Camille Flammarion a morte e o seu Mistério



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Camille Flammarion
A Morte e o seu Mistério
(obra em 3 volumes)



Volume 2

Durante a Morte





John Constable

Carro de feno

Conteúdo resumido
Editada em três volumes, A Morte e o seu Mistério é um extenso e precioso repositório de narrações sobre fenômenos extrafísicos, expostos e comentados por Camille Flammarion com o rigor da metodologia científica.

Conforme as próprias palavras do autor, a obra visa demonstrar por fatos de observação, fora de toda crença religiosa e em completa e imparcial liberdade de julgamento, a existência da alma, a sua independência do organismo corpóreo e a sua sobrevivência à desagregação deste último.

Em síntese, são abordados neste trabalho os seguintes temas:


  • o 1º volume, “Antes da Morte”, prova que a alma existe e independe do corpo carnal;

  • o 2º volume, “Durante a Morte”, demonstra a veracidade do aparecimento de fantasmas dos vivos, as aparições e manifestações de moribundos e os fenômenos de premonição;

  • o 3º volume, “Depois da Morte”, oferece-nos a certeza da sobrevivência da alma após a morte, sua existência num outro plano e a possibilidade de se comunicar com os Espíritos encarnados.

Estas duas obras: “A Morte e o seu Mistério”, juntamente com “O Desconhecido e os Problemas Psíquicos”, escrita anteriormente pelo mesmo autor, formam a maior coleção de casos de fenômenos psíquicos já reunidos em obra literária, nos últimos séculos. Daí a sua grande importância como documentos históricos para as ciências psíquicas e, em decorrência, para as pesquisas sobre os fenômenos mediúnicos.

– – 0 – –


“Ninguém sabe o que é a morte nem se ela será o maior dos benefícios para o homem. Apesar disso, tememo-la como se fora o pior de todos os males.

Atenienses, acabais de me condenar à morte. A voz divina, que nunca deixou de fazer-se ouvir por mim durante todo o curso da minha vida, manteve-se hoje silenciosa, e eu não me defendi das vossas acusações. É porque o que me sucede é um bem.

Vou sofrer a sorte a que vós me condenastes; mas a iniqüidade e a infâmia ficarão para sempre amarradas à memória dos meus juízes. Submeto-me à minha condenação e eles à sua. É deste modo que as coisas devem passar-se e, no meu entender, tudo acontece para melhor.

Quando a morte se aproxima do homem, o que nele existe de mortal desagrega-se; o que nele há de imortal e de incorruptível retira-se intacto.”



Sócrates
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Sumário


Capítulo I

Os fatos expostos no primeiro volume


provam irrefutavelmente a existência da alma? 6

Capítulo II

Os “duplos” de vivos 34

Capítulo III

O pensamento produtor de
imagens projetadas a distância

– As aparições de vivos. – Mortos que aparecem


vestidos como quando viviam. – Cinematografia
psíquica. – Transmissões telepáticas sensoriais. 80

Capítulo IV

As aparições de moribundos
algum tempo antes da morte 105

Capítulo V

As manifestações de moribundos
algum tempo antes da morte
(diferentes das aparições) 125

Capítulo VI

Vistas de cenas de moribundos e de mortos
a distância. – Audições da mesma ordem 149

Capítulo VII

Advertências diversas a precederem a morte ou a anunciá-la

– Previsões pessoais de mortes em datas fixas.


– Sonhos premonitórios associados a aparições.
– Visões singulares. – Intersinais. – Advertências
de acidentes que parecem feitas por seres invisíveis. 177

Capítulo VIII

Sensações mentais, a distância, de mortes
ou de acidentes (sem fenômenos físicos) 212

Capítulo IX

Mortes anunciadas por barulhos, pancadas,
ruídos inexplicáveis e fenômenos físicos

– A eletricidade e a faísca 238

Capítulo X

Entre a vida e a morte

– Fatos intermediários, em que os vivos
podem estar ainda em ação. – Moribundos
que vêm dizer: “vou partir” ou “estou morto”.
– Chamamentos telepáticos no momento da partida. 268

Capítulo XI

As manifestações de moribundos no momento da morte
(além das aparições) 288

Capítulo XII

As aparições de moribundos no momento da morte 327




Capítulo I

Os fatos expostos no primeiro volume


provam irrefutavelmente a existência da alma?


Tenhamos olhos para ver, espírito para julgar.”

As exigências do método experimental são a sua força. Quanto mais severos formos na aceitação e na interpretação dos fatos, mais solidamente estabeleceremos a nossa demonstração. Antes de irmos mais longe, não deixemos nenhuma dúvida atrás de nós e verifiquemos se é absolutamente certo que as quatrocentas páginas precedentes provam a existência da alma como entidade independente do corpo e se as faculdades supranormais de que assinalamos as manifestações (pressentimentos, a visão do futuro, a vontade atuando sem o auxílio da palavra e sem nenhum sinal, telepatia, vista a distância, ação do espírito fora dos sentidos físicos) não poderiam, em rigor, atribuir-se a propriedades desconhecidas do nosso organismo vital. O homem conhece-se inteiramente a si mesmo? Completou-se a sua evolução? Essas faculdades psíquicas transcendentes não poderiam pertencer ao cérebro?

Tudo devemos estudar com livre exame, com inteira liberdade de consciência, sem nenhuma idéia preconcebida, sem peias de qualquer sistema.

Os fatos seguintes demonstrarão, à saciedade, a verdade da nossa tese pelas manifestações observadas durante a morte e depois da morte. Mas parece-me útil responder sem demora a algumas objeções possíveis.

Eis em primeiro lugar a inicial, a do valor contestável do testemunho humano: temos evidenciado mais de uma vez a frouxidão científica desses testemunhos e sabemos que o nosso dever é desconfiar deles constantemente. São incertos, variam com o tempo e não se harmonizam mesmo com os acontecimentos atuais em que a unanimidade devia ser habitual. Vê-se mal. Cada pessoa vê com seus olhos e com seu espírito (mesmo nas observações astronômicas, tão exatas; é o que se chama a equação pessoal). Os relatos das testemunhas de um mesmo fato variam entre si e, por outro lado, as recordações modificam-se facilmente, admitindo-se perfeita boa fé e sinceridade absoluta – o que nem sempre acontece. Reconhecemos também que em nossa singular espécie humana se encontram inconscientes e farsistas desprovidos de todo o escrúpulo, de todo o sentimento de honra ou de simples honestidade. Temos de guardar constantemente extrema circunspecção. Mas, daí a recusar tudo, a tudo negar, há um abismo que os negativistas intransigentes não parecem medir.

Apesar da reconhecida incerteza dos testemunhos históricos, parece bem difícil duvidar de que o Rei Henrique IV tivesse sido apunhalado em Paris, a 14 de maio de 1610, na rua da Ferronnerie, por um indivíduo chamado Ravaillac; de que o Rei Luís XIV houvesse revogado o édito de Nantes, empobrecendo a França de cidadãos excelentes; de que o corpo de Napoleão repouse hoje num sarcófago de mármore sob a cúpula dos Inválidos e de que certos exércitos se hajam entrechocado nas regiões de Este, de 3 de agosto de 1914 a 11 de novembro de 1918. Podemos todos convir, ao que parece, sem nos comprometermos muito, em que Luís XVI foi guilhotinado.

Certos homens não podem formar uma opinião franca. Teriam até medo de se expor a um desaire, afirmando que o óleo de rícino é purgativo.

Há limites para o cepticismo e para a incredulidade. As argúcias e os sofismas da mais sutil dialética não impedem que os fatos existam.

