Camille Flammarion Urania



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IV
O ponto fixo do universo - A Natureza é um dinamismo


A lembrança de Urânia, da viagem celeste em que me havia levado, das verdades que me fizera pressentir; a história de Spero, de suas lutas na indagação do absoluto; a sua aparição, sua narrativa de outro mundo, não cessavam de prender meu pensamento e de colocar continuamente diante do meu espírito os mesmos problemas, em partes resolvidos, em parte velados na incerteza das nossas ciências. Sentia que, gradualmente, me havia elevado na percepção da Verdade, e que, realmente, o Universo visível é uma aparência que cumpre atravessar para chegar à realidade.

Tudo é ilusão, no testemunho dos nossos sentidos. A Terra não é o que nos parece ser: a Natureza não é o que supomos.

No próprio universo físico, onde está o ponto fixo sobre o qual se acha em equilíbrio a criação material?

A impressão direta e regular dada pela observação da Natureza é de que habitamos na superfície de uma Terra sólida, estável, fixa no centro do Universo. Foram necessários longos séculos de estudos e audaciosa temeridade de espírito para chegar a libertar-nos dessa impressão natural e reconhecer que o nosso mundo está isolado no Espaço, sem sustentáculo de espécie alguma, em movimento rápido sobre si mesmo e em torno do Sol. Mas, para os séculos anteriores à análise científica, para os povos primitivos, e ainda modernamente para três quartas partes do gênero humano, temos os pés apoiados em uma Terra sólida, fixada na base do Universo, e cujos alicerces devem estender-se até ao Infinito nas profundezas.

Desde o dia, entretanto, em que se reconheceu que é o mesmo Sol que se deita e se levanta diariamente; a mesma Lua, as mesmas estrelas, as mesmas constelações que giram em torno da Terra, fomos, por isso mesmo, levados a admitir, por incontestável certeza, que há, acima da Terra, o lugar vazio necessário à passagem de todos os astros do firmamento, desde o ocaso até ao seu nascedouro. Esse primeiro reconhecimento era de valor capital. A admissão do isolamento da Terra no Espaço foi a primeira grande conquista da Astronomia. Era o primeiro passo, e o mais difícil, na verdade! Reflitam, pois! Suprimir os alicerces da Terra! Tal idéia jamais teria germinado em um cérebro sem a observação dos astros, sem a transparência da atmosfera. Sob um céu perpetuamente nebuloso, o pensamento humano conservar-se-ia fixo ao solo terrestre tal qual a ostra aderida ao rochedo.

Uma vez isolada a Terra no Espaço, estava dado o primeiro avanço. Antes dessa revolução, cujo alcance filosófico iguala o valor científico, todas as formas tinham sido imaginadas para a nossa morada sublunar. Primeiramente, tinha-se considerado a Terra igual a uma ilha emergindo acima de um oceano sem limites, tendo essa ilha infinitas raízes. Depois, atribuíra-se à Terra inteira, com seus mares, a forma de um disco chato, circular, em roda do qual vinha apoiar-se a cúpula do firmamento. Mais tarde, imaginaram-lhe formas cúbicas, cilíndricas, poliédricas, etc. Enquanto isso, os progressos da navegação tendiam a revelar a sua natureza esférica, e quando o isolamento foi reconhecido com incontestáveis testemunhos, sua esfericidade foi admitida por um corolário natural desse isolamento e do movimento circular das esferas celestes em torno do globo suposto central. Reconhecido desde então isolado no vácuo, já não era difícil fazer mover o globo terrestre. Outrora, quando o céu era considerado uma cúpula coroando a Terra maciça e indefinida, só a idéia de supô-la em movimento teria sido tão absurda quanto insustentável. Desde o dia, porém, em que a vemos, em espírito, colocada igual a um globo no centro dos movimentos celestes, a idéia de imaginar que, talvez, esse globo poderia girar sobre si mesmo para evitar ao céu inteiro, ao Universo imenso, a obrigação de executar essa operação cotidiana, pode acudir naturalmente à cogitação do pensador. E, com efeito, vemos a hipótese da rotação diurna do globo terrestre surgir nas antigas civilizações, nos Gregos, nos Egípcios, nos Indianos, etc. Basta ler alguns capítulos de Ptolomeu, de Plutarco, do Suria-Sidhanta, para se ter idéia dessas tentativas. Mas, nova hipótese, embora preparada pela primeira, não era menos audaciosa e contrária ao sentimento nascido da contemplação direta da Natureza. A Humanidade pensante teve que esperar até ao décimo-sexto século da nossa era, ou, para melhor dizer, até ao décimo-sétimo século, para conhecer a verdadeira posição do nosso planeta no Universo e saber, com testemunhos em seu apoio, que ela se move com duplo movimento, cotidianamente sobre si mesma, anualmente em torno do Sol. A datar somente dessa época, a datar de Copérnico, Galileu, Kepler e Newton, a verdadeira Astronomia foi fundada.

