Caminhos Cruzados



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No quarto contíguo Nanette, o corpo nu coberto por um quimono de seda negra com ramilhetes de prata, fu­ma um Camel. O Cel. Pedrosa, sem casaco, deitado na cama de barriga para o ar, pita seu crioulo. Com os olhi­nhos cerrados contempla, através da cortina azul de fumaça que se desprende do seu cigarro de palha, a cara de Nanette: a cabeleira basta e loura, como uma juba; olhos negros muito saltados, pálpebras sombreadas de azul; uma boca pintada, vermelhíssima, bâton procurando ajudar a natureza.

— Êta potranca linda!

É o madrigal máximo que pode sair do cérebro do Cel. Pedrosa. Ele não pode esquecer os anos que viveu no campo, antes de estabelecer-se com loja em Jacarecan­ga. Os seus antepassados eram gente campeira, “indiada buenacha”.



Potranca linda é um elogio. Bonita como um ca’alo puro-sangue! — outro cumprimento.

Nanette entende vagamente o significado destas pa­lavras. Mas de uma coisa ela tem certeza: é de que este homem rude que fuma cigarros malcheirantes, que tem maneiras toscas, a tirou duma pensão barata, deu-lhe bons vestidos, dinheiro e por fim este apartamento con­fortável. Não se deve ser sentimental — pensa ela. — C’est de la bêtise! Mas ele é bom: não exige muito. Às vezes se contenta com o título de amante da “mademozela” Nanette Thibault. (E o trocadilho impossível que o coronel, com o seu humorismo ingênuo, faz de “Thibault” e “tambor”? Oh! Ela tem de agüentar os trocadilhos, como os cigarros de palha, por amor do conforto, por amor de seu bem-estar.)

Olhando agora para o teto, o coronel pensa mais uma vez na grande coisa que é ter dinheiro. Lembra-se da vida antiga. Larga o toco de cigarro no cinzeiro e pensa: Eu só queria era ver a cara do Madruga. O Madruga, magro e asmático, palito na boca, contrariador, implicante...

— Bueno (olha o relógio) são seis horas, preciso ir indo, meu bem.

Levanta-se.

Eh bien!

— Que foi que você disse?

Ela sorri mas não responde. Devagarinho, com passos pesados, Zé Maria Pedrosa caminha para o banheiro.

Nanette abre a janela, vai ao penteador, toma dum pulverizador e sai por todos os cantos do quarto a borrifar perfume, para apagar o cheiro que o cigarro crioulo do coronel deixou no ar.

35

Na casa de João Benévolo o silêncio esmaga as três pessoas que estão sentadas na sala maior.



Tina remenda as meias do marido. (Napoleão dorme no quarto.) Ponciano está sentado no lugar de sempre, duro na cadeira, o olhinho brilhando frio, palito no canto da boca, respiração cadenciada. Na parede caiada onde uma mancha de umidade corre desde o teto até o rodapé, sinuosa como um rio cortando todo um mapa — o relógio velho, asmático como Ponciano, diz o seu tique-taque ritmado.

A tíbia luz do lampião forma uma zona alaranjada dentro da qual se acham Ponciano e Laurentina. João Benévolo fica dentro da zona mais sombria, como uma fera na tocaia. Sente no bolso o peso do dinheiro, do mal­dito dinheiro do outro. Já faz mais de meia hora que Ponciano está ali e ele ainda não disse nada, não fez o que devia...

João Benévolo pensa numa frase: “Seu Ponciano, aqui está o seu dinheiro, tome, não precisamos da esmola de ninguém!” Pá! Atira o dinheiro para cima da mesa. Mas... o dinheiro não está intato. Um vidro de elixir paregórico para o Napoleão. Dois mil-réis de comida ao meio-dia; dois agora de noite... Como vai ser? João Be­névolo comprime dentro do bolso das calças a nota de dez mil-réis e as cinco moedas de um mil-réis. Melhor dizer: “Seu Ponciano, tome quinze mil-réis. O Napoleão está doente: precisamos de gastar cinco. Depois eu lhe pago o resto.”

Ponciano contempla Laurentina. Mais magra, mais acabada, mas sempre com aquele jeitinho que me agrada... Não sei, não sei, há tanta mulher no mundo, que diabo! Eu podia... Mas esta, é engraçado... sempre foi assim... desde o primeiro dia... Mas ela vem... Ora se vem! Paciência, Ponciano. Paciência.

