Camille Flammarion o fim do Mundo



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IV
Como acabará o mundo


L'heure de la fin viendra, il n'y a point de doute là-dessus et cependant la plupart des hommes n'y croient pas.
MAHOMET, le Ooran, XI, 61.
A multidão, imobilizada às portas do Instituto, afastara-se para dar passagem ao auditório e cada qual procurava inteirar-se do resultado da sessão. Porém, sem que se soubesse como já havia transpirado logo após o discurso do Diretor do Observatório, diziam que o encontro não seria provavelmente tão fatal quanto se prenunciara e presumira. Demais, enormes cartazes acabavam de ser afixados por toda a cidade, anunciando a reabertura da Bolsa de Chicago. Era um incitamento imprevisto ao reatamento das atividades normais, públicas e privadas. Eis o que ocorrera: Depois que se despencou das alturas da arquibancada, o príncipe das finanças voou pelo aerocabo aos seus escritórios de Saint-Cloud e telefonou ao sócio em Chicago, comunicando-lhe que novos cálculos foram apresentados ao Instituto de França e o evento astronômico não tinha a suposta gravidade; que o ritmo dos negócios deveria ser retomado e urgia, a qualquer preço, reabrir a Bolsa americana e comprar todos os títulos que se apresentassem, fossem quais fossem. Ora, 4 da tarde, em Paris, corresponde a 10 da manhã em Chicago. Estava, pois, o financista almoçando, quando lhe chegou o fonograma do sócio. Não lhe foi difícil promover logo a reabertura da Bolsa e comprar de pancada algumas centenas de milhões de títulos. A notícia de Chicago logo se divulgou em Paris, onde já não era possível dar o mesmo golpe, mas podiam preparar-se novas combinações para o dia seguinte. O povo, otimista, acreditara na espontaneidade da iniciativa americana e, associando-a à impressão calmante da assembléia acadêmica, encheu-se de esperança.

Mas, nem por isso deixou de acorrer menos sôfrego à sessão noturna. Não fosse o serviço especial da Guarda Civil e impossível seria aos convidados privilegiados penetrar no recinto. A noite caíra e o cometa se tornava maior, mais flamejante – e ameaçador. Se uma parte das criaturas mostrava-se mais ou menos tranqüilizada, a outra – porventura a maior – continuava exaltada, nervosa, febricitante. O auditório era evidentemente o mesmo, cada qual interessado em conhecer de pronto as conclusões do debate entre os mais eminentes e autorizados cientistas, no concernente à sorte do planeta e à espécie de morte que a todos aguardava. Todavia, não passou despercebida a ausência do cardeal, inesperadamente chamado a Roma para tomar parte num concílio ecumênico, e que para lá seguira pelo tubo Paris-Roma-Palermo-Túnis.

– Senhoras – disse o Presidente – ainda não recebemos o despacho de Marte, assinalado pelo Observatório de Gaorisancar, mas podemos abrir desde já a sessão, a fim de ouvirmos as valiosas comunicações anunciadas pelo Sr. Presidente do sociedade Geológica e pelo Sr. Secretário geral da Academia de Meteorologia. Dou, portanto, a palavra ao primeiro.

Já o orador estava na tribuna. Eis o seu discurso estenografado por um aluno da nova escola.

– O auditório vultoso que aqui se comprime, a emoção transparente de todos os semblantes, a impaciência com que aguardais os debates que ainda aqui se devem travar, tudo me levaria, senhores, a abster-me de vos expor as conclusões do estudo que fiz, concernente ao problema em foco, para ceder a palavra a espíritos mais imaginativos, ou mais audaciosos do que eu. É que, a meu ver, o fim do mundo não está próximo e a Humanidade, antes de o ver chegar esta semana, deve esperá-lo ainda por muito tempo... Milhares de anos, provavelmente... Mas, que digo? – milhares, não; milhões, ou melhor: milhares de milhões.

“Vede-me perfeitamente tranqüilo neste momento e considerai que não tenho o mérito de Arquimedes, quando, absorto em seus cálculos geométricos, foi estrangulado pelo soldado romano, no cerco de Siracusa. Arquimedes conhecia e esquecia o perigo. Eu não creio no perigo.

“Não ficareis, pois, surpreendidos de me ouvir expor com a maior calma a teoria da extinção de nosso mundo, pelo nivelamento assaz lento dos continentes e a submersão gradual da sua crosta invadida pelas águas... Seria talvez preferível adiar esta dissertação para a próxima semana, pois não tenho a mínima dúvida de que aqui possamos todos, ou quase todos voltar, a fim de nos entretermos com as grandes fases da natureza.

Nesta altura, fez uma pausa. O Presidente levantara-se:

– Caro e ilustre colega – disse –, todos aqui estamos para vos ouvir. Felizmente, o pânico destes últimos dias está em parte acalmado e esperamos que o próximo 14 de Julho transcorra como os precedentes. Todavia, interessamo-nos mais que nunca pelo grande problema, e nenhuma palavra poderá ser mais acatada que a do autor do clássico Tratado de Geologia.

“Pois bem – continuou o geólogo – eis como acabará o mundo, de morte natural, se nada vier alterar a ordem natural das coisas, o que é provável, visto serem raros os acidentes no ritmo cósmico. A Natureza não dá saltos. Os geólogos já não acreditam mais em revoluções súbitas, em subversões do globo, pois sabem que tudo se processa por evolução lenta e gradual.

“Se é dramático prefigurar-se o novo esferóide arrastado a uma catástrofe universal, menos o será vê-lo, tão só pelas forças ativas que ora o ameaçam de destruição. Não nos parece indefinida a estabilidade dos continentes? Como duvidar da continuidade indefinida deste solo, que tem comportado tantas gerações pregressas e sobre o qual os monumentos antiqüíssimos atestam que, se hoje os vemos em ruínas, não é porque o solo lhes tenha negado apoio, mas, por sofrerem as injúrias do tempo e, sobretudo, do homem? Tempus edax, homo edacior! Tão longe quanto possamos remontar às nossas tradições, elas nos falam de rios correndo nos mesmos leitos atuais; montanhas da mesma altura e, por quaisquer estuários obstruídos, desmoronamentos ali e acolá, isso pouco significa relativamente à massa dos continentes, para que possamos prognosticar uma destruição final.

“Destarte, poderá raciocinar quem não lance ao mundo exterior mais que olhar superficial e indiferente. Outra, porém, a conclusão do observador afeito a escrutar, atento, as modificações mais insignificantes que se verificam em torno dele. A cada passo, por pouco que ele saiba ver, apreenderá as linhas de uma luta incessante, empenhada pelas forças exteriores da natureza contra tudo o que ultrapassa o nível deste oceano, sob o qual reinam o silêncio e o repouso. A chuva, o gelo, a neve, o vento, as fontes, as praias, os rios; todos os agentes meteóricos concorrem para modificar perpetuamente a superfície do globo. Os vales são escavados pelos cursos da água e a seguir entulhados com as terras de enxurro. Tudo muda sem cessar. Aqui é o mar que, furioso, bate as praias e as leva de recuo, de século em século. Além, são talhões de montes que se esboroam, engolindo cidades e povoados, em poucos minutos, semeando a desolação entre vales risonhos. Avalanchas e torrentes desagregam montanhas. Ou, então, temos esses cones vulcânicos, contra os quais se encarniçam as chuvas tropicais, recortando profundas ravinas, e cujas paredes se fendem e mostram a ruinaria, o destroço desses gigantes. Alpes e Pirineus já perderam mais de metade da sua altura.

