Camille Flammarion Urania



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IV
Amor - Icleia - A atração


Nessa convivência a dois, por mais íntima e mais sedutora que fosse, alguma coisa faltava. Essas conversações sobre os formidáveis problemas do ser e do não ser, as trocas de idéias sobre a análise da Humanidade, as pesquisas sobre a meta final de existência das coisas, as contemplações astronômicas e as questões que elas inspiram, satisfaziam, às vezes, ao Espírito, porém não ao coração. Quando, ao lado um do outro, tinham longamente conversado, quer sob o caramanchel do jardim que dominava o quadro da grande cidade, ou na silenciosa biblioteca, o estudante, o pesquisador não podia desprender-se da companheira, e ficavam ambos, de mãos dadas, calados, atraídos, presos por dominadora força. Ele a contemplava bem nos olhos e, não ousando ficar muito tempo sob o encanto delicioso, inventava um pretexto para deixá-la, e em breve de novo vinha para junto dela, admirando esse poema da vida, esses olhos animados de luz celeste, a boca ideal cuja viva coloração fazia pensar nas cerejas maduras, na carne nacarada, opalina, diáfana, onde transparecia, por vezes, rápida, a circulação do sangue vermelho reprimido dificilmente pelo império da vontade.

Depois da partida, um e outro sentiam singular, doloroso vazio no peito, um mal-estar indefinível, como se lhes houvesse sido despedaçado um laço necessário à mútua existência; e, tanto um quanto o outro, não aspiravam senão à hora do reencontro. Ele a amava, não por si próprio, mas por ela, com afeto quase impessoal, em um sentimento de tão profunda estima quanto de ardente amor, e, por uma luta de todos os instantes contra as atrações da carne, tinha sabido resistir. Um dia, porém, em que estavam sentados lado a lado um do outro, no espaçoso divã da biblioteca, cheio, conforme era já costume, de livros e folhas soltas, conservando-se calados, aconteceu que, sobrecarregada sem dúvida de todo o peso de esforços, concentrados desde tanto tempo, para resistir a uma atração demasiado irresistível, a cabeça do jovem autor inclinou-se insensivelmente sobre a espádua da companheira e, quase logo... os lábios deles se encontraram.

Oh! indizíveis júbilos do amor partilhado! ebriedade do ser sedento de ventura, transportes sem fim da imaginação não vencida, suave música dos corações, a que etéreas alturas não tendes erguido os eleitos abandonados a vossas supremas felicidades! Subitamente esquecidos da Terra inferior, voam a asas soltas, nos páramos encantados, perdem-se nas profundezas celestes, e pairam nas sublimes regiões do eterno enlevo. Para eles não mais existe o mundo com suas comédias e suas misérias. Ventura radiosa! Vivem na luz, no fogo, salamandras, fênix, livres de todo peso, leves qual a flama, consumindo-se eles próprios, renascendo das próprias cinzas, sempre luminosos, sempre ardentes, invulneráveis, invencíveis.

A expansão tão longamente contida desses primeiros transportes lançou ambos em uma vida de êxtase, que os fez, por momento, esquecer a metafísica e os seus problemas. Esse instante durou seis meses. O mais suave, porém, o mais imperioso dos sentimentos viera completar neles as insuficientes satisfações intelectuais do Espírito, e de uma só vez os absorvera, aniquilara quase. A datar do dia do beijo, Jorge Spero, não somente desapareceu de todo da cena do mundo, mas ainda cessou de escrever, e eu próprio o perdi de vista, apesar da longa e real afeição que ele me testemunhara. Daí teriam podido os lógicos concluir que, pela primeira vez na vida, estava ele satisfeito, e achara a solução do grande problema, o supremo fim da existência dos seres.

Viviam desse egoísmo a dois que, afastando a Humanidade do nosso centro ótico, diminui os seus defeitos e a faz parecer mais amável e mais bela. Satisfeitos com o mútuo afeto, tudo lhes cantava, na Natureza e na Humanidade, um perpétuo cântico de ventura e de amor.

