Camille Flammarion o fim do Mundo



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VI
A crença no fim do mundo através dos tempos


Jed vis dans la nuée un clairon monstrueux.

Et ce clairon semblait, au seuil profond des cieux. Calme, attendre le souffle immense de 1'Archange.
VICTOR HUMO, La Trompette du Jugement.
Importa fazer aqui ligeira pausa no turbilhão dos acontecimentos que nos empolgam, a fim de comparar esta nova expectativa do fim do mundo a todas as precedentes, bosquejando a traços rápidos a história curiosa desse evento, através de todos os tempos. De resto, no mundo inteiro, em todas as línguas, não se falava, agora, de outra coisa.

Os discursos dos eminentes sacerdotes prosseguiram na capela Sistina e desfecharam na interpretação resumida pelo cardeal arcebispo de Paris, quanto ao dogma Credo resurrectionem carris. O seqüente et vitam œternam ficara tacitamente relegado à perspicácia dos futuros astrônomos e psicólogos. Esses discursos haviam, de algum modo, historiado a doutrina cristã do fim do mundo, em todos os tempos. Estudo curioso, por isso que representa ao mesmo tempo a história do pensamento humano, em face do seu próprio e definitivo destino. Julgamos, assim, dever aqui expô-lo em capítulo especial. Deixamos por instantes o papel de narrador do século XXV, para regressar à nossa época e resumir a crença dos tempos anteriores.

Séculos houve, de fé ardente e profunda, nos quais – importa considerar –, fora da doutrina cristã, todas as religiões abriram a mesma porta para o desconhecido, no extremo limite da jornada terrena. É a porta do Dante na Divina Comédia, posto que todas não houvessem imaginado, para além dessa porta simbólica, o paraíso, o inferno e o purgatório dos cristãos.

Zoroastro e o Zendavestá ensinavam que o mundo devia perecer de ignição. A mesma idéia se encontra na epístola de São Pedro. Parecia que as tradições de Noé e do Deucalião indicavam uma primeira destruição pela água e a segunda pelo elemento contrário.

Entre os Romanos, Lucrécio, Cícero, Virgílio, Ovídio, têm a mesma linguagem e anunciam a destruição final pelo fogo.

No capítulo anterior vimos que, no pensamento de Jesus, a geração a que se dirigia não deveria morrer antes da catástrofe anunciada. São Paulo, o verdadeiro fundador do Cristianismo, apresenta a crença na ressurreição e no próximo fim do mundo, como dogma fundamental da nova Igreja. E chega mesmo a repeti-lo oito ou nove vezes, em sua 1ª Epístola aos Coríntios.4

Infelizmente para o profeta, os discípulos, aos quais assegurara que não morreriam antes do advento, sucumbiram uns após outros, de morte comum. São Paulo, que não conhecera pessoalmente a Jesus, mas que era o mais ativo apóstolo da igreja nascente, acreditava vivesse ele mesmo até o dia da grande aparição.5 Contudo, todos faleceram e o predito fim do mundo, com a volta definitiva do Messias, não se realizou.

Nem por isso a crença desapareceu. Deixava-se, apenas, de interpretar à letra a predição do Mestre, para buscar-lhe o espírito. Contudo, não deixou de ser um grande golpe na crença evangélica... Passaram a amortalhar piedosamente os mortos, a encerrá-los em sarcófagos, sobre os quais inscreviam epitáfios que diziam ali dormirem eles até o dia da ressurreição. Jesus deveria voltar “breve”, a fim de julgar “os vivos e os mortos”. A senha de identificação dos cristãos era Maranatha, que se traduz por o Senhor virá.

Os apóstolos Pedro e Paulo morreram, provavelmente, no ano 64, durante a horrível carnificina ordenada por Nero, após o incêndio de Roma, engendrado por ele e depois atribuído aos cristãos, para ensejar-se o gozo de novos suplícios. São João escreveu o Apocalipse em 69. Uma onda de sangue se espalha sob o reinado do verdugo. Dir-se-ia que o martírio era o galardão da virtude. O Apocalipse parece escrito no âmbito da alucinação coletiva e prefigura em Nero o anticristo, precursor da volta do Messias. Surgem os prodígios de toda parte: cometas, estrelas cadentes, chuva de sangue, monstros, tremores de terra, fome, peste e, sobretudo, a guerra dos Judeus e a queda de Jerusalém. Nunca – poder-se-á talvez dizer – se acumularam tantos horrores em tão curto período de anos. (64 a 69).

A pequena igreja de Jesus parecia estar completamente dispersada. Em Jerusalém fora impossível permanecer. O Terror de 1793 e a Comuna de 1871 nada representam ao lado da guerra civil da Judéia. A família de Jesus teve de fugir da cidade santa. Jaques, irmão de Jesus, fora assassinado. Falsos profetas surgiam para que se completasse a profecia. O Vesúvio elaborava a tremenda erupção de 79, e já em 63 a cidade de Pompéia tinha sido abalada por um tremor de terra.

Patentes estavam, pois, todos os prenúncios do fim do mundo. O Apocalipse o confirma, Jesus vai repontar num trono de nuvens, os mártires serão os primeiros a ressuscitar. O anjo julgador aguarda apenas a ordem de Deus.

