Caminho do poder espiritual



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O

CAMINHO

DO

PODER

ESPIRITUAL

A. W. Tozer

Vol. 1 - Série A. W. Tozer
EDITORA MUNDO CRISTÃO

Rua Antônio Carlos Tacconi, 79

Tel. 520-5011 Caixa Postal 21.257

04698 - São Paulo, Est. SP


Título do original em inglês KEYS TO THE DEEPER LIFE

Copyright 1957 pelo Sunday Magazine Inc. Chicago, Illinois E.U.A.


Tradução de Waldemar W. Wey

l.a edição brasileira em 1961

2.a edição brasileira em 1968

3.a edição brasileira em 1981

4.a edição brasileira em 1985

Impresso na Imprensa da Fé, São Paulo, SP.


Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados pela

ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO

Caixa Postal 21.257, 04698 — São Paulo, SP, Brasil


Índice

I. A Impossibilidade do Reavivamento sem Reforma.............................................4

II. Que É a Vida Mais Profunda?..........................................................................8

III. Os Dons do Espírito São Também para Nós, os de Hoje?..............................12

IV. Como Ficar Cheio do Espírito Santo.............................................................16
O autor
Dr. A. W. TOZER, recentemente falecido, era bastante conhecido nos meios evangélicos, não somente co­mo o antigo e frutífero editor da re­vista Alliance Witness, mas também como o pastor de uma das maiores igrejas da Aliança Cristã e Missioná­ria. E, ainda mais do que isto, era co­nhecido por seus livros de grande penetração e valor sobre a vida espi­ritual mais profunda. Ele constante­mente recebia convites de todas as partes dos E.U.A. para realizar preleções em reuniões e congressos bí­blicos. O Dr. Tozer era conhecido como "o profeta de hoje".
CAPITULO I
A Impossibilidade do Reavivamento sem Reforma
Onde quer que hoje se reúnam cristãos, ouve-se constantemente o vocábulo reavivamento, ou despertamento.

Nos sermões, cânticos e orações amiúde estamos lembrando ao Senhor e ao nosso próximo que, para resolvermos nossos problemas espirituais, precisamos de um “poderoso reavivamento, desses dos tempos idos”. Também revistas e jornais religiosos tratam bas­tante desse tópico, afirmando que o reavivamento é a maior necessidade da hora que passa; e a pessoa que é capaz de escrever um ensaio sobre o assunto certamen­te encontrará muitos editores dispostos a publicá-lo.

Tão fortemente está a soprar a brisa pró-reavivamento que mui raro parece alguém ter o discernimen­to ou a coragem de resistir a esse vento, muito embora a verdade possa facilmente estar naquela direção. A religião tem seus modismos ou ondas, como sói acon­tecer à filosofia, à política e às modas femininas. As maiores religiões do mundo tiveram seus períodos de declínio e de recuperação, e tais recuperações ou pe­ríodos áureos são indevidamente chamados pelos his­toriadores de reavivamentos ou reflorescimentos.

Não nos esqueçamos que em alguns países o islamismo presentemente está passando por um reavivamento, e de que os últimos relatórios vindos do Japão nos dá conta de que, após breve eclipse que veio com a segunda guerra, o xintoísmo esta experimentan­do notável reflorescimento. Mesmo nos E.U.A. o catolicismo romano, bem como o protestantismo liberal estão avançando com tal impetuosidade que a palavra reavivamento se faz quase necessária para descrever o fenômeno. E isso sem qualquer perceptível elevação dos padrões morais dos seus fervorosos partidários.

Uma religião, até mesmo o cristianismo popular, pode gozar de um rápido desenvolvimento todo divorciado do transformador poder do Espírito Santo, e assim deixar a igreja da geração seguinte em pior con­dição que a anterior, caso jamais ocorresse tal desen­volvimento. Creio que a imperativa necessidade do momento não é apenas de reavivamento, mas de uma reforma radical que atinja a raiz dos nossos males morais e espirituais e que trate mais das causas que das conseqüências, mais do mal que dos sintomas.

Minha sincera opinião é esta: nas atuais circuns­tâncias não estamos desejando de todo um reaviva­mento. Um vasto reavivamento, do tipo do cristianis­mo de que hoje temos conhecimento na América do Norte, pode bem provar ser uma tragédia moral da qual não nos recuperaremos dentro de cem anos.

E dou minhas razões. Na geração passada, reagindo-se contra a alta crítica e sua conseqüência, o mo­dernismo, surgiu no protestantismo poderoso movi­mento de defesa do histórico Credo Cristão. Tal cor­rente, por motivos óbvios, fez-se conhecida pelo nome de fundamentalismo. Era mais ou menos um movi­mento espontâneo sem muita organização, mas seu propósito, onde quer que aparecesse, era o mesmo: barrar ou conter “a forte maré do negativismo” na Teologia Cristã e reafirmar e defender as doutrinas básicas do cristianismo do Novo Testamento. Esta parte é da história.
Vítima de Suas Virtudes
Em geral se olvida que esse fundamentalismo, à medida que se espalhou por vários grupos denominacionais e indenominacionais, caiu, vitimado por suas próprias virtudes. A Palavra morreu nas mãos de seus amigos. A inspiração verbal, por exemplo (doutrina que sempre sustentei e ainda hoje defendo), logo foi atingida pelo rigor mortis. Silenciou a voz do profeta e o escriba empolgou as mentes dos fiéis. Em vastas áreas mirrou a imaginação religiosa. Uma hierarquia nada oficial era quem decidia sobre aquilo que os cristãos deviam crer. Assim o Credo Cristão tornou-se não as Escrituras Sagradas, mas aquilo que o escriba achava que as Escrituras diziam. E colégios, seminá­rios, institutos bíblicos, congressos bíblicos, e popula­res expositores da Bíblia se reuniram para fazer avan­çar o culto do textualismo. Daí, um sistema de extre­mado dispensacionalismo, que então se industriou, de­sobrigou o cristão do arrependimento, da obediência e da cruz — tomando isso como formalidades. Toma­ram-se da Igreja trechos inteiros do Novo Testamento e os dispuseram de acordo com um rígido sistema de “distribuição da Palavra da verdade”.

O resultado disso tudo foi uma religião mentalmen­te inimiga do verdadeiro Credo Cristão. Desceu sobre o fundamentalismo uma espécie de névoa gelada. Por baixo, o terreno era conhecido. Tratava-se, e certo do cristianismo do Novo Testamento. As doutrinas bast­as da Bíblia estavam presentes, mas o clima não era favorável aos doces frutos do Espírito.

Todo aquele procedimento era diferente do da Igre­ja Primitiva e do das grandes almas que padeceram e salmodiaram e adoraram nos séculos idos. As doutri­nas eram sãs, mas estava ausente algo vital. Nunca se permitiu que florescesse a árvore da doutrina certa. Raramente se ouvia na terra o arruinar da pomba; ao contrário, o papagaio encarapitou-se no seu poleiro artificial e maquinalmente repetiu o que lhe haviam ensinado, e isso num tom emocional bem melancólico e atoleimado. Assim a fé, ou uma doutrina poderosa e vitalizante, tornou-se na boca do escriba coisa bem diferente, e sem poder. Então, triunfando a letra, o Es­pírito desertou e o textualismo passou a reinar, supre­mo. Foi o tempo do cativeiro babilônico do crente.

