todas essas formas de discutir ou analisar os fenómenos económicos, este livro vai debruçar-se apenas sobre uma delas: a abordagem científica.
Na verdade, vamos aqui apenas tratar do que se chama a Ciência ou a Teoria Económica, que exige conhecimento rigoroso, sistemático dessa realidade. Vamos, assim, olhar para esses factos reais de forma a respeitar as regras que a ciência impõe. Tais regras têm como principal objectivo garantir que, nessa análise, náo somos enganados por aparências, confusões, ideias feitas. Ao enveredar por um estudo científico, temos de pôr de lado muitas ideias simples e atractivas que a forma comum, descuidada e natural, de olhar para as coisas nos leva a acreditar.
A obediência a essas regras não se faz sem custos. Outras formas, não científicas, de ver a realidade permitem chegar mais facilmente a conclusões muito mais interessantes. Só que essas ideias feitas, do «senso comum», são muitas vezes puramente falsas. É fácil que toda a gente esteja plenamente convencida de algo que é completamente errado. Por exemplo, no século xv todo o mundo, especialistas e leigos, acreditou durante décadas na existência do Mar Tenebroso, onde viviam monstros que destruíam os navios. Quem afirmasse o contrário seria apelidado de louco. Foi a experiência directa, científica, dos Portugueses que eliminou esse mito. Muitas vezes o que parece não é.
Esta situação é o dia-a-dia das análises económicas. Os discursos de políticos, as notícias de jornais, as conversas de café estão cheios de ideias simples, atraentes, que parecem certezas indiscutíveis e que apenas denotam ignorância dos verdadeiros resultados rigorosos e científicos.
A única forma que o ser humano (excepto se possui poderes mágicos) tem para evitar isto é, pois, através da análise científica, do estudo sistemático e rigoroso dos problemas. É isto que aqui vamos fazer.
Como veremos, a Ciência Económica é composta por alguns princípios, poucos, muito simples, que devem ser sempre aplicados com inteligência. Desde que aplicados sempre, ninguém se engana. Se não o forem, como por vezes não são, dá erro.
Aliás, esta é uma característica muito importante que, ao longo da história da ciência, se tem notado em quase todas as «boas» teorias ou doutrinas:
— em primeiro lugar, a teoria baseia-se em poucos princípios, muito simples e de aplicação geral;
— por outro lado, a aplicação desses princípios a cada caso particular exige um estudo detalhado da situação concreta.
Em contrapartida, as más teorias baseiam-se em princípios complexos, vastos, complicados e confusos, mas de onde os seus proponentes tiram receitas simples, supostamente globais, que se aplicam, de forma cega, a qualquer caso.
A Economia pertence claramente ao primeiro grupo. Como disse Milton Friedman, um grande economista ainda vivo:
«[A Economia] é uma disciplina fascinante. O que a faz mais fascinante é que os seus princípios fundamentais são tão simples que podem ser escritos numa página, que qualquer pessoa os pode entender, e que, no entanto, tão poucos o fazem.»1
Mas, se os princípios essenciais são de aplicação geral, a sua concretização em cada caso gera resultados, prescrições completamente diferentes de situação para situação. Em Economia cada caso é um caso e não existem, como tantas vezes se observa nas propostas políticas reais, receitas de uso geral.
Esta ideia, essencial para qualquer tratamento da política económica, é captada de forma muito particular por um dos mais célebres mottos do grande Alfred Marshall:
«A multiplicidade na unidadee a unidade na multiplicidade.»2
Nela, o mestre queria significar que, em Economia, é necessário encontrar as muitas causas de cada fenómeno, mas também procurar as muitas situações em que a mesma causa aparece.
Daqui sai a segunda conclusão da nossa introdução: poucos são os que procuram ter dos problemas económicos uma visão rigorosa e científica. É importante ter consciência de que a maior parte das ideias comuns sobre Economia não passaram pelo crivo científico e, por isso, podem estar erradas. Daqui sai a importância de garantir um estudo rigoroso dessa realidade e da sua divulgação.
Friedman, in Breit Spencer (ed.) (1986), p. 91.