Sorri. Laurentina ergue os olhos:

— Do que é que o senhor está rindo?

— Nada. Eu estava só pensando...

E se ela perguntar em quê? Mas não pergunta.

João Benévolo acha que agora é o momento para falar no dinheiro. Começa assim: “Por falar em dinhei­ro...” Mas o diabo é que ninguém falou em dinheiro. Continua calado.

Vozes na rua. Barulho na escada.

— É o professor que vai pra escola — diz Tina.

— Ué escola? Hoje é domingo.

— Ah! É mesmo.

As palavras são engolidas pelo silêncio. O relógio solta oito gemidos. E Ponciano ali, olho frio, contemplan­do Tina, que está de cabeça baixa a chorar por causa da tristeza do relógio que bateu lamentoso, como na casa das titias solteironas: o gato cinzento, as mobílias de rodinhas, os retratos. . .

João Benévolo olha para fora e começa a assobiar. E sua raiva foge para a rua com o assobio, transformada num trecho do Carnaval de Veneza. O assobio se mistura no ar com a valsa do gramofone do vizinho e sobem juntos para o céu. Para a lua? Para as estrelas?

Lua, estrelas... A imaginação de João Benévolo co­meça a trabalhar. Tina e Ponciano ficam no mundo es­quecido. João Benévolo vai explorar a lua, dentro dum fo­guete fantástico. Na lua não há credores, nem miséria, nem Poncianos.

36

Cacilda acaricia a cabeça de Pedrinho.



— Não seja bobo, nego, vá embora. Você é muito criança. Quantos anos tem?

— Dezesseis.

— Nos cueiros ainda.

— Mas sou homem.

Os olhos do rapaz brilham.

— Eu sei, mas é muito novinho. Não seja bobo. Ele é ciumento. Não quero bagunça no meu quarto.

— E tu gostas dele, não é?

Pedrinho sofre.

— Não gosto, nada. É que ele vive me amolando pra eu ir viver com ele. Não quero. Não me agrada. Prefiro ficar aqui. É o meu chão. Estou acostumada.

— Tu és diferente...

— Diferente?

— Não és como as outras. Eu sei. Se eu fosse mais velho, se tivesse dinheiro...

— Se você fosse mais velho não havia de se importar comigo...

— Me importava sim...

— Não seja bobo, Pedrinho...

Que aborrecimento! — pensa Cacilda. Ela precisa ganhar a vida e este guri aqui atrapalhando. Que idéia boba de paixão foi esta? Uma criança! Ela podia chamar um guarda, ou um homem... Mas não quer. Tem pena dele. Deve ter irmãs. Deve ser de boa família. Pode se perder como um que ela conheceu, um menino que acabou roubando do patrão e se matando com um tiro no peito.

— Tu não gostas dele, então?

— Já disse que não gosto.

— Bom, então eu vou embora. Posso voltar amanhã?

— Todos os dias, se quiser. Só não quero é que de­more,

— Está bem.

Beija Cacilda. Ela se deixa beijar.

— Adeus, nego.

Pedrinho põe o chapéu e sai. O beco sombrio. Vultos que passam. A lua. Os combustores distanciados. Clarões de portas.

Ele se vai... Na esquina volta a cabeça para trás. Lá está Cacilda na janela. Bonita, cara boa, não é burra, não é debochada. Metida neste beco... E o diabo é que ele vive pensando nela. Dia e noite. Na loja trabalha mal, lembrando-se dos olhos verdes, da boca miúda, da voz mansa.

Pedrinho caminha. Luzes do Parque da Redenção. Bondes que passam. Uma visão mais larga do céu. As estrelas. Vontade de chorar.

segunda-feira

37

Segunda-feira.



Vida nova — pensa João Benévolo, procurando ilu­dir-se. E sai para a rua iludido. A manhã é toda um clarão azul e dourado. As pessoas que passam projetam uma sombra violeta na calçada. João Benévolo sai assobiando e procura pisar nas sombras. É uma brincadeira divertida, que lembra o tempo de criança em que ele e os guris da Padaria Trípoli ficavam na calçada apostando quem pi­sava mais tempo e mais vezes na sombra dos que passa­vam...

Agora por causa das sombras João Benévolo pensa na infância e por causa da infância esquece as sombras.

