Camille Flammarion Estela



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VI

Senhorita Eva


Estela penetrou nos domínios da Ciência por um caminho indireto. Sua curiosidade assim despertada quase por acaso, por fenômenos estranhos e pouco estudados até então, não devia extinguir-se mais. Interessava-se por tudo, queria tudo aprender, tudo saber. As coisas da vida mundana, as conversações de salão, os bailes, os jantares, o teatro, tornaram-se sem brilho aos seus olhos e perderam todo atrativo. Falara ao seu diretor espiritual a respeito do livro do “Solitário”, da aparição de Liguóri ao Papa Clemente XIV e de alguns outros fatos relatados na obra. O confessor admitia a aparição do santo, mas insinuou que os outros casos provavelmente eram ilusões ou talvez até tentações do demônio. Entretanto, não lhe proibira absolutamente a leitura dos livros do “Solitário”, prevenindo-a, contudo contra seus “erros teológicos” que, acrescentou com benevolência, não tinham importância para ela – que não pretendia cogitar de Teologia. “Podeis ler seus livros, acrescentou; elevam a alma e combatem o materialismo. Mas não chegueis ao extremo de considerá-los iguais às palavras evangélicas. Ele não é um verdadeiro sábio. Os verdadeiros sábios são todos católicos praticantes. Os outros, os independentes, são meio sábios, pois duas verdades não podem opor-se uma à outra, e desde que a palavra de Deus nos deu a conhecer a verdade, toda a ciência que não esteja de acordo com a fé não passa de ciência falsa. É, em muitos pontos, o caso desse autor. Desconfiai também de sua imaginação, que vos pode arrastar longe. Em uma palavra: embora não se trate de um romancista, lede-o como se lê um romance honesto, sem acreditar que tudo haja acontecido.”

Era uma autorização, incompleta, porém suficiente, e ela não precisava de mais para continuar a leitura que a interessava; em verdade, hesitara e talvez não continuasse a leitura sem essa velada autorização. Seu tio lhe prometera emprestar um segundo livro do “Solitário”, intitulado “A aurora de um novo dia”. Reclamou-o naquela mesma noite, e iniciou avidamente a leitura das páginas.

Começava pela história da Terra. As épocas sucessivas estavam claramente expostas, segundo os fósseis característicos de cada período, e assistia-se ao desenvolvimento gradativo da vida, desde os rudimentares seres primitivos (os moluscos, os acéfalos) ao homem. A seguir, este era descrito, desde a era da pedra até as conquistas intelectuais da civilização moderna. A árvore genealógica da vida terrestre desdobrava-se em sua amplitude, com as lacunas que as descobertas da Ciência preenchem pouco a pouco. Admirava-se em tudo uma lei simples e providencial de progresso manifestada com a evidência da luz meridiana. Nenhuma dedução que não fosse baseada em fatos observados. As analogias do corpo humano com os mamíferos superiores estavam explicadas.

Remontava-se, insensivelmente, da nossa época às anteriores, e até aos tempos primitivos, quando o nosso planeta começou a condensar-se no espaço, nos flancos da nebulosa solar!

Essa teoria cosmogônica fornecida pela Ciência, baseada na Astronomia, Geologia e Paleontologia, e bem assim na Fisiologia e na Anatomia, pareceu evidente e simples ao espírito da jovem leitora. Começou então, tal qual em outros tempos no colégio, a fazer uma recopilação desse primeiro capítulo, e lhe veio à idéia compará-lo com a narrativa do Gênesis bíblico. Depois, por curiosidade, imaginou transcrever ambas as narrações em duas colunas paralelas. Acreditou-se ainda, por um instante, no pensionato, fazendo uma obrigatória composição, à qual se entregou com afã. Disso resultou o seguinte resumo, em que apareciam sob seus olhos, de um lado os ensinamentos apresentados pela Ciência e do outro a instrução religiosa do Catecismo, da Bíblia e do Evangelho. Reproduzimos, textualmente, esse resumo, ao qual não faltava originalidade. Estela se esmerara, à imitação de Bossuet, em dividir por épocas esta pequena História Universal:


A Ciência

A Religião

Primeira época

O sistema solar parece procedente de uma imensa nebulosa, da qual o Sol e os planetas seriam condensações.

