Caminhos Cruzados



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A mulher não se queixa. Quase não fala. Um irmão dela ajuda às vezes com algum dinheiro, quando pode... As economias acabaram. O diabo é que a morte está tar­dando. Se ele fosse embora cedo, daria menos trabalho, menos despesas, não haveria tanto perigo para os de casa.

Maximiliano compreende tudo isso. E tem coragem. É quase com alegria que recebe este sol novo.

A mulher diz que a manhã está bonita. Mas diz sem entusiasmo. A cara dela fica mais pálida, mais ama­rela (um amarelo esverdinhado) contra a luz.

— Como vão os meninos?

Pergunta pelos filhos como se eles morassem noutra cidade.

— Vão bem.

— O Pidoca melhorou do pé?

— Botei creolina. Tá melhor.

— Cuidado com o Bidinho, está magrinho, não dei­xes ele andar de pé no chão, pode apanhar umidade.

Ela faz um sinal com a cabeça e pensa nos sapatos do Bidinho, que já têm dois buracões na sola. Sai e volta pouco depois com o leite quente.

Maximiliano estende a mão para apanhar a caneca e fica espantado da magreza do seu pulso, da transparên­cia de seus dedos ossudos.

E lembra-se de que um dia, num baile, derrubou com um soco um mulato atrevido que lhe queria roubar o par. Bons tempos! Ele tinha orgulho do seu cabelo crespo e dos seus músculos. Remava num clube de regatas. Chegou a ganhar um campeonato.

Agora mal tem força para segurar a caneca de leite...

26

Na casa de João Benévolo hoje amanhece mais tarde.



Para que pular da cama cedo? Há muito que se aboliu o café da manhã, por economia. Quanto mais cedo a gente se levanta, mais fome sente.

João Benévolo e a mulher estão deitados de olhos abertos. Ela olha para o teto, pensando na sua desgraça. Ele está em Paris e é D’Artagnan. Laurentina rumina suas misérias: as figuras dos credores desfilam uma a uma em sua mente. A viúva Mendonça, pequenina, fazendo caretas. O italiano do armazém, de cara grande e verme­lha. O leiteiro magro e pálido de dentes podres. O homem das frutas, de bigodões compridos, sobrancelhas cerradas.

D’Artagnan corre pelas ruas de Paris. Que homem! ninguém tem coragem de rir dele. Se algum burguesão gordo, da porta de sua loja ousar contemplá-lo com des­prezo — ai! — D’Artagnan lhe dará o castigo merecido. Todos os credores foram mortos. O mundo real foi aboli­do. Agora é Paris, a coragem, a força, a aventura. Corre­rias pelos becos, lutas com os guardas do Cardeal, due­los...

O estômago de João Benévolo solta um ronco. Ê um protesto que quer dizer: “Estou com fome”. João Bené­volo volta à realidade. O sonho se apaga. Ele agora sente a presença da mulher a seu lado, o filho na cama menor, junto da parede.

Seu rosto fica ainda mais lívido dentro da luz forte que entra pela fresta da janela.

Que horas serão? — pergunta Janjoca a si mesmo.

Como se tivesse ouvido a pergunta interior, o relógio lá da varanda responde com sua voz estertorosa e longa, dando nove gemidos.

Laurentina não pode conter as lágrimas. O relógio batendo assim no silêncio da casa... como há muitos anos na varanda grande das titias, ela ainda solteira, o gato cinzento, o retrato de vovó na parede da sala de visitas... Laurentina afunda a cabeça no travesseiro e começa a soluçar.

— Que é isso, Tina?

É o mais que João Benévolo pode dizer. E diz sim­plesmente como quem dá uma satisfação, como quem quer demonstrar um interesse que não sente. A sua Tina é dum outro mundo, dum mundo em que ele é apenas visitante. João Benévolo agora mora em Paris. Quando leu As Mil e Uma Noites, foi Aladim e morou em Bagdá. Já viajou num veleiro e foi Simbad. Só é João Benévolo às vezes, quando as solicitações do mundo real são duma insistência irresistível. No tempo da loja, trabalhava as suas oito horas com um sacrifício enorme. Animava-o a esperança dos serões quietos em casa quando se podia atufar novelas adentro. E era metendo-se na pele dos heróis de romance que ele se vingava das impertinências dos fregueses do Bazar Continental, das perseguições do gerente e da magreza do ordenado.