Por outra parte, objeta-se, às vezes, que as narrações extraordinárias, de que aqui se discute o valor e o alcance, são mais depressa assinaladas pelas pessoas vulgares do que pelos sábios acostumados aos rigores do método experimental. Que há nisto de surpreendente? Não será a imensa maioria da espécie humana composta de triviais ignorantes? Poder-se-á contar, entre mil pessoas, um espírito científico? Existirão, em França, quarenta mil desses espíritos e um milhão e seiscentos mil em todo o globo? Admitamo-lo. São poucos os pensadores na nossa Humanidade atual. O que nela mais há são comerciantes!... Pois bem, não será esta proporção comparável à das observações psíquicas?

Infelizmente, em geral, as pessoas que pertencem às classes superiores da sociedade – sábios, eruditos, artistas, escritores, magistrados, sacerdotes, médicos, etc. – mantêm-se em discreta reserva, como se tivessem medo de falar. Não são completamente livres, têm interesses a salvaguardar e calam-se, ao passo que os outros falam. Essa pusilanimidade, essa cobardia, são absolutamente desprezíveis. De que é que se tem medo? Negar os fatos, por ignorância, é desculpável. Mas, não ter a coragem de confessar o que se viu, que miséria!

Há mais criminosos além dos que estão presos: são os homens cultos que conhecem as verdades e não ousam revelá-las por temerem o ridículo ou por interesse pessoal. Tenho encontrado, durante a minha carreira, mais de um desses “homens de ciência”, muito inteligentes, muito instruídos, que foram testemunhas ou tiveram conhecimento de fatos metafísicos irrecusáveis, que não duvidam da existência inegável desses fenômenos, mas não têm a coragem de o dizer, por um sentimento de mesquinhez imperdoável nos espíritos de real valor, ou que cochicham misteriosamente, com medo de serem ouvidos os seus depoimentos, que seriam de considerável peso para a vitória da verdade.

Tais homens são indignos do nome de sábios. Muitos pertencem ao que se chama “alta sociedade” e receiam desacreditar-se, mostrando-se crédulos, embora creiam, entretanto, em dogmas muito discutíveis. Poderia escrever aqui o nome de um membro do Instituto, de verdadeiro mérito científico, que seria uma testemunha competente sobre os fenômenos metafísicos estudados nesta obra, mas que não quer e nada ousa confessar, porque é católico praticante e porque o seu diretor espiritual lhe declarou que se deve deixar à autoridade da Igreja o domínio dessas questões.

Uma parte do clero é hostil a tal gênero de estudos e entende que a Igreja deve conservar o seu monopólio. Essa opinião data dos tempos bíblicos. A evocação dos mortos era formalmente proibida aos hebreus e Saul infringiu seus próprios decretos, indo consultar a pitonisa de Endor e convocar a sombra do profeta Samuel. Talvez se justifique essa proibição ao vulgo incompetente, que pode facilmente propender para as mais funestas tolices; mas impedir, em nosso tempo, as pessoas instruídas, refletidas, ponderadas, de estudarem tais problemas, dizer-lhes que Deus lhes não concedeu a inteligência para que se servissem dela e que devem humilhar a razão perante as afirmações de uma revelação divina contestável, pretender que a questão da natureza da alma e da sua sobrevivência, que tanto interessa, pessoalmente, a cada um de nós, está reservada para uma casta de casuístas que se arrogam o direito de julgar e de decidir entre o verdadeiro e o falso, entre Deus e o diabo, representa realmente estranho raciocínio e um anacronismo que nos reconduz à Idade Média. Quantos crimes não cometeu a Inquisição nos seus numerosos processos de bruxaria! Nas idéias atuais que dominam ainda certa classe de homens e de mulheres há um erro formidável, extremamente prejudicial à investigação da verdade – erro tanto mais inexplicável quanto é certo que os fenômenos de que nos ocupamos apóiam as narrativas dos “Livros Santos”, entre outras, as das aparições de Jesus, desconhecidas ou negadas pelas nove décimas partes do gênero humano.

Essa aberração indesculpável relembra aos astrônomos a interdição feita, no século XVIII (a 21 de janeiro de 1759), pelo diretor do Observatório da Marinha, Delisle, ao seu astrônomo adjunto, Messier, de revelar a descoberta, que acabava de fazer, da volta do cometa de Halley. Esse escândalo científico impedia a averiguação da realidade da atração newtoniana.

Proibir que sejam divulgados os fatos úteis ao progresso dos conhecimentos humanos! Não será isto um autêntico crime?

É, contudo, incontestável que determinado número de testemunhas dos fenômenos de que nos estamos ocupando mantêm obstinado silêncio acerca das suas experiências individuais. Obedecem uns a uma palavra de ordem, temem outros a ironia dos conhecidos, julgam ainda outros que a sua dignidade se comprometeria, muitos por simples timidez ou por censurável indiferença.

Poderemos, sem dúvida, reconhecer que as personalidades que desempenham cargos oficiais não são, geralmente, independentes ou porque para conquistar tais situações tenham de ser dotadas de caracteres particularmente submissos para com seus superiores, timoratos ao menor alarme e assaz egoístas para não perderem nunca de vista os seus menores interesses pessoais e pondo tais interesses acima de tudo; ou porque, tendo conquistado esses cargos, procuram não os expor a qualquer perigo, pelo mais leve rasgão nas idéias reinantes, sacrificando tudo a esses propósitos – mesmo as suas próprias convicções, algumas vezes; ou, enfim, porque a comédia humana, celebrada por Balzac, e a hipocrisia, fustigada por Molière, imperem mais extensamente do que as pessoas ingênuas supõem. Seja como for, essas causas dominadoras estrangulam toda a liberdade.

Não há regra sem exceção. Existem personalidades oficiais independentes. Por outro lado, admitimos perfeitamente que o silêncio se impõe, em certos casos: dolorosos e profundos lutos de família, mortes trágicas, situações críticas, desgostos pessoais que nenhuma indiscrição tem o direito de contrariar. Esses casos particulares são altamente respeitáveis. Mas não ousar afirmar, sem razão plausível, uma observação científica de alguma importância, não se ter a coragem de dizer em que localidade tal observação se fez, não indicar senão as iniciais da cidade, assinar X ou Y em vez de um nome honrado, será diminuir o valor da observação relatada. Pedir-se-nos para que não divulguemos nomes é admissível em certos casos; mas, que justificará as revelações anônimas?

A objeção assinalada em outro lugar de que as comunicações de fatos anormais extraordinários, premonições, advertências de morte, aparições, etc., são na sua maior parte transmitidas por criaturas sem importância e não por homens de ciência de alto valor pessoal, não tem fundamento. Primeiro, basta muitas vezes a simples observação para que se comprove um fato, como por exemplo a queda de um aerólito ou uma faísca, um tremor de terra. Além disso, como já notamos, tanto para as narrações de que se trata como para a mentalidade geral, a proporção é sensivelmente a mesma. Notam-se, entre os observadores, entidades de valor: os nomes de Emmanuel Kant, de Goethe, de Schopenhauer, de William Crookes, de Russel Wallace, de Oliver Lodge, de Charles Richet, de Curie, de d’Arsonval, de De Rochas, de Edisson, de Victor Hugo, de Victorien Sardou, de Lombroso, de William James e outros, não representam quantidades desdenháveis; há observadores de todas as categorias.

* * *

A objeção derivada da incerteza dos testemunhos humanos está, ao que me parece, inteiramente eliminada pelos raciocínios precedentes. Podemos – e devemos – admitir esses fatos como reais, suficientemente verificados, irrecusáveis, depois de havermos tomado em linha de conta todos os erros possíveis, de qualquer natureza que sejam, não excetuando mesmo as fraudes – mais estudadas por mim do que por todos os dissidentes. Chegamos agora à discussão fundamental das hipóteses explicativas, a fim de esclarecer inteiramente a nossa convicção nas faculdades intrínsecas da alma e na sua existência independente do corpo. Esses fenômenos que se nos antolham tão extraordinários não poderiam ter uma causa física? Todas essas manifestações de forças estranhas, das quais muitas parecem atribuíveis a um espírito distinto do nosso organismo ou muitas vezes mesmo a espíritos exteriores, não poderiam ter por origem os nossos próprios cérebros? O homem conhece-se a si mesmo?

