Camille Flammarion o fim do Mundo



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III
O apogeu


Des alles! des alles!

Des alles au-dessus de la vie!

Des alles par delà de la mort!
RUCKERT.
O progresso é a lei suprema, imposta pelo Criador a todas as criaturas. Cada ser procura o melhor. Nós ignoramos de onde viemos e para onde vamos. Os sistemas solares conduzem os mundos através do espaço infinito. Nós não vemos a origem, nem o fim, e o porquê permanece desconhecido. Mas, em nossa esfera de percepção tão restrita, tão limitada e incompleta, mal grado à morte dos indivíduos, das espécies e dos mundos, constatamos que o progresso rege a natureza e que todo ser criado evolve, constantemente, para um grau superior. Todos querem subir. Ninguém quer descer.

Através das metamorfoses seculares do planeta, a Humanidade continuara a engrandecer-se com esse progresso, que lhe é lei suprema e, desde as origens de sua existência planetária, até o momento em que as condições de habitabilidade entraram a decrescer, todos os seres vivos se tinham embelezado e enriquecido de órgãos mais perfeitos. A árvore da vida terrestre aflorada com os protozoários rudimentares, acéfalos, cegos, surdos e mudos, quase totalmente desprovidos de sensibilidade, tinha-se alçado à luz, adquirido sucessivamente os maravilhosos órgãos dos sentidos e chegara ao homem, que, aperfeiçoando-se por sua vez, de século em século, transformara-se de selvagem primitivo, escravo da natureza, no soberano intelectual, dominador do mundo e procurando fazer dele um paraíso de felicidade, de ciência e de voluptuosidade.

A Ciência havia transfigurado o planeta; seus habitantes viviam, enfim, no céu, sabendo-se dele cidadãos. A física e a química contavam tantos progressos quanto a astronomia. A indústria, em toda parte, substituíra por máquinas automáticas o trabalho manual. Culminavam as artes nas mais nobres quão belas concepções humanas.

A sensibilidade nervosa do homem adquirira desenvolvimento prodigioso. Os seis velhos sentidos da vista, audição, olfato, paladar, táctil, genésico, tinham-se elevado gradualmente acima das grosseiras sensações primitivas, para atingir uma delicadeza requintada. Graças ao estudo das propriedades elétricas dos seres vivos, um sétimo sentido – o elétrico, se criara, por assim dizer, e todas as peças, e todos os homens e mulheres possuíam a faculdade mais ou menos vivace e ativa, conforme o seu temperamento, de atrair ou repelir os corpos vivos ou inertes. O sentido predominante, porém, o que representava o maior papel nas relações humanas era indubitavelmente o oitavo, o sentido psíquico, que permitia aos espíritos comunicarem-se, à distância. Outros dois sentidos foram entrevistos, mas sofreram paralisação fatal no seu desenvolvimento, quase ao nascer. O primeiro tivera por objetivo a visibilidade dos raios ultravioleta, tão sensíveis aos processos químicos, mas, completamente obscuros para a retina humana. Os olhos humanos que procuraram exercitar-se nesse sentido, quase nada alcançaram em faculdades novas, e muito perderam das antigas. O segundo tivera por fim a orientação, mas quase nada conseguira, mesmo procurando pesquisar e adaptar-se ao campo do magnetismo terrestre.

Ninguém lograva, tão-pouco, eximir os ouvidos aos discursos soporíferos, qual se faz com os olhos fechando-os à vontade, e como se faz noutros mundos mais evolvidos.

Nosso organismo imperfeito opusera-se, fatalmente, a mais de um progresso desejável.

A descoberta da periodicidade sexual do óvulo feminino tinha acarretado, por algum tempo, um desequilíbrio alarmante quanto à proporcionalidade dos nascimentos, levando a crer que só houvesse filhos varões. E o ritmo só se restabeleceu em virtude de uma verdadeira transformação social.

