Camille Flammarion o fim do Mundo



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V
Omégar


Tu sais de quel linceul le temps couvre les hommes,
Tu sais que, tôt ou tard, dans 1'ombre de 1'oubli,
Siècles, peuples, héros, tout dort enseveli.

LAMARTINE, Harmonies.
O frio aumentava. Eternizava-se o inverno, brilhando embora o Sol. Caducavam todas as espécies animais e vegetais, a luta pela vida cessara, apesar das transformações ocorrentes, como se houvessem compreendido o determinismo da sua condenação. As maravilhosas faculdades de adaptação do gênero humano e uma espécie de energia selvagem e infatigável haviam prolongado a vida física e intelectual do homem, mais que dos animais superiores. Isso, porém, só se dava em relação a alguns poucos núcleos de civilização privilegiada, visto que, de conjunto condenada a inelutável miséria, a Humanidade recaíra na barbárie e não podia mais se reerguer.

O que de tudo restava eram dois grupos de algumas centenas de criaturas humanas, que ocupavam as últimas metrópoles da indústria. Em todo o resto do mundo a raça humana havia pouco a pouco desaparecido, ressecada, esgotada, degenerada gradual, inexoravelmente, de século em século, à míngua de atmosfera assimilável e de alimentação suficiente. Seus últimos rebentos pareciam revertidos à barbaria, vegetando como selvagens em região de Esquimós e morrendo lentamente de fome e de frio. Os dois velhos focos de civilização, perecendo embora gradualmente, também, só conseguiram subsistir à custa de lutas tão incessantes, quão perspicazes, contra a natureza implacável.

As últimas regiões habitadas situavam-se próximo do equador, em dois grandes vales outrora cobertos pelo oceano. Vales pouco profundos, já se vê, visto que o nivelamento geral era quase absoluto. Não se viam picos, montanhas, ravinas, gargantas abruptas, nem valados, nem escarpas.

Era tudo planície. Rios e mares haviam insensivelmente desaparecido. Mas, como os agentes meteóricos, chuvas e torrentes tinham diminuído de intensidade, paralelamente com as águas, os últimos abismos marinhos não foram inteiramente entulhados e restavam os sulcos pouco profundos, como vestígios da velha estrutura do globo. Lá se encontravam ainda alguns terrenos úmidos e gelados, mas não havia, por assim dizer, circulação de água na atmosfera e os últimos rios corriam subterraneamente, como artérias invisíveis.

A falta de vapor d’água na atmosfera proporcionava um céu sempre puro, sem nuvens, sem chuvas, sem neves. Menos fulgurante e cálido que nos primitivos tempos, o Sol tinha uma tonalidade amarelada de topázio. O firmamento era antes verde que azul-marinho. A atmosfera diminuíra consideravelmente de extensão. O oxigênio e o azoto haviam-se fixado, em parte, nos minerais, em estado de óxido e azotatos, e o ácido carbônico aumentara ligeiramente, à medida que os vegetais, em lhes faltando a água, rareavam. Entretanto, a massa planetária se tinha avolumado de século em século, devido à queda incessante de estrelas filantes, de bólidos e uranólitos, de sorte que a atmosfera, empobrecendo-se, conservava a mesma densidade e mais ou menos a mesma pressão.

Circunstância inesperada a de haverem as neves e geadas diminuído, à medida que o globo se resfriava, porque a causa desse resfriamento era a ausência de vapor aquoso na atmosfera, e a diminuição correspondia precisamente à da superfície dos mares. À medida que as águas iam penetrando no âmago do globo, a profundidade conseqüente ao nivelamento, em primeiro lugar, e depois a superfície, haviam diminuído. A câmara invisível do vapor condensado perdera gradualmente o seu valor de proteção à vida, até o dia em que o calor solar, não mais conservado por uma garantia suficiente, se perdia no espaço como se caísse num espelho inaquecível.

Tal a situação do nosso mundo. Os últimos representantes da espécie humana não tinham sobrevivido a todas essas transformações físicas, senão mercê do gênio da indústria, que, por seu turno, soubera tudo transformar. Os últimos esforços foram por continuar extraindo do ar, das águas subterrâneas e das plantas, as substâncias nutritivas, e a substituir a câmara protetora de vapor desaparecido por tetos e construções de vidro. Como vimos páginas atrás, preciso fora captar, a todo custo, os raios solares e impedir todo e qualquer desperdício. Não era, aliás, difícil obter grande provisão, pois que o Sol brilhava todos os dias num céu escampo de nuvens e o dia era de cinqüenta e cinco horas.