Muitas vezes, ao cair da tarde, saíam, seguindo o curso do Sena, e iam contemplar, sonhando, os maravilhosos efeitos de luz e de sombra que adornam o céu de Paris, tão admirável no crepúsculo, à hora em que os perfis das torres e dos edifícios se projetam em negro no luminoso fundo do ocidente. Nuvens rosadas e purpúreas, iluminadas pelo reflexo longínquo do mar, sobre o qual brilha, precisamente há essa hora, o Sol desaparecido, dão ao nosso céu um cunho especial, que não é o do Nápoles, banhado no Ocidente pelo espelho mediterrâneo, mas excede talvez o de Veneza, cuja iluminação é oriental e pálida. Seja porque os seus passos fossem conduzidos para a antiga ilha da Cité, e descessem o curso do rio, passando à vista de Notre-Dame e do velho Châtelet, que alongava o perfil no firmamento ainda luminoso; ou porque, atraídos pelo esplendor do ocaso e pela campina, houvessem descido os cais até além das trincheiras da imensa cidade, e se tivessem desgarrado até às solidões de Boulogne e de Bilancourt, fechadas pelas negras encostas de Meudon e de Saint-Cloud, contemplavam a Natureza, esqueciam a ruidosa cidade perdida para atrás deles e caminhavam a passo igual, formando um ser único, recebiam, simultâneas, as mesmas impressões; pensavam os mesmos pensamentos e, em silêncio, falavam a mesma linguagem. O rio corria a seus pés, os ruídos do dia se extinguiam, as primeiras estrelas luziam no céu. Icleia gostava de nomeá-las a Jorge à proporção que iam aparecendo.

Março e Abril oferecem muitas vezes em Paris serenas tardes em que circula o primeiro sopro precursor da primavera. As brilhantes estrelas de Orion, o fulgurante Sírius, os Gêmeos Castor e Pólux cintilam no céu imenso; as Plêiades baixam para o horizonte ocidental, mas Arctúrus e o Boieiro, pastor dos celestes rebanhos, voltam, e algumas horas mais tarde a branca e resplandecente Vega se ergue no horizonte oriental, seguida em breve pela Via-láctea. Arctúrus, de raios de ouro, era sempre a primeira estrela identificada, pelo seu penetrante brilho e pela sua posição no prolongamento da cauda da Grande-Ursa. Às vezes, o crescente lunar pairava no céu ocidental, e a jovem contempladora admirava, tal qual outrora Rut junto de Booz, a foice de ouro no campo das estrelas.

As estrelas envolvem a Terra; a Terra está no céu. Spero e sua companheira bem o sentiam, e em nenhuma outra terra celeste, talvez, vivia um par mais intimamente do que eles no Céu e no Infinito.

Insensivelmente, entretanto, sem talvez aperceber-se, o jovem filósofo retomou, gradualmente, por fragmentos retalhados, seus estudos interrompidos, analisando agora as coisas com profundo sentimento de otimismo, que não havia conhecido ainda, apesar da sua bondade natural, eliminando as conclusões cruéis, porque lhe pareciam devidas a conhecimento incompleto das causas, contemplando os panoramas da Natureza e da Humanidade sob nova luz. Ela continuara também, ao menos parcialmente, os estudos começados em comum; mas, um sentimento novo, imenso, lhe enchia a alma, e seu espírito já não tinha a mesma liberdade para o trabalho intelectual. Absorta nessa afeição de todos os momentos, por um ente que inteiramente conquistara, não via senão pelos olhos dele, só procedia por ele inspirada. Durante as horas calmas da noite, quando se sentava ao piano, para tocar uma sonata de Chopin, que se admirava de não ter compreendido antes de amar, ou para acompanhar-se cantando, com a sua tão pura e extensa voz, as romanças norueguesas de Grieg e de Bull, ou ainda as melodias do nosso Gounod, parecia-lhe, sem o perceber talvez, que o seu amado era o único ouvinte capaz de compreender aquelas inspirações do coração. Que horas deliciosas passou ele, na ampla biblioteca da casa de Passy, estendido no divã, seguindo às vezes com o olhar as caprichosas volutas da fumaça de um cigarro do Oriente, enquanto, entregue às reminiscências de sua fantasia, ela cantava o suave Saetergientes do seu país, a serenata de Dom Juan, o Lago de Lamartine, ou então quando, deixando correr os hábeis dedos pelo teclado, fazia voar no ar o melodioso sonho do minueto de Boccherini!

Chegara a Primavera. O mês de Maio tinha visto abrirem-se em Paris as festas da Exposição Universal de que falamos em começo desta narrativa, e as alturas do jardim de Passy abrigavam o Éden do amoroso par. O pai de Icleia, que fora subitamente chamado à Tunísia, regressara trazendo uma coleção de armas árabes para o seu museu de Cristiânia. Era intenção sua voltar dentro em breve à Noruega, e ficara combinado entre a moça e seu amado que o casamento se efetuaria na sua Pátria, na data aniversária da misteriosa aparição.