2 The many in the one, and the one in the many, Marshall (1919), p.v. 5.6.



ALFRED MARSHALL (1842-1924)
Marshall, sem nunca deixar de ser um professor inglês metódico, brilhante e erudito, foi o grande arquitecto da Economia moderna. Tomando as obras dos seus predecessores, integrando-as mas ultrapassando-as, Marshall, no fim do século xix e princípios do século xx, ordenou e estruturou a ciência económica em moldes que ainda hoje são as traves mestras da disciplina. Os seus profundos conhecimentos matemáticos, os seus raciocínios cristalinos e as suas grandes preocupações morais, sobretudo com os pobres, foram os elementos essenciais para essa construção. Desenvolvendo a sua actividade sobretudo na Universidade de Cambridge, as suas principais obras são Princípios de Economia, de 1890, Indústria e Comércio, de 1919, e Moeda, Crédito e Comércio, de 1923.
III) A ECONOMIA É UMA CIÊNCIA HUMANA
Na Economia, ao contrário de outras ciências, não se estudam fenómenos externos, como o nitrato de sódio ou o ornitorrinco, mas sim o ser humano e a sociedade. O facto de o objecto da ciência económica ser o próprio ser humano traz à Economia algumas características especiais, que ela partilha com as outras ciências humanas (a psicologia, a sociologia, a antropologia, etc.).
Em primeiro lugar, é de notar que esse facto torna a ciência muito mais difícil. É como jogar xadrez com peças que nunca estão paradas. O ser humano muda, é complexo e imprevisível. Se os resultados da análise da química, física, matemática se podem considerar imutáveis e obtidos de uma vez para sempre, nas ciências humanas a única garantia é que a certeza de hoje será contestada na nova realidade de amanhã.
Por outro lado, uma enorme quantidade de problemas científicos nasce do facto de o analista e o objecto de análise serem da mesma natureza. Os resultados da análise tocam pessoalmente o analista, pelo que é difícil separar o resultado científico da opinião pessoal.
Repare-se que, embora este aspecto seja típico das ciências humanas, ele está presente em toda a ciência sempre que esta toca um problema que afecte a vida de todos nós. A física, a química, a biologia, supostamente ciências exactas e neutras, podem tornar-se fortemente polémicas quando discutem problemas relativos à bomba atómica, às armas químicas ou ao aborto.
A principal questão que resulta daqui é a distinção entre ciência e doutrina. A ciência, como vimos, descreve factos, estuda relações de forma o mais rigorosa e neutra possível, para evitar ser enviesada por erros ou confusões. Mas, quando os factos e as relações estudados têm influência sobre a vida das pessoas, para além do fenómeno em si, aparece a forma particular como cada pessoa o encara: a sua opinião, a doutrina que perfilha, deduzida a partir de uma visão particular do Mundo. Estas envolvem ética e julgamentos particulares, que são diferentes de pessoa para pessoa.
A opinião de cada um, formada a partir do seu meio envolvente, da sua história concreta, dos seus interesses na vida, até dos seus estudos científicos particulares, é algo de pessoal e individual, que perdeu todas as características de

v
Os princípios básicos de Economia 19


generalidade e rigor do resultado científico. Na prática pode ser difícil separar as duas coisas, pois muitos fazem passar por indiscutivelmente científico algo que não passa da sua opinião pessoal.
No que toca às opiniões, o valor de cada uma é igual ao das outras. O economista pode saber melhor a consequência dos seus actos, mas a sua opinião vale o mesmo que a do ignorante. É por isso que nos sistemas democráticos os votos de todos e cada um são iguais, e não se dá peso à opinião do economista, do engenheiro ou do sociólogo nas votações sobre assuntos da sua especialidade. Nesses sistemas, o parlamento representa o mostruário das opiniões do país e, no que toca aos assuntos económicos, por exemplo, aparecem economistas em todos os partidos. Os economistas conhecem todos a mesma ciência, mas não votam todos da mesma maneira.
