Caminhos Cruzados



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Mas a quantidade é uma coisa diferente. O professor sente-se capaz de lutar por ela, de cometer excessos, de matar até, se for preciso.

— Pois ora muito bem! Já que ninguém sa...

O tinir duma campainha lhe corta a palavra. A hora do Latim passou. Fiel ao horário, o Prof. Clarimundo cala-se. Pronunciar uma palavra mais da lição seria ilegal. O professor não gosta de infringir as leis.

A colmeia de novo se assanha. Conversas explodem, livres. Os rapazes se levantam.

Um aluno se aproxima de Clarimundo, com ar mis­terioso.

— Professor...

— Que é que há?

— Desculpe, o senhor se esqueceu da gravata...

Clarimundo leva a mão ao colarinho e sente um desfalecimento. Realmente: esqueceu a gravata. Uma onda de sangue lhe tinge o rosto. E ele tem a impressão de que de repente se encontra nu, completamente nu, nu­ma praça pública cheia de gente.

17

Um ritmo que nasceu na África, gemeu nos porões dos navios negreiros, e se repetiu depois — saudade mis­turada com a tristeza do cativeiro — sob os céus da América, nas plantações, sendo mais tarde estilizado por músicos de uma outra raça sofredora e sem pátria — agora está arrastando os pares que dançam no salão do Metrópole.



O jazz toca um blue. O mulato do saxofone solta gemidos dolorosos. O negro do banjo marca a cadência sincopada. O rapaz magro do clarinete ergue para o alto o instrumento rebrilhante e solta guinchos histéricos. O da pancadaria agita os braços, rufa no tambor, sacode guizos, bate nos pratos e no bombo, parece um polvo a dar trabalho a todos os tentáculos.

No espaço que existe entre as duas fileiras de co­lunas brancas ondula e fervilha um mar escuro de ca­beças com manchas coloridas. As grandes luzes claras estão apagadas. A sala se acha mergulhada numa penum­bra. Um zunzum permanente anda no ar de mistura com um coquetel feito dos perfumes mais diversos a se avolu­marem numa onda cálida.

D. Dodó passeia os olhos pela sala e por um instante fica na postura de um triunfador. De algum modo ela é a dona da festa. Esta animação, esta afluência de povo (Povo? Qual! Famílias de nossa melhor sociedade), o êxito da venda de ingressos, o arranjo artístico das me­sas de chá, a boa qualidade da orquestra, a atenção dos garçons de calças pretas e dinner-jacket — tudo foi obra dela. Santa Teresinha deve estar contente lá no céu. Por isso D. Dodó está radiante de alegria aqui na terra.

De vez em quando explodem gargalhadas pelas me­sas onde grupos conversam animadamente.

Chinita sente contra os seios, contra o ventre, contra as coxas, por cima da seda verde-jade do vestido, a pres­são rija e quente do corpo de Salu. Ele a enlaça com força, espalma a mão enorme nas costas dela e, cabeças levemente encostadas, se vão ambos a deslizar à cadência do blue. O saxofone barítono conta uma história amargu­rada. O negro do banjo de repente acorda do marasmo para dedilhar, numa fúria súbita, as cordas do instru­mento.

A respiração de Salu, morna e regular, bafeja a ore­lha de Chinita, pondo-lhe um arrepio no corpo.

Os pares colidem, se confundem, o mar continua a se agitar em ondas compassadas.

— Chinita, estou com uma vontade maluca de te dar um beijo...

A voz de Salu é profunda como o canto do saxofone. Mas não conta uma história triste. Ele falou assim bai­xinho naquele dia no jardim dos Monteiro, no banco de­baixo da paineira. Chinita pensa no primeiro beijo. Ele se mostrou brusco e decidido como Clark Gable. Não pediu, não fez rodeios. Era noite mas não havia lua. O vento farfalhava nas árvores. Ela estava um pouco trêmula, como quem espera um grande acontecimento. Os lábios dele tinham uma aspereza úmida. Não foi um beijo, foi uma mordida. Lá de dentro veio uma voz: Chiniiita! E ela saiu a correr...

Chinita agora sorri. (Nunca mais há de esquecer aquela noite.) A orquestra se cala e fica só o piano can­tando a tristeza africana. Salu continua:

— Olha, Chinita, o beijo é a coisa mais inocente do mundo. Apenas uma união de lábios... Que mal tem? No entanto os moralistas inventaram que é feio. Se a sociedade fosse realmente civilizada...