Mas, após a tempestade veio a bonança, terminou a guerra dos Judeus, o templo de Jerusalém não mais se reconstruirá, Nero sucumbe com a revolução de Galba, Vespasiano e Tito promovem a paz (ano 71) e... o mundo não acabou. Impôs-se, desde então, uma nova interpretação evangélica. O advento do Cristo foi procrastinado para quando se consumasse a derrocada do velho mundo romano, oferecendo, assim, tal ou qual margem aos comentadores. A catástrofe final permanecia como infalível, mesmo próxima, in novíssimo die, embora atufada de nuvens imprecisas, que lhe tiram todo o sentido literal, e mesmo espiritual, das profecias. Não obstante, continua-se a esperar.

Santo Agostinho consagra o XX capítulo de A Cidade de Deus (ano 426), a pintar a renovação do mundo, a ressurreição, o juízo final e a Nova Jerusalém. O livro XXI reporta-se à descrição do fogo eterno. O bispo de Cartago, diante do fracasso de Roma e do império, presume assistir ao primeiro ato do drama. Mas, o reino de Deus devia durar 1000 anos, e Satanás só poderia chegar depois. São Gregório, bispo de Tours (573), primeiro historiador dos Francos, assim começa a sua história:

“No momento em que retraço as lutas realengas com as nações inimigas, não resisto ao desejo de expor minha crença. O terror produzido pela perspectiva do próximo fim do mundo me levou a respigar nas crônicas o número de anos já transcorridos, por saber claramente quantos conta o começo do mundo.”

O Salvador viera santificar a Humanidade. Que esperaria ela para transportá-la ao céu?

A tradição cristã perpetuava-se de ano em ano, de século a século, apesar dos desmentidos da Natureza. Qualquer catástrofe – tremor de terra, epidemia, fome, inundação; qualquer fenômeno –, eclipse, cometa, furacão, tempestade, eram encarados como sinais precursores do cataclismo final. Os cristãos tremiam quais folhas levadas pelo vento, na expectativa constante do julgamento decisivo, e os pregadores alimentavam esse místico temor das almas tímidas.

Passadas e constantemente renovadas as gerações, foi preciso definir melhor o conceito da história universal. Fixou-se, então, o ano 1000 no espírito dos comentadores. Várias seitas de “milenários” surgiram, apregoando que Jesus reinaria na Terra com os seus santos, durante 1000 anos, antes que viesse o Juízo Final. Ireneu, Pápias, e Sulpício Sevérus compartilhavam essa crença. Alguns a exageraram, revestindo-a de matizes sensuais, anunciando uma como espécie de bodas para uma era de voluptuosidade. Santo Agostinho e São Jerônimo contribuíram bastante para o descrédito dessas teorias, mas sem atingir a crença dogmática da ressurreição. Os comentários do Apocalipse continuaram a florir entre as fraudes sombrias da idade média, e a opinião de que o ano 1000 assinalaria o fim e a renovação do mundo tomou vulto, sobretudo, no décimo século.

A idéia de finamento do mundo tornou-se, senão universal, muito generalizada. Diversas cartas dessa época, assim começam: Termino mundi apropinquante (aproximando-se o fim do mundo)... Em que pese a alguns contraditores, parece-nos difícil não compartilhar a opinião dos historiadores, notadamente Michelet, Henri Martin, Guizot e Dury, a respeito da generalidade dessa crença no seio da cristandade. Sem dúvida, não é crível que o monge francês Gerbert, então papa Silvestre II, ou o rei Roberto de França, hajam pautado a vida por essa crença; mas, a verdade é que ela não deixara de penetrar fundo as consciências timoratas, e que a seguinte passagem apocalíptica era o tema de freqüentes sermões:

Ao fim de 1000 anos, o demônio se libertará da sua prisão e seduzirá as gentes que estão nos quatro ângulos da Terra... O livro da vida será aberto, o mar restituirá os que tragou; o abismo infernal golfará seus mortos e cada qual será julgado segundo suas obras, por Aquele que está assentado no trono resplandecente... E haverá um novo céu e uma nova terra.”

Bernardo, um eremita da Turíngia, havia precisamente elegido para tema de suas prédicas essas palavras enigmáticas do Apocalipse e, no ano 960, anunciava de público o fim do mundo. Foi ele, de fato, um dos mais ativos arautos da profecia, chegando até a fixar a sua data, que seria a em que coincidisse a da Anunciação com a sexta-feira, o que aliás se verificou em 992, à revelia de qualquer catástrofe.

Druthmare, outro monge de Corbie, anunciou novamente a destruição do globo para 25 de Março do ano 1000. O terror foi tanto que o povo de muitas cidades procurou refugiar-se nas igrejas, ali permanecendo até meia noite, na expectativa do juízo final, por morrer aos pés da cruz.

É dessa época que datam inúmeras doações. Toda gente legava terras e bens aos mosteiros, que tudo aceitavam, apregoando, embora, o fim do mundo. Resta-nos, a esse respeito, uma crônica autêntica e assaz curiosa, escrita pelo monge Raul Glaber, no ano 1000. Diz ela, em suas primeiras páginas: “Satanás não tardará a ser solto, de acordo com a profecia de João, visto que os mil anos estão passados. É desses anos que nos vamos ocupar.”

