Camille Flammarion o fim do Mundo



Baixar 0.51 Mb.
Página15/16
Encontro29.11.2017
Tamanho0.51 Mb.
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   16

Epílogo
Dissertação filosófica


Então jurou por Aquele que vive para todos os séculos dos séculos, que mais tempo não haverá.

Apocalipse, X 6.
A Terra estava morta. Os outros planetas haviam também morrido, uns após outros. Apagara-se o Sol. As estrelas, porém, continuavam a brilhar, havia sempre sóis e outros mundos.

Na eternidade sem limites, o tempo, essencialmente relativo, é determinado pelo movimento de cada planeta e mesmo estimado em cada qual diversamente, segundo as sensações pessoais das criaturas. Cada globo conta a sua própria duração. Os anos da Terra não são os de Netuno, que equivalem a cento e sessenta e quatro dos nossos e, ainda assim, nada representam no cômputo do absoluto. Não há medida comum entre o tempo e a eternidade. No espaço vazio não existe o tempo. Ninguém poderia lá julgar-se em qualquer ano ou século. Admite-se, contudo, a possibilidade de um estalão que determinasse a chegada de um globo giratório.

Sem movimento periódico, impossível se torna qualquer noção de tempo.

A Terra já não existia. Nem ela, nem a sua pequena vizinha celeste – a ilhota Marte, nem a bela Vênus, o colossal Júpiter, o estranho Saturno, que perdera os anéis e, tão-pouco, Urano e Netuno com toda a sua lenteza. Nem mesmo o Sol que, com a ignidade das suas chamas, havia, durante tanto tempo, fecundado as celestes pátrias que lhe gravitavam em torno. Ele, o Sol, não passava agora de uma bola escura, idêntico aos planetas vassalos; e o sistema planetário, invisível, prosseguia correndo na imensidão estrelada, no bojo do espaço obscuro. Do ponto de vista vital, esses mundos estavam todos mortos, não mais existiam. Sobreviviam à sua história, assim como os escombros das cidades Assírias que o arqueólogo descobre no deserto adusto, a rolarem obscuros no invisível e ignoto. E tudo isso em temperatura ultraglacial de 273 graus abaixo de zero. Nenhum gênio, nenhum mago poderia reconstituir o tempo esvaecido, restaurar os antigos dias em que a Terra flutuava inebriada de luz, belos prados verdejantes, rios ondulosos como grandes serpentes, bosques orquestrais, florestas compactas e misteriosas, mares plácidos ou rugidores, montanhas sangrando fontes e cascatas, recantos luminosos, jardins floridos, ninhos, berços, populações laboriosas que viveram tão gloriosamente ao sol da vida, perpetuadas por um amor sem fim. Eterna, então, parecia toda aquela ventura. Que fim levaram aquelas manhãs, aquelas noites? As flores e os amantes, as luzes e os perfumes, belezas e sonhos? Tudo aniquilado, desaparecido tudo! A terra, os planetas, todo o sistema solar anulado! E o próprio tempo sustado! Ele, o tempo, escoa-se na eternidade; mas a eternidade permanece e o tempo ressuscita.

Antes de existir a Terra, por toda uma eternidade houve sóis e houve mundos, humanidades vivas e operosas, como a nossa de agora. Assim viviam elas no bojo do infinito, milhões e milhões de anos, antes que a Terra existisse. Nem o universo anterior seria menos fulgurante que o nosso. E depois de nós, será o mesmo que antes de nós. Nossa época não tem qualquer importância.