“Mais silenciosa, porém não menos eficaz, é a ação dos grandes rios quais o Ganges e o Mississipi, cujas águas carreiam grande massa de resíduos. Cada grão de areia que turva a limpidez dessas águas representa um fragmento arrancado à terra firme. Lenta, mas seguramente, as ondas conduzem ao imenso reservatório oceânico tudo o que perde o solo, e os resíduos que diariamente se depositam nos deltas nada representam, comparados aos depósitos que o mar recebe para dispersar em suas profundezas. Como pode o filósofo, testemunha de um trabalho tal e sabendo que ele se opera por séculos de séculos, como pode, repito, duvidar que os rios e as vagas oceânicas acarretem o luto permanente à terra firme?

“É uma conclusão que a geologia confirma em todos os sentidos. De fato, ela nos mostra, em todos os continentes, a superfície do solo constantemente atacada, seja por alterações térmicas, seja por alternativas de aridez e umidade atmosférica, gelo ou degelo, ou seja ainda pela ação ininterrupta dos vermes e dos vegetais. Daí, um processo de desagregação que acaba surribando até as rochas mais compactas. Os destroços começam rolando pelas encostas e no álveo das correntes, onde se desgastam e transformam em cascalho, areia, lodo, à espera de qualquer enchente com potencial bastante que os conduza ao mar.

“É fácil provar qual seja o resultado final desse trabalho. O pensador, sempre operoso, não se satisfaz senão quando os materiais submetidos ao seu domínio tiverem conquistado condição mais estável. Ora, tal estabilidade não se conquistaria senão no dia em que esses materiais não mais ruíssem... Importaria, portanto, suprimir todo e qualquer declive até o mar, reservatório comum,. onde se consumam todas as potências carreadoras; e bem assim, que todos os fragmentos carreados dos continentes se tenham disseminado no fundo dos mares. Em resumo: ou aplanamento completo da terra firme, ou, por melhor dizer, a destruição de qualquer relevo continental.

“O resultado da erosão produzida pelas águas correntes deve originar sobre as linhas de partilha regional, pontudas arestas, passando bem depressa às planícies quase absolutamente rasas, entre as quais não restaria, em última análise, nenhum relevo com mais de 50 metros de altura.

“Entretanto, em parte alguma essas arestas agudas se manteriam por muito tempo, de vez que o peso, a ação dos ventos, das infiltrações e das variações de temperatura seriam suficientes para provocar o arrasamento. Lícito é também dizer que o termo final desse trabalho de erosão continental há de ser o nivelamento completo da terra firme, assim reconduzida a nível mais ou menos equivalente ao da embocadura dos rios.”

O coadjutor do Arcebispo de Paris, que ocupava o lugar de sua Eminência, levantou-se e interrompeu o orador:

– Eis aí como se confirmarão literalmente as escrituras, quando dizem: Todo vale será aterrado, colinas e montanhas serão arrasadas.

“A Bíblia tudo prenunciou – replica o geólogo –, a água como o fogo, o frio como o calor, e os espíritos engenhosos podem lá encontrar tudo o que desejarem. Mas, o que podemos haver por certo é que, se nada modifica as condições da terra firme e dos oceanos, o relevo continental, esse está fatalmente destinado a desaparecer.”

– Quanto tempo transcorrerá até que isso se verifique?

– Se espalhássemos todas as montanhas da Terra, ela se apresentaria como uma planície dominando em toda parte o mar, por penedias de 700 metros de altura, mais ou menos.

“Admitido que a superfície total dos continentes seja de 145 milhões de quilômetros quadrados, teríamos que o volume da massa continental emergida pode estimar-se em 145.000.000 x 0,7, ou 101.500.000, ou ainda, em números redondos, cem milhões de quilômetros, cúbicos. Tal a previsão, indubitavelmente respeitável, mas não indefinida, contra a qual atuam potências destruidoras.

“Todos os rios, de conjunto, podem estimar-se como despejando anualmente no mar 23.000 quilômetros cúbicos da água (ou por outra, 23.000 vezes um milhão de metros cúbicos); tal débito, pela relação estabelecida de 38 partes sobre 100.000, daria um volume igual a 10 quilômetros e 34 centímetros de matérias sólidas. Esta cifra está, para a do volume total dos continentes, na proporção de 1 para 9.730.000; se a terra firme fosse um altiplano uniforme de 700 metros, perderia cada ano uma faixa de sete centésimos de milímetro, ou um milímetro em catorze anos, ou, ainda, sete milímetros cada século.

“Aí temos uma cifra positiva, que exprime o valor atual da erosão dos continentes. Aplicando-a ao conjunto dos mesmos, vê-se que essa erosão só por si destruiria em menos de dez milhões de anos toda a massa de terras emergidas.

“Não são, entretanto, as chuvas e os rios os únicos fatores dessa obra de destruição progressiva. O primeiro é a erosão marinha. Para avaliá-la, dificilmente encontraremos melhor estalão que o das costas britânicas, cuja situação as expõe ao assalto das águas atlânticas, levadas pelos ventos preponderantes do sudoeste, sem interposição de obstáculos quaisquer. Ora, o recuo médio do conjunto das costas inglesas é, seguramente, inferior a três metros em cada século.

“Podemos, por duas maneiras, proceder nessa investigação. A primeira consiste em avaliar a perda de volume que representa, para a totalidade das costas, um recuo anual de 3 centímetros. Para isso, importa conhecer-lhes a extensão e altura média. A extensão das plagas em todo o globo pode estimar-se em 200.000 quilômetros, mais ou menos, e, quanto ao nível sobre o mar, talvez exageremos calculando-o em média de cem metros. Logo, um recuo de 3 centímetros corresponde a uma perda de 3 metros cúbicos por metro corrente, ou, seja, para 200.000 quilômetros de costa, 600 milhões de metros cúbicos, que perfazem apenas seis décimos de quilômetro cúbico. Noutros termos: a erosão marinha não representaria mais que a décima sétima parte do trabalho das águas meteóricas!

“Objetar-se-á, talvez, a esse processo, que, dada a altitude crescente das costas para o interior, o mesmo recuo deveria, com o tempo, corresponder a maior perda de volume. E teria fundamento essa objeção? Não, porque, tendendo a ação das chuvas e dos rios para o aplanamento completo das superfícies, prosseguiria em paralelo com a ação das vagas.

