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CaIntrodução à Economia

João Luís A César das Neves é Professor de Introdução à Economia na Universidade Católica Portuguesa desde 1989. Licenciado em Economia pela Universidade Católica. obteve o grau de Mestre em Investigação Operacional e Engenharia de Sistema pelo Instituto Superior Técnico, o grau de Mestre em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e o grau de Doutor em Economia pela Universidade Católica Portuguesa. Docente na Universidade Católica Portuguesa desde 1979, é também acualmente assessor económico do Prímeiro-Ministro.

Introdução à Economia
João Luís César das Neves
Professor da Universidade Católica Portuguesa
C. G. D
BIBUOTECA/ CA
.MijL
Editorial Verbo
Lisboa — São Paulo

À memória de Adam Smith, Alfred Marshall e Joseph Schumpeter
Edição realizada
em colaboração com o
Departamento de Economia
da Faculdade de Ciências Económicas
e Empresariais da Universidade
Católica Portuguesa
© 7992 João LUÍS César das Neves e Editorial Verbo
Capa: Rego e Associados
Composição: Fotocompográfica, Lda.
Impressão: Rolo e Filhos, Lda.
em Setembro de 1992
N.ed.:2108
Dep. legal: 57 080192

Prefácio 9
O Introdução 13
f 0.1. A Economia 13
0.2. Os princípios básicos da Economia 19

0.3. Apresentação do volume 24


Princípios fundamentais da Economia
1 A ciência económica 29
l -1.1. Definição de economia 29

1.2. A abordagem científica 35


2 ’ problema económico 41
2.1. Escassez e escolha 41
2.2. Racionalidade e interdependência 44
2.3. As possibilidades de produção 49
3 Soluções do problema 57
3.1. Tradição, autoridade e mercado 57
3.2. O mercado na sociedade moderna 61 . 3.3. O papel do Estado 65
4 A cru marshaiana 69
4.1. A curva da procura 69
4.2. A curva da oferta 73
4.3. O equilíbrio 74
5 Os problemas globais da sociedade 89 ! 5.1. O todo e as partes 89
5.2. A actividade do Estado 91
5.3. O espaço e o tempo 94

índice
Agentes racionais
1 Teoria do consumidor 99
1.1. Utilidade 99
1.2. A decisão do consumidor 102
1.3. A análise moderna do consumidor 109
1.4. Três outras questões do consumidor 117
2 Teoria do produtor 129
2.1. Empresas e produção 129
2.2. Como produzir? 132
2.3. Quanto produzir? 135
Mercados equilibrados
1 Concorrência perfeita 147
1.1. A eficiência de mercado 152
2 Imperfeições na concorrência 157
2.1. Monopólio 158
2.2. Oligopólio 162
2.3. Concorrência monopolística 163
Problemas de distribuiço
1 Mercados de factores 173
2 Pobreza e equidade 185
Conjuntura económica
1 Abordagens ao problema 197
1.1. Medição económica 212
1.2. Cuidados com as estatísticas 221
2 Equilíbrio económico global 229
2.1. O equilíbrio geral walrasiano 229
2.2. A economia de Robinson Crusoe 234
2.3. A economia descentralizada 235
2.4. A economia com crédito 238
3 Problemas monetários e financeiros 249
3.1. Moeda 249
3.2. Crédito, bancos e política monetária 255
3.3. Procura de moeda e mercado financeiro 262
4 Equilíbrio e choques no modelo básico 275

4.1. Introdução da moeda 275

Í
’ /
Índie
4.2. Introdução do Estado 27 .3. Inflação e desemprego 285

5 O debate na economia agregada 295
5.1. A economia keynesiana 295
5.2. O papel do Estado 315
Interdependência mundial
.._1 A balança de pagamentos 323
2 O comércio internacional 327

2.1. Política comercial 332


3 Os movimentos de capitais 339
4 Problemas monetários internacionais 341
5 Implicaçes da abertura na economa 347
Dinâmica económica e da economia
l A situação actual do mundo 351
2 A história do desenvolvimento 357
3 A tera desenvolvimento 365
4 Teoria e doutrinas económicas 373
4.1. Teoria Económica 373
4.2. Doutrinas Económicas 375
4.3. A doutrina social da Igreja 379
Resumo geral
1 Os princípios fundamentais 385
2 Comportamento dos agentes e mercados 386
3 Economia agregada 387
4 Economia mundial e desenvolvimento 388
Bibliografia 391
Anexo — Exercícios de economia:
As Aventuras de Dick Shade 393

O presente volume é o resultado da leccionação da cadeira de Introdução à Economia nos cursos de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa. Nasceu assim da relação com um largo grupo de alunos, para quem a Economia era, mais do que uma matéria de estudo, um desafio directo no início do seu curso.