Eram cinco: os três filhos do dono da padaria e mais o mulato empregado dum oficial do exército. Organizaram uma quadrilha como no Mistério de Nova York. João Benévolo era o detetive. O mulato fazia o papel de chi­nês, os três italianinhos eram perigosos ladrões. Quando chovia, o bando se juntava no porão da padaria. João Benévolo levava os seus folhetins e lia em voz alta para os amigos. Lia e explicava. A chuva lá fora parecia uma cortina de fios de aço. O porão era mal-iluminado. Um toco de vela alumiava tremulamente as páginas do livro. Uma vez (que chuva inesquecível! os guris estavam dei­tados no chão, com os cotovelos fincados na terra e as mãos segurando a cabeça), João Benévolo leu as Vinte Mil Léguas Submarinas, e imediatamente eles transforma­ram o porão no Nautilus. Os homens, os carros e as car­roças que passavam na rua sob a chuva eram tubarões, espadartes, baleias e polvos. Quando chegou a hora de escolher quem ia ser o Capitão Nemo, houve briga. Todos queriam encarnar o herói. Como não pudessem chegar a um acordo, separaram-se de relações estremecidas. João Benévolo passou três dias (que eternidade!) sem falar com os italianinhos da padaria. Mas uma tarde descobriu entre os livros velhos do pai um volume sem capa: O Homem Invisível. Esqueceu tudo e saiu a gritar para os vizinhos. “Pepino! Nino! Garibaldi! Venham cá, venham ver o que eu descobri!” Leu-lhes trechos do novo livro. E, lendo inventava coisas suas, colaborava com o autor, fantasiava, aumentava...

João Benévolo pára a uma esquina.

Para onde vou? O destino de sempre. Andar à toa, procurar os conhecidos, olhar os “precisa-se” dos jornais, sentar-se nos bancos da praça...

Vai lhe pesando no bolso (como chumbo na cons­ciência) o troco do Ponciano. Quinze mil-réis. Quinze mil-réis. Quinze mil-réis. As moedas tilintam, João Benévolo ouve o tinido alegre, que lhe impede de ignorar a existên­cia do dinheiro.

Não há de ser nada. Um dia ele encontra emprego, pega uma nota de cinqüenta e atocha-a na boca de Pon­ciano. Tome, seu sem-vergonha, não preciso de esmolas! E não me apareça mais lá em casa, está ouvindo?

E só em pensar no que vai fazer ou, melhor, no que poderia fazer, caso uma série de circunstâncias ainda não realizadas o permitisse, — João Benévolo se sente desagravado e forte, como se já tivesse feito. Outra vez imagina-se herói. E continua a andar — que importa o rumo? — de peito inflado, cabeça erguida, um herói!

Foi com heroísmo que casou com Laurentina. Sem­pre que ia para a loja, no tempo de solteiro, via aquela moça à janela. Gostava da cara, cumprimentava a desco­nhecida. Achava-a triste. Contavam-lhe que era órfã e que as tias queriam ver-se livres dela, fazendo-a casar com um homem que a moça odiava. A situação excitou a fantasia de João Benévolo. Era uma aventura. Mais do que isso: era uma aventura que estava a seu alcance, da qual ele podia ser o herói. E se conseguisse fazer que a moça se apaixonasse por ele? Se a libertasse do odioso pretendente protegido pelas titias? Começou a namo­rá-la e em breve já lhe mandava livros:

Do admirador que a vê todas as manhãs reclinada à janela.

Flores:


Tributo da minha admiração sincera.

Bilhetes:



Se soubesse como preciso duma alma irmã para trilhar comigo o caminho da vida...

Laurentina se deixou ninar pela canção romântica que João Benévolo lhe cantava. O outro pretendente, Pon­ciano, era um homem prático, seco e sem imaginação. A paixão veio e envolveu tanto o herói como a heroína. Apro­ximaram-se. As titias protestaram, alegando que Ponciano era o melhor partido, tinha mais dinheiro e uma situação econômica mais definida. Para João Benévolo foi um pra­zer enfrentar as velhas. Não há herói sem perigo, nem aventureiro sem aventura. Lutou e venceu. Ponciano fez uma retirada digna e ele entrou. Quando abriu os olhos, estava irremediavelmente comprometido. Casou.

As moedas tornam a tilintar. Mas João Benévolo está tão longe que nem chega a ouvir-lhes o sonido de guizo.

Pára diante da vitrina duma livraria. Livros com capas de todos os tamanhos e cores. Romances, contos, crônicas... E, bem no fundo, um título familiar: A Ilha do Tesouro que lhe evoca recordações agradáveis. Ele leu esse livro há quinze anos, no tempo de colégio. Tem uma vaga idéia da história: um homem de perna de pau, piratas, um tesouro escondido, um navio, uma taverna, e um menino que se vê envolvido numa doida aventura.