“Por outro lado, sendo a superfície da terra firme de 145 milhões de quilômetros quadrados, um círculo de igual superfície deveria ter 6.800 quilômetros de raio. Mas, a circunferência desse círculo não ultrapassaria 40.000 quilômetros, o que vale dizer que o mar teria, de contorno, diminuída de um quinto a carga que atualmente não tem, graças aos recortes que atingem a 200.000 quilômetros ao longo de suas plagas. Pode-se admitir, pois, que o trabalho de erosão marinha marcha cinco vezes mais rápido que sobre um círculo equivalente. Certo, esta estimativa representa um máximo, pois as penínsulas estreitas, uma vez corroídas pelo mar, diminuiriam cada vez mais a correlação de perímetro e superfície, tornando menos eficaz a ação das águas. Em todo caso, desde que à razão de 3 centímetros por ano, um raio de 6.800 quilômetros está condenado a desaparecer dentro de 226.600.000 anos, um quinto desta cifra, ou seja 45.000.000 de anos representaria o mínimo do tempo necessário à destruição da terra firme pelas vagas marinhas. Isso, como intensidade, apenas corresponderia à quinta parte da ação continental.

“O conjunto das ações mecânicas parece, pois, arrebatar à terra firme, cada ano, um volume de 12 quilômetros cúbicos, que, para um total de 100 milhões, culminaria na destruição completa em oito milhões de anos, mais ou menos. Não se pense, porém, que tenhamos esgotado a análise dos fenômenos destrutivos da massa continental. A água não é somente um agente mecânico, mas também um elemento de dissolução, muito mais ativo do que geralmente se imagina, dada a proporção assaz notável de ácido carbônico que contém, quer o absorvido na atmosfera, quer o originado da decomposição das matérias orgânicas do solo. Circulando através de todos os terrenos, ela aí se satura das substâncias que carreia, mediante um verdadeiro ataque químico aos minerais das rochas atravessadas.

“A água dos rios contém cerca de 182 toneladas de substâncias dissolvidas, por quilômetro cúbico. O conjunto dos rios carrega para o mar, anualmente, cerca de cinco mil metros cúbicos de substâncias dissolvidas. Já não seriam, portanto, mais doze, e sim dezessete mil metros cúbicos que a terra firme perderia todos os anos, sob as diversas influências que operam a sua destruição. Temos então, desde logo, que o total de 100 milhões desapareceria, não mais em oito, mas em pouco menos de seis milhões de anos.

“Mas esta cifra, senhores, deve ainda sofrer grande atenuação. Com efeito, é preciso não esquecer que os sedimentos introduzidos no mar, aí tomam o lugar de tal ou qual quantidade da água e, destarte, levantam o nível do Oceano de encontro à plataforma continental, que se abaixa, e cuja destruição final fica assim acelerada.

“A medida desse movimento é fácil de calcular. Efetivamente, por uma dada faixa que perde o planalto suposto uniforme, é preciso que o mar se eleve em quantidade tal que o volume do leito marinho correspondente seja justamente igual ao volume dos sedimentos introduzidos, ou seja ao da faixa destruída. O cálculo mostra que a perda em volume eleva-se, em cifras redondas, a 24.000 metros cúbicos.

“Podemos então concluir – uma vez que esta cifra de 24 mil metros cúbicos é contida 4.166.666 na de 100 milhões, que representa o volume continental – que a só atuação das forças atualmente operantes, independente de movimentos outros do solo, bastaria para acarretar, daqui a 4 milhões de anos, a desaparição total da terra firme.

“Acrescentarei que, se essa desaparição pode preocupar um geólogo ou um pensador, nem por isso representa um evento inquietante para a nossa geração. Não serão nossos filhos nem tetranetos quem haja de o apreciar. Se, pois, houverdes por bem me permitir concluir esta explanação por uma palavra um tanto... fantasista, direi que o cúmulo da previdência seria, seguramente, constituirmos desde já uma nova arca para escapar a esse futuro dilúvio universal.”

Essa a tese sabiamente sustentada pelo Presidente da Sociedade geológica da França. Essa exposição lenta e calma das operações seculares dos agentes naturais, dilatando de quatro milhões de anos as perspectivas de vida planetária, foi um sedativo para os nervos sobreexcitados com a aproximação do cometa. A assistência mostrava-se agora assaz tranqüila. Mal deixou o orador a tribuna, recebendo elogios dos colegas, e a conversação se reanimou, subdividida em grupos. Um sopro de pacificação como que atravessara todos os cérebros. Falava-se do fim do mundo como da queda de um governo ou da chegada dos andarilhos, sem paixão e até com certa displicência. Um acontecimento ainda que fatal, mas adiado por quarenta mil séculos, não nos afeta de modo algum.

Mas o Secretário geral da Academia Meteorológica acabava de subir à tribuna e todo mundo lhe prestou desde logo a maior atenção.

– Minhas senhoras, meus senhores:

“Vou expor uma teoria diametralmente oposta à do meu caro e eminente colega do Instituto, teoria apoiada em fatos não menos rigorosamente observados, e com método racional não menos seguro. Sim, senhores, diametralmente oposta, repito.”

Dotado de excelente vista, o orador logo percebeu que os semblantes se anuviaram.

– Oh! – exclamou – oposta, não quanto ao prazo que a natureza reserva à vida planetária, mas quanto à maneira do seu perecimento, visto que também eu creio numa dilação de alguns milhões de anos.

“Apenas, em vez de conjeturar os continentes destinados a sucumbir pela invasão das águas, inteiramente submersos, penso que hão de morrer de aridez...

“Ao estudo precedente, poderia ter objetado que, em muitas regiões, não é o mar que desfalca a terra e sim esta que o invade, seja pelas areias e dunas litorâneas, seja pelos deltas e aterros conseqüentes aos enxurros fluviais. Não quero, entretanto, abrir controvérsia sobre os efeitos recíprocos das atividades terrenas e marinhas, que nos levaria muito longe; quero, apenas, chamar a atenção do auditório para um fato geológico muito interessante, qual o da diminuição gradual da água existente na terra, de século para século. Dia virá em que não mais teremos mares, nuvens, chuva, fontes, água enfim! Toda a vida vegetal e animal acabarão, não afogada, mas de secura.

“É fato que a água diminui na superfície do globo. Sem procurar exemplos mais longe, lembrarei que outrora, em começo do período quaternário, o local em que se estende este nosso Paris atual, do monte São Germano à confluência do Marne, com os seus 9.000.000 de habitantes, estava quase totalmente tomado pelas águas, de vez que só a colina de Passy a Montmartre e ao Père-Lachaise e o planalto de Montrouge até o Pantheon e o maciço do Mont-Valerien, emergiam do enorme lençol d’água. A altura desses planaltos não aumentou, não houve alteamentos, mas a água diminuiu. Aqui tendes – disse, projetando um mapa na parede do anfiteatro – o que era o Sena nesta zona parisiense, em tempos pré-históricos.

“Insignificante quantidade de água, certo, em relação ao conjunto, mas nem por isso negligenciável, penetra nas profundezas do solo, quer nas bacias marítimas, quer pelas brechas devidas à deslocação e erupções submarinas e mesmo em terra firme, visto que nem toda a massa pluvial encontra um leito de argila impermeável. Em geral, a água das chuvas retorna ao mar pelas fontes, regatos e rios, mas, para isso, precisa encontrar uma terra argilosa, aí correndo conforme os declives. Quando não haja camada impermeável, ela prosseguirá infiltrando-se na crosta porosa do globo e irá saturar as rochas profundas. Essa água perde-se para a circulação e quimicamente combinada constitui os hidratos. Se a penetração for muito profunda, a água atinge temperatura suficientemente alta para transformar-se em vapor, e tal é a origem mais freqüente dos vulcões e tremores de terra. Os fumos vulcânicos são quase totalmente compostos de vapor d’água. Entretanto, no âmago do solo, como ao ar livre, uma parte desprezível das águas móveis se transforma em hidratos, e mesmo em óxidos. Nada como a umidade para produzir a ferrugem. Assim fixados os elementos da água, o hidrogênio e o oxigênio deixam de combinar-se. As águas termais, por outro lado, não constituem toda uma circulação fluvial interior e proveniente da superfície?