A todos eles foi dito, logo no princípio, que o objectivo da cadeira não era ensinar Teoria Económica. Para isso existiam todas as outras disciplinas, ao longo do seu curso. O verdadeiro objectivo da cadeira de Introdução à Economia era triplo:
— mudar o modo de pensar sobre os problemas do dia-a-dia;
— fazer com que ficassem a gostar de Economia;
— divertir um pouco.
É também este o objectivo deste volume. Assim, trata-se de um texto simples e despretensioso, que, não procurando constituir um manual, consiste apenas no relato de uma experiência pedagógica.
Na verdade, no livro não se encontram as características indispensáveis a um manual. Não contém a exaustividade, a flexibilidade, a generalidade necessárias a um texto de fundo. Em vez de tratar de todo o largo campo dos problemas económicos, este texto procura centrar-se nos princípios básicos da Economia, naquelas poucas ideias, muito simples, que subjazem a todo o raciocínio económico e constituem o essencial da forma especial de a Economia analisar o mundo.
Pode-se, pois, dizer que o que o texto pretende (não necessariamente o que consegue) é apresentar essas ideias-base, demonstrar a sua importância e relevância prática e ilustrar como, a partir delas, é possível deduzir conclusões sobre os múltiplos aspectos da realidade. Deste modo, a complexidade de alguns problemas foi voluntariamente sacrificada, simplificando as questões de forma

Prefácio
a destacar a conexão profunda existente entre os vários temas. As excepções, os refinamentos, as elaborações foram, frequentemente, omitidas. Esses aspectos podem, mais tarde, em textos mais avançados, ser absorvidos com facilidade, na condição de se terem bem fundamentadas as ideias-chave, as regras, os princípios. É desses que aqui se trata.
Assim da leitura deste livro não se poderá obter um domínio dos vários tipos de problemas que a ciência económica aborda nos dias de hoje. Apenas se consegue, se as suas intenções foram cumpridas, um esboço estilizado dos principais métodos de análise científica, aplicados a problemas elementares.
Assim fica explicada uma das características mais patentes (e maçadoras) do livro: a frequente repetição dos temas. Se o objectivo é demonstrar a constância das linhas de força e firmar bem essas linhas, a repetição, a revisão de temas comuns em problemas e tópicos diferentes é um instrumento necessário, mesmo que a elegância literária sofra um pouco.
A ideia mais repisada ao longo do texto será, pois, que a Economia é muito simples, quase elementar, resultante de alguns princípios, muito poucos e muito simples, mas extremamente poderosos. A sua aplicação à realidade complexa e variável é muito difícil, exigindo a maior atenção e cuidado, mas os princípios são elementares, simples e, frequentemente, esquecidos. Se o leitor for convencido disto, o objectivo do livro está conseguido.
Sendo esta a linha de força fundamental da abordagem, especial atenção foi concedida a dois aspectos particulares. Em primeiro lugar, sempre que possível, procurou-se mostrar como o método de análise ou o resultado obtido tem efeitos reais na vida concreta da sociedade actual e, em especial, nos aspectos mais simples da vida de cada um de nós. Esta tónica toma contornos particulares quando se sublinham os efeitos nefastos da sua frequente ignorância.
O segundo ponto reside na preocupação de ligar cada peça de análise ao seu autor original, integrando, tanto quanto possível, a discussão dos temas na história do pensamento económico. Procura-se, assim, não só iniciar o leitor nas grandes fases de evolução da ciência mas também aproveitar do atractivo que o «romance da investigação» traz consigo. Deste modo, os modelos, hipóteses e teoremas ganham vida e torna-se possível observar a forma concreta e o método de análise pelo qual esses resultados foram efectivamente obtidos.
O presente texto pretende ser um livro para universitários, mas ao nível mais elementar. Por essa razão, foi praticamente evitado o tratamento formal dos temas e, quando este aparece, é feito sempre em alternativa à explicação literária. Assim, para seguir a exposição pouco mais é necessário do que os conhecimentos mais básicos de aritmética e cálculo. Por outro lado, o forte uso de análise gráfica foi uma opção clara. No entanto, também aí apenas as bases da geometria cartesiana serão utilizadas.
Ainda um reparo sobre o torn da exposição. O objectivo, como se disse, é eminentemente técnico, de apresentação dos princípios básicos da ciência. Este propósito teórico leva a que os problemas morais ou ideológicos da política económica ou da «economia política» não sejam directamente tratados. É um texto teórico e não político. No entanto, a omnipresença daqueles elementos nas ciências humanas será referida com frequência, bem como os seus efeitos sobre a análise científica, que procura ser neutra e rigorosa.

