Camille Flammarion o fim do Mundo



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IV
Vanitas vanitatum


Eternité, néant, passé, sombres abimes,
Que faites-vous des jours que vous engloutissez?
Parlez: nous rendrez-vous ces extases sublimes
Que vous nous ravissez?

LAMARTINE, Meditations.
Todo o imenso progresso da Humanidade, lenta e gradualmente conquistado num esforço de vários milhões de anos, haveria, – ó misteriosa lei inconcebível ao homúnculo terrestre! – de atingir o cimo de uma curva, um apogeu, e aí parar.

E a curva geométrica que poderia traçar ao nosso espírito o diagrama da história humana vai declinar, tal como ascendeu. Partindo de zero, da primitiva nebulosa cósmica, e elevada, por estágios planetários e humanos, à sua cúspide luminosa, ela decai em seguida para mergulhar em noite eterna. Sim. Todo esse progresso, toda essa ciência, toda essa ventura e todas essas glórias deviam desfechar um dia no derradeiro sono, no silêncio e aniquilamento da sua própria história. Assim como nascera, tivera um princípio, assim deveria a vida terrena morrer um dia, ter um fim. O sol da humanidade se levantara, outrora, em dilúculos de aurora; subira glorioso ao seu meridiano e ia baixar para diluir-se numa noite sem manhã.

Porque, pois, todas essas glórias, lutas, conquistas, vaidades, uma vez que a luz e a vida estavam fadadas a perecer?

Mártires e apóstolos de todas as liberdades haviam derramado o seu sangue para regar essa terra, também ela destinada a morrer. Tudo devia desaparecer e só ela, a Morte, devia ficar como a última soberana do mundo. Já imaginastes, ao contemplar o cemitério de uma cidade, quão pequeno ele é para conter todas as gerações que têm engolfado no transcurso dos séculos?

O homem já existia antes do período glaciário, anterior a nós de dois mil séculos. Sua ancianidade parece remontar a mais de duzentos e cinqüenta mil anos. A história escrita data de ontem. Encontraram-se em Paris sílex talhados e polidos, atestantes da presença do homem nas margens do Sena, muito anterior à primeira origem histórica dos Gauleses. Os parisienses do século XIX pisam um terreno sagrado por antepassados, velhos de mais de dez milênios. Que resta de todos esses seres que formigaram nessa colméia do mundo? Que é feito dos Romanos, Gregos, Egípcios, Asiáticos que reinaram por séculos e séculos? Onde os trilhões de homens que já viveram nesta crosta? Não há, deles, um punhado de cinzas, sequer! No conjunto da humanidade morre um homem por segundo, ou seja oitenta e seis mil por dia, nascendo igualmente outros tantos, ou melhor: um pouco mais. Esta estatística, deste século XIX, aplica-se a uma longa época, em se lhe aumentando a cifra proporcional ao tempo. O número de habitantes foi aumentando de período em período. Ao tempo de Alexandre haveria, talvez, uns milhões de criaturas na Terra. Nos fins do século XIX esse número acrescia-se de meio bilhão. Nos século XXII e XXIX, eram respectivamente de dois e três bilhões, que chegariam a dez no apogeu planetário. Daí por diante a população começou a diminuir.

Dos inumeráveis corpos humanos formados na Terra, nada resta, tudo reverteu aos elementos para a formação de outros corpos: o céu sorri, o campo floresce, a morte ceifa.

À medida que passam os dias, o que neles existiu resvala ao nada. Trabalhos, desgostos, alegrias e gozos, o tempo os engolfa, consome e extingue. Às glórias passadas sucederam as ruínas presentes. No bojo da eternidade, tudo o que existia desapareceu. O mundo visível esvanece-se a cada momento. O real, o duradouro, é só o invisível.