Por amor à exatidão, deve-se dizer que isso foi ape­nas uma condição ou estado geral. É certo que mesmo nesses tempos precários houve alguns que, de arden­tes corações, revelaram ser melhores teólogos do que seus próprios mestres. E eles apontavam para uma plenitude e um poder desconhecido do resto deles, O número destes, porém, era pequeno, e maiores as des-proporções. Assim, não conseguiram eliminar a névoa que pairava sobre o terreno.

O erro ou deleito do textualismo não é de natureza doutrinária. É mais sutil que isto e bem mais difícil de ser descoberto ou percebido; mas os seus efeitos são tão mortíferos quanto os desvios doutrinários. Ficam aquém não os seus postulados teológicos, mas as suas admissões ou afirmativas.

Ele admite, por exemplo, que, tendo-se a palavra para uma coisa, temos a própria coisa. Se está na Bí­blia, está em nós. Se temos a doutrina, temos a expe­riência. Dizem: se isto ou aquilo era verdade a res­peito do Apóstolo Paulo, necessariamente é verdade também a nosso respeito, porque aceitamos que as Cartas dele são inspiradas por Deus. A Bíblia nos diz como nos podemos salvar, mas o textualismo vai mais longe, fazendo-a dizer que estamos salvos, algo que pela verdadeira natureza das coisas não se pode fazer. A certeza da salvação individual assim não passa de mera conclusão lógica tirada de premissas doutrinárias e nada mais é que o resultado de uma experiência inteiramente mental.


Revolta Resultante da Tirania Mental
Daí veio a revolta. A mente humana pode suportar o textualismo até certo ponto, porque depois começa a procurar uma válvula de escape. Assim, sorrateira­mente, e mesmo sem ter consciência de que se pro­cessa uma revolta, as massas do fundamentalismo rea­giram, não contra os ensinos da Bíblia, mas contra a tirania mental dos escribas. Com a mesma angústia daqueles que estão a ponto de perecer afogados, pro­curam vir à tona, em busca de ar, e batalharam cega­mente por maior liberdade de pensamento e pela sa­tisfação emocional, exigidas por suas naturezas e ne­gadas por seus mestres.

O resultado colhido nestes últimos vinte anos foi este: uma perversão religiosa que mal se equipara àquela em que Israel passou a adorar o bezerro de ouro. Com verdade se pode dizer que nos, cristãos bí­blicos, “nos assentamos a comer e a beber, e nos levantamos para folgar”. Quase que desapareceu totalmente a linha divisória entre a Igreja e o mundo.

À parte outros pecados mais graves, vemos que os desvios do mundo não regenerado recebem agora a sanção e aprovação de um chocante número de cristãos que dizem ter nascido de novo; e tais pecados passam a ser copiados com extrema ansiedade. Jovens cristãos tomam por modelo as modas escandalosamente mundanas, e buscam assemelhar-se o mais possível as pessoas de conduta duvidosa, ou declaradamente irre­ligiosas. Líderes religiosos há que adotaram as técnicas dos propagandistas, e, assim, os exageros, as iscas e as condenáveis vanglorias surgem nos setores ecle­siásticos como procedimento normal. Sente-se que o clima normal não é do Novo Testamento, e sim da Broadway e de Hollywood.

A maior parte dos evangélicos não mais se inicia, mas imita, e o mundo é o modelo deles. Aquela ar­dente e santa crença de nossos pais em muitos setores tornou-se como um passatempo, e o que mais desola e entristece é ver que todo esse mal vem de cima até às massas.

Essa voz de protesto que se inaugurou com o Novo Testamento e que sempre se fez ouvir em alto e bom som nos tempos em que a Igreja tinha poder, foi aba­fada e silenciada com notável êxito. Aquele elemento radicalista — pelo seu testemunho e vida — que outrora fez dos cristãos indivíduos odiados pelo mundo, já não se vê no evangelismo dos dias que vivemos. Os cristãos distinguiram-se outrora como verdadeiros re­volucionários — morais, mas não políticos — e hoje temos perdido esse caráter revolucionário. Vemos que hoje não periga mais o ser cristão, nem é coisa custosa sê-lo. A Graça já não é mais livre, e sim barata. Preocupamo-nos hoje como provar ao mundo, e aos mundanos, que podemos todos gozar os benefícios do Evan­gelho sem a menor inconveniência ao seu habitual teor de vida. Nosso “é tudo isso, e o céu também”.

Este quadro que damos da cristandade moderna, embora não tenha aplicação a todos em geral, repre­senta na verdade a esmagadora maioria dos cristãos da era atual. Por este motivo julgo ser coisa vã e inú­til reunirem-se grandes porções de crentes com o fito de gastarem longas horas a rogar a Deus que lhes mande um reavivamento. Enquanto não desejarmos sinceramente nos reformar, não devemos orar. Só haverá verdadeiro reavivamento quando pessoas de oração receberem a visão e a fé que os induzam a emen­dar todo o seu teor de vida, para que se ajustem ao padrão do Novo Testamento.


Quando se Ora Erradamente
Algumas vezes ora-se não só em vão, mas também errado. Vejamos o exemplo: Israel fora derrotado em Ai, e “Josué rasgou as suas vestes, e se prostrou em terra sobre o seu rosto perante a arca do Senhor até à tarde, ele e os anciãos de Israel; e deitaram pó sobre as suas cabeças” (Josué 7:6).

De acordo com a nossa atual filosofia do reaviva­mento, isso era o que devia ser feito e, uma vez que isso se fizesse continuamente, é certo que convenceria a Deus e Ele acabaria concedendo aquela bênção. Mas, “disse o Senhor a Josué: Levanta-te; por que es­tás prostrado assim sobre o teu rosto? Israel pecou, e violaram a minha aliança, aquilo que eu lhes ordena­ra... Dispõe-te, santifica o povo, e dize: Santificai-vos para amanhã, porque assim diz o Senhor Deus de Israel: ...aos vossos inimigos não podereis resistir enquanto não eliminardes do vosso meio as cousas condenadas” (Josué 7:10-13).

Precisamos de uma reforma dentro da Igreja. Pedir que um dilúvio de bênçãos caia sobre uma igreja desobediente e decaída é desperdiçar tempo e energias. Nova onda de interesse religioso apenas conseguirá adicionar números às igrejas que não tencionam sub­meter-se à soberania de Jesus e nem buscam obedecer aos mandamentos dEle. Deus não está interessado tan­to em aumentar a freqüência às igrejas, mas em fazer com que tais pessoas emendem seus caminhos e come­cem a viver santamente.

Certa vez o Senhor pela boca do profeta Isaías dis­se palavras que aclaram este assunto de uma vez por todas: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? diz o Senhor. Estou farto dos holocaustos de carneiro, e da gordura de animais cevados, e não me agrado do sangue dos novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer peran­te mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as luas novas, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniqüidade associada ao ajuntamento sole­ne... Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vos­sos atos de diante dos meus olhos: cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreen­dei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas... Se quiserdes, e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra.” (Isaías 1:11-17,19.)

Os rogos, pedindo reavivamento, só serão ouvidos quando acompanhados de uma radical emenda ou reforma de vida; nunca antes. Reuniões de oração que atravessam a noite mas não são precedidas de verda­deiro arrependimento só podem desagradar a Deus. “O obedecer é melhor do que o sacrificar.” (1 Samuel 15:22.)