Prefácio11
Por outro lado, na análise de questões mais aplicadas, sobretudo nas decisões de intervenção conjuntural e estratégica, os elementos ideológicos são indispensáveis. Aí será procurada uma descrição de sistemas dogmáticos alternativos, convidando-se o leitor a tomar o seu partido particular. As opções pessoais do autor, porque inevitavelmente influentes, serão explicitadas claramente.
Finalmente, o facto de o texto não constituir um manual não deve privar o estudante do acesso à globalidade e generalidade características dos compêndios. Deste modo, em cada capítulo serão indicadas referências bibliográficas referentes a manuais estabelecidos, para ajudar ao estudo. Entre estes, serão mais usados e ficam já referidos os seguintes:
Samuelson, P., & W. Nordhaus (1989), Economis, McGraw Hill, Nova Iorque, 13.a ed. (tradução portuguesa da 12. ed., 1985)
Moura, F. Pereira de (1976), Lições de Economia, 4. ed., Livraria Almedina, Coimbra.
Sousa, Alfredo de (1990), Análise Económica, Universidade Nova de Lisboa, 3. ed., Lisboa.
Phelps, Edmund (1985), Political Economy — An Introductory Text, W. W. Norton & Co, Nova Iorque.
Merece uma explicação particular o tratamento do campo que, tradicionalmente, é conhecido como «macroeconomia». O texto recusa a separação feita nos anos 30 entre «microeconomia» e «macroeconomia», que, por isso, nunca é referida. Assim, a análise toma como ponto de vista geral o modelo de equilíbrio neoclássico, utilizado na sua abordagem a todas as questões económicas, individuais e globais. A única distinção feita dentro do corpo da Economia é a clássica separação entre teoria do valor e teoria monetária.
Deste modo, e no que respeita às questões de conjuntura económica, é apresentado o modelo de equilíbrio geral, sendo o modelo keynesiano discutido como uma visão alternativa de desequilíbrio. A falta de textos introdutórios que adoptem esta perspectiva exigiu que, na bibliografia de apoio, seja utilizado nesta matéria um livro que é claramente mais avançado do que a exposição do texto:
Barro, Robert (1990), Macroeconomics, 3. ed., John Wiley & Sons.
Um livro que é o resultado de vários anos de leccionação exige sempre muitos agradecimentos. A Universidade Católica em geral e os alunos e docentes da cadeira de Introdução à Economia em particular merecem toda a minha gratidão. Os doutores Isabel Ucha da Silva, José Adelino Afonso, Miguel Frasquilho, Sofia Duarte Silva, José Manuel Barroco e outros assistentes da cadeira leram e comentaram o texto nas suas várias edições particulares. A doutora Isabel Horta Correia e o padre João Seabra foram comentadores atentos deste texto e a eles devo muitas correcções preciosas. O engenheiro Tomás Eiró analisou a redacção das provas, melhorando significativamente a elaboração literária. A Editorial Verbo e a Universidade Católica foram as instituições que permitiram que este livro nascesse. A todos, os meus maiores agradecimentos.

Introdução
«[Tom Sawyer] descobrira sem o saber uma grande lei que rege a humanidade e que é: para se conseguir que um homem ou um rapaz cobice uma coisa, basta tornar essa coisa difícil de obter.
Se fosse um grande e sábio filósofo, como o autor deste livro, teria compreendido então que o trabalho consiste em tudo o que se é obrigado a fazer, e o prazer consiste naquilo que se não é obrigado a fazer. Este raciocínio tê-lo-ia ajudado a entender por que se chama trabalho aos trabalhos forçados e a fazer flores artificiais, enquanto jogar ao berlinde ou escalar o monte Branco não passa de um divertimento. Há senhores muito ricos, em Inglaterra, capazes de guiar carros de passageiros puxados por quatro cavalos num caminho de vinte ou trinta milhas todos os dias no Vero, porque para isso têm de pagar uma quantia razoável, mas que se recusariam a fazê-lo se lhes oferecessem um ordenado, pois isso passaria então a ser trabalho.»
Mark Twain
0.1. A Economia
O que é a Economia? Esta é a pergunta natural no início da abordagem a esta ciência. A possibilidade de uma definição exacta será discutida adiante, mas logo de entrada é importante ter consciência da existência e da importância dos problemas económicos.
I) A ECONOMIA É ESSENCIAL
_Jbdos os dias tomamos decisões económicas. Algumas menores, mas importantes para nós, outras maiores, que afectam a sociedade, o país ou, até, o mundo.
É importante ter presente que a Economia está ligada ao essencial da vida de cada um. Cada pessoa depende dos outros, do funcionamento da Economia para a maior parte das coisas: alimentação, vestuário, informação. Somos incapazes de produzir as coisas mais básicas: um pão, um fósforo, uma lâmpada, um par de calças, um motor de automóvel. Foi a compreensão desta ideia que deu início à teoria económica.

