Camille Flammarion o fim do Mundo



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VI
Eva


Fragilité des choses qui sont,
Eternité des choses qu'on rêve.

DARMESTETER.
Nas ruínas da outra cidade equatorial, situada no vale outrora submarino que se prolongava ao sul de Ceilão, sobrevivia uma jovem, inteiramente só, depois de morrerem inanidas a sua mãe e a irmã mais velha. Era ela, assim, o último rebento da última família que pôde sobreviver à extinção geral e que, simbolizando os salvados do naufrágio universal, após a decadência da espécie humana e da última raça aristocrática, conseguiram manter-se em luta extrema contra a miséria geral, na esperança ilusória de vencer as injúrias do tempo, como a querer disputar-lhe os escombros. Um retorno atávico, que as leis da hereditariedade poderiam explicar, dera à última flor dessa árvore humana uma beleza fulgurante, há muito desaparecida com a decadência universal. Era assim qual uma flor que tardiamente desabrochasse nos fins da estação, sobre o galho de um tronco morto. Havia muito, nos campos estéreis os seres decrépitos, esgotados, diminuídos de corpo e de alma, retrogradados à selvageria, tinham abandonado a mísera carcaça às solidões geladas. A flama da vida estava de fato e para sempre extinta.

Assentada à sombra dos últimos arbustos polares, que, no topo de uma serra, iam morrendo aos poucos, a jovem Eva conservava entre as suas as mãos da genitora falecida na véspera. Frígida à noite, na cúpula do firmamento a lua cheia brilhava como um disco de ouro. Seus raios de ouro, porém, eram tão álgidos quanto os de prata da velha Selene.



Profundo silêncio dominava o ambiente, uma solidão de sepulcro só quebrada pela respiração flébil da moça, num como ritmo silencioso. Lágrimas por derramar, já as não tinha. Seus dezesseis anos comportavam maior experiência e mais sabedoria que os sessenta das épocas floridas. De fato, ela sabia-se a última sobrevivente do grupo de criaturas que acabava de extinguir-se, e que toda a felicidade, alegria, esperança, com ela desapareciam para sempre! Sim: sabia que para ela, nem para outrem, já não havia presente nem futuro.

