Caminhos Cruzados



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Chinita insiste. Quer porque quer. Pode ser feio, pode ser mau costume, mas é como ela tem visto no cinema. As criadas de manhã trazem o breakfast no quarto, as estrelas lêem revistas, dizem good morning. Tão bom, tão bom poder fazer o mesmo!

D. Maria Luísa sai, resmungando. Pode apertar a campainha e chamar a criada. Mas não. Não quer. Pre­fere convencer-se de que a casa não é sua, de que ela é uma estranha debaixo deste teto, de que é uma mártir, um estorvo...

Vai pessoalmente à cozinha e, sem dar ouvidos aos protestos solícitos e delicados da camareira, ela mesma faz o café e trá-lo numa bandeja, com torradas, até o quarto da filha.

— Mamãe! Mas a senhora! Ora!

Chinita se surpreende. A sua surpresa é metade na­tural, metade cinematográfica.

Em silêncio D. Maria Luísa põe a bandeja sobre a mesa-de-cabeceira da filha e retira-se, sem dizer palavra.

Passando pela porta do quarto do filho, bate. Não respondem. Torna a bater. Nenhuma resposta. Abre a porta devagarinho. O quarto está escuro. Ela entra. A princípio as coisas estão sumidas na escuridão. Mas aos poucos os olhos de D. Maria Luísa se vão afazendo à escuridade e da sombra geral emergem contornos: o quadrado da janela, o guarda-roupa com porta de espe­lho, a cama. Ela se aproxima da janela e abre o postigo. O filho está deitado, vestido e calçado. O sol lhe bate no rosto. D. Maria Luísa contempla-o com amor. Como ele está pálido e magro! Era tão corado, tão alegre... Agora tudo mudou. Às vezes Manuel não dorme em casa, como ontem. Quando vem, é de madrugada.

D. Maria Luísa se acerca da cama. João Manuel dorme sono profundo. Parece mais velho, os lábios descoloridos e tão pálidos como o rosto. Os ossos das zigomas parece quererem furar a pele. D. Maria Luísa sente um aperto no coração.

Decerto o rapaz esteve no cabaré. Deve ter uma amante como todos os rapazes ricos de sua idade. Cham­panha, danças, badernas.

Quanto teria gasto a noite passada? Sem poder re­sistir à tentação, D. Maria Luísa apalpa o bolso do casaco do filho, procurando a carteira. Manuel remexe-se, mu­dando de lado e resmungando.

Na ponta dos pés ela sai do quarto.

O tapete do corredor abafa-lhe o ruído dos passos. Ela se lembra de que o soalho de sua casa de Jacarecanga rangia quando a gente caminhava nele. Rangia, mas lá tudo era melhor. Ninguém dormia até tarde, Manuel se recolhia cedo. Chinita não usava vestidos tão decotados nem andava tão solta. Tudo era diferente. Mais união. De noite Zé Maria jogava gamão com o vizinho, e ela fazia tricô; Chinita ia passear na praça com as filhas do coletor. Tão bom...

D. Maria Luísa suspira. Não há de ser nada — pensa — um dia eu morro e tudo se acaba. Eles têm a despesa do enterro mas ficam livres de mim para sempre.

Entra no quarto.

Zé Maria Pedrosa dorme na cama à Luís XV. É um corpo estranho que não pertence a este conjunto. Aquela cara tostada de caboclo rude, no meio da seda e dos ouropéis...

D. Maria Luísa sacode a cabeça.

— Que despropósito.

29

O almoço terminou. E como o gosto de feijão lhe persiste na boca, o Prof. Clarimundo toma um gole dágua e faz um gargarejo prolongado. Vai até a janela, com a cabeça erguida, a água a borbulhar-lhe na boca e assim fica por alguns segundos. Depois, distraído, esguicha a água para a rua. Lá embaixo um homem que passa dá um salto brusco, escapa por um triz de receber o jorro na cabeça, olha para cima, indignado, e diz um palavrão. O professor vê, ouve, e, atarantado, esboça com a mão um desajeitado gesto de desculpa. O homem continua a cami­nhar. O professor pensa no seu observador de Sírio. Entre ele e os habitantes da Terra haverá a mesma incompreen­são, mas separada por uma distância incomparavelmente maior. Se o homem de Sírio cuspisse água para a Terra, os habitantes do nosso planeta naturalmente se voltariam para o alto e diriam nomes feios... O professor está con­tente com a comparação. Fica a pensar no livro. Qual­quer dia vai começar. Naturalmente escreverá um prefá­cio. É preciso explicar... Entrar assim de repente no assunto pode chocar o leitor.