Urge voltarmos ao cristianismo do Novo Testamen­to, não apenas no que respeita ao credo mas também na maneira completa de viver. Separação, obediência, humildade, naturalidade, seriedade, autodomínio, mo­déstia, longanimidade: tudo isso precisa ser novamen­te parte vivificante do conceito total do cristianismo e aparecer no viver cotidiano. Precisamos purificar o templo, tirando de dentro dele os mercenários e os cambiadores, e ficarmos outra vez inteiramente sob a autoridade do Senhor ressurreto. E isto que aqui ago­ra dizemos aplica-se a quem escreve estas linhas, bem como a cada um dos que invocam o nome de Jesus. Daí, sim, poderemos orar em plena confiança, e aguar­dar o verdadeiro reavivamento que certo virá.




CAPÍTULO II
Que é a Vida Mais Profunda?
Suponhamos que um ser angelical, que desde a cria­ção conhece o profundo e sereno arroubo de habitar na Presença de Deus, aparecesse na terra e vivesse al­gum tempo entre nós, cristãos. Acha você, amado lei­tor, que ele ficaria admirado ante o que seus olhos pu­dessem ver?

Certamente se admiraria de ver, por exemplo, como podemos nos contentar com esse nível tão pobre e tão baixo de nossa experiência espiritual. Sim, porque no fim de tudo temos em nossas mãos uma mensagem, vinda de Deus, não só nos convidando para a Sua san­ta companhia mas dando-nos também instruções deta­lhadas para conseguirmos essa bênção. Depois de se deliciar com a bem-aventurança dessa íntima comu­nhão com Deus, como poderia tal pessoa compreender esse espírito irregular e que se contenta com pouco, característica da maior parte dos crentes evangélicos destes dias? E, se esse ser angelical conheceu espíritos ardentes como Moisés, Davi, Isaías, Paulo, João, Es­tevão, Agostinho, Rolle, Rutherford, Newton, Brainerd e Faber, logicamente concluiria que os cristãos do século XX compreenderam mal algumas doutrinas vitais do Credo Cristão e ficaram aquém do verdadei­ro conhecimento de Deus.

Que diríamos, se ele se assentasse conosco nas ses­sões diárias de um dos nossos comuns institutos bíbli­cos e notasse as extravagantes alegações que fazemos de nós mesmos como crentes em Cristo e as comparasse com as nossas atuais experiências religiosas? Conclui­ria por certo haver séria contradição entre aquilo que nós pensamos que somos e aquilo que somos na rea­lidade. A ousada proclamação de que somos filhos de Deus, de que ressuscitamos com Cristo, de que com Ele nos assentamos nos lugares celestiais, de que expe­rimentamos a habitação do Espírito doador da vida, de que somos membros do Corpo de Cristo e filhos da nova criação, está sendo desmentida por nossas ati­tudes, por nossa conduta, e, acima de tudo, por essa nova falta de fervor e ausência do espírito de ado­ração.

E, se tal visitante celestial chamasse nossa atenção para a grande diferença entre nossas crenças doutri­nárias e nossas vidas, sorrindo o despacharíamos explicando-lhe que essa é a diferença normal entre nossa posição segura e nosso estado variável. Daí, certamen­te ele quedaria boquiaberto ao notar, triste, que seres como nós, criados à imagem de Deus, nos permitamos tais jogos de palavras, brincando assim com nossas almas.

E não é significativo o fato de tais defensores da posição evangélica, que fazem do Apóstolo Paulo um grande cabedal, serem tão pouco paulinos em espírito? Existe grande e importantíssima diferença entre o cre­do paulino e a vida paulina. Alguns de nós que, por anos, vimos com simpatia observando o cenário cris­tão, sentimo-nos constrangidos a parafrasear as palavras da moribunda rainha e exclamar: “Ó Paulo! Pau­lo! Quantos males se fizeram em teu nome!” Crentes, às dezenas de milhares, que até se orgulham de inter­pretar muito bem as Cartas aos Romanos e aos Efésios, não conseguem esconder a gritante contradição espiritual que existe entre seus corações e o coração do Apóstolo Paulo.

Tal diferença pode ser expressa nestas palavras: o Apóstolo Paulo foi um pesquisador, e um achador, e sempre um pesquisador. Tais cristãos são pesquisado­res e achadores, mas não continuam a pesquisar. Ten­do “aceito” a Cristo, inclinam-se a colocar a lógica no lugar da vida, e a doutrina no lugar da experiência.

Para eles a verdade torna-se um véu para esconder o rosto de Deus. Para o Apóstolo Paulo era a porta de entrada à Presença de Deus. O espírito de Paulo era o do ansioso explorador. Pesquisava ele as colinas de Deus, em busca do ouro do conhecimento ou comu­nhão pessoal e espiritual. Muitos hoje se atêm à dou­trina de Paulo, muito embora não o sigam na sua apaixonada ansiedade em prol da realidade divina. Podem tais indivíduos ser tidos como paulinos, a não ser de nome e rótulo?
Se Paulo Estivesse Pregando Hoje
Com estas palavras — “Para que possa conhecê-lo” — o Apóstolo Paulo respondeu aos queixosos re­clamos da carne e correu em busca da perfeição. Todo lucro contou como perda pela excelência do conheci­mento de Cristo Jesus, o Senhor; e, se o conhecê-lo melhor lhe significava sofrimento, e mesmo a morte, isto não impedia o Apóstolo de marchar para a frente. Para ele o ser semelhante a Cristo era algo sem preço. Suspirava por Deus como o cervo suspira pelos ma­nanciais de águas, e para ele o mero raciocínio tinha pouco que ver, comparado à vida que sentia.

Na verdade, boa série de conselhos e de ignóbeis escusas poderia ser apresentada para afrouxar-lhe o passo, disso temos ouvido bastante. “Poupe sua saúde” — um amigo prudente lhe teria dito. E outro: “Você corre o perigo de ficar maluco, ou sofrendo dos ner­vos". E um terceiro diria: "Você muito logo será apon­tado como extremista"; e um pacato professor de Bí­blia, com mais teologia do que sede espiritual, apres­sa-se em dizer-lhe não há mais nada a ser pesquisado, ou buscado. E diz: "Você já foi aceito no amado, e abençoado com todas as bênçãos espirituais nos luga­res celestiais em Cristo. Que mais quer você? Tudo que você tem a fazer é crer, e esperar o dia final da vitória dEle".

Então, o Apóstolo Paulo precisaria ser exortado, se vivesse conosco em nossos dias, pois assim substancial­mente, tenho visto se amortecerem e se atenuarem as aspirações dos santos, quando eles se movimentam, para viver com Deus num crescente grau de intimida­de. Mas, conhecendo a Paulo como o encontramos nas páginas do Novo Testamento, é seguro presumir que ele repudiaria tão baixo conselho de conveniência ou utilitarismo, e avançaria para o alvo — o prêmio da suprema vocação de Deus em Cristo Jesus. E bem faremos em segui-lo.

Quando o Apóstolo exclama: "Para que possa co­nhecê-lo", emprega o verbo conhecer não no sentido de intelecto e sim no seu sentido de experiência. Pre­cisamos compreender bem que ele quis referir-se não à mente e sim ao coração. O conhecimento teológico é conhecimento acerca de Deus. Conquanto indispen­sável, não é suficiente.

