Camille Flammarion Urania



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II
A aparição - Viagem à Noruega -
O antélio - Um encontro no Céu


Verdadeiramente estranho tinha sido o seu primeiro encontro. Contemplador apaixonado dos esplendores da Natureza, sempre à cata de grandes espetáculos, o jovem naturalista empreendera, no verão precedente, a viagem à Noruega, com o fim de visitar os solitários fiordes, onde se engolfa o mar, e as montanhas de nevosos cimos que erguem acima das nuvens as frontes imaculadas, e, principalmente, com o vivo desejo de ali fazer um estudo especial das auroras boreais, essa grandiosa manifestação da vida do nosso planeta. Eu o acompanhara nessa viagem. Os ocasos do sol, além dos fiordes calmos e profundos, os nascimentos do esplêndido astro sobre as montanhas, encantavam-lhe, em indizível emoção, a alma de artista e de poeta. Estivemos ali mais de um mês, percorrendo a pitoresca região que se estende de Cristiânia aos Alpes escandinavos. Ora, a Noruega era a pátria dessa filha do Norte, que devia exercer tão rápida influência naquele coração não despertado. Estava a mocinha ali, a alguns passos dele, e no entanto foi no momento no dia da nossa partida que o acaso, esse deus dos antigos, resolveu pô-los em presença um do outro.

A luz da manhã dourava os cimos longínquos. A moça norueguesa fora levada por seu pai ao alto de uma dessas montanhas, aonde se dirigem tantos excursionistas, qual acontece com a Suíça, para assistir ao nascer do Sol, que, naquele dia, tinha sido esplêndido. Icleia se afastara sozinha alguns metros, sobre um montículo isolado, para melhor distinguir certos pormenores da paisagem, quando, voltando o rosto para o lado oposto ao Sol, a fim de abarcar o conjunto do horizonte, avistou, não mais na montanha nem na terra, mas no próprio céu, a sua imagem, a sua pessoa inteira, perfeitamente reconhecível. Uma auréola luminosa emoldurava-lhe a cabeça e as espáduas com uma brilhante coroa de glória, e um grande círculo aéreo, tenuamente tingido com as cambiantes cores do arco-íris, envolvia a misteriosa aparição.

Estupefata, abalada pela singularidade do espetáculo, ainda sob a impressão do esplendor do nascer do Sol, não reparou logo que outra figura, um perfil de cabeça de homem, acompanhava a sua, vulto de viajante imóvel, em contemplação ante ela, lembrando essas estátuas de santos de pé sobre as pilastras das igrejas. A figura masculina e a sua estavam emolduradas pelo mesmo círculo aéreo. De repente, percebeu esse estranho perfil humano nos ares, julgou ser ludíbrio de uma visão fantástica e, maravilhada, fez um gesto de surpresa e quase de susto. A imagem aérea reproduziu o mesmo gesto, e ela viu o espectro do viajante levar a mão ao chapéu e descobrir-se, semelhando uma saudação celeste, depois perder a nitidez dos contornos e esvaecer-se ao mesmo tempo em que a sua própria imagem.

A transfiguração do Monte Tabor, onde os discípulos de Jesus avistaram subitamente no céu a imagem do Mestre, acompanhada das de Moisés e de Elias, não mergulhou as suas testemunhas em mais profundo pasmo do que a inocente virgem da Noruega em presença daquele antélio, cuja teoria é conhecida de todos os meteorologistas.

Essa aparição fixou-se na profundeza do seu pensamento qual um sonho maravilhoso. Tinha chamado o pai, que ficara a pequena distância por detrás do montículo; porém, quando este chegou, tudo havia desaparecido. Pediu ela a explicação, sem outra coisa obter, em resposta, senão uma dúvida, e quase a negativa da realidade do fenômeno. O excelente homem, antigo oficial superior, pertencia a essa categoria de cépticos esquivos, que negam pura e simplesmente quanto ignoram ou não compreendem. Em vão lhe afirmou a formosa menina que acabava de ver a sua imagem no céu – e mesmo a de um homem, que ela julgava moço e de gentil aspecto –, em vão contou os detalhes da aparição, e acrescentou que as figuras lhe haviam parecido acima do natural e se assemelhavam a vultos colossais; declarou ele, com autoridade, e não sem ênfase, que o caso era dos de ilusões de óptica produzidas pela imaginação quando se tem dormido mal, principalmente na idade da adolescência.