Debruça-se à janela. A velha de preto, a moça bonita e o rapaz barulhento estão ao redor da mesa. Mais adiante, o homem do gramofone, mais a mulher e os filhos, aca­bam de almoçar. Na janela da casa próxima, um guri de cara amarela e triste olha para a rua, com o nariz aperta­do contra a vidraça encardida. Calma nos quintais. O pombal de D. Veva está silencioso. Céu sem nuvens. Sol intenso.

Para que se não me confira a pecha de fantasista descabelado... — ou melhor: Para que se não diga que sou um desvairado engendrador de ficções.

Clarimundo sorri interiormente, satisfeito.

Bom início para um prefácio.

30

D. Eudóxia toma a sua canja. Fernanda e Pedrinho comem carne assada com feijão e arroz. Hoje veio macar­rão nas marmitas e, como Fernanda trouxe dum restau­rante uma galinha assada, o almoço tem ares de ban­quete.



— Olha — avisa Fernanda — hoje vou a Ipanema.

Pedrinho dá de ombros:

— Por mim...

D. Eudóxia ergue os olhos de mártir.

— Ele vai?

A voz de Fernanda é resoluta e firme:

— Vai.

Ele é Noel. Combinaram um encontro. Não se vêem há uma semana, devem ter muita coisa a se dizerem. Livros lidos durante a semana, impressões... E depois — pensa Fernanda — Noel precisa de quem o anime. É tão desamparado, tão sem vida, tão sem energia...

D. Eudóxia diz num suspiro tudo quanto calou em palavras. Fernanda não teme atacar o assunto cara a cara.

— Que é que tens, mamãe? Diz logo. Nada de se­gredos.

Seus olhos se focam no rosto da mãe. D. Eudóxia olha para o prato.

Pedrinho luta com uma fita de macarrão e diz, meio engasgado:

— Deixa essa caduca...

— Vamos, mamãe. Despeje logo...

D. Eudóxia hesita. Mas o seu ressentimento por fim acha expressão.

Podem falar, minha filha, tu compreendes...

Sim, ela compreende. Podem falar, podem maliciar. Encontros com o rapaz numa praia. Camaradagem com uma pessoa do outro sexo. Ela compreende...

— Mas quem é que pode falar?

D. Eudóxia deixa cair a colher de sopa.

— O povo, a sociedade.

Fernanda ri com gosto.

— A sociedade? A bela sociedade que freqüentamos? Mas que coisa ridícula, mamãe, que coisa ridícula! A senhora ainda não se convenceu de que somos pobres e que não temos sociedade?

Pedrinho está demasiadamente entretido no macar­rão para prestar atenção “àquelas besteiras”.

— Mas minha filha, os vizinhos. ..

— Não me mates... Olha que eu posso ter uma congestão...

Na realidade, Fernanda não acha muita graça na história. Mas é preciso fingir esta alegria, esta despreo­cupação, Elas são uma armadura, a defesa que tem opos­to sempre ao fatalismo da mãe.

— Se ao menos vocês fossem noivos...

Fernanda trincha a carne, ausente. A mãe continua a lengalenga.

— Estas visitas que ele te faz... Não sei, não acho direito... Conversas na escada, no corredor escuro...

— Ele não vai me comer...

E Fernanda tem a certeza inabalável de que Noel não é capaz de comer ninguém.

— Ele está aproveitando, está te desfrutando...

Fernanda sorri.

— Moça rica, quando cai na boca do povo não perde nada. Continua indo a baile e no fim acha casamento. — Suspira, toma uma colherada de canja. — Mas moça pobre (sua voz aqui ganha a consistência pastosa da canja) quando é falada, fica o mesmo que mulher à-toa...

Fernanda adota outra tática. Descobre que a melhor arma para se defender da mãe é o silêncio.