Não passava isso, entretanto, de um começo, pois o grande renovador da idéia do sistema do mundo, o próprio Copérnico, não suspeitava dos outros movimentos da Terra, nem das distâncias das estrelas. Foi somente em nosso século que as primeiras distâncias das estrelas puderam ser medidas, e é somente em nossos dias que as descobertas siderais nos têm oferecido elemento necessário para permitir a tentativa de idéia exata das forças que mantêm o equilíbrio da Criação.

A antiga concepção, das raízes sem fim atribuídas à Terra, deixava evidentemente muito a desejar aos espíritos ansiosos de ir ao fundo das coisas. Não nos é absolutamente possível conceber um pilar material, tão espesso e tão largo quanto queiram (do diâmetro da Terra, por exemplo), enterrando-se até ao Infinito, de igual maneira que não se pode admitir a existência real de um poste que tivesse só uma extremidade. Tão longe quanto o nosso espírito desce para a base desse pilar material, chega a um ponto onde lhe vê o fim. Tinha-se disfarçado a dificuldade materializando a esfera celeste, e pondo-lhe a Terra dentro, ocupando toda a sua região inferior. Mas, de uma parte, tornavam-se difíceis de justificar os movimentos dos astros, e, por outro, esse mesmo universo material, encerrado em imenso globo de cristal, não era sustentado por coisa alguma, pois que o Infinito devia estender-se em redor dele, tanto por baixo quanto por cima. Os Espíritos investigadores tiveram então que se libertar da idéia vulgar do peso.

Isolada no Espaço, igual a um balão de criança flutuando no ar, e mais absolutamente ainda, pois que o balão é levado pelas vagas aéreas, enquanto que os mundos gravitam no vácuo, a Terra é um brinquedo para as forças cósmicas invisíveis a que ela obedece, verdadeira bolha de sabão sensível ao menor sopro. Podemos, aliás, julgar facilmente disso, encarando sob o mesmo lance de olhos os onze movimentos principais de que ela é animada. Ajudar-nos-ão talvez a achar esse ponto fixo que a nossa ambição filosófica reclama.

Lançada em torno do Sol, à distância de 37 milhões de léguas, e percorrendo, nessa distância, a sua revolução anual em torno do astro luminoso, corre conseguintemente com a velocidade de 643.000 léguas por dia, ou 26.800 léguas por hora, ou 29.450 metros por segundo. Essa velocidade é mil e cem vezes mais rápida do que a de um trem-relâmpago lançado na razão de 100 quilômetros por hora.

É uma bala de artilharia, correndo com rapidez setenta e cinco vezes superior à de um obus, avançando incessantemente e sem jamais atingir o fim. Em 365 dias, 6 horas, 9 minutos e 10 segundos, o projétil terrestre volta ao mesmo ponto de sua órbita relativamente ao Sol, e continua a correr. O Sol, por seu lado, se desloca no Espaço, seguindo uma linha oblíqua ao plano do movimento anual da Terra, linha dirigida para a constelação de Hércules. Daí resulta que, ao invés de percorrer uma curva fechada, a Terra descreve uma espiral, e jamais passou duas vezes pelo mesmo caminho desde que existe. Ao seu movimento de revolução anual em torno do Sol, se junta, pois, perpetuamente, qual um segundo movimento, o do próprio Sol, que a arrasta, com todo o sistema, em uma queda oblíqua para a constelação de Hércules.

Durante esse tempo, o nosso globo gira sobre si mesmo em vinte e quatro horas, e nos dá a sucessão cotidiana dos dias e das noites. Rotação diurna: terceiro movimento.