A própria Terra, primitivamente, foi nebulosa, depois sol e, resfriando-se, tornou-se um corpo sólido.

Os elementos da atmosfera e das águas prepararam as condições da vida, a qual começou por seres rudimentares.



Primeira época

Deus criou o Céu e a Terra em seis dias, com todos os seres que encerram, e após terminar suas obras descansou no sétimo dia.

O Sol, a Lua e as estrelas foram criadas no quarto dia.

Os primeiros seres criados foram os anjos que lutaram uns com os outros. Os vencidos são os demônios. Tal é a origem do diabo.



Segunda época

Os fósseis nos mostram, a exemplo de folhas de um livro de anais da Terra, que a vida começou pelos mais rudimentares e imperfeitos seres.

Os três grandes períodos geológicos poderiam ser denominados: era dos peixes, era dos répteis e era dos mamíferos.

Cada uma dessas eras representa milhares de séculos. Encontram-se os peixes abundantes nos terrenos cambrianos, silurianos, devonianos e permo-carbônicos; os répteis nos triássicos, jurássicos e cretáceos; os mamíferos desde o eocênico.

O mar tomou muitas vezes o lugar da terra e vice-versa.

As espécies se foram diferenciando cada vez mais, aperfeiçoando-se.

A árvore da vira mostra a unidade genealógica e a transformação gradual das espécies.


Segunda época

No sexto dia Deus fez os animais que habitam a terra firme. Em seguida disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.

Deus criou Adão, modelando um homem de argila, sobre o qual soprou.

Isso em um jardim. Em seguida arrancou-lhe uma costela, durante o sono, e a transformou na mulher.

E a ambos proibiu que comessem dos frutos de uma certa árvore do centro do jardim.

O diabo entrou em uma serpente e falou, assegurando à mulher que precisamente a árvore do centro do jardim era a melhor.

E a mulher se deixou tentar, por isso que o fruto era belo e agradável à vista; provou e dele deu a seu marido, que comeu também. Então se aperceberam de que estavam nus.


Terceira época

Em fins do período terciário as espécies animais e vegetais já se assemelhavam às da nossa época.

Lenta e gradualmente, nosso planeta adquiriu as condições atuais de existência, suas estações e climas.

Os primeiros seres que mereceram o título de humanos parece terem sido os selvagens primitivos, que viviam nus e incultos nos bosques, disputando sua vida aos animais ferozes.

A anatomia do homem assemelha-se à dos grandes símios; o homem, porém, não descende do macaco. É o aperfeiçoamento de uma espécie desaparecida. A estrutura respectiva mostra que seu corpo pertence à ordem dos mamíferos.

Uma admirável Lei de Progresso presidiu ao desenvolvimento gradativo dos seres, desde os mais humildes até o homem.

A vida terrestre é uma grande unidade, e o homem a sua coroação.


Terceira época

Deus passeava pelo jardim, à tarde, quando se levantou um vento leve.

Adão e Eva quiseram ocultar-se, porém Deus os chamou.

Adão respondeu:

– Ouvi vossa voz; tive medo, porque estava nu, e me ocultei.

– E como soubeste que estavas nu, senão por teres comido do fruto vedado?

– Foi a mulher quem mo ofereceu.

O Senhor Deus disse à mulher:

– Por que fizestes isso?

Ela respondeu:

– A serpente me enganou.

Então Deus disse à serpente:

– Arrastar-te-ás sobre o ventre e comerás terra todos os dias.

Deus disse à mulher:

– Terás filhos, por entre dores.

Deus fez para Adão e sua mulher vestes de peles, com as quais os vestiu. E os expulsou do jardim, e colocou os querubins, munidos de espadas de fogo, para guardarem a entrada.



Quarta época

Pelo desenvolvimento gradual de suas faculdades físicas e morais, o homem se tornou cada vez menos bárbaro.