“Mulher à-toa.” Pedrinho ouviu isto e agora não po­de mais governar os pensamentos. Baixa a cabeça para o prato. Lembra-se de Cacilda. Pela primeira vez depois que ele está à mesa, a imagem dela lhe assalta a mente. A recordação daquela noite lhe vem, nítida, e parece que ele sente, ouve e vê... Foi há três meses. Nunca ti­nha estado com mulher nenhuma. Todas as suas tentati­vas para acalmar os primeiros pruridos sexuais tinham sido solitárias. Mas era preciso conhecer o amor de ver­dade. No entanto, tinha medo. Contavam coisas horríveis: doenças, deformações, mulheres que judiam com os ra­pazes inexperientes... Ele só tinha dezesseis anos. Não podia ir atrás do que diziam certos companheiros que tentavam tirar-lhe o temor:

— Vamos, bobo, é fácil...

— Tenho medo — expressava ele.

Os outros o tranqüilizavam:

— Eu sei de uma que te ensina. É tão bonita... Muito boazinha.

Resolveu ir. Fez economias. Juntou dinheiro (a mana sempre lhe dava dois mil-réis todos os sábados). Foi. Passou pelo beco encolhido de medo. O amigo — o Clóvis

— mostrou a casa. É aqui. Entraram. Apareceu uma mulher: bonita, de olhos verdes, parecia uma moça di­reita, dessas que a gente vê nas casas de família. Seu acanhamento aumentara.

— Este é o rapaz que eu falei — explicou Clóvis.

— Como vai? — A moça estendeu-lhe a mão que Pedrinho apertou. — Vamos entrar?

Clóvis foi embora.

Entraram para o quarto. Meia-luz avermelhada, uma cama de casal, um guarda-roupa pequeno, figuras na pa­rede, na maioria artistas de cinema. Sobre a cama, uma almofada colorida, com um boneco em cima — um chi­nês fumando cachimbo. (Este detalhe nunca, nunca ele vai esquecer...)

— Como é o teu nome?

— Pedro. E o da senhora?

— Cacilda.

A mulher fechou a porta e começou a despir-se. Ele fez o mesmo, todo trêmulo. E quando ela se deitou na cama de costas e o chamou com os braços, ele estava sacudido dum tremor estranho, com vontade de chorar. Tudo parecia um sonho. Era bom, mas assustador. E a cara dela não era debochada como ele imaginara. Um ar simpático, dois olhos verdes muito limpos, um sorriso calmo. ...

— Que é isso, Pedrinho? Em que é que estás pen­sando?

Pedrinho como que desperta, e vê que Fernanda está a mirá-lo, maliciosa, com um olhar que parece ver tudo, ler os pensamentos alheios.

— Nada!


D. Eudóxia afasta o prato. Fernanda vai buscar a sobremesa.

O pensamento de Pedrinho torna a voar...

Quando ele saiu da casa de Cacilda levava o corpo leve. Parecia que tinha descoberto um mundo. Ia como que no ar, voando. Agora podia olhar os companheiros sem constrangimento. Era homem.

Os dias passaram mas ele não esqueceu Cacilda. Voltou à casa dela na semana seguinte. Teve de esperar, porque ela estava com outro. Ficou rodando pela vizinhan­ça. Quando viu o homem sair, entrou.

— Não se lembra de mim?

Tremeu ao fazer a pergunta.

— Ah! Aquele que o Clóvis trouxe?

Pedrinho sacudiu a cabeça.

— Bonita noite.

— Muito bonita.

— Mas é capaz de chover amanhã.

— Achas?


— Está quente.

— É.


Silêncio. O assunto não vinha. Cacilda sorria. Pedri­nho compreendeu que estava apaixonado. Era esquisito, uma bobagem, mas estava apaixonado, irremediavelmen­te.

Cacilda pediu:

— Vai embora, sim, nego?

Ele relutou. Queria ficar.

— Vai. Estou esperando um amigo.

— Um amigo?

O coração de Pedrinho desfaleceu.

— Um amigo. Marquei hora. Ele pode desconfiar e eu não quero encrencas...

— Olha a sobremesa!

Pedrinho tem um sobressalto. Fernanda lhe passa o prato de compota de pêssego.

Uma voz grita do quintal:

— Não sabem como amanheceu o seu Maximiliano?

Fernanda volta a cabeça, ergue-se, vai até a janela.

É D. Veva que, por cima da cerca, faz a pergunta de todos os dias.

— Não sei, não senhora.

D. Eudóxia deixa a mesa, contente por encontrar uma pessoa de sua idade, “do seu tempo”, com quem pos­sa conversar.

— Bom dia, vizinha. Eu acho que ele não dura.

D. Veva faz uma careta.

— Um mês no máximo...

— Dois dias — diz D. Eudóxia.

