Camille Flammarion Estela



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III

O jantar de Epicuro


Quinze dias depois da festa a que nos referimos, duas dezenas de convivas estavam reunidos em volta da suntuosa mesa da Marquesa La Rochelle.

Um luxo inaudito, ao qual nem sempre um perfeito bom gosto se aliava, presidia a esses deboches gastronômicos.

Por toda parte, maciça prataria, admiravelmente cinzelada; em profusão, cristais da Boêmia, de cores vivas. Seis copos diante de cada conviva; o centro da mesa ocupado por elegante vaso em cujos bordos estavam presas guirlandas de cravinas, gerânios e camélias, vindas pela manhã, de Nice.

Os lacaios, em libré de luxo, permaneciam imóveis por detrás da fila de convivas, atentos ao menor aceno e, principalmente, às conversações.

Ondas de luz desprendiam-se dos lustres, tocheiros e candelabros guarnecidos de velas, luz cariciosa, lisonjeira para as níveas espáduas e os rostos primaveris. O gás e a eletricidade estavam relegados para a copa e a despensa.

Qual chama volante, perguntas e respostas, juízos e reflexões diversas não permitiam arrefecer a palestra generalizada, de resto mundana, ridícula e banal.

A mocidade predominava, mas notavam-se alguns comendadores e pessoas de “certa idade”, colocados ao centro, gente esta que não estava menos alegre, nem menos animada do que a juventude das extremidades.

Serviam-se as últimas iguarias e próxima estava a sobremesa, mas tudo se fazia sem pressas, pois o jantar seria seguido de divertimentos íntimos, predominando o jogo e “um pouco de música”.

O que maravilhava a criadagem era a soma das fortunas ali reunidas. Salvo duas ou três exceções, nenhuma ou nenhum dos convivas desfrutava menos de cinqüenta mil libras de rendimentos; muitos dispunham de cem mil; alguns, trezentas e quatrocentas mil.

Tais fortunas eram conhecidas e cotadas. Somados os capitais e remunerados ao juro de três por cento, chegava-se ao total de cento e dez milhões para as vinte pessoas ali agrupadas.

Não se falava nisso sem chiliques de admiração, e a própria dona da casa ensoberbecia no mesmo grau dos seus domésticos. A plenitude do mais nobre orgulho ela exteriorizava no porte, na maneira de comer, beber e falar. Seus dedos estavam congestionados de anéis; as orelhas, pescoço e espáduas resplendiam de pedrarias preciosas. Até certo ponto, podia-se considerá-la a mais rica de todos, pois sua fortuna avaliava-se em catorze milhões de francos.

Tão colossal riqueza adquirira-a ela mesmo, só, ou quase sozinho, em negócios especiais que entendia à maravilha, associando sucessivamente sua inteligência à de cinco ou seis capitalistas bem selecionados, e também (dizia-se à boca pequena) em alguns serviços diplomáticos em proveito de uma potência vizinha.

Era muito formosa e de inteligência notável, principalmente em combinações financeiras. Casada, em primeiras núpcias, com um diplomata brasileiro, desposara, num segundo matrimônio, na idade de meio século, um jovem deputado, herdeiro de invejável nome, e recebia ao que se chama “todo o Paris”, do mundo dos pândegos.

A conversação recaiu sobre um casamento celebrado, à véspera, na Igreja da Madalena, e talvez não seja supérfluo apanhar alguns fragmentos, que darão um resumo do ambiente anticientífico e artificial em que vivia a nossa donzela idealista e sensitiva.

– É a miséria em pouco tempo, ao primeiro filho, dizia um anafado cavalheiro de amplas suíças brancas, tez corada, lábios espessos e sensuais. Que se pode esperar de um lar, em Paris, com quarenta mil francos de rendimentos?

– Eu creio, disse o duque, falando bem próximo da sua bela vizinha Estela, que Henriqueta ama profundamente o marido, e que serão felizes, porque o dinheiro não faz a felicidade. O amor...

– Que dizeis senhor duque? – indagou a dona da casa.