“Seja fixando-se, seja combinando-se ou penetrando nas camadas profundas do solo, o caso é que a água diminui na superfície da Terra. Ela também descerá cada vez mais fundo, à proporção que o calor interno for diminuindo. Os poços caloríferos cavados há cem anos, próximo das cidades mais importantes e que fornecem gratuitamente o calor necessário aos serviços domésticos, esgotar-se-ão com a queda da temperatura interior. Dia virá em que a Terra se resfriará até ao centro, e esse dia coincidirá com o desaparecimento total das águas.

“De resto, senhores, parece que este será o destino dos diversos corpos celestes do nosso sistema solar. Nossa vizinha Lua, cuja massa e volume são muito inferiores aos de nossa Terra, esfriou-se mais rapidamente e mais rapidamente percorreu as fases de sua evolução astral. Seus prístinos mares, que ainda hoje se podem identificar pelo efeito de suas águas, estão inteiramente esgotados, não se lhes percebe qualquer sinal de evaporação, qualquer nuvem, nem tão-pouco o espectroscópio nos revela traços de vapor d’água. Planos áridos, rochedos abruptos, circos desertos. Por outro lado, Marte, um pouco menor que a Terra, apresenta-se-nos mais avançado em seu curso, constatando-se já não possuir nenhum oceano digno desse nome, mas tão somente mediterrâneos pouco extensos, pouco profundos e religados por canais. Que há menos água em Marte que na Terra, é fato inconteste, por observado. Os fenômenos de evaporação e condensação produzem-se lá, mais rápidos do que aqui; as neves polares mostram, conforme as estações, uma variação muito mais ampla que a das neves terrenas. Ainda por outro lado, Vênus, mais jovem que a Terra, apresenta-se-nos envolto em imensa atmosfera, permanentemente carregada de nuvens. Quanto ao grandioso Júpiter, esse está nos primórdios da vida, não no vemos, por assim dizer, senão amortalhado em nuvens e vapores. Assim, os quatro planetas que melhor conhecemos, confirmam, cada um de per si, a observação terrena do decréscimo secular das águas. Folgo muito em poder confessar, a propósito, que a tese do nivelamento geral sustentada pelo meu sábio colega tem apoio no estado atual de Marte. O eminente geólogo dizia-nos, há pouco, que, graças ao trabalho secular dos rios, o relevo final do solo futuro será formado de planos quase horizontais. É o que já se verifica em Marte, onde as plagas vizinhas do mar são tão unidas que freqüente e facilmente se inundam, qual o sabemos. De uma para outra estação, centenas de milhar de quilômetros quadrados são alternativamente enxutos, ou submersos num espesso vapor da água. É o que se observa principalmente nas plagas ocidentais do mar Arenoso. Na Lua, entretanto, o nivelamento não se operou. Será que houvesse faltado o tempo e não haveria existido águas nem ventos antes de sua consumação. Ao demais, o peso é lá quase nulo.

“É certo, pois, que sofrendo de século em século um nivelamento fatal, como expôs magistralmente o meu confrade, a Terra sofre, ao mesmo tempo, uma diminuição gradual da quantidade de água que possui. Aparentemente, tudo indica que essa diminuição marcha paralelamente com o nivelamento. À medida que o globo for perdendo calor interno e resfriando-se, terá a mesma sorte da Lua e fender-se-á. A extinção absoluta do calor há de originar contrações, produzindo vácuos no interior; a água dos oceanos correrá para esses vácuos sem transformar-se em vapor e será absorvida pelas rochas, ou se combinará com as rochas metálicas no estado de hidrato de óxido de ferro. A quantidade de água diminuirá assim, indefinidamente, até desaparecer de todo. Os vegetais, em lhes faltando o elemento essencial, transformar-se-ão a princípio, mas acabarão perecendo. As espécies animais também se transformarão, mas, haverá sempre herbívoros e carnívoros, e os primeiros desaparecerão antes, devorados pelos segundos, até que a própria espécie humana, mal grado às suas transformações, acabe morrendo de sede e de fome, na crosta da terra esturricada e ressequida.

“Podemos então, senhores, conseqüentemente, concluir que o mundo não acabará com outro dilúvio, mas, ao contrário, pela ausência da água. Sem água, toda a vida planetária se torna impossível, pois ela é o elemento essencial de todos os corpos viventes. O próprio corpo humano com ela se forma na proporção de setenta por cento. Sem água não pode haver plantas nem animais. Seja no estado líquido ou vaporoso, é ela que rege toda a vida terrena. Suprimi-la equivale a um decreto de morte. Pois esse decreto a Natureza o promulgará, dentro de uma dezena de milhões de anos. Acrescento que o nivelamento não virá antes disso. O Sr. Presidente da Sociedade geológica não se esqueceu de notar que os seus 4 milhões de anos enquadram-se na hipótese de agirem as causas atuais, destrutivas da terra firme, na medida exata que ora se verifica, sem alteração de ritmo. Por outro lado, é ele próprio quem diz não ser possível cessarem desde já as manifestações da energia interior. Sublevações hão de produzir-se por muito tempo, aqui e acolá, e os acréscimos délticos, insulares, vulcânicos, madrepóricos, far-se-ão sentir ainda por muito tempo. O período indicado não representa, por conseguinte, senão um minimum.”

Assim falou o meteorologista. Os dois oradores foram ouvidos com profunda atenção. O auditório deixava entrever, em suas atitudes, achar-se perfeitamente tranqüilizado quanto aos destinos da Terra. O cometa estava completamente esquecido.

Tem a palavra a Senhorita que chefia o departamento de cálculos astronômicos. A jovem laureada do Instituto, doutora em ciências naturais, físicas e matemáticas, encaminhou-se para a tribuna.

– Meus dois sábios colegas – disse prescindindo de exórdio – têm razão, por isso que de um lado é incontestável a ação dos agentes meteóricos, auxiliados pelo peso, no nivelamento do globo, cuja crosta se adensa e solidifica cada vez mais; por outro lado, menos verdade não é que o volume da água diminui de século a século, na superfície do planeta. Aí temos dois pontos que a Ciência pode julgar como resolvidos. Mas, senhores, parece-me que o fim do mundo não sobrevirá pela submersão dos continentes, nem tão-pouco pelo esgotamento da água que entretém a vida animal e vegetal.

Esta nova declaração, implicando uma terceira hipótese, como que feriu o auditório de uma quase estupefação.

– Tão-pouco acredito – apressou-se a oradora em declarar – seja o cometa o encarregado da catástrofe final, pois penso, com os dois oradores, que os mundos não morrem de acidentes, mas de velhice.