Tem ele para com a necessidade espiritual do ho­mem a mesma relação que um poço tem para com a necessidade material do seu físico. Não é propriamen­te por aquele poço cavado na rocha que suspira o viajor suarento e coberto de pó, e sim pela água lím­pida e fresca que dele jorra. Assim, o que sacia a antiga sede do coração do homem não é o conhecimento intelectual de Deus, e sim a Pessoa e a Presença real do próprio Deus. E isso nos vem a nós pela doutrina cristã, mas é muito mais que mera doutrina. O objeti­vo da verdade cristã é levar-nos a Deus e nunca subs­tituir a Deus.
Nova Aspiração Entre os Evangélicos
Nos últimos tempos tem surgido dentro do coração de um crescente número de crentes evangélicos uma nova tendência ou aspiração que busca uma experiên­cia espiritual acima da média, ou comum. Não obstan­te, a maioria ainda se esquiva a esse desejo ardente e levanta objeções que evidenciam má compreensão, ou medo, ou declarada incredulidade. Então, aponta-se para os pseudocristãos neuróticos, psicóticos, falsos adoradores, e para os desarvorados fanáticos, confun­dindo a todos num só grupo, sem a menor discrimina­ção, como seguidores da "vida mais profunda."

Sendo tal procedimento um verdadeiro disparate, o fato de existir tal confusão obriga aos que advogam essa vida cheia do Espírito a definir o que realmente vem a ser "vida mais profunda" e explicar a posição que tomaram. Que se quer significar com isso? Que é que estamos proclamando?

Quanto a mim, estou bem certo de que estou ensi­nando nada mais que Cristo crucificado. Para que eu aceite um ensino ou mesmo enfatize isto ou aquilo, preciso estar persuadido de tratar-se de uma coisa que está radicada nas Escrituras Sagradas, e também total­mente nos ensinos apostólicos, por seu espírito e índo­le. E deve ainda estar em inteira harmonia com o que de melhor existe na história da Igreja Cristã e na tra­dição, sustentada pelas capitais obras devocionais, pela mais doce e mais radiosa hinologia e pelas mais eleva­das experiências reveladas em biografias cristãs.

Ela precisa também estar dentro dos limites do pa­drão da verdade que nos deu almas santas como Ber­nardo de Clairvaux, João da Cruz, Molinos, Nicolau de Cusa, João Fletcher, David Brainerd, Reginaldo Heber, Evan Roberts, o General Booth, e todo um exército de almas semelhantes que, embora menos do­tadas e menos conhecidas, formam aquilo a que Paulo S. Rees (em outra relação) chama de "a semente do reavivamento". Esta qualificação é muito acertada, porque são estes cristãos extraordinários que impedi­ram a cristandade de entrar em colapso, arrancando-a dos braços da condenável mediocridade espiritual em que vivia.

Falar na "vida mais profunda" não é discorrer sobre algo mais profundo do que a singela religião do Novo Testamento. Melhor: é insistir com os crentes para que explorem as profundezas do Evangelho de Cristo e busquem aqueles tesouros que certamente ele guar­da, mas que certamente para nós ainda não existem. Essa vida é "mais profunda" somente porque a vida cristã média, ou comum, é tragicamente rasa e super­ficial, é de casquinha.

Todos quantos hoje desejam uma vida mais profun­da podem desfavoravelmente ser comparados com alguns cristãos que cercavam outrora os apóstolos Paulo e Pedro. Conquanto não houvessem conseguido grande progresso, tinham seus rostos voltados para a luz e nos fazem sinal para que avancemos. Triste é verificar como podemos justificar nossa recusa em atender ao convite que nos fazem.

Os seguidores da vida mais profunda nos dizem que devemos diligenciar por gozar, numa íntima experiên­cia pessoal, esses elevados privilégios que são nossos em Cristo Jesus, que devemos insistir em provar a do­çura da adoração interior em espírito e em verdade; que, para alcançarmos esse ideal, precisamos, se ne­cessário, ir além desses nossos irmãos que se conten­tam com menos, e enfrentar quiçá tremenda oposição que nos sobrevirá,

O escritor de afamado livro devocional — The Cloud of Unknowing (A Nuvem do Desconhecido) — abre sua obra com uma oração que expressa o espírito do ensino dessa vida mais profunda. Diz então: "Ó Deus, para quem todos os corações estão a descober­to. . . e para quem segredo algum está encoberto, eis que Te busco para que purifiques o intento do meu coração com o indescritível dom da Tua graça, para que eu Te possa amar de modo perfeito e Te louvar dignamente. Amém."

Quem verdadeiramente nasceu do Espírito, a menos que esteja prejudicado por um ensinamento errado, pode acaso fazer objeção a essa inteira purificação do coração que habilita a amar perfeitamente a Deus e a louvá-lo dignamente? Pois é exatamente isso o que desejamos afirmar e ensinar, quando falamos dessa experiência da "vida mais profunda". Ensinamos que isso literalmente se cumpre ou se dá dentro do cora­ção, e que isso não é coisa simplesmente aceita pela cabeça.

Nicéforo, um dos pais da Igreja Oriental, num pe­queno tratado sobre a vida cheia do Espírito, faz ini­cialmente um convite que nos parece estranho, somen­te porque por muito tempo nos acostumamos a seguir a Cristo de longe e nos acomodamos a viver com gente que não O segue de perto. "Vós, que desejais ter para vós a maravilhosa iluminação divina de nosso Senhor Jesus Cristo; que buscais sentir o fogo divino em vossos corações: que vos esforçais por gozar e experimentar o sentimento de reconciliação com Deus; que, ansio­sos por desenterrar o tesouro escondido no campo do vosso coração e por querer possuí-lo, renunciastes todos os bens do mundo; que desejais que as tochas de vossas almas se queimem e brilhem sempre e sempre, e que, para tal fim, renunciastes tudo que há no mundo; que aspirais, mediante experiência consciente, conhecer e receber o Reino do Céu que existe dentro de vós; vinde e farei conhecida a ciência da vida celestial e eterna."

Facilmente poderíamos citar outras palavras seme­lhantes, a ponto de enchermos meia dúzia de volumes. Esta sede de Deus jamais deixou de existir em qual­quer geração. Sempre houve indivíduos que condena­ram os caminhos inferiores e comodistas, e insistiram na necessidade de só palmilhar as elevadas estradas reais da perfeição espiritual. Não obstante, é bom ano­tar que o vocábulo perfeição nunca significou um ponto espiritual terminal nem um estado de pureza que dispensasse a oração e a vigilância. O contrário disto é a verdade exata.
Ouvindo, Mas Não Obedecendo
Os mais notáveis cristãos confirmam unanimemente que, quanto mais perto de Deus, mais aguda e viva se torna a consciência do pecado e o sentimento de desvalia pessoal. As almas mais puras jamais conheceram quão puras eram, e os grandes santos nunca souberam que eram grandes. O próprio pensamento de que eram bons ou grandes teria sido rejeitado por eles como tentação de Satanás.

