Camille Flammarion Urania



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VI
Ad veritatem per scientiam -
O testamento científico de Spero


Estava eu trabalhando, na minha biblioteca, em um estudo sobre as condições da vida na superfície dos mundos governados e iluminados por vários sóis, de grandezas e cores diferentes, quando, erguendo os olhos para a chaminé, me impressionou a expressão, diria quase a animação, do semblante da minha querida Urânia. Era a mesma graciosa e vivaz expressão que outrora – oh! quanto a Terra gira veloz e quão pouco representa um quarto de século! –, nos dias da adolescência, tão rapidamente voados, me conduzira o pensamento e inflamara o coração. Não pude esquivar-me de contemplá-la ainda e de repousar os olhos nela. Realmente, se conservava sempre bela e as minhas impressões não haviam mudado. Atraía-me qual a luz atrai o inseto. Levantei-me da mesa para aproximar-me e tornar a ver o singular efeito da luz do dia na sua móvel fisionomia, e me surpreendi de pé, em frente dela, esquecido do labor.

O seu olhar parecia vagar ao longe, mas, no entanto, se animava e se tornava fito. Sobre quê? em quê? Tive a íntima impressão de que ela via realmente e, seguindo a direção desse olhar fito, imóvel, solene, embora não severo, meus olhos encontraram o retrato de Spero, suspenso ali, entre duas estantes.

Na verdade, Urânia mirava-o fixamente!

De súbito, o retrato destacou-se da parede e caiu, quebrando-se a moldura.

Precipitei-me. O retrato jazia no tapete e o meigo semblante de Spero estava voltado para mim. Levantando-o, encontrei um grande papel encardido, que ocupava a extensão toda do quadro, e estava escrito, de ambos os lados, pela letra de Spero. Como não tinha eu jamais reparado nesse papel? Verdade é que poderia ter ficado escondido sob a guarnição da moldura, dissimulado por baixo do papelão protetor. Com efeito, quando eu trouxe de Cristiânia essa aquarela, não me ocorreu examinar-lhe o arranjo. Mas quem teria tido a estranha idéia de colocar assim essa folha de papel? Não foi sem viva estupefação que reconheci a letra do meu amigo e percorri aquelas duas páginas. Segundo toda a aparência, tinham elas sido escritas no último dia da vida terrestre do jovem pensador, no dia da sua ascensão para a aurora boreal, e sem dúvida o pai de Icleia havia querido conservar em maior segurança esses derradeiros e supremos pensamentos, emoldurando-os com o retrato de Spero. Esquecera-se de falar-me nisso, depois, quando me ofereceu em lembrança aquela querida imagem, por ocasião da minha romaria ao túmulo dos dois namorados.

Como quer que seja, colocando com todo o cuidado a aquarela em cima da minha mesa, experimentei a mais viva emoção ao reconhecer cada pormenor daquele amado semblante: eram incontestavelmente aqueles olhos tão meigos e tão profundos, sempre enigmáticos, aquela fronte vasta, tão serena na aparência, aquela boca delicada e de uma sensualidade reservada, aquela coloração clara do semblante, do pescoço e das mãos; os seus olhares me seguiam, de qualquer lado que estivesse voltado o retrato, e se dirigiam também para Urânia, e assim, ao mesmo tempo, se volviam em todas as direções. Estranha idéia do artista! Não pude deixar então de pensar nos olhos da deusa, que me haviam parecido afagar dolorosamente a imagem do seu jovem adorador. De igual modo que o crepúsculo vem sombrear um dia sereno, assim divina tristeza se lhe estendia sobre o nobre semblante.

Pensei, porém, no misterioso papel. Estava escrito com uma letra clara, precisa, sem a menor rasura. Transcrevo-o aqui, tal qual o achei, e sem lhe modificar uma única palavra, uma única vírgula, pois ele me parece ser a conclusão naturalíssima das narrativas que são assunto desta obra.

Ei-lo, textualmente. Este é o testamento científico de um Espírito que, mesmo na Terra, empregou todos os esforços para se conservar desprendido do peso da matéria e que espera ter-se libertado dele.

Quisera deixar, sob a forma de aforismos, o resultado das minhas investigações. Parece-me que não se pode chegar à Verdade senão pelo estudo da Natureza, isto é, pela Ciência. Eis as induções que se me afiguram baseadas nesse método de observação:
1 - O universo visível, tangível, ponderável e em movimento incessante, é composto de átomos invisíveis, intangíveis, imponderáveis e inertes.

2 - Para construir os corpos e organizar os seres, esses átomos são regidos por forças.

3 - A Força é a entidade essencial.

4 - A visibilidade, a tangibilidade, a solidez, a duração, o peso, são propriedades relativas, e não realidades absolutas.

5 - Os átomos que compõem os corpos são, para a sensação humana, infinitamente pequenos.