Não gira ele sobre si mesmo à maneira de um pião em vertical em cima de uma tábua, mas inclinado, como se sabe, 23° 27'. Essa inclinação não é também estável: varia de ano em ano, de século em século, oscilando lentamente, por períodos seculares: eis um quarto gênero de movimento.

A órbita que o nosso planeta percorre anualmente em torno do Sol não é circular, mas elíptica. Essa elipse também varia de ano em ano, de século em século; ora se aproxima da circunferência de um círculo, ora se alonga até uma grande excentricidade. É par de um aro elástico que se deformasse mais ou menos. Quinta complicação no movimento da Terra.

Essa própria elipse não é fixa no Espaço, mas gira em seu próprio plano, em um período de 210 séculos. O periélio, que, no começo da nossa era, estava a 65 graus de longitude, a partir do equinócio de primavera, passou agora a 101 graus. Essa deslocação secular da linha das apsides produz uma sexta complicação nos movimentos da nossa morada.

Eis uma sétima. Dissemos que o eixo de rotação do nosso globo é inclinado, e todos sabem que o prolongamento ideal desse eixo vai direito à estrela polar. Esse eixo mesmo não é fixo: gira em 257 séculos e meio, conservando a sua inclinação de 22 a 24 graus; de sorte que o seu prolongamento descreve na esfera celeste, em torno do pólo da elíptica, um círculo de 44 a 48 graus de diâmetro, conforme as épocas. É em conseqüência desse deslocamento do pólo que Vega se tornará estrela polar, daqui a mil e duzentos séculos, qual já o foi há mil. Sétimo gênero de movimento.

Um oitavo movimento, devido à influência da Lua sobre a inflação equatorial da Terra, o da nutação, faz descrever ao pólo do equador uma pequena elipse em 224 meses.

Um nono, devido igualmente à atração do nosso satélite, muda incessantemente a posição do centro de gravidade do globo e o lugar da Terra no Espaço. Quando a Lua nos está adiante, acelera a marcha do globo; quando se acha atrás, nos retarda, ao contrário, qual um freio: complicação mensal que vem juntar-se às precedentes. Quando a Terra passa entre o Sol e Júpiter, a atração deste, apesar da distância de 155 milhões de léguas, faz a Terra desviar-se 2'10'' para além da sua órbita absoluta. A atração de Vênus a desvia 1'25'' aquém. Saturno e Marte atuam igualmente, porém de modo mais fraco. São perturbações exteriores essas constitutivas de um décimo gênero de correções a acrescentar aos movimentos do nosso esquife celeste.

Pesando o conjunto dos planetas quase a sétima-centésima parte do peso do Sol, o centro de gravidade em torno do qual a Terra circula anualmente nunca está precisamente no centro do Sol, mas distante desse centro, e muitas vezes mesmo fora do globo solar. Ora, falando de modo absoluto, a Terra não gira em torno do Sol, mas os dois astros, Sol e Terra, giram em torno do seu centro comum de gravidade. O centro do movimento anual do nosso planeta muda, pois, de lugar, constantemente, e podemos juntar às anteriores esta undécima complicação.

Ser-nos-ia facultado mesmo acrescentar muitas outras ainda; basta, porém, o que precede para fazer apreciar o grau de leveza, de sutilidade, da nossa ilha flutuante, submetida, como se vê, a todas as ondulações das influências celestes. A análise matemática penetra muito além desta exposição sumária: só na Lua, que parece girar tão serenamente em torno da Terra, descobriu-se mais de sessenta causas distintas de movimentos diferentes!

Não é, pois, exagerada a expressão: nosso planeta é apenas um brinquedo para as forças cósmicas que o conduzem nos páramos do céu, e o mesmo acontece a todos mundos e a tudo quanto existe no Universo. A Matéria obedece docemente à Força. Onde está, pois, o ponto fixo em que ambicionamos apoiar-nos?