Ficaram tão enlevados e preocupados em contem­plar a face de Deus que tiveram mui pouco tempo para olhar para si mesmos. Ficaram mais que enlevados nesse doce paradoxo de consciência ou conhecimento espiritual, pelo qual conheceram que estavam limpos mediante o sangue do Cordeiro, e pelo qual sentiram que mereciam somente a Morte e o Inferno, por justa paga. Este sentimento aparece mui nítido e forte nos escritos do Apóstolo Paulo, e igualmente o encontra­mos expresso em quase todos os livros devocionais, bem como nos hinos sacros de maior valia e mais que­ridos.

A qualidade ou virtude da cristandade evangélica há de melhorar muito, caso o desusado interesse que hoje se nota pela religião não deixe a Igreja em pior estado que antes de haver aparecido o fenômeno. Se prestarmos atenção, creio que ouviremos o Senhor dizer a nós aquilo que disse certa vez a Josué: “Dispõe-te agora, passa este Jordão tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos de Israel.” Ou ouviremos o escritor da Carta aos Hebreus dizendo-nos: “Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito.” E, por certo, ouviremos o Apóstolo Paulo a nos exor­tar que “nos enchamos do Espírito Santo”.

Se estivermos suficientemente despertos para ouvir a voz de Deus, de modo algum podemos nos contentar apenas com o “crer nisso”. Como pode o homem crer numa ordem, ou mandamento? Os mandamentos se dão para serem observados, obedecidos; e, enquanto não os pusermos em prática, nada temos feito de po­sitivo. E mais: ouvir mandamentos e deixar de lhes obedecer é infinitamente pior do que nunca os ter ouvido, especialmente à luz do iminente retorno de Cristo e Seu juízo vindouro.



CAPITULO III
Os Dons do Espírito São Também para Nós, os de Hoje?
“A respeito dos dons espirituais, irmãos”, — escre­veu o Apóstolo Paulo aos cristãos de Corinto — “não quero que sejais ignorantes.”

Com tais palavras certamente o Apóstolo não que­ria dizer nada de desairoso ou deprimente. Ao contrá­rio, estava a expressar bondoso interesse por seus correligionários para que não estivessem nem mal informados nem errados acerca de uma verdade tão importante como essa.

É evidente que por algum tempo nós, evangélicos, temos deixado de avaliar devidamente as mais profun­das riquezas da graça que Deus separou para nós em Seus santos propósitos. Em conseqüência disso, temos sofrido grandemente, e mesmo tragicamente. Um dos grandes e abençoados tesouros de que nos temos pri­vado é o direito de possuir os dons do Espírito, os quais nos são oferecidos com gloriosa plenitude e cla­reza na dispensação do Novo Testamento.

Contudo, antes de avançarmos neste ponto, quero deixar claro que não mudei o meu modo de pensar sobre o assunto. O que estou aqui escrevendo vem sendo o meu credo há muitos anos. Nenhuma recente experiência espiritual tem alterado de qualquer modo minha fé. Simplesmente ligo verdades que tenho sus­tentado durante todo o meu ministério público e que venho pregando com inalterável consistência onde e quando sinto que meus ouvintes as podem aceitar.

No que diz respeito às atitudes tomadas para com os dons do Espírito, os cristãos nestes últimos anos se têm dividido em três grupos diferentes, e que são:

Primeiro, os dos que magnificam os dons do Espíri­to a ponto de não enxergarem mais nada.

Segundo, o dos que negam que os dons do Espírito eram para a Igreja nesse período de sua história.

Terceiro, o dos que parecem estar totalmente enfa­dados com tal assunto e já não querem gastar tempo a discuti-lo.

Mais recentemente tomamos consciência de haver ainda outro grupo, de número tão reduzido que parece não merecer classificação à parte. É o dos que desejam conhecer a verdade sobre os dons do Espírito e expe­rimentar o que Deus tem preparado para eles dentro do contexto da sadia fé neotestamentária. Para estes é que escrevemos estas linhas.
Qual é a Igreja Verdadeira
Todo problema espiritual tem raiz teológica. Sua solução depende do ensino das Sagradas Escrituras e da correta compreensão desse ensino. Essa correta compreensão constitui uma filosofia espiritual, isto é, um ponto de vista, um terreno de grande vantagem de onde se pode divisar, de vez, toda a paisagem, surgindo cada pormenor em sua relação própria para com os demais. Uma vez atingido esse vantajoso terreno estamos aptos a avaliar qualquer ensino ou interpreta­ção que se nos ofereça em nome da verdade.

Na Igreja a compreensão reta e exata dos dons do Espírito depende da reta conceituação da natureza da Igreja. O problema dos dons não pode ser isolado da questão maior, e nem resolvido por si.

A verdadeira Igreja é um fenômeno espiritual que surge na sociedade humana, e que até certo grau se entremistura com ela, dela porém diferindo bastante por certas características vitais. A Igreja se compõe de pessoas regeneradas que diferem de outras pessoas pelo fato de viverem uma vida de qualidade superior, que lhes foi infundida por ocasião da sua renovação interior.

Tais pessoas são filhos de Deus num sentido bem diverso em que o são os demais seres criados.

A origem deles é divina, e a cidadania deles está no céu.

Adoram a Deus no Espírito, regozijam-se em Jesus Cristo e já não mais confiam na carne.

Fazem parte de uma geração eleita, de um sacerdó­cio real, de uma nação santa, e são um povo peculiar, ou especial.

Esposaram a causa de um Homem rejeitado e cruci­ficado que Se disse Deus e que empenhou Sua própria honra e palavra, dizendo que iria preparar um lugar para eles na casa de Seu Pai e que voltaria para levá-los para lá com sumo regozijo.

Enquanto aguardam tão maravilhosos acontecimento eles vão carregando a cruz dEle, vão sofrendo todas as indignidades e ofensas que os homens atiram sobre eles, por causa de Cristo, e na terra atuam como embaixadores dEle e fazem a todos os homens o bem que podem em nome dEle.

Firmemente crêem que participarão do Seu triunfo, e, por essa razão, voluntária e espontânea, arrostam também a rejeição de Cristo, da parte de uma socie­dade que não os compreende.

E, por isso tudo, não guardam nenhum ressentimen­to, mas, ao contrário, com profundo e sincero desejo, amam seus opositores e deles se compadecem, queren­do que todos os homens se arrependam e se reconci­liem com Deus.

Este é um sereno resumo de um aspecto do ensino neotestamentário sobre a Igreja. Mas, outra verdade, ainda mais reveladora e significativa para todos quan­tos buscam informar-se melhor acerca dos dons do Espírito, é esta de que a Igreja é um corpo espiritual, uma entidade orgânica unida pela vida que reside den­tro dela.


Cada Membro Juntado ao Outro
Cada membro é juntado ao todo por uma relação de vida. Assim como se pode dizer que a alma é a vida do seu corpo, também a habitação do Espírito é a vida da Igreja.

A idéia de que a Igreja é o corpo de Cristo não é errada, pois resulta da ênfase bastante forte que se dá a uma mera figura de linguagem que ele não queria que se tomasse muito literalmente.

O ensino claro e enfático do grande Apóstolo é este: Cristo é a cabeça da Igreja, sendo esta o Seu corpo. Este paralelo aparece cuidadosamente apresentado, e de maneira contínua, em longos trechos. Tiram-se conclusões da doutrina, e se faz com que certa condu­ta moral dependa disso.

Como o homem normal tem um corpo com vários membros obedientes, com uma cabeça a dirigi-los, assim também é exato que a verdadeira Igreja é um corpo, e os cristãos individualmente são membros, e Cristo é a Cabeça.