Fernanda leva os pratos para a cozinha.

Pedrinho vai para o quarto. Abre a gaveta da mesi­nha-de-cabeceira, tira de dentro dela uma caixa de cha­rutos e abre-a. Aparecem várias moedas douradas de mil-réis. Ele conta: quatro. Bom. Faltam dois. Amanhã o Clóvis lhe vai pagar dois mil-réis que lhe pediu empresta­dos a semana passada. Ficam seis. Com seis mil-réis ele comprará para Cacilda um colar muito bonito — azul, vermelho e amarelo — que viu numa vitrina da Sloper.

Ergue os olhos, pensativo. Pela janela avista lá do outro lado da rua, no alto da casa da viúva Mendonça, o Prof. Clarimundo.

31

Teotônio Leitão Leiria desce de seu Chrysler no portão do Country Club. Está de boné cinzento, suéter bege com malhas marrom, knickerbockers havana e meias escocesas negras. Traz às costas a sua aljava com os ta­cos. É um perfeito jogador de golfe. Não falta nada, tem tudo, até o espírito anglo-saxônico. — (Ele pensa com satisfação que, com sua cara vermelha, pode passar por inglês ou norte-americano.)



A turma de costume o espera. Mr. Wood, enorme como um arranha-céu, pele tostada pelo sol, dentes muito brancos. Mr. Parker, um inglês de bigodes grisalhos, bo­chechas flácidas e olhos azuis. O Dr. Castro Neto, fran­zino e delicado, que espera ganhar cores ao sol do Country.

Sentam-se todos à sombra dum pára-sol de larga umbela, no terraço do pavilhão. Mr. Wood pede um uís­que com soda. Mr. Parker, idem. O Dr. Castro Neto quer um guaraná (fígado). Leitão Leiria, como bom business­man, convencido agora de sua personalidade anglo-saxô­nica, também adere ao uísque.

O sol brilha sobre os campos. Mr. Wood faz humor. Mr. Parker ri a sua risada natural. O Dr. Castro Neto sorri timidamente. Leitão Leiria exclama:

Wonderful! Wonderful! Wonderful!

Combinam uma partida. Os cadies tomam conta das aljavas.

Mr. Wood ergue o braço num movimento harmonio­so e desfere um golpe na bolinha branca. A bola zune, corta o ar claro e vai cair longe.

Fine! — aplaude Leitão Leiria.

Os dentes de Mr. Wood contrastam com o rosto tos­tado de sol. O Dr. Castro Neto erra o primeiro golpe, arranca um punhado de grama com o terceiro e no quarto joga a bola quase rasteira a pequena distância. Chega a vez de Leitão Leiria, que abre as pernas, encosta o taco na bola, ergue-o depois (com fleuma britânica —- fantasia ele) e desfere o golpe. A bola voa como um projétil.

Good!— faz Mr. Wood.

Saem a caminhar. Os campos se estendem, dobrados a perder de vista. O céu é dum azul igual e fulgurante.

Leitão Leiria vai assobiando uma ária alegre.

Lá no alto, no pavilhão, outros jogadores se prepa­ram para uma partida.

Enquanto caminha, Teotônio se vê, ao mesmo tempo, no meio dos amigos, como se fosse um observador estra­nho ao grupo. Ao lado dos dois americanos parece um homem da mesma raça, no físico e nas atitudes. As rou­pas, as maneiras, o jogo. Para reforçar a convicção ele comenta.

A fine day!

Mr. Wood arreganha os dentes.

Very fine!

Glorious! — acrescenta Mr. Parker, num grunhi­do. O Dr. Castro Neto limita-se a sorrir.

Uma perdiz de repente sai voando ruidosamente dum tufo de macegas, como um minúsculo avião.

Leitão Leiria estende o dedo, explicativo. Quer dizer o nome do bicho em inglês. Remexe na memória por al­guns segundos, mas o nome lhe foge. Não tem remédio senão dizer:

— Perdiz!

Mr. Wood sacode a cabeça:

Yes. Perdiz.

O Dr. Castro Neto sorri, Mr. Parker rosna qualquer coisa.

Os cadies correm.

Onde estarão as bolas?

32

Ipanema.