À idade da pedra bruta sucederam-se as idades da pedra polida, do bronze e do ferro. Sucessivamente e sempre, foram inventadas as vestimentas, as habitações, os instrumentos de trabalho, os aparelhos de ciência e os de indústria, as artes da civilização.

Os homens se tornaram justos e pensadores. A Humanidade pôde produzir espíritos da estirpe de Homero, Sócrates, Platão, Arquimedes e Newton.

Contudo, a raça humana atualmente ainda é assaz primária.

Continuará, porém, sua marcha ascensional, principalmente d’ora em diante, com o desenvolvimento das ciências. A Ciência avança. Há sempre o que investigar.



Quarta época

Para salvar a posteridade de Adão do “pecado original”, Deus se encarnou no seio de uma virgem, que se tornou mãe, com a intervenção do Espírito Santo, sem o concurso do marido, José.

A anunciação teve lugar a 25 de março e o nascimento a 25 de dezembro.

Os profetas bíblicos anunciaram que o Salvador devia ser filho de David. Essa a razão pela qual os Evangelhos dão a genealogia de Jesus-Cristo, mostrando que o pai de Jesus, S. José, e seu avô descendiam de David, pela mulher de Urias, que o santo rei elevara.

Jesus-Cristo provou, pela sua missão, por seus milagres, pela ressurreição, que era realmente Deus, e a Humanidade foi salva. Jesus-Cristo trouxe a Verdade ao mundo, e desde há 18 séculos não há nada mais a investigar.

Estela leu, e, pela primeira vez, dúvidas religiosas atravessaram seu espírito. Releu uma terceira vez e certificou-se de que a cópia estava curtíssima. Seu confessor lhe aconselhara desconfiar da imaginação do “Solitário”, e em um lampejo ela percebeu que, no paralelo precedente, a imaginação estava – fora de dúvida – à direita, e não à esquerda. A História Científica é fundada na observação direta de fatos da Natureza, enquanto que a História Religiosa apenas oferece por base ficções, de um belo simbolismo oriental, porém ficções puras, ingênuas, indemonstráveis e mesmo contraditórias.

A jovem pesquisadora perguntou a si própria:

Se realmente o Sol, a Lua e as estrelas foram criadas em um dia – e o quarto – para luzir sobre a Terra;

Se em verdade Deus se dera ao trabalho de modelar um corpo de argila, para deste formar Adão;

Se em realidade Eva foi tirada de uma costela do homem assim criado;

Se verdadeiramente a serpente falara.

Depois, de ligação em ligação, aprofundou os conhecimentos bíblicos, e achou que o autor da narração tratava Deus um tanto familiarmente, e não via nele mais do que um homem. Releu diversas vezes em sua Bíblia que Deus “passeava pelo jardim, à tarde, quando se levantou um vento leve” e que “Ele próprio fez vestimentas” para cobrir Adão e Eva. Nunca estudara a Bíblia com essa atenção, e não duvidava do que seus olhos liam. E então ficou surpreendida com outras singularidades, tal a condenação da serpente a arrastar-se daí em diante, e perguntou a si própria, sem poder achar resposta, qual era a maneira pela qual se locomovia a serpente antes do pecado de Eva.

E depois, sem qualquer malícia, pareceu-lhe que Jesus não seria descendente de David, se José não fosse seu pai, e se José fosse seu pai a virgem Maria não continuaria virgem, no que notou haver contradição.

E também lhe pareceu que Jesus não salvara a Humanidade, de vez que três quartas partes dos habitantes da Terra não conhecem o Evangelho, ou nele não acreditam.

Em suas perplexidades, procurou alguma lógica, remontou à origem e se apercebeu de que a redenção se baseava na falta (pecado original), a falta na tentação, a tentação na existência do demônio e esta na luta dos anjos antes da criação do homem.

Todo esse edifício lhe pareceu muito fabuloso.

