Camille Flammarion o fim do Mundo



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V
O Concílio do Vaticano


Porque haverá então grande aflição qual nunca houve desde o princípio do mundo até agora.
MATEUS, XXIV, 21.
Enquanto se discutia em Paris, assembléias idênticas se haviam congregado em Londres, Chicago, Petersburgo, Yokohama, Melbourne, New York e cidades outras importantes, esforçando-se, cada qual com suas luzes, por solucionar o magno problema que empolgava a Humanidade inteira. Em Oxford notadamente, a igreja reformada agregava um sínodo teológico no qual as tradições e interpretações religiosas eram assaz controvertidas. Interminável a tarefa de aqui historiar, mesmo sucintamente, o resultado desses congressos. Não podemos, contudo, deixar sem comentário o do Vaticano, como o mais importante do ponto de vista religioso, qual o de Paris do ponto de vista científico.

Um concílio ecumênico de todos os bispos fora, havia muito, convocado pelo Pontífice Pio XVIII, a fim de votar um novo artigo de fé, corroborando e completando o da infalibilidade Papal, votado em 1870, bem como três outros supervenientes. Desta vez, cogitava-se da divindade do papa. A alma do pontífice romano, eleito pelo conclave sob a inspiração direta do Espírito-Santo, deveria ser declarada como partícipe dos atributos do Eterno, não poderia falir, desde o início do respectivo mandato, não somente nas decisões teológicas ex-cathedra, como em todos os assuntos humanos, e pertencer, de pleno direito, à imortalidade paradisíaca dos santos que rodeiam de perto o trono de Deus, compartilhando da sua glória. Um certo número de prelados modernos não considerava, é verdade, a religião senão em função do papel que pode representar na obra da civilização. Entretanto, os pontífices da velha escola ainda admitiam sinceramente a Revelação e os últimos papas se haviam mostrado verdadeiros padrões de sabedoria, de virtude e santidade.

O concílio antecipara-se de um mês, devido ao advento cometário, pois se esperava que a solução teológica iluminasse e acalmasse os fiéis sobressaltados, levando-lhes quiçá uma perfeita tranqüilidade espiritual.

Não nos preocupam aqui os trabalhos conciliares, pertinentes ao novo artigo de fé. Diremos tão só que foi votado por grande maioria, ou seja 451 por 86. Também foi muito notado o voto negativo de quatro cardeais, vinte cinco arcebispos ou bispos franceses. Entretanto, a maioria tinha força de lei e, ao ser proclamado o dogma da divindade Papal, viram-se quatrocentos e cinqüenta e um prelados ajoelharem-se junto do trono pontifício, em adoração ao Divino Pai – expressão esta que, de há muito, substituíra a de Santo Padre.

Nos primeiros séculos do Cristianismo, o título honorífico dado ao Papa era o de Vosso Apostolado, substituído mais tarde por Vossa Santidade. Agora, dever-se-ia dizer Vossa Divindade. A ascensão do título atingira o zênite.

O concílio subdividira-se em umas tantas secções ou comissões de estudos e a tese já muitas vezes agitada, do fim do mundo, fez-se objeto exclusivo de uma comissão. Nosso dever é reproduzir aqui, tão exatamente quanto possível, o aspecto da principal sessão consagrada ao assunto.

O patriarca de Jerusalém, criatura sumamente piedosa e profundamente crente, foi o primeiro a pedir a palavra. Falou em latim, mas aqui têm a tradução fiel do seu discurso:

– Veneráveis Padres, penso não poder agir mais sabiamente do que abrindo perante vós os santos Evangelhos. Peço permissão para ler textualmente:

Portanto, quando virdes a abominação do assolamento, de que foi dito por Daniel o Profeta, que está no lugar santo, quem lê advirta. Então os que estiverem na Judéia, fujam para os montes. O que estiver sobre o telhado não desça a tomar alguma coisa de sua casa. E o que estiver no campo não torne atrás a tomar seus vestidos. Mas ai das prenhas e das que criarem naqueles dias! Orai, porém, que vossa fuga não aconteça em inverno, nem no sábado. Porque haverá então grande aflição, qual nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tão-pouco haverá. E se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria; mas, por causa dos escolhidos, serão abreviados aqueles dias. Porque como o relâmpago, que sai do Oriente e aparece até o Ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem. E logo depois da aflição daqueles dias o Sol se escurecerá, a Lua não dará seu resplendor e as estrelas cairão do céu e as forças dos céus se comoverão. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; todas as tribos da terra lamentarão e verão o Filho do homem, que vem sobre as nuvens do céu com grande potência e glória. (Mateus XXVI) .