Pouco a pouco, em certas regiões, as mulheres deixavam de ser mães e atribuíam os encargos da função, julgados prejudiciais à elegância e ao comodismo, às mulheres ditas do povo, e dos campos. O amor tornara-se a lei suprema, como levando em si o seu objeto, em detrimento do velho preceito de perpetuidade da espécie, para só envolver a criatura em gozos e afagos. A beleza e o perfume das flores também fazem, às vezes, esquecer os frutos. De resto, muito tempo havia que só das camadas populares saíam as gerações robustas. Os círculos aristocráticos, enervados, apenas davam raros e mofinos rebentos. O que se via, então, nas cidades esplendentes, era uma nova raça de mulheres a derramarem no mundo o encanto caricioso e lascivo das voluptuosidades orientais, ao demais refinadas pelos progressos de um luxo extravagante.

Os costumes e as convenções sofreram profundas alterações. A infância era educada pelo Estado, as heranças foram radicalmente suprimidas. Os vínculos do casamento legal já não existiam, nem lei alguma que encadeasse dois seres. As mulheres, eleitoras e elegíveis, tendo conquistado posição destacada na legislatura, esforçaram-se por manter íntegras as antigas vantagens do instituto nupcial; contudo, não puderam impedir caíssem elas em progressivo desuso. As uniões inspiradas só no amor, ardente e compartido, substituíram os partidos de mera conveniência econômica ou social.

A livre escolha dos nubentes, a seleção e a hereditariedade produziram uma raça de homens regenerados, qual se houvera saído da terra fecundada por novo dilúvio, para novamente transformar a fisionomia do mundo.

Novas civilizações se sucederam, fluxo e refluxo da maré imensa da história humana. A matéria humilhou-se pouco a pouco, graças ao domínio ascendente do espírito.

Os operários intelectuais, cujos dias fogem tão rápidos, tinham conseguido prolongar de duas horas o seu trabalho consagrado a pesquisas úteis à Humanidade, roubando essas duas horas aos nulos de inteligência, que procuram “matar o tempo”. De comum acordo, os primeiros estabeleceram dias de 16 horas e os segundos de 12, no sentido de que os primeiros dormiam 6 horas, enquanto os segundos soneavam 10, durante as quais, hábeis técnicos lhes subtraíam, numa operação sutil de alguns segundos, certa dose de energia vital, que transfundiam nas artérias dos primeiros. Assim, era como se todos houvessem dormido 8 horas, mas, com um ganho real de 2 horas a favor dos homens úteis.

O oitavo sentido – o psíquico –, representava um grande papel nas relações humanas.

O desenvolvimento das faculdades intelectuais e a cultura dos estudos psíquicos haviam transfigurado completamente a nossa raça. Descobriram-se na alma forças latentes, dormitantes no período primário dos instintos grosseiros, que durara mais de um milhão de anos. À medida que a alimentação bestial de tantos anos tornara-se de ordem química, as faculdades se haviam despertado e acendrado, num surto magnífico. Desde então, não mais se pensava como atualmente. As almas se comunicavam à distância. As vibrações etéreas, resultantes dos movimentos cerebrais, transmitiam-se por virtude de um magnetismo transcendente, do qual até as crianças podiam utilizar-se. Todo pensamento excita no cérebro um movimento vibratório, que origina ondas etéreas e, quando estas encontram um cérebro sintonizado com o emissor, podem comunicar-lhe o pensamento inicial, tal como a corda vibrante, recebendo à distância a ondulação do som, ou como a placa telefônica reconstituindo a voz silenciosamente transportada por um movimento elétrico.