Teve um resto de dia inquieto e durante toda a noite não conseguiu conciliar o sono. Era possível! Vivera tão tranqüila até então! Seus pensamentos tinham sido tão confiantes, tão simples! A vida e a morte tinham sido explicadas e, contudo, começava a duvidar. E quanto mais se aprofundava, e quanto mais lia a Bíblia, mais duvidava. Que havia ali de verdade? Nada, talvez!

E passou dias, noites, semanas inteiras em uma perturbação de espírito que não conhecera até então; era por vezes uma angústia horrível, para ela que se sentira tão feliz na sua fé. E se não fosse verdade? dizia.

Aconteceu-lhe até perguntar-se se Jesus era Deus, se ela mesma possuía uma alma, se esta alma era imortal e em que se tornaria depois da morte... Tudo se desmoronava a um tempo só. E horríveis dúvidas a atenazavam cruelmente. Não dormia mais, não se alimentava mais, definhava.

Semanas escoaram nessas angústias sempre crescentes, por isso que seu coração era puro e sincero. Não mais crer! viver sem religião! Impossível! Monstruosidade!

Por fim, não se podendo conter por mais tempo, foi consultar seu diretor espiritual. Ele a deixou expor todas as dúvidas, sem proferir uma única palavra.

Depois, no fim, quando ela esperou as explicações:

– Minha querida filha, disse-lhe, vós pecais por orgulho. Essas questões não são nem do vosso sexo, nem da vossa idade. Com que direito pretendeis perscrutar os desígnios de Deus? Os mistérios da nossa Santa Religião não são discutíveis. A revelação divina jamais se discute. Acreditai-vos superior aos Apóstolos e aos Padres da Igreja, e supondes que santos inspirados por Deus, tais São Paulo, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, ou que espíritos eminentes, do valor de Pascal, Bossuet, Fenelon, e tantos outros, hajam sido impostores? Pensais que N. S. Jesus-Cristo, que se proclamou – ele mesmo – filho de Deus, tenha sido um farsante? Semelhantes dúvidas são sacrilégios. Cumpri vossos deveres; segui os mandamentos de Deus e da Igreja, não esqueçais a prece da noite e o exame de consciência, e encontrareis os benefícios da graça e a tranqüilidade da fé. Humilhai-vos com os nossos grandes doutores, com Tertuliano, que não hesitou em dizer: “Credo quia absurdum” (creio porque é absurdo). Nós não podemos compreender os mistérios. E, principalmente, não lede mais esses livros que perturbam inutilmente o espírito. Tendes outras coisas a fazer no mundo, em vez de investigações pseudocientíficas. Deixai a Geologia aos geólogos e a Teologia aos teólogos. Sois boa musicista, creio. Isso não é pecado. Os prazeres permitidos de uma sociedade honesta e distinta, qual o mundo a que pertenceis por nascimento, dar-vos-ão mais satisfações do que essas vãs querelas renovadas, de heréticas, já condenados por todos os Concílios. Em breve teremos a estação das viagens. Ide contemplar as maravilhas da Natureza; à beira-mar ou entre as montanhas, adorareis Deus em suas obras, e voltareis sã de corpo e de espírito. De outra maneira, seria estiolar-se nas bibliotecas onde cada livro está impregnado de pó e micróbios. Até à vista, minha querida filha, fazei vosso ato de contrição e recebei a minha bênção paternal.

Pela primeira vez, a jovem cristã saiu do confessionário sem experimentar a suave emoção interior da graça, cuja penetração em tantas outras ocasiões inundara sua alma de reconfortadoras claridades. Julgou aperceber-se de que sua fé vacilava e, embora sentindo o desejo de avançar no saber, lastimava ter começado. Recordou os inefáveis prazeres da sua primeira comunhão e acreditou ter tornado a encontrar a graça. Antes de transpor os umbrais da igreja estava convencida de que era preferível não continuar as leituras inquietantes, e que o melhor era não mais nelas pensar.

Tomou essa resolução. Mas, a luz exterior, o ar pleno, o Sol de maio, as visitas da tarde fizeram evaporar tais impressões, e quando naquela mesma noite reviu a “Aurora de um novo dia” sobre a mesinha do seu aposento azul, não se pôde conter de retomar o livro nas mãos, folheá-lo e continuar a leitura.

