Camille Flammarion Urania



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III
Variedade infinita dos seres - As metamorfoses


Desde muito tempo já, o sistema tricolor tinha fugido sob o nosso vôo. Passamos pela vizinhança de grande número de mundos bem diferentes da pátria terrestre. Uns pareceram-me inteiramente cobertos de água e povoados de seres aquáticos; outros unicamente habitados por plantas. Alguns se acham absolutamente desprovidos de água: são os que pertencem a sistemas idênticos ao da estrela Alfa de Hércules – privados de hidrogênio. Outros parecem em labaredas. Paramos perto de muitos. Que inimaginável variedade!

Sobre um de entre eles, as rochas, as plantas e as paisagens reenviam, durante as horas da noite, a luz que receberam e acumularam no decurso do dia. Talvez o fósforo constitua importante contingente na composição desses corpos. É um mundo muito estranho, onde a noite é desconhecida, embora seja desprovido de satélites. Parece que seus habitantes desfrutam de uma propriedade orgânica muito preciosa: são conformados de tal sorte que percebem todas as funções da manutenção vital do organismo. De cada molécula do corpo, por assim dizer, parte um nervo que transmite ao cérebro as impressões variadas que recebe, de maneira que o homem se vê interiormente e conhece, de início, todas as causas das doenças, os menores sofrimentos, os quais são detidos desde os seus germens.

Em outro globo, que atravessamos também durante a noite, isto é, do lado do seu hemisfério noturno, os olhos humanos estão organizados de tal sorte que são luminosos, alumiam, qual se alguma emanação fosforescente irradiasse do seu estranho foco. Uma reunião noturna, composta de grande número de pessoas, oferece aspecto verdadeiramente fantástico, por isso que a claridade, e assim a cor dos olhos, muda conforme as diversas paixões que as animam. Além disso, o poder desses olhares é tal que exercem influência elétrica e magnética de intensidade variável e, em certos casos, podem fulminar, fazer cair morta à vítima na qual se fixe toda a energia da sua vontade.

Um pouco mais longe, o meu guia celeste assinala um mundo onde os organismos gozam de preciosa faculdade: a Alma pode mudar de corpo, sem passar pela circunstância da morte, muitas vezes desagradável, e sempre triste. Um sábio, que trabalhou a vida inteira pela instrução da Humanidade, e vê chegar o fim de seus dias sem haver terminado os nobres empreendimentos, pode mudar de corpo com um adolescente e recomeçar uma vida nova, mais útil ainda do que a primeira. Para essa transmigração basta o consentimento do adolescente e a operação magnética de um médico competente. Vêem-se também, às vezes, dois entes, unidos pelos tão suaves e fortes laços do amor, operar igual mudança de corpo, após vários lustros de união: a Alma do esposo vem habitar o corpo da esposa, e vice-versa, pelo resto da existência. O conhecimento íntimo da vida se torna incomparavelmente mais completo para cada um deles. Vêem-se também sábios, historiadores, desejosos de viver dois séculos em vez de um, mergulhar em sonos fictícios de hibernação artificial, que lhes suspendem a vida durante metade de cada ano e mesmo mais. Alguns conseguem até viver três vezes mais tempo do que a vida normal dos centenários.

Momentos depois, atravessando outro sistema, encontramos um gênero de organizações inteiramente diverso e, com segurança, superior ao nosso. Nos habitantes do planeta que tínhamos então sob os olhos, mundo iluminado por brilhante sol hidrogenado, o pensamento não é obrigado a passar pela palavra para manifestar-se. Quantas vezes não tem acontecido, quando uma idéia luminosa ou engenhosa nos vem ocupar o cérebro, querer exprimi-la ou escrevê-la, e, durante o tempo em que começamos a falar ou escrever, sentir já a idéia dissipada, esvaída, obscurecida ou metamorfoseada? Os habitantes desse planeta possuem um sexto sentido, a que se poderia chamar autotelegráfico, em virtude do qual, se o que pensa a isso não se opõe, o pensamento se comunica ao exterior e pode ser lido em um órgão situado mais ou menos no mesmo lugar da fronte humana. Essas conversações silenciosas são muitas vezes as mais profundas e as mais preciosas; são sempre as mais sinceras.