“Sim; indubitavelmente, a água diminuirá e acabará mesmo desaparecendo, talvez; mas não será a sua falta, em si mesma, e sim as conseqüências dela oriundas, que determinarão o aniquilamento final. A diminuição do vapor aquoso na atmosfera acarretará o resfriamento geral, e os meus estudos neste sentido levaram-me a concluir que o perecimento virá pelo frio.

“Para os meus ouvintes, é ocioso aqui declarar que a atmosfera respirável se compõe de 79% de azoto, 20% de oxigênio, e que o centésimo restante comporta 25% de vapor da água, 3 decimilésimos de ozônio, ou oxigênio eletrizado, amoníaco, hidrogênio e gases outros se quantidade infinitesimal. Azoto e oxigênio perfazem, portanto, 99% e o vapor da água apenas 1/4 do centésimo integrante.

“E contudo, minhas senhoras, do ponto de vista da vida orgânica, esse 1/4 de centésimo tem a mais alta importância e não receio afirmar que, no concernente à temperatura e ao clima, ele é mais essencial que todo o resto da atmosfera! Depois, senhores, invoco o juízo dos historiadores, perguntando: não são as pequeninas coisas que governam o mundo?

“As ondas de calor solar que aquecem o solo e dele emanam, depois, para difundir-se na atmosfera, se chocam de passagem contra os átomos de azoto e de oxigênio, e contra as moléculas de vapor d’água disseminadas no ar. Essas moléculas são tão rarefeitas (pois que não ocupam por seu volume mais que 1/100 do espaço das outras), que poderíamos atribuir mais ao azoto e ao oxigênio, do que a elas, a conservação do calor. De fato, considerando os átomos em particular, vemos que para 200 partes de oxigênio e azoto, apenas temos 1 de vapor aquoso. Pois bem! esse único átomo tem oitenta vezes mais energia, mais vapor eficiente para conservar o calor radiante, do que os 200 de oxigênio e azoto! Por conseqüência, uma molécula de vapor aquoso é 16.000 vezes mais eficaz que uma molécula de ar seco, para absorver, como para irradiar o calor, de vez que os dois poderes são recíprocos e proporcionais. Diminua-se em grande proporção essas invisíveis moléculas de vapor aquoso e a Terra tornar-se-á imediatamente inabitável, em que pese ao oxigênio. Todas as regiões, mesmo o equador e os trópicos, logo perderão o calor que os vivifica, condenados ao clima das grandes altitudes, sempre flageladas pelas neves eternas. Ao invés de plantas luxuriantes, de flores e frutos, de aves e ninhos, da vida que desborda na terra e nos mares; ao invés de regatos cantantes, de claros arroios, de lagos e mares, não teremos mais que gelos imóveis num imenso deserto... E quando digo nós, senhores, compreendeis que não nos sobraria tempo para assistir ao espetáculo, pois o próprio sangue se coagularia e todos os corações humanos deixariam de pulsar. Aí tendes as conseqüências da supressão do vapor aquoso da nossa atmosfera, operando qual câmara protetora e benéfica, em prol de toda a vida terrestre.

“Os princípios da termodinâmica demonstram que a temperatura do espaço é de 273 graus abaixo de zero. Esse, o frio glacial que há de amortalhar nosso planeta, quando privado da cortina aérea que o envolve, aquece e protege agora.

“Eis o destino reservado à Terra pela diminuição da água existente em sua superfície. Essa morte pelo frio será inevitável, se aqui nos detivermos assaz longamente para sofrê-la.

“Tal desfecho é tanto mais certo quanto não é só o vapor d’água que diminui, mas também os outros elementos, quais o oxigênio e o azoto, ou seja, toda a atmosfera. O oxigênio se fixa insensivelmente por todos os óxidos perpetuamente formados na superfície do globo, e o azoto nas plantas e no solo, sem reverterem integralmente ao estado gasoso. A atmosfera, devido à sua pressão, penetra nos oceanos e nos continentes, descendo, também ela, às regiões subterrâneas. Pouco a pouco, século a século, a atmosfera diminui. Outrora, no período primário por exemplo, ela era imensa, as águas cobriam quase todo o orbe. Apenas os primeiros alteamentos graníticos emergiam da massa líquida geral. A atmosfera impregnava-se de vapor d’água, em quantidade incomparavelmente maior que em nossos dias. Assim se explica a alta temperatura dessas épocas remotas, quando as plantas tropicais, contemporâneas, fetos arborescentes, calamitas, equissetáceas, sigilárias, lapidodêndreas, formavam opulentas florestas, tanto nos pólos como no equador. Hoje, tanto a atmosfera como o vapor d’água diminuíram. De futuro, hão de desaparecer. Em Júpiter, que se encontra ainda no período primário, a atmosfera apresenta-se-nos volumosa e prenhe de vapores, enquanto que na Lua quase que não existe e a sua temperatura mantém-se abaixo de zero, mesmo a pleno Sol. Marte oferece-nos uma atmosfera bem mais rarefeita que a nossa. Assim, de futuro, esta nossa mísera humanidade há de morrer de frio.

“Quanto ao tempo necessário à consumação do advento, eu adotaria os dez milhões de anos calculados pelo orador que me precedeu nesta tribuna.

“Tais, senhoras e senhores, as etapas que a Natureza parece haver traçado à marcha vital dos mundos, pelo menos aos pertencentes ao nosso sistema planetário. Concluo, portanto, que a Terra segue o destino da Lua, perecerá pelo frio, logo que despojada da capa aérea que atualmente ainda a garante do desperdício perpétuo do calor solar que recebe do Sol.”

O chanceler da Academia colombiana, chegado no mesmo dia, de Bogotá, em aeronave elétrica, pediu a palavra. Sabia-se que ele havia fundado, justo na linha equatorial e na altitude de 3.000 metros, um observatório que dominava todo o planeta, de onde se viam simultaneamente os dois pólos celestes. Lembramos também que, em homenagem à França, ele dera a esse templo de Urânia o nome de um astrônomo francês, cuja vida toda se consagrara ao estudo doutros mundos, dando-os a conhecer aos espíritos esclarecidos e estabelecendo o papel soberano da astronomia em toda e qualquer doutrina filosófica ou religiosa. Portador de um nome universalmente conhecido, justo era fosse ouvido com especial atenção.

– Senhores! – disse logo que assomou à tribuna – temos ouvido nestas duas sessões, admiravelmente resumidas, as curiosas teorias que a moderna ciência tem o direito de oferecer à Humanidade, a respeito da forma pela qual acabará o nosso mundo. O abrasamento da atmosfera ou a asfixia dos pulmões, determinados por encontro do cometa que se avizinha rápido; a submersão, ainda longínqua, dos continentes, pela precipitação da atmosfera na profundeza dos mares; a aridez absoluta do solo e do ar, devida à diminuição gradual do elemento aquoso e, finalmente, o resfriamento lunar do nosso mísero planeta envelhecido e caduco. Eis, se me não engano, as cinco espécies de consumação possíveis.

“Disse o Sr. Diretor do Observatório não acreditar na primeira hipótese e que, ao seu ver, o encontro resultaria mais ou menos inofensivo. Estou de pleno acordo e desejo acrescentar que, depois de ter ouvido atentamente as sábias dissertações dos eminentes colegas, tão-pouco poderia acreditar nas hipóteses restantes.