– Dizia minha senhora, que coisa alguma vale tanto quanto uma boa e sincera afeição, e quando dois entes se adoram a vida deve ser encantadora, mesmo sem fortuna.

– Nós conhecemos isso, replica um general sentado à direita da marquesa. Quando eu tinha a vossa idade, meu caro duque, pensava tal qual, principalmente quando o acaso colocava a meu lado uma encantadora vizinha. Os enamorados são sempre muito desinteressados, mas os provérbios não erram: “Quando falta o feno na grade da manjedoura...” Para mim, esse casamento é ridículo. Uma jovem bela e de sociedade apaixonar-se por um jovem que nada tem de seu! É inconcebível que os parentes se deixem assim levar pelo capricho dos seus meninos. Mas, que querem? A autoridade dos pais não existe mais.

– É esse o meu parecer, disse o tio de Estela. As fortunas devem ser associadas.

– Meu general, replicou então o duque, se eu estivesse enamorado, não perguntaria quanto a minha noiva teria de dote. Compreendo, pois, e muito bem, que uma jovem proceda de igual modo para com o rapaz, principalmente quando esse moço está bem colocado, é inteligente e distinto, nas condições de Hervé.

– Eu vos compreendo, retrucou o general, partilhais da opinião de Alfredo Musset: “Quando se apetece o belo, é sem vestido.”

– Quereis dizer da opinião de Shakespeare, no “Mouro de Veneza”. Sim, sem dúvida.

– Muitas vezes nos enganamos pelas promessas de dote, sentenciou um financista. As fortunas nem sempre são o que aparentam. Veja-se o exemplo do Barão Chirch, que acaba de render a bela alma ao deus Plutão. Diziam-no riquíssimo e, no entanto, deixou apenas sessenta milhões.

– Julgava que tivesse menores haveres, comentou o deputado.

– Enganai-vos. Ele deixa oitocentos milhões.

– Que homem! Exclamou a marquesa com entusiasmo. Acumular oitocentos milhões. É verdadeiramente de um gênio.

– De certo não terá dado cem mil francos para favorecer o progresso das ciências, interrompeu o jornalista.

– Sabeis quem comprou os seus cavalos?

– Ninguém ainda. Será vendida quinta-feira, no Tattersall.

– Eu cobiçaria o seu par de alazões, disse a condessinha.

– Pois eu exclamo um belo jovem, só ambiciono o campeonato de bicicleta. Completei quinta-feira, oitenta quilômetros!

– Afirmaram-me que na semana passada Artur fez setenta e oito.

– Singular prazer! Comentou a mulher do financista. Nada mais agradável do que andar sempre para frente, sozinho, e pedalar até perder o fôlego.

– Há melhor! Afirmou uma jovem gorduchinha, de loura cabeleira flutuante.

– E qual é Senhorita Solange?

– O tandem.

– Eu te acredito, cochichou ao vizinho da ponta da mesa o Capitão Lomond. O casamento no tandem não deve tardar.

– Ontem, em Neuilly, todo um cortejo de núpcias chegou à pretoria em bicicleta, inclusive a noiva.

– Muito bem! Viva a bicicleta; abandonemos os cavalos!

– Sabeis a novidade das sete horas? Indagou o jornalista.

– Um dos meus amigos foi preso, ou o Ministério caiu, respondeu o Senhor de Taupin.

– Exatamente, como se houvésseis posto o dedo em cima. Caído o Ministério, por motivo do imposto sobre os domésticos.

– Justíssimo. Compreendeis que se taxem os domésticos?

– Exige-se o imposto sobre cavalos, cães, portas, janelas, ar, luz, pão, vinho, sobre toda a vossa casa, desde a adega até o teto, sobre a própria pessoa, desde as palmilhas ao chapéu, sobre o caminho por onde andais, campos que contemplais, o ar que respirais, e tudo, tudo! Porque não criar imposto sobre os domésticos? O aumento perpétuo das despesas públicas, o desperdício cego, levam fatalmente à majoração dos tributos. É a esterilização da nossa bela França; é a ruína geral; é a bancarrota próxima. Que fazer?