Examinando a história da Terra, poderíamos remontar primeiramente à época primária, na qual ela fulgia no espaço como verdadeiro sol; depois, vê-la-íamos na fase em que, semelhante a Júpiter e a Saturno, foi recoberta de uma atmosfera densa, carregada de vapores quentes, e, daí por diante, acompanhar-lhe todas as transformações até ao período humano. Acabamos também de ver, que, quando o vapor d’água desapareceu da sua atmosfera, sendo esta mais ou menos absorvida pelo próprio globo, ele deveria retratar a imagem dos grandes desertos lunares ora revelados pelos nossos telescópios, com as diferenças individuais da natureza terrena regida por seus próprios elementos, com as suas últimas configurações geográficas, suas plagas e rios dessecados. Cadáver planetário! Terra morta e regelada, leva, nada obstante, em seu seio uma energia não esgotada – a do seu movimento de translação em torno do Sol, energia que, transformada em calor pela parada de movimento, bastaria para fundir toda a sua massa, reduzir uma parte a vapor e recomeçar uma nova história planetária, embora de curtíssima duração, visto que, se esse movimento de translação viesse a cessar, a Terra se precipitaria no Sol e perderia a sua existência própria.

Paralisada de súbito, ela cairia em linha reta para o Sol, em velocidade crescente, para atingi-lo em 65 dias. Parando gradualmente, a queda seria em espiral e levaria mais tempo para desvanecer-se no astro-central.

Toda a história da vida terrena aí temos diante dos olhos, com o seu começo e o seu fim. Sua duração, seja qual for o número de séculos que a integrem, antecede e sucede a uma eternidade, de sorte que não representa senão um instante perdido no infinito, uma vaga imperceptível no oceano imenso das idades.

Muito tempo depois que a Terra deixara de ser uma estância de vida, os gigantescos mundos de Júpiter e Saturno, transitando mais lentamente da fase solar à planetária, reinaram a seu turno no seio do sistema solar, irradiando uma vitalidade incomparavelmente superior a toda a história orgânica do nosso globo. Entretanto, também para eles, chegaram os dias da decrepitude e houveram de mergulhar na noite do túmulo.

* * *

Navigateurs lancés pour n'atteindre aucun port.

SULLY – Prudhomme, le Zenith.
Se a Terra tivesse conservado por tempos mais longos os seus elementos vitais como Júpiter, por exemplo, ela só pereceria quando se extinguisse o próprio Sol. Mas, a verdade é que a duração da vida dos mundos é proporcional à grandeza e aos elementos vitais de cada um.

Duas são as fontes principais do calor solar: condensação da nebulosa primitiva e a queda de meteoros. A primeira causa produziu, segundo os mais seguros cálculos da termodinâmica, um calor que ultrapassa de dezoito milhões o irradiado pelo Sol durante um ano, suposto que a primitiva nebulosa fosse fria, o que não é provável. Continuando a condensar-se, o Sol pode irradiar, sem nada perder, durante séculos e séculos.

O calor emitido por segundo equivale ao resultante da combustão de 11 quatrilhões e 600 bilhões de toneladas de carvão mineral! A Terra não capta mais que meio milésimo dessa irradiação, e esse meio milésimo basta para entreter toda a vida terrestre. Dos 67 milhões de raios luminosos e caloríficos que o Sol manda ao espaço, apenas um é recebido e utilizado pelos planetas.

Pois bem: para conservar essa fonte de calor, bastaria que o globo solar continuasse a condensar-se, de tal modo que o seu diâmetro não diminuísse senão 77 metros por ano, ou 1 quilômetro em treze anos. Uma contração tão lenta que se tornaria absolutamente imperceptível. Seriam precisos 9.500 anos para reduzir o diâmetro de um segundo apenas, de arco.

Se o mesmo Sol ainda fosse atualmente gasoso, seu calor, longe de diminuir, ou mesmo estacionar, aumentaria pelo só efeito da contração, porquanto, condensando-se, por um lado, e resfriando-se, por outro, um corpo gasoso, o calor engendrado pela contração é mais que suficiente para impedir a queda de temperatura, e o calor aumenta até que a condensação comece sob a forma líquida. Tal, provavelmente, o estado atual do Sol.