O fim do décimo e começo do undécimo séculos marcam uma época verdadeiramente estranha, quão sinistra. De 980 a 1040, parece que o espectro da morte abriu as asas sobre a Terra. A peste e a fome avassalaram toda a Europa. Temos, em primeiro lugar, “o mal de fogo”, que calcinava as carnes e as fazia cair de podre. Esses flagelados entupiam as estradas e iam, em peregrinação, sucumbir junto dos santuários, ali se acumulando e saturando a atmosfera de odores nauseabundos. Muitos jaziam insepultos, agarrados às santas relíquias. Essa peste horrorosa ceifou, só na Aquitânia, mais de 40.000 pessoas e devastou todo o sul da França. Seguiu-se-lhe a fome. Voltara-se à barbárie. Os lobos deixavam as florestas e vinham disputar ao homem o direito de vida. A invasão dos Húngaros renovara, de 910 a 945, os horrores de Átila. Depois, tanto se combatera de castelo em castelo, de província em província; tamanha a devastação, que os campos deixaram de ser cultivados. A chuva consecutiva de três anos impediu toda e qualquer semeadura. A terra deixou de produzir, abandonaram-na. O moio de trigo, diz Raul Glaber, elevou-se a sessenta “sols” de ouro. Os ricos emagreceram e paleceram; os pobres devoravam raízes e não poucos se deixaram incidir na antropofagia. Sim. Vagando pelas estradas, os fortes subjugavam os fracos, espostejavam-nos e comiam-nos. Havia-os astutos, que engabelavam as crianças com um ovo, uma fruta, a fim de as devorar. Esse delírio chegou a tal ponto que o animal tinha mais garantias que o homem. Filhos matavam os pais, mães devoravam os filhos. E, como se tratasse de coisa natural, de regime estabelecido, houve quem se propusesse vender carne humana no mercado de Tournous. Denunciado, ele não negou o feito e foi condenado à fogueira. Outro houve, que, pilhado a desenterrar cadáveres, foi também queimado.

Quem o diz é um coevo e muitas vezes uma testemunha.

Morria-se de fome por toda parte. Por toda parte comiam répteis, animais imundos, carne humana. Na floresta de Mâcon, perto de uma igreja erigida a São João, um assassino construíra uma cabana, aonde atraía e estrangulava viajantes e peregrinos. Um dia, um casal entrou nessa cabana a fim de repousar, notou as caveiras lá existentes, tentou fugir, mas o hospedeiro os deteve. Lutaram, venceram o contendor e, chegados a Mâcon, divulgaram a façanha. Uma escolta foi ao antro e lá contou quarenta e oito crânios humanos! Capturado o sicário, foi amarrado a uma trave sobre um monte de palha e assim queimado vivo. Raul Glaber viu o local e as cinzas da fogueira.

Combates, assaltos, pilhagem, duelo, eram feitos comuns e próprios da época. Os flagelos do céu tiveram, no entanto, a virtude de abalar as consciências. Reuniram-se os bispos e logo obtiveram a abstenção dos duelos em três dias da semana, de quarta-feira à noite à manhã de sábado. Era o que chamavam a trégua divina. O fim do mísero mundo tornou-se, assim, esperança e terror desses tempos espantosos. Nada obstante, o ano 1000 passou como os precedentes e o mundo não se acabou. Ter-se-iam os profetas enganado mais uma vez? Tendo sido Jesus crucificado aos 33 anos, não seria mais lógico estender o milênio ao ano de 1033? Era razoável. Esperaram. Mas, justamente nesse ano 1033 verificou-se, aos 29 de Junho, um grande eclipse do Sol.

O Sol tomou a cor de açafrão, os homens entreviam-se pálidos, de uma palidez cadavérica; todos os objetos tinham um matiz esbranquiçado, o estupor era geral e todos aguardavam uma catástrofe iminente.

E, contudo, não era ainda o fim do mundo. A essa época tão angustiada é que devemos a construção dessas catedrais que têm desafiado os séculos e despertado a admiração dos pósteros. Benefícios enormes foram prodigalizados ao clero, doações e testamentos continuavam a enriquecê-lo. Houve, assim, uma espécie de nova aurora. “Depois do ano 1000 – é ainda Raul Glaber quem diz –, as basílicas foram restauradas em quase todo o mundo, principalmente na Itália e nas Gálias, posto que a maior parte delas ainda estivesse em boas condições. Os povos cristãos pareciam, contudo, rivalizar na magnificência dos seus templos. Dir-se-ia que o mundo inteiro, acorde num só pensamento, despira-se dos seus andrajos para vestir túnica branca.”

Os fiéis já não se contentavam de só reconstruir as igrejas episcopais; embelezavam também os mosteiros e até capelas aldeães, votadas a diversos oragos.

