Camille Flammarion Estela



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II

O mundo e a Igreja


Estela d'Ossian era religiosa e gostava da vida social.

Educada no Convento Oiseaux, passara a infância na alegre casa-de-campo d'Issy (desaparecido hoje seu belo parque, para dar espaço a novas ruas e construções) e depois fora transferida, com os demais condiscípulos, para o Internato da rua Sèvres, onde lhe decorreu a juventude, sob a austera e atenta direção das religiosas congregadas de Notre Dame, canônicas regulares de Santo Agostinho.

Em Issy, as alunas, as menores, as violetas, as debruadas, as amarantes (assim designadas conforme o adorno dos cabeções dos uniformes) acompanham maquinalmente, a exemplo do que ocorre nos pensionatos, às aulas e exercícios cotidianos que enchem, de modo absolutamente monótono, as horas e os dias; em Paris, aonde vão aos onze anos, as verdes, as azuis, as amarelas e as vermelhas (designações correspondentes à cor dos distintivos) começam a viver e a pensar. Não diremos das “brancas”, as maiores, pouco numerosas, prestes a partir de regresso aos lares.

Além das férias, todos esses “pássaros” têm dias de visita às suas famílias, de modo que jamais se sentem de todo isoladas do mundo. No próprio convento aprendem a apresentar-se, cantar, tocar piano ou violino, e até dança.

O quarteirão dos Inválidos, no fim do bairro de Saint-Germain, com os três grandes parques Oiseaux, Sacré-Cœur e Archevêque, têm a semelhança de uma solitude longínqua, tão distante de Paris quanto a Bretanha ou a Vendeia; contudo, não se sente a tristeza da clausura: respira-se ali certo ambiente mundano; pela convivência, conversa-se com as amiguinhas, narrando impressões recebidas fora, observações colhidas pela curiosidade juvenil que se abre ao espetáculo da vida, e que sabe próxima a saída do convento, muitas vezes poucos meses antes do casamento.

Os estudos não são muito fatigantes, porque entremeados de períodos de recreio; as obrigações religiosas têm a regularidade de um relógio: a prece pela manhã, após a toalete e a ação de graças, antes e depois das refeições, em comum; oração antes de cada aula, estudo ou exercício; ouvir missa todas as manhãs, na ampla capela cuja torre alta e quadrada domina o parque, qual a de uma orgulhosa catedral; confissão mensalmente e comunhão cinco ou seis vezes durante o ano.

Além disso, ouvem sermões, que mantêm o espírito na fé e confirmam todos os ensinamentos ministrados antes da primeira comunhão. Assim aprendem que Jesus Cristo morreu na cruz para remissão de nossos pecados; que ressuscitou para glorificação nossa; que está no Céu, sentado à direita de Deus-Pai; que o bem-aventurado corpo da Virgem Maria foi transportado pelos anjos no dia da Assunção; que existem anjos no Céu e na Terra; que os santos estão no Paraíso; que nossas almas, salvas por Jesus Cristo, devem, após nossa morte, ir ao Purgatório – cujas chamas lustrais as purificarão das derradeiras manchas (a menos que pecados imperdoáveis às precipitem no Inferno, por toda a eternidade); que no fim do mundo os corpos ressuscitados, dignos do Céu pela pureza angelical de suas almas, viverão eternamente na glória do Paraíso.

Estela, no mesmo regime das companheiras, vivera assim, assim pensara, até sair do convento, ao completar as dezoito primaveras.

Era correta e pura em seus sentimentos e acreditava em tudo quanto lhe haviam ensinado. A idéia de uma dúvida nunca germinara em seu espírito; vivia e pensava seriamente, sem o temperamento e a educação das jovens do “fim de século”. Estava convicta de que os ensinamentos da Religião tinham base tão sólida quanto os da Ciência; de que o Catecismo possuía a exatidão do Tratado de Aritmética, de Geografia ou de Cosmografia. Quando dizia que sete vezes doze são oitenta e quatro, ou que a soma dos ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos, ou que a Córsega é uma ilha do Mediterrâneo – a cento e oitenta quilômetros da costa francesa e a setenta e sete da italiana –, ou que a Terra é um planeta que em um ano faz o giro em torno do Sol e em vinte quatro horas sobre ela mesma, sabia que tais afirmações estavam rigorosamente demonstradas, e jamais lhe ocorreu à idéia de que alguém as pudesse contestar.

O mesmo acontecia com relação às afirmações da religião.

Admitia por demonstrado cabalmente que Jesus Cristo desceu aos infernos, subiu ao céu e está assentado à direita de Deus seu Pai, e que descerá, sobre nuvens, para julgar os vivos e os mortos; que os diabos no inferno passam a eternidade atormentando os condenados; que Josué fez parar o Sol e que a serpente tentou Eva, suspensa dos ramos da árvore do bem e do mal.

Em seu candor, não duvidava de ensinamento algum. Se acaso lhe viesse à idéia de comparar os dois gêneros de verdades, as da religião decerto teriam parecido mais absolutas do que as da ciência.

