Camille Flammarion o fim do Mundo



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Segunda Parte
Dentro de dez milhões de anos

I
As etapas futuras


L'homme enfin prend son sceptre et jette son bâton. Et 1'on voit s'envoler le calcul de Newton,

Monté sur l’ode de Pindare.
V. HUGO, Plein Ciel.
O acontecimento que vimos de relatar, com as discussões que ele originou, ocorrera no século XXV da era cristã. A humanidade terrena não sucumbira ao embate cometário, que se tornou, entretanto, o maior fenômeno de toda a sua história. Acontecimento memorabilíssimo, na verdade, e jamais esquecido, sem embargo das inúmeras transformações por que passou, posteriormente, a raça humana. A Terra prosseguiu girando, o Sol continuou brilhando, as crianças envelheceram e desapareceram, sucedidas no fluxo perpétuo das gerações. Os séculos, os períodos seculares, transcorreram. O Progresso, suprema lei, conquistara o mundo, apesar de todos os entraves e obstáculos que os homens costumam oferecer-lhe. A Humanidade engrandecera-se lentamente em ciência e bem-estar, através de mil flutuações transitórias, para chegar ao apogeu e percorrer as veredas terrestres a ela assinadas.

Mas... que série enorme de transformações físicas e mentais!

A população da Europa elevara-se, a partir do ano 1900 ao ano 3000, de trezentos e setenta e cinco a setecentos milhões de habitantes. A Ásia passara de oitocentos e setenta e cinco milhões a um bilhão, a África de setenta e cinco a duzentos milhões; as Américas de cento e vinte a mil e quinhentos milhões e a Austrália de cinco a sessenta milhões, perfazendo assim, para o globo, um acréscimo de um bilhão e novecentos milhões de almas. E a progressão continuara, com alternativas. Também as línguas se haviam transformado. Os progressos incessantes da Ciência e da Indústria haviam originado grande número de vocábulos novos, ordinariamente estruturados na velha etimologia grega. Ao mesmo tempo, a língua inglesa se espalhara em todas as regiões do globo. Do vigésimo quinto ao trigésimo século, o idioma falado na Europa derivava de um misto de inglês, francês e vocábulos etimologicamente gregos, aos quais se juntaram algumas expressões colhidas no alemão e no italiano. Nenhum ensaio de língua universal, artificialmente criada, lograra êxito.

Antes do século XXV, já a guerra fora banida da lógica humana e ninguém concebia que uma raça presumida inteligente e racional houvesse podido sujeitar-se de bom grado e por tanto tempo a um jugo tão brutal quanto estúpido, que a relegava a nível inferior aos animais. Alguns episódios históricos, que a pintura popularizara, demonstrava em todo o seu horror a velha barbárie. Aqui, era Rhamsés III, no Egito, vendo entornar-se à frente do seu carro cestos e cestos de mãos decepadas aos inimigos vencidos, a fim de operar mais facilmente a sua contagem, às centenas e aos milhares; ali, era Teglatpal-Asar nas planuras da Caldeia, mandando esfolar vivos e expondo ao Sol os prisioneiros, ou Assurbanipal, na Assíria, arrancando a língua aos Babilônios e empalando os Susianos. Mais além, diante dos muros de Cartago, era Aníbal a crucificar os reféns. Depois, César decepando a machado o pulso dos Gauleses revoltados. Outros quadros mostravam Nero assistindo ao suplício dos cristãos acusados do incêndio de Roma e transformados em tochas ardentes. Em compensação, por outro lado, Filipe II da Espanha e sua corte assistindo à queima dos heréticos, em nome de Jesus. E mais: Gengis Khan balizando o roteiro de suas vitórias com pirâmides de cabeças degoladas, e Átila incendiando as cidades depois de saqueadas. Condenados da Inquisição a expirarem em torturas inconcebíveis, e os chineses enterrando os condenados até o pescoço, a cabeça untada de mel, em pasta às moscas, ou, então, num suplício mais rápido, serrando-os ao meio entre duas pranchas. E Joana d'Arc expirando na fogueira, Maria Stuart com a cabeça no cepo, e Lavoisier, Bailly, Chenier, no cadafalso, as dragonadas de Cévennes, os exércitos de Luís XIV devastando o Palatinado, os soldados de Napoleão tombados nas estepes geladas da Rússia, e cidades bombardeadas, batalhas navais, amálgamas de tropas ceifadas à metralha, combates aéreos despejando do céu torrentes de fogo, e pencas de cadáveres, e destroços de máquinas. Por toda parte o domínio brutal do mais forte, na mais espantosa selvageria. A série das guerras internacionais, civis, políticas, sociais, fora passada em revista e ninguém quis crer que as aberrações dessa loucura homicida tivessem realmente avassalado por tanto tempo a mísera raça humana, chegada, finalmente, à idade da razão.