Na tarde do mesmo dia, porém, quando subíamos a bordo do vapor, reparei em uma jovem, de cabeleira um tanto original, que olhava para o meu amigo com ar francamente admirado. Estava ela no cais, de braço com o genitor, e permanecia imóvel qual a mulher de Ló transformada em estátua de sal. Mostrei-a a Jorge logo que chegamos ao navio; apenas, porém, volveu a cabeça para o lado dela, vi as faces da mocinha cobrirem-se de súbito rubor, e imediatamente desviou ela o olhar a fim de dirigi-lo para a roda da embarcação que começava a pôr-se em movimento. Não sei se Spero prestou atenção a isso. Pela manhã, não tínhamos visto, nem eu nem ele, o fenômeno aéreo, pelo menos no momento em que a mocinha estivera em nossa vizinhança, e nos ficara, ela própria, oculta por pequena moita de arbustos; tinha sido principalmente o lado do Oriente, a magnificência do erguer do Sol, que nos atraíra. Contudo saudou ele a Noruega, que deixava pesaroso, com o mesmo gesto com que festejara o sol nascente; e a desconhecida julgou ser para ela própria a saudação.

Dois meses depois, em Paris, o conde de K... recebia uma sociedade numerosa, a propósito de recente triunfo alcançado pela sua compatriota Cristina Nilson. A jovem norueguesa e seu pai, vindos a Paris passar uma parte do inverno, eram do número dos convidados; conheciam-se de longa data, compatriotas, sendo irmãs a Suécia e a Noruega. Quanto a mim e ao meu amigo, ali fomos pela primeira vez, e o convite era mesmo devido ao aparecimento do último livro de Spero, já assinalado por brilhante êxito. Sonhadora, pensativa, instruída pela sólida educação dos países do Norte, ávida de conhecimentos, Icleia tinha já lido e relido com curiosidade esse livro um tanto místico, no qual o novo metafísico expusera as ansiedades da sua alma não satisfeita com os pensamentos de Pascal. Acrescentemos que ela própria havia, meses antes, feito com êxito os seus exames de preparatórios, e tendo renunciado ao estudo da Medicina, que a princípio a tentara, começava a iniciar-se com certa curiosidade nas novíssimas pesquisas da fisiologia psicológica.

Quando anunciaram o Sr. Jorge Spero, parecera-lhe que acabava de entrar um amigo desconhecido, quase um confidente de seu Espírito. Estremeceu, como que ferida de uma comoção elétrica. Ele, pouco mundano, tímido, constrangido nas reuniões de pessoas estranhas, não gostando de dançar, nem de jogar, nem de conversar, ficara no mesmo canto da sala, ao lado de alguns amigos, indiferentes às valsas e às quadrilhas, mais atento a duas ou três obras-primas da música moderna interpretadas com sentimento; e a noite inteira se escoara sem que ele se houvesse aproximado dela, embora a tivesse notado e, em toda aquela deslumbrante noite, não tivesse visto senão a ela. Por mais de uma vez, os seus olhares se haviam cruzado. Afinal, próximo das duas horas da manhã, quando a reunião se ia tornando mais íntima, ousou aproximar-se dela, sem contudo dirigir-lhe a palavra. Foi ela quem primeiro lhe falou, para exprimir-lhe uma dúvida sobre a conclusão do seu livro.

Lisonjeado, porém mais surpreendido ainda de saber que aquelas páginas de metafísica tinham uma leitora – e uma leitora daquela idade – o autor respondeu, muito desastradamente, serem tais pesquisas um tanto sérias para o sexo feminino. A jovem respondeu que as mulheres, as moças, não viviam exclusivamente absorvidas pelo exercício da faceirice, e conhecia algumas que às vezes pensavam, pesquisavam, trabalhavam, estudavam. Falou com alguma vivacidade, para defender as mulheres contra o desdém científico de certos homens e sustentar a sua aptidão intelectual, e não lhe foi difícil ganhar uma causa da qual, aliás, o seu interlocutor não era de modo algum adversário. Esse novo livro, cujo êxito tinha sido imediato e estrondoso, apesar da gravidade do assunto, cercara o nome de Jorge Spero de uma verdadeira auréola de celebridade, e nas salas o brilhante escritor era, por toda a parte, acolhido com grande simpatia. Tinham os dois trocado apenas algumas palavras e ele se tornou logo o ponto de mira dos amigos da casa, sendo obrigado a responder a diversas perguntas que vieram interromper a conversação de ambos. Um dos mais eminentes críticos da época, Sainte-Beuve, havia precisamente consagrado um longo artigo à nova obra, e o próprio assunto do livro se tornou logo objeto da conversação geral. Icleia se conservou de parte. Sentia, e nisso as mulheres raro se enganam, que fora notada pelo herói; que o pensamento dele já estava ligado ao seu por invisível fio; que, respondendo às perguntas mais ou menos triviais que lhe dirigiam, o seu espírito não estava inteiramente preso à conversação. Esse primeiro triunfo íntimo lhe bastava. Ela não desejava outros. E depois, reconhecera nesse perfil de homem o vulto da misteriosa aparição aérea e o moço viajante do vapor de Cristiânia.