As experiências feitas sobre a laminagem das folhas de ouro mostram que dez mil folhas dessas se contêm na espessura de um milímetro. – Chegou-se a dividir um milímetro, sobre uma lâmina de vidro, em mil partes iguais, e existem infusórios tão pequenos que o seu corpo inteiro, colocado entre duas dessas divisões, não as toca; os membros e os órgãos desses seres são compostos de células, estas de moléculas, estas de átomos. – Vinte centímetros cúbicos de óleo estendido sobre um lago chegam a cobrir 4.000 metros quadrados, de sorte que a camada de óleo assim espalhada mede um duocentésimo milésimo de milímetro de espessura. – A análise espectral da luz revela a presença de um milionésimo de miligrama de sódio em uma chama. As ondas da luz se acham compreendidas entre 4 e 8 décimos-milionésimos de milímetro, do verde ao vermelho. São necessárias 2.300 ondas de luz para encher um milímetro. Na duração de um segundo, o éter, que transmite a luz, executa setecentos mil bilhões de oscilações, cada uma das quais é matematicamente definida. O olfato percebe 1 / 64.000.000 de miligramas de mercaptan no ar respirado. – A dimensão dos átomos deve ser inferior a um milionésimo de milímetro de diâmetro.



6 - O átomo, intangível, invisível, dificilmente concebível para o nosso espírito afeito aos julgamentos superficiais, constitui a única matéria verdadeira, e o que chamamos matéria é apenas um efeito produzido em nossos sentidos pelos movimentos dos átomos, isto é, uma possibilidade incessante de sensações.

Daí resulta que a matéria, e assim as manifestações da energia, é somente um modo de movimento. Se o movimento parasse, se a força pudesse ser anulada, se a temperatura dos corpos fosse reduzida ao zero absoluto, a matéria – tal qual a conhecemos – cessaria de existir.



7 - O universo visível é composto de corpos invisíveis. Quanto se vê, é feito de coisas que não se vêem.

Há uma única espécie de átomos primitivos; as moléculas constitutivas dos diferentes corpos, ferro, ouro, oxigênio, hidrogênio, etc., não diferem senão pelo número, pelo agrupamento e pelos movimentos dos átomos que as compõem.



8 - O que chamamos matéria se esvai quando a análise científica acredita atingir. Achamos, porém, por sustentáculo do Universo e princípio de todas as formas, a Força, o elemento dinâmico. Com a minha vontade posso perturbar a Lua em seu curso.

Os movimentos de todo átomo, na Terra, são a resultante matemática de todas as ondulações etéreas que lhe chegam, com o tempo, dos abismos do Espaço infinito.



9 - O ente humano tem por princípio essencial a alma. O corpo é aparente e transitório.

10 - Os átomos são indestrutíveis.

A energia que move os átomos e rege o Universo é indestrutível.

A alma humana é indestrutível.

11 - A individualidade da alma é recente na história da Terra. – O nosso planeta foi nebulosa, depois sol, depois caos: não existia então nenhum ser terrestre. A vida começou pelos mais rudimentares organismos; progrediu de século em século para atingir o estado atual, que não é o último. A inteligência, a razão, a consciência, o que chamamos faculdades da alma, são modernas. O Espírito se desembaraçou gradualmente da matéria, de igual modo – se a comparação não fosse grosseira – que o gás se desprende da hulha, o perfume da flor, a labareda do fogo.

12 - A força psíquica começa a afirmar-se desde há trinta ou quarenta séculos nas esferas superiores da Humanidade terrestre; a ação dela está apenas na aurora.

As almas, conscientes da sua individualidade, ou ainda inconscientes, estão, por sua própria natureza, fora das condições de Espaço e de Tempo. Após a morte dos corpos, e assim também durante a vida, elas nenhum lugar ocupam. Algumas vão talvez habitar outros mundos.

Não têm consciência de sua vida extracorporal e da sua imortalidade senão aquelas que se desprenderam dos laços materiais.

13 - A Terra é uma província da pátria eterna; faz parte do Céu; o Céu é infinito; todos os mundos fazem parte do Céu.

Nosso planeta é navio etéreo que transporta através do Infinito uma população de almas, na velocidade de 643.000 léguas por dia em torno de uma estrela e, aproximadamente, 185 milhões de léguas rumo à constelação de Hércules.



14 - Os sistemas planetários e siderais que constituem o Universo estão em diversos graus de organização e adiantamento. É infinita a extensão da sua diversidade; os seres guardam, em toda parte, relação com os mundos.

15 - Os mundos atualmente não são todos habitados. A época presente não tem importância maior do que as precedentes e nem sobre as que lhe hão de seguir.

Tais mundos foram habitados no passado, milhares de séculos; tais outros sê-lo-ão no futuro, em milhares de séculos. Um dia, nada restará da Terra, e as suas próprias ruínas estarão destruídas. Mas o Nada jamais substituirá o Universo. Se as coisas e os seres não renascessem das suas cinzas, não existiria uma única estrela no Céu, pois, desde a eternidade pretérita, todos os sóis estariam extintos, datando toda a Criação da eternidade. A duração total da Humanidade representa um momento no Tempo eterno.



