Camille Flammarion o fim do Mundo



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VII
O choque


As stars with trains of fire and dews of blood.
SHAKESPEARE, Hamlet, I.
Qual bala de canhão desfechada em alvo, com a inexorabilidade das leis do destino, inflexíveis, assim cobria o cometa a sua órbita regular, com velocidade crescente, para o ponto que no nosso planeta deveria, por sua vez, atingir na noite de 13 para 14 de Julho. Os cálculos definitivos não discrepavam de uma linha. Os dois viajores celestes encontrar-se-iam como dois comboios em disparada louca e cega, para se espatifarem e fundirem num embate monstruoso, como rivais assomados de ódios insopitáveis. Mas, neste caso, advirta-se que a velocidade deveria ser, simplesmente, sessenta e cinco vezes maior que a de dois comboios a cem quilômetros horários!

À noite de 12 para 13, o cometa havia-se desdobrado e coberto quase todo o firmamento, permitindo distinguir, a olho nu, turbilhões ígneos a rolarem em torno de um eixo oblíquo à vertical. Dir-se-ia ali estivesse todo um exército de meteoros em desordenada conflagração, na qual a eletricidade e os relâmpagos se empenhavam em fantásticas batalhas. O astro coruscante parecia girar sobre si mesmo e revolver-se interiormente, como se possuísse vida própria e padecesse tormentosas dores. Enormes jactos de fogo bolsavam de vários focos.

Evidente que a luz solar agia sobre o turbilhão de vapores, decompondo uns tantos corpos, produzindo combinações explosivas, eletrizando as partes mais próximas, repelindo vapores para além da cabeça enorme, que pairava sobre nós. O astro de si mesmo emitia, porém, fogos bem diferentes do vaporoso reflexo da luz solar, e lançava chamas sempre maiores, qual monstro que se precipitasse à Terra para incendiá-la. O que mais sobressaltava, talvez, nesse espetáculo, é que ninguém podia explicar o que ocorria: Paris e todos os centros de atividade humana calavam-se instintivamente nessa noite, como que imobilizados por uma expectação única, como que procurando apreender algum eco do turbilhão celeste que se avizinhava, sem que ruído algum lhes chegasse do pandemônio cometário.

A lua cheia, esverdeada, ostentava-se na rubra fornalha, mas, sem brilho, não projetando mais que sombras. A noite deixara de ser noite; as estrelas sumiram-se para só ficar o céu abrasado de intenso claror.

O cometa aproximava-se com a velocidade de 147.000 quilômetros por hora, e a Terra, por sua vez, avançava à razão de 104.000 quilômetros, de oeste para leste, em sentido oblíquo à órbita cometária, que, pela posição de qualquer meridiano, à meia-noite, pairava a nordeste. A combinação das respectivas velocidades aproximava os dois corpos celestes à razão de 173.000 quilômetros por hora. Quando a observação, de acordo com o cálculo, constatou que os contornos da cabeça do astro estavam apenas à distância da Lua, soube-se que a tragédia começaria dentro de duas horas.

Contrariamente a toda expectativa, o dia de sexta-feira apresentou-se de maravilhosa beleza, como os precedentes: o Sol brilhou num céu escampo de nuvens, mas, refrescada por ligeira brisa, toda a Natureza parecia festar: campos floridos, luxuriantes de beleza, regatos múrmuros alegrando vales, aves cantando nas frondes. As cidades, só elas, apresentavam-se combalidas, pois que aí a Humanidade sucumbia consternada. A impassibilidade tranqüila da Natureza contrastava dolorosamente com a ansiedade angustiosa dos corações humanos.

Milhões de europeus haviam deixado Paris, Viena, Berlim, Petersburgo, Roma, etc., para refugiarem-se na Austrália, aonde haviam acorrido até os antípodas. À medida que se aproximava o dia do encontro, a administração dos transportes transatlânticos aéreos triplicava o tráfego e os comboios aéreo-elétricos pousavam como bandos de pássaros migratórios em São Francisco, Honolulu, Noumeia e nas cidades australianas de Melbourne, Sydney, Liberty, Pax. Mas, esses milhões de fugitivos não representavam mais que uma minoria privilegiada, cuja ausência mal se poderia notar, diante da massa que formigava, estarrecida, pelas cidades e vilas.