A condensação do globo solar, cuja densidade ainda não representa senão um quarto da densidade terrena, pode, só por si, entreter durante muitos séculos (pelo menos 10 milhões de anos) o calor e a luz solar. Mas, nós falamos duma segunda fonte de manutenção dessa temperatura, que é a queda dos meteoros. Constantemente, desabam na Terra cento e quarenta e seis milhões de estrelas cadentes, cada ano. Maior, incomparavelmente, é o número das que convergem para o Sol, dada a sua atração preponderante. Se ele recebesse, digamos, a centésima parte da massa terrena, tal queda bastaria para entreter a sua irradiação, não pela combustão desses meteoros – pois se o Sol se consumisse a si mesmo a sua duração não passaria de seis mil anos – mas, pela redução a calor do movimento subitamente sustado, igual a 650.000 metros no último segundo da queda, tal a intensidade da atração solar.

Se a Terra caísse no Sol, entreteria por 95 anos o dispêndio atual da energia solar. E assim:


  • Vênus durante 84 anos

  • Mercúrio “ 7 anos

  • Marte “ 13 anos

  • Júpiter “ 32.254 anos

  • Saturno “ 9.652 anos

  • Urano “ 1.610 anos

  • Netuno “ 1.890 anos

O que vale dizer que a queda de todos os planetas no Sol produziria calor suficiente para alimentá-lo por cerca de quarenta e seis mil anos.

Certo, pois, que a queda de meteoros adita uma longa duração ao entretenimento do calor solar. Trinta e três milionésimos de acréscimo anual, na massa solar, bastariam para compensar a perda, e somente a metade, se admitirmos que a condensação tenha uma parte equivalente à da queda dos meteoros, para a manutenção do calor solar. Entretanto, para que os astrônomos o percebessem, mediante o aceleramento das revoluções planetárias, muitos séculos seriam precisos.

Podemos, assim, admitir um mínimo de 20 milhões de anos para o futuro do nosso Sol, levando em conta apenas esses dois fatores. Poderíamos, mesmo, elevar o cálculo a trinta milhões, sem exagero. E note-se que tal duração ainda pode ser aumentada pela reserva de fatores desconhecidos, sem imaginarmos o encontro de um enxame meteórico.

Foi, portanto, o Sol o último sobrevivente do seu sistema, o último beneficiado do fogo vital.

E contudo, também ele se extinguiu... Depois de haver derramado sobre a família celeste, por tanto tempo, os raios da sua luz vivificante, viu aumentarem-se-lhe as manchas, em número e extensão, palecer-lhe a fotosfera, sombrear-se, coagular-se a superfície outrora fulgurante. Uma bola enorme, vermelha, substituiu no espaço o foco esplendente dos mundos desaparecidos.

Também para ele chegou o último termo, soou a última hora no eterno relógio dos destinos, hora em que todo o sistema solar houvera de ser riscado do livro da vida.

Sucessivamente, todas as estrelas que representam um sol, todos os sistemas solares, todos os mundos, tiveram a mesma sorte...



* * *

Tout sera, tout semble étre, et tout n'est que néant.
BOUDHA.
Apesar disso, tal como hoje, o Universo continuou a existir. A ciência matemática nos diz:

“Parece que o sistema solar não possui atualmente mais que a centésima qüinquagésima parte da energia transformável que possuía no estado de nebulosa. Se bem que este remanescente constitua ainda uma provisão cuja enormidade nos confunde, ele terá também o seu total esgotamento. Mais tarde, a transformação se operará em todo o Universo e acabará estabelecendo um equilíbrio geral de pressão e de temperatura.

“Daí por diante, a energia não mais será suscetível de transformar-se. Não será a imobilidade absoluta – visto que a mesma soma de energia há de existir sempre sob a forma de movimentos atômicos –, e sim, a ausência de todo o movimento sensível, de toda a diferença e de toda a tendência, isto é, a morte definitiva.”

Eis o que diz a matemática contemporânea.