De fato, o nosso planeta., considerado outrora na base do mundo, é sustentado a distância pelo Sol, que o faz gravitar em torno de si mesmo, com uma velocidade correspondente a essa distância. Tal velocidade, causada pela própria massa solar, mantém o nosso planeta na mesma distância média do astro central; menor velocidade faria predominar o peso e traria a queda da Terra no Sol; velocidade maior, ao contrário, afastá-la-ia progressiva e infinitamente do foco que a faz viver. Mas, pela velocidade resultante da gravitação, a nossa moradia errante se mantém sustentada em estabilidade permanente. De idêntico modo é a Lua equilibrada no Espaço pela força de gravidade da Terra, que a faz circular em torno dela com a necessária velocidade para mantê-la constantemente à mesma distância média. A Terra e a Lua formam, assim, no Espaço, um par planetário que se mantém em perpétuo equilíbrio sob o domínio supremo da atração solar. Se somente a Terra existisse no mundo, permaneceria ela eternamente imóvel no ponto do vácuo infindo onde houvesse sido colocada, sem jamais descer, nem subir, nem mudar de posição por qualquer modo que fosse (sem nenhum sentido absoluto essas expressões – descer, subir, esquerda ou direita). Se essa mesma Terra, existindo sozinha, recebesse um impulso qualquer e fosse lançada com alguma velocidade em uma direção, não importa qual, rolaria eternamente em linha reta nessa direção, sem jamais poder parar, nem demorar a marcha, nem mudar de movimento. O mesmo aconteceria se a Lua existisse somente com ela; girariam ambas em torno do seu centro comum de gravidade, cumprindo o seu destino, no mesmo sítio do Espaço, fugindo juntas na direção para a qual tivessem sido projetadas. Existindo o Sol, e sendo ele o centro do sistema, a Terra, todos os planetas e respectivos satélites dependem dele, e têm o destino irrevogavelmente ligado ao seu.

O ponto fixo que buscamos, a base sólida que parecemos desejar para assegurar a estabilidade do Universo será, pois, no colossal e pesado globo solar que a encontraremos?

Certamente não, pois o próprio Sol não está em repouso, de vez que ele nos arrebata com todo o sistema para a constelação de Hércules.

Gravitará o nosso Sol em torno de outro Sol imenso cuja atração se estenda até ele e lhe governe os destinos, tal qual rege ele o dos planetas? As investigações da Astronomia sideral autorizam a pensar que, numa direção situada em ângulo reto da nossa marcha para Hércules, exista astro de tal poder? Não. O nosso Sol sofre as atrações siderais; nenhuma, porém, parece dominar todas as outras e reinar soberana sobre o nosso astro central. Embora seja francamente admissível, ou, para melhor dizer, certo, que o sol, o mais próximo do nosso, a estrela Alfa do Centauro, e o nosso próprio Sol sintam a mútua atração, ainda assim não se poderiam considerar esses dois astros formando um par análogo aos das estrelas duplas. Primeiramente, porque todos os sistemas de estrelas duplas conhecidos são compostos de estrelas muito mais próximas uma da outra; depois porque, na imensidade da órbita descrita segundo essa hipótese, as atrações das estrelas vizinhas não poderiam ser consideradas permanecendo sem influência; e finalmente porque as velocidades, reais, com que se movem esses dois sóis são muito acima das que resultariam da mútua atração.

Mas, aqui intervém um outro fator mais importante do que todos os precedentes: a Via-Láctea, com os seus dezoitos milhões de sóis, da qual seria seguramente audacioso procurar o centro de gravidade.

Mas que é a Via-láctea, toda inteira, perante os milhares de estrelas que o nosso pensamento contempla no seio do universo sideral? Não se desloca também essa Via-láctea qual arquipélago de ilhas flutuantes? Cada nebulosa resolúvel, cada montão de estrelas não é porventura uma Via-láctea em movimento, sob a ação da gravitação dos outros universos que a chamam e solicitam através da noite infinita?

De estrelas em estrelas, de sistemas em sistemas, de plagas em plagas, o nosso pensamento se acha transportado à presença das grandezas insondáveis, dos movimentos celestes, cuja velocidade se começou a avaliar, mas que excedem já toda a concepção. O movimento próprio anual do sol Alfa do Centauro excede 1488 milhões de léguas por ano. O movimento próprio da 61ª do Cisne (segundo sol na ordem das distâncias) equivale a 370 milhões de léguas por ano ou cerca de 1 milhão de léguas por dia. A estrela Alfa do Cisne chega a nosso rumo em linha reta com uma velocidade de 500 milhões de léguas por ano. O movimento próprio da estrela 1830 do Catálogo de Groombridge eleva-se a 2590 milhões de léguas por ano, o que representa 7 milhões de léguas por dia, 115.000 quilômetros por hora ou 320.000 metros por segundo.... São estimativas mínimas essas, atento a que não vemos certamente de frente, mas obliquamente, os deslocamentos estelares assim medidos.