Se eu tivesse dinheiro... O preço está numa etiqueta ao pé do livro em algarismos graúdos: 6$000.

João Benévolo mete a mão no bolso. Ali estão os quin­ze mil-réis do troco... Mas não é direito. O dinheiro não lhe pertence. Além disso, há coisas mais úteis a comprar.

Na capa do livro aparece o homem de perna de pau com um papagaio empoleirado no ombro. No fundo — o mar, o brigue dos piratas... João Benévolo se imagina com o livro nas mãos, sentado na sala, enquanto Tina costura.

Mas não. Não é direito. Lança um último olhar para o livro e sai caminhando. Dá dois passos, estaca, faz meia volta... Um homem precisa de distrações. Que diabo! Todos temos direito a um pouquinho de prazer. Os ricos têm teatros, automóveis e rádios. Os pobres contentam-se com livros...

É justo. E depois, quando se empregar, há de pagar os vinte mil-réis de Ponciano. “Tome, Ponciano, muito obrigado pelo empréstimo.”

Entra na livraria, assobiando. Carnaval de Veneza.

38

Para o Prof. Clarimundo, tomar o bonde é uma coisa desagradável. Desagradável por duas razões. Primeiro porque é perigosa; depois, porque implica no convívio por alguns minutos com gente desconhecida, com povo, com humanidade. As relações novas sempre o atemori­zam. Nada há como as amizades velhas. Velhas e poucas. Na escola já está habituado aos alunos antigos, que lhe conhecem o método, o gênio, e a maneira de ser. Quando surge um estudante novo, Clarimundo é tomado dum certo mal-estar: uma nova fera para domesticar.



Nos bondes o professor sofre. Se acontece uma mu­lher sentar-se a seu lado, ele fica perturbado e passa o resto da viagem assombrado pelo fantasma perfumado e colorido que lhe roça o cotovelo.

Além do mais, tomar o bonde é perigoso. Estamos esperando o veículo elétrico muito sossegado e de repente passa um automóvel maluco e nos joga longe. A cabeça bate contra o poste — bumba! Fratura na base do crânio. Era uma vez uma vida! O progresso mecânico é horrível, pois significa bondes, automóveis, gramofones, rádios, máquinas, máquinas e mais máquinas! A admiração de Clarimundo pela ciência que tornou possível todas essas engenhocas fica limitada aos domínios da teoria.

Um rádio não é admirável porque nos faz ouvir mú­sica mas sim porque é um milagre da ciência.

Clarimundo espera o bonde. O monstro amarelo pára. O professor entra e senta-se num banco. Oito passageiros. O elétrico põe-se em marcha. Desfilam as casas da Inde­pendência: fachadas claras e escuras, postes, vitrinas, pessoas, árvores. Depois, os Moinhos de Vento. Passam-se alguns minutos. O professor aperta no botão da campai­nha, o bonde diminui a marcha e finalmente pára, ele desce. Como todas as vezes, fica por um instante desori­entado. A casa da esquina, porém, — iniludível, com o seu torreão quase gótico e os ciprestes esguios no jardim — é um ótimo ponto de referência.

Clarimundo entra na ruazinha arborizada. A sombra das árvores é tênue sobre as calçadas. Folhas secas juncam o chão. O ar está parado, e o céu claro.

Clarimundo não pensa em mais nada senão em achar a casa: todos os sentidos estão alerta à procura do portão verde. Lá está ele. A placa é uma garantia: Cel. José Maria Pedrosa.

Entra com o mesmo temor de sempre: Terá cachor­ro? Já lhe disseram que não tem. Ele sabe que não tem... Mas a sensação de receio se repete a cada visita. Clari­mundo caminha pela alameda de palmeiras. Lá no fundo está a casa. Um jardineiro preto segura a mangueira e despeja um jorro dágua contra os canteiros de relva. Que parque enorme! Pinheiros, palmeiras, árvores japonesas, pequeninas e podadas, plátanos (quase desgalhados), arbustos desconhecidos, verdes de todos os tons, claro, escuro, brilhante, fosco, amarelado, azulado, acinzentado... A estradinha de areão que leva para casa range sob a sola dos sapatos de Clarimundo, que rebrilha.

Caminha cauteloso como um invasor. Sobe os três degraus que levam ao alpendre. Aperta o botão da campai­nha. Uma criada abre a porta:

— Faça o favor de entrar.