O fúnebre período do ano milenar havia reunido no abismo do tempo os séculos transcorridos. Entretanto, quantas tribulações a Igreja vinha atravessando? Os papas eram o joguete trágico dos imperadores saxões e dos príncipes do Lácio, em constante e belicosa rivalidade.6 Toda a cristandade estava em desordem inexprimível. A tormenta passara, mas, nem por isso, o problema do fim do mundo estava resolvido e a expectativa, por incerta e vaga, não desaparecera, tanto mais quanto a crença no demônio e nos prodígios haveria de continuar por muitos séculos, na base mesma das superstições populares. A cena do Juízo Final foi esculpida na porta de todas as catedrais e ninguém penetrava em santuário cristão sem passar sob a balança do Anjo, à esquerda do qual, demônios e réprobos se estorciam em medonhas convulsões, antes que fossem precipitados no fogo eterno.

Mas, a idéia do fim do mundo sobrepairava e ultrapassava o círculo das igrejas. No século XII os astrólogos aterrorizaram a Europa anunciando uma conjunção de todos os planetas da constelação da Balança, que se verificou, efetivamente, pois a 15 de Setembro de 1186 todos os planetas se encontravam compreendidos entre 180 e 190 graus de longitude. Não foi, porém, ainda dessa vez, fim do mundo.

Surgiu então o célebre alquimista Arnaldo de Vilanova a predizê-lo para 1335. Em 1406, no reinado de Carlos VI, um eclipse solar, aos 16 de Junho, acarretou pânico geral, assim narrado por Juvenal de Ursinos: “Causava dó ver o povo refugiar-se nas igrejas, crente de que o mundo ir acabar.”

São Vicente Ferrer escreveu em 1491 um tratado que intitulou: Do fim do mundo e da ciência espiritual. Nessa obra, concede ele à cristandade tantos anos quantos os versículos do Saltério – 2537. Stoffler, astrólogo alemão, por sua vez, predisse para 1524 um dilúvio universal, conseqüente a uma conjugação planetária. Houve pânico geral. Propriedades situadas nos vales, à beira-rio ou próximas do mar, foram vendidas aos menos crédulos, a preço vil. Ariol, doutor de Toulouse, mandou construir uma arca para si, família e amigos, e Bodin assegura que essa iniciativa não foi única. O número de cépticos não era grande. Tendo o chanceler de Carlos V consultado Pedro Mártir, respondeu-lhe este que o mal não seria tão funesto quanto o presumiam, mas que de fato essas conjunções acarretavam grandes distúrbios. O dia fatídico chegou e nunca se viu mês de Fevereiro tão seco! Entretanto, novos prognósticos se fizeram para 1532, da autoria de João Carion, eleitor de Brandeburgo. Depois, foi o astrólogo Cipriano Leowitz, para 1584. Ainda aqui, tratava-se da conjunção de astros e... dilúvio. Um contemporâneo, Luís Guyon, atesta que o terror foi enorme, as igrejas eram insuficientes para abrigar as multidões, muita gente fazia testamento sem cogitar da inutilidade do ato, de vez que todos haveriam de sucumbir. Outros doavam seus bens aos clérigos, na esperança de que estes, por suas preces, retardassem o dia do Juízo. Em 1588 apareceu uma nova predição astrológica, nestes termos apocalípticos:

“Após 1584 anos contados do parto da Virgem, o oitavo ano será um ano extraordinário, prenhe de terrores. Se, nesse ano terrível, o globo não for reduzido à poeira, se terra e mares não forem aniquilados, todos os impérios do mundo serão arrasados, a aflição pesará sobre o gênero humano.”

Encontra-se em livros dessa época, notadamente na Crônica dos Prodígios, de Conrado Lycosthenes (1557), uma quantidade verdadeiramente fantástica de figuras e descrições características desse terrorismo medieval. Aqui têm os leitores alguns espécimes: – um cometa, soldados alados, um combate celeste, tudo descrito como perfeitamente “visto” por toda a gente. O cometa, diga-se, não está muito exagerado; mas, quanto aos combatentes celestes, é força confessar que a imaginação tem bons olhos. O célebre adivinho Nostradamus não podia deixar de figurar no grupo dos profetas astrológicos. A ele se atribui a seguinte quadrinha, que foi objeto de muitos comentários:

Quando Jorge a Deus crucificar
E Marcos o ressuscitar,
São João tão logo o levará
E o fim do mundo então virá.

O que quer dizer: quando a Páscoa cair em 25 de Abril (festa de São Marcos), a sexta-feira santa será a 23 (festa de São Jorge) e a festa de Corpus Christi recairá no dia 24 de Junho (São João). A esta quadra não faltava malícia, visto que, ao tempo de Nostradamus, falecido em 1566, o calendário não tinha sido reformado (1582),7 e a Páscoa não poderia cair, jamais, em 25 de Abril. No século XVI, o 25 de Abril correspondia ao dia 15. Depois da reforma gregoriana a Páscoa pode cair aos 25 de Abril: é a sua data extrema e o que se tem verificado e há de verificar-se em 1666 – 1734 – 1886 – 1943 – 2038 – 2190, etc., sem que esta coincidência venha acarretar o fim do mundo.