Por vezes, gostava de recolher-se ao silêncio da igreja e preferia fazer preces na Capela dos Santos Anjos. Acreditava que seu anjo de guarda lhe esquadrinhava a consciência em busca de pecados imaginários e acusava-se ao confessor de desatenções em aula, de sinais de impaciência com os condiscípulos, de pequenas gulas, e então sentia na alma a pureza do anjo de seus sonhos. Enlevava-se a sonhar que ressuscitaria assim, em seu corpo de virgem nas dezoito auroras da sua idade, sem afundar a curiosidade, sem visionar qualquer roupagem, e ia ao extremo de achar belo o confessor calvo e senil, e imaginá-lo, também ele, no paraíso, junto dos bispos, dos papas, dos mártires e dos profetas.

Dir-se-ia que, com leve esforço, abraçaria a vida religiosa, à semelhança de suas mestras, consagrando-se por toda a vida ao bom Deus.

Nos dias de comunhão, Páscoa, missa do galo (a da meia-noite), nas grandes festividades, Estela sentia verdadeiramente a hóstia, depois de esta tocar-lhe a língua e descer pela garganta, penetrá-la de um sentimento de absorção na divindade. De que Jesus fosse Deus e de que ela o comesse misticamente, não lhe restava dúvida. Durante as missas cantadas, certos cânticos da Igreja, muito melodiosos e suaves, qual o Panis Angelicus ou o Salutaris, transportavam-na a celestes êxtases.

Seu confessor era um santo homem, escolhido com grande acerto pelo arcebispo de Paris para direção dessas jovens almas femininas, e que (circunstância bem rara no clero da metrópole, e em Roma e Madrid) era um sacerdote sem mácula, crente sincero, simples e convicto. Prudente e reservado, nunca lhe acontecera fazer, durante a confissão, uma dessas perguntas vergonhosas que fazem enrubescer o jovem ou a moça antes que a tenham compreendido, e que desviam do chamado tribunal da consciência mais de uma alma pura, afastando-a bruscamente para cogitações carnais, por uma pergunta infeliz, bisbilhoteira ou criminosa.

O padre Ildefonso reunia à virtude do bom sacerdote e ao desapego das naturezas simples a afetuosa bondade de um avô: as pequenas aprendizes eram suas netas. Seu único desejo consistia em conservar-lhes a fé, a qual, segundo entendia, era o único elemento moral capaz de mantê-las castas e honestas, quando trocassem o convento pelas liberdades do mundo.

Deixando o internato, impossibilitada de conservar o mesmo confessor, Estela, a conselho deste, escolheu para diretor espiritual um padre jesuíta, muito afamado, da paróquia de Santa Clotilde.

Órfã de pai e mãe, habitando o segundo pavimento do prédio que os tios, os condes de Noirmoutiers, ocupavam a Rua Vaneau, entrava na vida com a independência de uma grande fortuna e o sentimento da responsabilidade pessoal.

Muito aristocrática nos gostos, deixou-se facilmente deslizar pelos mundanismos, no prazer de brilhar em meio à elegância. Não podia compreender os homens sem que acompanhassem as modas mais recentes, sem que tivessem a palestra espirituosa, sem que se comprimissem em torno dela, dando-lhe nas conversações e em primeira mão a última nota social digna de registro.

Das amizades do convento conservara três amigas: uma ainda mais religiosa do que ela, cenobita por natureza; outra que começava a ocupar-se com estudos de Física, Química e Astronomia; a terceira, de temperamento mais artístico, que se dedicava à pintura.

Estela era a mais formosa e mais mundana, mal preparada para isso, aliás. Nenhuma arte a fascinara; a literatura de certo modo a seduzia. Aprendera, com grande facilidade, diversos idiomas estrangeiros, nos quais lia e falava com a mesma facilidade do francês. Quanto às ciências, não se detivera e, tal qual a maioria dos habitantes da Terra, sempre vivera sem se interrogar sobre o terreno em que pisava. Essa ignorância normal lhe bastava, e suas convicções religiosas satisfaziam de modo completo aos devaneios que, por vezes, a elevavam acima do mundanismo habitual do seu viver.

Já na alvorada dos quatro lustros, época em que começa esta história, Estela ainda fazia preces todas as noites, e a primeira vez que as esqueceu foi na do longo baile de que falamos. Todo o domingo era vista, com a tia, assistindo à missa das dez horas, em Santa Clotilde. Os deveres religiosos e os prazeres da sociedade, ela os associava muito bem na vida e no pensamento, em acordo perfeito, ajudada pelo próprio diretor espiritual, o hábil jesuíta a quem a elite do bairro Saint-Germain devia os melhores casamentos.

Homem do mundo até à ponta das unhas, o abade Laferté era muito procurado, excelente conviva, prosa agradável. Dizia-se mesmo, com algum exagero talvez, que esses casamentos tão bem conseguidos e por ele realizados, lhe haviam trazido, bem ou mal, cerca de quarenta mil libras de rendimentos. Suas qualidades exteriores não o impediam de ser comparado com o padre Ildefonso, embora em outra ordem de idéias, um confessor muito honesto para as jovens.

Estela confiou-lhe todos os pensamentos, todos os projetos, e nada empreendia sem ouvir a opinião do seu querido e venerado mentor.



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