Camille Flammarion o fim do Mundo



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VII
O último dia


Amour, être de 1'être! Amour, âme de l'âme.
LAMARTINE, Harmonies.
Bela coisa a vida... o amor vale por tudo e faz tudo esquecer. Música inefável dos corações, tua divina melodia envolve o ser em êxtase de voluptuosidades infinitas! Quantos historiadores ilustres têm celebrado os pioneiros do progresso, a glória das armas, as conquistas da inteligência e as ciências da alma? Depois de tantos séculos de trabalho e lutas, nada mais restava na Terra que o arfar de dois corações, os beijos de duas almas, nada mais que o amor. E o amor afirmava-se e ficava como o sumo sentimento a dominar, qual farol inextinguível, o imenso oceano das idades mortas.

Morrer? Como imaginá-lo? Pois, então, ali não estavam um pelo outro reciprocamente se bastando? A invasão do frio trespassava-os até à medula, mas, não tinham eles no peito calor bastante para vencer a Natureza? Não continuava o Sol a fulgurar sempre, mais radioso? Quem diria não fosse a condenação final retardada por longo tempo ainda?

Omégar excogitava de como poderia entreter ainda todo aquele sistema de há muito organizado para extrair automaticamente os princípios alimentares do ar, das águas, e das plantas. E esperava consegui-lo. Assim, outrora, depois da queda do império romano, viram-se bárbaros utilizarem os aquedutos, os banhos, as fontes termais e todas as realizações dos tempos cesareanos, extraindo de indústrias desaparecidas os elementos de sua vitalidade.

Um dia eles viram ali chegar, ao último palácio da última cidade terrena, um bando de míseras criaturas envilecidas, descarnadas, meio selvagens, quase nada humanas, e que pareciam haver regredido ao primitivismo das espécies simiescas, já de há muito desaparecidas. Tratava-se de uma família errante – destroços de uma raça degenerada, que vinha procurando fugir à morte. Em virtude do secular pauperismo das condições de vida planetária, a Humanidade que, por milhões de anos, dominara soberanamente a natureza, atingindo a unidade tão longamente esperada, constituindo uma única espécie em que se fundiram todas as variedades, essa humanidade superior, homogênea, perdera pouco a pouco o vigor e a grandeza.

As influências de climas e meios não tardaram a deslocar a unidade conquistada, originando novas variedades e novas raças. E não foi senão com grande custo que as duas civilizações mais sólidas e mais enérgicas resistiram e se mantiveram nos pináculos da intelectualidade. Todo o resto da humanidade sofrera o peso dos evos, enfraquecera, modificara-se à mercê das influências preponderantes. À antiga lei de progresso tinha sucedido uma como lei degradativa. A matéria, dir-se-ia, retomara os seus direitos, regredindo o homem à animalidade. Mas todas as raças desse mundo senecto, caducárias e desagregadas, haviam sucessivamente sucumbido.

Apenas alguns raros grupos erravam como espectros, por entre as ruínas do passado.

Omégar procurou utilizar aqueles servos de nova espécie, na manutenção dos aparelhos culinários que ainda funcionassem e, sobretudo, na conservação e aproveitamento do calor solar.

A esperança raiou naquela estância do Amor, com a beleza do arco-íris através de uma nuvem. O jovem par esqueceu o passado, mais cioso do futuro e todo entregue ao presente venturoso.

Assim viveram alguns meses na ebriedade do amor que os prendia. Houve já quem dissesse que o amor é a poesia dos sentidos e o beijo perene de duas almas. Disseram, também, que a glória, a ciência, o talento, a beleza e a fortuna são incapazes de dar a felicidade, sem a consagração do amor.

Nós poderíamos acrescentar que nesses extremos dias terrenos só esse amor brilhava, qual uma estrela em meio à noite universal. Aqueles dois amantes não se advertiam de que se abraçavam dentro de um sepulcro.