Essas faculdades, por muito tempo latentes no organismo, tinham sido estudadas, analisadas, desenvolvidas. Era comum ver-se uma criatura atrair outra, mentalmente, e ter diante de si a imagem desejada. A mulher continuou exercendo sobre o homem uma atração mais viva que a recíproca. O homem seria sempre o escravo do amor. Nas horas de ausência, de solidão, de sonho, bastava ao espírito pensar para que visse aparecer-lhe a doce imagem do ser amado. Por vezes, a intercomunicação era tão completa que a imagem se fazia tangível e audível. Toda a sensação está no cérebro, não alhures. Os seres terrestres, que assim viviam na esfera espiritual, chegavam mesmo a comunicar-se com os seres invisíveis que nos rodeiam, desprovidos de corpo material. E também o faziam com os habitantes doutros mundos. A primeira comunicação interastral fora com o planeta Marte e a segunda com Vênus. Esta prosseguiu até o fim da Terra, mas a de Marte cessou com a extinção da humanidade marciana. Em compensação, as comunicações com Júpiter só começaram para alguns raros iniciados, já nos últimos períodos da vida terrestre.

Esses estudos ultramundanos, selecionados e bem dirigidos, acabaram criando uma raça verdadeiramente nova, hipernervosa, e cuja forma orgânica era, sem dúvida, semelhante à nossa, mas cujas faculdades intelectuais diferiam inteiramente. O conhecimento da hipnose, as ações hipnóticas, magnéticas psíquicas substituíram com vantagem os velhos processos tão bárbaros, e às vezes tão cegos, da medicina, da farmácia e mesmo da cirurgia. A telepatia tornara-se uma ciência tão vasta quão fecunda.

A Humanidade tinha atingido um grau de racionalismo suficiente para viver tranqüila. Os esforços da inteligência e do trabalho aplicaram-se à conquista de novas forças da natureza e ao aperfeiçoamento constante da civilização. Insensível, gradualmente, a personalidade humana se transformara, ou, por melhor dizer, transfigurara-se.

Os homens, quase todos inteligentes, lembravam-se e sorriam das ambições infantis dos seus antepassados da época em que todos procuravam ser alguém, tal como deputado, senador, acadêmico, prefeito, general, pontífice, diretor disto ou daquilo, grão-cruz de alguma ordem, etc.; a combaterem-se tão encarniçados na luta das aparências. Compreenderam eles, enfim, que a verdadeira felicidade é espiritual, que o estudo constitui o maior prazer da alma, que o amor é o sol dos corações, que a vida é curta e não merece que se lhe apegue às superficialidades. Todos se julgavam felizes com a liberdade de pensar, sem preocupações de riquezas que já não existiam.

As mulheres adquiriram uma beleza perfeita, bustos esbeltos, diferentes da amplitude dos helênicos. Cútis de brancura translúcida, olhos iluminados de sonhos, cabelos sedosos e longos, nos quais o castanho e o louro de outros tempos se fundiram num castanho ruivo, com tonalidades auri-solares, de revérberos harmoniosos. As antigas mandíbulas bestiais desapareceram, idealizadas em pequenina boca, diante de cujos sorrisos, dessas pérolas brilhantes, embutidas em róseas gengivas, não se podia compreender como os prístinos amantes beijavam as mulheres do outro tempo. De todas as épocas, na mulher o sentimento dominara o julgamento. O sistema nervoso conservara a sua auto-excitabilidade tão curiosa, de sorte que ela, a mulher, não deixara nunca de pensar um tanto diversamente do homem, conservando a sua indômita tenacidade de sentimentos e idéias. Mas, no seu conjunto, o ser feminino era tão bizarro, seus dotes cordiais envolviam o homem em tal atmosfera, doce e penetrante; tanta a sua abnegação, devotamento e bondade, que nenhum progresso mais se poderia desejar, como se a felicidade houvesse atingido o seu apogeu para a vida eterna.

É possível que a donzela fosse uma flor prematuramente desabrochada; mas as sensações eram tão vivas, decuplicadas, centuplicadas pelas sutilezas da transformação nervosa gradualmente operada, que a jornada da vida parecia já não ter aurora nem crepúsculo. Ao demais, o espírito, o pensamento e o sonho dominavam a velha matéria. Reinava a beleza. Foi uma era de voluptuosidade ideal.