“Tais são, veneráveis irmãos, as palavras de Jesus-Cristo.”

E o Senhor não se descuidou de acrescentar:

Em verdade vos digo, que alguns há dos que aqui estão, que não experimentarão a morte, até que não vejam vir o Filho do homem em seu reino. (Mateus XVI, 28)

Em verdade vos digo, que esta geração não passará, sem que todas estas coisas aconteçam. (Marcos XIII, 30)

“Palavras são estas, textualmente respigadas do Evangelho, e vós sabeis que, sobre este ponto, os evangelistas são unânimes. Sabeis também, reverendíssimos Padres, que o Apocalipse de São João expõe, em termos ainda mais trágicos, a grande catástrofe final. Mas, todos vós conheceis literalmente as santas Escrituras e ocioso seria, senão irreverente, perante vós, acumular citações que tendes na ponta da língua, por assim dizer.”

Este o exórdio do Patriarca de Jerusalém. Ele dividiu em três partes o seu discurso, a saber: 1°- a palavra de Jesus-Cristo; 2°- a tradição evangélica; 3°- o dogma da ressurreição da carne no dia do juízo final. Iniciado em moldes de exposição histórica, esse discurso não tardou a transformar-se numa espécie de amplíssimo sermão, e quando o orador, depois de citar São Paulo, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Orígenes, chegou ao concílio de Nicéia e ao dogma da ressurreição universal, deixou-se empolgar pelo assunto com tal eloqüência que abalou profundamente toda a conspícua assembléia. Vários bispos, já um tanto descrentes, sentiram-se tocados pela fé apostólica dos primeiros séculos. Importa dizer que o cenário do sodalício prestava-se maravilhosamente ao assunto. Nem mais nem menos que a capela Cistina. O imenso e grandioso painel de Miguel Ângelo ostentava-se, qual novo céu apocalíptico, diante de todas as vistas. O formidável amontoado de corpos, braços e pernas em contorções violentas e bizarras; o Cristo fulminante, os réprobos arrastados por demônios de face bestial, mortos a surgirem dos túmulos, esqueletos a revestir-se de carne, o estupor da Humanidade trêmula ante a cólera divina, todo esse conjunto parecia dar realidade viva aos tropos eloqüentes do patriarca. Momentos havia em que, devido talvez a efeitos de luz, as trombetas pareciam mover e avançar e timbrar, longinquamente, o celestial apelo.

Logo que o Patriarca terminou, um bispo independente e do número dos mais turbulentos e dissidentes do concílio, o sábio Mayerstross, precipitou-se para a tribuna e entrou a clamar que era preciso nada tomar à letra nos Evangelhos, como nas tradições da Igreja, e mesmo nos dogmas.

– A letra mata – insistia – e o espírito vivifica! Tudo se transforma e obedece à lei do progresso. O mundo caminha. Os cristãos esclarecidos já não podem admitir a ressurreição do corpo nem o retorno de Jesus num trono nubívago, tanto quanto o juízo final. Todas estas imagens eram boas para a Igreja das catacumbas! Há muito que ninguém acredita nisso. São idéias anticientíficas e vós, reverendos Padres, tanto quanto eu, sabeis que agora precisamos estar acordes com a Ciência, que deixou de ser, qual ao tempo de Galileu, a humilde serva da teologia: Theologiae humilis ancilla. Os corpos não podem mesmo reconstituir-se, nem por milagre, atento a que as moléculas voltam à natureza e pertencem sucessivamente a inúmeros seres, vegetais, animais, humanos. Nós somos formados da poeira dos mortos e, no futuro, as moléculas de oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono, fósforo, enxofre, ferro, que constituem a vossa carne e os vossos ossos, serão incorporadas noutros organismos, humanos ou brutos. Mesmo em vida, há uma permuta perpétua. Morre uma criatura humana por segundo, ou seja, mais de oitenta e seis mil por dia, mais de trinta milhões por ano, mais de três bilhões por século. Cem séculos apenas – pois isso não é muito para a história de um planeta – dariam trezentos bilhões de ressuscitados. Ora, a humanidade terrena não tem vivido menos de cem mil anos – e ninguém aqui ignora que os períodos geológicos e astronômicos se aferem por milhões de anos – pelo que, deveria ela, a Terra, fornecer ao Juízo final, tanto como a bagatela de muitos bilhões de homens, mulheres e crianças ressuscitados. Minha avaliação é pouco menos que modesta, pois não abrange o acréscimo secular da população terrestre. Vós podereis objetar-me que só os cristãos ressuscitarão... Mas, que será feito dos outros? Dois pesos e duas medidas! A morte e a vida! A noite e o dia! O preto e o branco!