Assim, sobre um certo problema podem existir várias doutrinas, representando as várias opiniões. Essas doutrinas baseiam-se em conhecimentos científicos, mas não são ciência. As duas, ciência e doutrina, são essenciais para enfrentar um problema económico particular, mas têm papéis diferentes. A ciência garante origor da análise e a exactidão das conclusões; a doutrina define os objectivos e a linha de conduta. Esta distinção é particularmente importante na Economia, como nas outras ciências sociais, porquanto é fácil e corrente alguns confundirem as noções, apresentando opiniões discutíveis como ideias cientificamente demonstradas.
É pois essencial, na análise de qualquer problema económico, buscar cuidadosamente quais das ideias presentes constituem resultados científicos e quais resultam da opinião doutrinal. Estes dois elementos estão sempre presentes, são ambos muito importantes, mas são diferentes e como tal devem ser tratados.
É importante ainda notar a presença de um terceiro elemento que também aparece nessas discussões: o disparate. Uma boa análise económica tem de ter em conta o princípio essencial de toda a reflexão: nunca se deve subestimar a estupidez humana; o erro e o disparate aparecem por todo o lado e é sempre possível fazer pior do que se fez ou se previa.
0.2. Os princípios básicos de Economia
Como é que a teoria económica enfrenta os grandes obstáculos que se lhe apresentam e estuda este agente tão variável, multifacetado e imprevisível? O método utilizado baseia-se na aplicação sistemática de dois postulados de base, muito simples e gerais.
Estes dois princípios, que chamamos o postulado da racionalidade e o postulado do equilíbrio, constituem o essencial da abordagem económica e são os elementos caracterizadores da Economia em relação às outras ciências. Como veremos repetidamente ao longo do nosso percurso, é a partir destes princípios que todos os resultados económicos são obtidos, e a sua riqueza é tal que uma enorme quantidade de ideias, com grande interesse prático e relevância concreta, resultam destas ideias muito simples.
Podemos perguntar: porquê estas hipóteses?
Estes postulados são, hoje, justificados pelo facto de as teorias nele fundadas se terem mostrado eficientes. Mas a razão de fundo da sua escolha pode ser encontrada no tema do livro Principies of Economis de Alfred Marshall:
«Natura non facit saltum», a Natureza não dá saltos.
O verdadeiro significado destes axiomas, tão frequentemente confundido e mal compreendido, pode ser ilustrado brevemente com um exemplo muito simples e real e, à primeira vista, não económico.
O PROBLEMA DO AUTOCARRO CHEIO
Suponha-se que um autocarro, completamente cheio, chega ao término da carreira. Precisa de largar todos os passageiros e, para isso, abre as duas portas que possui. Como podemos descrever o comportamento do sistema? Repare-se que a compreensão do comportamento deste sistema (o autocarro cheio de pessoas) é uma tarefa científica semelhante à tarefa do economista que pretende entender o comportamento do sistema económico.
Uma das hipóteses de abordagem possível ao problema consiste em impor que os agentes que se encontram no autocarro são racionais. Trata-se da aplicação do postulado da racionalidade3. Neste caso, a racionalidade signica que cada passageiro, no caso geral, vai procurar sair por aquela porta que está mais perto de si ou, em termos económicos, vai tentar minimizar o espaço percorrido, o esforço e o tempo despendido para obter o seu fim: sair do autocarro. «Sair pela porta que está mais perto» é a regra de conduta que cada um vai aplicar.
Mas será que esta regra se aplica a todas as situações? Não. Se está a chover ou se temos um amigo na parte de trás do autocarro, por exemplo, o comportamento racional leva a atitudes diferentes. O princípio básico da racionalidade é geral, mas a regra particular que dele foi deduzida só se aplica a certos casos, mesmo que seja à maioria, como no exemplo.
A razão da aceitação da hipótese de existência, na generalidade dos casos, de um comportamento optimizador reside na confiança existente de que a maioria das pessoas, na falta de qualquer motivo válido em contrário, tentará reduzir o desperdício de esforço. Claro que pode haver alguém que, sem razão, queira sair pela porta mais distante, empurrando todos ou esperando para ser o último. Mas este caso é claramente uma excepção e a sua existência não vai perturbar significativamente o nosso estudo do esvaziamento do autocarro.
