Camille Flammarion o fim do Mundo



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III
A sessão do Instituto


Facevano um tumulto, ti qual s'aggira

Sempre in quell'aria senza tempo tinta,

Come 1'orena quando il turbo spira.
DANTE, l'Inferno, III, 10.
Nunca, desde que fora construído em fins do século XX, o grandioso hemiciclo se enchera de multidão mais compacta.

Impossível, mecanicamente, adicionar-lhe uma só pessoa, que fosse. Anfiteatro, balcões, tribunas, galerias, corredores, tudo, até os degraus das escadas, estava literalmente ocupado. Notavam-se presentes o Presidente dos Estados Unidos da Europa, o diretor da República francesa, das Repúblicas italianas e ibérica, a embaixatriz das Índias, os embaixadores das Repúblicas britânica, alemã, húngara e moscovita; o rei do Congo, a Comissão de Administradores, todos os ministros, o prefeito da Bolsa internacional, o cardeal arcebispo de Paris, a Diretora geral de Telefonoscopia, o presidente do Conselho de vias aéreas e elétricas, o Diretor da Repartição de Aerologia, os principais astrônomos, químicos, fisiologistas e médicos vindos de toda parte, grande número de funcionários oficiais (que outrora se denominavam senadores c deputados), vários escritores célebres, um conjunto, enfim, nunca visto, de representantes da ciência, da política, comércio, indústria, artes, etc. Cenáculo repleto à cunha: presidente, vices, secretários perpétuos, oradores inscritos. Já se não trajavam, porém, à moda antiga. Nada de togas, capelos, espadagões: um simples traje civil. Havia mais de dois séculos que as insígnias estavam prescritas na Europa. Em compensação, as da África central eram das mais luxuosas.

Macacos educados de há muito substituíam os criados domésticos, que não mais se encontravam em parte alguma. Eles lá estavam às portas, mais por obedecer ao protocolo que para verificar os ingressos, de vez que, uma hora antes da marcada, já o recinto fora tomado de assalto.

Eis em que termos o Presidente abriu a sessão.2

– Senhoras, senhores:

“Todos vós conheceis a finalidade deste conclave. Nunca, jamais, a Humanidade atravessou uma fase como esta. Nunca, em particular, esta velha sala do século XX congregou tal auditório. O grande problema do fim do mundo é, de 15 dias a esta parte, sobretudo, a única preocupação de todos os sábios. Essas discussões e estudos vão ser aqui expostos e eu dou desde logo a palavra ao Sr. Diretor do Observatório.”

O astrônomo levantou-se logo, empunhando algumas notas. Tinha a palavra fácil, voz agradável, figura jovial, o gesto sóbrio e pacificado o olhar.

A testa larga e magnífica cabeleira branca e crespa ornavam-lhe a fronte. Tinha tanto de erudição literária quanto de científica, e toda a sua pessoa inspirava respeito e simpatia. Otimista também, ainda nas mais graves circunstâncias. Bastou dissesse algumas palavras para que os semblantes se transformassem de lúgubres e ansiosos em calmos e serenos.

– Senhoras – começou dizendo – é a vós que primeiro me dirijo, pedindo não vos atemorizardes diante de uma ameaça que poderá, talvez, não ser tão horrível quanto se presume. Espero convencer-vos, dentro em pouco, com argumentos que terei a honra de expor, que o esperado cometa não acarretará a ruína total da nossa Humanidade. Sem dúvida podemos, devemos mesmo esperar qualquer catástrofe; mas, com relação ao fim do mundo, tudo nos leva a coligir que não sobrevirá. Os mundos morrem de velhice e não de acidentes. E vós sabeis, melhor do que eu, que o nosso mundo está muito longe de ser velho.

“Senhores, vejo aqui representantes de todas as camadas sociais, das mais humildes às mais elevadas. Explica-se que, da ameaça assim ostensiva de uma destruição terrestre, tenha resultado a paralisação geral de todas as atividades. Entretanto, pessoalmente, vos confesso que, se a Bolsa não houvesse fechado e tivesse eu a infelicidade de ali jogar, não hesitaria em comprar ainda hoje os títulos de renda tão subitamente desvalorizados.”

Bem não acabara de o dizer e já um famoso judeu americano, príncipe das finanças, diretor do periódico “Século XXV” e que ocupava um balcão superior do anfiteatro, abriu caminho a torto e a direito, entre a massa, e precipitou-se como um bólido, desaparecendo numa das portas de saída.