– Enfim, o Ministério caiu. E não tinha ele quase dois meses?...

– Consta que o presidente vai renunciar.

– Era bem simples ter um rei, disse o deputado. Vede a Inglaterra.

– Política! Política! interveio a dona da casa. Vamos ter contrariedade. Bem sabeis que isso é proibido.

– A política, disse do extremo da mesa o jovem e já volumoso advogado, é o “sai daí, que eu quero o lugar”, tal qual nos negócios, é o “dinheiro dos outros”. Aliás, nada tem de imoral, por isso que está convencionado.

– Tendes razão, senhora, repôs o general. Prefiro os cancãs do mundo teatral. Quem já foi ver a nova peça do Bouffes? No espetáculo de ontem, a Eminha estava positivamente nua. Adivinhava-se tudo. Para que serve a censura? E na verdade, ela é muito bem feitinha, a mestiça.

– Por Deus, general! E acreditais que sem essa circunstância ela se mostraria? Mas, se deixassem à vontade as mulheres de “extra-sociedade”!...

– E mesmo as da sociedade, disse o Sr. de Taupin.

– Ema tem formosas pernas, o que não impediu que o seu deputado a mandasse às urtigas.

– Receberemos amanhã o viscondinho em nosso clube? perguntou um magricela, que não ousava mover a cabeça com receio de que lhe desabasse o monóculo do olho esquerdo. Que achais, Jumièges?

– Certamente, respondeu um vizinho cuja cabeça parecia anquilosada, graças ao colarinho que lhe chegava às orelhas, os padrinhos do recipendiário são gente chique.

– Além disso, ele é da linha mais distinta, disse o duque.

– E o bravo Patarouf?

– Oh! Esse vale por dois.

– E o Barão de Hautecombe?

– Um pesadão, não civilizado de todo, um criador de abelhas; mas encontrou escora, apesar disso, e isso vale por uma voz de comando para ser recebido.

– Senhora marquesa, disse o financeiro, não fostes vista quarta-feira, na ópera, na repetição do Tannhauser, de Wagner.

– Não me entusiasmo por Wagner, vós o sabeis. Nada de esnobismo! Podereis dizer-me porque o pano Orleães baixou tanto, ontem?

– Para contar desde já com os lucros das futuras compras e vendas.

– Tenho convites para o Instituto, quinta-feira, interrompeu a Senhorita Cecília Street. Quem quer ir?

– É mortalmente enfadonho, respondeu o Visconde de Valvin, mas é de bom-tom, tanto quanto Wagner. Iremos, certamente.

– Sempre fui da opinião de Alfredo de Musset, a respeito dos discursos acadêmicos, disse o general. A uma sessão da Academia Francesa, prefiro a de segunda-feira, na Academia de Ciências. É mais substanciosa.

– E vós, Senhorita Estela, apreciais os sábios?

– Jamais os vi. Ah, sim, certa vez, quando menina, levaram-me para ver Chevreul à saída de um banquete. Que feiúra!...

– Sábios, disse seu vizinho, conheço três; desagradáveis, incivis, fastidiosos. Não se encontra meio de palestrar com eles, que, aliás, não respondem aos nossos assuntos.

– Se fossem somente fastidiosos! Alguém, há dias, escreveu que as celebridades são as que maiores males causam. E não errou. Por exemplo, o inventor da pólvora...

– Mas, nem todos inventaram a pólvora.

– Os sábios, interveio a Baronesa Castelviel, constituem mundo à parte e fechado àquele a que nós outros pertencemos. Já lhes fiz, várias vezes, convites, sem que jamais me pudesse envaidecer da sua presença em minha casa. Por isso, não os convido mais, nem nos Pirineus, nem em Paris. De resto, são todos uns pobretões, bem mal-postos.