Os últimos soberanos haviam em vão proclamado, com ênfase retumbante, que a guerra era uma instituição de ordem providencial, divina, por isso que resultava naturalmente da luta pela vida, constituía o mais nobre dos exercícios, sendo o patriotismo a mais nobre das virtudes. De nada valeu fossem proclamados campos de honra os campos de batalha, com os generais vitoriosos esculpidos em bronze nas praças públicas. O senso humano acabara por notar que nenhuma espécie animal, salvo algumas qualidades de formigas, dera mostras de estupidez tão grande e, portanto, que a guerra tinha sido o estado primitivo da Humanidade, obrigada a disputar a vida aos animais. Concluíra, então, que de há muito esse instinto rudimentar se voltara contra o próprio homem, que a luta pela vida não consistia em aniquilar-se a si mesmo e sim em conquistar a natureza; que todos os recursos da Humanidade estavam sendo lançados ao abismo voraz dos exércitos permanentes, em pura perda, e que só o serviço militar codificado valia por agravo tal à liberdade, a ponto de restabelecer a escravidão a pretexto de dignidade. As nações, governadas por soberanos belicosos e sacerdotais, haviam-se revoltado, acabando por encarcerá-los e embalsamá-los depois de mortos, como espécimes dignos da curiosidade dos pósteros. Assim, foram eles transportados a Aix-la-Chapelle e lá depositados, como satélites de outra época, em torno do túmulo de Carlos Magno.

Os Estados europeus, constituídos em repúblicas confederadas, reconheceram que o militarismo representava nos períodos de paz um parasitismo devorador, e mais: a impotência e a esterilidade; e nos tempos de guerra o roubo e o homicídio legalizados, o direito brutal do mais forte, regímen ininteligente mantido por uma obediência passiva aos diplomatas especuladores da ignorância e fraqueza humanas. Outrora, nos tempos primitivos, combatiam-se as cidades entre si, para proveito e glória de seus chefes, e essa guerra ainda vigorava no século XIX na África central, onde se deparavam rapazes e raparigas compenetrados do seu papel de escravos, a ponto de marcharem voluntariamente para as regiões onde deveriam ser comidos ritualística e pomposamente. Algo diminuída a primitiva barbaria, entraram as províncias a se coligarem e se combaterem: Atenas contra Sparta, Roma contra Cartago, Paris contra Dijon, Londres contra Edimburgo. A História registrara os combates do Duque de Bourgogne contra o rei de França, dos Normandos contra os Parisienses, dos Ingleses contra os Escoceses, dos Venezianos contra os Genoveses, dos Saxões contra os Bávaros, etc.

Depois, formaram-se nações mais vastas, suprimiram-se bandeiras e diversas províncias, mas continuaram nações e povos a ensinar aos filhos o ódio aos vizinhos, arregimentando-os e preparando-os para se exterminarem.

Guerras intermináveis e quase incessantes haviam deflagrado entre a França, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Itália, Espanha, Rússia, Turquia, etc.

Os engenhos destruidores acompanharam os progressos da química, da mecânica, da aeronáutica e da maior parte das ciências. Havia mesmo teóricos – sobretudo entre os estadistas – que afirmavam ser a guerra necessária ao progresso, esquecidos de que a maior parte dos inventores, em quaisquer ramos da ciência, como da indústria, foram as criaturas mais antibélicas deste mundo. A estatística demonstrara que a guerra aniquilava quarenta milhões de homens cada século, mil e cem por dia, ou fossem mil e duzentos milhões em três mil anos. Não havia como iludir a ruína das nações, pois só no século XIX elas gastaram em armamentos a bela cifra de setecentos bilhões. Também se objetava, às vezes, que uma sangria era útil para corrigir o acréscimo da população, sem levar em conta que a Terra poderia alimentar um número dez vezes maior de habitantes, que os ceifados pelas guerras. Essas rivalidades patrióticas, habilmente entretidas pelos políticos, que, por assim dizer, delas viviam, impediram a Europa, por longo tempo, de imitar a América na supressão dos exércitos que lhe exauriam todas as forças, arrebatando-lhe anualmente milhões sobre milhões de recursos penosamente arrancados ao povo laborioso, para constituir-se em Estados-Unidos da Europa e poder, enfim, viver na abundância do trabalho útil. O gládio de Marte continuou a dizimar os melhores cidadãos. Mas, como os homens não se decidiam a renunciar aos preconceitos e vaidades nacionais, coube à alma feminina a glória de salvar a Humanidade.

Sob a inspiração e direção de uma mulher superior, a maioria das mães coligou-se em toda a Europa para educar os filhos, e sobretudo as filhas, no horror do barbarismo militar. As conversas familiares, os serões noturnos, os discursos e leituras punham de manifesto a estupidez dos homens, a frivolidade dos pretextos que lançaram as nações umas contra as outras, a falácia da diplomacia, tudo envidando para exaltar o patriotismo e desvairar os espíritos, a inutilidade das guerras, o equilíbrio europeu sempre oscilante, jamais fixado, a ruína dos povos, os campos juncados de mortos e feridos, rasgados à metralha – mortos e feridos que, horas antes, viviam gloriosa e utilmente os dons da Natureza... E as viúvas, os órfãos, a miséria, a fome, a morte, ainda... e sempre. Uma só geração, assim esclarecida, houvera bastado para livrar a infância desses remanescentes de animalidade carnívora, incutindo-lhe horror e desprezo por tudo o que lembrasse a velha barbaria. As mulheres tornaram-se eleitoras e, como tais, elegíveis. Elas obtiveram, antes de tudo, que a condição de elegibilidade aos cargos administrativos importaria no compromisso de combater os orçamentos militares, e foi na Alemanha que a evolução se operou mais facilmente, graças ao internacional socialismo. Nada obstante o compromisso, uma vez eleitos, mais de metade dos deputados a ele faltaram, alegando razões de Estado. Confessavam haver alienado a independência pessoal e não poderem desobedecer à palavra de ordem dos seus líderes! Na verdade, os governos recusavam desarmar e os orçamentos de guerra continuavam sancionados. Imaginaram, depois, que, diferençando-se os militares em cada país, sobretudo pelos costumes, seria talvez possível suprimir os exércitos com a supressão desses costumes. A proposição era, contudo, assaz simplista para que pudesse lograr êxito. Foi então que as donzelas juraram, entre si, não esposar militares nem militaristas. Renunciavam, dessarte, ao casamento, e mantiveram-se fiéis ao juramento.

Os primeiros tempos dessa liga foram assaz dificultosos, mesmo para o belo sexo. Não fosse o temor da reprovação universal e mais de um coração ter-se-ia rendido. É que, aos rapazes não lhes faltavam qualidades pessoais, e os uniformes não haviam perdido o fascínio da elegância. Diga-se, a bem da verdade, que sempre houve algumas defecções; mas, como os casais assim constituídos foram, desde logo, mal vistos e apontados como párias da sociedade, o exemplo não frutificou. A opinião pública se consolidara a tal respeito e já não havia como contrariar a corrente. Por toda parte, viam-se nos logradouros públicos inscrições e apelos à paz universal.

Os belicosos são ladrões e assassinos! – eis um conceito dos mais lidos, notadamente em Berlim.

Durante cinco anos, mais ou menos, não se efetuara um só casamento. Na França, na Alemanha, na Itália e mesmo na Inglaterra, todo cidadão era soldado. Ali, como nos demais países, o “imposto de sangue” fora votado ainda no século XX. Eles achavam-se prontos para se confederarem, mas recalcitravam e divergiam por questões de bandeira. As mulheres agiam com firmeza, sentiam consigo a chave do problema e que a sua decisão libertaria da escravidão o gênero humano.

Às objurgatórias apaixonadas de alguns homens, respondiam unânimes: “Não! não mais queremos imbecis.” Outras acrescentavam: “Recusamo-nos a criar filhos para o matadouro.” Se a teimosia continuasse, permaneceriam irredutíveis no juramento ou emigrariam para a América, onde o militarismo havia desaparecido, já de alguns séculos. No Departamento da Administração Estatal (outrora Parlamento), os cidadãos mais eloqüentes reclamavam sem tréguas o desarmamento. Enfim, ao cabo de cinco anos, em face da muralha de oposição feminina, dia a dia mais espessa e irredutível, as deputações internacionais, num impulso de eloqüente unanimidade, reforçavam de bela retórica os argumentos e apelos femininos, e, dentro de uma semana, o desarmamento estava decretado para todas as nações. A República alemã havia triunfado de todos os prejuízos e preconceitos, de que se fizera a primeira e maior vítima.

Estava-se então na primavera. O golpe não provocara nenhuma revolução. Inúmeros casamentos se realizaram. A Rússia e a Inglaterra haviam ficado fora do acordo, visto que o sufrágio feminino não era unânime nesses países. Mas, como no ano seguinte todos os povos europeus se constituíram em Repúblicas, confederando-se num Estado único, a convite do governo dos Estados Unidos da Europa, as duas grandes nações decretaram, a seu turno, o desarmamento gradual, por décadas.

Havia muito que as Índias se tinham emancipado da Inglaterra e se constituído em Repúblicas. Quanto à Rússia, mantinha sempre o governo monárquico. Os ministérios da guerra foram suprimidos em toda parte, como verdadeiras aberrações sociais, estigma infamante. Mediava-se, então, o XXIV século e daí por diante a idéia mesquinha de pátria foi substituída pelo consenso geral de humanidade. À selvageria internacional sucedera uma federação inteligente...

Das instituições militares apenas restava a música, única fantasia agradável associada ao marcialismo, e que todos procuravam conservar. As milícias especiais foram também conservadas, no só intuito de entreter esse espírito marcial de camaradagem tão alegre, brilhante e salutar. Com o correr dos tempos, nunca se chegou a compreender que tal música fosse inventada para levar tropas ao matadouro.

Livre da servidão militar, a Europa houvera também de forrar-se imediatamente à praga do funcionalismo burocrático, que, por outro lado, ameaçava as nações de esgotamento, dada a sua pletora. Para isso, contudo, foi preciso uma revolução radical. Os parasitas do orçamento tiveram de ser eliminados sem restrições, e desde então a Europa elevou-se rapidamente num surto maravilhoso de progresso social, científico, industrial e artístico.

Todos respiravam livremente, vivia-se enfim. Para pagar 700 bilhões por século, aos cidadãos afastados de todo o trabalho produtivo e para subvencionar os encargos do funcionalismo, os governos se tinham visto na contingência de elevar os impostos a cifras astronômicas. O imposto progressivo, criado no século XX, mal chegara para cobrir o déficit, embora arrecadado por bilhões. De 31 de Dezembro de 1950 a 31 de Dezembro de 1960, a França entrara na posse de todas as linhas férreas e, apesar dos reembolsos, enriquecera subitamente com um capital de 20 bilhões. Mas esse acréscimo de capital já havia sido de antemão descontado do orçamento e os orçamentos, e os impostos, em vez de baixarem, subiram ainda mais nos séculos XX e XXI. Afinal, acabaram tudo tributando: o ar respirável, a água das fontes e as fluviais, a luz artificial e a natural, o pão, o vinho, todos os artigos de consumo, habitações, ruas, cidades, campos, animais de toda a espécie, inclusive aves de gaiola, instrumentos e maquinismos quaisquer, os empregos, os celibatários, os casados, as amas, os móveis, tudo, enfim, que representasse utilidade ou valor. Nesse ritmo, cresceram os impostos, até o dia em que o seu montante igualou a exata produção do trabalho, exceto o indispensável “pão cotidiano”. Nesse dia, todo o trabalho paralisou. A vida afigurava-se impossível. Daí, a grande revolução internacional anarquista, a que aludimos no começo deste livro, e as que se lhe seguiram.

Todos os Estados incidiram sucessivamente em branca-rota.9

Mas, essas revoluções não tinham logrado livrar a Europa, definitivamente, da antiga barbaria. Os prejuízos patrióticos já começavam a endividar o mundo, e foi ainda à liga feminina que a Humanidade deveu a sua libertação.

Viu-se, então, uma coisa incrível, inadmissível, sem precedentes na História: diminuição dos impostos! Aliviado de nove décimos, o orçamento não se aplicou senão na manutenção da ordem interna, na segurança dos cidadãos, nas escolas de todas as categorias, no estímulo de novas investigações, no progresso crescente das artes, indústrias e todas as manifestações de atividade intelectual. Com isso, a iniciativa individual sobrepujara a velha centralização que por tantos séculos havia, dissipando as finanças, atrofiado ou abafado as mais ardentes e fecundas tentativas.

E assim morrera a burocracia com todas as suas honras e prerrogativas. A parvoíce do duelo não sobrevivera de muito a da guerra. Não havia já quem pudesse conceber que dissídios quaisquer se resolvessem racionalmente a tiros ou estocadas, da mesma forma que ninguém admirava a galanteria dos oficiais franceses, de chapéu na mão, na batalha de Fontenoy, convidando os “Srs. Ingleses a dispararem primeiro”. Tudo isso não passava, mesmo aos olhos das crianças, de um grande e estúpido anacronismo.

A despeito de todas as inconseqüências do cepticismo balofo, da incompetência habitual, da nulidade científica e de umas que outras prevaricações de alguns políticos, a forma republicana sobrelevara a todos os outros regimes, salvo no predomínio democrático. Reconheceram, afinal, que não pode haver igualdade intelectual e moral entre os homens, e que melhor fora confiar o governo a um grupo de espíritos de escol, do que entregá-lo a uma turba de ambiciosos, cujo mérito principal consistia na força dos pulmões e na loquacidade inexaurível, sem outro ideal que o de tirarem partido pessoal no jogo constante das paixões populares. Verificara-se, outrossim, que uma Câmara composta de centenas de homens tinha menor capacidade de julgamento que um só homem. Os erros grosseiros, os excessos brutais da demagogia tinham, mais de uma feita, colocado a República em perigo de morte. Mas, dado que a hereditariedade monárquica também não garantia maiormente os deveres de um governo racional, acabaram adotando uma Constituição patrocinada por limitado número de cidadãos, eleitos sob garantias de um sufrágio também selecionado e restrito. Os títulos e galardões não mais se distribuíam ao primeiro pleiteante que os ambicionava, e sim aos estudiosos que, por seus comprovados méritos, a eles fizessem jus.

A uniformidade dos povos, das idéias, dos idiomas fora o complemento da dos pesos e medidas. Nenhuma nação recusara o sistema baseado na mensuração do próprio orbe. A moeda tornou-se uma só, um só meridiano inicial regulou a geografia. Esse meridiano passava pelo Observatório de Greenwich e era no seu antípoda que o dia mudava de nome, às 12 horas. O meridiano de Paris, havia muito, caíra em desuso. A esfera terráquea fora, durante alguns séculos, convencionalmente dividida em fusos de 24 horas; mas as diferenças da verdadeira hora acarretando irregularidades ilógicas e inúteis, as horas locais absolutamente necessárias às observações astronômicas haviam reaparecido como satélites da hora universal; contava-se, então, consecutivamente de 1 a 24, e não mais infantilmente, como outrora, duas vezes 12 horas.

Transformações não menos radicais houvera nas ciências, nas artes, nas indústrias e, sobretudo, na literatura. A classificação dos conhecimentos humanos, do ponto de vista do seu valor intrínseco, mudou com o progresso relativo de cada uma.

A meteorologia, por exemplo, tornou-se uma ciência exata e atingiu a precisão da astronomia.

Chegara-se a prever o tempo para o século XXX, qual prevemos hoje um eclipse, ou a visita de um cometa. Os antigos almanaques foram substituídos por anuários seguros, prenunciando com grande antecipação todos os fenômenos da Natureza. Festividades públicas, diversões particulares, viagens e passeios já se não adiavam por mau tempo e, no mar, tão-pouco, os navios se deixavam colher por tempestades. As florestas haviam desaparecido inteiramente, não só para cultivo do solo, como para atender à fabricação do papel. O juro legal da moeda baixara a 0,5%. Os grandes capitalistas foram relegados ao plano tradicional das idades fósseis. A eletricidade substituíra o vapor. Estradas de ferro, tubos pneumáticos, funcionavam no transporte de cargas. As viagens eram feitas de preferência em balões dirigíveis, aeronaves elétricas, aeroplanos, helicópteros, uns mais, outros menos pesados que o ar. Os antigos vagões sujos, fumarentos, empoeirados, barulhosos e trepidantes, com apitos estridentes das locomotivas, deram lugar aos berços aéreos, leves, rápidos, elegantes, a fenderem silenciosamente as altas e puras camadas atmosféricas.

Pelo só advento da navegação aérea, as fronteiras, que aliás nunca existiram para os sábios em suas relações mútuas, teriam sido suprimidas, se antes o não fossem pelos progressos da razão. As constantes viagens pela superfície do globo redundaram no internacionalismo e na livre e incondicional permuta das idéias. Abolidas as alfândegas, riqueza universal, nem exércitos, nem marinha, nem aduanas, nem tributos quaisquer. Toda a máquina social simplificara-se. A indústria realizou conquistas extraordinárias. Desde o século trigésimo que o mar chegava a Paris mediante um grande canal. Navios elétricos ali aportavam, procedentes do Atlântico e do Pacífico, atravessando o istmo do Panamá. Esses navios cobriam em poucas horas o percurso do cais de Saint-Denis ao porto de Londres. Muita gente os utilizava ainda, apesar dos comboios aéreos regulares, do túnel e da ponte sobre o canal da Mancha.

Para além de Paris reinava a mesma atividade, pois o canal dos Dois-Mares ligando o Mediterrâneo ao Atlântico, de Narbonne a Bordéus, suprimira a grande volta pelo estreito de Gibraltar, e, por outro lado, um tubo metálico, constantemente percorrido por comboios de ar comprimido, ligava a República da Ibéria (antigamente Espanha e Portugal) à Argélia ocidental (antigo Marrocos). Paris e Chicago contavam, então, nove milhões de habitantes. Londres dez e New York doze milhões. Prosseguindo em sua marcha para oeste, Paris estendia-se da confluência do Marne para além de São Germain. A velha cidade apenas se reconheceria por antigos monumentos arruinados, dos séculos XIX e XX. Para fixar apenas alguns aspectos, diremos que a cidade era iluminada por cem luas artificiais, faróis elétricos suspensos de torres altas de 1.000 metros. Chaminés com a sua fumarada haviam desaparecido, pois todo o calor era o do solo, ou produzido por usinas hidrelétricas. A navegação elétrica suprimira todos os veículos primitivos, das épocas ditas bárbaras. Ninguém via lama nem poças d’água pelas ruas, pois que à primeira gota de chuva os toldos de vidro eram logo corridos, e os milhões de guarda-chuvas fósseis ficavam assim substituídos.

Enfim, o que chamamos hoje civilização, não passava de primitivismo, em relação aos progressos realizados.