Uma vez — João Benévolo nunca mais há de esque­cer — a loja estava cheia. Sábado. Entrava e saía gente, a casa parecia um formigueiro. De repente entrou uma mulher vestida de vermelho berrante. Ele (paixão pelas cores vivas) ficou assanhado. Sua imaginação começou a trabalhar. Ela era bonita, morena, parecia uma princesa de Istambul. João Benévolo sentiu uma coisa esquisita e ficou pensando... Se ela viesse, pedisse uma coisa, olhas­se bem para ele e dissesse:

— Mas eu já vos vi. Onde foi?

(João Benévolo não admite no mundo do romance outro tratamento que não seja o de vós.)

— Eu também vos conheço. Não sois a Princesa Miriam?

Os olhos dela se acenderiam. Sim, era a Princesa Miriam. E ele, quem era?

— Sou o Príncipe Bey.

Andava disfarçado, numa aventura tremenda. Con­versariam. Combinariam um encontro à noite, num jar­dim, ao luar.

Mas de repente uma voz estrugiu bem junto do ou­vido dele. Vermelho, indignado, gesticulando, o gerente cresceu para cima do Príncipe Bey:

— Seu Benévolo, então isso é jeito de tratar as fre­guesas! Seu... seu...

Tremeu, tremeu e não disse mais nada. João Bené­volo compreendeu o palavrão que ficou atravessado na garganta do gerente. A mulher de vermelho havia desapa­recido.

Laurentina ainda está a soluçar. João Benévolo não encontra palavras de consolo. Para ele tudo está irreme­diavelmente perdido. Sem emprego, sem dinheiro, sem esperança... Sem esperança? Secretamente, ele ainda espera um milagre, desses que acontecem nos romances.

Por exemplo:

Ele vai por uma rua, as mãos nos bolsos, assobiando triste, quando de repente o auto do prefeito surge numa esquina. Um bandido de emboscada levanta o braço na ponta do qual brilha um revólver. Ele compreende tudo num relance. Salta, agarra a mão do bandido, tira-lhe o revólver, subjuga-o... O automóvel grande pára, o pre­feito desce e diz:

— Salvaste-me a vida, patrício. Como te chamas?

Abraços. Junta-se povo. Felicitações. Vivas. No dia seguinte aparece um homem solene:

— Tenho a honra de comunicar que V. Excia. está nomeado para um cargo muito importante...

Napoleãozinho solta um gemido que vem apagar a imagem do cavalheiro solene que trouxe a notícia do emprego salvador.

O rosto de Laurentina, molhado de lágrimas, se volta para o filho:

— Está doendo alguma coisa, meu filhinho?

Napoleão fala tremido por entre soluços:

— Tá... tá... doendo aqui...

Põe a mão sobre o estômago.

Laurentina levanta-se, beija o filho, puxa a coberta até o pescoço dele e se volta para o marido.

— Janjoca, vai na farmácia.

— Pra quê?

— Traz elixir paringórico.

— E o dinheiro?

De repente, quase ao mesmo tempo, os dois se lembram... Em cima da mesa da varanda deve estar ainda a nota de vinte mil-réis que Ponciano deixou.

João Benévolo lava o rosto (o espelho lhe mostra uma cara com barba de três dias), veste-se e sai do quar­to.

Na varanda pára junto da mesa. A cédula é bem nova. Vinte mil-réis. O elixir paregórico deve custar um mil-réis no máximo. Sobram dezenove. Dezenove... Dez mil-réis para pagar a conta do leite para que o leiteiro continue fornecendo e o Napoleãozinho não fique sem leite. Sobram ainda nove. Dois para o almoço, dois para o jantar... Os cinco para comer amanhã... Depois...

João Benévolo faz um gesto de indiferença, como se tivesse formulado seus pensamentos em palavras.

Mas a imagem de Ponciano lhe aparece na mente: odioso, olhinhos miúdos e brilhantes, fala asmática, pali­to na boca, nariz picado de bexigas, calmo, duma calma que deixa a gente louco de raiva. E depois, a troco de que ele continua fazendo as suas visitas? Que será que pensa de Laurentina?

Não. Ele não deve nem encostar a mão neste dinhei­ro... Não é direito. Se ele tocar na nota é porque concor­da com a situação que o outro quer criar. É como se estivesse vendendo a própria mulher. Não. (Em imagi­nação João Benévolo pega Ponciano pela gola do casaco, dá-lhe dois bofetões e joga-o no olho da rua. Para ele não ser maroto!) Mas, tocar no dinheiro? Nunca,

Vem do quarto a voz da mulher:

— Vai duma vez, o Napoleãozinho está gemendo.