Não! Ignora-se; ele nunca avaliou o reservatório de energias, de forças desconhecidas que possui no seu ser. A Biologia detém-se à superfície, nas manifestações aparentes, e os fisiologistas confessam que não analisaram senão incompletamente certas peças da nossa máquina humana, sobretudo no que toca ao funcionamento dos centros nervosos.

Quando recapitulamos diante dos nossos olhos as descobertas devidas ao gênio criador – a invenção do telescópio, o microscópio, os aparelhos acionados pelo vapor, as aplicações da eletricidade, a fotografia terrestre e celeste, a análise espectral, a navegação aérea, o telégrafo elétrico, o telefone, o fonógrafo, o cinematógrafo, a telegrafia sem fios, etc. –, não podemos deixar de admirar a potência do espírito humano e de pensar que essas faculdades não foram ainda inteiramente exploradas.

Muito recentemente ainda (maio de 1920) ouvi ao detector de um posto receptor de telegrafia sem fios, no meu observatório de Juvisy, os estalidos secos, sucessivos, rápidos, produzidos pelas descargas elétricas de uma tempestade longínqua. De repente, deliciosa melodia substituiu esses sons monótonos. Primeiro foi uma sonata executada ao piano; depois foi toda uma orquestra que encantou o meu ouvido. Ninguém tocava, na vizinhança, qualquer instrumento; era um concerto celeste evocando as suaves harmonias da música dos anjos bíblicos... cujos executantes se encontravam em Londres, diante de um posto transmissor de radiotelefonia, e os espectadores em Roma, no posto auditor. Assim voava muito para lá da França esse concerto de além-Mancha destinado à Cidade Eterna!...

Se o nosso ouvido fosse dotado das propriedades do aparelho receptor de um posto radiotelefônico, perceberíamos essas vozes do espaço, essas músicas etéreas que vão fazer-se ouvir a centenas, a milhares de quilômetros. Se os nossos olhos fossem constituídos como a placa fotográfica, veríamos as irradiações para as quais o nosso nervo óptico se conserva insensível. O mundo seria para nós muito diverso do que é. Se possuíssemos todas as faculdades supranormais, particularmente desenvolvidas em certos seres, as forças desconhecidas de que nos ocupamos neste lugar pareceriam naturais e teríamos outra compreensão do Universo e da vida.

Estas observações induzem-nos a pensar que vivemos no seio de um mundo invisível, no qual andamos mergulhados como cegos em pleno sol ou como surdos a aplicarem o ouvido atrofiado às harmonias de um Beethoven ou de um Mozart: a cegueira do cego não obsta a que o Sol brilhe, assim como a enfermidade do surdo não modifica, seja no que for, a beleza de uma sinfonia musical.

Desde que verificamos todos esses progressos da Ciência, não podemos impedir-nos de vê-los continuar de futuro. Se está provado, por exemplo, que um moribundo, nos Estados Unidos ou na China, anuncia a sua morte a um amigo que vive na França ou na Inglaterra, e que um morto vem revelar-nos em que condições faleceu, como havemos de recusar-nos a pensar na evolução gradual dos conhecimentos humanos e de perguntarmos a nós mesmos até onde chegarão, no porvir, as conquistas mentais do habitante da Terra?

Até que ponto irá o homem no seu progresso?

Não se conseguiu já, não só falar a distância, mas ainda escrever, desenhar e telegrafar um retrato?

Quando eu publiquei o meu livro O Fim do Mundo (1898), alguns críticos ignorantes dos meus estudos classificaram de puramente imaginárias as figuras de páginas 273, 307 e 367 que representam: a primeira, um habitante de Paris vendo, do seu leito, uma “bayadera” dançando em Ceilão, num cinema improvisado; a segunda, uma aparição devida à transmissão de ondas etéreas; a terceira, Omegar chegando perto de Eva que o havia chamado através da imensidão do oceano. Esse progresso foi realizado gradualmente como foram também realizadas as aeronaves da primeira página. Tudo acontece.

Ante essa potência do espírito humano, seria lícito sustentar que os fatos transcendentes que constituem o objeto dos nossos estudos metafísicos podem ser devidos, em parte, a faculdades cerebrais ainda ignoradas. Examinemos essa objeção de perto e sem qualquer idéia preconcebida. A questão estabelece-se claramente assim: os fatos observados devem ser atribuídos a faculdades conhecidas ou desconhecidas de um aparelho cerebral tão poderoso como se imagina? Analisemos, dissequemos um dos exemplos apresentados no primeiro volume desta obra: seja, ao acaso, o da página 355:

“A 27 de junho de 1894, pelas 9 horas da manhã, o Dr. Gallet, então estudante de Medicina em Lião, trabalhava no seu quarto, em companhia de um companheiro de estudos, o Dr. Varay, para o primeiro exame de doutorado, e, muito absorvido no seu trabalho, foi distraído imperiosamente por inquietante voz interior que lhe repetia estas palavras: “O Sr. Casimiro Périer foi eleito Presidente da República por 451 votos”.

O estudante escreve a frase num papel que passa ao companheiro, lamentando-se da obsessão. Varay lê, encolhe os ombros, ante a insistência do amigo que acredita numa premonição real, e pede-lhe muito asperamente que o deixe estudar em paz.

Depois do almoço, os dois companheiros encontram-se com dois outros estudantes, o Sr. Bouchet, atualmente médico na Alta Sabóia, e o Sr. Deborne, ao presente farmacêutico em Thonon, e os três camaradas riem de semelhante profecia, pois que os candidatos prováveis à presidência eram os Srs. Brisson e Dupuy.

A eleição realizava-se em Versalhes, nesse mesmo dia, pelas 2 horas.

Ora, no momento em que os estudantes lioneses tomavam refrescos na terrasse de um café, passavam os vendedores de jornais, a gritarem: “O Sr. Casimiro Périer foi eleito Presidente da República por 451 votos!”

Os cépticos mais renitentes não ousarão contestar este fato de premonição precisa, cinco horas antes de o acontecimento ter ocorrido, atendendo a que foi confirmado por um atestado de três testemunhas. Não ver nisso mais do que fortuita coincidência é inadmissível.

Se se tratasse de um cálculo, poder-se-ia afirmar que nada havia de maravilhoso em se ter acertado, como no cálculo dos grãos de trigo contidos numa medida de litro; mas trata-se, neste caso, de uma voz interior espontânea. E o algarismo?

A questão que se apresenta é a de saber se nos é dado atribuir essa adivinhação do futuro ao cérebro, a faculdades cerebrais fisiológicas, ou se somos levados a procurar, seja no homem ou fora dele, a ação de um elemento psíquico diferente do organismo material. Não se resolverá tal questão por si mesma?

Atribuir a um agrupamento de moléculas materiais, a uma ação química, mecânica, de um formigueiro qualquer de átomos, a faculdade de ver o que ainda não existe, o que acontecerá depois de muitas horas, muitos dias, muitas semanas, muitos meses, muitos anos, é pura hipótese, que não se apóia em nenhuma base científica. Além disso, é hipótese absurda em si mesma. À força de se querer fazer ciência prática, cai-se na aberração, deixa-se de raciocinar logicamente.

A única evasiva, no caso da premonição que acabamos de relatar, seria supor uma coincidência fortuita: 1º- para o nome inesperado; 2º- para o algarismo. A rigor, embora haja milhões de probabilidades a apostar contra uma, isso não é talvez absolutamente impossível.