Mais que em outra época qualquer da História, os homens, neste período de hiperestesia de todos os sentidos, se tornaram loucos pelas mulheres, e as mulheres loucas pelo próprio corpo. Essa espécie de superexcitação cerebral não impediu os mais amplos trabalhos espirituais de se completarem, nem a realização das mais extraordinárias descobertas científicas. Dir-se-ia viver, então, uma outra raça humana, sobrepujando de muito a dos Arístotos, dos Kepler, dos Hugos, das Frineias, Dianas de Poitiers, Paulinos Borghèse. A transformação era tão completa que, nos museus de geologia, mostravam-se com estupefação, a raiar por incredulidade, os espécimes de homem fóssil do século XX, com os seus ossos pesados, dentes brutais, grosseiros intestinos. Mal se admitia que organismos tão espessos pudessem ter sido ancestrais da raça elegante do apogeu.

Dessarte, a Humanidade chegara a uma situação de bem-estar moral e físico, grandeza intelectual e aperfeiçoamento científico, artístico e industrial incomparavelmente superiores a tudo o que possamos imaginar. Dissemos que o calor central do globo tinha sido conquistado e aplicado no inverno ao aquecimento de cidades e vilas, bem como utilizado em várias indústrias, durante milhões de anos. Quando esse calor, gradualmente diminuído, se extinguiu de todo, captaram-se os raios solares, armazenando-os e utilizando-os à vontade. Das águas oceânicas extraíam o hidrogênio. A princípio as cachoeiras, depois as marés, foram transformadas em força calorífica ou luminosa. Todo o planeta era patrimônio da Ciência, a jogar discricionariamente com todos os elementos.

Os sentidos humanos elevados a tal grau de refinamento que, hoje, antes se diriam extraterrestres. As novas faculdades de que falamos, aperfeiçoadas de geração em geração; o ser humano de mais a mais desprendido da matéria; a alimentação transformada; a inteligência governando os corpos; esquecidos os apetites vulgares dos tempos primitivos; as faculdades psíquicas em atividade constante, agindo à distância em quaisquer latitudes e chegando mesmo, qual o dissemos, a atingir os habitantes de planetas vizinhos; aparelhos ao presente inconcebíveis, a substituírem os velhos instrumentos ópticos que ensejaram os progressos da astronomia física; todo um arsenal inteiramente novo de percepções e de estudos num ambiente social esclarecido, do qual haviam desaparecido a inveja, o ciúme, a miséria, o roubo e o assassínio; – eis o que constituía uma Humanidade de carne e osso qual a nossa, mas, incomparavelmente superior em grandeza intelectual, em sensibilidade requintada, em sutileza espiritual, tanto quanto o seremos hoje em relação aos símios do período terciário. O interesse venal, sobretudo, tinha deixado de envenenar os pensamentos e atos humanos.

Graças aos progressos da fisiologia, à higiene universal, aos cuidados meticulosos da anti-sepsia, à assimilação dos extratos orquíticos e vertebrais, à renovação do sangue nos tecidos, ao bem-estar geral e ao exercício de todas as faculdades, a vida humana atingira graus de maior longevidade, não raro vendo-se velhos de 150 anos. Não puderam, é fato, matar a morte, mas acharam meios de não envelhecer e de conservar as energias juvenis até além dos 100 anos. A maior parte das enfermidades foram dominadas, desde a sífilis até a dor de dentes. E os caracteres eram, em regra, afáveis – de parte algumas nuanças inevitáveis –, porque isso depende muito dos temperamentos e da saúde, e os organismos se apresentavam todos bem equilibrados.