João Benévolo se empertiga. É preciso ter coragem. Não deve deixar que a miséria lhe enfraqueça o moral. Toma a resolução de daqui por diante ser duro, inflexível.

— Não pego neste dinheiro. Não, não e não!

Mas a voz que diz estas palavras não parece a de quem está resolvido a ser inflexível. É macia e sem von­tade.

Laurentina aparece à porta.

— Mas Janjoca, tu vais deixar o nosso filho ficar sofrendo?

Tina sempre fecha os olhos quando fala.

— Não é direito, não fica bem...

— Mas a gente devolve quando puder.

— Não.


Laurentina começa a chorar de novo. E as lágrimas que ela derrama vão derretendo aos poucos a falsa dureza de João Benévolo. Ele faz uma última ressalva:

— Por mim eu nunca que encostava o dedo neste dinheiro. Que diabo! A gente é pobre mas tem a sua ver­gonha.

Vinte mil-réis. A conta do leiteiro. Comida para um dia e meio.

João Benévolo espera que ela diga mais alguma coisa, que reforce o pedido, para que ele depois ponha o dinheiro no bolso com a consciência mais leve.

Laurentina, porém, permanece imóvel e calada.

— Se o Ponciano vier hoje, — diz ele com voz sem cor — eu devolvo os dezenove mil-réis e digo que vou pagar o que falta quando encontrar emprego.

Com a ponta dos dedos bota a cédula no bolso, sol­tando um suspiro. E sai a assobiar o Carnaval de Veneza. De tristeza, de vergonha.

27

Virginia Madeira tira da gaveta do penteador, com o cuidado de quem lida com um escrínio de jóias precio­sas, uma caixinha de lata verde em que se lê em letras douradas: Pérolas Juventus. No lado de dentro da tampa os fabricantes fazem promessas tão tentadoras como a que Mefistófeles fez a Fausto. Os olhos de Virgínia pas­sam depressa por cima de vários períodos de letras miudi­nhas em que ressaltam as palavras hormônios, secreções das glândulas endócrinas para se deterem interessados e fixos neste trecho:



Quem tomar as Pérolas Juventus de acordo com a bula, verá no fim do primeiro mês que sua pele ganha uma frescura nova, as rugas começam a desa­parecer, os seios endurecem...”

Um ronco mais forte de Honorato faz Virgínia sobressaltar-se. Ela se volta para a cama. De barriga para o ar, roncando como um porco, o marido dorme. O ventre bojudo sobe e desce ao compasso da respiração. A combi­nação é curiosa: o acolchoado amarelo, o pijama listrado azul e branco, a cara gorducha, lustrosa e vermelha de Honorato, o travesseiro muito branco, o escuro polido da madeira da cama, e atrás, contra a parede, o panneau de seda negra, com desenhos azuis.

Em obediência à bula, Virgínia toma uma pérola. Senta-se na frente do espelho e se encontra de repente diante da sua verdadeira personalidade: Virgínia Matos Madeira, de quarenta e cinco anos, um resto muito pálido de beleza no rosto, princípios de rugas e de duplo-queixo, alguns fios de cabelos brancos a aparecerem malvados, iludindo a vigilância das tinturas. Não é a Virgínia que ela sente ser sempre que está longe dos espelhos. Porque no fundo ela permanece a mesma rapariga de vinte anos que chamava a atenção nos bailes, “que vendia caro os seus olhares”, que rejeitava namorados, sendo o orgulho da sua mãe e da sua rua. Os anos passaram, Noel nas­ceu, cresceu, formou-se, Honorato engordou, ganhou di­nheiro e perdeu o cabelo, a família mudou três vezes de casa... Durante duas casas durou o reinado despótico da preta Angélica. Virgínia tinha horror às responsabilidades de mãe de família. Foi por isso que não se opôs a que a velha tomasse conta de tudo. Era uma preta enérgica e autoritária, neta de escravos do avô de Honorato. Nos primeiros meses do casamento, preocupada com festas, vestidos e relações, Virgínia esqueceu a casa. Tia Angélica firmou então o seu governo. Desde madrugada andava de pé dum lado para outro, dando ordens para a criada­gem. Era ela quem determinava tudo, quem cuidava da conta do armazém, das roupas do casal, do jardim. Quan­do Noel nasceu, tia Angélica tomou também conta dele. Não se fazia nada sem consultar a rainha preta.