Assim, se utilizarmos este princípio, sabemos imediatamente como evolui a desocupação do autocarro: as pessoas situadas na metade dianteira do autocarro saem pela porta da frente e as pessoas na metade de traseira saem pela porta de trás. Esta situação vê-se na figura seguinte:
A utilização do princípio da racionalidade permitiu a obtenção de uma teoria simples, plausível, do comportamento deste sistema. Não é preciso que todas as pessoas em todos os autocarros obedeçam estritamente a esta regra para que, com esta ideia, se consiga explicar o esvaziamento normal dos autocarros no fim da carreira. Basta que a maior parte das pessoas, na maior parte do tempo, se comportem assim.
Para poder ter resultados no que respeita ao esvaziamento de autocarros, falta saber como a generalidade dos autocarros se comportará. Se supusermos que todos os autocarros ao chegarem ao fim da carreira se comportam da forma normal, equilibrada, que descrevemos atrás, podemos obter uma descrição teórica global do sistema. Aqui usamos o postulado do equilíbrio que, mais uma vez, não precisa de se verificar sempre para ser útil. Basta que a maior parte dos casos lhe obedeça.
Deste modo, ao supor que este sistema (o autocarro cheio de pessoas no término) obedece aos dois postulados básicos, consegue-se obter uma teoria explicativa geral do comportamento de todos os sistemas semelhantes. Se os agentes são racionais e a sua interacção equilibrada, sabemos imediatamente o que esperar do sistema.
Mas da aplicação destes postulados ao nosso exemplo saem alguns resultados interessantes que podem esclarecer algumas confusões frequentes. Por exemplo, é de notar que a utilização do princípio da racionalidade ou da maximização do bem-estar não implica necessariamente comportamentos éticos. Na verdade, mesmo que se suponha que cada passageiro queira sair o mais rapidamente possível do autocarro, eles não têm de se mostrar egoístas, atropelando as crianças ou deixando de dar passagem às senhoras de idade. Uma pessoa pode ser delicada e, ao mesmo tempo, ao escolher a porta de saída do autocarro, procurar a que lhe está mais perto.
Torna-se assim clara a verdadeira natureza dos axiomas e dos mecanismos económicos que deles derivam. Da sua aplicação resulta apenas a tentativa de evitar o desperdício e, por isso, eles são conceitos funcionais na sua essência. As hipóteses, que adiante utilizaremos, de que as empresas maximizam o lucro e as pessoas maximizam a utilidade, por exemplo, caem neste caso. Ao supor-se que maximiza o lucro, exige-se apenas que o empresário tente usar da melhor maneira os recursos de que dispõe para prosseguir os seus objectivos, que podem ser os mais altruísticos4. E, tal como o passageiro ao escolher a porta mais próxima, nada o obriga a necessariamente violar a civilidade e a delicadeza nesse processo. A questão de saber se uma pessoa será respeitosa ou não depende da postura de cada um, e nada tem a ver com o postulado da racionalidade.
É também importante notar outra ideia que se pode deduzir do exemplo referido. Repare-se que, embora cada um esteja dedicado apenas à resolução do seu problema (o que, como vimos, nada tem a ver com egoísmo), consegue, sem dar por isso, resolver o problema global: o autocarro é esvaziado da maneira mais rápida possível. Este é o conceito da «mão invisível» que afirma que, se cada um prosseguir os seus objectivos próprios, se consegue no fim o máximo bem-estar para todos. Adam Smith foi o primeiro a notar de forma sistemática este aspecto, e algumas das suas observações tornaram-se célebres:
«Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse.» Smith (1776), vol. i, pág. 95.
«Cada indivíduo [...] não pretende, normalmente, promover o bem público, nem sabe até que ponto o está a fazer. Ao preferir a indústria interna em vez da externa só está a pensar na sua segurança; e, ao dirigir essa indústria de modo que a sua produção adquira o máximo valor, só está a pensar no seu próprio ganho, e neste caso como em muitos outros, está a ser guiado por uma mão invisível a atingir um fim que não fazia parte das suas intenções.» Ibidem, i, 757-758.
Mais uma vez é patente o fascínio de Adam Smith por um sistema que, de forma surpreendente, aparece ordenado naturalmente sem que ninguém directamente contribua para isso.