De súbito um frenesi toma conta do jazz: todos os instrumentos começam a berrar — violinos, saxofones, o trombone, o clarim, o clarinete, o banjo e a pancadaria — e os uivos de desespero dos negros abafam as palavras de Salu.

Bem bom — pensa ele — já estava me saindo as­neira...

De resto, com Chinita não se tem vontade de con­versar. A presença dela convida ao amor, aos contatos. É uma provincianazinha tola, ignorante e besta. Mas bo­nita, apetitosa, fresca, provocante. Salu sente por ela um desejo quase feroz, Quando a vê julga-se obrigado a aper­tá-la, a mordê-la, a fazer-lhe carícias animais. Já compre­endeu, porém, que Chinita, não recebendo de todo mal as suas expansões violentas, gostaria que ele também lhe falasse de coisas doces, do luar, de bangalô entre árvores, de poesia e casamento.

Chinita afasta a cabeça, atirando-se para trás. (Pensa imediatamente em Norma Shearer.) Olha Salu bem nos olhos,

— Nos encontramos amanhã no Imperial? — per­gunta.

— Talvez...

A cara de Chinita escurece.

Por que talvez?

— Se a tua mamãe e o teu papai vão... não contes comigo.

— Ora! Mas por quê?

A idéia da presença da mãe de Chinita enche Salu dum desgosto antecipado. Ele pensa na cara séria da “velha” que parece estar dizendo: “Então, seu Salu, quan­do é que o senhor se explica?”

Chinita procura compor no rosto a mais impressio­nante expressão de zanga. Mas Salu aperta-a com vio­lência contra o peito, encosta mais forte o rosto no rosto dela e numa surdina cariciosa e ao mesmo tempo con­tundente vai dizendo:

— Eu quero você sozinha, só você, só, só, só...

A música cessa com um gemido de agonia em que o saxofone fica chorando numa trêmula fermata. Esta­lam palmas.

Leitão Leiria, sentado a uma mesa, chupa seu cha­ruto e exclama:

— Que indignidade!

Acabam de contar-lhe uma manobra política do par­tido oposicionista. Os seus olhos chispam de indignação.

Do outro lado da mesa, o Dr. Armênio, advogado e pretendente à mão da filha de Leitão Leiria, sorri um sorriso meloso de aprovação sem palavras. A seu lado, Honorato Madeira, quase morto de sono, pensa na sua casa e na sua cama. Consulta o relógio — dez horas.

Tão cedo... Que caceteação!

O Dr. Armênio afaga esta noite uma bela esperança. É possível que hoje Vera decida aceitá-lo. As suas indire­tas, os seus madrigais velados hão de fazê-la compreen­der... Armênio apalpa o coração com um sentimento feliz de tranqüilidade. Ali no bolso de dentro do casaco está a sua caderneta de capa de couro onde ele anotou assuntos para palestra, frases completas durante a se­mana, citações de livros lidos. Daqui a pouco vai reler, recordar, para utilizar os apontamentos na palestra. Vera é tão instruída, tão linda, tão perpicaz. (Armênio não consegue nunca dizer perspicaz.)

— O nosso partido está forte — garante Leitão Lei­ria, muito teso e importante na sua cadeira. Consciente de sua estatura física (é mais baixo que a mulher) pro­cura compensá-la mantendo-se permanentemente emper­tigado. — O nosso partido se eleva como um Pão de Açúcar inabalável por cima desta tormenta desencadea­da... de... de.. .

Debate-se numa ânsia feroz em busca do termo apro­priado. O Dr. Armênio sorri, compreendendo. A sua be­nevolência para com o provável futuro sogro é tão grande, que ele o socorre com um aceno de cabeça e um olhar de compreensão. Sim, não precisa procurar o termo porque ele sabe muito bem o que o seu ilustre e digno amigo quer dizer.

Como a palavra precisa não lhe ocorre, Leitão Leiria dá um chupão violento no charuto e volta ao estribilho:

— Que indignidade! Que indecência!

Honorato Madeira faz um esforço épico para não fechar os olhos, para não se entregar ao sono. Mas será que a Gigina não quer ir embora ainda? Diabo! A sorte é que amanhã é domingo. . .