“Senhores, de sobejo sabeis que nada é eterno... Tudo se transforma no seio da Natureza. Os rebentos da primavera abrolham em flores, as flores em frutos. Passam as gerações e a vida continua a sua obra. Nosso mundo há de acabar, por isso que começou. Mas, na minha opinião pelo menos, não será o cometa, nem a água, nem a falta desta que lhe hão de engendrar a agonia. O problema, parece-me, assenta inteiramente na última palavra da notável alocução da nossa graciosa colega do Departamento de cálculos. Sim! evidentemente, tudo se prende ao Sol.

“A vida planetária está suspensa em seus raios... Que digo? – ela não é mais que transformação do calor solar. Ele, o Sol, é que mantém a água em estado líquido e o ar em estado gasoso. Se não existisse o Sol, tudo seria sólido e morto. É ele que evapora a água de mares, lagos, rios, charcos; que fabrica a nuvem, o vento, as chuvas, a reger a fecundante circulação das águas. É graças à sua luz e ao seu calor que as plantas assimilam o carbono contido no ácido carbônico da atmosfera. Para separar do oxigênio o carbono e retê-lo, a planta desenvolve grande labor. A frescura das matas provém dessa conversão de calor solar em labor vegetal. A lenha que nos aquece não faz mais que suprir-nos de calor solar armazenado, e quando queimamos óleo ou gás, estamos libertando raios solares aprisionados, há milhões de anos, nas florestas primitivas. A própria eletricidade não é mais que transformação do trabalho que tem no Sol a sua fonte original. É, pois, o Sol que murmura na fonte, palpita no vento, grita nas tempestades, flori na rosa, gorjeia no rouxinol, fuzila no relâmpago; ruge no furacão, canta ou esbraveja em todas as sinfonias da Natureza.

“Assim, o calor solar transforma-se em correntes aéreas ou líquidas, em potencial expansivo de gases e vapores, em eletricidade, madeira, flor, fruto, força muscular c nervosa. Enquanto esse astro brilhante puder fornecer-nos suficiente calor, a vida planetária estará garantida.

“O calor do Sol origina-se, muito provavelmente, da condensação da nebulosa que lhe deu origem, constituindo-se em centro do nosso sistema. Essa transformação de movimento devia ter produzido 28 milhões de graus centígrados! Sabeis, senhores, que um quilograma de hulha vindo cair no Sol, de uma distância infinita, produziria, com o seu choque, seis mil vezes mais calor que o produzido por sua combustão. Pela taxa da irradiação atual, a provisão de calor solar representa a irradiação solar durante 22 milhões de anos, e é muito provável que vá muito além, pois nada prova que os elementos da nebulosa tenham sido absolutamente frios; antes, pelo contrário, que já traziam consigo uma verdadeira provisão de calor.

“Nada obstante, tudo tem um fim. Se o Sol, continuando a condensar-se, chegasse, um dia, à densidade da Terra, essa condensação produziria nova quantidade de calor, suficiente para manter ainda por 17 milhões de anos a mesma intensidade calorífica que entretém a vida terrena atual, e este prazo pode ser prolongado, admitindo-se uma diminuição na taxa de irradiação, uma queda de meteoros sobre o astro voraginoso e uma condensação continuada, além da densidade terrestre. Contudo, por mais longe que levemos esse prazo, ele fatalmente se esgotará. Os sóis que se apagam na vastidão dos céus são outros tantos exemplos antecipados da sorte reservada ao que nos ilumina. De resto, aí o temos, já de algum tempo, a cobrir-se de manchas enormes.

“Mas, quem poderia afirmar que daqui a dezessete ou vinte milhões de anos as maravilhosas faculdades de adaptação que a fisiologia e a paleontologia nos têm revelado, em todas as espécies animais e vegetais, não conduzam o ser humano, de estágio em estágio, a um estado de perfeição física e intelectual tão superior ao atual, quanto este hoje se distancia do iguanodonte das épocas imemoriais? Quem sabe se o nosso esqueleto fóssil não parecerá tão monstruoso aos nossos pósteros, quanto se nos afigura, hoje, um arcabouço dinossaureano? Pode ser que a estabilidade térmica autorize, então, a duvidar que uma raça verdadeiramente inteligente tenha vivido em uma época qual a nossa, de saltos termométricos e variações fantásticas do firmamento, caracterizadas pelas nossas burlescas estações. E, quem sabe se daqui até lá, por mais de uma vez, qualquer revolução, qualquer transformação não envolverá o passado em novas camadas geológicas, a fim de reconstituir uma nova era, novos períodos – quinquenário, sexenário – inteiramente diversos das épocas quaternária, terciária, secundária, primária?

“O certo é que o Sol acabará perdendo o calor; que a sua massa se condensa e se retrai; que a fluidez diminui. Dia virá em que a circulação que alimenta a fotosfera e regula a sua radiação, fazendo que dela participe a quase totalidade da massa formidanda, será atingida e começará a afrouxar. Então a luminescência e o calor diminuirão, a vida vegetal e animal se restringirá cada vez mais, convergindo para o equador. Cessada esta circulação, a brilhante fotosfera será substituída por uma crosta opaca e obscura, privada de qualquer radiação luminosa. O Sol transformar-se-á em globo vermelho-escuro e sucessivamente negro, para que tudo mergulhe em noite eterna. A Lua, cuja luz já nos vem refletida, não mais poetizará as nossas noites silenciosas. A Terra apenas terá a luz das estrelas. Extinto o calor solar, nossa atmosfera ficará em calma absoluta, sem o sopro de uma aragem em qualquer direção. Se ainda houver mares, serão solidificados pelo frio. Nenhuma evaporação que enseje nuvens, nenhuma chuva cairá, nenhuma fonte correrá. Talvez os derradeiros lampejos de um círio, quais os vemos nessas estrelas negras prestes a se apagarem; talvez um acidental desenvolvimento de calor, devido a qualquer retração da crosta solar, possam despertar, ainda por instantes, o velho Sol de nossos tempos, mas isso não será mais que um sintoma do último alento, do termo final.

“E a Terra, bola negra, gelada necrópole, continuará girando em torno do Sol negro, a vogar em noite infinita, levada com todo o sistema solar no bojo do abismo insondável. Assim perecerá a Terra com a extinção do Sol, daqui a uns vinte milhões de anos, ou mesmo mais tarde ... o dobro, talvez.”

Calou-se o orador e preparava-se para deixar a tribuna, quando o Diretor da Academia de Belas-Artes pediu a palavra:

– Senhores – disse do seu lugar –, se bem tenho compreendido, o mundo há de acabar, provavelmente, pelo frio, dentro de alguns milhões de anos. Se, pois, um pintor houvesse de fixar a última cena, deveria cobrir a Terra de geleiras e esqueletos...

– Não é bem assim – replicou o Chanceler colombiano –, pois não é o frio, mas o calor, a causa primária das geleiras.

“Se o Sol não evaporasse a água dos mares, nenhuma nuvem se produziria, nem haveria possibilidade de ventos quaisquer... Para fabricar geleiras é preciso, antes de tudo, um sol que evapore a água e a transforme em nuvem; portanto, um condensador. Sabeis que um quilograma de vapor representa uma quantidade de calor solar bastante para elevar 5 quilos de ferro ao estado de fusão (1.110 graus). Enfraquecida a ação solar, teremos, claro, exauridas as geleiras.