— Tia Angélica, que é que você acha, compramos ou não compramos uma chácara na Tristeza?

A voz da negra vinha lá do fundo da garganta, es­farelada e áspera:

— Compra nada. Não precisa.

E não se comprava. Noel cresceu. Tia Angélica lhe contava histórias de fadas, dava-lhe mimos, prendia-o em casa.

— Tia Angélica, deixe esse menino ir brincar na rua senão ele se cria um maricas! — observava Virgínia.

Mas Angélica investia para ela, agressiva como uma galinha que defende os seus pintinhos.

— Não deixo! O lugar dele é dentro de casa! Noel não vai se misturar com os moleques.

Quando Virgínia cansou da vida de festas e relações (canseiras que duravam apenas alguns meses, findos os quais recrudescia a paixão pelas festas, pelas relações novas e pelas novidades) voltou-se para a vida do lar. Quis tomar conta de tudo, mas era tarde. Tia Angélica estava firme no poder, defendeu-se com ferocidade. Houve cenas, Honorato ficava-se nos cantos, aniquilado, sem coragem de tomar partido, sem ânimo para dizer uma palavra. Angélica, porém, foi inflexível.

Virgínia chorou nos primeiros dias. Julgou-se a mu­lher mais infeliz do mundo. Chegou a aborrecer o filho, só porque Noel ficava do lado da preta velha. Não era ela quem lhe contava histórias, quem lhe dava banho, quem lhe comprava doces, quem o ninava enquanto a mãe, toda bonita e perfumada, andava pelos bailes e tea­tros? Mas no fim de algumas semanas Virgínia se aco­modou à situação. Por fim, esqueceu-a. Nas vésperas de Noel entrar para a Academia (tinha feito preparatórios brilhantes) tia Angélica morreu. Foi como se de repente desaparecesse um rei que os súditos julgassem insubsti­tuível. Noel chorou sentidamente. Honorato derramou al­gumas lágrimas que não foram muitas nem muito senti­das. Sentir demais a morte da preta velha que o criara — pensou ele — seria de algum modo desfeitear a mulher que recebera legalmente diante do altar, a mulher, com quem no fim de contas tinha de viver o resto da vida.

Ao saber da morte de Angélica, Virgínia lamentou a perda da criada mas bem no fundo, duma maneira quase inconsciente, festejou o desaparecimento da rival. Não teve coragem de tomar conta da casa. O número de criados foi então duplicado. Noel entrou para a Academia. Os anos passaram. Honorato teve febre tifóide, ficou muito mal, emagreceu, sarou, tornou a engordar ainda mais do que antes. Noel se formou. Durante todos esses anos fizeram-se novas amizades, o casal foi duas vezes ao Rio de Janeiro, comprou um Ford que mais tarde foi trocado por um Packard e agora Virgínia está na frente do espelho, embaraçada e tonta, porque não pode com­preender o mistério... A imagem que o vidro lhe mostra diz que se passaram muitos anos, que ela não é mais jovem, que seus seios estão caídos, que sua pele é fláci­da, os cabelos quase grisalhos... Mas se ela fecha os olhos, é como se conseguisse abolir todo o passado, fazer retroceder o tempo, pois interiormente continua a ser a mesma de antigamente. Nem chegou a ficar adulta. O mesmo gosto pelas festas, pelos vestidos, pela vida em sociedade, pelas novas relações. É como se não tivesse acontecido nada, como se o tempo houvesse parado bem naquele dia em que, vestida de branco, ela marchou, pelo braço de Honorato, rumo do altar, na Igreja das Dores... Vinte e quatro anos! Era como se fosse apenas vinte e quatro dias. Houve períodos de sua vida que foram como que um vácuo, sem cor, sem sabor, sem sentidos. Em ou­tros houve tempestades, apreensões... mas ela viveu de verdade. O caso do Cap. Brutus, por exemplo (Virgínia recorda). Encontrou-o na casa dos Marques Pinto, numa festa de aniversário. Foram apresentados. Ele era alto, envergava um uniforme bem talhado, falava com uma voz poderosa, soltava as palavras como tiros de canhão (“voz de cavalo” — classificara ela). Dançaram. Virgínia estava levemente escandalizada. Não era hábito uma se­nhora casada dançar com um homem solteiro. O capitão era atrevido no olhar e no falar. Fez-lhe elogios. Tinha um jeito carioca de pronunciar as palavras, chiava nos ss. Contava coisas diferentes. Era, em suma, uma novi­dade. Conversaram muito. Ao voltar para casa, Virgínia levou a impressão de ter vivido um sonho impossível. Mas Honorato ia a seu lado no automóvel, cabeça caída para trás, morto de sono, resmungando que tinha de acordar cedo no outro dia para ir ao escritório. Mas ela não lhe dava atenção. Escutava mentalmente a voz do capitão, os ss chiados, recordava o perfume dele, os ga­lanteios. Nos outros dias Brutus começou a passar pela frente da casa. Tinha um modo elegante de fazer conti­nência quando ela aparecia à janela. Ficou o hábito. To­das as tardes às cinco... Ele descia do bonde e vinha postar-se à esquina. Virgínia entreabria a janela. Em casa ninguém percebeu. Ninguém? Só tia Angélica. Viu e compreendeu tudo, o demônio da negra! Um dia falou, sem rodeios.