— O nosso partido representa a estabilidade. A opo­sição é a ambição desenfreada.

A fumaça do charuto sobe num espiral. O jazz rom­pe a tocar um samba carioca.

Armênio pensa no verso que anotou:

Ses yeux froids, où l’émail serti de bleu de Prusse, Ont l’éclat insolent et dur du diamant.”

Verlaine. Que grande poeta! E como os versos se adaptam ao caso... Armênio pensa nos olhos de Vera. Têm o brilho insolente e duro do diamante...

Os pares rodopiam à música reboleante do samba. O pistão faz um floreio agudíssimo e Honorato Madeira desperta.

— Porque precisamos opor um dique a essa onda sangrenta do comunismo...

Leitão Leiria alimenta a secreta esperança de ser eleito deputado pelo partido da situação, ajudado pelo clero.

Os músicos tocam freneticamente, o suor a escorrer-lhes pelo rosto. (Um senhor magro de colarinho duro e alto comenta com um vizinho: “Que inverno esquisito este, nosso amigo, parece o forte de janeiro...”) O es­pírito moleque e despreocupado da gente da Favela se encarna por alguns minutos nos corpos dos bailarinos. O samba é repinicado, molengo, sinuoso, sensual, gaiato. Num dado momento abranda-se a fúria dos músicos e um mulatinho risonho, de cabelo frisado e lambuzado de brilhantina, avança pernóstico para a ponta do estrado e começa a cantar:

O samba desceu do morro,

prendeu fogo na cidade,

ôi!

O mar agora fervilha, numa crispação desordenada, como que animado por um sopro de fogo.

A voz do mulato é safada. A cara do mulato está pálida de pó de arroz. O cantor olha com olhos quentes para as meninas que passam dançando. Ele agora é rei, domina o salão, o mensageiro que é da malandragem, portador dum convite ao prazer e à despreocupação. Não vale a pena a gente se amofinar. Deus é brasileiro. E no fim a gente morre mesmo. Toca pra gandaia, meu povo! o americano e o inglês estão mesmo pra nos emprestar dinheiro...

E sorrindo com malícia, o mulato faz um floreio com que nunca nenhum Caruso jamais sonhou. A orquestra entra forte, o cantor volta para o fundo, as ondas conti­nuam a subir e a descer.

Num dos ângulos da sala o Cel. Pedrosa se defende heroicamente contra uma investida de moças. Elas fa­lam todas ao mesmo tempo, envolvem Zé Maria como uma farândola de demônios.

— Seja bonzinho!

— Oh! compre, coronel!

— ...para o asilo!

— Só cinqüenta!

E cada uma delas levanta no ar, na ponta dos dedos, uma flor. O coronel ri — hê! hê! hê! quem havera de dizer que o Zé Maria que vendia bacalhau atrás do bal­cão... Ora, vejam só... Eu só queria ver era a cara do Madruga.

— Compre, coronel.

O coro de vozes esganiçadas, misturado com os ber­ros da orquestra, ensurdece o homem que o bilhete 3601 projetou violentamente para dentro dum mundo encanta­do com o qual ele nem ousava sonhar.

— Bueno, vou satisfazer todas...

Os olhinhos miúdos do coronel brilham de alegria. Tira a carteira. As moças se aproximam ainda mais.

— Primeiro eu!

— Compre a minha!

— Esta é a mais bonita!

E com a mesma naturalidade com que, um ano atrás, ele dava tijolinhos de goiabada aos filhos dos fregueses, Zé Maria agora distribui cédulas de cinqüenta mil-réis entre as meninas de caridade. Em troca, elas lhe prendem flores na lapela com alfinetes. As maçãs do rosto tostado crescem num sorriso feliz.

Chinita e Salu sentam-se a uma mesa.

— Que é que você vai tomar? Guaraná?

— Coquetel,

Um garçon se acerca deles.

— Dois Martinis — pede Salu.

Contra o branco da larga coluna, Chinita vê recortar-se o busto do namorado. Como a roupa escura lhe dá uma aparência distinta! E esses olhos que penetram, essa maneira autoritária e decidida de olhar, esse ar de quem sabe que pode fazer tudo, conseguir tudo...