A Humanidade tendera para a unidade: uma só raça, um só idioma, um só governo, uma só religião (a filosofia astronômica); nada de sistemas religiosos oficializados, e sim a voz das consciências esclarecidas. Nessa unidade, as remotas diferenças antropológicas acabaram por se fundirem. Não se viam melífluos beatos nem cépticos cabeçudos. As religiões antigas, quais o catolicismo, o islamismo, o budismo, o moisaísmo, tinham sido relegadas ao plano das lendas místicas. A trindade católica habitava o céu pagão. Os holocaustos oferecidos aos deuses antropomorfos e aos seus profetas, durante tantos séculos, quais foram Buda, Osíris, Jeová, Júpiter, Jesus ou Maria, Moisés, Maomé, os cultos antigos e modernos, todas essas abstrações do pietismo religioso se tinham evaporado com o incenso das preces, perdidos no céu terrestre, na atmosfera nebulosa, sem alcançar o Ser inatingível. O espírito humano não conseguira conhecer o incognoscível.

A Astronomia tinha atingido o seu alvo: o conhecimento da natureza dos outros mundos. Tal como se deu com as línguas, com os ideais, com as leis e os costumes, também outra era a maneira de calcular o tempo. A divisão em anos e séculos continuava em vigor, mas a era cristã desaparecera com os santos do calendário, bem como as eras muçulmana, judaica, chinesa, etc.

As velhas regiões do Estado extinguiram-se com os seus respectivos ministérios, progressivamente substituídos no coração do homem pela filosofia astronômica.

Não havia mais que um calendário para toda a Humanidade, composto de doze meses repartidos em quatro trimestres iguais de três meses de 31, 30 e 29 dias, em que cada trimestre continha exatamente treze semanas. O dia de Ano-Bom era festivo e não entrava no cômputo. Nos anos bissextos eram contados dois dias de Ano-Bom. A semana foi conservada. Todos os anos começavam em segunda-feira e as datas correspondiam indefinidamente aos mesmos dias da semana. O ano principiava para todo o globo na antiga data de 20 de Março.

A era, puramente astronômica, tinha origem na coincidência do solstício de Dezembro com o periélio e renovava-se após vinte e cinco mil, setecentos e sessenta e cinco anos.

A primeira era, abrangendo toda a história antiga e suprimindo as datas negativas, anteriores ao nascimento do Cristo, partia do ano 24517 antes da era cristã. Era aí que se radicava a origem da história. A segunda era se havia fixado no ano 1248 de nossa era; a terceira iniciava-se com uma festividade universal no ano 27013 e assim continuaram, levando em conta, na série, as variações astronômicas seculares de precessão dos equinócios e da obliqüidade da eclíptica. Os princípios racionais acabaram por triunfar de todas as bizarrias e fantasias dos antigos cronologistas.

A Ciência soubera apossar-se de todas as forças da Natureza e dirigir todas as forças físicas e psíquicas a prol da Humanidade. Os únicos limites de suas conquistas foram os das faculdades humanas, certo pouco amplas, sobretudo quando comparadas às de alguns seres extraterrenos, mas, ainda assim, de muito excedentes às que hoje conhecemos.

Assim chegou o planeta a realizar uma pátria única, intelectualmente iluminada, vingando seus altos destinos como em coro imenso que se desdobra em acordes de imensa harmonia. Todavia, cada mundo tem sua esfera de expansão espiritual e a nossa Terra comportava, também ela, um máximo inultrapassável. Durante os dez milhões da história da Humanidade, a espécie humana, sobrevivendo a todas as gerações, como se fora um ser real, experimentara todas aquelas grandes transformações, no físico como no moral. Retivera sempre consigo o cetro da soberania terrena, nenhuma outra raça a destronara, visto que nenhum ser baixa do céu nem sobe do inferno. Nenhuma Minerva nasce perfeitamente armada. Vênus alguma surge núbil de uma concha nacarada, na crista das ondas. Tudo tem a sua finalidade e a espécie humana, nascida dos seus ancestrais, fora, desde início, o resultado natural da evolução vital do planeta. A lei do progresso a fizera, outrora, sair dos limbos da animalidade e continuou atuando para o seu aperfeiçoamento e gradual transformação.