Por vezes, à tarde, quando o Sol se punha atrás das ruínas, Eva sentia-se angustiada na contemplação do imenso deserto que os rodeava e, abraçando-se ao bem-amado, não podia reter as lágrimas que lhe toldavam o olhar. Sim. Ela ainda confiava no futuro... Mas, quanta solitude, silêncio, desolação! Que estranho espólio de uma radiosa humanidade! As recordações ali estavam... Os livros, naquela biblioteca, contavam as glórias todas do passado; as gravuras como que as reviviam ante os seus olhos maravilhados; os aparelhos fotográficos repetiam, à vontade, a voz dos mortos ilustres e até a própria imagem deles, na tela das projeções telefúticas. Nos velhos cofres metálicos, enormes, podiam as mãos mergulhar num oceano de moedas de ouro, de todos os timbres e valores – legado estéril de riquezas inutilmente acumuladas... Os instrumentos de física e de astronomia, que haviam transformado o mundo, jaziam no pó.

Senhores do mundo, de todos os seus valores e mobiliários, tudo possuindo, ei-los ambos mais pobres que os mais pobres mendigos do passado!

De que serviu tudo isso? – dizia ela passeando os olhos por todas aquelas conquistas da humanidade extinta –. Sim! para que todo esse esforço, conquistas, descobertas, crimes e virtudes? Sucessivamente, cada povo havia crescido e desaparecido. Alternadamente, cada cidade brilhara na glória e no prazer, para acabar em pó. Ei-las, ali, patentes naquelas ruínas que cobriam o solo, amontoadas, superpostas, ruínas de ruínas, sobre ruínas. E as últimas teriam a mesma sorte. Dos bilhões de homens que aqui viveram, que resta? Nada.

– Dize-me pois, meu bem-amado, tu que tudo sabes, porque, e para que teria Deus criado a Terra? E por que a Humanidade? Não achas, meu querido, que esse Deus é um tanto louco? Todos esses bilhões de criaturas que vieram pulular e disputar sobre esta pequenina bola girante, de que e para que serviram, uma vez que nada resta? Dar-se-á não estejam agora, precisamente, como se nada houvera existido? Eu bem sei que os habitantes de Marte tiveram a mesma sorte e que os de Vênus, quando se comunicavam conosco, há alguns séculos, também, não se consideravam votados ao aniquilamento. Agora, aí temos os jupterianos que começam ainda incapazes de compreender nossas mensagens. Terão o mesmo destino... Dize-me: comédia ou drama, a criação? Diverte-se o Criador com os seus bonecos, ou apraz-lhe fazê-los sofrer? É idiota? Que me dizes, meu amor?

– Para que indagar, oh! minha Eva? Que teus olhos não se turvem assim... Assenta-te aqui, nos meus joelhos, vem repousar a bela cabecinha junto do meu coração. Deus, crê, só fez o mundo para o amor. Esquece, pois, tudo o mais.

– Mas, como esquecer, fechar os olhos, abafar a razão e o coração nestas horas tão solenes? Sim, nosso amor é tudo, absolutamente tudo. Mas, meu querido, como não pensar ainda que todos os casais que nos precederam, desde o princípio do mundo, desapareceram, também eles, e que todos esses amores que aureolaram de esperanças os votos humanos; todos esses ósculos divinais, de lábios nos quais dir-se-ia reascender um gozo eterno; todos esses arroubos se perderam, se diluíram em fumo; – sim, em fumo – e que de tudo não resta mais que nada, nada... Oh! meu Omégar, a verdade é que a Humanidade viveu dez milhões de anos para acabar nada sabendo! A Ciência entre todas maravilhosa, a ciência do universo, a Astronomia, tudo nos ensinou, deu-nos a verdadeira religião, mas, não nos demonstrou a lógica de Deus!

– Queres muito saber, Eva. Contudo, não ignoras que a humanidade terrestre flutuou no incognoscível e nós não podemos conhecer o incognoscível. Sabe o ponteiro do relógio porque foi feito e porque gira? Precisamos resignar-nos com a circunstância de não havermos passado de ponteiros. Somos seres finitos e Deus é infinito. Não há estalão de medida entre o finito e o infinito. Estamos na situação de uma rodinha de relógio, que, metida na sua caixa, raciocinasse sobre a indústria relojoeira. Seguramente, ela poderia também raciocinar durante dez milhões de anos, sem concluir que o mecanismo em que se integra tem por fim corresponder ao movimento diurno do nosso planeta. Minha querida: a rodinha do relógio só tem uma função, que é rodar. Todas as doutrinas filosóficas e religiosas resultaram vãs na indagação do absoluto.