Chinita contempla-o com amor. Enfim este é o am­biente com que ela vivia a sonhar em Jacarecanga. Uma vida de cinema. Festas com gente bem vestida, perfu­mes, jazz com pretos que tocam saxofone, coquetéis, rapazes atrevidos, automóveis, clubes, piscinas... Chi­nita não pode gozar de tudo isto simplesmente. Não sabe aceitar a realidade como um fato consumado e natural. É preciso comparar, imaginar... Quando em Jacarecanga dançava com os caixeirinhos do comércio no Recreio, ela entrecerrava os olhos e se imaginava num centro maior, num baile mais fino; em vez das paredes sem graça do clube, via espelhos que refletiam caras novas, diferentes e bonitas; em vez do Lucinho da Loja Central, quem estava dançando com ela era um moço elegante e educado da capital, que falava em livros, em viagens e usava perfu­mes caros. Agora aqui no salão do Metrópole, para me­lhor gozar da festa, Chinita precisa imaginar que está em Hollywood. Não é difícil... Basta olhar para Salu, para os garçons de dinner-jacket (o Cel. Pedrosa quando os viu deu uma risada — hê! hê! — e perguntou se os coletinhos dos garçons eram de morim), para o jazz, (o garçon traz os Martinis) para os coquetéis...

Chinita toma um gole. Gostar propriamente dessa bebida ela não gosta. Mas coquetel é algo de tão chique, lembra tantos filmes...

— Que tal? — pergunta Salu.

— O. K.! — responde ela, contente por se ter lem­brado de dizer oquêi, como nas fitas americanas.

— E a farra na segunda-feira? — Salu lança a per­gunta e encosta a cabeça na coluna. Uma pergunta ociosa, por pura falta de assunto, pois aqui em público não é possível beijar e apertar a namorada.

— A farra lá de casa? Sai sempre na segunda e eu conto contigo...

— Se você prometer ser boazinha comigo, eu vou.

— Talvez...

Chinita aproveita a oportunidade para retribuir o talvez...

— Com promessas vagas não conte comigo.

— E que é que queres dizer com “ser boazinha”?

Salu agora se inclina para a frente, como quem vai fazer uma confidência. O seu rosto se fixa numa expres­são decidida. As sobrancelhas grossas se cerram de ma­neira a ficarem quase unidas. Com um sorriso de canto de lábios, ele sugere:

— Um passeio pelo parque, só nós dois. Tenho uma coisa muito importante pra te dizer...

Chinita sente-se embalada ao som desta voz. Tudo isto é tão bom, tão parecido com o cinema...

Os olhos de Salu brilham de desejo.

18

Batem à porta.



Contrariado, o Prof. Clarimundo levanta-se para atender ao chamado.

— Quem é?

Uma voz familiar:

— Sou eu. Vim trazer o leite.

Abre a porta.

A viúva Mendonça, rechonchuda e sorridente, tem na mão uma bandeja com um copo de leite e um pedaço de bolo.

— Ora... Não precisava ter esse incômodo...

— Incômodo nenhum, professor.

Ele toma da bandeja e fica parado, indeciso. Enqua­drado pela porta, o vulto da viúva quase se dissolve na escuridão do fundo.

— Bem... — faz ela.

— Pois eu lhe fico muito grato.

Silêncio. Embaraço. A viúva quer entrar num assunto:

— Pois o senhor não há de ver?

Os olhos do professor exprimem surpresa. Que que­rerá esta mulher, bom Deus?

A viúva torna a falar:

— A gente sempre tem uma coisa na vida pra se incomodar...

O mote foi dado. Agora, naturalmente, o professor pergunta: Que foi que aconteceu? E então ela desembucha a história toda.

Mas o silêncio continua. O professor espera, com a bandeja na mão. O copo treme, o leite transborda.

— Pois professor, o senhor acredita que essa gente aí debaixo ainda não me pagaram?

O professor apenas acredita em que a concordância de gente com pagaram é um atentado terrível à integri­dade física e moral da gramática. O resto não interessa...

A viúva Mendonça está agora disposta a contar tu­do:

— A gente do João Benévolo... Três meses atrasa­dos no aluguel. Ele, o água-morna, está desempregado. Ela costura mas não tira nada. Nem dá pra comer. Às vezes fico com pena e dou alguma coisa. Não! — A viúva se inflama de entusiasmo indignado. — Mas isto não pode durar! Preciso botar eles pra rua. Sou pobre, vivo do meu trabalho honesto e não posso ser assim explorada...