Que projéteis! São sóis, milhares e milhares de vezes mais pesados do que a Terra, lançados através dos vácuos insondáveis com velocidades ultravertiginosas, circulando na imensidade sob a influência da gravitação de todos os astros do Universo. E esses milhões, esses bilhões de sóis, de planetas, de montões de estrelas, de nebulosas, de mundos que começam, de mundos que acabam, precipitam-se com velocidades análogas para fins que eles ignoram, com uma energia, uma intensidade de ação perante as quais a pólvora e a dinamite são sopros de crianças de berço.

E assim todos eles correm, para a eternidade talvez, sem jamais poderem aproximar-se dos limites inexistentes do Infinito... Em toda parte o movimento, a atividade, a luz e a vida. Felizmente, sem dúvida. Se todos esses inumeráveis sóis, planetas, terras, luas e cometas estivessem fixos, imóveis, reis petrificados em seus eternos túmulos, quanto mais formidável ainda, porém mais lamentável, seria o aspecto de tal Universo! Imagine-se a Criação inteira parada, coagulada, mumificada! Semelhante idéia não é porventura insustentável, e não possui algo de fúnebre?

E quem causa esses movimentos? quem os entretém? quem os rege? A gravitação universal, a força invisível, à qual o universo visível (a que chamamos Matéria) obedece. Um corpo atraído do Infinito pela Terra atingiria uma velocidade de 11.300 metros por segundo; do mesmo modo, um corpo lançado da Terra com essa velocidade jamais cairia. Um corpo atraído do Infinito pelo Sol chegaria à velocidade de 608.000 metros; um corpo projetado do Sol com essa velocidade jamais tornaria ao seu ponto de partida. Aglomerados de estrelas podem determinar velocidades muito mais consideráveis ainda, as quais se explicam pela teoria da gravitação. Basta lançar os olhos para uma carta dos movimentos próprios das estrelas para se ter idéia da variedade desses movimentos e de sua grandeza.

A gravitação não explica a origem do movimento. Se fosse ela a única existente, de toda a eternidade, o Universo formaria um bloco. O movimento tem por origem uma causa primeira. Assim, as estrelas, os sóis, os planetas, os mundos, os cometas, as estrelas cadentes, os uranólitos, em uma palavra, todos os corpos constitutivos desse vasto Universo repousam, não em bases sólidas, como parecia exigi-lo a concepção primitiva e infantil de nossos pais, mas nas forças invisíveis e imateriais que lhes regem os movimentos. Esses milhares de corpos celestes têm seus respectivos movimentos por causa da estabilidade, e se apóiam mutuamente uns nos outros, através do vácuo que os separa. O Espírito que pudesse fazer abstração do Tempo e do Espaço veria a Terra, os planetas, o Sol, as estrelas chovendo de um céu sem limites, em todas as direções imagináveis, quais gotas levadas pelos turbilhões de gigantesca tempestade, e atraídas, não por uma base, mas pela atração de cada uma e de todas; cada uma dessas gotas cósmicas, cada um desses mundos, cada um desses sóis é levado por uma velocidade tão rápida, que o vôo das balas de artilharia é apenas um repouso comparado; não são cem, nem quinhentos, nem mil metros por segundo, são dez mil, vinte mil, cinqüenta mil, cem mil, e mesmo duzentos ou trezentos mil metros por segundo!

Como não se dão encontros no meio de semelhantes movimentos? Talvez se produzam: as estrelas temporárias, que se nos afiguram renascer de suas cinzas, pareceriam tal indicar. Mas, de fato, só dificilmente poderiam dar-se encontros, porque o Espaço é imenso relativamente às dimensões dos corpos celestes, e porque o movimento de que cada um é animado, o que o impede precisamente de sofrer em passividade a atração de outro corpo e de cair sobre ele: conserva o seu movimento próprio, que não pode ser destruído, e resvala em torno do foco que o atrai, qual a mariposa obedeceria à atração da chama sem nela se queimar. Além disso, falando de modo absoluto, esses movimentos não são rápidos.