O rio está tranqüilo e o horizonte é dum verde tênue e aguado que se vai diluindo num azul desbotado. As montanhas ao longe são uma pincelada fraca de violeta. A superfície da água está toda crivada de estrelinhas de prata e ouro. Longe aparece o casario de Pedras Brancas, na encosta dum morro. Mais perto o Morro do Sabiá avan­ça sobre o rio. O céu é tão azul, tão puro, e luminoso, que Noel simplesmente não acredita que seja um céu de ver­dade.

Ele diz a Fernanda.

— Parece um céu de sonho, de contos de fadas.

Fernanda sorri.

— E no entanto é um céu de verdade...

Calam-se. Uma rapariga loura de maiô vermelho passa por eles a correr descalça; os pés a afundarem na areia. Suas carnes são rijas, suas pernas esbeltas, seus cabelos parecem uma labareda dourada e estão soltos.

— E depois — continua Noel — essa Fräulein de vermelho...

Fernanda olha para o companheiro. “Bem como nos outros tempos” — pensa ela. Lembra-se das manhãs em que ia buscar Noel para o levar à escola, pela mão. O sol lhe batia nos cabelos castanhos, dando-lhes um re­flexo de bronze. E ele ainda hoje é o mesmo menino que se deslumbra diante de tudo mas que ao mesmo tempo se encolhe, assustado, na frente do menor obstáculo, da menor dificuldade.

— Se a vida fosse sempre assim — continua Noel — eu seria um adaptado. Dias bonitos, paisagens bonitas, esta distância entre a gente e as outras criaturas. Não precisar estabelecer relações desagradáveis, não precisar lutar pelo pão de cada dia...

— No entanto tu não lutas pelo teu pão...

Noel volta para a amiga um rosto em que há uma ruga de contrariedade. Ela acaba de tocar num ponto sensível. E só o que ele encontra agora para dizer é isto:

— Tu sabes...

Sim, ela sabe. Sabe mas há de fazer o possível para conseguir que ele mude, vença o terror de menino mimado e entre na vida, resoluto, de olhos abertos e cabeça er­guida.

— O teu mal — diz Fernanda maciamente — é jul­gar que só há beleza nos livros e nos teus contos de fadas. Se tu soubesses como a vida tem coisas interessantes... É um poema, um romance, se quiseres. E também uma aventura...

Fernanda pensa na sua luta de cada dia. Luta com Leitão Leiria no escritório. Luta com o fatalismo da mãe. Luta consigo mesma.

— Esta nossa camaradagem mesmo parece um so­nho — diz Noel.

— Por que um sonho?

— Porque está durando, porque ainda não se atra­vessou nada entre nós, porque...

Noel não acha palavras para continuar. Fernanda sacode a cabeça afirmativamente, compreendendo... E mentalmente completa a frase: Porque ele ainda não procurou beijá-la, não procurou levá-la para uma casa de rendez-vous. Porque puderam conversar sempre serenamente conservando o sexo a uma distância conveniente.

Longe, no rio, passa um veleiro.

Um silêncio. Noel caminha de chapéu na mão, os olhos estão voltados para as montanhas. De repente ele se vê de novo numa manhã da infância, a caminho da escola. A pequena Fernanda, de vestido curto e olhos vivos, vai na frente, puxando-o pela mão. O sol brilha contra as fachadas, os muros, o céu.

— Tu te lembras? — pergunta ele.

Sim, ela se lembra.

— Íamos de mãos dadas... — diz Fernanda, como se pensasse em voz alta.

— Tu na frente...

— Assim...

Pega na mão de Noel e continua a caminhar. Ao contato desta mão, quente e macia, Noel tem um agra­dável estremecimento.

Fernanda vai rindo e acelerando o passo. Ele se deixa levar. De repente um pensamento o assalta. E se ele... e se ele... casasse com Fernanda? Isto deve ser amor. Prazer de estar com ela. Esta sensação de paz e segurança que a companhia dela lhe dá... Se ele fizesse uma tentativa para mudar de vida? Sim, poderia ser bem sucedido. Havia de entrar num mundo novo, junto com ela, lutando os dois, lado a lado...

Olha para a companheira.

Fernanda vai de cabeça erguida, e seu perfil tem algo de impetuoso. O moreno do rosto fica mais lindo ao sol. Os seios se lhe projetam para a frente, rijos, assim de súbito Noel tem a consciência (de certo modo doloro­sa) de que a deseja. Um desejo recalcado à força de ar­gumentos de ordem abstrata. Um desejo que nunca achou expressão em palavras nem em atos. Um desejo que ele sempre repeliu — é absurdo! — como incestuoso. Quan­do vê Fernanda, tem vontade de se lhe entregar, como um órfão, deixar-se acariciar, abrir-se em confidências... Mas agora, ao sol, vestida de branco, rindo e quase a correr, Fernanda não convida a sentimentos fraternais...