Conjunções planetárias, eclipses e cometas, como que partilhavam entre si o acervo dos presságios sinistros. Entre os cometas históricos, os mais memoráveis, deste ponto de vista, são: os de Guilherme, o Conquistador, aparecido em 1066 e representado na tapeçaria da rainha Matilde, em Bayeux; o de 1264, que, dizem, desapareceu no mesmo dia em que morreu o papa Urbano VI; o de 1337, dos maiores e mais belos que se hão visto, e que “pressagiou” a morte de Frederico, rei da Sicília; o de 1399, que Juvenal dos Ursinos qualificou de “sinal de grandes males futuros”; o de 1402, que associaram à morte de João Galeas Visconti, duque de Milão; o de 1456, que lançou o terror em toda a cristandade, sob o pontificado de Calixto III, durante a guerra turca, e o de 1472, que precedeu a morte do irmão de Luís XI. Outros lhes sucederam, associados igualmente a guerras e catástrofes, e, sobretudo, à idéia de aniquilamento final. O de 1527 é representado por Ambrosio Paré e Simão Goulart como constituída de cabeças decepadas, punhais e nuvens sangrentas. O de 1531 pareceu anunciar a morte de Luisa de Sabóia, mãe de Francisco I, e a princesa compartilhou do erro comum, a respeito da maleficência desses astros. “Eis aí – disse, fitando-o do leito, através da janela – um aviso que não parece mandado a pessoas de baixa condição. Deus no-lo manda para nos advertir. Preparemo-nos para morrer.” Mas, de todos os cometas, o famoso, batizado de “Carlos V”, terá sido o mais digno de registro. Fora ele identificado como o mesmo de 1624 e preanunciado para 1848, não tendo porém reaparecido.

Os cometas de 1577, 1607, 1652 e 1665 motivaram discussões intermináveis, cuja coletânea perfaz enorme acervo bibliográfico. Foi ao último desses cometas que o rei Afonso VI de Portugal, colérico, mandou um tiro de pistola, com as mais grotescas ameaças! Por ordem de Luís XIV, Pedro Petit publicou um manual contra os terrores quiméricos – e políticos – originados pelos cometas. Desejava o grande rei ser único, sem rival, fulgurar sozinho – nec pluribus impar! Não admitia supusessem periclitante a glória eterna da França, mesmo provinda de um fenômeno celeste.

Um dos maiores cometas que aos terrícolas já foi dado contemplar, foi certamente o de 1680, que objetivou os cálculos de Newton. Projetou-se – diz Lemonnier – em grande velocidade, das profundezas do céu, parecendo cair perpendicularmente para o Sol, de onde o viram remontar com a mesma velocidade da queda. Observaram-no durante quatro meses, muito próximo esteve da Terra, e foi a ele que Whiston atribuiu o dilúvio. Bayle publicou os seus curiosos Pensamentos endereçados a um doutor da Sorbona, ao tempo do cometa, evidenciando a absurdeza das várias crenças, a propósito de sinais celestes. A Sra. Sevigné escrevia ao primo, conde de Bussy – Rabutin:

“Estamos aqui observando um grande cometa com a mais bela das caudas até agora vistas. Muita gente graúda está alarmada, supondo que o céu se preocupa com ela e esteja, assim, prevenindo-a de que vai perecer. Dizem que o cardeal Mazarin foi desenganado pelos médicos e os seus cortesãos resolveram, então, honrar-lhe a agonia com um prodígio, anunciando-lhe o aparecimento do cometa que tanto os intimidava. O cardeal riu-se deles e teve ânimo forte para lhes dizer que o cometa muito o honrava com a sua visita. Na verdade, poderíamos com ele repetir que também o orgulho humano se lisonjeia, no pressuposto de que haja grandes movimentos astrais, quando agoniza um grande homem.”

Como se vê, os cometas estavam insensivelmente perdendo o seu prestígio. Todavia, lemos num tratado do astrônomo Bernouille esta anotação assaz extravagante: “Se, o corpo cometário não é um sinal da cólera divina, a cauda bem poderia sê-lo.”

O terror do fim do mundo se associou ainda ao cometa de 1773; houve pânico em toda a Europa, até em Paris. Eis o que todos poderão ler nas Memórias secretas de Bachaumont:

6 de Maio de 1773 – Na última sessão pública da Academia de Ciências, o Sr. Lalande devia ler um memorial mais curioso que os precedentes, deixando, contudo, de o fazer por falta de tempo. Tratava-se, nesse estudo, dos cometas que podem, em se aproximando da Terra, originar comoções; sobretudo, do que nos deve visitar nestes dezoito anos. Mas, afirmando embora não ser o dito cometa do número dos capazes de maleficiar a Terra, advertindo, ao demais, que seria sempre impossível prefixar conseqüências, houve, ainda assim, uma geral inquietação de espírito.

9 de Maio – O gabinete do Sr. Lalande é pequeno para comportar a onda de curiosos que o vão interpelar sobre o seu memorial, a que de certo vai dar a necessária publicidade, no intuito de tranqüilizar tantos cérebros incandescidos com as fábulas aí correntes. A exaltação foi a ponto de irem os devotos solicitar ao Sr. Arcebispo preces de quarenta horas para conjurar o dilúvio iminente! Esteve o prelado a pique de o fazer e tê-lo-ia feito, certo, se alguns acadêmicos não lhe houvessem observado o ridículo desse recurso.