“Destarte, não serão neves nem geleiras amortalhando a Terra. Tudo o que remanescer do mar congelado, gelado ficará, e extinto todo e qualquer movimento atmosférico.

“A menos, portanto, que o Sol não tenha sofrido, antes do último suspiro, um daqueles espasmos a que nos temos referido, fundindo gelos, reproduzindo nuvens e correntes aéreas, despertando, enfim, fontes e rios para, após esse pérfido despertar, recair súbito no seu fatal letargo. Será o dia sem amanhã.”

Ouviu-se outra voz partida do anfiteatro. Era um célebre eletricista.

– Todas as causas de morte pelo frio são plausíveis, mas, que dizermos do fogo? Todos se referiram a essa morte, em função do encontro cometário, e contudo ela poderia sobrevir-nos de outra forma.

“Sem falarmos do afundamento dos continentes no fogo central, motivado por tremor de terra, geral, ou por deslocamento formidável das camadas de terra firme, parece-me que uma vontade suprema bastaria, independente de qualquer choque, para deter o movimento do planeta em seu curso e transformar esses movimento em calor.”

– Uma vontade? interpelou alguém. Mas, a ciência positiva não admite milagres...

– Nem eu tão-pouco – revidou o eletricista –; quando digo vontade, quero dizer força ideal e invisível. Explico-me:

“Nosso globo singra o espaço com a velocidade de 106.000 quilômetros horários, ou sejam 29.460 metros por segundo. Se qualquer sol, brilhante ou obscuro, quente ou frio, viesse das profundezas do espaço para formar com o nosso sol um consórcio eletrodinâmico e a colocar nosso planeta sobre essa linha de força, agindo sobre ele como um freio; se, numa palavra, por uma causa qualquer a Terra fosse instantaneamente detida em seu curso, o movimento de sua massa se transformaria em movimento molecular e o planeta se encontraria logo elevado a um grau de calor tal que o reduziria mais ou menos a vapor...”

– Suponho – obtemperou o Diretor do Observatório do Monte Branco –, que a Terra ainda poderia perecer de ignidade por outra forma. Temos observado mais ou menos, no céu, uma estrela temporária, que, dentro de algumas semanas, passou da sexta à quarta ordem de fulgurância. Esse longínquo sol tornou-se, subitamente, cinqüenta mil vezes mais luminoso e ardente! Sim, cinqüenta mil vezes! Se tal evento sobreviesse ao nosso sol, nada nos restaria de vida planetária, tudo seria de súbito incendiado, consumido, ressecado ou evaporado.

“Esta súbita exaltação pode ser atribuída à penetração daquele astro em uma espécie de nebulosa. Nosso sol, também ele, caminha com grande velocidade e poderia muito bem oferecer-nos um encontro desse gênero. Ele poderá, igualmente, explodir pela dissociação dos átomos, sob a pressão formidável reinante no interior do astro. Poderíamos, então, morrer de calor ou de sede.

“A Terra se reduziria a deserto árido e ardente a breve trecho, com uma atmosfera de fornalha irrespirável.”

– Confessemos – disse a sorrir o Presidente – que a Natureza nos ameaça com muitos gêneros de morte...

– Senhores! – ergueu-se o Diretor do Observatório de Paris – Permitis que resuma, em poucas palavras, todas as dissertações interessantíssimas aqui ouvidas sobre o grandioso tema em apreço?

“Segundo o que acabamos de ouvir, nosso planeta, para morrer, não terá outra dificuldade senão a de escolher o gênero de morte. Eu não creio, mais que há pouco, no perigo deste cometa. Preciso é, porém, confessar que, do só ponto de vista astronômico, nosso mísero globo errante está exposto a muitas surpresas. A criança nascida neste mundo, homem ou mulher, pode comparar-se a um indivíduo colocado à entrada de uma rua estreitíssima, no estilo das do século XVI, ladeada de prédios, tendo em cada janela um caçador munido desses belos fuzis do último século. O indivíduo tem, iniludivelmente, de percorrer toda a rua e evitar a fuzilaria cerrada contra ele, de ponta a ponta. Todas as enfermidades nos molestam e ameaçam: dentição, convulsões, coqueluche, crupe, varíola, meningite, cataporas, influenza, escarlatina, pneumonia, enterite, aneurisma, tuberculose, câncer, apoplexia, esclerose, etc. Quero omitir outras ainda, que os meus caros ouvintes não terão dificuldade em juntar à lista. Chegará o nosso mal-aventurado transeunte são e salvo à outra ponta da rua? Que assim seja e nem por isto deixará de morrer.

“Assim prossegue a nossa Terra em sua rota solitária, com velocidade superior a cem mil quilômetros horários, arrastada pelo Sol, bem como as suas irmãs, para a constelação de Hércules. Resumindo o que aqui se há dito e lembrando o que porventura se tenha esquecido, direi que podemos encontrar um cometa dez ou vinte vezes mais volumoso que o planeta e composto de gases deletérios, capazes de envenenar a nossa atmosfera. Pode encontrar um enxame de uranólitos, que lhe causem o efeito de uma carga de chumbo num passarinho. Pode esbarrar, em sua trajetória, com uma bola invisível, mais ou menos densa, e cujo choque baste para reduzi-Ia ao estado de vapor. Pode encontrar um sol que a devore, instantaneamente, qual maçã lançada a uma fornalha. Pode ser enredada num sistema de forças elétricas, que sejam como trave posta aos seus onze movimentos, capazes de fundi-la ou incendê-la como a um fio de platina submetido a corrente dupla. Pode perder o oxigênio que nos dá vida, pode estalar como a cratera de um vulcão, pode esventrar-se num abalo sísmico, pode submergir em dilúvio mais universal que o último e pode, ao contrário, perder toda a água que representa o essencial elemento de sua organização vital; pode ser atraída à passagem de outro corpo celeste que a destaque do Sol, arremessando-a aos abismos gelados do espaço; pode ser levada pelo próprio Sol, transmudado em satélite doutro Sol preponderante, engrenado ao sistema das estrelas duplas. Pode perder, não apenas as últimas reservas de calor interno, que já não lhe atuam à superfície, como também o invólucro que lhe mantém a temperatura vital. Pode, um belo dia, não ser mais iluminada, aquecida, fecundada por este Sol, obscurecido e resfriado, e pode, ao revés, acabar esturricada por súbita decuplicação do calor solar, tal como tem sido observado com as estrelas temporárias. Pode, pode... Mas, senhores, não esgotemos todas as causas acidentais ou patológicas, e deixemos a sua fácil enumeração ao cuidado dos senhores geólogos, meteorologistas, físicos, químicos, biologistas, médicos e mesmo veterinários, atento a que uma epidemia bem definida ou a invasão de um exército de micróbios suficientemente morbíficos poderiam bastar para destruir a Humanidade e as principais espécies animais e vegetais, sem por isso causar maior dano astronômico ao planeta propriamente dito.