Interrompido um instante pelo inesperado efeito de uma reflexão puramente científica, o orador prosseguiu:

– Nosso tema pode dividir-se em três partes: 1°- Colidirá o cometa, fatalmente, com a Terra? 2°- Qual a sua constituição? 3°- Quais poderão ser, possivelmente, os efeitos do choque? Não preciso advertir ao culto auditório que as fatídicas palavras tantas vezes pronunciadas de algum tempo a esta parte: – Fim do mundo – significam unicamente Fim da Terra, que é, aliás, seja dito, o mundo que mais nos interessa.

“Se pudéssemos responder negativamente ao primeiro quesito, seria mais ou menos ocioso ocupar-nos dos dois outros, cuja importância se tornaria desde logo secundária.

“Desgraçadamente, devo reconhecer que os nossos cálculos astronômicos se apresentam aqui, como sói acontecer, de rigorosa exatidão. Sim, o cometa deve atingir a Terra com uma velocidade considerável. A velocidade do nosso globo é de 29.460 metros por segundo e a do cometa é de 41.660 metros, e mais a aceleração resultante da atração do nosso planeta. Portanto, temos que o choque se daria com a velocidade de 72.000 no primeiro segundo, se o cometa nos chegasse justo de frente. Mas, a verdade é que chegará um tanto obliquamente.

“O choque é mesmo inevitável, com todas as suas conseqüências. Peço, porém, ao auditório que não se perturbe dessa maneira! Esse choque nada significa em si mesmo. Se imaginarmos, por exemplo, que um trem de ferro deve encontrar uma nuvem de mosquitos, não haverá motivo de inquietação para os respectivos viajantes. Pois a mesma coisa pode verificar-se com o encontro desse astro gasoso. Queiram permitir o exame tranqüilo dos outros dois pontos.

“Antes de tudo: qual a natureza do cometa? Aqui todos o sabem gasoso e principalmente composto de óxido-carbônico. A temperatura do espaço (273 graus abaixo de zero), esse gás, invisível nas condições terrestres, permanece em estado de nevoeiro e mesmo de poeira sólida. O cometa está como que saturado dele. Nisto, não contradirei, no quer que seja, as descobertas científicas.”

Tal declaração produziu um novo rito em todos os semblantes e ouviram-se muitos e prolongados suspiros.

– Mas, senhores – prossegue o astrônomo – esperando que algum dos eminentes colegas da seção de fisiologia ou da Academia de Medicina nos demonstre que a densidade cometária é bastante forte para penetrar em nossa atmosfera respirável, penso eu que tudo se resolverá em magnífica chuva de estrelas cadentes, sem quaisquer conseqüências fatais para a vida humana. Não o digo com certeza; todavia, a probabilidade é muito grande, talvez de um milhão contra um. Nada obstante, todos os de pulmão fraco, seriam vitimados. E daí, uma espécie de gripe, capaz de quintuplicar o obituário cotidiano. Simples epidemia.

“Nada obstante, se, como concordes o indicam as pesquisas telescópicas e fotográficas, o núcleo cometário contém massas minerais, metálicas sem dúvida, específicas, uranólitos de diâmetros quilométricos pesando milhões de toneladas, não podemos recusar que os pontos atingidos por essas massas, com a velocidade já referida, sejam irremissivelmente arrasados. Mas, porque haveriam esses pontos de ser justamente os habitados? Lembremos que três quartos do planeta estão cobertos de água. Aquelas massas bem podem cair no mar, formarem talvez novas ilhas, trazendo consigo novos elementos de estudo, germes – quem sabe – de existências desconhecidas. A geodésica, a forma e o movimento rotativo da Terra podem ser com isso afetados. Notemos, também, que não faltam extensões desérticas em nossa crosta. Perigo existe, certo, mas não o direi imenso.

“Além disso, essas massas e gases, mesmo os bólidos de que falávamos, poderiam trazer em seus flancos causas de incêndios, aqui e acolá, sobre o continente. Dinamite, nitroglicerina, panclastite, etc., não passariam de brinquedo, infantil, ao lado do que poderia surpreender-nos. Ainda assim, não seria um cataclismo universal. Algumas cidades incineradas não bastam para interromper a história da Humanidade. Vedes pois, todos vós, que, do exame metódico desses três pontos, resulta evidente a existência de um perigo e perigo iminente, mas não tão desolador, tão considerável e tão absoluto quanto o pregoam. Direi, ainda mais, que esse curioso evento astronômico, que tanto vos perturba o cérebro quanto o coração, aos olhos do filósofo apenas muda a face habitual das coisas. Todos nós estamos certos de ter de morrer um dia, e isso não nos impede de viver tranqüilos. Porque, então, a ameaça de morte mais pronta alarma todos os espíritos? Será o pesar de morrermos todos juntos? Mas, isso deveria ser antes um consolo para o egoísmo humano. Será por ver encurtada a vida de alguns dias, para uns, e de alguns anos para outros? A vida é breve e cada qual recusa encará-la diminuída de um ceitil; e, diante do que estamos vendo e ouvindo, dir-se-ia que cada qual preferiria ver o mundo inteiro arrasado, sobrevivendo-lhe sozinho, antes que morrer só e saber que o resto lhe sobrevive. Puro egoísmo! Mas, senhores, insisto em crer que não haja mais que uma catástrofe parcial, do mais alto interesse para a ciência, e que sempre nos deixará alguns historiadores para contá-la. Teremos choque, atrito, acidente local; mas, nada além disso, provavelmente. Será como a história dum tremor de terra, duma erupção vulcânica, ou dum ciclone.”