— Acabe com isso. Se o Norato souber, morre de desgosto.

A cara da negra, lustrosa e intumescida, a boca desdentada, os olhos de esclerótica amarela, a íris diluí­da... E aquela voz odiosa, áspera e antipática.

— Acabe, senão eu conto tudo.

Mas Virgínia se encontrou várias vezes com o capitão de voz de cavalo. Ele já atacava de frente, diretamente. Um dia propôs um encontro. Deu o endereço duma casa discreta. Amanhã às cinco... Separaram-se. Quando se viu a sós, ela teve a primeira hesitação. Tinha avistado Noel, que voltava do colégio. À vista do filho, pensou em mil coisas... tia Angélica a observava com o rabo dos olhos. Parecia uma bruxa que lia o pensamento dos ou­tros. Ficou por ali, espiando, caminhando sem propósito claro, dum lado para outro. O ponteiro do relógio se aproximava da hora marcada. Virgínia relutava. A voz de cavalo, o ar insolente... mas fascinante. Os olhos da tia Angélica. Noel... A lembrança do marido. Foi com alívio que ouviu o relógio bater cinco badaladas. Tia Angélica não afrouxou a vigilância. Veio a noite, veio um outro dia. Duas semanas depois o Cap. Brutus foi transferido. Rolaram os dias. Vem o esquecimento. Mais festas, mais relações...

Não. Tudo o que passou parece lenda. Nada daquilo aconteceu. Só a memória é que ainda vê. Mas vê fraca­mente quadros que ninguém pode mais fotografar. No fundo, ela ainda é a noiva, a mocinha...

Entretanto, abrindo os olhos, Virgínia enxerga a outra, a que mostra no rosto a passagem dos anos e dos fatos.

E é essa outra — a de quarenta e cinco anos — que agora relembra, desejando, aquele rapaz moreno de dentes brancos, aquele menino insinuante que veio des­pertar desejos que jaziam adormecidos na camada mais profunda do seu ser. Foi a outra que ontem, no Metrópole, ficou a olhar longamente a cara morena de olhos mali­ciosos.

Honorato dorme tranqüilo. As batatas, o feijão, o açúcar, o câmbio, as faturas, as duplicatas, a safra, o dever, o haver — tudo agora está esquecido. Honorato Madeira flutua num país magnífico de calma e sereni­dade como um anjo, como um elfo. Quando ele acorda, o corpo se lhe imporá ao espírito como um fardo. Voltará a memória dos cereais, dos papéis do escritório, a sensa­ção de gordura e peso, o desejo de ganhar dinheiro e co­mer bem. Por enquanto Honorato Madeira é puro espírito, sonha que é uma pomba que de repente, inexplicavel­mente se transforma num avião que aos poucos vai virando numa coisa verde, verde e mole, que ondula, como uma bandeira ou uma cortina — a cortina do seu quarto...

Acorda.