Introdução
Na verdade, Adam Smith, no seu livro Ensaio sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, descreveu, de forma notável, este facto A forma como ele se maravilhou com a contemplação do que hoje chamamos o «sistema
económico» levou-o a iniciar uma investigação que fez dele o Pai da Economia.
ADAM SMITH (1723-1790)
Escocês de nascimento e professor de Moral da Universidade de Glasgow Smith, particularmente preocupado com a moral social, publicou em 1776 um livo, que pretendia usar como manual nas suas aulas, mas que se tornou rapidamente um scesso de vendas. O Ensaio sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações demonstrava, com múltiplos exemplos, como, naturalmente as relações económicas se ordenavam de forma espontânea, formando um sistema harmónico. O interesse por esta visão foi grande, não só nos salões elegantes mas também nas universidades e meios políticos, nascendo uma ciência para estudar esse sistema e fazendo de Smith o Pai da jovem Economia. Já professor e filósofo de renme, com obras em outros ramos do saber, a sua fama como economista levou-o a nomeação, dois anos depois da publicação do Ensaio, como comissário das Fronteiras da Escócia, onde passou os seus últimos anos.
Esta ideia, tão simples mas tão importante, colocou-a Smith logo no início do seu livro, com a história do casaco de lã, hoje célebre, que demonstra bem o fascínio que motivou Smith:
«... Por exemplo, o casaco de lã que cobre um jornaleiro, por mais grosseiro e tosco que possa parecer, é o produto do labor combinado de grande número de trabalhadores. O pastor, o classificador da lã, o cardador, o tintuteiro, o fiandeiro, o tecelão, o pisoeiro, o curtidor, e muitos outros, têm de reunir’as diferentes artes para que seja possível obter-se mesmo este produto comezinho. E quantos mercadores e carreteiros hão-de, além disso, ter sido empregados no transporte dos materiais de uns desses trabalhadores para os outros, que, muitas vezes, vivem em regiões do país muito distantes! Quanto comércio e quanta navegação especialmente, quantos construtores navais, marinheiros, fabricantes de velas e de cordas terão sido precisos para reunir as diferentes drogas usadas pelo tintureiro, que muitas vezes provêm dos mais remotos cantos do Mundo! E que variedade de trabalho é ainda necessário para produzir as ferramentas do mais ínfimo desses trabalhadores! Para já não falar de máquinas tão complicadas como o navio do marinheiro, a prensa do pisoeiro, ou mesmo o tear do tecelão, consideremos tão-somente a variedade de trabalho requerida para originar essa máquina tão simples, a tesoura com que o pastor tosquia os carneiros. O mineiro, o fabricante da fornalha para fundir o minério, o lenhador, o carvoeiro que produziu o carvão que a fundição utiliza, o fabricante de tijolos, o assentador de tijolos, os operários que trabalham com a fornalha, o operário da fundição, o ferreiro, todos têm de juntar as suas artes para as produzir. Se examinássemos da mesma forma as diferentes partes que compõem o seu vestuário e a mobília da sua casa, a camisa de linho que usa junto à pele, os sapatos que lhe protegem os pés, a cama em que se deita e as várias partes de que se compõe, o fogão de cozinha em que prepara os seus alimentos, o carvão que utiliza para esse fim, arrancado às entranhas da terra