A observação atesta, de fato, que, de um lado, a quantidade de matéria permanece constante e, de outro lado, o mesmo se dá com a força ou energia, através de todas as transformações e posições dos corpos; mas, que o Universo tende para um estado de equilíbrio, conseqüente à uniformidade do calor repartido. O calor solar, como o de todos os astros, parece devido à transformação dos movimentos iniciais, aos choques moleculares, e o calor atual, proveniente dessa transformação de movimento, difunde-se constantemente no espaço, isso até que todos os astros sejam resfriados à temperatura do próprio espaço. Se considerarmos idôneas as nossas atuais ciências, quais a física, a mecânica e a matemática, e admitindo a constância das leis que hoje regem a natureza e o raciocínio humano, outro não poderá ser o destino do Universo. Longe de ser eterna, esta Terra que habitamos teve o seu princípio. Na eternidade, cem milhões, um bilhão de anos, ou de séculos, são como um dia. A eternidade precede e sucede, a longura aparente se desvanece para reduzir-se a um ponto. O estudo científico da natureza e o conhecimento de suas leis nos levam, pois, à questão outrora posta pelos teólogos, chamem-se eles Zoroastro, Platão, Agostinho, Tomás de Aquino, ou qualquer bisonho seminarista tonsurado de véspera, a saber:

Que fazia Deus antes de criar o mundo? E findo o mundo, que fará Deus?”

Ou então, sob uma forma menos antropomórfica, de vez que Deus é incognoscível:

Qual seria o estado do Universo antes da ordem de coisas atual, e que será depois?”

A questão é a mesma, quer se admita um Deus pessoal, pensando e agindo preconcebidamente, quer se negue à existência de qualquer princípio espiritual, para só admitir a de átomos e forças indestrutíveis representando uma quantidade de energia invariável, não menos indestrutível.

No primeiro caso, porque Deus, potência eterna, incriada, teria ficado inativo ou, tendo ficado inativo, satisfeito com a sua absoluta imensidade inacrescível, haveria de mudar esse estado, criando a matéria e as forças? O teólogo poderá responder: “porque assim lhe aprouve fazer...” Mas, o filósofo não se conformará com essa variabilidade do pensamento divino.

No segundo caso, pois que a origem da atual ordem de coisas apenas remonta a uma certa data e não há efeito sem causa, temos o direito de perguntar qual o estado anterior à formação do universo atual.

Ninguém poderá contestar que, posto seja a energia indestrutível, há uma tendência universal para a sua dissipação, que deve culminar em repouso e morte universal. É um raciocínio matemático, impecável. E contudo, nós não o admitimos... Por quê?

Porque o Universo não é uma quantidade finita.

* * *

Devant l'éternité tout siècle est du même âge.

LAMARTINE, Harmonies.
É impossível conceber um limite à extensão da matéria.

Temos diante de nós, através de um espaço ilimitado, a fonte inestancável da transformação de energia potencial em movimento sensível e, daí, em calor e noutras forças; e não um simples mecanismo finito, a trabalhar como um relógio, que pudesse parar um dia para sempre.

O futuro do Universo é o seu passado. Se ele devesse finalizar um dia, há muito teria acabado e nós aqui não estaríamos a estudar este problema.

É por serem finitas as nossas concepções que não podemos assinalar princípio nem fim às coisas. Não concebemos mais que uma série, absolutamente interminável, de transformações existentes no passado, em trânsito para o futuro; ou, ainda, séries igualmente infindáveis de combinações materiais podendo encadear-se de planetas em sóis, de sóis em sistemas solares, destes em vias-lácteas, em universos estelares, etc., etc.. O panorama celeste aí está, contudo, a demonstrar-nos o infinito. Não compreendemos mormente a infinidade do espaço e do tempo, menos ainda qualquer limitação de espaço e tempo, de vez que o pensamento os ultrapassa e continua a vê-los. Caminharíamos sempre, em qualquer direção, sem jamais topar um fim. Podemos, de igual modo, imaginar uma ordem de sucessão nas coisas futuras.

Falando do absoluto, não é espaço e tempo o que nos deve preocupar, sem dúvida, mas o infinito e a eternidade, no seio dos quais toda a medida, por mais extensa que seja, se reduz a um ponto. Nós não concebemos, não compreendemos o infinito, no espaço ou na duração, mas a nossa incapacidade de compreensão nada prova contra o absoluto.