– Mais do que pobres, muitas vezes verdadeiros mendigos, tal qual a maior parte dos escritores, poetas e artistas. E, afinal, que fariam da riqueza? Só lhes poderia trazer preocupações, pois não passam de trabalhadores, de obreiros. As fortunas só se tornam realmente úteis aos que não têm nada para fazer.

– Não penso desse modo, interrompeu o jornalista, e quanto a mim, a propósito do barão de quem tanto se fala (o que morreu, possuindo oitocentos milhões), considerá-lo-ia muito mais digno de apreço se houvesse deixado apenas cem, e consagrado setecentos aos progressos da Ciência.

– Não falemos mais em sábios, anônimos ou pedantes. De resto, não ignorais que a Ciência faliu. Acabou-se. Viva a alegria!

– E depois são bem ridículos, com os seus casacões e bonés de pala, disse uma encantadora ingênua. Um deles descobriu que a cauda de não sei mais que animal exala o cheiro de resina de opopânax.

– Não foi na Faculdade de Medicina que a cena se passou, senhorita, replicou o visconde, foi no Teatro Variedades.

– A Ciência e os sábios, sentenciou o general, não servem para grande coisa na vida, eu o reconheço; mas, acho erro metê-los sempre a ridículo, no teatro, nos romances, e mesmo um pouquinho em outros gêneros. Pode-se viver ignorando a Física, a Química, a História Natural, a Botânica, etc.; pode-se, em suma, viver ignorando tudo, sem que de tal desconhecimento resulte mal maior. Contudo, a Ciência tem prestado serviços à sociedade; não lhe devemos os caminhos de ferro, os navios a vapor, o telégrafo, o telefone, a fotografia, e tantas outras coisas agradáveis, úteis, necessárias e mesmo indispensáveis em nossos dias? Entendo, pois, que se deveria sempre render justiça aos sábios. E não é por mim que o digo, vós o sabeis, porque nunca me preocupei em mudar o meio-dia para duas horas da tarde. Minha máxima é a de Epicuro: “Gozemos a vida!” Pura e simplesmente. “Carpe diem”, se não esqueci o latim que então se usava.

– Isso é de Horácio, emendou o duque. Mas, Horácio ou Epicuro se assemelham bastante, e confessemos que a sua maneira de compreender a vida é a da maioria dos homens.

– Estamos todos de acordo. Ciência e sábios, eis o que o mundo tem de mais sensaborão e mais inútil. Falemos de assuntos mais alegres. Sabeis que resultado magnífico foi obtido na pista de Catford, por Stocks. No curso de um ensaio de recorde de cinqüenta milhas, ele bateu uma série de recordes mundiais, incluídos o de hora, o dos cinqüenta quilômetros e o das dez milhas. A primeira milha foi feita em um minuto, cinqüenta e nove segundos e 1/5; a segunda milha em três minutos, cinqüenta e dois segundos e 2/5; e bateu o recorde mundial, percorrendo as dez milhas em vinte minutos e as vinte milhas em quarenta minutos e cinqüenta e sete segundos! Em uma hora, fez quarenta e seis quilômetros e setecentos e onze metros, ultrapassando assim de duzentos metros o resultado de Bouhours. Esbaforido por esse treino formidável, Stocks se deteve ao fim de quarenta e quatro milhas, em uma hora e trinta e quatro minutos e onze segundos e 4/5.

– É maravilhoso!... Fostes à caçada do marquês?

– Sim. Um enorme porco-selvagem, atacado pelos monteiros e habilmente descoutado pelo primeiro picador Renard, às cinco horas do Près-du-Rozoir. Soberbo cervinho. Tudo perfeito. Equipagens muito chiques.

– Quarta-feira próxima, corrida de cães na floresta de Fontainebleau.

– Os passeios em carrinhos foram inaugurados terça-feira última.

– O visconde fez a sua primeira batida de caça. Registrou cento e noventa e cinco perdizes.

– Fostes ao campo de tênis do parque? Estava encantador.

– Não, mas teria ficado satisfeitíssimo de reencontrar o Duque de Leuchtenberg.