16 - A vida terrestre não é o tipo das outras vidas. Ilimitada diversidade reina no Universo. Há mansões onde o peso é intenso, onde a luz é desconhecida, onde o tato, o olfato e o ouvido são os únicos sentidos; onde, não se tendo formado o nervo óptico, todos os entes são cegos. Outras há onde o peso é apenas sensível; onde os entes são tão leves e tão tênues que seriam invisíveis para olhos terrestres; onde sentidos de extrema delicadeza revelam a Espíritos privilegiados sensações vedadas à Humanidade terrestre.

17 - O espaço que existe entre os mundos espalhados no imenso Universo não os isola uns dos outros. Estão todos em perpétua comunicação uns com os outros pela atração, que se exerce instantaneamente através de todas as distâncias e estabelece indissolúvel laço entre todos os mundos.

18 - O Universo forma uma unidade única.

19 - O sistema do mundo físico é a base material, o ambiente do sistema do mundo moral ou espiritual. A Astronomia deve, pois, ser a base de toda a crença filosófica e religiosa.

Todo ser pensante traz em si o sentimento, mas a incerteza da imortalidade. É porque somos as rodas microscópicas de um mecanismo desconhecido.



20 - O próprio homem é quem faz o seu destino. Levanta-se ou cai segundo as suas obras. As criaturas presas aos interesses materiais, os avarentos, os ambiciosos, os hipócritas, os mentirosos, os filhos de Tartufo, moram, com os perversos, nas zonas inferiores.

Mas, uma lei, primordial e absoluta, rege a Criação: a lei do Progresso. Tudo se eleva no Infinito. As faltas são quedas.



21 - Na ascensão das almas, as qualidades morais não têm menos valor do que as qualidades intelectuais. A bondade, o devotamento, a abnegação e o sacrifício apuram a alma e a elevam, e assim também o estudo e a ciência.

22 - A Criação universal é uma imensa harmonia na qual a Terra é um insignificante fragmento, bastante pesado e incompreensível.

23 - A Natureza é um perpétuo futuro. O Progresso é a lei. A progressão é eterna.

24 - A eternidade de uma alma não seria suficiente para visitar o Infinito e tudo conhecer.

25 - O destino da alma é desprender-se, cada vez mais, do mundo material e pertencer definitivamente à vida urânica superior, donde domina a matéria e não sofre mais. O fim supremo dos seres é a aproximação perpétua da perfeição absoluta e da felicidade divina.

* * *

Tal era o testamento científico e filosófico de Spero. Não parece ter sido ditado pela própria Urânia ?

As nove musas da antiga Mitologia eram irmãs. As modernas concepções científicas tendem por seu turno para a unidade. A Astronomia, ou o conhecimento do mundo, e a Psicologia, ou o conhecimento da criatura, unem-se hoje para estabelecer a base única sobre a qual possa ser edificada a filosofia definitiva.

P.S. – Os episódios que precedem, as investigações e as reflexões que os acompanham, foram reunidos aqui em uma espécie de ensaio, no intuito de trazer algumas balizas para a solução do maior dos problemas que possam interessar ao espírito humano. É a esse título que a presente obra se oferece à atenção daqueles que, algumas vezes ao menos, no meio do caminho da vida, de que fala o Dante, se detêm, e a si próprios perguntam onde estão e que são, procuram, pensam e sonham.


FIM

Notas:


1Há às vezes estranhas coincidências. No dia em que Spero fez a ascensão, que tão fatal lhe devia ser, calculara eu que ele se havia arrojado aos ares, pela extraordinária agitação da agulha imantada que, em Paris onde me achava, anunciava a existência da intensa aurora boreal, tão ansiosamente esperada por ele para aquela viagem aérea. Sabe-se, com efeito, que as auroras boreais se manifestam ao longe pelas perturbações magnéticas. O que mais me surpreendeu, porém, e que ainda não tive explicação, é que, exatamente à hora da catástrofe, experimentei indefinível mal estar, depois uma espécie de pressentimento de que alguma desgraça lhe havia acontecido. O telegrama que anunciou a sua morte encontrou-me quase preparado para tal noticia.

2Phantasms of the Living, por E. Gurney e Fred. Myers, professores da Universidade de Cambridge, e Frank Podmore, Londres, 1886. A Society for Psychical Research tem por presidente o professor Balfour Stewart, da Sociedade Real de Londres.

3“Um astro que brilha
Lembra a criança
Que sai de um banho de ondas níveas,
Olha se alguém se aproxima
E estremece,
Toda molhada, às carícias do ar.”

Esta é uma fraca tentativa de tradução do pequeno poema (N.E.)




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