Assim falou o astrônomo ilustre. Sua calma filosófica, acuidade espiritual e aparente indiferentismo pelo perigo, contribuíram para tranqüilizar o auditório, embora sem convencê-lo inteiramente. Não se tratava já de um aniquilamento total, mas de catástrofe na qual, ultima ratio, sempre havia uma probabilidade de salvamento. Entrava-se a trocar impressões nesse sentido; comerciantes e políticos pareciam ter compreendido, a preceito, os argumentos da ciência, quando, a convite da Mesa, se dirigiu vagaroso para a tribuna o Presidente da Academia de Medicina.

Era um homem alto, esguio, pálido, figura de asceta, fisionomia saturnina coroada de raros cabelos grisalhos, cortados rente. A voz tinha algo de cavernosa e o seu todo evocava, antes o tipo do empregado de empresa funerária, que o de um médico confiante na cura dos clientes. Sua convicção sobre os acontecimentos era muito diversa da do astrônomo, qual se viu desde que começou a falar.

– Senhores – disse – serei tão lacônico quanto o sábio eminente que acabamos de ouvir, posto que tenha passado longas noites analisando em seus mínimos detalhes as propriedades do óxido de carbono. É a propósito desse gás que vou falar-vos, de vez admitida a sua predominância no cometa e o inevitável encontro deste com o nosso globo. Suas propriedades são desastrosas, não há negá-lo. Qualquer porção infinitesimal, no ar respirável, basta para aniquilar em três minutos a função pulmonar e acarretar a morte. Todos sabemos que o óxido de carbono (em química CO) é um gás permanente, inodoro, incolor, insípido e mais ou menos insolúvel na água. Sua densidade, comparada ao ar, é de 0,96. Incendiando-se no ar, produz o anidrido carbônico, com uma chama azul de pouca claridade. É assim como um fogo fátuo. Ele possui, ao demais, uma tendência permanente para absorver o oxigênio (o orador frisa fortemente estas palavras). Nos altos fornos, por exemplo, o carvão se transforma em óxido de carbono, ao contacto de uma quantidade de ar insuficiente, e é este óxido que a seguir reduz o ferro a estado metálico, apoderando-se do oxigênio com o qual primeiramente se combinara. Ao Sol, o óxido de carbono se combina com o cloro e dá um oxiclorureto de odor desagradável e sufocante em estado gasoso. O que, principalmente, deve despertar nossa atenção é que este gás é dos mais venenosos que se conhecem, muito mais tóxico que o ácido carbônico. Em se fixando na hemoglobina, ele diminui a capacidade respiratória do sangue. Acumulando-se nos glóbulos vermelhos, ainda que em dose minimíssima, entrava, em grau aparentemente desproporcional com as causas, a aptidão do sangue para oxigenar-se. Assim, o sangue, que absorve 23 a 25 centímetros cúbicos de oxigênio por 100 volumes, não absorveria mais de metade em atmosfera que contivesse menos de um milésimo de óxido de carbono. Um decimilésimo já é deletério e diminui sensivelmente a capacidade do sangue, produzindo, não direi a asfixia, mas o envenenamento quase instantâneo! O óxido de carbono atua diretamente nos glóbulos sanguíneos e funde-se com eles, tornando-os inaptos para entreter a vida, sustando a hematose, a transformação do sangue venoso em sangue arterial. Três minutos bastam para acarretar a morte. A circulação paralisa, o sangue venoso entope artérias e veias, os vasos venosos, principalmente os cerebrais, ingurgitam-se: língua, garganta, traquéia e brônquios se avermelham e todo o cadáver apresenta desde logo uma coloração violácea, característica da cessação da hematose.