Após haver exposto a história do nosso planeta, o “Solitário” mostrava que a Humanidade terrena, a despeito dos progressos que já fizera, ainda está em idade infantil.

“Ela é material, grosseira, inconseqüente e brutal. Menos dividida do que nos tempos primitivos das tribos, quando estas se mantinham constantemente em guerra de aldeia a aldeia, qual acontece ainda em nossos dias nas regiões da África Central; menos dividida também do que em tempos mais recentes em que o Rei de França, o Duque de Normandia e o Duque de Borgonha viviam em lutas permanentes, em que Paris se batia contra Ruão e Dijon, da mesma forma que Florença contra Veneza, Berlim contra Frankfurt, Edimburgo e Dublin contra Londres, e igualmente do que nos primeiros dias da monarquia francesa em que o rei de Paris se batia contra o rei de Soissons; essa pobre Humanidade está, no entanto, longe ainda de despojar-se do antigo e bárbaro erro de regionalismos, e ganhou muito pouco também em liberdade real, porque quase todos os seus recursos são consagrados a manter certos grupos, encerrados em fronteiras artificiais e variáveis, sentimentos de rivalidades, animosidades e rancores que a esgotam e esterilizam. A inteligência está ainda tão embrutecida, que os povos honram os diplomatas que, pela mentira e fraude, fizeram desencadear as guerras mais ruinosas para se cobrirem de homenagens e glórias. Ainda se vêem reis e imperadores asseverando a seus súditos que a guerra é de instituição divina e que o mais inteligente proceder consiste em derramar o sangue sobre o altar da pátria. O militarismo, assim exagerado, vale por um crime, uma vergonha, uma loucura grosseira e malsã. Todos os governos da Europa, reunidos, têm menos inteligência do que um bando de lobos, ou, se verdadeiramente raciocinam sobre a sua própria conduta, proclamam em princípio o roubo e o assassínio. Prefiro acreditar que são inconscientes e vítimas do atavismo. Os homens são educados no porte de punhais nos bolsos para se degolarem feito brutos. Os soldados da Europa despendem doze milhões por dia, exercitando-se: doze milhões por dia, quatro bilhões quatrocentos trinta e cinco milhões por ano, dinheiro pago pelos que trabalham. A Europa está atualmente endividada em cento e vinte e um bilhões (sendo a parte da França trinta bilhões). Tal militarismo é uma escola de ociosidade que rouba trabalhadores aos seus ofícios. Insensata e dividida, essa Humanidade terrestre. Os cães, os gatos, as toupeiras, as ostras, as cenouras, as abóboras são menos estúpidas. Os animais e as plantas lutam pela vida; os homens pugnam pela glória de ser mortos!

“Ao mesmo tempo, continuava o autor, todos esses seres vivem sem saber e sem indagar onde estão. Sua principal ocupação é o dinheiro, sem limites na aquisição, embora dele não careçam porque têm a existência assegurada; ou ainda quando o despendem nas mil futilidades supérfluas em que dissipam sua existência. Uns, incessantemente premidos pelas necessidades da vida material, trabalham constantemente, sem ter tempo para pensar; outros, mais privilegiados na aparência, não são mais intelectuais. Ninguém procura esclarecer o espírito, instruir-se a respeito do Universo e da Criação. Estão satisfeitos com a sua ignorância nativa, da qual saem por exceção. Suas impressões se limitam à superfície, e os escritores mais populares são os que narram em estilo imaginoso às funções do estômago e do ventre. Do cérebro, nada. A arte, o teatro e o romance não são inspirados por ideal algum. O povo mais espiritual da Terra escuta e aplaude canções tão idiotas quanto grosseiras. A matéria espessa e pesada domina tudo.”

Eis o que leu com os seus próprios olhos, e sentia ser verdade. A Humanidade se lhe mostrava bem diferente do que lhe parecia até então.

“A Humanidade – acrescentava o “Solitário” – não tem mais do que um lustro de idade. Certamente não atingiu ainda a da razão, que, na criança, desperta geralmente aos sete. E como já tem mais de dez mil séculos, é altamente provável que só atinja o seu apogeu intelectual dentro de muitos milhões.