Noel procura afugentar o desejo, mas ao mesmo tempo não deixa de enxergar o absurdo de sua tentativa. Por que não desejá-la fisicamente? Por quê? Acaso ele não é um homem e Fernanda uma mulher? Não existe entre ambos o menor grau de parentesco. Teoricamente Noel justifica o desejo. Mas na prática, tudo mudaria...

No entanto Fernanda poderia salvá-lo. Talvez lhe desse força para lutar. As suas experiências sexuais fo­ram dolorosamente decepcionantes, tão decepcionantes e dolorosas que ele se havia encolhido e fugido ao convívio das mulheres. Fernanda podia ser a salvação. Em tudo. Por tudo.

— Olha lá em cima! — exclama ela.

Um avião do exército faz evoluções, vira cambalho­tas, cai em folha morta, descendo a pouca distância do rio para depois subir como uma frecha.

— Vamos sentar?

Sentam-se, face a face.

Como ele é frágil — pensa Fernanda — e que ar abandonado! Sente desejo de acariciá-lo como a um filho, como a um irmão. Ele é tão diferente dos outros...

— Ontem estive lendo a Mansfield — diz Noel. — O diário...

Fernanda sorri. Já estava custando virem os livros. Noel não passa dez minutos sem falar em literatura. Por quê? O dia está tão claro, a paisagem tão encantadora... Ela lê também, ama os livros, mas não se deixa escravizar por eles. Primeiro a vida. E se os livros oferecem interes­se, ainda é por causa da vida.

Olhando para o rio, Noel prossegue:

— Que sensibilidade... A gente tem a impressão de que Katherine não era deste mundo. Uma fada... Um anjo... Qualquer coisa de aéreo... Uma nova encarna­ção de Ariel...

Fernanda nunca leu a Mansfield. Noel conta. E contando se entusiasma. É como o menino deslumbrado a narrar o mais belo sonho da noite. Ela escuta.

— Quando fico a pensar em certas coisas chego a ter medo do mistério da vida e das criaturas... Em 1923, quando eu estava ainda no ginásio lendo As Mil e Uma Noites nas horas de folga, Katherine Mansfield morria num retiro na França... Pensa bem nisso, Fernanda, é de assustar...

O rosto de Noel tem uma expressão de ânsia. Fer­nanda não vê nenhum motivo de susto. Ele continua:

— Dez anos depois é que Katherine passou a existir para mim... Uma revelação tão boa, tão harmoniosa, que me deixou aniquilado. Agora ela existe para mim, existe mesmo, está viva... E a idéia de que o seu corpo hoje está debaixo da terra em decomposição... me é quase insuportável.

Pausa. A menina loura de maiô vermelho sai de dentro dágua, rebrilhante como um peixe, e deita a correr pela areia.

— Pode ser uma tolice — continua ele — mas tudo isso me comove...

Fernanda sacode a cabeça, com o sorriso do mais velho que perdoa a travessura da criança.

— No entanto não tens olhos nem piedade para as desgraças atuais, para as que estão perto de ti no tem­po e no espaço...

— Como?


— Pensa bem, faz um esforço. Perto da minha casa mora um tuberculoso que está morre-não-morre. Tem dois filhos. A casa é imunda. Fatalmente os pequenos vão pe­gar a doença. A mulher parece que já está contaminada.

Noel sacode a cabeça. É uma história nova. Nova e horrível. Ele reluta em tomar conhecimento dela. A rea­lidade não é maravilhosa como a poesia, mas também não tem o melodramático das desgraças dos romances. A vida é simplesmente chata e sem cor. Simplesmente.

Fernanda continua:

— Na frente da minha casa mora um homem que tem mulher e filho e está sem emprego. Trabalhava na mesma loja onde trabalho. E eu sei por que o coitado foi despedido... Porque precisavam dar o lugar dele para o protegido dum político influente. O patrão não hesitou...

Noel não pode duvidar do que Fernanda lhe diz. Ela viu, sabe...

— Mas de que serve a minha piedade? Poderá ela melhorar a sorte dessa gente?

Fernanda é rápida na resposta, pois já pensou muitas noites no assunto.



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