Chegara, porém, a época em que a vida terrena começaria a decrescer e a Humanidade cessaria de progredir, para entrar em declínio.

O calor central do globo, considerável ainda no século XIX, mas não se fazendo já então sensível à superfície aquecida apenas pelo Sol, havia diminuído lentamente e a Terra resfriara-se, por fim, de todo. Esse resfriamento não influenciara, de maneira direta, as condições físicas da vida terrestre, que ficara dependente do calor solar e da atmosfera. O resfriamento interno do planeta não pode acarretar o fim do mundo.

Insensivelmente, de século em século, o globo se nivelara. As chuvas, as neves, as geleiras, o calor solar e os ventos tinham atuado sobre as montanhas; as águas torrenciais, os regatos, os ribeiros e os rios tinham pouco a pouco carreado para o mar os destroços de todos os relevos continentais; o fundo dos mares se alteara e as montanhas haviam desaparecido quase inteiramente, dentro de nove milhões de anos. Concomitantemente, o planeta envelhecera mais depressa que o Sol. Perdera as suas condições de vitalidade mais rapidamente e antes que o astro do dia esgotasse as suas radiantes faculdades luminosas e caloríferas.

Esta evolução planetária está de acordo com o nosso atual conhecimento do Universo. Sem dúvida, a nossa lógica é fatalmente incompleta, pueril, em face da grande Verdade universal e eterna, a valer pela de duas formigas a discretearem sobre a história da França. Mas, apesar da modéstia infligida ao nosso sentimento pela infinidade das coisas criadas; mal grado à humildade do nosso ser e o nada que ele representa diante do infinito, não podemos eximir-nos à necessidade de sermos lógicos com nós mesmos, para pretender que melhor fora abdicar da nossa razão que aproveitá-la como garantia de julgamento. Nós acreditamos numa constituição inteligente do Universo, numa destinação dos mundos e dos seres; pensamos que os globos importantes do sistema solar devem durar mais tempo que os menores e que, por conseqüência, não estando a vida desses planetas em paridade de relação com os raios solares, não podem durar uniformemente, tanto quanto o astro solar. De resto, a observação direta confirma esta perspectiva geral do Universo. A Terra, sol extinto, resfriou-se mais depressa que o Sol; Júpiter, enorme, ainda está na sua fase primordial; a Lua, menor que Marte, está mais que ele avançada nas fases da vida astral (talvez mesmo próxima do fim); Marte, menor que a Terra, está mais adiantado que nós e menos que a Lua. Nosso planeta, a seu turno, deve preceder Júpiter, como este precederá o Sol na sua extinção.

Consideremos a grandeza da Terra comparada a outros planetas: Júpiter apresenta-se-nos com um diâmetro onze vezes maior que o nosso e o Sol é dez vezes maior do que Júpiter. O diâmetro de Saturno vale por nove da Terra. Parece-nos, então, natural coligir que Júpiter e Saturno viverão mais que o nosso planeta e que Vênus, Marte ou Mercúrio, pigmeus celestes!

Os sucessos confirmaram essas ilações da ciência humana. Calamidades nos tinham advindo na trajetória imensa: mil acidentes deveriam atingir-nos – cometas, corpos celestes, obscuros ou flamantes, nebulosas, etc. –, mas nosso planeta não pereceria por acidente. A senectude o atingiu também a ele, como a todas as coisas. E envelheceu mais depressa que o Sol, perdeu as condições de vitalidade antes que o astro central esgotasse as suas reservas de luz e calor.

Durante os períodos seculares do seu esplendor vital, quando tronava no concerto dos mundos levando consigo uma humanidade intelectual e triunfante das forças cegas da natureza, é que ainda o envolvia uma atmosfera vivificante e protetora, dentro da qual se empenhavam todos os prélios da vida e da felicidade. Um elemento essencial da natureza, a água, regulava a vida terrena. Essa substância entrava, desde os primórdios, na composição de todos os corpos vegetais, animais, humanos; influía ativamente na circulação atmosférica, era o órgão principal dos climas e das estações, soberana, enfim, do Estado terrestre.