Clarimundo entra, fica no hall grande, de parquê xadrez, creme e negro. A escada que sobe para o primeiro andar começa ali. Brilham metais e madeiras polidas. Um lustre complicado, com grandes pingentes de vidrilho, pende do teto.

— Faça o favor de entrar pra sala — diz a criada, tomando do chapéu do recém-chegado.

O professor entra. A sala, com seus móveis à Luís XV, aumenta-lhe a sensação de desconforto. Clarimundo pensa nos seus sapatões grosseiros de sola espessa. A sua roupa surrada de casimira cinzenta, encolhida e amassada, é uma nota dissonante no salão de douraduras, jarrões em que se vêem pintados marquesas e marqueses de ca­beleira empoada.

— Faça o favor de sentar que eu já vou chamar D. Chinita — diz a criada.

Clarimundo senta-se na ponta da cadeira, constran­gido.

Passam-se alguns minutos. Chinita entra, metida num pijama preto de seda. À vista da moça com calças de homem, Clarimundo fica todo perturbado e cora.

— Bom dia — gagueja, erguendo-se.

— Ah! Como está o senhor, professor?

— Muito bem, agradecido.

— Que é que tínhamos hoje?

— Português.

— Que pena!

O semblante de Chinita exprime consternação. (Só o semblante. Ela está olhando para o professor e lembran­do de John Barrymore em Topaze, aquele professor de óculos, bigode e pêra. Mas este é um pobre diabo enfezado de bigodão de piaçaba, franjinha ouriçada...).

— O senhor me desculpe, mas hoje não posso ter aula.

E explica: estão todos muito ocupados: ela princi­palmente. Preparativos para a festa da noite. Não sei se o senhor sabe, hoje papai e mamãe vão dar uma baita festa, (Baita vale um soco no espírito do professor de Português.) Inauguração do palacete. O professor não sabia? Engraçado... Todos os jornais falam. Chinita exagera: muito trabalho, muita coisa a arrumar, enfeites, comidas, o senhor compreende... Vai enumerando.

E sempre assim — pensa Clarimundo. Quando não há festa é a menina que está dormindo ou que acorda com dor de cabeça. Já faz sessenta dias que tomou o professor e só deu uma única lição. No fim do mês man­daram um envelope com o dinheiro. Ele ficou ofendido...

— Senhorita Mariana... (Clarimundo acha uma confiança muito grande dizer Chinita, apelido tão fami­liar.) O seu pai me mandou o ordenado do primeiro mês... Mas a senhorita compreende, eu não posso aceitar pois não dei mais que a primeira lição.

— Ora, professor! Nem diga! A culpada fui eu...

— Mas é que não dei as lições, portanto não fiz jus ao pagamento...

— E este trabalho de vir até aqui? Não, senhor, não se fala mais nisso. Mas hoje o senhor vai me descul­par, sim?

Clarimundo não sabe que dizer. Resmunga coisas ininteligíveis e se encaminha para a porta. A criada no hall lhe entrega o chapéu. O professor conserva os olhos desviados de Chinita. À porta, estende uma mão frouxa para a despedida.

— Até outra vez! E me desculpe, sim professor?

— “Desculpe-me” — corrige Clarimundo. — O im­perativo exige pronome enclítico. Desculpe-me. Dê-me. Faça-me.

Diz isto sem olhar para a interlocutora.

Uma mulher com calças de homem! Caminhando pela alameda de palmeiras que conduz ao portão, Clari­mundo vai verberando mentalmente os costumes do mun­do moderno.

39

— Meu filho, coma essa carne assada que está muito boa...



Honorato volta-se para Noel e seu olhar é um convite. Virgínia grita para a criada:

— Querubina, ande com o arroz! Que lesma!...

Os três estão ao redor da mesa circular coberta por uma toalha de linho muito branca. Louça inglesa cor-de-rosa, talheres de prata, flores num vaso bojudo de cristal, copos de bacará azul. Os pratos fumegam, perfumados. A luz do meio-dia alaga a sala.

— Coma a carne, meu filho!

Diante da comida, Honorato se enternece, enche-se de sentimentos paternais, lembrando-se de todo o tempo que ficou esquecido do filho, preocupado com os negócios. Ê seus sentimentos assim despertos transbordam no pe­dido insistente:

— Coma a carne, Noel...