Noites inteiras de vigília já se haviam passado. Ninguém dormia. O terror do desconhecido exaltava todas as mentes, arrebatava-lhes o sono. Nem mesmo havia quem se deitasse para repousar. Como? Dormir o derradeiro sono? Não ter, nunca mais, o encanto do despertar. Semblantes lívidos, em geral, olhos fundos, cabeleiras desgrenhadas, fácies angustiadas da mais terrível angústia que jamais assaltara a mente humana, eis o que se via. O ar respirável tornava-se de mais a mais quente e seco. Ninguém pensava, desde a véspera, em alimentação qualquer, e o estômago, órgão tão pouco descuidoso de si mesmo, ainda assim, nada reclamava. Entretanto, uma sede ardente foi o primeiro efeito fisiológico da aridez atmosférica e as pessoas mais sóbrias não puderam furtar-se ao imperativo de acalmá-la, fosse como fosse, sem o conseguir. O sofrimento físico iniciava a sua tarefa e devia de pronto dominar as angústias morais. A atmosfera tornava-se hora a hora mais irrespirável, mais cruel. As criancinhas choravam, esperneavam, chamavam pelos pais, sem saberem porquê.

Em Paris, como em Londres, como em todas as cidades, vilas, aldeias, a população evadia-se de casa para errar estonteada, ao ar livre, qual enxame de formigas quando se lhes desmancha o formigueiro.

Todos os negócios da vida normal foram abandonados, todos os projetos estavam implicitamente aniquilados. Ninguém se preocupava com a casa, a família, nem de si mesmo. Depressão moral absoluta, mais forte que o enjôo do mar.

Igrejas católicas, templos protestantes, sinagogas judaicas, capelas gregas ortodoxas, mesquitas muçulmanas, pagodes chineses, budistas, santuários espíritas, sociedades teosóficas, ocultistas, psicosóficas, antroposóficas, naves da nova religião anglicana, todos os centros de culto religioso, enfim, que ainda dividiam a Humanidade, tinham sido invadidos por seus fiéis adeptos, nessa quarta-feira memorável, e mesmo em Paris a multidão entalada nos pórticos a ninguém permitia franquear as igrejas, em cujo interior se prosternavam os crentes.

Cantos, órgãos, hinos, tudo emudecera e o que apenas se poderia ouvir era um abafado sussurrar de preces. Como nos idos tempos de fé ingênua e ardente, de que nos falam historiadores medievais, os confessionários eram quase que tomados de assalto.

Nas ruas, nas praças, nas avenidas, o mesmo silêncio, salvo alguns magotes de estonteados, que procuravam iludir o perigo com a embriaguez. Insensatos berravam a esmo, blasfemavam, esmurravam as paredes. Nem um pregão, nem um jornal! Aviões, balões, aeronaves, helicópteros, haviam desaparecido como por encanto. As únicas viaturas em tráfego eram coches funerários levando aos crematórios as primeiras vítimas do cometa.

O dia assim passou, sem incidente astronômico. A ansiedade crescia, porém, à proporção que a noite fatal se avizinhava. Nunca, poder-se-ia talvez dizer, se vira um pôr-do-sol tão belo em céu assim tão puro! Era como se o astro-rei se recolhesse em leito de ouro e púrpura. O disco vermelho mergulhou no horizonte. As estrelas não apareceram, porém, nem com elas a noite. Ao dia solar sucedeu o cometário-lunar, intensamente aclarado, a evocar auroras boreais, sensivelmente mais vivas e como emanantes de grande foco incandescente, que não brilhara durante o dia, por encontrar-se abaixo do horizonte, mas poderia, contudo, rivalizar com o próprio Sol.