“Entretanto, a Ciência não é totalmente ilusória. Sabemos que o mundo visível, atingível, perceptível aos nossos sentidos, não existe sob as formas aparentes que nos impressionam e não passam de um véu do mundo real e invisível. Sabemos que o átomo é intangível, que a luz, o calor e o som não existem, bem como a solidez aparente dos corpos. Nossos sentidos, nossos meios de percepção apenas nos dão uma falsa imagem da realidade. Saber que assim é já é alguma coisa, bem como que a realidade reside no invisível, que a alma é uma força psíquica indestrutível, que se torna pessoalmente imortal, isto é, consciente de sua imortalidade, desde que começou a viver intelectualmente, desprendida da espessa ganga material. Sobre os bilhões de seres humanos que povoam a Terra, a proporção dos conscientes de sua imortalidade, conservando a lembrança de existências anteriores, é fraca, mesmo em Júpiter, sua estância atual. Mas, o progresso é a lei da Natureza e todos deverão atingir esse valor consciencial. Essa é a força psíquica que movimenta o mundo. O Universo é um dinamismo. O visível aos olhos do corpo é composto de elementos invisíveis. O que vemos é feito de coisas que se não vêem. As classificações científicas que, durante tantos milhões de anos, constituíram a ciência humana, foram baseadas em sensações superficiais. A Humanidade, porém, pela análise mesma das sensações, pela observação e pela experimentação, aprendeu que o Universo é regido por forças imateriais, que as almas são realidades, seres indestrutíveis, que podem comunicar-se, manifestar-se à distância; que o espaço não é barreira de separação, antes laço de união entre os mundos; que a pequenina Terra, ora moribunda, é um astro celeste como os seus vizinhos e que a sua Humanidade não teria passado de uma diminuta fração das muitas que existem no Universo. E, como se perpetuou por tanto tempo essa humanidade? Certo, pela suprema lei do amor. Foi ele, o amor, quem lançou as almas no cadinho universal. É o amor que deve pairar acima do tempo, como se verifica na história da Humanidade. Ele, o criador perpétuo, universal; a imagem sensível e deslumbrante do Poder invisível e incognoscível, que irradia eternamente no mistério insondável.”

Eis como, naqueles últimos dias do mundo, os dois últimos exemplares da Humanidade ainda conversavam sobre os grandes problemas que, de todos os tempos, desafiaram a curiosidade dos homens. Eles tinham-se apoiado na esperança do além e, naquele momento, essa esperança lhes irradiava no coração como um fanal inextinguível.

Ali estava, realmente, o verdadeiro sol. O outro, o do planeta, continuava a brilhar e aquecer, sempre. Nossas personagens tinham a impressão de que viveriam muito tempo ainda. O sistema circulatório das águas e a extração dos princípios alimentares funcionavam, graças ao esforço dos servos infatigáveis, parecendo que a última hora não soaria tão cedo no quadrante circular dos destinos.

Mas, um dia, por mais perfeito que fosse, esse sistema deveria parar. As águas subterrâneas cessaram de correr. O solo congelou-se a grandes profundidades. Os raios solares prosseguiam aquecendo as habitações de tetos envidraçados, mas planta alguma poderia resistir à falta da água.

Todos os esforços combinados da ciência e da indústria não lograram dar à atmosfera os elementos nutritivos, peculiares à atmosfera de uns tantos mundos, e o organismo humano reclamava sempre os reconstituintes que aqueles esforços tinham obtido, qual vimos, do ar, das águas e das plantas. Secas as fontes, decretada estava à condenação.

Depois de haver enfrentado todos os óbices e reconhecida a inutilidade da luta, o último casal humano não se resignou a esperar a morte. Outrora, antes de se conhecerem, cada qual de per si a esperava sem temor. Agora, porém, cada qual queria seqüestrar o ser amado ao destino impiedoso. À só idéia de ver o seu Omégar inanimado junto dela, Eva experimentava uma sensação tão dolorosa que nem sabia como lhe pudesse resistir. E ele, por sua vez, desesperava-se de não poder arrebatá-la deste mundo condenado a perecer, voando para aquele radioso Júpiter, sem deixar na Terra o belo corpo que adorava.