Confessando nada compreender, sentimos que ele, esse infinito, nos envolve, e que o espaço limitado por uma parede ou barreira qualquer é de si mesmo uma idéia absurda, tal como a de que pudéramos admitir, em dado momento da eternidade, a possível existência de um sistema de mundos cujos movimentos medissem o tempo sem o criar. Será que sejam os relógios quem cria o tempo?

Ninguém o dirá, senão que eles apenas o medem. Nossas medidas de tempo e espaço se desvanecem diante do absoluto. Mas o absoluto permanece.

O fato é que vivemos no infinito, sem disso duvidarmos. A mão que sustém esta pena, compõe-se de elementos indestrutíveis, eternos; e os átomos que a integram já existiam na nebulosa que originou o nosso planeta, e continuarão existindo por todos os séculos dos séculos. Vosso peito respira e o cérebro pensa com os materiais e a força já operantes há milhões de anos, e que hão de operar, sem fim. E o minúsculo globo que habitamos está no fundo do infinito – não no centro de um universo limitado –, tanto quanto a mais longínqua estrela acessível às nossas lentes telescópicas.

A melhor definição do Universo que até agora nos foi dada, é ainda a de Pascal, à qual nada haveria que acrescentar, a saber:

Uma esfera cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não está em parte alguma.”

É este infinito que assegura a eternidade do Universo. Estrelas após estrelas, sistemas sobre sistemas, universos sucedendo-se a universos, aos milhares, aos milhões, infindos em todos os rumos e direções. Não habitamos um centro inexistente e, tal como a mais longínqua estrela a que aludimos, a Terra jaz no fundo do infinito. Voemos no espaço infindo, em pensamento e com a velocidade do pensamento, por meses, anos, séculos, milênios e nunca, jamais, nos deterão quaisquer limites, nem nos aproximaremos de uma fronteira. Haveremos de ficar no vestíbulo desse infinito escancarado à nossa face...

Infinitos no tempo: vivamos em pensamento para além das idades futuras, juntemos séculos a séculos, períodos seculares a períodos seculares e jamais atingiremos o fim. Haveremos de ficar no vestíbulo dessa Eternidade desdobrada diante de nós...

Em nossa pequena esfera de observação terrestre, constatamos que, através de todas as mudanças de aspecto da matéria e do movimento, o Quantum de uma e outro continua sendo o mesmo, sob outras formas. Matéria e Força se transformam, mas a quantidade de massa e de potência subsiste.

Os seres vivos nos dão este exemplo perpétuo: nascem, crescem, assimilando substâncias tomadas ao ambiente exterior, e, quando morrem, se desagregam e restituem à Natureza todos os elementos que lhes integraram o corpo.

Uma lei constante reconstitui perpetuamente outros corpos com esses mesmos elementos. Todo astro é comparável a um ser organizado, mesmo no concernente ao seu calor interno. O corpo vive enquanto funcionam os seus diversos órgãos, acionados pelos movimentos da respiração e da circulação. Quando sobrevêm o equilíbrio e o estacionamento, verifica-se a morte; mas, depois da morte, todas as substâncias que formavam o corpo vão reconstituir outros seres. A dissolução é, assim, o prelúdio do renovamento e formação doutros seres. A analogia leva-nos a crer que a mesma coisa se verifica no sistema cósmico. Nada pode ser destruído.

O que subsiste, invariável em quantidade, mas sempre mudando de forma sob as aparências sensíveis que o Universo nos apresenta, é uma Potência imensurável, que somos obrigados a reconhecer ilimitada no espaço, e sem começo nem fim, no tempo.

Eis porque sempre haverá sóis e mundos, que não serão os nossos sóis e mundos atuais; que serão outros, mas, sucessivos sempre, por toda a eternidade.

E este universo visível não deve representar para o nosso espírito mais que as aparências variáveis e mutáveis da realidade absoluta e eterna, constituída pelo universo invisível.

* * *

Il mit l'éternité par delà tous les âges;
Par de1à tous les cieux il jeta l’infini.