A mente, ou espírito, atua pelos membros do corpo, usando-os para cumprir seus inteligentes propósitos. O Apóstolo Paulo nos fala do pé, da mão, do ouvido, e do olho como sendo membros do corpo, cada qual com sua função própria, embora limitada; mas é o Espírito que neles opera (1 Cor. 12:1-31).

Ao ensino de que a Igreja é o corpo de Cristo — encontrado no capítulo 12 da Primeira Carta aos Coríntios — segue-se uma lista de certos dons espirituais, e aí se nos revela a necessidade desses dons.

A cabeça inteligente só pode operar quando tem às suas ordens órgãos adrede preparados para várias ta­refas. É a mente que vê, mas não pode ver sem os olhos. É a mente que ouve, mas não pode ouvir sem ouvidos.

E assim acontece com todos os demais membros que são instrumentos por intermédio dos quais a mente se movimenta para o mundo exterior, com o fito de levar avante os planos da mente.

Como toda atividade humana se executa através da mente, assim também a obra da Igreja se faz pelo Espírito, e somente por Ele. Mas, para operar, deve Ele ter no corpo certos membros com habilidades especí­ficas, criados para atuar como meios pelos quais o Espírito pode circular para realizar os fins determinados. Esta é em poucas palavras a filosofia dos dons espirituais.
Quantos Dons Há?
Diz-se em geral que existem nove dons do Espírito (Suponho isto, porque o Apóstolo Paulo nos dá uma lista de nove em 1 Cor. 12.) Por certo o Apóstolo se refere a nada menos de 17 (1 Cor. 12:4-11, 27-31; Rom. 12:3-8; Ef. 4:7-11). E aí não se trata de talen­tos naturais, e sim de dons concedidos ou distribuídos pelo Espírito Santo, com o objetivo de capacitar o crente para o seu lugar, ou posto, no corpo de Cristo. Os dons são, portanto, como tubos de um grande órgão, permitindo ao organista um vasto alcance e amplitude a ponto de produzir música da melhor qualidade. Mas, repito, tais dons são mais do que talentos naturais. São, na verdade, dons espirituais, dons do Espírito Santo.

Os dons ou talentos naturais capacitam o homem a atuar dentro do campo da natureza. Mas, por inter­médio do corpo de Cristo, Deus está a realizar uma obra eterna, muito acima e muito além do reinado da natureza decaída. Isso requer também uma operação sobrenatural.

O trabalho ou a atividade religiosa pode ser reali­zado por homens naturais não dotados dos dons do Espírito, e pode mesmo muito bem ser feito, com rara habilidade. Mas toda obra destinada à eternidade só pode ser realizada pelo Espírito eterno. Nenhuma obra é eterna, se não for feita pelo Espírito, mediante os dons que Ele mesmo implantou nas almas de pessoas remidas.

Por toda uma geração, certos mestres evangélicos nos têm dito que os dons do Espírito cessaram por ocasião da morte dos apóstolos, ou quando se comple­tou o Novo Testamento. Certamente esta doutrina não tem a seu favor sequer uma sílaba de autoridade bíbli­ca. Os que defendem tal idéia devem assumir inteira responsabilidade por essa aberrativa manipulação da Palavra de Deus.

O resultado desse errado ensino é este: entre nós, o número de pessoas com dons do Espírito é sinistramen­te pequeno. Quando tão desesperadamente precisamos de líderes dotados, por exemplo, de discernimento, não os temos, e somos compelidos a nos valer das técnicas do mundo.

Esta hora, tão assustada e angustiosa, está a exigir pessoas dotadas de visão profética. Bem ao contrário, só temos homens que presidem a relatórios, votações, e reuniões de discussões bombásticas e estéreis.

Necessitamos de homens que tenham o dom do co­nhecimento. Em vez disso, temos muitos formados e escolados, doutores, sabichões — e nada mais.

Assim, podemos estar nos preparando para a trági­ca hora em que Deus possa nos pôr de lado como evangélicos de rótulo e suscitar outro movimento para perpetuar o cristianismo do Novo Testamento, conservando-o vivo sobre a face da terra. "Seremos filhos de Abraão. Deus pode destas pedras suscitar filhos de Abraão."

Neste assunto a verdade é esta: as Escrituras Sagra­das de modo mui claro inculcam o dever de se possuir os dons do Espírito. O Apóstolo Paulo nos exorta a desejar e mesmo a cobiçar os dons espirituais (1 Cor.12:31 e 1 Cor. 14:1). Parece que não se trata de questão de escolha para cada um de nós, ou matéria facultativa, e sim um mandamento escriturístico – que todos busquem ficar cheios do Espírito

Acho, porém, que devo acrescentar uma palavra de aviso.

Os vários dons espirituais não têm todos o mesmo valor, como o Apóstolo Paulo esclareceu mui cuida­dosamente.

Certos irmãos têm exaltado desproporcionalmente um dom mais do que os outros dezesseis. Entre esses irmãos contam-se muitas almas piedosas, mas em geral os resultados morais desse doutrinamento não têm sido bons.

Na prática, têm redundado em condenável e vergo­nhoso exibicionismo, tendendo-se a depender de expe­riências em vez de depender de Cristo; e não poucas vezes faz-se ausente aquela capacidade de distinguir ou separar as obras da carne das operações do Es­pírito.

Então, aqueles que negam que os dons do Espírito são para nós, os de hoje, e aqueles que insistem em tomar como seu passatempo favorito um desses dons, erram muito; e todos nós estamos sofrendo as conse­qüências dos seus erros.

Hoje não existe mais motivo ou escusa para se per­manecer na dúvida. Assiste-nos todo o direito de espe­rar que nosso Senhor conceda à Sua Igreja os dons espirituais que Ele de fato jamais nos negou, mas que temos deixado de receber unicamente por causa de nosso erro ou incredulidade.

É muitíssimo possível que Deus esteja concedendo e distribuindo os dons do Espírito a quem Ele pode conceder e na medida em que Ele pode ainda que as condições por Ele exigidas sejam imperfeitamente satisfeitas. Se Deus agisse de outro modo, a tocha da verdade bruxulearia e acabaria morrendo.

Todavia, devemos ver claramente o que Deus fará por Sua Igreja, caso todos nos prostremos diante dEle, com a Bíblia aberta a nossos olhos, e Lhe digamos: “Senhor, eis aqui o Teu servo! Seja feito em mim aquilo que Tu queres."

CAPITULO IV
Como Ficar Cheio do Espírito Santo
Quase todos os cristãos querem ficar cheios do Es­pírito Santo. Mas, poucos querem ser enchidos com o Espírito.

Mas, como um cristão pode conhecer a plenitude do Espírito, se ainda não passou pela experiência de ser enchido com Ele?

É inútil dizer ou contar a alguém como se encher do Espírito, se esse alguém ainda não admitiu que isso se pode dar. Ninguém espera uma coisa ou fato de que não está convencido ser a vontade de Deus para a sua vida, ou que não se enquadre nas promessas, feitas pelas Escrituras.

Antes, pois, de ter qualquer valor esta pergunta — Como posso ficar cheio do Espírito? — aquele que busca a Deus deve estar certo de que é realmente pos­sível experimentar-se o ficar cheio do Espírito. A pes­soa que não tem certeza disso não tem base alguma para esperar que tal se dê. Onde não há esperança, ou expectação, ou espera, não há fé nenhuma: e, onde não há fé, a pesquisa ou busca é coisa inútil, sem sig­nificado.