Tal como nos princípios citados atrás, esta ideia da «mão invisível» refere-se apenas a preocupações com a eficiência na luta contra o principal inimigo da Economia, o desperdício. Também neste caso, o conceito não apresenta qualquer conotação ética e pode também ser ilustrado pelo citado exemplo do autocarro.
Se na saída for respeitado o princípio da minimização do espaço percorrido pelas pessoas, como impõe a hipótese do teorema, então metade dos passageiros, a situada na parte dianteira do autocarro, tenderá a usar a porta da frente e a outra metade a porta de trás. As duas portas estarão completamente ocupadas durante todo o processo de saída, conseguindo-se assim esvaziar o autocarro no mínimo de tempo. A «mão invisível» funcionou!
Esta ideia é talvez o aspecto mais importante do estudo económico da sociedade global: a sociedade funciona bem, sem que ninguém se preocupe com isso. Ela constitui um dos principais elementos da harmonia do sistema económico, referida atrás, com semelhanças claras com a harmonia natural que a física, a biologia e outras ciências encontram nos seus domínios, cuja observação, como se disse, deu origem à teoria económica. Na verdade, uma das motivações essenciais do estudo da Economia residiu no interesse em compreender este sistema em que, de forma inesperada, surgia uma ordem onde seria de suspeitar que reinaria o maior caos se ninguém impusesse a disciplina.
Em todo este raciocínio nunca foram invocados conceitos éticos ou obtidos resultados valorizáveis subjectivamente. A solidariedade/noção eminentemente moral, não teve de ser chamada para a solução do problema global, e por isso, é aqui independente das análises de eficiência. Não é pois neste campo que se encontra o seu lugar na Economia e portanto não se procure aqui a sua aceitação ou recusa pela teoria económica.
O carácter funcionalista desta noção é posto em destaque pelo facto de nem sempre ela ser verdadeira. Na verdade, ainda no exemplo do autocarro, existe uma hipótese adicional que teve de ser introduzida para a sua verificação: a colocação simétrica das portas.
Considerando o tipo de veículo actualmente mais usado em Lisboa, a colocação das portas à frente e ao meio do veículo perturba a demonstração do teorema. O mesmo princípio de minimização do espaço leva, neste caso, a que pela porta da frente só saiam cerca de um quarto dos passageiros, os colocados mais perto do condutor, pois os outros todos estão mais próximos da porta central. Assim se impede que o autocarro seja despejado no mínimo tempo. O sistema continua em equilíbrio, mas agora a «mão invisível» não funcionou!
Aliás, é interessante notar que, neste caso, a equivalência entre a solução de minimização do espaço percorrido e a de minimização do tempo deixa de existir, sendo para alguns mais rápido sair pela porta mais afastada, o que fere a sensibilidade de qualquer economista que use os transportes públicos lisboetas. Note-se que o problema que impediu o funcionamento da «mão invisível» se relacionou com a estrutura do problema (neste caso a colocação das portas), que corresponderia à estrutura da Economia. Como veremos adiante, há certas condições que garantem a verificação da «mão invisível», mas só nessas estruturas ela opera.
Que fazer nestes casos em que os agentes livres (que adiante identificaremos com o mercado), deixados a si próprios, não resolvem por si a questão de forma satisfatória? Esta questão nasce necessariamente da constatação da existência de situações fora da alçada da «mão invisível», quer no sistema económico, quer no nosso autocarro. Também para esta questão o nosso exemplo pode ajudar a perceber.
Se cada um dos agentes se preocupa apenas com a sua situação, não é neles que poderemos encontrar a resposta para um problema que é global. Mas na maioria dos casos (de certeza nos que nos interessam) existe um, mas só um agente que se preocupa com o problema global. A esse agente chamamos o Estado (que neste exemplo é substituído pela empresa de camionagem). Se o mercado não resolve o problema, o Estado pode intervir, para resolver o problema. No nosso exemplo, poderia ser colocado um funcionário na porta do meio, impedindo que por essa porta saíssem pessoas que se encontram na parte da frente do autocarro.