“O papel do pensador é o de precedê-la. As almas que pensam são raras e formam uma exceção de elite, cuja felicidade consiste na pesquisa pura da Verdade e no desinteresse pelas paixões grosseiras e pelas vaidades do mundo. O sentimento religioso existe no fundo dessa indagação da Verdade. Mas Deus pressentido pelo pensamento é um Ser transcendente, sublime e inidentificável, tão acima da nossa faculdade de compreensão quanto o infinito está acima do finito. O homem inventou um deus antropomorfo.

Mon Dieu n'est pas le tien et je m'en glorifie.
J'en adore un plus grand que tu ne comprends pas!

(Meu Deus não é o teu; disso me glorifico.


Adoro um Deus maior que não compreendes.)

“O Espírito reina tão pouco na Humanidade, que ela só acredita nas aparências. Não há muito tempo, todos os habitantes da Terra pensavam habitar uma superfície plana fixada na base do Céu e suportando o Universo. Para eles, a Terra é tudo, o Céu, nada.

“Igualmente, acreditam na matéria visível. Para eles um bloco de ferro é sólido, embora seja composto de moléculas invisíveis e impalpáveis, que não se tocam; ignoram que o agente essencial do Universo é a força e não a matéria. A gravitação universal que sustenta os mundos no Espaço é invisível e imponderável; se a suprimirmos na concepção, o movimento do Universo deter-se-á e a vida desaparecerá.

“O que eles denominam o mundo visível é, aliás, um quase contra-senso. Na multidão de raios que o Sol envia à Terra, apenas um sobre cem se torna acessível à nossa retina e faz vibrar nosso nervo óptico. Uns vibram muito rapidamente, outros muito lentamente e o que vemos é um quase nada em relação ao que existe. Entretanto, os nossos literatos e filósofos falam dessas impressões incompletas e relativas qual se elas representassem o absoluto.

“Assim também com relação ao corpo humano. Vêem nele o que a Anatomia e a Fisiologia permitem conhecer, e não percebem que esse conjunto de tecidos não constitui o ser humano. A Alma é invisível. As forças com que a Alma age sobre o corpo e o mundo exterior é invisível. Procura-se explicar tudo pelo corpo visível e suas funções, e não se obtém nenhum resultado satisfatório. Daí as incompetências e as cegueiras das ciências denominadas positivas, em referência a tudo que pertence à ordem psíquica, que é, no entanto, tudo de essencial no homem.

“Começamos a reconhecer o erro das aparências. É tempo de nos ocuparmos com a realidade. É a nova era da Ciência que se abre agora ante nosso horizonte ampliado. Vimos de nascer à alvorada de um novo dia. Abramos nossas asas. Voemos na luz e no infinito!”

Estela prosseguiu lendo. Quer se trate das mulheres, dos reis ou do povo, para impor-se é mister agradar. E esse autor lhe agradava, pela originalidade, pela independência. Sentia-se, pela sua própria natureza, inclinada às curiosidades intelectuais, e se por vezes se perdera, em tempos anteriores, nas nuvens do misticismo, fora por ter acreditado na autenticidade da revelação cristã. Começava a sentir agora que, se essa revelação muito se aproximara da verdade, contudo não a continha, nas ficções encantadoras do paraíso terrestre – esse elegante símbolo de um período da história oriental. Apegou-se à leitura da segunda obra com o sentimento de que, longe de lhe ser proibida, essa curiosidade era uma obrigação para o adiantamento de seu Espírito. A raça humana pareceu-lhe realmente infantil e pouco intelectual. Sentia-se acima das vulgaridades universais pelo desprendimento espiritual e pelo seu anseio de saber. Leu avidamente os diversos capítulos, e chegou ao que era de algum modo a conclusão e trazia por título: “A Libertação do Pensamento pela Astronomia”.