A doutrina do Espírito, e de sua relação com o crente nesta ultima metade do século ficou amortalhada ou toldada por uma nevoa semelhante aquela que encobre a montanha em tempo tempestuoso. Na verdade um mundo de confusão cercou e ocultou esta verdade Aos filhos de Deus se ensinaram doutrinas contrárias extraídas dos mesmos textos; foram eles avisados ameaçados e intimidados até ao ponto de instintivamente se furtarem de fazer a menor referên­cia ao ensino bíblico sobre o Espírito Santo.

E tal confusão não se deu por acidente, não. O ini­migo é quem fez isso. Satanás sabe muito bem que o cristianismo sem o Espírito Santo é coisa tão mortífera como o modernismo, como a heresia. E tudo ele tem feito e vem fazendo para impedir que entremos na posse e gozo da nossa verdadeira herança cristã.

Qualquer igreja sem o Espírito está desarvorada e sem ajuda, como Israel se acharia no deserto, caso deles se afastasse a nuvem de fogo. O Espírito Santo é a nossa nuvem durante o dia, c o nosso fogo durante a noite. Sem Ele marcharemos pelo deserto sem alvo, sem meta.

E isso é exatamente o que estamos fazendo em nossos dias. Dividimo-nos em grupelhos de esfarrapa­dos, cada qual caminhando atrás de um fogo-fátuo ou de um vaga-lume, pensando estar seguindo o Xequiná (a arca da presença divina). Assim, não se deve dese­jar apenas que de novo se faça visível a coluna de fogo. Isso é agora coisa imperativa.

A Igreja só terá luz quando estiver cheia do Espírito, e estará cheia somente quando os membros que a compõem forem enchidos individualmente. Necessário é ainda dizer que ninguém se encherá enquanto não se convencer de que o encher-se faz parte do plano total de Deus para a redenção; de que nada aí é adicionado, ou extra, nada é estranho, ou excêntrico, pois que se trata de uma apropriada operação espiritual, feita por Deus, baseada na obra expiatória de Cristo, e dela decorrente.

O ansioso inquiridor deve estar bem certo disso, a ponto de estar convencido dessa verdade. Precisa crer que tudo isso é coisa normal e certa. Precisa crer tam­bém que Deus quer que ele seja ungido com uma por­ção de óleo fresco, em adição a todas as dez mil bên­çãos que por certo já haja recebido das dadivosas mãos divinas.

Até chegar a se convencer bem disso, recomendo que se separe tempo para jejuar e orar e meditar nas Escrituras Sagradas. A fé vem da Palavra de Deus. Não basta a sugestão, a exortação ou o efeito psico­lógico do testemunho de outros que já tenham sido enchidos.

Se a pessoa ficar persuadida pelas Escrituras, não forçará daí o assunto nem se deixará arrastar pela emoção com que os manipuladores costumam apresen­tá-lo. Deus é maravilhosamente paciencioso e compreendedor, e esperará a movimentação vagarosa do coração por apanhar toda a verdade. Nesse ínterim, o inquiridor deve estar calmo e confiante. No tempo certo Deus o conduzirá na travessia do Jordão. Basta que não afrouxe na carreira, nem se afobe, por querer avançar mui depressa. Muitos têm agido erradamente, e com isso têm arruinado a vida cristã.

Depois de o indivíduo se convencer de que pode ser enchido com o Espírito, deve desejar essa bênção. Ao inquiridor interessado costumo fazer estas perguntas: Você está certo de que quer ser possuído por um Espí­rito que, sendo puro, gentil e sábio e amorável, insis­tirá com você por ser o Senhor de sua vida? Está certo de querer que sua personalidade seja tomada por Um que exigirá obediência à Palavra escrita? Está dispos­to a não tolerar em sua vida nenhum dos pecados do ego: egocentrismo, indulgência própria (ou comodis­mo)? O Qual não lhe permitirá pavonear-se nem ga­bar-se nem exibir-se? O Qual tomará de suas mãos o leme de sua vida e reservará para Si o soberano direito de pôr você à prova e discipliná-lo? O Qual o privará de muitas das suas predileções que secreta e sorratei­ramente prejudicam a sua alma?

Se você não puder responder a estas perguntas com um sincero e nítido Sim, é claro que você não está querendo ser enchido. Você pode estar querendo emo­ção ou a vitória, ou o poder, mas não estará querendo realmente ser enchido com o Espírito. O seu desejo é talvez pouco mais do que uma fraca vontade e não é suficientemente puro para agradar a Deus, o Qual exige tudo ou nada.

E outra vez pergunto: Você está certo de que preci­sa ser enchido com o Espírito? Cristãos, às dezenas de milhares, tanto leigos como pregadores e missionários, esforçam-se por avançar sem ter uma clara experiên­cia da plenitude do Espírito. Assim, tal obra ou esfor­ço sem o Espírito só pode acabar em tragédia no dia de Cristo. E isto é coisa de que os cristãos comuns ou medianos parecem estar esquecidos. Mas, a seu respei­to, leitor amigo, que é que está acontecendo?

Talvez sua inclinação doutrinária esteja levando você a não admitir esta crise de plenitude do Espírito. Muito bem; verifique, então, o que essa inclinação lhe esta trazendo. Que é que sua vida está produzindo? Você continua a realizar a obra religiosa, pregando, vendo, dirigindo reuniões, mas, qual é a qualidade do seu trabalho? É verdade que você recebeu o Espírito quando se converteu. Mas, é verdade que, sem uma posterior unção, você estará preparado para resistir à tentação, obedecer às Escrituras, com­preender a verdade, viver vitoriosamente, morrer em paz e ir ao encontro de Cristo sem constrangimento no dia da vinda dEle?

Se, por outro lado, sua alma suspira por Deus, pelo Deus vivo, e seu coração seco e vazio se desespera, e anseia ter uma vida cristã normal sem uma posterior unção, eu lhe pergunto: Esse desejo seu é inteiramente absorvente? É ele a coisa mais importante de sua vida? Impera ele em todas as atividades religiosas comuns e enche você de um vivo anseio que só pode ser descrito como a angústia do desejo? Se o seu coração diz Sim a estas perguntas, você pode achar-se no caminho cer­to que leva a uma eclosão que transformará todo o seu viver.

É justamente nesse preparo para receber a unção do Espírito que falha a maioria dos cristãos. Provavel­mente ninguém jamais ficou cheio sem ter primeiro passado por um período de funda perturbação de alma e de inquietação interior. E, quando nos vemos a en­trar nesse estado, a tentação é de nos sentirmos ater­rados, em pânico, e de recuar. Satanás nos exorta a não nos afobarmos, pois que, se isso se der, naufra­garemos na fé e desonraremos o Senhor que nos comprou.

Por certo, Satanás não se interessa por nossa melhoria espiritual, e muito menos por promover a causa de nosso Senhor. O propósito dele é enfraquecer-nos e deixar-nos desarmados no dia da batalha. E milhões de crentes aceitam suas deslavadas mentiras como se tossem verdades evangélicas, e voltam para as suas cavernas, como os profetas de Obadias, para passarem a viver a pão e água.