As condições da vida planetária haviam mudado lentamente. A água diminuíra. Seu vapor na atmosfera era o que ainda entretinha o calor e a vida e foi, afinal, a sua desaparição que acarretou o resfriamento e a morte. Se, desde agora, o vapor d’água desaparecesse da atmosfera, o calor solar seria incapaz de entreter a vida vegetal e animal, que, ao demais, não poderia subsistir, pois que os vegetais, como os animais, se compõem essencialmente de água.

É também o vapor da água atmosférico que exerce a maior influência no regímen térmico. Sem dúvida, parece insignificante e quase negligenciável essa quantidade de vapor, pois que oxigênio e azoto perfazem só por si 99,5 centésimos do ar respirável e que no 1/2 centésimo restante encontram-se, além desse vapor, o ácido carbônico, o amoníaco e outras substâncias. Assim, não haverá mais que 1/4 de centésimo de vapor aquoso. Tomando em consideração os átomos que constituem o ar, o físico constata que, sobre duzentos átomos de oxigênio e azoto, apenas se encontra um de vapor. Entretanto, esse átomo possui oitenta vezes mais energia absorvente que os duzentos outros.

O calor radiante do Sol aquece a superfície terrestre depois de atravessar a atmosfera. As ondas caloríficas que emanam da Terra aquecida não vão perder-se no espaço, mas, antes, chocar-se com os átomos aquosos, num como teto protetor, que os capta e conserva em nosso planeta.

Esta é uma das mais brilhantes e fecundas descobertas da física contemporânea. As moléculas de oxigênio e azoto, de ar seco, não impedem o desperdício de calor. Mas, como vimos de dizer, uma molécula de vapor aquoso tem energia oitenta vezes mais absorvente que as duzentas outras de vapor enxuto e, por conseqüência, tal molécula tem mil vezes mais potencia, para conservar o calor, do que uma molécula de ar seco! É, pois, o vapor da água e não o ar propriamente dito, o que regula as condições da vida terrena.

Se tirássemos à massa aérea que envolve a Terra o vapor d’água nela contido, dar-se-ia na superfície do solo um desperdício de calor semelhante ao que se dá nas grandes altitudes, onde a camada aérea não tem, mais que o vácuo, a propriedade de conservar o calor. E teríamos então um frio análogo ao existente na superfície da Lua. A crosta poderia aquecer-se ainda, diretamente, sob a ação do Sol, mas, mesmo durante o dia, o calor não seria conservado e, logo que posto o astro-central, a Terra ficaria exposta ao frio ultraglacial do espaço, que se estima em 273 graus abaixo de zero. O mesmo é dizer que a vida vegetal, animal e humana tornar-se-ia impossível, se o não fosse, já então, pela ausência mesma da água.

Sem dúvida podemos, devemos admitir que a água houvera sido, para todos os mundos do infinito, qual o foi para o nosso, um elemento essencial da vida. A Natureza não tem os seus poderes limitados pela esfera da observação humana. Devem existir, nos campos da imensidade ilimitada, miríades, milhões de sóis diferentes do nosso, sistemas de mundos nos quais outras combinações químicas, outras substâncias, condições físicas, mecânicas e ambientais produziram seres absolutamente diversos de nós, com outros regimes de vida, dispondo doutros sentidos, incomparavelmente mais distanciados da nossa estrutura orgânica do que o molusco ou o peixe dos abismos oceânicos em relação às aves e às falenas. Todavia, o que aqui estudamos são as condições da vida terrestre, e essas condições são determinadas pela constituição mesma do nosso planeta. À medida que a água diminuíra, que as chuvas rarearam, que as fontes secaram e o vapor aquoso escasseara, os vegetais mudaram de aspecto. Aumentaram de volume as folhas, as raízes se alongaram, procurando de qualquer modo absorver a umidade tão necessária à sua subsistência. As espécies que não conseguiram moldar-se ao novo regime tinham desaparecido. As outras se transformaram. Nenhuma árvore ou planta, das que conhecemos hoje, poderia ser reconhecida. Não mais carvalhos, freixos, olmos, álamos, tílias, salgueiros. As paisagens eram também muito outras, que não as de hoje. Apenas as espécies rudimentares, criptogâmicas, sobreviviam.