VITOR HUGO, Jéovah.
Foi em virtude dessa lei transcendente, que, muito tempo depois da morte da Terra, dos planetas gigantes e do próprio astro central – enquanto ele, o nosso velho Sol enegrecido vogava sempre, na imensidade ilimitada, levando consigo os cadáveres de mundos em que as humanidades terrestres e planetárias haviam mourejado outrora –, um outro sol extinto, vindo das profundezas do infinito, o encontrou quase de face e o deteve!

Então, dentro da noite sideral profunda, essas duas bolas formidáveis engendraram, num repente, por força do choque prodigioso, um fogo celeste imenso, uma vasta nebulosa a oscilar, primeiramente qual flama louca, a mergulhar depois nos abismos celestes, insondáveis. Sua temperatura poder-se-ia estimar em milhões de graus. Tudo o que fora terra, água, ar, mineral, planta, homem, aqui na Terra; tudo o que fora carne, olhos, corações palpitantes de amor, belezas empolgantes, cérebros pensantes, mãos operosas; vencedores ou vencidos, carrascos e vítimas, átomos e almas não desprendidas da matéria, tudo se reduzira a fogo. E assim os mundos de Marte, Vênus, Júpiter, Saturno e a restante confraria. Era a ressurreição da natureza visível, enquanto que as almas que tinham adquirido a imortalidade continuavam a viver eternamente nas hierarquias do universo psíquico, invisível.

A consciência de todos os seres humanos que tinham vivido na Terra graduara-se no ideal; os seres haviam progredido por suas transmigrações através dos mundos e todos reviviam em Deus, desprendidos das gangas materiais, plainando na luz eterna e progredindo sempre.

O universo aparente, o mundo visível, é o cadinho no qual se elabora, incessantemente, o mundo psíquico, único real e definitivo.

O espantoso choque dos dois sóis extintos criou uma nebulosa imensa, que absorveu todos os velhos mundos reduzidos a vapor e que, soberba, gigantesca, flutuando no espaço infinito, começou a girar sobre si mesma. Nas zonas de condensação dessa nebulosa primordial começaram, então, a nascer novos globos, tal como se deu outrora, nos primórdios da Terra.

E foi, assim, um recomeço do mundo, uma gênese que futuros Moisés e Laplace haveriam de recordar.

E a criação prosseguiu nova, diversa, não terrestre, marciana, saturnina, solar, mas, sim, extraterrena, sobre-humana, inextinguível.

E houve outras humanidades, outras civilizações, outras vaidades, outras Babilônias, Tebas, Atenas, Romas; outros palácios, templos, monumentos; outras glórias e outros amores. Mas, tudo isso nada tinha da Terra, cujas efígies se esvaneceram como sombras espectrais.

E esses universos também passaram, por sua vez. Outros lhes sucederam. A certa época, perdida na eternidade dos tempos, todas as estrelas da via-láctea se precipitaram para um centro comum de gravidade, constituindo um imenso, formidável sol – centro de um sistema cujos mundos gigantescos se povoaram de seres organizados, em temperatura incandescente para nós, e cujos sentidos, vibrando sob outras irradiações, com outra física e outra química, lhes mostraram o Universo sob aspectos irreconhecíveis aos nossos olhos...

Para outras criações, outros seres e outros pensamentos.



E sempre, sempre o espaço infinito permaneceu repleto de mundos e de estrelas, de almas e de sóis. Nem nunca deixou de haver eternidade.

Visto que ela não comporta começo nem fim...
FIM

Notas:


1Havia mais de 300 anos que o Observatório de Paris se tornara apenas o núcleo administrativo da astronomia francesa. De preferência às cidades baixas, populosas e poeirentas, as observações se faziam agora nas montanhas mais altas, emergentes de atmosferas puras e afastadas de tumultos e distrações mundanas. O telefone mantinha os observadores em comunicação permanente com a sede administrativa. Os aparelhos, aí conservados, não se destinavam senão a satisfazer a curiosidade de alguns sábios residentes em Paris, ou para verificação de algumas descobertas.

2Escusado dizer que a linguagem do século XXV vai aqui traduzida na do XIX.

3Antiga física do globo.

4I, 7-8; III, 13; IV, 5; VI, 2-3; XI, 26; XV.



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   16


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal