Camille Flammarion Urania



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Camille Flammarion
Urânia
Traduzido do Francês

Uranie

1889



Musa da Astronomia


Conteúdo resumido


Esta obra é um misto de romance e ciência.

Nela Flammarion relata o encontro em sonhos entre um jovem e Urânia, musa da Astronomia e apresenta considerações de espiritualismo. Há narrações de vários contatos espirituais que são comprovados experimentalmente.

Através da alternância entre a realidade científica e a ficção, fala da vida em outros planetas, da extensão e constituição do Universo, da realidade do Espírito e do Plano Espiritual. Na verdade, o livro é um ensaio que reúne fatos, investigações e reflexões trazendo, assim, informações preciosas para a compreensão do grande problema do homem: conhecer o Universo e sua origem. No final do livro, Flammarion deixa seu testamento científico sob a forma de aforismos, resultado de suas investigações.

Sumário


Primeira Parte
A Musa do Céu 5

I
Sonho da adolescência 5

II
Viagem entre os universos e os mundos -
As humanidades desconhecidas 10

III
Variedade infinita dos seres - As metamorfoses 18

IV
O infinito e a eternidade - O tempo,
o espaço e a vida - Os horizontes celestes 23

V
A luz do passado - As revelações da musa 29



Segunda Parte
Jorge Spero 34

I
A vida - A investigação - O estudo 34

II
A aparição - Viagem à Noruega -
O antélio - Um encontro no Céu 41

III
To be or not to be - Que é o ente humano? -


A Natureza - O Universo 48

IV
Amor - Icleia - A atração 58

V
A Aurora Boreal - Ascensão aerostática -
Em pleno Céu - Catástrofe 68

VI
O progresso eterno - Ciência magnética 73



Terceira Parte
Céu e Terra 76

I
Telepatia - O desconhecido de ontem - O “científico” -


As aparições - Fenômenos inexplicados -
As faculdades psíquicas - A alma e o cérebro 76

II
Iter extaticum cœleste 100

III
O planeta Marte - A aparição de Spero -
As comunicações psíquicas - Os habitantes de Marte 109

IV
O ponto fixo do universo - A Natureza é um dinamismo 125

V
Alma vestida de ar 137

VI
Ad veritatem per scientiam -


O testamento científico de Spero 148



Primeira Parte
A Musa do Céu

I
Sonho da adolescência


Eu contava dezessete primaveras de idade. Ela se chamava Urânia.

Urânia era acaso alguma jovem loura de olhos azuis, um sonho de primavera, inocente, mas curiosa filha de Eva? Não, era simplesmente, tal qual outrora, uma das nove musas, a que presidia à Astronomia, e cujo olhar celeste animava e dirigia o coro das esferas; era a idéia angélica que paira por sobre os erros terrestres; não possuía nem a carne perturbadora, nem o coração cujas palpitações se transmitem à distância, nem o tépido calor da vida humana; mas existia, entretanto, em uma espécie de mundo ideal, superior e sempre puro, e todavia era bastante humana, pelo nome e pela forma, para produzir na alma de uma adolescente impressão viva e profunda, para fazer nascer nessa alma um sentimento indefinido, indefinível, de admiração e quase de amor.

O jovem cuja mão não tocou ainda o fruto divino da árvore do Paraíso e cujos lábios se conservaram ignorantes, cujo coração ainda não falou, cujos sentidos despertam em meio do vago de novas aspirações, esse pressente, nas horas de solidão, e mesmo através dos trabalhos intelectuais com que a educação contemporânea lhe sobrecarrega o cérebro, o culto a que deverá bem depressa render sacrifícios, e personifica, de antemão, sob várias formas o ente sedutor que flutua na atmosfera dos seus sonhos. Quer, deseja alcançar esse ente desconhecido, mas não o ousa ainda, e talvez não o ousasse jamais, na candura de sua admiração, se algum avanço caridoso não lhe viesse em auxílio. Se Cloé não é instruída, cumpre que a indiscreta e curiosa Licênia se incumba de instruir Dafnis.

Tudo quanto nos fala da atração ainda desconhecida pode encantar-nos, impressionar-nos, seduzir-nos. Uma fria gravura, mostrando o oval de um puro semblante, uma pintura, mesmo antiga, uma escultura – principalmente uma escultura – desperta um movimento novo nos corações, o sangue se precipita ou detém, a idéia nos atravessa qual relâmpago a fronte enrubescida e permanece flutuante em nosso espírito sonhador. É o começo dos desejos, é o prelúdio da vida, é a aurora de um belo dia de estio anunciando o nascer do Sol.

Pelo que me toca, o meu primeiro amor, a minha adolescente paixão tinha, não por objeto seguramente, mas por causa determinante... uma Pêndula!... É demasiado extravagante, mas é assim. Cálculos muito insípidos ocupavam minhas tardes todas, das duas às quatro horas: tratava-se de corrigir as observações de estrelas ou de planetas feitas na noite antecedente, aplicando-lhes as reduções provenientes da refração atmosférica, a qual depende também da altura do barômetro e da temperatura. Esses cálculos são tão simples quanto fastidiosos; são feitos maquinalmente, com o auxílio de tabelas preparadas e pensando inteiramente em outra coisa.

O ilustre Le Verrier era então Diretor do Observatório de Paris. Nada artista, possuía, entretanto, no seu gabinete de trabalho, uma pêndula de bronze dourado, de muito belo estilo, datando do fim do primeiro Império e devida ao cinzel de Pradier. O soco dessa pêndula representava, em baixo-relevo, o nascimento da Astronomia nas planuras do Egito. Uma esfera celeste maciça, cingida do círculo zodiacal, sustentada por esfinges, dominava o mostrador. Deuses egípcios ornavam os lados. Mas a beleza dessa obra artística consistia, principalmente, em uma sedutora estatueta de Urânia, nobre, elegante, diria quase majestosa.

A musa celeste estava de pé. Com a mão direita media, por meio de um compasso, os graus da esfera estrelada; à esquerda, caindo, empunhava pequena luneta astronômica. Soberbamente planejada, dominava na atitude da majestade e da grandeza. Eu não tinha visto ainda semblante mais belo do que o seu. Iluminado de frente, esse puro semblante se mostrava austero e grave. Se a luz descia oblíqua, tornava-se ele meditativo. Se, porém, a luz vinha do alto e de lado, esse rosto encantado se iluminava de misterioso sorriso, o olhar se lhe tornava quase carinhoso, e essa esquisita serenidade se transformava subitamente em uma expressão de alegria, de amenidade e de ventura, que se tinha prazer em contemplar. Era como que um cântico interior; uma poética melodia. Essas mudanças de expressão faziam verdadeiramente a estátua viver. Musa ou deusa, era bela, sedutora, admirável. Cada vez que me chamavam para junto do eminente matemático, não era a sua glória universal que me impressionava mais. Eu esquecia as fórmulas de logaritmos, e mesmo a imortal descoberta da obra de Pradier. Aquele belo corpo, tão admiravelmente modelado sob a sua antiga vestimenta, o gracioso ligamento do pescoço, aquela figura expressiva, atraíam meus olhares e cativavam meu pensamento. Muitas vezes, quando às quatro horas deixávamos o gabinete para reentrar em Paris, eu espreitava pela porta entreaberta a ausência do diretor. As segundas e quartas-feiras eram os melhores dias: aquelas, por motivo das sessões do Instituto, a que ele quase nunca faltava, ainda que a elas assistisse sempre com ar desdenhoso; as outras, por causa das do Gabinete das longitudes, a que ele fugia com o mais profundo menosprezo, e que o faziam deixar o Observatório expressamente para melhor acentuar o seu desprezo. Então, eu me colocava bem defronte à minha querida Urânia, contemplava-a à minha vontade, extasiava-me com a beleza de suas formas e retirava-me mais satisfeito, porém não mais feliz. Ela me encantava, mas me deixava saudades.

Certa noite, aquela em que lhe descobri as mudanças de fisionomia conforme a luz, tinha achado o gabinete inteiramente aberto, uma lâmpada posta sobre a chaminé e iluminando a musa sob um dos aspectos mais sedutores. A luz oblíqua acariciava docemente a fronte, as faces, os lábios e o colo. A expressão era maravilhosa. Aproximei-me e a contemplei, a princípio imóvel. Acudiu-me depois a idéia de tirar a lâmpada do local onde estava e de projetar a luz sobre as espáduas, sobre o braço, sobre o pescoço, sobre os cabelos. A estátua parecia viver, pensar, despertar e até sorrir. Sensação esquisita, sentimento estranho, eu estava verdadeiramente cativo; de admirador, eu me tornara enamorado. Muito me haveriam surpreendido então se houvessem afirmado que não era esse o verdadeiro amor e que o meu platonismo era um sonho infantil.

O Diretor chegou e não pareceu tão admirado da minha presença quanto eu pudera temê-lo (passava-se algumas vezes por aquele gabinete para ir às salas de observação). No momento, porém, em que eu depunha a lâmpada em cima da chaminé:

– O senhor está demorando para a observação de Júpiter –, disse-me.

E quando eu ia transpondo a porta, acrescentou em tom de profundo desdém, demorando longamente na penúltima sílaba.

– Dar-se-á o caso que seja poeta?

Teria podido replicar-lhe com o exemplo de Képler, de Galileu, de d'Alembert, dos dois Herschel e de outros ilustres sábios, que foram poetas ao mesmo tempo em que astrônomos; teria podido avivar-lhe mesmo a lembrança do primeiro Diretor do Observatório, João Domingos Cassíni, que cantou Urânia em versos latinos, italianos e franceses; mas os alunos do Observatório não tinham o costume de replicar o que quer que fosse ao Senador-Diretor: Os senadores eram então personagens, e o Diretor do Observatório, cargo inamovível. E depois, seguramente, o nosso grande geômetra teria encarado o mais maravilhoso poema de Dante, de Ariosto, ou de Hugo, com o mesmo ar de profundo tédio com que um bonito cão da Terra-Nova olha um copo de vinho que se lhe aproxima ao focinho. Além disso, eu estava incontestavelmente em falta.

Aquela fascinante imagem de Urânia como me perseguia, com todas as suas deliciosas expressões de fisionomia! O seu sorriso era tão gracioso! E depois, seus olhos de bronze tinham às vezes um verdadeiro olhar. Não lhe faltava senão a palavra. Ora, na noite seguinte, apenas adormecido eu revi, diante de mim, a sublime deusa, e desta vez ela me falou.

Oh! estava bem viva. E que linda boca! Eu lhe teria beijado cada palavra... Vem, disse-me, vem ao céu lá em cima, longe da Terra; tu dominarás este baixo mundo; contemplarás o imenso Universo em toda a grandeza. Olha, vê!



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