A solidão, o silêncio, a dificuldade de vida, física e moral, e depois... o sono eterno. Pensava nas mulheres de outrora, nas que tinham vivido a vida real da humanidade, nas amorosas, nas esposas, nas mães, e seus olhos avermelhados, enxutos, não divisavam em torno de si mais que painéis de morte e, para além daquelas paredes vidradas, não mais que o deserto infecundo, os últimos gelos, as últimas neves. Às vezes, o coração lhe batia violento no peito juvenil e ela, com as pequeninas mãos, mal conseguia comprimi-lo; outras vezes, pelo contrário, toda a vida interior como que se estancava com a própria respiração. Se adormecia, por instantes, logo revia em sonho os seus brincos de outrora: a irmã risonha e turbulenta, sua mãe cantando ainda, com voz cristalina e penetrante, as belas inspirações dos últimos poetas. E acreditava ver, então, de longe as últimas festas de uma sociedade brilhante, como que refletidas à face de um espelho. Depois, despertando, a magia das lembranças se apagava, cedia à realidade fúnebre! Só, absolutamente isolada no mundo! E amanhã... a morte, antes de conhecer a vida... Fim inelutável, revoltas inúteis, condenação do destino, eis a lei brutal. E não havia como lhe fugir, senão que esperar o fim próximo, pois nem a alimentação, nem a respiração entretinham mais os organismos. Um recurso, mísero recurso, lhe restava: acabar logo com aquela existência dolorosa e irremediavelmente condenada. Dirigiu-se ao banheiro, onde a água tépida ainda circulava, posto que os aparelhos, industriosamente engenhados para a calorificação, de há muito houvessem deixado de funcionar por falta de cuidados dos últimos servos e assim atingidos, também eles, pela diminuição gradual das águas. Mergulhou no banho perfumado, tocou um comutador ainda eficiente e a energia elétrica, provinda dos cursos d’água subterrâneos não de todo congelados, proporcionou-lhe um repouso reparador, que fez esquecer por instantes a fatalidade do seu destino. Um observador indiscreto que a houvesse contemplado pouco depois, quando, de pé, em face do grande espelho, se pôs a entrançar a longa e anelada cabeleira quase loura, teria podido entrever-lhe nos lábios um sorriso significativo de que naquele momento esquecia o seu tétrico destino. Noutro compartimento, encontrou ela os recursos que, dia a dia, lhe haviam fornecido os elementos da moderna alimentação, extraídos da água, do ar, das plantas e frutos automaticamente cultivados nas serras, pela própria energia solar. Tudo isso funcionava como um relógio remontado. A partir de milênios, toda a genialidade humana se havia dedicado quase exclusivamente a dominar o destino. Forçaram as derradeiras águas a circular em canais interiores, a estes levando, igualmente, o calor solar. Conquistaram os últimos animais para fazer deles os servos passivos da máquina, e trataram as plantas de feição a desenvolvê-las ao máximo, a fim de lhes extrair todas as propriedades nutritivas. Acabaram, assim, por viver de quase nada, quantitativamente, de vez que cada substância alimentícia, novamente criada, era perfeitamente assimilável. As últimas cidades eram serranias ensolaradas, aonde chegavam todas as substâncias aquosas, necessárias à alimentação e que substituíam os velhos produtos da natureza. Entretanto, de século a século, tornava-se mais difícil obter os produtos indispensáveis à vida. A mina acabara por esgotar-se. A matéria fora vencida pela inteligência, mas, chegara enfim o dia em que a inteligência também devia ser vencida: os operários acabaram, desde que a própria terra não pôde mais abastecê-los. Houvera, portanto, uma luta gigantesca, imposta ao homem que não queria, de maneira alguma, sucumbir. Mas, os últimos esforços não lograram impedir que o solo absorvesse toda a água e, desde então, as últimas provisões, economizadas por uma ciência aparentemente superior à própria natureza, tinham atingido o seu limite extremo.

Eva tinha voltado para junto do corpo de sua mãe. Ainda uma vez, tomou-lhe das mãos geladas. As faculdades psíquicas das criaturas, há esse tempo, já o dissemos, tinham adquirido uma força transcendente. Eva pensou, num instante, em invocar a genitora, do âmbito mesmo das sombras. Afigurava-se-lhe que ela, a genitora, desejava, senão uma aprovação, ao menos um conselho. Uma idéia misteriosa a empolgava, a obsidiava, tanto quanto encantava. E era unicamente essa idéia que lhe obstava o intento de morrer imediatamente. Ela via, ao longe, a única alma que pôde vibrar uníssona com a sua. Quando nascera, nenhum homem existia mais na sua tribo, que assim justificasse o velho qualificativo de sexo forte. Os quadros colgados à parede da ampla biblioteca mostravam-lhe os avós e as antigas personagens da cidade. Os livros, as gravuras, as estátuas, mostravam-lhe o homem. Entretanto, na realidade nunca jamais vira um homem.

Nada obstante, sonhava e, muitas vezes, pela retina dos olhos fechados, passavam-lhe imagens desconhecidas, perturbadoras. Seu espírito flutuava, às vezes, no mistério ignorado; era levada em sonho a uma vida nova, parecendo-lhe que o amor não estava ainda exilado da Terra. Desde que o frio extremo avassalara o planeta, muitos anos antes, haviam cessado todas as comunicações elétricas entre os últimos núcleos de população. Ninguém se falava, ninguém mais se avistava à distância. Ela, porém, conhecia a cidade oceânica como se a tivesse visto e, quando fixava o olhar na grande esfera que se ostentava no centro da biblioteca, cerrando as pálpebras, deixava vogar livre o pensamento; quando aplicava o sentido psíquico ao objeto dos seus desejos, eis que operava, a distância, com intensidade de ordem diferente, é certo, mas tão eficaz quanto à dos antigos aparelhos elétricos. Chamava alguém e sentia que alguém a compreendia.