Mas, então, teremos o fato assinalado em seguimento do precedente: o Sr. Vicente Sassaróli anunciando, com muitos dias de antecipação, a derrocada de uma casa que os arquitetos consideravam muito sólida, e fazendo fugir os seus habitantes precisamente no momento da catástrofe. Aqui, seguramente, o acaso não pode ser invocado. Procurar-se-á uma outra “hipótese”, supor-se-á que o profeta era dotado da faculdade dos animais que pressentem os tremores de terra; mas esta hipótese é insustentável; não se trata de fenômeno cósmico, mas de prédio particular. Os nossos contraditores decididos preferem aceitar hipóteses inverossímeis a admitir a simples realidade.

E a criada de Schopenhauer, vendo, em sonho, com cinco ou seis horas de antecedência, o tinteiro entornado e a tinta a correr da secretária para o soalho? Atribuir essa visão premonitória ao cérebro da serva do filósofo não será o cúmulo?

E a criança de Edimburgo, folgazã encantadora, vendo-se de repente num caixão forrado de cetim branco e rodeada de flores, fato que aconteceu oito dias depois?

E a jovem Princesa de Radziwill recusando-se sempre, desde a infância, a passar por uma porta do salão sob a qual foi esmagada quando se celebrava a festa dos seus esponsais?

E a Srta. Noell, de Montpellier, aparecendo a seu irmão no dia seguinte ao da sua morte e noticiando-lhe? Os meus leitores leram essa dramática narrativa em O Desconhecido e os Problemas Psíquicos; mais adiante voltarei a referir-me a ela.

No próprio caso da Sra. Constans, negando-se obstinadamente a tomar o medicamento que a teria vitimado – em que poderíamos imaginar uma adivinhação misteriosa do organismo – sentimos que há também uma causa subliminal.

E cem outras observações do mesmo gênero!

Os pressentimentos são, por vezes, de tal precisão que certos psicólogos pensam que a alma humana, reduzida às suas únicas forças, não é capaz de senti-los e que se torna necessário associar-lhe a intervenção de um espírito exterior a ela. Esses analistas levam as conseqüências espiritualistas ainda mais longe do que eu tenho feito até aqui.

Que nisto o cérebro entre em jogo, muito bem; mas ele não é mais do que o instrumento. A locomotiva não se moveria sem o maquinista. O aparelho elétrico não é o telegrafista. O telefone não é a pessoa que faz a chamada. A câmara escura não é o fotógrafo.

Há ainda um outro aspecto do homem, de que não falei até agora e sobre o qual nada tenho que dizer aqui: o caráter moral. Como é que combinações de moléculas químicas poderiam produzir a bondade, a devoção, o amor do bem, a honestidade, a probidade, a virtude, o sentimento do sacrifício, o espírito de justiça, a paixão da verdade e todas as faculdades espirituais que constituem o domínio moral da Humanidade? As faculdades da alma são tão diferentes como os indivíduos; mas existe uma semelhança comum entre todas as almas: a consciência, para condenar o mal e louvar o bem. Além do lado espírito da alma, há também o lado moral, que constitui o próprio fundo da psique humana. Como ver nisso uma função da matéria cerebral?

Não! O homem não é apenas o organismo físico que os fisiologistas têm explicado até hoje. É mais complexo. Que será ele, na sua totalidade? É o que, nestes estudos, pretendo apurar.

Todavia, certas personalidades supostamente científicas não querem largar a presa, não aceitam sob nenhum pretexto as nossas conclusões, por mais lógicas que sejam. Há nisso uma negação sistemática, deplorável em espíritos ponderados. Para todo observador independente, o método positivo mais estrito estabelece com segurança que os fatos supranormais estudados nesta obra não poderão mais ser negados; devem, para o futuro, ser inscritos no domínio, aumentado e transformado, das ciências exatas; não são atribuíveis às funções cerebrais e provam a existência da alma como entidade distinta do organismo corpóreo.



* * *

É indispensável um método científico severo para estabelecer os estudos psíquicos sobre a base positiva e fazê-los entrar no quadro da ciência moderna, continuamente ampliada pelas novas descobertas que, de um quarto de século a esta parte, transformaram o mundo. Mas, quando os fatos, de tão longa data discutidos – e mesmo negados – são demonstrados com clareza, não se explica a persistência do cepticismo que continua a recusar-se a reconhecê-los. Será razoável negação sistemática obstinada?

Crer em tudo é um erro. Não crer em nada será erro também. Não devemos admitir seja o que for sem provas, mas devemos reconhecer lealmente o que se provar.

Confessemos, no entanto, que há temperamentos a tal ponto rebeldes aos estudos especiais de que nos ocupamos neste livro que, apesar de todas as provas imagináveis, jamais acreditam em alguma coisa.

Encontramos muitas vezes, à nossa volta, homens incapazes de ser convencidos, a despeito da evidência das verificações; homens excelentes, de resto, sob outros pontos de vista, instruídos, agradáveis, filantropos, mas de quem os olhos do espírito estão dispostos de forma que não vêem direito à sua frente (os caçadores afirmam que acontece o mesmo com as lebres). Esses olhos têm um prisma diante da retina, em vez do cristalino normal; e tal prisma desvia em alguns graus os raios luminosos, com refrações diversas segundo os tipos. A culpa não é deles. Não somente não querem reconhecer o Sol no meridiano, mas não podem fazê-lo. Opõem-se a isso vários modos de educação: uns, por credulidade cega em certos ensinamentos não inteiramente demonstrados, mas que os satisfazem; outros, por incredulidade não menos cega. Carl du Prel conta em outra parte 1 que um pregador de Viena pronunciou do alto do púlpito estas assombrosas palavras: “Não acreditarei numa sugestão hipnótica senão quando a tiver visto, e não a verei nunca, porque tenho por princípio não assistir jamais a tal gênero de experiências.”

Que lógica! Que magnífico raciocínio!

Os olhos não servem de nada a um cérebro cego, diz um provérbio árabe.

Os negativistas impenitentes, aqueles que de tudo riem, nem sequer suspeitam do prazer que nos causam com as suas dissertações. Encontram-se aí humoristas distintos e finos conversadores que imaginam percorrer estrada realmente dominada pelo seu opulento automóvel, quando a verdade é que rolam sobre pneumáticos que uma pedra basta para esvaziar. Se afirmo com tanta segurança os princípios postos neste livro, é que a minha certeza é absoluta, solidamente escorada pelo exame imparcial e pessoal feito há mais de meio século. Os documentos que publico não representam mais do que mínima parte daqueles que possuo; e todos os dias recebo mais!

O primeiro volume desta obra poderia ser duas, quatro, dez vezes maior do que é, e as páginas que se vão ler deveriam também ser multiplicadas por dez, para conterem tudo. Mas os cegos e os surdos nem por isso perdem a sua cegueira e a sua surdez. É tão elegante sorrir superiormente de tudo!

Ter espírito excessivo é, algumas vezes, prejudicial à simples compreensão das coisas, tais como são. Oh! certamente esta argüição não é de uma extrema freqüência em nossa espécie humana terrestre; mas é aplicável, de quando em quando, a espécimes célebres da Humanidade. Todos os que leram Voltaire foram um pouco chocados pelas suas idéias absurdas sobre os fósseis, pelo seu irreverente poema da virgem d’Orleães e pelos seus gracejos de mau gosto sobre as coisas mais graves. Espírito excessivo, na verdade! O melhor, mesmo, será prejudicial ao bem. Um telescópio seria um mau instrumento, aplicado à vista para se escrever uma carta. Um microscópio seria igualmente mau, diante da vista, para se apreciar uma paisagem. Este provérbio bem conhecido: “há alguém com mais espírito do que Voltaire: é toda gente” justifica-se. O simples bom senso não se deve desdenhar sempre.

O ilustre sábio Henri Poincaré, na sua quintessência de raciocínio metafísico, não deu a entender, certo dia, que duvidava do movimento da Terra? Esse escândalo científico e literário ainda não foi esquecido.