14 de Maio – O memorial de Lalande foi publicado. Ao seu ver, dos sessenta cometas conhecidos, oito poderiam, aproximando-se da Terra, produzir tal pressão que os mares se deslocariam e invadiriam parte do globo.”

Com o correr dos tempos desvaneceu-se o pânico. O temor dos cometas tomou outra feição. Deixou de significar a cólera de Deus, mas discutiram cientificamente os casos possíveis de um encontro e ninguém deixou de o temer. Em fins do último século, Laplace formulava a sua opinião naqueles dramáticos termos retro-referidos. (Cap. II) .

Em nosso século, a predição do fim do mundo foi, por várias vezes, associada às aparições cometárias. O cometa de Biela, por exemplo, devia cruzar a órbita terrestre a 29 de Outubro de 1832. O alarme generalizou-se. Estava-se de novo no fim dos tempos. Ameaçado o gênero humano! Como acabariam as coisas? Haviam confundido a órbita, isto é, a rota da Terra com a própria Terra. Nosso globo não devia, absolutamente, passar nesse ponto da sua órbita ao mesmo tempo em que o cometa, e sim a 30 de Novembro, ou seja, um mês e um dia depois. Por outro lado, o cometa devia ficar sempre à distância de 20 milhões de léguas. E lá se foi o medo.

A mesma coisa se repetiu em 1857. Um profeta de mau gosto anunciara, para 13 de Junho desse ano, a volta do famigerado cometa de Carlos V, ao qual se atribuíra uma revolução de três séculos. Ainda uma vez, mais de uma alma se apavorou e, mesmo em Paris, os confessionários receberam maior número de penitentes.

Em 1872, nova predição endossada por um astrônomo que absolutamente o não era (o Sr. Plantamour, do Observatório de Genebra).

Tanto quanto os cometas, os grandes fenômenos celestes ou terrestres, tais como eclipses totais do Sol, estrelas misteriosas subitamente aparecidas, chuva de estrelas cadentes, erupções vulcânicas com obscurecimento de grandes áreas, como a engolfar o mundo num dilúvio de cinzas, tremores de terra arrasando cidades, todos esses eventos grandiosos, ou apavorantes, sempre foram associados à idéia de aniquilamento imediato e universal dos seres e das coisas.

Só os anais dos eclipses dariam um grande volume, não menos pitoresco que a história dos cometas. Para falar um instante, apenas dos mais recentes, citaremos o de 12 de Agosto de 1654, cuja penumbra cobriu o território francês. Anunciado pelos astrônomos, entrou logo a engendrar terrores.

Para uns, pressagiava grandes mudanças políticas e a derrocada de Roma; para outros, era caso de um novo dilúvio universal; queriam outros fosse nada menos que o abrasamento da Terra.

Enfim, os menos exagerados contentavam-se com um simples empestamento atmosférico. A crença nesses efeitos trágicos estava tão generalizada, que, por ordem expressa dos médicos, uma aluvião de atarantados se refugiou em subterrâneos bem vedados, aquecidos e perfumados, para isentar-se da perniciosa influência. Isto é o que se pode ler, principalmente em Os Mundos, de Fontenelle, 2° serão.

“Não tivemos tanto medo – escreve ele – desse eclipse que, efetivamente, foi fatal? Pois não é que tanta gente se enfurnou nas adegas e porões? E os filósofos que escreveram para tranqüilizar-nos, não o fizeram em vão, ou pouco menos? E os que se enfurnaram, de lá saíram, afinal?” Outro autor, do mesmo século, P. Petit, de quem falávamos há pouco, conta, em suas Dissertações sobre a natureza dos cometas, que a consternação aumentou dia a dia, até à data fatal; e que um cura de aldeia, não podendo atender aos confidentes da última hora, viu-se obrigado a lhes fazer uma prédica, concitando-os a não se apressarem, visto que o cometa chegaria com atraso de 15 dias. E os paroquianos o acreditaram.

Por ocasião dos últimos eclipses solares que atravessaram a França, aos 12 de Maio de 1706, 22 de Maio de 1724, 8 de Julho de 1842 e mesmo com os parciais mais pronunciados, de 9 de Outubro de 1847, 28 de Julho de 1851, 15 de Março de 1858, 18 de Julho de 1860 e 22 de Dezembro de 1870, ainda se verificaram apreensões mais ou menos fortes, de uns tantos espíritos timoratos. No mínimo, sabemos nós de fonte limpa, no concernente a cada um desses eclipses, que os boletins astronômicos ainda eram interpretados, por certa classe de europeus, como sinais de maldição divina e que, diante deles, em todos os colégios e asilos religiosos, faziam-se orações. Esse sentido místico tende a desaparecer inteiramente entre as nações cultas e, certo, o próximo eclipse total, que vai colher a Espanha aos 28 de Maio de 1900, não causará sobressaltos deste lado dos Pirineus. Outro tanto não se poderia talvez dizer dos espanhóis.

Ainda hoje, nos países não civilizados, esses fenômenos despertam os mesmos terrores nossos de outrora. É o que os viajantes têm observado, principalmente na África. Por ocasião do eclipse de 18 de Julho de 1860 viu-se gente a orar, a correr, e outros se trancarem em casa.