Esse foco luminoso surgiu no oriente, quase ao mesmo tempo em que a lua cheia, que parecia subir com ele, no céu – qual hóstia sepulcral em altar fúnebre – dominando o luto imenso da Natureza. À medida que se elevava, a Lua empalidecia, mas o foco cometário aumentava de brilho com a queda do Sol, abaixo do horizonte ocidental. E agora, era a ele que cabia imperar no mundo – sol nebuloso, rubro-escarlate, a vomitar flamas suri-verdes, que figuravam enorme nervura de asas. Olhares terrificados viam nele um Gigante desmesurado, que tomava posse do Céu e da Terra.

A vanguarda da cabeleira cometária tinha já penetrado no interior da órbita lunar e, de um momento para outro, iria tocar as fronteiras rarificadas da atmosfera terrestre, a duzentos quilômetros de altura, mais ou menos.

Foi nesse momento que todos os olhares se esbugalharam, loucos de terror, ao verem explodir em todo o horizonte um como vasto incêndio, projetando ao céu pequenas chamas violáceas.

Quase instantaneamente após, o cometa diminuiu de brilho, certo porque, a pique de tocar a Terra, entrara na penumbra desta e perdera, assim, uma parte da luz que lhe provinha do Sol. Desfalque aparente, contudo, devido principalmente a um efeito de contraste, vista como, quando olhares menos ofuscados se afeiçoaram àquela nova tonalidade luminosa, ela lhes pareceu tão viva quanto a primeira, embora embaciada, sinistra, sepulcral. Jamais a Terra se banhara em semelhante luz – um fundo de tela amarelada, além da qual fuzilassem relâmpagos. A secura do ar tornara-se intolerável; um calor de fornalha soprava de cima, tresandando a enxofre, provavelmente devido ao ozônio supereletrizado, que empestava a atmosfera. Cada qual julgava chegada a sua hora. Foi quando um grande grito estrugiu no silêncio, cobrindo todas as angústias:

O mundo está ardendo! Fogo! fogo!” – clamavam todos, de toda parte...

De fato, todo o horizonte parecia agora coroado de chamas azuladas. Era, pois, o que se previra: o óxido de carbono a queimar-se, produzindo o anidrido carbônico. Certo, também, o hidrogênio cometário aí estava a combinar-se lentamente. Dir-se-ia uma iluminação fúnebre em torno de um catafalco.

Súbito, enquanto a Humanidade se quedava imóvel, silenciosa, aterrada, retendo a respiração, cataleptizada, por assim dizer, toda a abóbada celeste pareceu rasgar-se de alto a baixo e, pela fauce aberta, cria-se ver enorme goela a vomitar chamas verdes, coruscantes. Tão intenso deslumbramento, acompanhado de horrível estrondo, fez que todos os espectadores, ainda os mais animosos e de mistura velhos, mulheres, crianças, ainda não abrigados, se precipitassem para as cavas e galerias subterrâneas, já então quase repletas. Daí, nessa correria desabalada, uma aluvião de mortes por esmagamento, apoplexias, aneurismas, delírios cerebrais fulminantes. Era como se a razão humana se houvera de súbito aniquilado e fosse substituída pelo estupor louco, inconsciente, resignado, mudo.

Apenas alguns jovens casais, abraçados, pareciam isolar-se do cataclismo, destacarem-se do terror universal para viverem, por e para si mesmos, tão somente entregues à exaltação do seu idílio.

Sobre os terraços ou nos observatórios, os astrônomos haviam, contudo, permanecido a postos e alguns deles fotografavam as constantes transformações do céu. Foram eles assim, por pouco tempo embora, as únicas testemunhas do encontro cometário, salvo um que outro temperamento corajoso, a expiar através de vidraças o último cataclismo.