Na noite precedente, tinha-se transportado à velha cidade de Omégar e, por instantes, ele se lhe mostrou em sonho. Logo pela manhã, vira o seu gesto desesperado e, num esforço supremo, conseguira deter-lhe o braço.

E eis que, súbito, tombou, sonhadora, acalmada na sua poltrona em frente ao cadáver materno.

Flutuante o espírito, ei-lo a pairar sobre a cidade oceânica, na pista daquela outra alma gêmea da sua, que ainda vivia na Terra. Na última cidade oceânica, Omégar a entendeu. Lentamente, como a sonhar, subiu à plataforma do aeroporto. Influenciado por misteriosa força, obedeceu à voz longínqua. A aeronave alçou-se em rumo do ocidente, atravessou as terras frígidas, outrora tropicais, que substituíram o antigo oceano Pacífico, a Polinésia, a Malásia, as ilhas da Sonda e foi aterrissar na plataforma do palácio cristalino, onde a moça despertou com o ruído do aparelho, para ver o aeronauta que se precipitava a seus pés.

Correu, espantada, até ao fundo da galeria imensa e procurava levantar a pesada pele que cortinava a biblioteca, quando, acercando-se, o rapaz se ajoelhou e, tomando-lhe da mão, murmurou simplesmente: “chamastes-me e eu aqui estou...” acrescentando logo: “há muito que vos conheço, sabia que existíeis, muitas vezes vos vi, sois a perpétua atração do meu ser. Entretanto, nunca ousei vir.”

E ela, levantando-o: “Sei que somos únicos no mundo, e prestes a morrer. Uma voz mais forte que a minha ordenou-me que vos chamasse... Creio que fosse o pensamento supremo de minha mãe, vitorioso da própria morte. Vede, ela aqui está, inerte desde ontem... Ah! como esta noite é longa!”

O rapaz ajoelhara-se, tomara a mão da morta. Eles ali estavam ambos, como em prece, diante daqueles despojos.

Ele inclinou-se depois para ela e, delicadamente, suas faces se tocaram.

Eva estremeceu ligeiramente e murmurou: “não!”

Súbito, porém, Omégar levantou-se, terrificado, os olhos estatelados... Era a morta que voltava a si! Retirou a mão que ele retinha presa às suas, arregalou os olhos para mirá-las e disse:

“Desperto de um sonho estranho...” E sem mostrar-se surpresa com a presença de Omégar, acrescentou: “aí tendes, meus filhos...” E estendendo a mão, apontou-lhes no céu o planeta Júpiter, que irradiava um brilho esplêndido.

Fitando o astro, o jovem par constatou que ele se aproximava, crescendo desmesuradamente, e, ofuscando a paisagem polar, oferecia-se em toda a extensão aos seus olhares maravilhados.

Mares extensíssimos, coalhados de embarcações, sobrevoados por flotilhas aéreas, plagas marinhas, embocaduras de rios gigantes, eram outros tantos centros de atividade prodigiosa. Cidades brilhantes surgiam e, com elas, multidões formigantes. Impossível distinguir detalhes das habitações, bem como a silhueta daqueles novos seres, mas adivinhava-se ali uma outra humanidade diferente da nossa, vivendo no âmbito de outra natureza, dispondo de outros órgãos e de outros sentidos. E mais, se adivinhava um mundo prodigioso, incomparavelmente superior a Terra.

“Eis ali onde estaremos amanhã – disse a morta –, onde iremos encontrar toda a antiga humanidade terrena, aperfeiçoada e transformada. Júpiter recebeu a herança da Terra. Nosso mundo completou sua tarefa, não mais haverá gerações neste ambiente... Adeus!”

Estendeu-lhe os braços. O jovem par inclinou-se para a morta e beijou-lhe a fronte. Só então perceberam que aquela fronte, apesar do estranho colóquio, continuava fria como o mármore. Sim, ela havia fechado os olhos para sempre.



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