“Todavia, senhores, não são apenas as propriedades deletérias do óxido de carbono que devemos temer, se bem que a só tendência desse gás para absorver o oxigênio baste, só por si, para desfechar funestas conseqüências. Suprimi – que digo? – diminuí apenas o oxigênio e tereis logo extinto o gênero humano. Aqui, conhecem todos uma das muitas histórias que ilustram as épocas do barbarismo, em que os homens se entrematavam legalmente, a pretexto de glórias patrióticas. Simples episódios de uma das guerras inglesas na Índia, permiti-me vo-lo lembre aqui: cento e quarenta e seis prisioneiros haviam sido enclausurados num cubículo acanhado, sem outra abertura além de duas janelinhas que davam para uma galeria. O primeiro sintoma que os pobres reclusos experimentaram foi um copioso suadouro, logo seguido de sede insuportável, com grande dificuldade de respiração. Ensaiaram diversos meios de separarem-se o mais possível, em busca de ar. Despiram-se, abanaram-se e tomaram finalmente o partido de se ajoelharem e levantarem, simultânea e repetidamente; mas, cada vez que o faziam, alguns, já baldos de forças, caíam e ficavam estendidos aos pés dos companheiros... Morriam, asfixiados, em agonia. Antes da meia-noite, ou fosse quatro horas depois da reclusão, todos os que ainda viviam sem haver aspirado junto das janelinhas um ar menos impuro, mantinham-se caídos em estupor letárgico, quando não em acesso delirante. Quando, horas passadas, abriram a prisão, apenas vinte três criaturas saíram com vida e, ainda assim, num estado deplorável, qual foragidos de um túmulo. Poderia aqui juntar mil exemplos idênticos, mas, nada adiantaria, desde que não há dúvidas a respeito. Declaro portanto, senhores, que, por um lado, a absorção do óxido de carbono em maior ou menor dose de oxigênio atmosférico e que, por outro lado, a alta toxidade desse gás para os glóbulos sanguíneos, parecem-me emprestar ao encontro da imensa massa cometária com o nosso globo – que deverá mergulhar nela durante algumas horas – uma gravidade excepcional e prenhe de conseqüências desastrosas. Havemos de ver pelas ruas desgraçados mortais em busca de ar respirável, a caírem mortos de asfixia. Também não vejo, por mim, nenhum recurso escapatório.

“E ainda não falei da transformação do movimento em calor, nem tão-pouco dos resultados químicos e mecânicos do choque. Deixo esse aspecto da questão à competência do Secretário da Academia de Ciências, tanto quanto ao sábio Presidente da Sociedade Astronômica de França, que fizeram importantes cálculos nesse sentido. Para mim, repito, a Humanidade se encontra em perigo de morte e não vejo apenas uma, porém duas, três ou quatro causas letíferas, prestes a desabarem sobre ela. Só um milagre poderia salvá-la. Mas, a verdade é que, de há muitos séculos, ninguém há que acredite em milagres.”

Esse discurso, pronunciado em tom convicto, com voz forte e calma, lançou o auditório no mesmo estado de agitação que o primeiro discurso tivera a virtude de serenar. A certeza do próximo cataclismo desenhava-se em todos os semblantes. Havia-os amarelos, esverdeados, lívidos e avermelhados, e apopléticos. Só pequeno número de auditores parecia guardar sangue-frio, como quem houvesse já tomado o seu partido.

Imenso burburinho enchia o salão e cada qual procurava comunicar ao vizinho as suas impressões, geralmente mais otimistas que sinceras. Ninguém quer parecer medroso. Levantou-se o Presidente da Sociedade Astronômica e caminhou para a tribuna. O sussurro da multidão cessou como por encanto. Eis como ele exordiou, tematizou e perorou:

– Senhoras, senhores: pelo que acabais de ouvir, ninguém mais poderá duvidar da realidade do encontro cometário e dos perigos conseqüentes. Cumpre-nos, pois, esperar até sábado...

– Aliás, sexta – interrompe uma voz partida da própria mesa.

– Sábado – repete o orador – um acontecimento extraordinário e absolutamente novo na história do mundo. Digo sábado, ainda que todos os jornais o tenham anunciado para sexta-feira, isto porque tal coisa não poderá ocorrer senão no dia 14 de Julho. A última noite, passamo-la eu e meu sábio colega a comparar as observações feitas na Ásia e na América, e verificamos um erro de transmissão telefonográfica.

Tal afirmativa produziu agradável expectação no auditório, foi como um raio luminoso no bojo de uma noite tenebrosa. A dilação de um dia tem sempre valor inestimável para um sentenciado de morte; e tanto bastava para que em muitos cérebros começassem a germinar presunções fantasistas. Recuava-se a catástrofe? Era uma espécie de graça. Não raciocinavam que aquela diversão, puramente cosmográfica, só afetava uma data e não o fato concreto em si mesmo.

Convenha-se, porém, em que as mínimas facetas representam grande papel nas impressões populares. Enfim... já não era para sexta-feira 13.

– Aqui tendes – disse o orador encaminhando-se para o quadro-negro – a órbita definitiva do cometa, decalcada em todas as observações colhidas...