“Repito, portanto, que o maior embaraço está na escolha. Fontenelle já dizia que toda a gente se preocupa com a morte, mas vai vivendo. O mesmo se dará com o nosso planeta. Não será este cometa que o vá matar. Compartilho a opinião da jovem calculista-chefe. A diminuição do vapor d’água em nossa atmosfera há de preceder a extinção do Sol, e a vida terrestre se extinguirá pela falta de água e pelo frio. Esse, o fim.”

No momento justo em que o orador assim falava, ouviu-se como caída do teto uma voz estranha, que parecia provinda das profundezas do espaço... Mas, talvez convenha dar aqui uma explicação

Os observatórios instalados nas mais altas montanhas do globo estavam, como vimos, telefonicamente ligados ao Observatório de Paris e os aparelhos receptores transmitiam os despachos independente de fone acústico. O leitor lembra-se, de certo, que, no fim da precedente sessão, fora apresentado um fonograma de Gaorisancar anunciando uma mensagem fotofônica de Marte, por traduzir. Como a interpretação desse documento não tivesse chegado até à hora da segunda sessão, a Diretoria das comunicações tinha posto o Instituto em contacto direto com o Observatório, instalando um telefonoscópio no zimbório do edifício.

Essa voz do Alto dizia:

Os astrônomos da cidade equatorial de Marte previnem os terrícolas de que o cometa lhes chegará diretamente, com a velocidade quase igual ao duplo da velocidade orbitária de Marte. Movimento transformado em calor e este em eletricidade. Tempestade magnética interna. Afastar-se da Itália.”

A voz extinguiu-se no meio do mais absoluto silêncio, e do sobressalto de todos os espíritos, exceto alguns poucos cépticos, dentre os quais um, redator de A Crítica Alegre, que se levantou de monóculo entalado no olho direito, exclamando com voz retumbante:

– Receio, veneráveis sábios, que o Instituto acabe burlado com uma boa farsa. Ninguém me convence de que os habitantes de Marte, dado que existam e nos mandem mensagens, conheçam a Itália pelo nome. Cá por mim, duvido que eles tenham lido os Comentários de César ou a História dos papas, tanto mais quanto...

Súbito, o orador que começava a arrojar-se num curioso ditirambo, foi interrompido pela extinção da luz elétrica. Todo o salão mergulhou na treva, exceto um grande retábulo luminoso, no teto. E logo a voz ajuntou quatro palavras: “eis o despacho marciano”. A seguir, estes sinais na placa telefonoscópica:

Como, assim no teto, o despacho só podia ser visto de cabeça erguida, forçando o observador à posição incômoda, o Presidente tocou um botão e logo ocorreu um contínuo com um projetor e um espelho, que permitiram transportar os hieróglifos a uma tela desdobrada atrás da mesa presidencial. Destarte, todos tiveram diante dos olhos e puderam analisar, à vontade, o comunicado celeste. Análise fácil, afinal, pois nada mais simples que essa leitura. A figura do cometa evidencia-se por si mesma, a seta indica o seu movimento na direção de um corpo celeste, que, visto de Marte, oferece fases, mas tem raios, qual uma estrela. Trata-se da Terra e é muito natural que os marcianos representem-na sob esse aspecto, visto que os seus olhos, formados em ambiente menos luminoso que o nosso, são um tanto mais sensíveis e distinguem as fases da Terra, tanto mais quanto sua atmosfera é mais rarefeita e transparente. Vê-se depois o globo marciano do lado do Mar arenoso, o mais característico da sua geografia; e o traço que o atravessa indica, para o cometa, uma velocidade mais ou menos dupla da sua própria velocidade orbitária. As chamas indicam a transformação do movimento em calor. A aurora boreal e os relâmpagos que se lhe seguem, representam a transformação em eletricidade e em força magnética. Por fim, vê-se a bota italiana, naturalmente apreciável à distância de Marte, assinalado o ponto ameaçado, segundo seus cálculos, por um dos elementos mais temíveis do núcleo cometário, enquanto as quatro flechas partindo dos pontos cardeais parecem traduzir o conselho para afastar-se da região ameaçada.

A mensagem fotofônica, essa, era mais longa e mais complexa. Já os astrônomos de Gaorisancar haviam recebido outras e compreendido que elas provinham de um centro intelectual e científico importantíssimo, localizado na zona equatorial, não longe da baía do Meridiano. Esta última mensagem era a mais grave e resumia a interpretação supra. O restante não foi retransmitido, por mais sibilino e menos seguramente traduzido.

O Presidente tocou a campainha. Competia-lhe, de fato, uma peroração conclusiva de tudo o que fora dito.

– Senhores: o último comunicado de Gaorisancar vem impressionar-vos, com razão. É de presumir que os marcianos estejam cientificamente mais adiantados do que nós, o que aliás não constitui surpresa, visto serem mais velhos e nos levarem uma dianteira multissecular no desdobro do progresso. De resto, sua organização pode ser mais perfeita, podem gozar de melhor vista, de aparelhos mais possantes e de faculdades intelectuais transcendentes. Por nossa vez, constatamos a conformidade dos seus com os nossos cálculos, no concernente ao encontro cometário, mas notamo-los mais minudentes ao designarem o ponto exato onde o choque será violento. O conselho para afastar-se da Itália pode e deve ser seguido e vou já telefonar ao Papa, que, precisamente neste momento, reúne em Roma todos os bispos católicos.

“A verdade é que nos vamos chocar com o cometa e ainda não podemos prever as conseqüências daí resultantes. Mas, as maiores probabilidades apontam comoção parcial e não um aniquilamento total. Sem dúvida, o óxido de carbono não permeará as camadas da nossa atmosfera respirável. Haverá, todavia, enorme desenvolvimento de calor.

“Quanto ao fim real do mundo, das hipóteses que nos permitem pressagiá-lo desde já, a mais provável é a adotada pelo Sr. Diretor do Observatório. De um lado, nossa vida planetária depende da irradiação solar e, enquanto o Sol brilhar, a Humanidade pode julgar-se mais ou menos garantida. Por outro lado, o retraimento da atmosfera e a diminuição do vapor da água acarretarão previamente, talvez, o reinado da congelação. No primeiro caso, teríamos ainda uma trintena de milhões de anos para viver; e, no segundo, uma dezena apenas. Será, pois, pelo frio que o mundo há de acabar.

“Esperemos, pois, sem maiores tribulações o próximo 14 de Julho. De mim, aconselharia os que pudessem fazê-lo, a passarem estes dias críticos em Chicago, ou mesmo mais longe, como em São Francisco, Honolulu, Noumeia... Os transatlânticos aero-elétricos são assaz numerosos para transportar milhões de viajantes até sexta-feira à noite.

“Ajuntarei, concluindo, que não houve descuido de umas tantas precauções, como abertura de cavas, túneis, galerias. Havemos de sofrer, certo, terrível borrasca, que poderá durar algumas horas, e teremos de respirar, então, um ar bem sufocante. Mas, senhores, as vítimas (que as haverá muitas) sucumbirão principalmente de medo. Tenhamos serenidade de ânimo, consideremos que o embate celeste também poderá resultar inócuo e não durará senão algumas horas, que hão de passar fugidias, deixando-nos viver, como até aqui, à luz deste bom Sol da Natureza.”



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