Os escritores reacionários apressaram-se a tirar deduções. Eduardo Drumont, à frente deles, escrevia em La Libre Parole de 9 de janeiro de 1904:

“Não está inteiramente demonstrado que a Terra se mova, como pretendia Galileu, e que ela não seja o centro do sistema planetário. O Sr. H. Poincaré, que é, atualmente, o primeiro dos geômetras físicos franceses, não tem, a esse respeito, um tom afirmativo, e diz: “Assevera-se que a Terra gira e, por minha parte, não vejo nisso inconveniente. É uma hipótese agradável e cômoda, para explicar a formação e a evolução dos mundos, que não pode ser confirmada nem invalidada por nenhuma prova tangível. O espaço absoluto, isto é, o sinal que seria necessário juntar à Terra para saber se, na realidade, ela gira, não tem nenhuma existência objetiva. Daí esta afirmação: “A Terra move-se” não tem qualquer sentido, pois que nenhuma experiência permite fazer a verificação. Estas duas proposições: “A Terra gira” e “é mais cômodo supor que a Terra se move” têm o mesmo sentido; não há numa, para mim, mais do que na outra.”

Numerosos jornais cavalgaram o Pégaso apanhado a laço por Drumont: L’Éclair, La Liberté, etc., de Paris, em muitas folhas da província, sem contar as Croix de todas as dioceses... “Aqueles que afirmam o movimento da Terra nada sabem a esse respeito. Dizem que a Terra gira por pensarem que isso aborrece profundamente os católicos.”

Semelhante demonstração foi um fenômeno muito curioso, no quarto ano do nosso século XX!

Tenho descrito muitas vezes, nos meus livros, os 14 movimentos principais da Terra, e não é este o lugar de os expor. Todavia, os ignorantes e os sectários replicam: Não há 14 movimentos, não há nenhum, nem rotação em 24 horas, nem revolução em 365 dias em torno do Sol, nem transporte para a constelação de Hércules, nem oscilação secular no pólo... nada.

No entanto, toda gente se pode convencer, por exemplo, do primeiro desses movimentos, da rotação diurna, à qual devemos a sucessão do dia e da noite, por um raciocínio de tal forma simples que chega a ser infantil e que resumiremos em algumas linhas:

“Não se pode contestar que vemos diariamente o Sol, a Lua, os planetas, as estrelas, levantarem-se ao oriente, mostrarem-se no céu, chegarem a um ponto culminante, descerem, sumirem-se ao ocidente e reaparecerem, no dia seguinte, no horizonte oriental, depois de terem passado por sob a Terra. Só há duas hipóteses a formular para explicar esta observação universal e perpétua: ou o céu gira de leste para oeste, ou o nosso globo se move sobre si mesmo em sentido contrário. No primeiro caso temos de supor os corpos celestes animados de velocidades proporcionais às suas distâncias. O Sol, por exemplo, está a uma distância de nós igual a 23.000 vezes maior do que a do Equador terrestre, o que dá uma velocidade de 10.695 quilômetros por segundo.

Júpiter está aproximadamente 5 vezes mais distante; a sua velocidade deveria ser de 53.000 quilômetros por segundo.

Netuno, 30 vezes mais longe, teria de percorrer 320.000 quilômetros por segundo.

A estrela próxima, Alfa do Centauro, situada a uma distância 275.000 vezes superior à do Sol, deveria correr, voar no espaço com a velocidade de 2.941 trilhões de quilômetros por segundo.

Todas as estrelas estão incomparavelmente mais afastadas ainda... até ao infinito. E essa rotação fantástica teria de realizar-se em torno de um ponto minúsculo, em redor do átomo terrestre, mais de um milhão de vezes menor do que o Sol e invisivelmente perdido na imensidade dos mundos!”

Pôr o problema assim é resolvê-lo. A menos que se neguem as medidas astronômicas e as operações geométricas mais concordantes, o movimento de rotação diurna da Terra é uma certeza.

Supor que os astros se movem em torno do nosso globo será supor, na frase de um autor humorístico, que para assar um faisão se teria feito andar à volta dele uma chaminé, uma cozinha, uma casa, uma região inteira.

De resto, o pêndulo de Foucault mostra esse movimento, e o achatamento polar comprova-o. Apesar dessa certeza, vemos escritores continuarem a proclamar dúvidas inexplicáveis. A tal ponto que o sucessor de Poincaré na Academia Francesa, em 1917, o Sr. Capus, pronunciou as seguintes palavras no seu discurso de recepção:

“Eis que, quatro séculos depois de Copérnico, um mestre do saber nota que não existe em parte alguma no espaço um lugar de dentro do qual se possa observar se, na realidade, a Terra se move e que, por conseqüência, esta afirmação: “a Terra gira” não tem sentido algum, pois que nenhuma experiência permitirá jamais verificá-la. Mas a descoberta de Copérnico pode resumir-se nestas palavras: é mais cômodo supor que a Terra gira, porque se exprimem assim as leis da Astronomia numa linguagem mais simples.”

E logo adiante:

“Durante muito tempo o Sol fez-nos crer que era ele que subia no horizonte; depois sugeriu-nos que era talvez a Terra que se movia suavemente para ele, mas, numa e noutra hipótese, não nos deu a medida nem da luz nem do calor. Aceitemos, pois, como a própria condição do nosso destino, a verdade aproximativa e o pouco mais ou menos da observação.”

Tal linguagem proclamada na Academia e, antes, mais digna de uma cena de farsa é de molde a espantar-nos; teria perturbado mais de um espírito se fosse tomada a sério.

A rotação da Terra está arqui-demonstrada; negá-la seria negar toda a astronomia e toda a matemática celeste.

Da mesma forma que a Terra se move, também giram os outros planetas: Marte, em 24 horas e 37 minutos; Saturno, em 10 horas e 14 minutos. Um observador, colocado na Lua, veria o nosso globo realizar a sua rotação diurna, etc.

Poincaré não havia enunciado, a esse respeito, senão dissertação metafísica sobre a “relatividade dos movimentos”; lamentou muito, pessoalmente, os comentários recreativos com que uma parte da imprensa condimentou a sua dissertação.

Esforcei-me por destruir essa lenda, e o ilustre astrônomo a isso me convidou por uma carta explicativa que reproduzo seguidamente e que foi publicada no “Boletim da Sociedade Astronômica de França”, em maio de 1904:

“Meu caro colega:

Começa a irritar-me um pouco todo o barulho que uma parte da imprensa fez em torno de algumas frases respigadas numa das minhas obras, e das opiniões ridículas que me atribui.

Os artigos dos quais essas frases foram tiradas apareceram numa revista de Metafísica; falava aí uma linguagem bem compreensível dos leitores da revista mencionada.

A que mais insistentemente é repetida foi escrita durante uma polêmica com o Sr. Le Roy, de que o incidente principal derivou de uma discussão na Sociedade Filosófica de França. O Sr. Le Roy dissera:

– O fato científico é criado pelo sábio.

E alguém lhe havia retorquido:

– Queira precisar; que entende o senhor por um fato?

– Um fato – respondeu ele – é, por exemplo, a rotação da Terra.

Foi então que veio a réplica:

– Não! Um fato, por definição, é aquilo que pode ser averiguado por experiência direta, é o resultado bruto dessa experiência. Para este critério, a rotação da Terra não é um fato.”

Dizendo “estas duas frases, a Terra gira e é cômodo supor que a Terra se move não têm senão um único sentido”, falei a linguagem da metafísica moderna. Na mesma linguagem diz-se, correntemente: “As duas frases, o mundo exterior existe e é cômodo supor que o mundo exterior existe, têm uma e a mesma significação.”

A rotação da Terra é, pois, certa, precisamente na mesma medida que a existência dos objetos exteriores.

Penso que há aí com que tranqüilizar aqueles que pudessem assustar-se com uma linguagem desacostumada. Pelo que toca às conseqüências que disso quiseram tirar, é inútil mostrar quanto são absurdas. O que eu disse não poderia justificar as perseguições exercidas contra Galileu, primeiro porque ninguém deve jamais perseguir, mesmo por erro, e depois porque, mesmo sob o ponto de vista metafísico, não é falso que a Terra gire, de maneira que Galileu não errou.