Todas as grandes cidades haviam progredido em detrimento dos campos. A agricultura era explorada por usinas elétricas; o hidrogênio era extraído das águas do mar; as quedas d’água e as marés produziam luz a grandes distâncias; os raios solares armazenados no estio distribuíam-se no inverno, e as estações haviam mais ou menos desaparecido, sobretudo depois que os poços subterrâneos traziam à superfície do solo a temperatura interior do globo, que parecia inesgotável. Todos os habitantes da Terra podiam intercomunicar-se por telefone. A telefonoscopia dava a conhecer, em toda parte, imediatamente, quaisquer acontecimentos mais importantes e interessantes. Uma peça teatral, representada em Chicago ou em Paris, era ouvida ou vista, simultaneamente, em todas as cidades do mundo. Calcando um botão elétrico, poder-se-ia, à vontade, assistir ao espetáculo preferido. Um simples comutador levava instantaneamente aos confins da Ásia e deixava entrever os bailarinos de uma festividade em Ceilão ou Calcutá. Não só se ouvia como via, à distância: o engenho humano chegara mesmo a transmitir, por influências cerebrais, as sensações tácteis, bem como as olfativas. A imagem refletida podia, em dadas condições especiais, reconstituir integralmente a pessoa ausente.

No quinquagésimo século inventaram-se maravilhosos aparelhos de física e de óptica. Uma nova substância substituiu o vidro e acarretou à Ciência resultados absolutamente imprevistos. Novas energias conquistadas à Natureza.

E o progresso social acompanhara o científico. As máquinas elétricas substituíram gradualmente o trabalho manual. Para os serviços triviais cotidianos, houve que desistir dos domésticos ou criados humanos, visto não se encontrar um só que não explorasse odiosamente o patrão, já exigindo salários principescos, já sistematizando o roubo. Ao demais, em todos os centros populosos haviam desaparecido os mercados públicos, abandonados pelos clientes devido à grosseria dos mercadores. Essa a razão que determinara a supressão insensível de quaisquer intermediários e a recorrer, tão diretamente quanto possível, às fontes da Natureza, com o auxílio de aparelhos automáticos, dirigidos por símios. Sim; nada de serviçais quaisquer, que não macacos adestrados. Ademais, a vassalagem humana haveria mesmo de acabar, como sucedera outrora com a escravidão. Além disso, os regimes de alimentação tinham-se inteiramente transformado. A síntese química conseguira substituir açúcares, albuminas, amidos, gorduras, extraídos do ar, da água e dos vegetais, compostos de combinações mais vantajosas, em proporções sabiamente calculadas, de carbono, hidrogênio, oxigênio, azoto, etc. Os banquetes mais suntuosos realizavam-se, então, não mais em torno de mesas fumegando destroços de animais estrangulados, sangrados ou asfixiados – bois, carneiros, porcos, frangos, peixes, etc. –, mas, em salões elegantes, ornados de arbustos e de flores, num ambiente leve, que a música e os perfumes enchiam de harmonias. Homens e mulheres não mastigavam mais com requintes de brutal glutonaria pedaços de animais imundos, sem mesmo separar o útil do inútil.

De começo, passaram a destilar as carnes; depois, visto que os animais se constituem, também eles, de elementos tirados dos reinos mineral e vegetal, recorreram diretamente a esses elementos.

Era em bebidas esquisitas, frutas, bolos, comprimidos, que se absorviam os princípios necessários à reparação dos tecidos orgânicos, sem necessidade de mastigar carnes. De resto, a eletricidade e o Sol fabricavam perpetuamente a análise e a síntese do ar e da água.

Os médicos haviam desaparecido, por inúteis. Uma higiene racional, adequada aos temperamentos, idade e sexo, substituíra em trinta séculos a velha medicina interesseira e cega.

Cada qual reconhecera que, estudando-se a si mesmo, tornava-se supérfluo e perigoso oferecer o organismo a experiências tateantes da medicina empírica, servida pelos tóxicos farmacêuticos. O que só havia era higienistas dedicados à conservação da saúde normal, e cirurgiões para os casos acidentais.