Imaginou que ainda poderia existir alguma região que retivesse um pouco daquela água preciosa, à mingua da qual a vida se esvaía. Posto que já debilitado, tomou a suprema resolução de partir, de investigar. O avião elétrico ainda funcionava. Deixando a última cidade humana, que já não era mais que um cemitério, os dois últimos descendentes da extinta humanidade esqueceram as regiões inóspitas, em busca de qualquer oásis desconhecido.

Todos os antigos reinos deslizaram a seus pés. Reconheceram vestígios das últimas metrópoles focos de civilização, que agora pontilhavam de ruínas toda a extensa zona equatorial. Tudo acabado, tudo morto! Em pouco, tornaram a ver a cidade que haviam deixado e onde, sabiam, faltava, como alhures, todo e qualquer elemento de vida. Não desceram e assim prosseguiram percorrendo, naquele vôo solitário, todas as regiões que animaram as últimas etapas históricas. Por toda parte, contudo, nada mais que ruínas, silêncio, desolação! Um deserto de gelo. Nem mais relva, nem plantas, mesmo polares.

Os últimos cursos d’água desenhavam-se como em mapa geográfico e via-se que, junto deles, a vida humana se prolongara. Estavam agora, porém, exauridos, esgotados para sempre, e, quando por vezes se lhes patenteava o fundo de um lago, era um lago de pedra. O Sol, mesmo no equador, já não fundia os gelos eternos. Os animais, espécie de ursos de longo pêlo, que ainda resistiam, mal encontrariam, em geladas furnas, exígua alimentação vegetal. Viam-se também, de vez em quando, uma espécie de morsas e pingüins caminhando sobre o gelo, e grandes aves cinzentas voando rasteira, melancolicamente.

Os míseros condenados não encontraram em parte alguma o desejado oásis. A noite caía. No céu, nem uma nuvem. Um vento menos frio, soprando do sul, havia-os levado a planar sobre a antiga África, transformada em região glacial. O mecanismo do avião paralisara. O frio, mais que a fome, estarrecia-os no fundo da sua nacele forrada de peles.

Pareceu-lhes perceber uma ruína e tomaram pé. Era um grande tabuleiro quadrangular, mostrando os fundamentos assentes em grandes massas graníticas. Nem mais nem menos que vestígios de uma pirâmide egípcia. Construção milenar, destinada à eternidade, ela sobrevivera, primeiramente, em pleno deserto, à civilização da qual era símbolo; mais tarde, descera abaixo do nível oceânico, com os territórios do Egito, da Núbia e da Abissínia; depois, tornara a emergir e fora pomposamente restaurada no seio de uma nova capital e de uma civilização mais opulenta que as de Tebas e Mênfis, até que, finalmente, acabou em abandono nas solidões desérticas; único monumento das primeiras idades que ainda subsistia, graças à sua conformação geométrica.

– Descansemos aqui – disse Eva – sorridente e melancólica. Pois que estamos condenados à morte e, ao demais, quem o não foi? Quero morrer tranqüilamente em teus braços.

Procuraram uma anfractuosidade nas ruínas e ali se assentaram conchegados, à face da solidão tumular. Ela encolhia-se toda, febrilmente, abraçando-se ao companheiro e procurando reagir ao frio implacável que a invadia. Ele a atraía e apertava de encontro ao coração, como se quisesse reaquecê-la com o fogo dos seus beijos.

– Amo-te e ...morro – disse; mas, logo emendou: – Não, tu disseste que nós não morremos ... Vês a estrela que nos chama?

Nesse instante, ouviram atrás deles, saindo do túmulo de Khéops, um leve ruído semelhante ao farfalhar de uma ramagem agitada pelas brisas. Trêmulos, voltaram-se num movimento único e entreviram uma sombra, que lhes parecia autoluminosa – visto que a noite se fechava e não havia luar – deslizando, antes que marchando, e célere se lhes aproximando, até que estacou diante de seus olhos aterrados, estupefatos.