O amor deles era, por sua própria natureza, muito diverso de todas essas triviais uniões fundadas, umas no grosseiro prazer sensual, ou sobre a ociosidade mundana e os caprichos de um momento, outras em interesses mais ou menos disfarçados, que representam a maior parte dos amores humanos. Seu espírito cultivado os isolava nas regiões superiores do pensamento; a delicadeza de seus sentimentos mantinha-os em atmosfera ideal, onde todas as suas sensações os mergulhavam em êxtases cujo enlevo parecia infinito. Se se ama em outros mundos, o amor ali não pode ser nem mais profundo, nem mais delicado. Para um fisiologista teriam sido o testemunho vivo de que, contrariamente à apreciação vulgar, todos os gozos nascem do cérebro, correspondendo à sensibilidade psíquica da criatura a intensidade das sensações.

Paris era para eles, não uma cidade, não um mundo, mas o teatro da história humana. Ali reviveram eles os séculos desaparecidos. Passaram longas horas no recinto dos nossos admiráveis museus, principalmente entre as obras-primas do grande Louvre, onde a Arte parecia haver eternizado toda a história do pensamento. Essas maravilhosas galerias do Louvre guardavam, mais ainda do que as de Versalhes, a atmosfera dos reais esplendores. Gostavam de reencontrar-se ali, pois viam reviver, do meio dos vestígios do velho Paris, os séculos de há muito desaparecidos. Os velhos bairros, não destruídos ainda pelas transformações modernas, a Cité com a Notre-Dane, Sannt-Julien-le-Pauvre, cujas paredes recordam ainda Childerico e Fredegonda, as antigas moradas onde habitaram Alberto o Grande, o Dante, Petrarca, Abelardo, a velha Universidade, anterior a Sorbona, e dos próprios séculos desaparecidos, o claustro Sannt-Merry com seus sombrios corredores, a abadia de Sannt-Martin, a torre de Clóvis na montanha Santa Genoveva, Sannt-Germain-des-Prés, lembrança dos Merovíngios, Sannt-Germain-l’Auserrois, cujo campanário tocou o rebate do São Bartolomeu, a capela Angélica de Luís IX; todas as reminiscências da história de França foram objeto de suas peregrinações. Em meio das multidões, isolavam-se na contemplação do passado e viam o que quase ninguém sabe ver.

Assim, a imensa cidade lhes falava a sua linguagem de outrora, quando, perdidos entre as quimeras, as grifas, as colunas, os capitéis, os arabescos das torres e das galerias de Notre-Dame, viam a seus pés a colméia humana adormecer na bruma da tarde, ou quando, elevando-se ainda mais, procuravam, do alto do Panteão, reconstituir a antiga forma de Paris e seu desenvolvimento secular, desde os imperadores romanos que habitavam as Termas até Filipe Augusto e seus sucessores.

O sol da primavera, os lilases em flor, as alegres manhãs de Maio cheias do canto dos pássaros, de excitações nervosas, levavam ambos, às vezes, longe de Paris, ao acaso, pelos bosques. As horas escoavam qual o sopro das brisas; o dia findava, e a noite continuava o divino sonho de amor. No mundo redemoinhante de Júpiter, onde os dias e as noites passam duas vezes mais rápidos do que aqui e nem duram mesmo dez horas, os namorados não vêem as horas fugir mais velozes. A medida do tempo está na criatura.

Certa tarde, estavam ambos sentados na coberta sem parapeito da velha torre do castelo de Chavreuse, aconchegados um ao outro, no centro, donde sem obstáculo se dominava toda paisagem em torno. O ar subia tépido do vale, impregnado dos silvestres perfumes das matas vizinhas; a calhandra cantava ainda, e o rouxinol ensaiava, na sombra nascente dos bosques, o melodioso cântico às estrelas. O Sol acabava de esconder-se em um deslumbramento de ouro e escarlate, e só o Ocidente se conservava iluminado de uma luz ainda intensa.

Tudo parecia adormecer no regaço da imensa Natureza.