E gizou estas cifras:


  • Passagem ao periélio 11 Agosto às 0h 45m. 44s.

  • Longitude do periélio 52° 43’ 25’’.

  • Distância do periélio 0,76017

  • Inclinação 103° 18’ 35’’.

  • Longitude no nó ascendente 112° 54’ 40’’.

“O cometa – prosseguiu dizendo – cortará a eclíptica a caminho do nó descendente aos 13 de Julho, depois da meia-noite, ou seja, exatamente às 0h. 18m. 23s. de 14, pelo meridiano de Paris, ainda no momento justo da passagem da Terra no mesmo ponto. A atração da Terra abreviará o encontro de 30 segundos, apenas. Será um feito indubitavelmente extraordinário, mas, ao meu ver, destituído desse caráter trágico que nos esboçaram. Não creio venhamos a perecer todos asfixiados por envenenamento do sangue. O choque nos oferecerá antes, suponho, a perspectiva de um fogo de artifício celestial, visto que a intermissão dessas massas sólidas e gasosas, na camada atmosférica, não poderá efetivar-se sem que o seu movimento, assim paralisado, se transforme em calor. Um abrasamento grandioso das alturas será, provavelmente, o primeiro fenômeno, enquanto milhões de estrelas cadentes irão surgindo como emitidas de um foco único e radiante.

“A quantidade de calor há de ser formidável. Qualquer estrela cadente, por mínima que seja, ao chegar à nossa atmosfera com a velocidade cometária, logo se esquenta a tal ponto que arde e se consome. Sabeis, senhores, que a nossa atmosfera se projeta muito longe, no espaço, em torno do planeta. Ela não é ilimitada, como sustentam algumas hipóteses, de vez que a Terra gira sobre si mesma e em torno do Sol. O seu limite matemático está na altitude em que a força centrífuga, engendrada pelo movimento de rotação diurno, torna-se igual ao peso. Essa altitude será de 6,64, se representarmos por 1 o meio diâmetro equatorial do globo, de 6.378.310 metros. Teremos, então, que o máximo da camada atmosférica será de 42.352 quilômetros.

“Não quero aqui entrar na matemática. O auditório que me ouve é assaz instruído para não desconhecer o equivalente mecânico do calor. Todo corpo, detido em seu movimento, produz uma quantidade de calor que se exprime em calorias, pela fórmula:

( m V 2 ) / 8.338

na qual m é a massa do corpo em quilogramas e V a sua velocidade em metros por segundo. Um corpo pesando 8.338 quilos, por exemplo, caminhando um metro por segundo, desenvolveria com a sua retenção precisamente uma caloria, ou seja a quantidade de calor suficiente para elevar de um grau a temperatura de um quilograma da água.

“Se a velocidade desse corpo fosse de 500 metros por segundo, sua parada produziria 250.000 vezes mais calor, ou tanto quanto o necessário para elevar de 0 a 30 graus uma quantidade da água igual ao seu próprio volume. Se, já não de 500, mas de 5.000 metros for a velocidade, o calor produzido será 5 milhões de vezes maior.

“Ora, senhores, sabeis que o encontro de um cometa com a Terra pode atingir a velocidade de 72.000 metros, e nesse caso a proporção se eleva a 5 milhões de graus!

“Aí temos um máximo e – direi – uma cifra por assim dizer – inconcebível. Mas, tomemos um mínimo, se assim preferirdes. Admitamos se dêem esses choques não diretamente, de face, porém, em sentido mais ou menos oblíquo, e que a velocidade não ultrapasse 30.000 metros.

“Cada quilograma de um bólido desenvolve, neste caso, 107.946 unidades de calor, quando, pela resistência do ar, a velocidade se reduz a zero. Por outros termos, ele desenvolveu calor suficiente para elevar de zero a 100 graus, isto é, de congelado a fervente, um volume da água de 1.079 quilogramas Um uranólito de 2.000 quilos, chegando à Terra com uma velocidade anulada por essa resistência de ar, teria desenvolvido calor suficiente para elevar a 3.000 graus uma coluna de ar de 30 metros quadrados de secção, em toda altura da nossa atmosfera, ou para elevar de 0 a 30 graus uma coluna de 3.000 metros quadrados.

“Estes os cálculos que, rogo me desculpeis, se faziam necessários para mostrar que a conseqüência imediata do encontro será um calor enorme, um aquecimento extraordinário do ar. De resto, é o que acontece com a queda dos bólidos isolados. O uranólito é fundido, vitrificado em toda a sua superfície, como revestido de uma camada de verniz. A queda, porém, é tão rápida que lhe não dá tempo de aquecer-se interiormente. Se o quebrarmos, vê-lo-emos absolutamente gelado por dentro. O ar atravessado é que se aqueceu.