Somos ingenuamente dispostos a crer que a organização humana nada deixa a desejar na Terra. Entretanto, não temos muitas vezes lamentado ser a criatura obrigada a ouvir, mal grado seu, palavras desagradáveis, um discurso absurdo, um sermão orgulhoso em vácuo, música péssima, maledicências ou calúnias? As nossas gramáticas têm pretendido que podemos fechar os ouvidos a esses discursos, assim não é, infelizmente. Não podemos fechar os ouvidos, tal qual fechamos os olhos. Há aí uma lacuna. Fiquei surpreendidíssimo de assinalar um planeta onde a Natureza não esqueceu essa particularidade. Porque nos houvéssemos detido nele um momento, mostrou-me Urânia esses ouvidos que se fechavam à maneira de pálpebras e interceptavam radicalmente a transmissão do som. Há aqui, disse-me ela, muito menos cóleras surdas do que entre vós outros; mas as dissidências entre os partidos políticos são muito mais acentuadas, não querendo os adversários ouvir coisa alguma, e triunfando efetivamente, apesar dos mais loquazes advogados e dos tribunos dotados de melhores pulmões.

Em outro mundo, cuja atmosfera está constantemente eletrizada, cuja temperatura é muito alta, e onde os habitantes têm tido quase ou nenhuma razão suficiente para inventar vestimentas, certas paixões se traduzem pela iluminação de uma parte do corpo. É, por analogia, o que se passa, em menor escala, em nossas campinas terrestres, onde se vêem, durante as serenas noites de estio, os pirilampos consumindo-se, silenciosamente, em amorosa flama. O aspecto dos casais luminosos é curioso de observar, à noite, nas grandes cidades. A cor da fosforescência difere segundo os sexos, e a intensidade varia segundo as idades e os temperamentos. O sexo forte acende uma flama vermelha, mais ou menos ardente, e o sexo gracioso uma flama azulada, às vezes pálida e discreta. Só os nossos pirilampos poderiam formar uma idéia, muito rudimentar, da natureza das impressões sentidas por esses entes especiais. Não queria eu dar crédito a meus olhos quando atravessávamos a atmosfera de tal planeta; porém, ainda muito mais surpreendido fiquei, chegando ao satélite desse mundo singular.

Era uma lua solitária, iluminada por uma espécie de sol crepuscular. Sombrio vale ofereceu-se aos nossos olhares. Das árvores disseminadas nos dois lados pendiam criaturas humanas envoltas em sudários. Tinham-se elas mesmas atadas aos ramos, pela cabeleira, e dormiam ali no mais profundo silêncio. O que eu tomara por sudários era um tecido formado pelo alongamento dos cabelos emaranhados e encanecidos. E porque me admirasse de semelhante posição, disse Urânia que era aquele o seu modo habitual de sepultamento e de ressurreição. Sim, naquele mundo os entes humanos gozam da faculdade orgânica dos insetos, que têm o dom de dormir no estado de crisálida para se metamorfosearem em aladas borboletas. Há nisso uma espécie de dupla raça humana, e os estagiários da primeira fase, os seres mais grosseiros e materiais, não aspiram senão a morrer, para ressuscitar na mais esplêndida das metamorfoses. Cada ano desse mundo representa cerca de dois séculos terrestres. Vivem-se ali dois terços de ano em estado inferior, um terço (o inverno) em estado de crisálida e, na primavera seguinte, sentem, os suspensos, gradualmente a vida voltar à carne transformada; agitam-se, despertam, deixam a carcaça na árvore e, desprendendo-se, maravilhosos entes alados voam nas regiões aéreas, para viver aí um novo ano fenixiano, isto é, duzentos dos de nosso rápido planeta.

Atravessamos, assim, grande número de sistemas e parecia-me que a eternidade inteira não teria sido bastante longa para permitir-me gozar de todas essas criações desconhecidas na Terra; mas meu guia me deixava apenas o tempo para respirar, e novos sóis e mundos continuavam aparecendo. Em nosso trajeto tínhamos quase abalroado uns cometas transparentes que erravam, quais sopros, de um a outro sistema, cujas Humanidades teriam sido novos assuntos de estudo. Os cinco pobres sentidos incompletos, que constituem a nossa bagagem orgânica, são verdadeiramente insignificantes à riqueza de percepções dos seres munidos de quinze, dezoito e mesmo vinte e seis sentidos diferentes, conforme constatamos em muitas terras do céu. No entanto, a musa celeste continuava a levar-me sem parar, sempre cada vez mais alto, cada vez mais longe, até que, enfim, chegamos ao que me pareceu o subúrbio do Universo. Os sóis tornavam-se mais raros, menos luminosos, mais pálidos; a noite se fez mais completa entre os astros e em breve nos achamos no meio de verdadeiro deserto; os milhares de estrelas que constituem o Universo visível da Terra estavam afastados e reduzidos a uma pequena via-láctea, isolada no vácuo infinito.

– Eis-nos finalmente, exclamei, nos limites da Criação!

– Olha! respondeu-me ela, mostrando-me o zênite.



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