Isto não queria dizer também que se pudesse afirmar impunemente que a Terra não se move, quando é certo que a crença nessa rotação é instrumento tão indispensável a todo aquele que pretender pensar cientificamente como o é o caminho de ferro para o que quiser viajar com rapidez.

Quanto às provas dessa rotação, são sobejamente conhecidas para que eu insista nelas. Se a Terra não se movesse sobre si mesma seria preciso admitir que as estrelas descrevem, em vinte e quatro horas, uma circunferência imensa que a luz levaria séculos a percorrer. Os que consideram a metafísica fora da moda depois de Augusto Comte hão de, agora, dizer-me que não pode haver metafísica moderna. Mas a negação de toda a metafísica é ainda uma outra metafísica e é a isso justamente que eu chamo metafísica moderna.

Desculpe essa tagarelice. Todo seu

Poincaré.

Confesso, todavia, que esta carta me não satisfez em absoluto. Nela persiste o cepticismo do filósofo, o que está em contradição com a certeza que nos devem merecer as demonstrações da Astronomia atual. Poincaré pensava, como Berkeley, que não temos a certeza de nada, mesmo da existência da Terra, do Sol e do mundo exterior ao nosso pensamento, que é a única coisa que existe. Sobre esse ponto tive muitas vezes longas discussões com ele. E eis o que me levou a afirmar, anteriormente, que se deve preferir o simples bom senso à quintessência do espírito.



* * *

Reconhecer, simplesmente, a realidade do que a experiência demonstra é tudo quanto pedimos. Que cada um se sirva tranqüilamente da sua razão! Que não se deixe lograr por qualquer ilusão ou sofisma. Que veja o Sol ao meio-dia. Que estude tudo sinceramente, francamente, claramente, conscienciosamente.

Bem considerado isto, porque nos havemos de preocupar com os indiferentes, os negativistas, os incrédulos? O desejo de convencer; o apostolado da verdade; a dita de ser útil, de fazer o bem, de consolar os que sofrem, de espalhar à nossa volta os raios da esperança! Mas aqueles que se encontram contentes, quer pela certeza do tranqüilo nada depois da morte, quer pela crença nos dogmas que satisfazem a sua mentalidade, não têm nenhuma necessidade de levar as suas buscas mais longe. Toda convicção sincera é respeitável. A liberdade de consciência antes de tudo, seja essa consciência, pouco importa, a de um cristão, de um judeu, de um muçulmano, de um budista, de um taoísta, de um teosofista, de um ateu. Cada um por si. Mas, como a conduta da vida é muito diversa, segundo admitam ou não a sobrevivência e a responsabilidade dos nossos atos numa justiça imanente, aquele que sabe que a alma existe e que sobrevive ao corpo considera como dever o ser útil aos seus irmãos.

É justo, todavia, notar que na discussão analítica dos fenômenos físicos a incredulidade encontra por vezes ponto de apoio, mais ou menos sólido.

A admissão desses fatos extraordinários não progride, com efeito, sem suscitar dificuldades e objeções de vários gêneros, para as quais o gesto do avestruz não é suficiente.

Assim, por exemplo, no que concerne à vista pelo espírito, a distância, num compartimento fechado, sob um envelope igualmente fechado, e mesmo no futuro, tais faculdades induzem-nos a inquirir como é que os seres que delas são dotados não se tornam os dominadores do mundo. Não podem jogar sobre todos os valores financeiros, conhecer os segredos de Estado que correm de um extremo a outro do globo, selados nas malas diplomáticas? Não podem igualmente, sem exploradores nem aviões, surpreender os movimentos de tropas numa guerra e determinar com antecipação as batalhas do Marne? Não lhes é possível descobrir os abrigos disfarçados da artilharia, os submarinos destruidores, e mesmo impedir as guerras, revelando os planos concertados pelos potentados? Ser-lhes-á impossível dizer-nos onde encontraremos, ocultos nas entranhas do solo, o carvão, os minérios, o petróleo que nos faltam? Eis o que me perguntou, recentemente, em carta um leitor do primeiro volume desta obra, acrescentando: “Tenho a grande felicidade de ser profundamente espiritualista e de pensar exatamente como o senhor, mas julgo, como o senhor também, que não devemos recuar diante de qualquer problema e que nada haverá mais interessante no mundo do que a investigação da verdade.”

A resposta a essas objeções tão lógicas é que as faculdades de que falamos não se exercem normalmente, à nossa vontade, mas em certas condições indeterminadas e, na maior parte dos casos, espontaneamente. São espécies de inspirações, de situações hipnóticas. Devem comparar-se às criações musicais. Beethoven poderia ter escrito, por encomenda, qualquer das suas admiráveis sinfonias? Acontece o mesmo com os poetas. Concebeis um general ordenando a Beethoven que sonhe a sua sonata Luar, ou a Dante a sua Visão do Paraíso? São jogos de imaginação, criações do espírito. Rouget de Lisle escreveu, referindo-se à Marselhesa: “Respirava a letra com o próprio ar.” Têm-se encomendado algumas vezes poemas para as cerimônias oficiais: obtiveram-se resultados análogos ao do célebre poema de Rostand sobre a recepção da Imperatriz da Rússia no palácio de Compiègne, em que o tapete no qual ela pisa exclama imprevistamente:

Oh! Oh! é uma imperatriz!

Que tapete indiscreto! E que espanto da sua parte! Parece-me que esse acadêmico não foi mais felizmente inspirado do que o sucessor de Henri Poincaré.

As faculdades supranormais não estão às nossas ordens. Exercem-se inconscientemente. Aquele que adivinha o futuro não o sabe. É um tempo presente que ele contempla e que não considera real. Quando o acontecimento ocorre ele verifica a premonição, a vista anterior. Por outro lado, essas previsões não se produzem, mesmo entre os sujets mais aptos, senão raramente na sua vida e quase sempre uma única vez. Por mais incontestável que seja, o fenômeno da vista sem os olhos e do conhecimento do futuro é um fenômeno supranormal. É o inconsciente que atua. Não conhecemos as leis dessa ação.

Os magnetizadores têm por várias vezes obtido vistas a distância, notavelmente precisas, por meio de sonâmbulos, mas é prudente não confiarmos sempre nisso. A tal processo junta-se, em muitos casos, a influência de espíritos exteriores, como nas manifestações espíritas. Tenho diante de mim, neste momento, uma centena de casos intrincados do mesmo gênero. O mais curioso, talvez, é o que foi relatado por Maxwell, da estatueta deslocada por um espírito que dirigiu durante muitos meses as ações do observador estupefato e confiante, e que acabou por arruiná-lo no momento da guerra de 1870, da qual não tinha previsto as conseqüências na Bolsa, embora até esse momento as suas predições fossem de perfeita exatidão.

Em resumo, devem-se empregar, nos estudos metapsíquicos, as mesmas regras racionais que se empregam em todos os ramos da Ciência, e o bom senso moral deve eliminar, para o futuro, a incredulidade que durante tanto tempo se opôs à admissão dos fatos mais nitidamente estabelecidos.

Se insisti bastante sobre o argumento relativo ao movimento da Terra, a respeito de uma indecisão inaceitável, foi porque o conhecimento da posição do nosso planeta no Universo constitui a própria base de toda a Ciência, e que importa julgar os inconvenientes graves, sob o ponto de vista filosófico, das dúvidas não motivadas, funestas à investigação da verdade.