“Um dos efeitos mais curiosos da análise que acabo de resumir é que as massas sólidas, mais ou menos volumosas, que presumimos distinguir ao telescópio em o núcleo cometário, hão de experimentar tal resistência ao atravessar nossa atmosfera, que, salvo casos excepcionais, não chegarão íntegras ao solo e, sim, mais ou menos fragmentadas. À frente do bólido opera-se a compressão do ar; atrás é o vácuo. Aquecimento e incandescência exterior do corpo em movimento, ruído violento devido à precipitação do ar que vai preenchendo o vácuo, ribombos de trovão, explosões, desagregações, queda de elementos metálicos mais densos e evaporação de outros. Um bólido de enxofre, de fósforo, de estanho ou de zinco, flamejaria e se evaporaria muito antes de atingir as camadas inferiores da atmosfera.

“Quanto às estrelas cadentes, se, como parece, constituem uma verdadeira nuvem, não produzirão mais que um prodigioso fogo de artifício.

“Se, pois, algo tem a temer, não é, na minha opinião, a penetração da massa gasosa do óxido de carbono em nossa atmosfera, seja ela qual for, e sim a forte elevação da temperatura, conseqüente à transformação do movimento em calor.

“Neste caso, a salvação estaria, talvez, em refugiar-se no hemisfério oposto ao que haja de receber em cheio o choque do cometa. O ar, sabemo-lo, é o pior condutor do calor.”

Levanta-se, a seu turno, o Secretário perpétuo da Academia. Digno sucessor dos Fontenelles e Aragos, aliava a uma vasta cultura científica as qualidades de orador fluente e escritor elegante, não raro atingindo os cimos da eloqüência.

– A sábia teoria que acabastes de ouvir – disse – nada cumpre acrescentar, salvo a aplicação que pudéssemos dela fazer a qualquer cometa já de nós conhecido. Há dias, houve quem lembrasse, por exemplo, o cometa de Biela, de 1811. Pois bem: vamos supor que um cometa das mesmas dimensões nos esbarre literalmente em cheio, na rota do nosso curso solar. Nosso esferóide penetraria a nebulosidade cometária sem experimentar, certo, qualquer resistência mais forte. Admitindo-se mesmo que essa resistência fosse fraquíssima, e que a densidade do núcleo fosse negligenciável, o nosso globo precisaria de vinte e cinco mil segundos, ou sejam, 417 minutos para atravessar a massa cometária de 1.800.000 quilômetros de diâmetro. Seria, portanto, sete horas de marcha com a velocidade de cento e vinte vezes a de uma bala de canhão, sem deixar, por isso, de obedecer ao seu movimento rotativo.

“Tal mergulho no oceano cometário, por diáfano que seja, não poderia deixar de carrear como primeira e imediata conseqüência, atentos os princípios termodinâmicos aqui lembrados, uma elevação de temperatura possivelmente capaz de incendiar a atmosfera! Neste caso, o perigo se me afigura dos mais graves.

“E, contudo, seria um belo espetáculo para os habitantes de Marte, mais ainda para os de Vênus. Um espetáculo deveras admirável, análogo (mas, talvez mais maravilhoso para os nossos vizinhos) a essas curiosas conflagrações astrais temporárias, que já temos observado na profundeza dos céus. O oxigênio do ar teria o seu melhor papel no alimentar do incêndio. Mas, há outro gás que os físicos pouco consideram, pela circunstância de não o haverem encontrado jamais em suas análises... É o hidrogênio. Que é feito de toda a quantidade desse gás, emitida pelo solo terreno, desde que o mundo é mundo? Pois que a sua densidade é dezesseis vezes mais fraca que a do ar, todo ele deve ter subido para formar, em torno de nossa atmosfera, um como invólucro de hidrogênio muito rarefeito. Em virtude da lei de difusão dos gases, grande parte desse hidrogênio deve ter-se misturado intimamente com o ar, mas, ainda assim, não deixarão as camadas superiores de o conter em maior proporção. É lá que se acendem as estrelas cadentes e, sem dúvida, as auroras boreais, a mais de cem quilômetros de altura. Notemos, a propósito, que o oxigênio do ar, recebendo o choque cometário, bastaria para alimentar o fogo celeste.

“O fim do mundo dar-se-ia, portanto, pelo incêndio da atmosfera. Durante sete horas, mais ou menos, ou melhor – por tempo mais longo, visto que a resistência cometária não pode ser nula – haveria transformação constante de movimento em calor. Hidrogênio e oxigênio arderiam combinados com o carbono do cometa. A atmosfera elevar-se-ia a algumas centenas de graus e jardins, parques, florestas, casas, monumentos, cidades e campos, tudo ficaria em breve consumido. Mares, lagos e rios entrariam a ferver e os homens e os animais, em respirando esse ambiente, pereceriam asfixiados, antes mesmo de serem devorados pelo fogo.