Os arquitetos de há muito não tinham objetivo outro que não o de aprisionar os raios solares, impedindo a sua dispersão durante as cinqüenta e cinco horas noturnas.

Isso conseguiram, afinal, mediante engenhosa combinação de fechos e aberturas de vários tetos de vidro superpostos, com telas móveis. Muito tempo havia, também, que faltava todo e qualquer combustível, pois mesmo o hidrogênio das águas escassamente se oferecia à indústria.

A temperatura média do dia, ao ar livre, não era extremamente baixa, pois não ia além de 15 graus.11

Mal grado às transformações seculares, as espécies vegetais não podiam sobreviver, mesmo nessa zona equatorial.

Quanto às outras latitudes, estavam já de milênios absolutamente inabitáveis, apesar dos esforços empregados por conservá-las. Nas latitudes hoje correspondentes a Paris, Nice, Roma, Nápoles, Argélia, Tunísia, a atmosfera deixara de permear o vapor e a obliqüidade dos raios solares nada mais podia aquecer. O solo conservava-se frígida em todas as profundidades acessíveis, qual verdadeiro bloco de gelo.

Mesmo entre os trópicos e o equador, os dois restantes grupos humanos que ainda subsistiam à custa de grandes dificuldades, crescentes de ano para ano, dir-se-ia que antes vegetavam sobre os últimos destroços da humanidade.

Nesses dois vales oceânicos, situados respectivamente nos atuais abismos do Pacífico e ao sul da ilha de Ceilão, haviam-se estendido, nos séculos precedentes, duas vastíssimas cidades de ferro e de vidro, elementos utilizados então em todas as construções. Dir-se-iam dois enormes jardins de inverno, sem andares, com os telhados transparentes, suspensos a grande altura. Restavam ainda algumas salas dos antigos palácios. As últimas plantas cultivadas lá permaneciam, além das que se coletavam nas galerias de comunicação com os rios subterrâneos.

Como vemos, nada mais que vestígios derradeiros de uma grandeza extinta; e além, por toda parte e em toda a extensão do velho mundo, não mais que ruínas.

Na primeira dessas cidades, os últimos sobreviventes eram dois anciães e o neto de um deles, Omégar. O rapaz caminhava desesperado naquelas vastidões desertas, depois de haver assistido à morte, por consunção, da mãe e das irmãs. Os dois velhos eram um filósofo que consagrara toda a existência ao estudo da humanidade moribunda, e um médico que se propusera, em vão, a salvar da degenerescência final os últimos habitantes da Terra. Apresentavam-se emaciados, mais pela anemia que pela idade. Pálidos quais dois espectros, barbas longas, só por sua energia moral pareciam sobrepujar a fatalidade do destino.

Não puderam, contudo, lutar muito tempo contra esse destino. Últimos sobreviventes da sua raça, estavam, como os demais, condenados a perecer, até que um dia Omégar os encontrou caídos e mortos, um ao lado do outro. O primeiro deixara escapar das mãos frouxas a última história que escrevera, meio século antes, das extremas transformações da humanidade. O segundo expirava procurando preservar no seu laboratório os últimos tubos alimentares, automaticamente entretidos por máquinas movidas pela energia solar.

Os últimos criados domésticos, macacos de há muito transformados por uma longa e paciente educação, também já haviam sucumbido anteriormente. O mesmo se dera com todas as espécies animais a serviço da humanidade. Cães, cavalos, renas, ursos e algumas aves de grande porte, empregadas em serviços aéreos, ainda sobreviviam, mas, tão transformados que ninguém os identificaria com os seus antepassados.

Evidente a condenação irrevogável da raça humana. As ciências haviam desaparecido com os sábios, as artes com os artistas, e os últimos seres humanos apenas viviam do passado. Baldos os corações de toda esperança, não havia como conceber ambições. A luz ficara para trás, o futuro incidia em noite eterna. Nada, nada mais! Extintas, para todo o sempre, as glórias do passado. Se qualquer viajor transviado nas solidões profundas e crente nos séculos idos pensasse em assinalar os lugares em que se ergueram Paris, Roma ou metrópoles outras que lhes sucederam, não teria mais que uma quimera, visto que, dobados milhões de anos, nem mesmo tais sítios existiam, por varridos que tinham sido pelas águas oceânicas. Vagas tradições, flutuantes através das idades, graças à manutenção da imprensa e aos copistas dos grandes fastos da História. Mas, ainda assim, essas mesmas tradições eram incertas e, muitas vezes, mentirosas, pois, a respeito de Paris, por exemplo, os anais não registravam senão alguns traços de uma Paris marítima e os milhares de anos da Paris capital da França apenas restavam como vaga lembrança. Os nomes que hoje nos parecem inextinguíveis, quais Moisés, Confúcio, Platão, Maomé, Alexandre, Carlos Magno, Napoleão e, ainda, França, Itália, Grécia, Europa, América, não tinham sobrenadado, tornaram-se nulos.