* * *

Uma objeção bem diversa das precedentes foi-me feita a propósito do meu primeiro volume. Certa pessoa, que me pediu lhe ocultasse o nome, dirigiu-me, de um palacete dos arredores do Mons, longa e interessante carta, exprimindo-me os seus pesares pelo que eu disse acerca de Lourdes e da aparição da Santa Virgem, que essa pessoa considera como autêntica. Outras cartas me foram escritas no mesmo sentido; destacarei sobretudo a de um eminente cônego da diocese de Marselha.

Se falei das curas de Lourdes é porque provam a existência da alma, a potência da idéia, da exaltação mental, da fé. Mas é erro pensar que a Igreja Católica tenha o monopólio delas. Há muitas outras no mesmo caso que nada têm de comum com Nossa Senhora de Lourdes, ou de la Salette, e que não são de forma alguma católicas.2

Esta obra não é escrita para os casos religiosos, nem para os fiéis convencidos e satisfeitos de uma religião qualquer, mas para os homens que pensam livremente, querendo julgar as coisas em completa independência de espírito. Ora, será razoável acreditar que a mãe de Jesus-Cristo se ocupa das curas de Lourdes, ou Esculápio das do templo de Epidauro? Pode recusar-se a associação da Sra. P. à visão de Bernadette, apesar da anedota local que imediatamente se espalhou na região, e não admitir senão uma alucinação sem causa objetiva; mas supor uma ação direta da Virgem Maria parece verdadeiramente extravagante.

As religiões (há umas cinqüenta em nosso pequeno globo) não parecem, na maior parte das vezes, paródias da Religião? Como não admitir a existência de um Espírito universal regendo todas as coisas, tanto os átomos como os mundos, tanto a menor planta como o mais pequeno animal, tão magistralmente como os globos do sistema solar, as gêneses de nebulosas, os milhões de sóis da Via-Láctea? A Religião, a crença em um Deus infinito – e desconhecido para nós – impõe-se a toda entidade que pensa.

Respondem-me que as religiões são formas diversas dessa crença geral num Ser supremo, que essas formas estão ao alcance do nosso entendimento, que são úteis para os fracos de espírito, para os preguiçosos, para aqueles que não têm sequer a força de vontade de pensar e que encontram solução fácil dos seus atos nas fórmulas dogmáticas, que vedam toda a investigação e exigindo a submissão passiva ao mistério, sem procurar levantar-lhe o véu, o que seria uma profanação.

Mas as religiões não darão, algum dia, lugar à Religião? Não se aperfeiçoarão elas, tanto as da China como as da Europa?

Será a Humanidade incapaz de formar uma crença racional? As duas ilusões e as superstições serão indispensáveis? Que as formas religiosas sejam úteis sob o ponto de vista social, que ensinem princípios de honestidade, que sejam piedosamente consoladoras de misérias, de injustiças, de lutos, ninguém pode contestá-lo. Mas por que será que certos crentes imaginam que não devem ilustrar-se? Por que a intolerância religiosa de certos sectários que proíbem e condenam a livre busca e que não admitem que se possa raciocinar de maneira diferente da sua? Será justo pensar, no século XX, com a mentalidade do ano mil? Serão necessárias duas religiões, uma para os seres instruídos, capazes de refletir, e outra para o vulgo? Até ao presente essa distinção pareceu necessária. Mas, agora?

Não haverá utilidade em separar as escórias?

O clero do tempo de Joana d’Arc não cometeu um erro em declará-la bruxa e herética e de fazer morrer no suplício de um infame braseiro essa virgem de 19 anos de idade?

Não foi Galileu condenado como herético?... etc. Por que se não há de admitir um progresso nas idéias?

Não insistamos. O lugar não é próprio para isso.

Todos os homens que pensam atravessaram as agonias da dúvida, da incerteza, sucedendo às serenidades da fé infantil. O fundador das investigações psíquicas experimentais, na Inglaterra, Fredrich Myers, fez chegar até nós o eco de uma crise análoga àquela de que falei nas minhas Memórias. A propósito da evolução do seu pensamento, conta o seguinte:

“Educado a Igreja Anglicana, fui um dos membros fiéis, mesmo intransigente, (agressively orthodox, segundo sua própria expressão) até à idade das crises inevitáveis em que, dilacerado entre uma necessidade absoluta de certeza, quanto ao outro mundo, à devoção da fé no dogma tradicional e, de outra parte, às especulações filosóficas, decidi confiar as minhas perplexidades ao professor Sidgwick. Durante um passeio sob um céu estrelado, que jamais olvidarei, perguntei-lhe, quase a tremer, se ele pensava que, em seguida à falência da tradição, da intuição e da metafísica para resolver o enigma do Universo, haveria ainda uma probabilidade para que o estudo de certos fenômenos observáveis da atualidade – fantasmas, espíritos, seja o que for – nos possa fornecer alguns conhecimentos valiosos relativamente ao mundo invisível. Sidgwick pareceu-me ter já meditado nessa possibilidade e, com segurança, revelou-me várias razões que justificavam uma esperança. Data dessa noite a minha resolução de me entregar a tais investigações.” 3

Era a 3 de dezembro de 1869; Myers tinha 26 anos. O fim essencial da sua vida encontrava-se fixado daí para o futuro.

Todos passamos por isso. Mas o caminho de Damasco não é o mesmo para toda a gente.

Um eminente historiador, autor contemporâneo célebre, escrevia-me um dia: “Meu caro amigo, para que há de preocupar-se com as crenças vulgares? Sabe tão bem como eu que elas não se baseiam em nenhuma realidade. Sabe tão bem como eu que Adão e Eva nunca existiram; que o dilúvio não é mais do que uma inundação local exagerada; que jamais as águas subiram até ao cimo do monte Ararat; que as montanhas é que se levantaram. Sabe tão bem como eu que Jesus-Cristo não pode arrojar demônios sobre varas de porcos que se precipitariam no mar. Sabe tão bem como eu que o Papa Alexandre VI e o Cardeal Dubois, arcebispo da Regência, eram ateus e que o anticlerical Voltaire foi o mais convicto dos deístas, etc. Nestes termos, deixe esses crentes tranqüilos nas suas ilusões. Para que há de criar-se inimigos, quando apenas se procura o progresso da instrução geral?”

Sem dúvida. O conselho é ditado por sincera amizade. Mas seria possível estudar o problema da morte sem tocar nas crenças religiosas? Não! Isso é impossível, desde que tal problema é o próprio fundamento da Religião. Respeitemos as crenças, as ilusões, mas esclareçamo-las com novas luzes. O mundo marcha. Ad veritatem per scientiam!



* * *

Os livres investigadores têm diante de si duas espécies de adversários: os crentes, num pólo; os materialistas, noutro pólo. Quando redigia estas linhas, recebi uma longa e sapiente dissertação do meu ilustre amigo Camilo Saint-Saëns, discutindo os meus argumentos, com a convicção de que todos os espiritualistas laboram em erro e nada encontrarão: “Perdoa-me – escrevia-me ele amavelmente –, mas apesar de todos os teus raciocínios, apesar da tua grande autoridade devida ao teu excepcional valor e à tua inteligência fora do comum, não creio na alma. Quanto a Deus, quando vemos o que se passa...”

Esperar convencer toda a gente é uma utopia, confesso-o.

Camilo Saint-Saëns é, seguramente, um dos maiores espíritos do nosso século. Possui instrução sobre todas as coisas, especialmente sobre astronomia, história das religiões, telepatia, premonições, sensações psíquicas, e aponta-me até o seguinte fato pessoal:

“Quando eu apresentei a primeira vez a minha candidatura à Academia das Belas Artes, não fui nomeado. Fiquei bastante contrariado e disse mentalmente, contemplando os leões egípcios que tão extravagantemente ornamentam a fachada do Instituto: – Tornarei a apresentar-me quando os leões se voltarem.

Tempos depois os leões eram voltados!