“Presto, depois, todos os cadáveres estariam carbonizados, incinerados, e, no vasto incêndio celeste, só o anjo incombustível do Apocalipse poderia entoar, ao som lancinante da sua trombeta, o velho cântico mortuário, como um dobre a finados:

Dies, irce, dies illa!
Solvet, sœculum in favilla!

“Aí tendes o que poderia suceder se um cometa como o de 1811 se encontrasse com a Terra.”

A essas palavras, o cardeal-arcebispo levantara-se e pedira a palavra. O Secretário perpétuo havia-lhe notado a presença e, depois de o saudar, por dever de cortesia meramente social, inclinava-se ligeiramente como que esperando a palavra.

– Não quero – disse aquele – interromper o discurso do nobre orador. Mas, se a Ciência anuncia, como prelúdio de um drama de fogo, o aniquilamento da nossa Humanidade, não posso nem devo calar que a crença universal da Igreja sempre foi precisamente essa. “Os céus passarão”, disse-o São Pedro. Os elementos combustos se dissolverão e a Terra se consumirá com todo o seu conteúdo. Também São Paulo anuncia a mesma renovação pelo fogo. E nós, nas missas fúnebres, sempre invocamos: Eum qui venturus est judicare vivos et mortuos et saeculum per ignem... Sim: Solvet sœcnclum in favilla. Deus reduzirá o universo a cinzas.

– Mais de uma vez – interdiz o Secretário – a Ciência se tem identificado com a intuição dos antepassados. O incêndio devoraria em primeiro lugar as regiões diretamente atingidas. Todo o lado atingido pela gigantesca massa cometária seria queimado, antes que os habitantes do outro hemisfério pudessem perceber o cataclismo. O ar é mal condutor e, neste caso, o calor não se propagaria imediatamente aos pontos opostos.

“Se o nosso hemisfério estivesse precisamente voltado para o cometa nos primeiros minutos do encontro, seria o trópico de Câncer, os habitantes de Marrocos, Argélia, Tunis, Itália, Grécia, Egito que haveriam de constituir a vanguarda da batalha celeste; ao passo que os da Austrália, Nova-Caledônia, Oceania e dos nossos antípodas seriam os mais favorecidos. Mas, a absorção do ar produzida pela imensa fornalha seria de tal monta, que desencadearia uma tempestade incomparável, em sua violência, aos mais violentos furacões conhecidos; mais impetuosa, digamos, que a corrente de 400 quilômetros horários, qual a vigorante e constante no equador de Júpiter, soprando dos antípodas para a Europa e tudo arrasando à sua passagem. Em seu movimento de rotação, a Terra arrastaria sucessivamente para o eixo do choque os países situados a oeste do meridiano primeiramente atingido. Uma hora depois a Áustria, a Alemanha, a França; depois o Atlântico e a América do Norte, que não entraria no mesmo eixo um tanto oblíquo, dada a marcha do cometa para o seu periélio, a cinco ou seis horas da França, ou seja, no fim da sua travessia.

“Apesar da inaudita velocidade do cometa e da Terra, a pressão cometária não seria descomunal, em virtude da extrema tenuidade da substância atravessada. Essa substância, porém, encerrando carbono, torna-se combustível e, na exaltação de seus ardores periélios, vemos que esses astros juntam, muitas vezes, à sua própria, a luz que do Sol recebem. Assim, os cometas tornam-se incandescentes. Que seria, então, no choque terrestre? O incêndio das estrelas cadentes e dos bólidos, a fusão superficial dos uranólitos, que chegam ardentes à nossa crosta, tudo isso induz a crer que o mais intenso calor deva ser o primeiro e o mais considerável dos efeitos, o que não impediria, é claro, os elementos maciços do núcleo de arrasarem os pontos de sua passagem, e mesmo deslocar, talvez, um continente inteiro.

“Permanecendo o globo terrestre inteiramente envolvido pela massa cometária durante sete horas, mais ou menos, a girar nesse gás incandescente, o afluxo do ar, precipitando-se para o incêndio; o mar em ebulição, sobrecarregando a atmosfera de novos vapores; uma chuva torrencial esfervilhante, a precipitar-se em cataratas; o furacão esfuziando de todos os quadrantes; estalidar de raios, ribombar de trovões; a tonalidade dos belos dias substituída por um luar lúgubre, difuso, num ambiente abafadiço, e já o globo inteiro não tardaria a sucumbir no pandemônio, ainda que a morte dos antípodas viesse a diferir daquela das populações atingidas.