Durante o eclipse de 29 de Julho de 1878, total para os Estados Unidos, um preto, convicto de que o mundo ia acabar, enlouqueceu e estrangulou a mulher e os filhos.

De resto, é força confessar que esses fenômenos são bem de molde a ferir a imaginação. O Sol, astro do dia, de cujos raios nos pende a vida, perde o fulgor que, antes de apagar-se, torna-se pálido e lúgubre. O firmamento, esmaecido, toma uma tonalidade esquisita; os animais ficam desorientados, os cavalos empacam, os bois no arado estarrecem; o cão achega-se ao dono, as galinhas buscam o poleiro; as aves deixam de gorjear e algumas até caem mortas. Arago nos conta que, por ocasião do eclipse de 8 de Julho de 1842, vinte mil espectadores formavam um quadro assaz expressivo.

“Quando o Sol se reduziu à estreita fita, não dando mais que escassa luz, uma como inquietação apoderou-se de toda aquela gente, sentindo cada qual a necessidade de externar suas impressões. Daí, um murmúrio abafado, semelhante à longínqua tempestade. Esse rumor aumentava à proporção que o crescente solar se afilava, até que desapareceu. A treva sucedeu de súbito à claridade, profundo silêncio assinalou essa fase, nitidamente, como se fosse a pêndula de um relógio astronômico. O fenômeno, em sua magnificência, acabava de triunfar da petulância da juventude e da presteza que algumas pessoas tomam por característicos de superioridade, naquela indiferença ruidosa e muito comum nos soldados. Profunda calma se fez também no ambiente, as aves cessaram de cantar... Após solene expectativa de dois minutos, frenéticos aplausos saudavam no mesmo esto, com a mesma espontaneidade, o reaparecimento dos primeiros raios solares. Ao recolhimento melancólico, de emoções indefiníveis, sucedia o contentamento vivo que ninguém já procurava comedir. Cada qual se afastava comovido, depois de assistir a um dos mais belos espetáculos que a Natureza oferece ao homem.

“Camponeses houve que se aterrorizaram com a obscuridade, sobretudo crentes de que iam ficar cegos. Um pobre pastorzinho de guarda ao rebanho, absolutamente ignorante do que ia suceder, viu aflito que o Sol se escurecia num céu sem nuvens. Quando a luz de todo se apagou, o pobrezinho, no auge do terror, pôs-se a chorar e a gritar por socorro! O pranto ainda lhe vertia quando o disco lhe mandou o primeiro raio. Asserenado então, juntou as mãozinhas, exclamando: Oh! belo Sol! Não será o dessa criança, o grito mesmo da Humanidade?!”

Explica-se, então, facilmente, a viva impressão produzida pelos eclipses, associada à idéia de aniquilamento do globo, desde que se não saiba que eles são apenas o efeito natural do movimento da Lua em torno da Terra, e que podem ser preditos com matemática precisão. O mesmo se dá com outros fenômenos celestes, notadamente aparições súbitas de estrelas desconhecidas, muito mais raros que os eclipses.

Dessas aparições, a mais célebre foi a de 1572. A 11 de Novembro desse ano, pouco depois do massacre de São Bartolomeu, surgiu subitamente, na constelação de Cassíope, uma rutilante estrela de primeira grandeza. A estupefação foi geral, não só do povo, que todas as noites procurava contemplar o céu, como entre os sábios, que não podiam explicar aquela aparição. Os astrólogos entraram logo a conjeturar que deveria ser a estrela dos Magos, núncia da volta do Homem-Deus, para efetivar o supremo julgamento da ressurreição. Daí, o grande sobressalto de todas as classes sociais... A estrela, porém, foi palecendo, até que de todo se extinguiu ao fim de oito meses, sem produzir outras catástrofes além das que a toleima humana acrescenta às misérias de um planeta bem mal sucedido.

Os anais da Ciência registram diversas aparições desse gênero, sendo esta, porém, a mais notável.

Emoções idênticas acompanharam sempre todos os grandes fenômenos naturais, máxime os imprevistos. Podemos ler nas crônicas da Idade-Média, e mesmo mais recentes, a impressão provocada pelas auroras boreais, chuvas de estrelas, bólidos, etc. Ainda não há muito, por ocasião da grande chuva de estrelas, a 27 de Novembro de 1872, que projetou no céu mais de quarenta mil meteoros provenientes da dissolução do cometa de Biela, vimos em Nice, principalmente, bem como em Roma, mulheres do povo ávidas de conhecer a causa daquele fogo de artifício celeste, que elas tinham imediatamente filiado à idéia do fim do mundo, e à queda de estrelas anunciada como pródromo do último cataclismo.