Os cálculos indicavam que o globo terrestre devia penetrar no âmago do cometa, tal como uma bala em massa nebulosa, e que, a partir do primeiro contacto com as zonas atmosféricas extremas, de uma e outro, levaria quatro e meia horas para atravessar a referida massa, como se torna fácil verificar, visto que, sendo o cometa mais ou menos sessenta e cinco vezes maior que a Terra, em diâmetro, devia ser atravessado não ao centro, mas a um quarto de distância, com a velocidade de 173.000 quilômetros por hora.

Havia quarenta minutos, mais ou menos, que se dera o primeiro contacto e já o calor e a terrível exalação de enxofre chegavam a tal ponto, que, dentro em breve, toda a vida haveria de cessar irremissivelmente, em seu curso. Os próprios astrônomos se retraíram no interior dos observatórios, fechando-os hermeticamente e descendo aos subterrâneos. Em Paris, só a jovem calculista, já do nosso conhecimento, ficou por mais alguns segundos no terraço, circunstância que lhe permitiu presenciar a irrupção de formidável bólido, aparentemente quinze ou vinte vezes maior que a Lua, a precipitar-se para o sul com a velocidade do relâmpago.

Não havia, porém, quem pudesse fazer mais observações quaisquer. Ninguém mais respirava. Ao calor e à secura, acrescia agora o envenenamento da atmosfera pela mistura do óxido de carbono, que começava a produzir-se.

Os ouvidos tilintavam numa espécie de sonoridade interior, os corações aceleravam o ritmo com violência e o cheiro de enxofre era cada vez mais forte! Nesse comenos, despejou-se do céu uma chuva de fogo, de estrelas cadentes, de bólidos que, em sua maior parte, não chegariam ao solo, mas deflagravam como bombardas, e cujos fragmentos perfuravam os telhados e ateavam incêndios a granel. O céu era também, todo ele, comburente e, ao fogo do céu, correspondia o da Terra, qual se um exército de relâmpagos houvera, num instante, incendiado o mundo. Ribombos de trovão sucediam-se ininterruptos, provindos em parte da explosão dos bólidos e, por outro lado, de imensa procela, de molde a presumir que todo o calor atmosférico se transformara em eletricidade. Um rumor contínuo, como de tambores ao longe, castigava os ouvidos, entremeados de choques horrendes e de sinistros silvos, como de serpentes. Depois, os clamores selvagens, o esfervilhar de caldeiras em ebulição, estouros violentos, gemidos do vento, uis e ais desesperados, tremores de terra, como se a Terra estivesse a fundir-se.

Nesse lance, a tempestade tornou-se tão espantosa, tão estranha, tão feroz, tão raiventa, que a Humanidade ficou como que cataleptizada, muda, aniquilada e, finalmente, apassivada qual folha fenecida à mercê dos ventos.

Desta feita, era evidente, tudo ia acabar. E cada qual se resignou com a perspectiva de sepultamento sob os escombros do universal incêndio, sem cogitar, um minuto, de qualquer meio de salvação. Num supremo esforço abraçavam-se quantos se não haviam separado, no intuito consolador de morrerem juntos.

Entretanto, o grosso do exército celeste havia passado e uma espécie de rarefação, de vacuidade, se produzira na atmosfera, quiçá devido às explosões meteóricas, visto que, de chofre, todas as vidraças estalaram e projetaram-se para fora, abrindo-se de si mesmas todas as portas e janelas. Terrível furacão desencadeou-se, então, abreviando o incêndio e reanimando os homens, que, instantaneamente, voltaram a si do pesadelo horrível. Depois, foi toda uma chuva diluvial.



***

Leiam o ‘Século XXV’! O esmagamento do papa e de todos os bispos! A queda do cometa em Roma. Peçam o jornal!”

Meia hora depois da tormenta, já todo o mundo começava a sair das cavas, sentindo-se reviver. Era como o despertar insensível de um sonho e, a despeito dos incêndios que ainda subsistiam, sem embargo da chuva diluviana, já os pregões atroavam nas ruas de Paris e de todas as grandes cidades mal acordadas. Por toda parte o mesmo anúncio, a mesma vozearia e, antes de procurar extinguir os braseiros, toda a gente comprava por um cêntimo o grande jornal de dezesseis páginas fartamente ilustrado.