“Ao invés de serem imediatamente consumidos pelo fogo celeste, eles morreriam abafados pelo vapor ou pela predominância do azoto – uma vez diminuído o oxigênio – ou envenenados pelo óxido de carbono. O incêndio não fazia mais que incinerar depois os cadáveres, enquanto que os africanos e europeus seriam queimados vivos.

“Tomei como exemplo o cometa de 1811, mas, apresso-me a acrescentar, concluindo, que este nosso cometa me parece muito menos denso. E vós pudestes ver que encarei o problema de modo assaz despreocupado e persuadido de que, ameaçados fatalmente de um choque, nem por isso morreremos.”

– Há certeza – exclama uma voz bem conhecida (era um membro ilustre da Academia Cirúrgica) – de que o cometa seja essencialmente composto de óxido carbônico? As observações espectroscópicas lhe teriam encontrado traços de azoto? Fosse o protóxido de azoto e teríamos, então, na transfusão das atmosferas, terrena e cometária, a anestesia dos terrícolas. Todo o mundo dormiria, talvez, para não mais acordar, se as funções vitais ficassem suspensas por tempo apenas um pouco mais longo que o necessário às anestesias cirúrgicas. A mesma coisa sucederia se o cometa se compusesse de éter ou clorofórmio. Ter-se-ia, então, um fim tranqüilo. Menos o seria, contudo, se em vez de oxigênio o cometa absorvesse azoto, visto que a extração, gradual ou total, deste produziria, dentro de poucas horas, em todas as criaturas, homens, mulheres, crianças, velhos, uma transformação de caráter nada incomodativa, a saber: primeiro, uma serenidade deliciosa: depois, uma alegria contagiosa, expansiva, trepidante – uma exaltação febril –, um delírio, loucura enfim, e, provavelmente, uma coreografia fantástica culminando na morte de todos os seres. Apoteose, dir-se-ia, de uma sarabanda louca, pela superexcitação de todos os sentidos. Toda a gente estouraria de riso... Fim trágico?

– A discussão continua aberta – replicou o Secretário –. O que eu disse das possíveis conseqüências do incêndio é aplicável ao encontro direto de um cometa análogo ao de 1811. Este que ora nos ameaça é menor e o seu choque não será em linha reta, mas oblíqua. Tal como os astrônomos que me precederam nesta tribuna, eu quero crer que não tenhamos mais que um simples fogo de artifício.

“Aditarei que fenômenos químicos, imprevistos, poderão verificar-se. Assim, por exemplo, ninguém aqui ignora que a água e o fogo se assemelham: hidrogênio que arde em combinação com oxigênio, ou hidrogênio combinado com oxigênio, são coisas afins. A água dos mares, dos lagos, dos rios, é composta de dois volumes de hidrogênio e um de oxigênio. Na origem do nosso planeta essa água era fogo e poderia volver ao seu primitivo estado se, mediante uns tantos fenômenos de eletrólise, os ferros magnéticos do núcleo cometário viessem a decompor-se, dissociando suas moléculas de hidrogênio e queimando-as. Todos os mares poderiam incendiar-se bem depressa.”

Falava ainda o orador, quando uma jovem funcionária da central-telefônica entrou por uma porta baixa, guiada por um símio domesticado, precipitando-se para a cadeira do Presidente, a fim de lhe entregar um grande envelope quadrado, que foi imediatamente aberto. Era um despacho do Observatório do Gaorisancar com estas únicas palavras:

Habitantes de Marte mandaram mensagem fotofônica. Decifraremos dentro de poucas horas.”

– Senhores – disse o Presidente – acabo de ver que muitos de vós consultastes o relógio e penso convosco ser impossível esgotar o assunto nesta reunião, ainda porque, resta-nos ouvir outros eminentes representantes da geologia, da história e da geonomia.3 De resto, o despacho que acabo de ler nos trará novo elemento para a solução do problema. São quase 18 horas e eu vos proponho uma sessão complementar para esta mesma noite, às 21 horas. É provável que até lá tenhamos recebido a decifração da mensagem marciana. Pedirei ao Sr. Diretor do Observatório que se mantenha em comunicação telefonoscópica permanente com a estação de Gaorisancar. Caso a mensagem não esteja ainda decifrada às 21 horas, o Sr. Presidente da Sociedade Geológica de França poderá abrir a sessão para expor o estudo que acabo de completar sobre o fim natural do orbe terrestre. Não há quem neste momento não se interesse apaixonadamente por esta questão capital, seja por saber se o nosso mundo está verdadeiramente fadado a perecer nesta contingência, ou seja a qualquer tempo, por causas outras suscetíveis de cálculo e previsão.




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