Respondi a Saint-Saëns: “És o mais encantador dos amigos, o mais poderoso dos músicos, a glória do Instituto, um dos profundos pensadores da nossa época; mas, não és lógico. Como é que um agregado qualquer de moléculas químicas, no teu crânio, poderia segregar essa premonição estranha? Uma idéia não pode ser produzida por um aparelho material. Teu espírito viu um aspecto do futuro, sem prever isso.”

E julgo o meu ilustre amigo tanto mais ilógico quanto, além da premonição de que acabamos de falar – que, de resto, não era mais do que exaltação, mas exaltação do espírito –, foi objeto de outras manifestações de ordem essencialmente psíquica, porque me escrevia também:

“Tive pessoalmente exemplos da telepatia, a presciência do futuro; apontar-te-ei alguns: Nos tempos já distantes em que eu habitava uma casa no alto do bairro Saint-Honoré, trabalhava muito. Ora, quando eu estava completamente absorvido no meu trabalho, acontecia-me, bruscamente, começar a pensar numa pessoa conhecida. Instantes depois – o tempo de atravessar o pátio e subir a escada – alguém tocava à campainha: era a pessoa em quem eu pensara. A princípio, acreditei no acaso; mas à vigésima vez!...

Esse fenômeno durou muitos anos.

Na minha juventude, um pintor meu amigo mostrou-me um quadro que destinava à exposição anual. Nunca tinha exposto e ignorava se o seu trabalho seria admitido. Ao olhar o mesmo quadro, vi-o na primeira sala do Palácio da Indústria, ao cimo da escadaria, num certo lugar. No dia da abertura do Salon fui lá e encontrei o quadro no lugar previsto.”

Não será o espírito que está em jogo aqui? Como ver nisso uma propriedade da matéria? Esses fatos psíquicos são freqüentes, o que os meus leitores não ignoram.



* * *

Para resumir este capítulo, parece-me que, levando em consideração todas as objeções, todas as dificuldades aparentes, tomando a Humanidade tal como é, com suas diversidades de caráter, de percepção, de entendimento e de interpretação, devemos reconhecer que o homem não é apenas um agregado de moléculas materiais, mas que é muito mais complexo do que o ensina a Fisiologia clássica, e que é portador de elemento psíquico distinto do organismo físico, químico, mecânico.

Os fatos expostos em nosso primeiro volume, assim como todos os congêneres, provam de forma irrecusável a existência da alma.

Todas as argúcias e todas as sutilezas que se podem imaginar nas suas variadas discussões não neutralizam as conseqüências que se impõem. Um fato de observação é um fato. Apesar do que possa pensar Henri Poincaré, o movimento da Terra é um fato. Todas as dissertações metafísicas, em que nos desviemos, não impedem o nosso globo de girar nem as faculdades intrínsecas da alma de provarem a sua existência, absolutamente distinta de tudo quanto pode normalmente ser atribuído a um organismo fisiológico material.

Temos contra nós, em nossas investigações, três categorias de adversários irredutíveis ou pouco menos:

1º) os que escarnecem de tudo, não se interessando por nada;

2º) os materialistas convencidos, por princípio, de que a matéria tudo produz;

3º) as almas fechadas num dogma estreito (independente da religião a que pertençam), que estão seguras e satisfeitas das suas crenças.

Os adeptos da Verdade formaram sempre a minoria, apesar dos mais perseverantes esforços dos investigadores independentes.

Guardemos, porém, essa perseverança. O bom grão termina por germinar. Todavia, cada um de nós corre para a morte, inevitavelmente, e ninguém está livre por pensar ou não nela. Parece, no entanto, que a razão deveria impor-se. Não desesperemos nunca do progresso. O mundo marcha. A verdade triunfa gradualmente. Quando fundei a Sociedade Astronômica de França, em 1887, o diretor do Observatório de Paris, o Almirante Mouchez, declarou-me que tal tentativa não tinha futuro, dada a indiferença geral, de um lado, e de outro as rivalidades pessoais dos sábios entre si. No início dessa fundação éramos apenas doze. Por mim, não duvidava de que os sócios se contariam um dia por milhares, de que os meus sucessores na presidência dessa sociedade seriam as glórias do Instituto, os astrônomos oficiais das Repartições das Longitudes, os diretores dos Observatórios, as mais elevadas autoridades da Universidade de França: Faye, Tisserando, Janssen, Henri Poincaré, Deslandres, Puiseux, Baillaud, o Conde de la Baume Pluvinel, Paul Appell, etc., e que o orçamento anual dessa fundação ultrapassaria mais tarde a soma de cem mil francos. Não! Não desesperemos jamais do progresso. E não nos surpreendamos nem nos aflijamos com as diversidades de opiniões. A discussão livre e leal é necessária para a conquista da Verdade.

Penetremos agora um pouco mais para frente acerca do conhecimento do homem.

A marcha lógica do nosso estudo vai conduzir-nos às manifestações e aparições de moribundos e de mortos. Mas há aparições de vivos que importa verificar primeiro, como intermediários entre os dois mundos.

O ser humano compõe-se de dois elementos distintos: a alma e o corpo. O corpo é visível e ponderável. A alma pode manifestar-se fisicamente nos duplos de vivos. Que é o duplo?

* * *

Apêndice referente à nota de número 2
Sobre a aparição de Nossa Senhora de Lourdes


A discussão desse assunto especial levou-me a novo inquérito que foi feito, para mim, em agosto de 1920, por amigos devotados, e fui obrigado a modificar o texto das páginas 148-150 (capítulo V) das primeiras edições do tomo I (a partir do 35º milheiro). Dois habitantes de Lourdes (que possuem excelente memória) contemporâneos das aparições, um certo M. B. de 90 anos de idade atualmente, lembra-se muito bem, assim como sua mulher, da bela Sra. P., das suas aventuras amorosas, dos seus vestidos de seda e dos chistes lançados nessa época, a propósito das visões de Bernadette. Mas a lenda local não me parece tão solidamente fundada como se julga. Resulta desse inquérito que a Sra. P. deu o ser a uma filha a 8 de fevereiro de 1858. Poderia ela fazer um passeio no dia 11? Nesse dia o tempo era calmo, mas o céu estava coberto de nuvens. No domingo seguinte (data da segunda aparição) o Sol era radiante, o tempo magnífico e fazia um dia primaveril. É, todavia, notável que no primeiro dia a aparição se conservasse muda e que no domingo seguinte falasse longamente, assim como na quinta-feira, dia 18.

Parece que se perguntou a Bernadette se a Santa Virgem era mais linda do que a Sra. P. e que ela respondeu ser a Virgem muito mais bela (carta 4.256, de 30 de agosto de 1920.4 Lasserre alude a este assunto no seu trabalho sobre Lourdes, edição de 1892, 319 milheiro, que tenho diante de mim, à página 33.

A gruta, nessa época, não era acessível senão pelo lado de cima, por um caminho aberto na montanha, o mesmo que Bernadette tomou, à terceira aparição.

Precisamente a propósito de Lourdes, foi-me dirigida, dessa localidade, uma carta, a 11 de junho de 1920, por um dos seus habitantes (carta 4.159), convidando-me a aceitar que a pequena inocente Bernadette foi simplesmente lograda por uma alucinação, sem que um dos passeios amorosos da Sra. P. a isso fosse associado. Contudo, o oficial G., amante da Sra. P., conservou-se toda a vida tão estupefato como convencido dessa associação.

Escreveram-me também: “Bernadette não era idiota, mas apenas fraca de espírito. O crente entusiástico Lasserre declara, no entanto, que ela era criatura de aspecto doentio; que, aos 14 anos ninguém lhe daria mais de 11 ou 12; que não sabia ler nem escrever e que não pudera fazer a sua primeira comunhão por conhecer apenas a algaravia pirenaica; era, além disso, sujeita às opressões de uma asma que muito a fazia sofrer. Passara a infância a guardar carneiros.

Mas todos esses pormenores valem o tempo que despenderíamos a discuti-los, pois que as alucinações clássicas se produzem sem causa objetiva?




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