É como quem diz: Eu te estimo, eu te amo, apesar de tudo; sou teu pai, interesso-me por ti. Quisera beijar-te, acariciar-te como uma mãe, como a tua mãe não faz... Mas, é o diabo, sou homem, fica feio. Por isso me encolho. Hoje estou alegre: quero demonstrar o meu interesse por ti. Só acho esta maneira, dizer-te que a carne está boa, pedir-te que a comas.

— O nenêzinho não está com apetite... — zomba Virgínia.

Noel brinca com a colher em cujo côncavo ele vê o seu próprio rosto, deformado e oblongo, como se tivesse sido pintado por El Greco.

Querubina entra, trazendo a travessa do arroz. Noca espia na porta, como um cachorrinho assustado. Hono­rato amarra o guardanapo ao redor do pescoço e começa a trinchar a carne corada.

Virgínia volta-se para o filho:

— Que é que você quer?

Sua voz é dura: parece um instrumento de metal a bater contra um pau.

Noel olha para os pratos, indeciso, enfastiado.

Pausa breve. Honorato come animadamente. Virgínia olha para o filho e depois de um instante, irrompe:

— Então é melhor você mesmo se servir.

E como cada qual fica entregue a si mesmo, rompe-se o único elo que os unia. Agora entre os três abrem-se abismos.

Honorato mira os pratos com olho alegre. Com muita ternura e carinho, amontoa a comida com a faca, em quadradinhos simétricos em cima do garfo, e depois leva o garfo à boca e começa a mastigar com bravura. De quando em quando bebe um gole de vinho tinto e estrala de leve a língua. Que bom! Mentalmente faz um elogio à cozinheira: “Esta Maruca é uma cozinheira de mão-cheia. Pena é a cachaça!” Às vezes, como uma mosca importuna que voeja e lhe pousa no nariz para em seguida ir embora, tornando a voltar alguns instantes depois, — visitam-lhe a mente pensamentos referentes ao negócio.

Virgínia come calmamente, sem grande apetite. O silêncio a sufoca. Ela quisera ter uma companhia alegre para o almoço, mais gente, mais conversas, principalmen­te gente nova, diferente. Os quadros familiares lhe causam engulho: o marido, com o guardanapo amarrado no pesco­ço como uma criança de babador e bochechas lustrosas, os olhos empapuçados e aquela verruga odiosa na face esquerda, perto do nariz. Comendo como um porco: sem uma palavra, sem um imprevisto, sem um gesto superior. Do outro lado, o filho, pálido, de olhos tristes, desligado, ausente. Muita razão tinha a Mimi ao dizer-lhe: “Não tens vocação para mãe.” Ela quisera ser mais terna, me­nos ríspida. Se houvesse entre ela e o filho uma aproxi­mação, por menor que fosse, tudo mudaria. Mas agora é tarde. Ele está crescido... e ela — esquecida da sua ma­ternidade. A culpa foi da preta Angélica. Tomou conta de tudo naquela casa, até do filho, incutindo em Noel o ódio à mãe. “Olha, ela é malvada, não quer bem o nenê, só a tia preta é que quer.” E conservou sempre a criança num mundo à parte. Agora não há mais remédio...

Noel vê o reflexo da janela no cálice de cristal. No lago minúsculo de vinho, o sol põe respingos dourados. Respingos de sol na superfície da água... Ipanema... Fernanda...

Vestida de branco ela vai na frente, puxando-o pela mão. Ele sente a lembrança daquele contato quente. E se ela estivesse ali, do outro lado da mesa, sorrindo?

Noel imagina Fernanda sentada diante dele. As duas pessoas que aqui estão desaparecem, como se nunca ti­vessem existido. A própria sala se transforma. Fica menor e mais simples, mais simples e mais clara. Fernanda está vestida de azul, os cabelos lisos e lustrosos puxados para trás, seus olhos profundos é que dão o calor bom de con­forto e confiança que anda no ar. O casal terminou de almoçar. Conversaram muito, fizeram planos. A vida agora é diferente. Daqui a pouco o relógio vai bater uma badalada: ele se erguerá, beijará a mulher e sairá para o trabalho. Agora não teme mais a vida: olha as criaturas de frente e luta. Quando a coragem lhe falha, Fernanda o anima. Sua presença é sedativa e boa... De noite lêem juntos sentados no divã coberto de chitão. Uma janela se abre para o luar e os perfumes da noite e do jardim. E o gramofone conta pela voz dos violinos histórias parecidas com as de tia Angélica.



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