A economia15
e trazido até ele provavelmente depois de uma longa viagem por terra e por mar, todos os outros utensílios da sua cozinha, tudo aquilo que utiliza na sua mesa, as facas e os garfos, os pratos de barro ou de estanho, nos quais serve e divide os seus alimentos, as várias mãos necessárias para produzir o seu pão e a sua cerveja, a vidraça que deixa entrar o calor e a luz e o protege do vento e da chuva, com todo o saber e a arte exigidos pelo fabrico dessa bela e feliz invenção sem a qual dificilmente se poderia proporcionar locais de habitação muito confortáveis nestas zonas frias do mundo, e ainda todas as ferramentas a que os operários empregados na produção de todos esses bens têm de recorrer; se examinarmos todas essas coisas, dizia eu, e considerarmos a variedade de actividades incorporada em cada uma delas, tornar-se-nos-á claro que, sem a ajuda e cooperação de muitos milhares, as necessidades do cidadão mais ínfimo de um país civilizado não poderiam ser satisfeitas, nem mesmo de acordo com aquilo que nós muito falsamente imaginamos ser a forma simples e fácil como elas são habitualmente satisfeitas. Na verdade, comparadas ao mais extravagante luxo dos grandes, as suas necessidades parecem, sem dúvida, extremamente simples e chãs; e, no entanto, talvez seja verdade que a satisfação das necessidades de um príncipe europeu não excede tanto a de um camponês industrioso e frugal, como a deste excede a de muitos reis africanos, senhores absolutos da vida e da liberdade de dez mil selvagens nus.» [Smith (1776), vol. i, págs. 89-91.]
Foi a compreensão do facto de que esta realidade, tão complexa e intrincada na aparência, funcionava de forma tão regular e coordenada, sem que ninguém dela cuidasse, que deu origem ao estudo da Economia. E Smith sublinhava não só que a complexidade do sistema não impedia uma eficiência nos resultados, como também levava a que as suas diferenças internas, embora importantes, fossem muito pequenas em comparação com as diferenças que o separavam dos outros sistemas (a distância de nível de vida entre o prncipe e o jornaleiro é muito menor que a que separa o jornaleiro do rei indígena, na expressão datada de Smith). A harmonia do sistema económico moderno não residia só na eficiência do seu funcionamento, mas também na redução das diferenças entre as pessoas, embora ainda grandes.
Esta maravilha fascinou Adam Smith e justificou um estudo que ele iniciou:
a Teoria Económica. É importante notar que esta descoberta fez-se quase na altura em que Lavoisier na Química, Newton na Física, Mendel na Biologia e tantos outros, encontravam a mesma harmonia nos vários aspectos da Natureza. A descoberta de Smith, porém, parecia ainda mais extraordinária que as outras, porquanto esta harmonia saía do resultado de múltiplas acções voluntárias e independentes, por parte de seres racionais. Não se tratava de encontrar leis naturais, onde o instinto ou outras forças profundas prendessem a realidade nessa harmonia. Era o encontrar dessa ordem na própria acção humana.
Como se consegue esta maravilhosa harmonia? A Economia baseia-se na troca. Na verdade, se cada um de nós tivesse de produzir tudo o que precisa e consome, da comida aos talheres, dos transportes ao mobiliário, não lhe seria possível possuir um décimo do que consome.
Mas, no fundo, cada família produz o que consome. Na verdade, ela não produz cada uma das coisas que utiliza, mas produz uma coisa, que troca pelas