Leiam o esmagamento do papa e dos cardeais... O Sacro colégio massacrado pelo cometa! Impossível nomear outro papa! Peçam o jornal!”

Os vendedores aumentavam, o pregão recrudescia e cada qual queria saber o que havia de verdade a tal respeito.

Eis, em suma, o que ocorrera.

O judeu americano com o qual já travamos relações, páginas atrás; o mesmo que, na terça-feira anterior, conseguira ganhar alguns milhões com a reabertura das Bolsas de Paris e Chicago, não desesperava de prosseguir negociando, e assim como outrora os mosteiros aceitavam os testamentos escritos com vistas ao fim do mundo, assim o nosso infatigável bolsista julgara oportuno manter-se ao seu telefone, a tempo instalado em profunda galeria hermeticamente fechada. Dono de linhas especiais entre Paris e os maiores centros mundiais, não interrompera as suas comunicações com eles.

O núcleo do cometa encerrava, comprimidos em massa de gás incandescente, certo número de concreções uranolíticas, algumas de diâmetros quilométricos. Uma destas massas atingira a Terra, próximo de Roma, e logo os fonogramas do correspondente anunciavam o seguinte:

Todos os membros do concílio estavam reunidos sob a cúpula do Vaticano, para festejar solene e pomposamente a decretação do dogma da divindade pontifícia. A cerimônia da adoração fora marcada para a hora sagrada da meia-noite. Profusamente iluminado o primeiro e mais grandioso dos templos da cristandade, mediante invocações piedosas e por entre nuvens de incenso e cânticos harmoniosos, o papa, assentado no seu trono de ouro, tinha a seus pés, prosternado, o fiel rebanho que ali representava a cristandade das cinco partes do mundo. E foi justo quando ele se erguia para a bênção suprema, que, do alto, se abateu um bloco de ferro maciço, descomunal, ou seja equivalente a meia área da cidade eterna, tudo esmagando e mergulhando num abismo de profundidade incalculável! Verdadeira queda infernal, dir-se-ia. Toda a Itália estremeceu ao choque do monstro aéreo, ao mesmo passo que o rumor de formidável trovão se propagava até Marselha.

O bólido tinha sido visto de todas as cidades italianas, através de intensa chuva de estrelas, com abrasamento geral da atmosfera. A Terra se iluminara como que de um novo sol rubro, coruscante, e um estrondo formidoloso, algo como infernal, sucedera à queda, como se de fato a abóbada celeste se houvesse rasgado de alto a baixo.

(Esse o bólido que a calculista do Observatório de Paris lobrigara no momento em que, apesar do seu zelo, não pudera manter-se no ambiente asfixiante do cataclismo. )

O nosso homem de negócios recebia despachos, expedia ordens telefônicas, redigia notícias sensacionais para o seu jornal, impresso de contínuo em Paris e nas principais cidades do mundo. Toda a novidade, por ele ditada, circulava 15 minutos após, no frontispício do Século XXV, em New York, Melbourne, etc.

Meia hora depois da 1ª edição, apregoava-se a 2ª, dizendo:

Leiam o incêndio de Paris e de quase todas as cidades da Europa! A morte definitiva da Igreja Católica. O papa castigado pelo seu orgulho! Roma reduzida a cinzas... Leiam o ‘Século XXV’, 2ª edição!

E nessa 2ª edição já se podia ler uma dissertação assaz erudita, de abalisado publicista, sobre as conseqüências da extinção do Sacro-Colégio. Nesse artigo, assertava ele que, de acordo com o estatuído nos concílios de Latrão (1179), de Lião (1274), de Viena (1312), bem como nas ordenações de Gregório X e Gregório XIII, os soberanos pontífices só podem ser eleitos pelo conclave dos cardeais. Esses concílios e ordenações não haviam previsto a hipótese de um aniquilamento total e simultâneo, dos cardeais. Nos próprios termos da jurisdição eclesiástica, nenhum papa poderia, conseguintemente, ser nomeado. Eis como e porque a Igreja ficava sem chefe. São Pedro já não teria sucessor. Era o fim do Catolicismo, nos moldes em que se constituíra e mantivera por tantos séculos.