– Sabeis, disse o homem especado, sem mudar de posição, que a casa de Leuchtenberg é a mesma dos Beauharnais, originária da Orleanesa, que encontra sua raiz em Guilherme de Beauharnais, Senhor de Miramion e de La Chaussée, em 1309. Eugenio de Beauharnais, filho do Visconde Alexandre de Beauharnais e de Josefina Tascher de La Pagerie, depois Imperatriz dos Franceses, foi adotado por Napoleão I. Príncipe francês, foi eleito Duque de Leuchtenberg e Príncipe d'Eischtaedt. Seu filho Maximiliano esposa a Grã-duquesa Maria, filha do Imperador Nicolau I, da Rússia, e toma o nome de Príncipe Romanovski, com a qualificação de Alteza Imperial para toda a sua descendência.

– Como terá sido possível, no ato de casamento de Napoleão Bonaparte, existir uma certidão de idade constatando que ele nascera a 5 de fevereiro de 1768, quando a data oficial é a de 15 de agosto de 1769?

– Ele se fazia mais velho para aproximar-se de Josefina, remoçada a seu turno no mesmo ato.

Um outro conviva tomou a palavra para descrever, com enfadonhos detalhes, o desenho do brasão de um noivado do seu conhecimento, minuciando as cores, o que havia nas quatro divisões do escudo, no cimo, na base, nos lados e risca central, tendo o do noivo, nos suportes, dois leões e no da noiva três cabeças de lobo, tudo cheio de variações coloridas. Isso provocou um jocoso comentário do general.

– Minha cara baronesa, continuais com as vossas duchas, apesar do frio glacial que faz?

– Sem dúvida, todas as manhãs.

– E sempre com o Dr. Calais?

– Sim. Ele ducha muito bem. Acho seu jacto excelente.

– Pois eu mudei. Vou atualmente a Passy. O Dr. Chevreuse é mais afável. Além disso, a casaca e a gravata branca lhe dão aspecto mui distinto no seu mister.

– Não compreendo que mulheres se coloquem assim nuas diante de homens quase desconhecidos, sussurrou o general ao ouvido da sua vizinha, embora confesse que não deve ser desagradável a profissão de aplicar duchas.

– Eis uma salada deliciosa!

– Virgem, primeira colheita, explica o dono da casa.

– Poderíeis mesmo dizer: extra virgem, ajuntou o general, e mesmo virgem néctar, pois creio haver três categorias da primeira qualidade.

– A que vos estais referindo?

– Ao azeite.

– Fostes à patinação, esta manhã, Senhorita Estela?

– Sem dúvida! Essas nevadas me atraem. É absolutamente soberbo. Gelo excelente e batido qual um assoalho de salão. Patinava-se em fileiras de dez pessoas.

– Sempre muita gente, não? E a fina flor!

– E se combinássemos para amanhã cedo? perguntou o duque.

– Impossível. Temos convites de jornalistas para o duelo de amanhã, e jantaremos na Grande Jatte. Depois de amanhã, serve?

– Pois sim, combinado! Às dez horas, no lago.

– Onde acompanhará os sermões da Quaresma, este ano, cara baronesa?

– Na Notre Dame.

– Ah, eu prefiro a Madalena. Os chapéus são muito mais chiques.

E daí por diante pouco se entendia. Todos falavam quase ao mesmo tempo. O duque retomou a palestra a meia-voz com a sua vizinha, a propósito da guirlanda de flores rubras que corria ao longo da mesa, assegurando não gostar da cor vermelha e apreciar as flores azuis. Assim também não apreciava as mulheres morenas, porque são muito masculinizadas. Para ele, a verdadeira mulher, arrebatadora, filha de Eva, a fada, a encantadora, era a loura, principalmente a de olhos negros, sonho delicioso que faz esquecer todo o Universo. Havia visto suficientemente o mundo, para poder avaliar a real beleza. Acusavam-no de bem afortunado, mas havia sempre exagero. Aos cinco lustros de idade, ou antes, depois de meio decênio de observação, havia encontrado apenas sete ou oito mulheres verdadeiramente louras, do seu preferido, do louro de Veneza, e neste pequeno número somente uma representava totalmente o seu ideal.