De século a século, porém, a quantidade da água havia diminuído nos mares, nos rios e na atmosfera. Primeiramente, uma parte das águas pluviais tinha sido absorvida no âmago do solo sem retornar ao mar, porque, ao invés de resvalar sobre camadas impermeáveis para formar fontes ou veios subterrâneos, ou submarinos, infiltrava-se profundamente e tinha pouco a pouco enchido todos os vácuos e brechas, saturando as rochas a grandes profundidades.

Enquanto o calor central se mantinha suficientemente elevado para opor-se à queda indefinida dessas águas, convertendo-as em vapor, uma grande quantidade delas sempre se mantivera na superfície. Sobrevieram, porém, os séculos nos quais o calor central foi totalmente dispersado no espaço, e deixou de opor-se à infiltração na massa porosa.

Elas, as águas, diminuíram então na superfície, associaram-se às rochas sob a forma de hidratos e aí se fixaram, desaparecendo, em parte, da circulação atmosférica.

Efetivamente, ainda que a diminuição das águas oceânicas se estime por decimilímetros anuais, ter-se-á o seu total esgotamento dentro de dez milhões de anos.

A infiltração gradual das águas no interior do globo, à medida que o calor deste se perdia no espaço, aliada à fixação lenta dos hidratos, produziu, dentro de oito milhões de anos, mais ou menos, um desfalque de três quartos do líquido em circulação na superfície da Terra. Em virtude do nivelamento dos relevos continentais, operado pelas chuvas, neves, degelos, ventos, ribeiros e rios, tudo arrastando para o mar em obediência à lei de gravidade, o globo aproximou-se de uma superfície de nível e os mares tornaram-se pouco profundos. Mas, como na formação e evaporação do vapor da água atmosférica só a extensão da superfície líquida, e não a profundidade, influi, a atmosfera ainda permaneceu ricamente fornida de vapor aquoso.

O planeta atingiu, então, as condições atuais de Marte, onde vemos desaparecidos os grandes oceanos e os mares reduzidos a estreitos mediterrâneos, pouco profundos; continentes planos, evaporação fácil, vapor d’água ainda considerável na atmosfera, chuvas escassas, neves abundantes nas regiões polares de condensação e seu fundimento quase total nos estios de cada ano. Mundo, ainda assim, habitável por seres idênticos aos terrícolas.

Essa época marcou o apogeu da Humanidade terráquea. A partir dela, as condições de vida se empobreceram. De geração em geração os seres sofreram profundas transformações. Vegetais, animais, hominais, tudo mudou. Mas, ao passo que até então as metamorfoses enriqueciam, embelezavam e aperfeiçoavam os seres, daí por diante acentuou-se a decadência. A inteligência humana havia tão completamente senhoreado as forças da Natureza, que dir-se-ia impossível fosse jamais vencida no seu enorme quão glorioso predomínio.

A diminuição da água, porém, começou a alarmar os mais otimistas. Desaparecidos os mares, os pólos continuavam gelados. Os continentes de outrora, cujas latitudes abrangiam Babilônia, Nínive, Ecbatana, Tebas, Mênfis, Atenas, Roma, Chicago, Liberty, Paz e focos tantos, outros, de civilizações de vivos fulgores, não passavam de imensos desertos sem um lago, sem um rio, sem uma fonte sequer. Insensivelmente, a Humanidade se conchegara à zona tropical, ainda regada por cursos de água corrente, lagos e mares. Não mais montanhas, condensadoras de neve. A Terra apresentava-se quase plana, os mediterrâneos rasos, os lagos e alguns cursos d’água confinaram a vegetação e a vida na zona estreita das regiões equatoriais.



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