28

D. Maria Luísa, mulher de Zé Maria Pedrosa, não se habituou ainda ao palacete. Parece que está em casa estranha.

Senta-se na beira das cadeiras, tem medo de abrir as gavetas, caminha na ponta dos pés, não tem jeito de dar ordens aos criados... Há peças no casarão em que nunca entrou: elas lhe dão uma espécie de medo... São tão grandes, para tão pouca gente... E a idéia de que tudo isso foi um desperdício a acompanha por toda a parte, como uma obsessão angustiante. O mais horrível ainda são os dourados da mobília Luís XV. Ela tem a im­pressão de que aquilo é ouro legítimo, maciço. A sala to­da é um pesadelo. Os espelhos que há pelas paredes, numa profusão desconcertante, a assustam. Os jarrões, que se erguem nos quatro cantos, com pinturas delica­das são como punhaladas. Podem quebrar, de tão delica­dos... Uma porta que bata com mais força, um descuido, um pontapé, um soco... Para que tudo isto? E o banhei­ro? Ladrilhos coloridos, pias verdes, torneiras niqueladas, bugigangas que a gente nem sabe para que são. Só o relógio custou uma fortuna. No entanto — pensa D. Maria Luísa com dor de coração — não anda melhor nem mais certo do que o velho relógio que batia, humilde, na sua salinha de jantar da casa de Jacarecanga. Quando se lembra de sua terra, D. Maria Luísa tem vontade de chorar. Já lá vão dois anos! No princípio, foram os hotéis. Ela preferia sempre comer no quarto, (Chinita gostava do salão geral, exibida e assanhada!) tinha vergonha das pessoas que olhavam o jeito como a gente come. Depois, em hotel de cidade, há um talher para cada coisa, nunca se sabe como usá-lo. Os criados eram atenciosos mas não faziam nada sem gorjeta. Para ela, cada gorjeta que se dava era um talho que ela recebia na sua carne de mártir. Onde se ia parar com tanta despesa? Zé Maria falava nos “dois mil pacotes” da loteria, batia no bolso, prosa. Ma­nuel e Chinita andavam soltos pelos cinemas e cafés. Ela preferia ficar no quarto do hotel. Todo o mundo procurava Zé Maria. “Coronel, compre um auto!” “Coronel, compre uma casa!” “Coronel, compre um rádio.” E a cada oferecimento D. Maria Luísa sentia um calafrio, como se o marido já tivesse feito a compra, irremediavelmente. Depois veio a idéia infeliz de fazer este casarão. Setecen­tos contos! Que desperdício! Um parque que dava para invernar gado. Um casarão que servia para quartel. E este luxo sem serventia, esta criadagem enorme, esta loucura...

D. Maria Luísa caminha pela casa, como uma visão.

Sobe ao quarto da filha. Bate. Lá de dentro vem a voz dela.

Come in!

Entra.

— Que foi que disseste?



Chinita explica:

— Come in, como no cinema.

D. Maria Luísa sacode a cabeça, desolada.

Chinita está na cama, lendo uma revista de cinema­tografia. Seu quarto é todo bege, desde os móveis até a pintura das paredes. Ela ainda está por baixo das cobertas, metida no seu pijama de seda preta com debruns verme­lhos.

— Não vais à missa? — pergunta a mãe.

— À das onze.

D. Maria Luísa olha em torno, procurando um pre­texto para ser infeliz, um motivo para censura, uma razão para zanga. Tudo está em ordem. O vestido verde que a filha usou no baile da noite anterior acha-se em cima da cadeira. Os sapatos, ao pé da cama, junto com os chinelos debruados de arminho. Os frascos de creme e perfume do penteador estão numa relativa ordem. Que milagre — pensa D. Maria Luísa. E sente-se muito triste e contra­riada por não encontrar à vista motivo para tristeza e contrariedade.

— Dormiste bem? — pergunta, numa tentativa derradeira para achar uma irregularidade. Porque se Chinita diz que dormiu mal, estará aí a deixa para ela maldizer os bailes que terminam tarde, a vida desregrada dos filhos, a sociedade, o mundo, tudo!

Mas Chinita, bocejando por pura faceirice, respondeu tranqüilamente:

— Dormi como um anjo.

D. Maria Luísa suspira.

— Por que não levantas? Já passa das dez.

Chinita recosta a cabeça na guarda da cama.

— Não, quero que mandes trazer o café aqui...

D. Maria Luísa sacode a cabeça. Em Jacarecanga, Chinita não dizia tu — dizia senhora. Não tomava café na cama às dez: pulava às oito e ia tomar café com todos na mesa da varanda.

Minha filha, não te acostumes mal, por que não vais tomar café lá embaixo com todos?



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