Nessa primeira entrevista não tardou ele em testemunhar-lhe entusiasmo pelos maravilhosos sítios da Noruega e contar-lhe a sua viagem. Intenso era nela o desejo de ouvir uma palavra, uma alusão qualquer ao fenômeno aéreo que tanto a impressionara; e não compreendia o silêncio do jovem, a sua discrição a respeito. Ele, não tendo observado o antélio no momento em que ela neste projetara a própria figura, não se surpreendera particularmente com um fenômeno que já observara diversas vezes, e em muito melhores condições estudara do alto da barquinha de um aeróstato, e nada tendo de especial observado, no caso da jovem, também nada tinha que dizer. Não lhe acudiu tão-pouco à memória o momento do embarque e, embora a loura mocinha não lhe parecesse inteiramente estranha, não se lembrava, entretanto, de tê-la visto antes. Quanto a mim, eu a havia reconhecido logo. Conversou dos lagos, dos rios, dos fiordes, das montanhas; contou-lhe ela que a genitora morrera muito moça, enferma do coração, que o pai preferia a vida de Paris à de qualquer outra cidade e que, sem dúvida, não voltaria mais, senão raramente, à sua pátria.

Notável afinidade de gostos e de idéias, viva simpatia mútua, uma estima recíproca estabelecera logo intimidade entre ambos. Educada segundo os costumes ingleses, gozava da independência de espírito e da liberdade de ação que as mulheres da França não conhecem senão depois do casamento, e não se sentia detida por nenhuma das convenções sociais que, em nosso país, parecem destinadas a proteger a inocência e a virtude. Duas amigas de sua idade tinham vindo sozinhas a Paris, para terminar a educação musical, e viviam juntas em plena Babilônia parisiense, aliás em toda a segurança, sem jamais terem desconfiado dos perigos de que se pretende que Paris está repleta. A moça recebeu as visitas de Jorge Spero tal qual seu pai tê-las-ia recebido e, em poucas semanas, a afinidade de seus caracteres e de seus gostos os havia associado nos mesmos estudos, nas mesmas pesquisas, muitas vezes nos mesmos pensamentos. Quase todos os dias à tarde, arrastado por secreta atração, dirigia-se ele do bairro Latino às margens do Sena, que seguia até ao Trocadero, e passava várias horas com Icleia, na biblioteca, ou no terraço do jardim, ou passeando no bosque.

A primeira impressão, nascida da aparição celeste, ficara na alma de Icleia. Considerava ela o jovem sábio, senão um deus ou um herói, ao menos no nível de homem superior aos seus contemporâneos. A leitura de suas obras robusteceu essa impressão e a aumentou ainda: sentiu por ele mais do que admiração, verdadeira veneração. Quando o conheceu pessoalmente, o grande homem não desceu de seu pedestal. Ela o achou tão eminente, tão transcendental em seus estudos, em seus trabalhos, em suas pesquisas, mas ao mesmo tempo tão simples, tão sincero, tão bom e tão indulgente para com todos e apanhando qualquer pretexto para ouvir pronunciar-lhe o nome, que teve de sofrer por vezes com algumas críticas de rivais, tão injustas para com ele, e começou a amá-lo com um sentimento quase maternal. E esse sentimento de afeição protetora já existirá no coração das donzelas? Talvez, mas com certeza ela o amou assim, a princípio.

Creio ter dito antes que o fundo do caráter daquele pensador era um tanto melancólico, dessa melancolia da alma de que fala Pascal, e parece ser a nostalgia do céu. Procurava, com efeito, perpetuamente, a solução do eterno problema do To be or not to be (ser ou não ser), de Hamleto. Por vezes, ter-se-ia podido vê-lo triste, aterrorizado ao ponto de morte. Mas, por singular contraste, quando os seus negros pensamentos se haviam, por assim dizer, consumido na elucubração e o cérebro, exausto, perdia a faculdade de vibrar ainda, dava-se nele uma espécie de repouso, um serenamento; a circulação do sangue vermelho reanimava-lhe a vida orgânica; desaparecia o filósofo para ceder o lugar a uma criança quase ingênua, de alegria fácil, divertindo-se de tudo e de nada, tendo quase gostos feminis, amando as flores, os perfumes, a música, o sonho, passando horas a examinar a estrutura e a vida de modesta planta, subindo a muros, ou aparentando, às vezes, pasmosa negligência.



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