“A injustiça divina e a bem-aventurança reinando na criação! Mas, não; não aceitais esta solução. A lei eterna é a mesma para todos. Pois bem! esses milhares de milhões de ressuscitados onde os enfurnareis? Mostrai-me um vale de Josafá capaz de conter todos... Sereis capazes de os acomodar a todos nesta nossa bola? Podereis suprimir os oceanos e os gelos polares? Envolvereis a Terra em floresta de corpos humanos? Admitamo-lo! Mas, como hão de ver os antípodas a chegada do Homem-Deus ? Será que ele vai contornar o mundo? Quero crer que sim... Mas, depois? Que vai ser de toda a imensa população? Eleitos para o céu, danados para o inferno... Muito bem, mas... onde o céu, onde o inferno? Dificuldades sobre dificuldades, absurdos por absurdos. Não, veneráveis colegas, nossas crenças não devem, não podem mais ser tomadas à letra. Quisera eu que aqui não houvesse mais teólogos de olhar desdenhoso, ensimesmados, mas, astrônomos de olhos abertos para fora e para longe!”

Essas palavras foram proferidas no meio de indescritível tumulto. Tentaram, mais de uma vez, sustar o discurso do bispo croata, ameaçando-o de punhos fechados e apodando-o de cismático. Contudo, o regulamento conciliar assegurava-lhe a liberdade de consciência e a discussão foi mantida até ao fim. Um cardeal irlandês surgiu a invocar para o dissidente a condenação da Igreja, a falar de excomunhão e anátema. Viu-se, então, assomar à tribuna um dos maiores prelados da Igreja anglicana, o arcebispo de Paris, declarando que o dogma da ressurreição podia ser ventilado sem incidir em reprovação canônica. Que poderiam conciliar-se a razão e a fé. Ao seu ver, poder-se-ia admitir o dogma, embora reconhecendo racionalmente impossível a ressurreição do corpo!

“O Doutor Angélico – disse referindo-se a São Tomás – assegurava que a completa dissolução de todos os corpos humanos se daria pelo fogo, antes da ressurreição. (Suma teológica III).

“Aditarei de bom grado, com D. Calmet (Dissertação sobre a ressurreição dos mortos) que, para a onipotência divina, não será impossível reunir as moléculas dispersas, de forma que, no corpo ressuscitado, não falte uma só das que lhe hajam pertencido na vida perecível. Entretanto, não se faz preciso semelhante milagre. O próprio São Tomás mostrou (loco citato) que esta identidade completa da matéria não se torna, em qualquer maneira, indispensável para estabelecer a perfeita identidade do corpo ressuscitado com o corpo destruído pela morte. Certo, não esposo as idéias, um tanto subversivas, do nosso honorável colega; mas penso com ele que o espírito deve sobrepor-se à letra.

“Qual o princípio da identidade dos corpos vivos? Seguramente, não consiste na identidade completa, e persistente, da matéria corporal. De fato, no fluxo contínuo e na renovação constante que constituem o jogo da vida fisiológica, os materiais que pertenceram sucessivamente a um corpo humano, da infância à velhice, dariam para fazer uma estátua colossal. Nessa torrente vital, os materiais passam e mudam constantemente. O organismo, porém, é sempre o mesmo, apesar das modificações de volume, forma e constituição íntima. O broto flébil do carvalho, oculto entre duas cotiledôneas, teria deixado de ser o mesmo vegetal quando culmina em fronde majestosa? O embrião da larva, ainda no óvulo, deixaria de ser o mesmo inseto transformando-se em lagarta, crisálida, borboleta? Deixará o feto humano de ser o mesmo indivíduo em se tornando criança, adulto, ancião? Ninguém o dirá. Restará no carvalho, na falena, no homem, uma só molécula do broto, da larva embrionária, do feto? Qual, pois, o princípio subsistente a todas essas mudanças? E será ele algo de real, que não imaginário? Certo que sim. Não será a alma, porque as plantas vivem e não têm alma, no sentido que incumbe dar à palavra. Mas é, todavia, um agente imponderável. Sobrevivente ao corpo? É possível... Assim pensava São Gregório de Nisse. Se ficar ligado à alma, pode ser chamado a dar-lhe um novo corpo, idêntico ao dissolvido com a morte, ainda mesmo que esse corpo não possuísse uma só molécula das que retivera em qualquer fase da vida terrena. Não deixará, por isso, de ser um corpo nosso, tanto quanto o que investimos aos cinco, quinze ou sessenta anos. Tal corpo concorda perfeitamente com as santas Escrituras quando afirmam que, depois de uma vida separada do corpo, as almas o retomarão no fim dos tempos, e para sempre.