Antes de ter lugar a plenitude, deve processar-se o esvaziamento. Antes de Deus nos encher com Sua Pes­soa urge que nos esvaziemos de nós mesmos. E é esse esvaziamento que traz penoso desapontamento e até desespero do ego, de que se queixam muitas pessoas, justamente antes de passar por essa nova e radiante experiência.

Deve ter lugar, então, uma total desvalorização do ego, a morte de todas as coisas de fora de nós e de dentro de nós, pois que do contrário jamais se dará um real enchimento com o Espírito Santo.

O ídolo pra mim sem igual, mais querido.

Seja ele quem for, qualquer que tenha sido,

Ajuda-me a quebrá-lo em frente ao trono Teu,

E adorar só a Ti, Senhor da terra e céu.

Desembaraçadamente cantamos amiúde esta estro­fe, mas não a cantamos no Espírito de oração, por recusarmos abandonar ou quebrar o ídolo do qual aí se fala. Abrir mão do último ídolo, ou quebrá-lo, sig­nifica mergulharmos em um estado de íntima solicitude que não pode ser satisfeito por nenhuma reunião evan­gélica, nem por nenhuma comunhão ou companheiris­mo com outros cristãos. Por esta razão é que muitos e muitos cristãos se julgam seguros e preferem uma vida de acomodações. Eles têm algo de Deus, não há negar, mas não têm o todo; e Deus tem uma parte deles mas não o todo. E assim vão eles vivendo uma vida de mornidão, tentando esconder atrás de industriados sorrisos, e de pequenos e animados coros, a triste indigência espiritual de suas vidas.

Uma coisa ressalta com clareza cristalina: não é nada louvável a caminhada da alma pela negra noite a dentro. O sofrimento e a solidão não tornam o ho­mem mais querido aos olhos de Deus nem fazem jus à cornucópia de óleo pela qual ele tanto anseia. Nada podemos comprar de Deus. Tudo nos vem por inter­médio de Sua benignidade, na base do remidor sangue de Cristo, e é dom gratuito sem quaisquer condições ou restrições.

O que a agonia da alma faz é arar a terra sem cul­tura, maninha, e esvaziar o vaso, e apartar o coração dos interesses mundanos e focar a atenção em Deus.

Tudo o quanto sucede antes é no sentido de prepa­rar a alma para o divino ato de encher. E o encher não é em si uma coisa complicada. Enquanto me es­quivo de fórmulas que ditam procedimento no setor espiritual, julgo que a resposta à pergunta: — “Como posso ficar cheio do Espírito” — deve ser expressa em quatro palavras, todas elas verbos na voz ativa. São: (1) render, ou renunciar; (2) pedir; (3) obede­cei; (4) crer.

Render: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericór­dias de Deus que apresenteis os vossos corpos por sa­crifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:1-2.)

Pedir: “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” (Lucas 11:13.)

Obedecer: “Ora, nós somos testemunhas destes fatos e bem assim o Espírito Santo, que Deus outor­gou aos que lhe obedecem” (Atos 5:32).

Para se receber a unção do Espírito e absolutamente indispensável uma completa e irrelutante obediência à vontade de Deus. Enquanto esperamos diante de Deus. devemos reverentemente examinar as Escrituras e atender a voz da gentil quietude, para nos enfronharmos daquilo que o Pai celestial espera de nós. Então, confiando em que Ele nos capacitará, obedeceremos com o melhor de nossa habilidade e compreensão.



Crer: “Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?” (Gálatas 3:2.)

Sabendo que o enchimento do Espírito se recebe pela fé, e somente pela fé, convém nos defendermos dessa imitação da fé que não passa de um assentimento mental à verdade. Essa imitação da fé, ou pseuda fé, tem sido a fonte de grande desapontamento para multidões de almas inquiridoras. A verdadeira fé in­variavelmente traz o testemunho.

Mas, que testemunho é esse? Não é nada físico, vocal nem psíquico. O Espírito nunca pactua com a carne. O único testemunho que Ele dá é de natureza subjetiva, só conhecido pelo próprio indivíduo. O Es­pírito Se anuncia ou Se apresenta no mais profundo do espírito humano. A carne nada aproveita, mas o coração crente conhece e sabe. Santo, Santo, Santo.

Agora, uma última coisa: nem no Velho Testamen­to nem no Novo, nem no testemunho cristão, como o temos registrado nos escritos dos santos, quanto eu saiba, jamais algum crente ficou cheio do Espírito Santo sem saber que isso se deu em sua vida. Nem ficou alguém cheio do Espírito que não soubesse quando isso se deu. E Jamais alguém foi enchido gradativamente.

Por detrás dessas três árvores muitas almas de co­ração dividido têm buscado esconder-se como Adão se ocultou da presença do Senhor; mas tais coisas não bastavam para os esconderem. O homem que não sabe quando foi enchido com o Espírito realmente nunca o foi (muito embora seja possível esquecer a data). E a pessoa que espera ser enchida gradativamente nunca se encherá de qualquer maneira.

Em minha humilde opinião, acho que a relação do Espírito para com o crente é o problema mais vital que a Igreja enfrenta hoje. As questões suscitadas pelo existencialismo cristão ou pela nova ortodoxia nada representam, quando comparadas com este problema mais que sério. O ecumenismo, as teorias escatológicas — nada disso merece consideração, pelo menos en­quanto cada crente não der resposta afirmativa a esta pergunta: “Recebestes o Espírito quando crestes?”

Pode muito bem acontecer que, uma vez enchidos com o Espírito, sentiremos, com sumo regozijo, que essa plenitude do Espírito resolveu para nós todos os demais problemas.


O CAMINHO DO PODER ESPIRITUAL
Nós, cristãos, fazemos extravagantes alegações sobre nós mesmos como crentes em Cristo, mas nossas experiências religiosas são muito diferentes. É grande a contradição entre nos­sas vidas e nossas crenças doutrinárias.

Muitos cristãos se julgam seguros e preferem uma vida de acomodações. Eles têm algo de Deus, não há o que negar, mas não têm tudo. E Deus tem parte deles, mas não o todo. E assim vão eles vivendo uma vida normal, tentando esconder atrás de sorrisos forçados a triste indigência espiritual de suas vidas,

Nos últimos tempos vem surgindo no coração de um número cada vez maior de crentes, uma nova aspiração. Eles buscam uma experiência espiritual para que a presença de Deus se torne mais marcante. Desejam conhecer a verdade sobre o poder do Espírito Santo em suas vidas, e experimentar o que Deus tem preparado para eles dentro do contexto da sadia fé neotestamentária. Esta relação do Espírito com os crentes é o problema vital que a igreja enfrenta hoje.

Para essas pessoas que estão buscando o poder de Deus em sua vida, é que este livro foi escrito.


Os livros da série A. W. Tozer são:

Vol. 1 – O Caminho do Poder Espiritual

Vol. 2 – O Poder de Deus Vol. 3 – Mais Perto de Deus

Vol. 4 – De Deus e o Homem

Vol. 5 – A Raiz dos justos

Vol. 6 – A Conquista Divina

Vol. 7 – O Melhor de A. W. Tozer

Vol. 8 – Esse Cristão Incrível

Vol. 9 – Jóias de Tozer

Vol. 10 – Deus Fala Com o Que Mostra Interesse



Vol. 11 – O Home: A Habitação de Deus







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