O autor mostrava a Terra como ilha perdida no infinito. Miríades de mundos se balançavam no Espaço, uns habitados atualmente por Humanidades análogas à nossa; outros por espécies inferiores: larvas, elementos rudimentares, monstros, animais, embriões do pensamento; ainda outros por seres tão superiores ao homem e à mulher terrestres quanto nós o somos aos peixes do mar ou aos moluscos inconscientes; outros mais, outros povoados, hoje desertos, cemitérios de Humanidades extintas; outros, enfim, em preparativos para as glórias do porvir. Compreendia-se assim que o nosso pequeno e medíocre planeta não passa de um átomo na imensidade, e que a nossa existência atual representa um segundo na hora da eternidade. Os mundos sucedendo mundos, os espaços aos espaços, em todas as direções, por toda parte aonde era possível dirigir um olhar, sem fim em qualquer sentido.

O centro desse infinito estava em toda parte e a circunferência em parte alguma. Sobre a Terra ou em Sírio, estava-se no centro. Era possível avançar em linha reta em uma direção qualquer, com a velocidade do relâmpago, e viajar com essa velocidade durante dez mil séculos, sem mudar de lugar, sem adiantar um passo, sem se aproximar de forma alguma de limites que não existem. Um telegrama enviado hoje, para as fronteiras do Espaço, jamais chegaria. E então, sobre essa pequena Terra, ilha gigante nos raios do nosso Sol, cada um se sente como que perdido, abandonado.

Emocionada por esse peso de infinito que lhe pesava sobre o coração, Estela abriu a janela que dava para os castanheiros de um grande parque. O ar estava fresco e perfumado; a noite silenciosa, nesse quarteirão deserto. A Lua, em quarto crescente, flutuava qual pequenina barca luminosa, sobre os vapores do horizonte ocidental, vagamente iluminado pelas luzes de Paris; Vênus e Júpiter brilhavam na constelação dos Gêmeos, acima de Castor e Pólux, e as quatro estrelas de Leão pareciam no seu alinhamento mostrar ao longe, a leste, a aresta da Virgem, por cima da qual brilhavam Arctúrus, a constelação e as pequenas estrelas da Coroa boreal. As estrelas mais resplandecentes cintilavam bonançosas e atraíam o olhar e o pensamento.

Com os cotovelos apoiados à janela, contemplou-as, identificando-as pelos nomes, e sua imaginação voou até elas. A beleza da noite, a calma atmosférica, os lumes do céu, a imensidade do Espaço, transportaram seu pensamento às altas regiões que acabara de visitar na sua leitura. Paris que dormia, os edifícios dos quais se notava algumas cúpulas escuras, a torre quadrada do Convento dos Pássaros, as próprias igrejas, tudo lhe parecia coisas inferiores, terrestres e humanas. O mistério do céu estrelado arrebatou sua alma, qual um sonho divino. E pela primeira vez sentiu que a verdade pairava lá, em cima; que ninguém a encontrou cá em baixo; que as religiões são tentativas incompletas, e que se uma dentre elas pretendesse confiscar o Deus – das estrelas, seria vítima de infantil puerilidade.

Sentiu então sua alma expandir-se verdadeiramente e elevar-se no espaço, rumo das culminâncias puras do éter, e pareceu-lhe receber um novo batismo, que se tornava iniciante de uma religião nova – que não tinha nada de terreno, e, ainda, que planava nas regiões sublimes em que brilhavam as estrelas gêmeas de Castor e Pólux. Depois, experimentou a sensação de estar só no mundo; de que o Universo era demasiado imenso; de que o silêncio da noite estrelada era apavorante; de que Deus, inacessível, a abandonara. Ao entusiasmo e à contemplação do céu estrelado sucedeu a emoção de uma imensidade, grande demais para suportar, e foi invadida por uma profunda melancolia. E porque continuasse a contemplar as estrelas, seus olhos se velaram de lágrimas. E permaneceu muito tempo assim, de cotovelos apoiados à janela. E, quando se retirou, o crescente, bem tombado para a direita, já desaparecia atrás das árvores e continuava a descer na noite, levada no inexorável movimento dos astros e das coisas.




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