Mas, por vezes, o custo da intervenção é tal que não vale a pena. Este caso é um exemplo evidente: o custo de ter um funcionário à porta do autocarro é de tal maneira elevado que não justifica o ganho de alguns minutos na desocupação do autocarro. E aqui aparece outro dos princípios fundamentais da Economia: como em todas as decisões económicas, só o que der maior benefício líquido é que deve ser feito.
Esta constatação, que parece óbvia, reveste-se de contornos dramáticos quando a aplicamos à Economia. Os sistemas económicos de direcção central, normalmente ligados a ideologias comunistas, partiram da verificação, aliás óbvia, de que os sistemas de economia livre de mercado funcionam mal, como todos podemos constatar no nosso dia-a-dia. Mas eles partiram desse facto para impor um sistema alternativo que ninguém sabia se iria funcionar melhor. A falta de compreensão deste princípio básico da Economia custou muitos sofrimentos a gerações.
0.3. Apresentaço do volume
Como já foi dito, o objectivo do presente texto é apenas o de mostrar a enorme amplitude e potência destes dois postulados muito simples. A sua presença verificar-se-á ao longo de todo o livro, com uma única excepção5, e serão eles os principais elementos do nosso estudo. Assim, na secção I. Princípios fundamentais da economia começaremos por ver com mais pormenor como se apresenta o problema económico e os seus principais componentes.
O essencial do livro encontra-se nas secções II. Agentes racionais e III. Mercados equilibrados, que têm títulos directamente relacionados com os nossos postulados. Aí será deduzido o corpo teórico básico da TEORIA DO VALOR que orientará toda a análise. Os teoremas demonstrados nessas secções, directamente deduzidos a partir dos dois axiomas, constituem as principais conclusões sobre o comportamento económico nas actividades básicas, o consumo, a produção e a troca. Podemos dizer que quase todos os outros resultados do livro são, em certa medida, corolários destas duas secções, com uma excepção6.
Na verdade, as partes seguintes do livro deduzem-se destes dois capítulos básicos, pois tratam de fenómenos particulares que resultam da composição destas actividades fundamentais. Assim, os problemas de distribuição dos bens pelas várias pessoas numa sociedade ocupam a secção iv, onde é central a questão da pobreza.

5 A excepção, cujas razões ficarão patentes adiante, figura na secção 5.1. do capítulo v, sobre a «economia keynesiana».


6 A excepção aqui reside na TEORIA MONETÁRIA, que será apresentada na secção m do capítulo v, único corpo teórico básico para além do comportamento dos agentes e dos mercados das secções n e m.

A secção v procura deduzir, a partir dos dois postulados, o comportamento dos agregados económicos da sociedade na conjuntura económica, com especial atenção para os problemas do desemprego e inflação. Aí, como veremos, encontram-se as duas excepções referidas. Em primeiro lugar tornar-se-á necessário juntar mais um elemento teórico ao corpo básico das secções n e i, no que constitui a TEORIA MONETÁRIA. Esta contém os únicos resultados que não podem ser reconduzidos aos teoremas dessas secções.


Por outro lado, é também na secção v que, apenas por momentos, abandonaremos os nossos dois postulados básicos, estudando agentes que não são racionais e mercados que não equilibram. Isto será feito para estudar, em alternativa aos resultados deduzidos pelo método do resto do livro, uma abordagem que teve importância na história da Economia: o modelo keynesiano.
Nas secções seguintes serão tratados com mais atenção dois elementos fundamentais da realidade económica: o espaço e o tempo. Assim, na secção vi, sobre interdependência mundal, serão tratados os teoremas que resultam quando os postulados fundamentais forem aplicados num mundo em que o espaço disponível está dividido em países, com relações económicas entre si. Finalmente, a secço vn ocupa-se da dinâmica económica e da Economia, que se centra nas questões resultantes da passagem do tempo.
Não se espere que esta viagem através da Economia dê todos os elementos necessários para um estudo dessa realidade. O que se procurou foi apenas juntar aquelas ideias que nenhum estudo económico pode esquecer. O domínio das noções aqui apresentadas pode não constituir condição suficiente para um economista, mas será certamente condição necessária.

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