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16Introduço
outras. Um engenheiro, um barbeiro, um agricultor, só exercem uma actividade, a qual lhes serve, a eles e aos outros, para muito pouco. Mas, ao vender o produto da sua actividade, pode trocar por aquilo que pretende e essa troca dá-lhe acesso a muito mais coisas. Nós não produzimos directamente as coisas que consumimos. Só temos o que consumimos por troca. Este, como veremos, é um dos princípios essenciais da Economia.
A troca está na base da nossa economia e, se ela falhasse, o nível de vida das sociedades desceria muito, mesmo que cada um continuasse a produzir o que produz. Vemos isso claramente quando por razões várias (guerras, revoluções, catástrofes naturais) algumas sociedades vêem o seu sistema de trocas deixar de funcionar. O sofrimento e a morte que esse facto provoca são consequências patentes da interrupção do funcionamento do sistema económico.
Destas reflexes sai a primeira grande conclusão da nossa análise: o grande poder da Economia. Ela estuda factos e fenómenos que são essenciais à vida concreta das pessoas e sociedades de sempre. As suas análises podem induzir ou prevenir enormes catástrofes pessoais ou sociais. Os temas que vamos tratar, por muito abstractos que pareçam, estão ligados directamente a questes de que depende a prosperidade e o desenvolvimento do Mundo ou a fome de gerações e. o desemprego de milhões.
II) A ECONOMIA É UMA CIÊNCIA
Estes problemas tão importantes e cruciais para a vida real das pessoas podem ser analisados de muitas formas diferentes. Visto que se trata de questões tão centrais para a vida de cada um, é normal que todos se preocupem em ter opiniões sobre elas. De entre todas essas formas de discutir ou analisar os fenómenos económicos, este livro vai debruçar-se apenas sobre uma delas: a abordagem científica.
Na verdade, vamos aqui apenas tratar do que se chama a Ciência ou a Teoria Económica, que exige conhecimento rigoroso, sistemático dessa realidade. Vamos, assim, olhar para esses factos reais de forma a respeitar as regras que a ciência impõe. Tais regras têm como principal objectivo garantir que, nessa análise, náo somos enganados por aparências, confusões, ideias feitas. Ao enveredar por um estudo científico, temos de pôr de lado muitas ideias simples e atractivas que a forma comum, descuidada e natural, de olhar para as coisas nos leva a acreditar.
A obediência a essas regras não se faz sem custos. Outras formas, não científicas, de ver a realidade permitem chegar mais facilmente a conclusões muito mais interessantes. Só que essas ideias feitas, do «senso comum», são muitas vezes puramente falsas. É fácil que toda a gente esteja plenamente convencida de algo que é completamente errado. Por exemplo, no século xv todo o mundo, especialistas e leigos, acreditou durante décadas na existência do Mar Tenebroso, onde viviam monstros que destruíam os navios. Quem afirmasse o contrário seria apelidado de louco. Foi a experiência directa, científica,
c. c n.
BIBlO- v , ”i

A economia17
dos Portugueses que eliminou esse mito. Muitas vezes o que parece não é.
Esta situação é o dia-a-dia das análises económicas. Os discursos de políticos, as notícias de jornais, as conversas de café estão cheios de ideias simples, atraentes, que parecem certezas indiscutíveis e que apenas denotam ignorância dos verdadeiros resultados rigorosos e científicos.
A única forma que o ser humano (excepto se possui poderes mágicos) tem para evitar isto é, pois, através da análise científica, do estudo sistemático e rigoroso dos problemas. É isto que aqui vamos fazer.
Como veremos, a Ciência Económica é composta por alguns princípios, poucos, muito simples, que devem ser sempre aplicados com inteligência. Desde que aplicados sempre, ninguém se engana. Se não o forem, como por vezes não são, dá erro.
Aliás, esta é uma característica muito importante que, ao longo da história da ciência, se tem notado em quase todas as «boas» teorias ou doutrinas:
— em primeiro lugar, a teoria baseia-se em poucos princípios, muito simples e de aplicação geral;
— por outro lado, a aplicação desses princípios a cada caso particular exige um estudo detalhado da situação concreta.
Em contrapartida, as más teorias baseiam-se em princípios complexos, vastos, complicados e confusos, mas de onde os seus proponentes tiram receitas simples, supostamente globais, que se aplicam, de forma cega, a qualquer caso.
A Economia pertence claramente ao primeiro grupo. Como disse Milton Friedman, um grande economista ainda vivo:
«[A Economia] é uma disciplina fascinante. O que a faz mais fascinante é que os seus princípios fundamentais são tão simples que podem ser escritos numa página, que qualquer pessoa os pode entender, e que, no entanto, tão poucos o fazem.»1
Mas, se os princípios essenciais são de aplicação geral, a sua concretização em cada caso gera resultados, prescrições completamente diferentes de situação para situação. Em Economia cada caso é um caso e não existem, como tantas vezes se observa nas propostas políticas reais, receitas de uso geral.
Esta ideia, essencial para qualquer tratamento da política económica, é captada de forma muito particular por um dos mais célebres mottos do grande Alfred Marshall:
«A multiplicidade na unidadee a unidade na multiplicidade.»2
Nela, o mestre queria significar que, em Economia, é necessário encontrar as muitas causas de cada fenómeno, mas também procurar as muitas situações em que a mesma causa aparece.
Daqui sai a segunda conclusão da nossa introdução: poucos são os que procuram ter dos problemas económicos uma visão rigorosa e científica. É importante ter consciência de que a maior parte das ideias comuns sobre Economia não passaram pelo crivo científico e, por isso, podem estar erradas. Daqui sai a importância de garantir um estudo rigoroso dessa realidade e da sua divulgação.
Friedman, in Breit Spencer (ed.) (1986), p. 91.

2 The many in the one, and the one in the many, Marshall (1919), p.v. 5.6.




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