A arte conservara belas lembranças, mas essas longe estavam de remontar às épocas infantis da humanidade e datavam, no máximo, de alguns milhões de anos. Poder-se-ia crer que o planeta houvesse abrigado consecutivamente várias raças separadas por dilúvios, ou mesmo por novas criações.

Omégar se detivera na velha galeria de quadros legados pelas gerações remotas, a contemplar o panorama das grandes cidades desaparecidas. A única pertinente à Europa mostrava-lhe a perspectiva de uma grande capital, assente num promontório e coroada por um templo astronômico, com helicópteros aéreos a lhe sobrevoarem as altas torres. Navios gigantescos balouçavam no mar. Esta Paris clássica pertencia ao século CLX da era cristã, correspondente ao CLVII da era astronômica. Era a Paris que precedera imediatamente a definitiva invasão oceânica. O próprio nome havia mudado, visto que as palavras também mudam, como os seres e as coisas. A seguir, quadros representavam as grandes cidades de épocas menos remotas, que haviam florescido na América, na Ásia, na Austrália e, mais tarde, nas terras emergidas do oceano. Dessarte, aquela espécie de museu retrospectivo evocava a sucessão dos fastos históricos até o fim da Humanidade.

O fim! A sua hora soara no quadrante dos destinos. Omégar sabia que toda a vida da Terra consistia, dali por diante, no seu passado; que nenhum futuro deveria jamais existir para ela e que mesmo o presente se lhe estava apagando como o sonho de um minuto. O singular herdeiro do gênero humano experimentou, então, a sensação profunda da vanidade imensa de todas as coisas. Poderia esperar que um inimaginável milagre ainda pudesse salvá-lo de uma condenação evidente? Iria amortalhar os velhos e compartilhar do seu túmulo? Deveria procurar viver ainda alguns dias, algumas semanas ou anos, talvez, de uma existência solitária, inútil, desesperada? Perambulou o dia todo por aquelas galerias vastas e silenciosas. Em vindo a noite, entregou-se ao sono que o empolgava. Tudo eram trevas em torno dele.

Uma noite sepulcral. Doce sonho lhe despertou, então, na alma dolorida, como que a envolvê-la na tênue claridade de angelical auréola. Dera-lhe o sono a ilusão da vida.

Já se não via isolado. Sedutora imagem, já entrevista mais de uma vez, tinha vindo postar-se diante dele. Dois olhos blandiciosos de um fulgor e profundeza dos infinitos, nele se fixavam e o penetravam, e o atraíam. E sentia-se num jardim riquíssimo de flores e perfumes. Sobre ele, entre a ramagem, uma concertina de pássaros canoros. No fundo da paisagem, as ruínas enormes das cidades mortas enquadravam-se de plantas e flores. Depois, lobrigou um lago sulcado por aves aquáticas, das quais se destacavam dois cisnes que lhe trazia num berço e, dentro deste, uma criancinha recém-nascida que lhe estendia os braços. Nunca tal raio de luz lhe iluminara o espírito. Tão viva a impressão, que o despertou de súbito. Abriu os olhos e não enxergou mais que a triste realidade. Possuiu-se, então, de uma tristeza porventura mais pungente que a dos dias anteriores. Levantou-se, voltou ao leito e, acabrunhado, aguardou que amanhecesse. Lembrou-se do sonho, mas não lhe deu crédito. Sentia vagamente que um outro ser humano ainda existia, mas a sua raça degenerada havia perdido em parte as faculdades psíquicas e, sem dúvida, ao homem sempre pareceu que a mulher lhe inspirava atração excedente à dele, exercida sobre ela. Quando o dia reapareceu na sua luminosidade inexorável, quando o derradeiro homem viu perfilarem-se diante dele as ruínas da sua velha cidade; quando se viu novamente só com os seus dois mortos, sentiu mais que nunca o seu destino irrevogável e, num ápice, decidiu pôr termo a uma vida assim inútil e atribulada. Dirigindo-se para o laboratório, procurou um frasco de fórmula assaz conhecida, destampou-a e procurou esvaziá-lo de um trago. Mas, justo no momento de o levar aos lábios, sentiu que duas mãos lhe tolhiam o braço... Voltou-se... Ninguém no laboratório! E na galeria não encontrou mais que dois cadáveres...




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