Peçam o ‘Século XXV’, 4.° edição e vejam: aparição, na Itália, de um novo vulcão! Revolução em Nápoles... Leiam, leiam!”

Essa 4ª edição seguira-se a 2ª, sem referir-se à 3ª. Anunciava que um bólido, cujo peso se calculava em cem mil toneladas ou mais, havia-se abatido com a velocidade já anteriormente assinalada, sobre a enxofreira de Pouzzoles e, atravessando a crosta frágil e sonora da região, lá se afundara profundamente e originara um novo vulcão, cujas chamas iluminavam agora os campos flegrianos. A revolução, de fundo supersticioso e capitaneada por monges fanáticos, que em tudo viam avisos do céu, começava a depredar o Palazzo reale.

Sexta edição! Sensacional! Leiam: aparição de uma nova ilha no Mediterrâneo! A Inglaterra conquista...”

Um fragmento do cometa havia-se fixado no Mediterrâneo, a Oeste de Roma, formando uma ilha irregular de 1.500 metros de comprimento por 700 de largura e 50 de altura. O mar começara a ferver e a inundar as praias de vagalhões enormes. Todavia, lá estava precisamente um inglês, que não teve outro cuidado senão tomar um barco, escalar o rochedo e lhe espetar no cimo o pavilhão britânico.

Em todos os lugares da terra o jornal do nosso homem teve, nessa noite de 14 para 15 de Julho, uma tiragem de milhões de exemplares, ditados do seu gabinete, como quem soubera monopolizar todos os trágicos acontecimentos. Por toda parte aquelas notícias eram avidamente devoradas, antes mesmo de coordenarem esforços para a extinção dos incêndios. É verdade que a chuva, de começo, prestara um auxílio inesperado, mas os estragos materiais eram enormes, posto que todos os edifícios fossem de superestrutura metálica. As companhias de seguro alegavam causa superior imprevisível, esquivando-se a qualquer indenização. Por outro lado, os seguros sobre asfixia tinham realizado em oito dias lucros colossais.

O milagre de Roma! Assombroso! Leiam a 10ª edição do ‘Século XXV’. Peçam o jornal.”

Qual o milagre? Oh! simplíssimo: dizia o “Século XXV” que o seu correspondente deixara-se iludir por uma falsa informação e que o bólido caíra distante de Roma e nada havia destruído na cidade eterna. São Pedro e o Vaticano tinham sido miraculosamente poupados. Entretanto, o jornal se vendera por centenas de milhões, em todo o mundo. Excelente negócio.

A crise passou. Pouco a pouco a Humanidade se refez para o encanto do viver. A noite ficou aclarada por estranho luar cometário, alimentado pela queda de meteoros e com incêndios por toda parte. Quando rompeu o dia, às 3:30 mais ou menos, havia mais de 3 horas que o cometa cruzara com a Terra e a sua cabeça passara ao sudoeste, continuando, contudo, a envolvê-la na sua cauda. O choque verificara-se na noite de 13 para 14, às 12 h., 10’ de Paris, isto é, às 12 h. 58’ de Roma, conforme a exata previsão do Presidente da Sociedade Astronômica da França, que o leitor não terá, de certo, esquecido.

Enquanto a maior porção do hemisfério voltado para o cometa, na hora do encontro, tinha experimentado a secura do ar, o calor sufocante, a emanação sulfurosa e o estupor letárgico, resultantes da resistência atmosférica oposta à marcha do astro, da eletrização supersaturada do ozônio e da mistura do protóxido de azoto com as camadas aéreas superiores, o outro hemisfério ficara mais ou menos indene, exceto pelas perturbações atmosféricas inevitáveis e oriundas da ruptura de equilíbrio. Os barômetros haviam marcado curvas fantásticas, configurando píncaros e abismos.