O leite escorre pelas bordas do copo, empapando o bolo. Os olhos do professor estão fixos na cara da interlo­cutora, mas realmente estão vendo num quadro-negro imaginário o desenvolvimento de um teorema.

Agora a voz da dona da casa é um sussurro confi­dencial:

— Vem todas as noites visitar ela um sujeito alto mal-encarado. Dizem que foi namorado dela. Isso não está me cheirando bem. Ele está arrumado na vida, diz que dá dinheiro a juros. Aí tem dente de coelho. Eu sei que o João Benévolo não gosta da coisa... O sujeito vem todas as noites. O senhor imagina, professor, ainda por cima esse negócio...

Clarimundo volta à realidade. Seus olhos, porém, continuam vazios. Ele não sabe nem quer saber quem é João Benévolo. Essas coisas triviais da vida não têm para ele existência real. O que importa é cumprir o horário, dar as lições honestamente, compreender Einstein e levar para diante aquele projeto grandioso de escrever o livro em que o habitante culto de Sírio vai descrever a Terra e a vida vistas do seu ângulo. O mais.. .

— Não acha que tenho razão?

O professor faz um sinal afirmativo. A viúva Men­donça pede desculpas por ter incomodado o seu hóspede. Se todos fossem como ele, homem quieto, sério, bom pa­gador...

— Então boa noite, professor.

— Boa noite. E obrigado.

A mulher se vai. Clarimundo fecha a porta e atira-se, esquecendo o leite e o bolo, sobre Einstein.
19

No Metrópole apagaram-se de novo as luzes fortes e volta a reinar o crepúsculo azul.

A uma distância respeitável, com os dedos a tocar mal e mal as costas ossudas de Vera, Armênio luta com uma valsa lenta. Seus movimentos são tardos e difíceis. Custa-lhes seguir o ritmo da música. Suas figuras são pobres ou, antes, é uma única que se repetiria a infinito se a música não parasse. Mas a música pára. Felizmente.

— Obrigada — diz Vera.

E sorri um sorriso longínquo. Seus olhos ficam a procurar Chinita com avidez.

Ses yeux froids, ou l’émail serti... (ou sorti — Armênio fica indeciso) de bleu de Prusse (ou Prousse). Armênio por causa das dúvidas não cita. Sorti ou serti? Prusse ou Prousse? Preciso tomar fosfatos.

Contempla com uma admiração respeitosa o rosto de Vera. Ela não é propriamente, bonita. É esquisita, tem uma coisa diferente das outras. Cabeça miúda, corpo de rapaz, esbelta, gestos masculinos. Exquise. (Armênio gosta de pensar em francês.) Étrange. Fausse-maigre. Tem qualquer coisa de gata. Quelque chose de chatte. Sua voz é algo que lembra um choque de objetos de madeira. Voz de pau — será que se pode dizer assim? E é de boa família, gente de dinheiro, o pai promete fazer carreira na política. Armênio pode pensar à vontade, porque Vera está ausente... Étrange! Unique!

Enfim os olhos de Vera encontram Chinita. O vesti­do verde-jade é inconfundível. Diabo! Ela está de novo com aquele insuportável Salu. Saberá que ele é um per­dido, um aventureiro perigoso? Oh! Vera não compreende como ela mesma se possa interessar desta maneira tão exagerada e veemente por aquela “bobinha, oca e igno­rante”.

Num relâmpago Armênio traça mentalmente um plano de ataque:

— Continua com o mesmo desprezo pelas reuniões sociais?

— Continuo.

A resposta vem rápida, quase impensada.

— Decerto é porque não achou ainda o príncipe en­cantado dos seus olhos... (Le prince charmant... ou enchanté?)

Os olhos de Vera parecem uma paisagem polar. E o seu desdém é ainda mais gelado.

— Príncipe encantado? O senhor, Dr. Armênio, ain­da é do tempo em que as moças acreditavam nessas bo­bagens?

Armênio tem a impressão de que um vento vindo da Groenlândia lhe devasta o corpo e a alma. Insistez! Allez, mon ami! Attaquez!