Com efeito, tudo corre, voa, cai, rola, precipita-se através do vácuo, mas em tais distâncias respectivas que tudo parece em repouso! Se quisesse colocar em um quadro da dimensão de Paris os astros cuja distância tem sido medida até hoje, a estrela mais próxima ficaria colocada a 2 quilômetros do Sol, do qual a Terra ficaria afastada a 1 centímetro, Júpiter a 5 centímetros e Netuno a 30. A 61ª do Cisne ficaria a 4 quilômetros, Sirius a 10, a estrela polar a 27 quilômetros, etc., e a imensa maioria das estrelas ficaria além do departamento do Sena. Pois bem, animando todos esses projéteis com seus movimentos relativos, a Terra deveria empregar um ano em percorrer a sua órbita de um centímetro de raio, Júpiter doze em percorrer a sua de cinco centímetros e Netuno cento e sessenta e cinco. Os movimentos próprios do Sol e das estrelas seriam da mesma ordem. Equivale a dizer que tudo pareceria em repouso, mesmo ao microscópio. Urânia reina calma e serena na imensidade do Universo.

Ora, a constituição do universo sideral é a imagem da dos corpos a que nós chamamos materiais. Todo corpo, orgânico ou inorgânico, homem, animal, planta, pedra, ferro, bronze, é composto de moléculas em movimento perpétuo, que não se tocam. Essas moléculas, a seu turno, são compostas de átomos, que não se tocam também. Cada um desses átomos é infinitamente pequeno e invisível, não só aos olhos, não só ao microscópio, mas mesmo ao pensamento. Tem-se calculado que em uma cabeça de alfinete há no mínimo 8 sextilhões de átomos, ou oito mil bilhões de bilhões, e que em um centímetro cúbico de ar não há menos de um sextilhão de moléculas. Todos esses átomos, todas essas moléculas, estão em movimento sob a influência das forças que o regem e, relativamente a suas dimensões, grandes distâncias os separam. Podemos mesmo pensar que não há, em princípio, senão um gênero de átomos, e que é o número de átomos primitivos, essencialmente simples e homogêneos, nos modos de acomodação e movimentos, o que constitui a diversidade das moléculas: a molécula de ouro e a de ferro não difeririam da molécula de enxofre, de oxigênio, de hidrogênio, etc., senão pelo número, pela disposição e pelo movimento dos átomos primitivos que as compõem; cada molécula seria um sistema, um microcosmo.

Mas, qualquer que seja a idéia que se faça da constituição íntima dos corpos, a verdade, hodiernamente reconhecida, e de ora em diante incontestável, é que o ponto fixo procurado pela nossa imaginação não existe em parte alguma. Pode Arquimedes pedir em vão um ponto de apoio para levantar o mundo. Os mundos, e assim os átomos, repousam no invisível, na força imaterial; tudo se move excitado pela atração e parecendo à procura desse ponto fixo, que se esquiva à medida que o buscamos, e que não existe, pois que no Infinito o centro está em toda parte e em parte nenhuma. Os pretensos espíritos positivos, que com segurança afirmam que unicamente a Matéria reina com suas propriedades, e que sorriem desdenhosamente das investigações dos pensadores, deveriam primeiramente dizer o que entendem por esse famoso vocábulo Matéria. Se eles não se detivessem na superfície das coisas, se suspeitassem que as aparências ocultam realidades intangíveis, seriam sem dúvida um pouco mais modestos.

Quanto a nós, que procuramos a Verdade, sem idéias preconcebidas e sem espírito de sistema, parece-nos que a essência da matéria se conserva tão misteriosa quanto a essência da força, não sendo o universo visível absolutamente o que aos nossos olhos parece ser. De fato, esse universo visível é composto de átomos invisíveis; repousa no vácuo, e as forças que o regem são em si mesmas imateriais e invisíveis. Pensar que a matéria não existe, que tudo é dinâmico, seria menos audacioso de que pretender afirmar a existência de um universo exclusivamente material. Quanto ao sustentáculo material do mundo, desapareceu – nota bastante curiosa – precisamente com as conquistas da Mecânica, que proclama a vitória do invisível. O ponto fixo se esvaece na universal ponderação dos poderes, na ideal harmonia das vibrações do éter; quanto mais o buscamos, menos o encontramos; e o último esforço do nosso pensamento tem por último apoio, por suprema realidade, o Infinito.



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