A partir do sexagésimo século, sobretudo, o sistema nervoso se refinara e desenvolvera sob modalidades imprevistas. O cérebro feminino conservara-se sempre um pouco menor que o masculino e, diga-se, pensando sempre um tanto diferente (sua esquisita sensibilidade sempre timbrada pelo sentimentalismo, antes que o raciocínio completo tenha tempo de se formar nas células mais profundas) e o crânio também diminuíra, com a fronte mais larga, mas, tão elegantemente plantada num pescoço flexível, tão altamente destacada do busto harmonioso, que provocava, como nunca, a admiração do homem. Em ficar comparativamente menor que a do homem, a cabeça da mulher tinha aumentado, todavia, com o exercício das faculdades intelectuais; é que as circunvoluções cerebrais se fizeram mais numerosas e mais profundas, e isto, tanto nos cérebros femininos como nos masculinos. Em suma: a cabeça, em geral, aumentara em volume. Em compensação, o corpo diminuíra, não se encontravam mais gigantes.

Quatro causas permanentes tinham contribuído para modificar insensivelmente a forma humana: 1- desenvolvimento do cérebro e das faculdades intelectuais; 2- diminuição dos trabalhos manuais e dos exercícios corporais; 3- transformação do alimento e 4- seleção nupcial. A primeira tivera por efeito aumentar a cabeça proporcionalmente ao resto do corpo; a segunda, diminuir a força dos braços e das pernas; a terceira, restringir a amplitude do ventre, apequenando, afilando e perolando os dentes; a quarta, ao invés, como que tendera a perpetuar as formas clássicas da beleza humana, na estatura masculina, na nobreza da fronte elevada para o céu, nas curvas firmes e graciosas da mulher.

No centésimo século da nossa era, não houve mais que uma só raça, assaz pequena de porte, branca, e na qual os antropologistas poderiam talvez reencontrar vestígios de anglo-saxônios e chineses.

Nenhuma outra raça veio substituir e dominar a nossa. Quando os poetas haviam anunciado que o homem acabaria, com o progredir maravilhoso de todas as coisas, adquirindo asas e voando com a só energia dos seus músculos, não tinham estudado as origens da estrutura antropomórfica. Não lhes ocorreu que, para ter ao mesmo tempo braços e ossos, o homem deveria pertencer a uma ordem zoológica de sextúpedes, inexistentes em nosso planeta, ao passo que ele proveio do quadrúpede, cujo tipo foi gradualmente transformado. Entretanto, se de fato não adquirira novos órgãos naturais, não deixava de os ter artificiais. Ele sabia, notadamente, guiar-se nos ares, planar nas alturas do firmamento, servindo-se de aparelhos elétricos muito rápidos e simples.

Compartilhava com as aves os domínios da atmosfera. É muito provável que se uma raça de grandes voadores pudesse adquirir, séculos afora, graças à faculdade de observação, um cérebro análogo ao do homem, ainda o mais primitivo, essa raça não tardaria a dominar a espécie humana, substituindo-a por uma nova raça. Mas, como a intensidade do peso terrestre opõe-se a que os seres alados adquiram a qualquer tempo um tal desenvolvimento, a Humanidade – evolvida – ficara sempre soberana deste mundo.

Chegada ao ducentésimo século, a espécie humana deixara de apresentar qualquer semelhança física com os macacos. Do ponto de vista moral, perdera, também, a afinidade com os animais carnívoros. Todas as divisões nacionais das épocas remotas haviam sucessivamente desaparecido, após reações e flutuações formidáveis. A Europa, uma vez pacificada, sofrera a inundação asiática. Enquanto havia bárbaros, as civilizações eram periodicamente agredidas pela brutalidade da força, de vez que, chegados ao bem-estar, à riqueza, à ordem, ao saber, é que os povos deixam de conceber separações nacionais, perdem a noção de pátria e acabam sucumbindo ao embate invasor dos vizinhos ainda barbarizados. Tal fora a sorte do Egito, da Pérsia, da Grécia, de Roma, da França e, finalmente, da Europa toda. Primeiro os eslavos, depois os chineses, haviam dominado. Mas, com a generalização do progresso milenar, as civilizações ressurgiam sempre mais aprimoradas e um tanto mais fortes, de sorte que o barbarismo acabara por desaparecer inteiramente da face da Terra. Com o desaparecimento da força bruta, a Humanidade idealizara e começara a viver pelo espírito.



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