— Deixe lá... — diz ele com sua voz untuosa, — A senhorita tem escrúpulos de confessar as próprias fra­quezas. A troco de que há de ser diferente das outras!

O sorriso polar continua nos lábios dela. Armênio encontra uma brecha para entrar num assunto interes­sante, para cuja discussão está preparado.

— Além do mais, o espírito das mulheres continua a ser o mesmo que era ao tempo das castelãs da Idade Média. Porque...

Por delicadeza Vera volta os olhos para o interlo­cutor, embora não o veja realmente nem lhe escute as palavras. Está com o pensamento em Chinita. Se aquela diabinha compreendesse... Se soubesse que ao lhe dar a sua amizade ela lhe está dando um presente régio... Porque no fim de contas ela é uma criatura que tem mio­los, ao passo que Chinita...

— Claro que não! — continua o Dr. Armênio. — Como dizia Michelet, a mulher...

Se ao menos — continua Vera a refletir — se ao menos ela conseguisse desviar Chinita daquele homem... Talvez um dia a outra venha a compreender... Antes eram tão mais chegadas... Viam-se mais seguido, Chi­nita passava as tardes naquele quarto violeta.

— Não acha, senhorita? — continua Armênio. — Não acha? — repete, numa insistência polida.

— Acho! — chicoteia Vera.

O Dr. Armênio sorri, vitorioso. Enfin, vainqueur.

— Eu sabia que no fim ia concordar comigo!

Mas a sua alegria se dissipa imediatamente, porque o jazz repete a valsa difícil.

20

O relógio bate onze horas. Laurentina a custo con­tém as lágrimas. Não fica bonito chorar na frente da visita.



Sentado na sua cadeira, muito teso, Ponciano não desvia o olhar do rosto de Laurentina. Nos seus olhos brilha uma sensualidade fria, sem paixão, calculada. To­das as noites ele vem. Sabe que João Benévolo não gosta. Compreende que Laurentina não o encoraja. Mas vem. Ficam conversando, às vezes na presença do outro. Mas quase sempre João Benévolo sai. Laurentina costura. Às nove horas Napoleãozinho vai dormir. O silêncio cai sobre a rua. O assunto escasseia. Os diálogos morrem logo. Mas ele fica. Lembra-se do que se passou há dez anos. Ele era mais moço. Ela — mais moça e mais bonita. Órfã, morava em companhia de duas tias pobres que queriam a todo custo casá-la para se verem livres daquele peso morto. Ponciano era o candidato das titias. Laurentina o aceitava passivamente, sem repulsa mas sem amor. Se­rões monótonos. As tias se revezavam na guarda do par. Ficavam na sala de visitas fazendo croché e cochilando. Laurentina era a imagem viva do desânimo. Ponciano não sabia explicar que era que aquela moça tinha que o atraía tanto. Vontade de tê-la para si. (Era um homem sem poesia, sem ilusões, jamais cantara ao violão, nunca fizera versos.) Laurentina era desenxabida, chorava por qualquer motivo. Mesmo assim ele a desejava. A sala do noivado tinha mobílias antigas, cadeiras e um sofá com carretilhas nos pés, guardanapos de croché, um gato cin­zento, retratos de gente antiga. Um dia apareceu João Benévolo. Escrevia coisinhas românticas em jornalecos. Laurentina se apaixonou por ele. De verdade. As tias não viam futuro no novo candidato, mas Laurentina dizia amá-lo. Todas as noites, quando recebia a visita do can­didato oficial, derramava lágrimas. O desejo de Ponciano não diminuiu mas ele achou melhor retirar-se. Desapa­receu. João Benévolo e Laurentina casaram-se. Passaram-se dez anos...

Agora, sentado aqui nesta casa silenciosa, na frente duma Laurentina que não é mais a moça do passado mas que continua para ele a ser objeto de cobiça (uma cobiça que dormiu durante os nove anos de separação) — Pon­ciano se esforça por achar assunto.

— O João, então, não achou nada ainda...

Laurentina suspira.

— Nada.

— É o diabo.



— É um horror.

Outra vez o silêncio. E assim vai passando o tempo.

Laurentina não sabe direito o que sente diante deste homem. Já compreendeu o que ele pretende, mas não tem coragem para reagir.

Ele torna a falar.



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