O mesmo sucedera com o reino animal. Formas inteiramente mudadas. As primitivas raças selvagens haviam desaparecido ou tinham sido domesticadas. A diminuição da água modificara a alimentação de herbívoros e carnívoros. As espécies recentes – produto das que puderam subsistir – eram menores, menos carnosas e mais ossudas. Diminuída grandemente a vegetação, o ácido carbônico do ar era absorvido mais escassamente, e a proporção era um tanto grande.

A população humana baixara gradualmente de dez a sete bilhões, quando ainda poderia espalhar-se pela metade da superfície terrena. Depois, à medida que a zona habitável se retraía para o equador, a Humanidade mais se debilitava e a própria média de vida tinha baixado. Chegou, enfim, o dia em que o censo não computaria mais que algumas centenas de milhões, disseminados em grupos ao longo do equador, para só viver dos artifícios de uma indústria científica e laboriosa.

Nas habitações humanas, o ferro e o vidro substituíram a madeira e a pedra, as cidades e vilas como feitas de cristal. As vantagens dessa arquitetura impuseram-se nos derradeiros tempos como imperativo climatério, dado o resfriamento do ar, conseqüente à diminuição do vapor aquoso na atmosfera. O que mais importava, então, era captar os raios solares. Por toda parte, grandes salas envidraçadas armazenavam o calor solar. Os antigos edifícios não passavam de ruínas abandonadas.

Apesar dos milhões de anos transcorridos, o Sol ainda entornava, sobre a Terra, quase que a mesma quantidade de luz e calor. A diferença não seria senão de um décimo, talvez, e apenas se notava que o astro central apresentava-se um pouco menor e mais amarelado.

A Lua também prosseguia em seu giro, embora um pouco mais lento... Ela se havia afastado, gradualmente, do nosso globo e nos parecia aparentemente menor (para o Sol é que as suas dimensões reais tinham mudado). Simultaneamente, o movimento rotativo da Terra também se tornara mais lento. Este efeito tríplice – rotação mais demorada da Terra, afastamento da Lua e prolongamento do mês lunar – tinha-se originado do atrito das marés, a operar mais ou menos como um freio. Se a Terra e a Lua durassem bastantemente, bem como os oceanos e as marés, poder-se-ia, pelo cálculo, prever o advento de uma época na qual a rotação do nosso globo seria tão lenta que acabaria por equivaler ao mês lunar e mesmo ultrapassá-lo, a ponto de não haver anos com mais de cinco dias e um quarto. A Terra apresentaria sempre, então, a mesma face à Lua. Tal transformação não demandaria, contudo, menos de cento e cinqüenta milhões de anos. O período que atingimos (dez milhões de anos) não representa senão uma décima quinta parte daquele. Em vez de setenta vezes mais longa que hoje, a rotação da Terra era apenas quatro e meia vezes mais demorada, ou fosse de cento e dez horas, mais ou menos.

Esses longos dias facultavam ao Sol aquecer demoradamente a superfície terrestre, mas esse calor em nada quase beneficiava as regiões que o recebiam de face, isto é, a zona equatorial, entre os dois círculos tropicais: a obliqüidade da eclíptica não tinha mudado, o eixo da Terra mantinha a mesma inclinação (cerca de 2 graus) e as variações de excentricidade da órbita não produziram qualquer efeito mais sensível sobre as estações e os climas.

Forças humanas, alimentação, respiração, funções orgânicas, vida física e intelectual, idéias, julgamentos, religiões, ciência, linguagem, tudo, enfim, havia mudado. Do homem de outros tempos quase nada subsistia.

Um pouco por toda parte, não mais que ruínas silenciosas e solitárias a se esboarem, a fundirem, para nunca mais se erguerem.



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