Tremores de terra e erupções vulcânicas atingem, às vezes, proporções tais que logo suscitam o terrorismo do fim do mundo. Imagine-se, então, o estado da alma dos habitantes de Herculanum e Pompéia, quando o Vesúvio os envolvia em mortalha de cinzas! Não seria a seus olhos, realmente, o fim do mundo? Mais recentemente, quantos presenciaram a erupção do Krakatoa, não pensam da mesma forma? Uma noite espessa que durou 18 horas, atmosfera de fornalha, irrespirável, carregada de cinzas a entrarem pelo nariz, pela boca, pelos ouvidos; o ribombo surdo e constante do vulcão, a pedra-pomes a cair do céu negro; quadro dantesco apenas intermitentemente aclarado com relâmpagos, ou pelos fogos fátuos dos mastros e cordoalhas dos navios. Raios em profusão, em precipitações satânicas. Depois, mais chuva cinérea, agora transformada em lama... Eis o que padeceram, nessa noite de 18 horas, de 26 a 28 de Agosto de 1883, os numerosos passageiros dum barco javanês, enquanto uma parte da ilha de Krakatoa voava pelos ares e o mar, depois de recuar, avançava, terra adentro, de 1 a 10 quilômetros, em vagas de 35 metros de altura. Isto, numa frente de 500 quilômetros! Em seu refluxo, essa avalancha arrasou e carreou para o oceano quatro cidades, a saber: Tjringin, Merak, Telok-Bétong, Anjer e tudo o mais que povoava a costa, mais de 40.000 pessoas! Passageiros de um navio que cruzou o estreito no dia seguinte viram que a proa cortava pencas de cadáveres entrelaçados. Semanas após, ainda se encontraram, no ventre de alguns peixes, ossos, cabelos, unhas humanas. Quantos puderam sobreviver à hecatombe e todos os que puderam entrevê-la a bordo de um navio, ao reverem a luz do dia, que já supunham para sempre extinta, confessam com terror que aguardavam, de fato, o fim do mundo, convictos de que o cataclismo fosse universal.

Uma testemunha ocular assegurava-nos que, por coisa alguma deste mundo, consentiria em rever tal quadro. Extinto o Sol, um véu de luto envolvia a Natureza e a morte universal ia reinar soberana, eterna.

De resto, essa erupção foi de tal violência que chegou a repercutir em todo o globo, mesmo para os antípodas. É que, tendo o jacto vulcânico atingido 20.000 metros de altura, a ondulação atmosférica por ele produzida se propagou por toda a. superfície do globo, circulando-o em 35 horas (mesmo em Paris os barômetros baixaram 4 milímetros). E ainda por mais de um ano, a finíssima poeira esparsa nas altas camadas atmosféricas produziu, esbatida ao Sol, as magníficas luminosidades vespertinas que muita gente pôde admirar.

Aí estão cataclismos formidáveis, que podem ser considerados fins-de-mundo parciais. Alguns abalos sísmicos podem comparar-se a essas medonhas erupções vulcânicas, pela amplitude de suas trágicas conseqüências. Por ocasião do terremoto de Lisboa, em 1 de Novembro de 1755, sucumbiram trinta mil pessoas. O abalo estendeu-se por uma área correspondente a quatro vezes a superfície da Europa. Quando Lima foi arrasada, em 28 de Outubro de 1724, o mar subiu 27 metros do seu nível e precipitou-se sobre a cidade, empolgando-a tão radicalmente que lhe não ficou uma só casa. Navios foram encontrados em seco, a muitos quilômetros da costa. A 10 de Dezembro de 1869 os habitantes da cidade de Onlah, na Ásia Menor, apavorados com os rumores subterrâneos e um abalo mais forte, salvaram-se escalando uma colina próxima. Dali viram, estupefatos, abrirem-se várias brechas no solo movediço, tragando a cidade em poucos minutos! Temos disso testemunhos diretos, que, em circunstâncias menos dramáticas, como por exemplo em Nice, não deixaram por isso de suscitar, antes de tudo, a idéia de fim do mundo.

A história da Humanidade poderia oferecer-nos grande número de dramas semelhantes, de cataclismos parciais, ameaças de destruição final. A nós cabia demorar um instante nesses grandes fenômenos em correlação com a velha crença do fim do mundo, que atravessou todas as épocas, modificando-se com o progresso da Ciência. A fé desapareceu, em parte; o aspecto místico e legendário que impressionava a mente dos antepassados, e de que ainda nos restam curiosas representações nas portas das catedrais, tanto quanto na escultura e na pintura inspiradas na tradição cristã, esse aspecto teológico do último dia terreno, cedeu lugar ao estudo científico da durabilidade do sistema solar a que pertencemos. A concepção geocêntrica e antropocêntrica do Universo, que considerava o homem como centro e fim da criação, transformou-se gradualmente e acabou por desaparecer. Agora, sabemos que o nosso humilde planeta não passa de uma ilha no infinito; que a nossa história tem sido, até aqui, feita de simples ilusões e que a dignidade humana reside no seu valor intelectual e moral. Não tem o espírito do homem, por finalidade soberana, o conhecimento exato das coisas e a investigação da verdade?

No curso do século XIX, profetas agourentos, mais ou menos sinceros, anunciaram 25 vezes o fim do mundo, mediante cálculos cabalísticos, sem se estribarem em qualquer fundamento sério. Tais predições se hão de renovar por todo o tempo que durar a Humanidade.8

Esta divagação histórica nos desviou, em que pese à sua oportunidade, da nossa narrativa do século XXV. Retomemo-la sem demora, ainda porque chegamos ao ponto exato do seu desdobramento.



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