Um tanto pálida, mas iluminada pela luz do céu ocidental, Icleia parecia penetrada pelo dia e iluminada interiormente, tão clara, delicada, ideal era a sua carnação. Com os olhos afogados em vaporosa languidez, com a boquinha infantil levemente entreaberta, parecia perdida na contemplação da luz ocidental. Apoiada ao peito de Spero, enlaçando-lhe nos braços o pescoço, entregava-se ao seu cismar, quando uma estrela cadente atravessou o céu precisamente por cima da torre. A moça estremeceu, um tanto supersticiosa. Já as mais brilhantes estrelas surgiam na profundeza dos céus: muito alto, quase no zênite, Arctúrus, de fulgurante amarelo de ouro; para o Oriente, bastante elevada, Vega, de cândida alvura; ao Norte, Capela; no Ocidente, Castor, Pólux e Prócion. Começava-se a distinguir também as sete estrelas da Grande-Ursa, a Arista da Virgem, Régulo. Insensivelmente, uma por uma, as estrelas vinham pontuar o firmamento. A estrela polar indicava o único ponto imóvel da esfera celeste. Surgia a Lua, com o seu disco levemente avermelhado, atingido pela face minguante. Marte brilhava entre Pólux e Régulo, ao Sudoeste; Saturno ao Sueste. O crepúsculo dava lentamente lugar ao misterioso reino da noite.

– Não achas, disse ela, que todos esses astros são como que outros tantos olhos que nos estão olhando ?

– Olhos celestes iguais aos teus. Que podem eles ver na Terra mais belo do que tu... e do que o nosso amor?

– Entretanto...

– Sim, entretanto o mundo, a família, a sociedade, os usos, as leis da moral, que sei eu? Compreendo teus pensamentos. Temos esquecido todas essas coisas para obedecer unicamente à atração, igual ao que acontece com o Sol, com todos os astros, com o rouxinol que está cantando, com a Natureza inteira. Em breve daremos a esses usos sociais o quinhão que lhes pertence, e poderemos proclamar abertamente o nosso amor. Seremos por isso mais ditosos? É possível ser mais feliz do que o somos neste momento?

– Sou tua, respondeu ela. Não existo em mim; estou aniquilada na tua luz, no teu amor, na tua felicidade, e nada mais desejo. Não. Eu pensava nessas estrelas, nesses olhos que nos fitam, e a mim própria perguntava onde estão hoje todos os olhos humanos que as têm contemplado, desde há milhares de séculos, tal qual estamos fazendo neste crepúsculo; onde estão todos os corações que têm batido, qual neste momento bate o nosso coração; onde estão todas as almas que se confundiram em beijos sem fim no mistério das noites sumidas!

– Existem todos. Nada pode ser destruído. Nós outros associamos o Céu e a Terra, e temos razão. Em todos os séculos, em todos os povos, entre todas as crenças, tem a Humanidade perguntado sempre a esse firmamento estrelado o segredo dos seus destinos. Era uma espécie de adivinhação. A Terra é um astro da abóbada celeste, tanto quanto Marte e Saturno, que enxergamos além, terras do céu, escuras, iluminadas pelo mesmo sol que nos clareia, e tanto quanto todas essas estrelas, longínquos sóis. O teu pensamento traduz o que a Humanidade tem pensado desde que existe. Todos os olhares hão buscado na esfera constelada a resposta ao grande enigma e, desde os primeiros dias da mitologia, é Urânia quem tem respondido. E é ela, a divina Urânia, quem há de responder sempre. Têm nas mãos o Céu e a Terra; faz mover-nos no infinito... E depois, personificando nela o estudo do Universo, o sentimento poético de nossos pais não parece ter querido completar a ciência com a vida, a graça e o amor? É ela a musa por excelência. Sua beleza parece dizer que, para compreender verdadeiramente a Astronomia e o Infinito, é mister... estar apaixonado.

Ia cair a noite. A Lua, elevando-se vagarosa no céu oriental, derramava na atmosfera uma claridade que, insensivelmente, ia substituindo a do crepúsculo, e já na cidade, sob eles, entre as arvores e as ruínas, algumas luzes apareciam aqui e além. Tinham-se erguido e conservado de pé, no centro do alto da torre, estreitamente emaçados. Estava ela formosa, emoldurada na auréola dos cabelos, cujos anéis lhe flutuavam sobre as espáduas; baforadas de ar primaveril, impregnadas dos perfumes das violetas, dos cravos, dos lírios e das rosas de Maio, subiam dos jardins vizinhos; as tépida volúpias das noites merencórias voavam rumo às estrelas, com seus odores e suas brisas. Cercavam-nos a solidão e o silêncio. Um longo beijo, o centésimo, pelo menos, daquele carinhoso dia de primavera, uniu os lábios de ambos.