– Nada temais – disse –, venho receber-vos. Não morrereis... Ninguém morre, ninguém jamais morreu. O tempo rola na eternidade e a eternidade fica. Fui Khéops, eu que vos falo e aqui reinei, nos prístinos tempos deste mundo. Depois, aqui expiei meus crimes em sucessivas existências servis; e quando fiz jus à imortalidade, fui habitar Netuno, Ganímedes, Reia, Titã, Saturno, Marte e outros mundos de vós desconhecidos. Atualmente, moro em Júpiter. Nos tempos áureos da Terra, esse planeta era ainda inabitável para seres inteligentes e percorria estágios preparatórios. Agora, é esse mundo colossal que recebe o patrimônio dos progressos terrenos. Os mundos se sucedem no tempo, como no espaço. Tudo é eterno, tudo se funde no divino. Confiai em mim, vinde comigo.

Enquanto falava o velho Faraó, sentiram delicioso fluido penetrar-lhes na mente, como sói acontecer quando ouvimos uma doce melodia. Uma sensação de felicidade transcendente e calma os invadiu inteiramente. Nunca um sonho, um êxtase, lhes produzira tal gozo.

Eva ainda estreitou mais fortemente o companheiro... “Amo-te, amo-te!” repetia. Omégar depôs-lhe nos lábios já frios um terno beijo, e ouviu que ela ainda lhe dizia num frêmito: “oh! quanto o teria amado!..”

Júpiter lá estava a cintilar no céu.

Eva abriu os olhos, fitou o planeta gigantesco e pareceu que se abismava no seu fulgor, como fascinada por alguma visão. De repente, o semblante iluminou-se-lhe num êxtase radiante. Muita vez, com o derradeiro suspiro do moribundo, vê-se um halo de tranqüilidade estender-se, banhar-lhe a fronte e nela imprimir o selo de um sonho inefável. Assim, e porventura mais radiosamente, numa iluminação divina, transfigurou-se o semblante da última mulher.

Ainda tentou falar, estendeu os braços para o astro e, reanimada por uma energia nova, ei-la a exclamar, admirada:

“Sim, é verdade, lá está ela, a Verdade que me fizeste pressentir. Como são belos! Espíritos imortais, eis-me convosco. Ah! que bem o disseste – nada morre. Estou consolada, Omégar está comigo, vivemos, continuamos a viver sempre, sempre!”

Exaltava-se ainda. Fixou em Omégar os olhos fulgurantes de entusiasmo e, contudo, não o viu. “Sim – disse ela – ele está comigo. Nós vivemos, sentimos, vemos... A felicidade está na vida, na vida... eterna.”

Levada por uma força sobrenatural, erguera-se como se quisesse alçar-se à imensidão do céu, mas, logo, rodando nos calcanhares, recaiu nos braços de Omégar, que se apressara em ampará-la. Estava. morta. Beijou-a ainda nos lábios gélidos, trespassado de um frio glacial e sentiu, ele próprio, que a vida lhe fugia. O coração bateu-lhe precipite e, de repente, parou.

Seus olhos se apagaram confundidos na luz de Júpiter, fechando as pálpebras suavemente.

A sombra de Khéops elevou-se, desapareceu no espaço. A quem pudesse ver, não com os olhos do corpo, que só apreendem as vibrações físicas, mas, com os olhos da alma, que captam as vibrações psíquicas, deparar-se-ia então, levadas por aquela sombra, duas minúsculas flamas conchegadas, conjugadas na mesma atração, ascendendo ao céu.

Daí por diante, nada mais restava na Terra, a não ser alguns míseros grupos de criaturas a morrerem de fome e de frio – assim uma espécie de esquimós selvagens, revestidos de peles e buscando nas cavernas rupestres um derradeiro abrigo. A raça intelectual, essa estava definitivamente extinta. Algumas espécies animais, degeneradas, ainda sobreviveram alguns milhares de anos. Depois, insensível, gradualmente, toda a vida planetária se extinguiu.



***

Estes sucessos ocorreram, como vimos, dez milhões de anos após a época que estamos vivendo. O Sol continuou a brilhar ainda por uns vinte milhões de anos e Júpiter e Saturno foram, então, a sede de gerações florescentes. Ela, a Terra, continuou a girar no espaço, qual desolada necrópole, na qual não se ouviria, jamais, o pipilar de um pássaro. Eterno silêncio amortalhou as ruínas da Humanidade morta. Toda a história humana se esvaíra qual nuvem de fumo.

E no abismo celeste, na amplidão infinita dos céus, nenhuma lápide, uma só lembrança assinalou o ponto em que o nosso mísero planeta exalara o derradeiro suspiro.



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