– Acusam-vos, senhor duque, de grande jogador.

– Outro exagero. Jogo unicamente para passar tempo, uma vez que não tenho entretenimento mais agradável. Falando verdade, não tenho amor ao jogo.

– Mas jogais todas as noites?

– Sim; um pouco, porém no meu círculo, a exemplo dos meus amigos.

– E sois feliz no jogo?

– Principalmente de quinze dias a esta parte. Tenho mascote.

– Mascote?

– Sim. Uma ponta de fita azul. Vede-a, insistiu ele, ei-la aqui.

Estela sentiu que devia desviar por instantes o rosto do olhar indiscreto do seu interlocutor e fez menção de beber na taça de champanha.

O duque, apercebendo-se do gesto, acrescentou imediatamente:

– Imagina-se que eu nada faço, mas trabalho enormemente. Passeio a cavalo, pela manhã, ou faço esgrima, quando chove. Toco piano, quando posso; caço três meses por ano. Compus uma peça teatral, em colaboração com o meu amigo Serdo, e traduzimos Schiler. No ano passado, redigi a crônica esportiva para o Gaulois. Presentemente leio Schopenhauer. Durante bem longo período, aprofundei-me na Numismática, para classificar as moedas romanas, e vou agora desenhar fachadas Renascença para o Castelo. Minha mãe muitas vezes me diz jamais ter visto quem trabalhe tanto quanto eu.

– E a dança?

– É o que prefiro a tudo!

– Por que não vos fazeis eleger deputado?

– Não há deputado de acatamento, em condições de ser ministro, senão entre os casados. Um ministro solteiro não pode dar recepções. Dir-me-eis conhecermos um, talvez o mais poderoso de todos, que ainda não se casou. Mas, é sonho. Quanto a mim, não me casarei nunca, a menos que... E a única... Experimentará ela por mim os mesmos sentimentos que lhe consagro de há muito... desde o dia em que a encontrei pela primeira vez? E, além disso, seu coração lhe pertencerá ainda?

Nesse momento, a dona da casa deu, erguendo-se, sinal de que o jantar havia terminado. Os convivas dirigiram-se para os salões cintilantes de luz e onde as mesas de jogo já estavam preparadas.

Bem depressa foi ouvido o anúncio dos primeiros visitantes: Senhores Aimelafille e Piedevache, senhor e senhora de la Mouchardière, senhoras Abelard e Condessa de Saint-Phal.

– A propósito, disse a marquesa ao jornalista, prestai atenção no vosso noticiário mundano de amanhã, especialmente em citar exclusivamente os nomes com partícula de fidalguia.

O duque havia oferecido o braço a Estela.

– Que pesar! Suspirou ele, não se valsará esta noite. Tendes dançado muito nestes últimos dias?

– Não, depois da outra reunião.

– Assim também ocorre comigo.

– Tendes ido ao teatro, senhor duque? Vistes a peça dos Cômicos a que se referiu o general?

– Não, senhorita. Tenho passado minhas noitadas no Círculo e, conforme o hábito, jogando. E aí não faço senão ganhar, graças à minha mascote, a qual não me deixará nunca, nem mesmo na Armada, onde, como deveis saber, sou oficial. Se tivermos guerra, estou certo de que não serei ferido.

– Imploremos para que não haja guerra. E horrível.

– Bem ao contrário, senhorita, creio que a teremos, e bem proximamente. Acreditais que possamos passar longo tempo com a Alsácia e a Lorena nas mãos dos alemães? Por isso, há momentos na vida em que não é desagradável expor-se a perigos.

– Principalmente com a mascote, ironizou Estela.

– A verdadeira mascote, senhorita, não é somente esse pedaço de fita azul arrancado num movimento de cotilhon; é uma imagem encantadora que não mais abandonou meu coração.

– O senhor toma café? Indagou um alto lacaio todo agaloado que seguiu os convidados à saída da sala de jantar.




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