Felizmente, o cometa não fizera mais que deslizar pela superfície e o choque longe estava de ter sido frontal. Sem dúvida, a própria atração do globo terrestre agira vigorosamente na queda dos bólidos sobre a Itália e o Mediterrâneo. Em todo caso, a órbita do cometa foi inteiramente transformada por essa perturbação, enquanto que a Terra e a Lua continuaram em seu curso tranqüilo ao redor do Sol, como se nada houvera ocorrido. De parabólica, a órbita cometária fez elíptica, com o seu afélio próximo ao ponto da eclíptica em que fora capturado pela atração do nosso globo.

Quando mais tarde fizeram a estatística das vítimas do cometa, viu-se que orçavam por quatro décimos da população européia. Só em Paris, que abrangia uma parte dos antigos departamentos do Sena e do Sena-e-Oise, contando 9 milhões de habitantes, houve, nesse inesquecível mês de Julho, 230 mil mortes.

Vê-se que a mortalidade triplicara uma semana antes do sinistro e quintuplicara no dia 9. A progressão diminuíra em conseqüência das sessões do Instituto, que tiveram a virtude de acalmar os espíritos mais impressionáveis. Chegou-se a verificar até um movimento retrocessivo no dia 10. Infelizmente, com a aproximação do astro, o pânico recrudesceu e, a partir do dia 11, o obituário sextuplicava a média normal. A maior parte das pessoas fracas havia sucumbido. Na quinta-feira 12, aproximando-se a data fatal e devido a privações de todo o gênero, como ausência de alimentação e de sono, distúrbios, quais a falta de transpiração cutânea, febre orgânica, superexcitação cardíaca, congestões cerebrais, a mortalidade atingira, só em Paris, a cifra desproporcional de dez mil! Quanto ao ataque geral, na noite de 13 para 14, que ceifou mais de cem mil vidas, caracterizou-se principalmente pelo ressecamento da laringe, congestões pulmonares, astenia dos órgãos respiratórios, embaraços da circulação do sangue, etc. O tão temido óxido de carbono não fizera uma só vítima, porque, em chegando à atmosfera, a transformação do movimento em calor o levara à combustão e impedira, dada a sua fraca densidade, de misturar-se mormente às camadas inferiores. Uma parte das pessoas mortalmente atingidas sucumbiu no dia seguinte e alguns houve cuja agonia permaneceu por vários dias. Não foi senão passados quinze dias que a média se restabeleceu. Durante o mês fatídico, nasceram em Paris 17.500 crianças, mas quase todas sucumbiram vitimadas pelo pavor materno. Chegavam ao mundo já envenenadas, com os seus corpinhos azulados.

A estatística assinalava normalmente a média de 15 óbitos por 1.000 habitantes, graças aos progressos da ciência médica, o que corresponde a 35.000 por ano, ou 369 por dia. Se, pois, descontarmos do cômputo precedente 11.439 óbitos do coeficiente comum, temos a cifra de 218.000 vítimas, mais ou menos, causadas pelo cataclismo.

O medo, só ele, teria originado 150.000 mortes por síncope, ruptura de aneurismas, congestões cerebrais.

E, contudo, o cataclismo não culminara no fim do mundo. Os claros não tardaram a ser preenchidos por uma espécie de recrudescimento de vitalidade, tal como se dava outrora em relação às guerras. A pauta de nascimentos, de conjunto tomada em todo o globo, poderia estimar-se em um nascimento por segundo, no curso do primeiro ano após o pânico. Mas ardente que nunca, a Vênus física provou que o mundo não estava prestes a findar. A Terra continuou o seu giro à luz fecunda do Sol, a Humanidade prosseguiu graduando-se para mais altos destinos.

E o cometa servira de pretexto, quase único, para todas as possíveis discussões e conjeturas, a respeito do grande problema capital do Fim do Mundo.
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