Ela meditava ainda. Fugaz sorriso iluminou-lhe de súbito o semblante e passou, esvaindo-se qual uma imagem que se some.

– Em que pensas? perguntou ele.

– Oh! em nada. Uma idéia mundana, profana, um tanto frívola.

– Mas que idéia? insistiu ele, tomando-a nos braços.

– Pois bem! a mim própria perguntava se... nesses outros mundos se tem boca... porque, vês tu? o beijo... os lábios...

Assim se passavam as horas, os dias, as semanas, os meses, em uma união íntima de todos os seus pensamentos, de todas as suas sensações, das suas impressões totais. Guiados por idêntico desdém pelas paixões vulgares, e por uma indagação instintiva dos belos quadros que a Natureza terrestre podia oferecer ao divino romance de seus corações, remediavam muitas vezes bastante longe da agitação humana, rumo das solitudes profundas dos bosques ou dos sublimes espetáculos do mar. As ravinas sombreadas da floresta de Fontainebleau; as margens calmas e aprazíveis que bordam o Sena; as quietudes agrestes tapeçadas de urzes e foliáceas; os arroios murmurantes dos vales de Cernay; o quieto parque de Rambouillet; as velhas torres feudais de Etampes e de Montlhéry; a foz do Sena ao Havre; os valezinhos de Saint-Adresse; o cabo de Hève, dominando o horizonte do mar; as penedias esverdeadas de Granville, projetadas por cima do abismo; os antigos baluartes do Mont-Saint-Michel, envoltos pela vaga das marés, e as maravilhas de sua abadia erguida para as nuvens; serviram alternativamente de teatro às excursões curiosas de ambos, nas quais, à semelhança de dois pássaros ávidos de liberdade e de amor, iam sonhar, cantar, adormecer, cantar e sonhar ainda. Intensas claridades de luar, de luz madreperolada, pôr-de-sol, de ouro flamígero; e vós, silenciosas estrelas da Noite que cintilais no alto dos mares insondáveis, jamais olhares tão encantados se abriram ante vós, jamais corações humanos palpitaram em comunhão assim íntima com o eterno sopro do amor que maneja o mundo.

O sol de Julho luzia já no solstício, e era chegado o momento da partida para a Pátria de Icleia. Na época marcada, partiu ela com o pai para Cristiânia. Mas, podiam eles ficar muito tempo separados? Se, em aritmética, um mais um fazem dois, pode-se dizer que, em amor, um e um fazem um.

Spero seguiu alguns dias depois. A intenção do jovem sábio era passar na Noruega os meses de Agosto e Setembro, e continuar ali os estudos que empreendera no ano anterior sobre a eletricidade atmosférica e sobre as auroras boreais, observações tão particularmente interessantes para ele, e que tivera tido apenas tempo de encetar.

Essa estada na Noruega foi a continuação do mais doce dos sonhos. Visitaram juntos os lagos solitários e silenciosos; as colinas selváticas, cobertas de plantas rasteiras; as vastas e merencórias paisagens que lembram a Escócia cantada por Ossian na lira dos bardos antigos. Tudo lhes falava de Infinito e de Amor. A loura filha do Norte envolvia o noivo em uma auréola de perpétua sedução, que talvez lhe houvesse feito esquecer para sempre os atrativos da Ciência, se ela própria não tivesse, conforme vimos, insaciável gosto pessoal pelo estudo. As experiências que o infatigável investigador empreendera sobre a eletricidade atmosférica interessaram-na tanto quanto a ele, e não tardou a tomar parte nos labores, associando-se com a dedicação de auxiliar devotada às curiosas experiências. Quis também conhecer a natureza dessas misteriosas flamas da aurora boreal que vêm à noite palpitar nas alturas da atmosfera, e, porque a série dessas pesquisas o levassem a desejar uma ascensão em aeróstato, destinada a ir surpreender o fenômeno em sua origem, teve também o mesmo desejo. Tentou ele dissuadi-la, não sendo destituídas de perigo as experiências aeronáuticas. Mas, só a idéia de um perigo a partilhar teria bastado para torná-la surda às súplicas do bem-amado. Após longas hesitações, Spero decidiu levá-la e preparou, na Universidade de Cristiânia, uma ascensão para a primeira noite de aurora boreal.



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