“Permiti que, a São Gregório de Nisse, acrescente um grande filósofo, Leibnitz, que opinava ser imponderável, mas não incorpóreo, o princípio da vida fisiológica, ficando a ele unida a alma, após separar-se do corpo visível e ponderável. Não pretendo aqui aceitar nem recusar esta hipótese. Noto, apenas, que ela se presta a explicar o dogma da ressurreição, no qual todo cristão deve crer sem nenhuma dúvida.”

– Esta tentativa de conciliação entre a fé e a razão – adverte o bispo croata – é digna de elogios, conquanto se me afigure mais engenhosa que aceitável. Esses presumidos corpos assemelhar-se-ão aos nossos? Se perfeitos, incorruptíveis, apropriados a novo regime, não devem possuir órgãos quaisquer, sem finalidade prática. Para que uma boca, se não precisam alimentar-se? Porque pernas, sem necessidade de caminhar? Braços para quê, se não há trabalho? Um dos nossos ancestrais, Orígenes, cujo sacrifício pessoal jamais foi esquecido, conjeturou esses corpos como perfeitas bolas. Seria lógico, tal, mas não belo nem interessante.

“É preferível admitir com São Gregório e Santo Agostinho – intermite o arcebispo de Paris – que os corpos ressuscitem sob a forma humana, véu transparente da beleza humana.”

Assim o cardeal francês resumiu a moderna opinião da Igreja, no concernente à ressurreição da carne. Quanto às objeções de local, número de ressuscitados, exigüidade de espaço, fixação definitiva de eleitos e condenados, foi impossível chegar a um acordo, devido às contradições insolúveis.

Cumpre-nos, todavia, assinalar a idéia assaz original de um pregador do Oratório, candidato à púrpura, de que o mundo destinado a receber os ressuscitados há de ser um enorme globo oco iluminado no centro por um sol inexaurível e habitado na face interior. Destarte, dizia, fica resolvido o problema do dia perene da vida futura.

A impressão subsistente em todos os espíritos era a de que, apesar de todas as proposições, também nesse particular deviam considerar as coisas figuradamente; que, nem o céu nem o inferno dos teólogos correspondem a lugares precisos, antes correspondem a estados de alma, de bem ou de mal-estar, e que a vida eterna, de qualquer forma, poderá e deverá completar-se nos inumeráveis orbes que povoam o espaço infinito.

Dir-se-ia, então, que o pensamento cristão se havia gradualmente transformado, nos espíritos esclarecidos, de acordo com a astronomia e demais ciências.

Sem embargo, o Papa e a maior parte dos Cardeais mantinham-se estrita e absolutamente aferrados às velhas crenças e dogmas, decretados e sancionados de prístinos tempos.

Do cometa, pouco cogitaram e, contudo, o Papa telefonou a todas as dioceses do mundo, recomendando preces públicas para aplacar a cólera divina e desviar da cristandade o braço do Soberano Juiz. Fonógrafos adequados fizeram audível em todas as igrejas a palavra do Pontífice.

Esta sessão realizara-se terça-feira, à noite, isto é, no dia imediato às duas verificadas em Paris. O Divino Pai tinha transmitido o aviso do Presidente do Instituto para que se afastassem da Itália na data crítica, mas ninguém lhe dera maior atenção; primeiro, porque a morte representa, para os crentes, uma libertação e, segundo, porque a maioria dos teólogos contestava a existência de habitantes em Marte. Finalmente, porque um concílio de bispos, presidido pelo Divino Papa, não poderia parecer temeroso e devia guardar alguma confiança na eficácia da prece, na elevação das almas ao Deus onipotente, que senhoreia e dirige os corpos celestes.




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