Caminhos Cruzados



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Laurentina limita-se a olhar para o marido com o rabo dos olhos. E o seu olhar diz tudo. Reclamar? Tem graça. A gente está devendo três meses de aluguel...

O concerto das goteiras começa. Bem no centro da sala de jantar a água cai em pingos grossos sobre a bacia de folha, produzindo um som agudo, metálico e irregular: o solo. Outras goteiras menores, caindo regularmente contra o fundo das panelas, produzem um som cavo de acompanhamento.

Poleãozinho sentado na cama e especado entre tra­vesseiros, desenha bonecos com um toco de lápis num pedaço de papel de embrulho. Um círculo com dois pingos e um traço dentro, um risco vertical espetando o círculo, mais dois riscos — um homem. O homem é Tom Mix. Falta o cavalo. Cavalo é mais difícil de desenhar. A lín­gua de fora, Napoleão risca o que para ele é a imagem de um cavalo. Pronto! Tom Mix vai montar no seu pingo e dar tiros nos bandidos que roubaram a mocinha.

A chuva bate contra a vidraça. Uma luz cinzenta, pegajosa e fria, invade o quarto. Sentada na cama, re­mendando uma camisa de dormir, Laurentina bate quei­xo.

Novas goteiras rompem. Já não há mais bacias nem panelas para aparar a água. Laurentina se deixa ficar onde está, desalentada. O soalho da varanda vai ficando aos poucos alagado. A música dos pingos continua, cada vez mais forte.

João Benévolo se enfurna no quarto, fugindo à inun­dação. Faz de conta que está na China. Um aventureiro inglês... O Rio Amarelo cresce, inundando as margens. O aventureiro sobe para o seu iate, (João Benévolo sobe para cima da cama.) Capitão, faça andar as máquinas. Todos a postos! E o iate começa a trepidar, a âncora sobe, a hélice gira. O barco aventureiro se vai... Pelo rio pas­sam juncos com velas cor de bronze. Chineses de chapéus cônicos remam com longos remos. Nas margens erguem-se pagodes. A bela princesa que o explorador inglês vai libertar chama-se Jade.

Napoleão desenha uma casa com a chaminé a fume­gar. Um coqueiro do lado. Tom Mix chega, bate na por­ta... (As figuras continuam imóveis, mas na imagina­ção de Poleãozinho elas ganham movimento, voz, vida) Pan-pan-pan! Quem é lá? Aqui é Tom Mix! Abra essa porta senão eu meto bala!

Laurentina espeta a agulha na ponta dum dedo. Perdeu o dedal. Seus olhos estão anuviados. “Estarei pre­cisando de óculos? Era só o que faltava...” Suspira bai­xinho, e vai fazendo a agulha varar a fazenda, distraida­mente enquanto o seu pensamento voa...

No tempo em que morava com as tias, era como uma princesa. Não trabalhava, vivia à janela, ia ao ci­nema, tinha roupas. E era tão boba que se queixava, julgando-se uma pobre mártir... Agora o que ela tem é frio, medo, um marido sem coragem nem energia, um filho doente, uma casa onde chove como na rua, dívidas e esta vontade de nunca ter nascido...

Lá fora a chuva continua a chiar. As goteiras tam­borilam na varanda. A parede do quarto é um grande mapa branco com ilhas e continentes escuros de umidade. De onde será que vem este ventinho fino de gelo?

— Estará aberta alguma janela, Janjoca?

João Benévolo alça para a mulher uns olhos sem vida e responde:

— Xangai.

Tina fita o marido com uma expressão de estranheza no rosto.

— Estás maluco?

João Benévolo desperta para o mundo real.

— Que foi que perguntaste?

— Perguntei se tinha alguma janela aberta...

— Ah! Não tem.

Laurentina baixa os olhos para a costura. O relógio estertora nove badaladas e por um instante a música das goteiras fica abafada. Tina começa a chorar baixinho.

Se ela tivesse casado com o Ponciano teria sido me­lhor. Ele não fazia versos, não dizia coisas bonitas, mas tinha dinheiro, era organizado, não havia de sujeitá-la a esta situação de miséria e vergonha.

— Papai, o Tom Mix tem dois revólve?

— Tem, meu filho.

— De quantos tiro?

— De seis cada um.

— Por que é que não é de vinte?

— Porque não é.

Napoleão volta para o mundo de Tom Mix. João Be­névolo ancora o seu iate em Xangai. Onde estás, Jade de minha alma?

Laurentina pensa no dinheiro que Ponciano lhes emprestou. Hoje se vão os últimos cinco mil-réis. E ama­nhã, que será deles?

57

À frente do espelho Leitão Leiria dá o último toque na gravata-borboleta. Acordou azedo. Deu com o dia chu­voso e escuro e ficou mais azedo ainda. Um gosto amargo na boca e uma dor no fígado fazem-no pensar no cham­panha do Cel. Pedrosa.



Nós ia se esquecendo da beberrança!”

Não lhe saem dos ouvidos as palavras do outro. Que indignidade! E é um homem malfalante, vulgar e boçal como este que pretende entrar na sociedade, fazer-se querido do Arcebispo, candidatar-se, talvez, a um cargo público. Que indignidade!

Leitão Leiria levanta o pulverizador de perfume à altura do peito, aperta na pêra e recebe no rosto a poeira líquida e perfumada.

O bico dourado do pulverizador lembra-lhe os ouropéis da mobília do palacete do coronel. Leitão Leiria exclama mentalmente adjetivos depreciativos. Esnobe! Novo-rico! Espalhafatoso! Tartufo! E procura com esta balbúrdia esconder o ciúme e o despeito que desde a noite anterior o estão roendo. Porque lhe fez mal ver que o outro tinha um palacete caro e confortável, mobílias deslumbrantes, um parque imenso com árvores européias, repuxo, piscina. Fez-lhe mal ver que o “guasca” oferecia à sociedade uma festa animada e concorrida. E, acima de tudo, lhe é doloroso saber que Pedrosa auxiliou com vinte e cinco contos de réis — que indignidade! — as obras da Catedral. Adulão! Hipócrita!

Leitão Leiria passa a escova pelos cabelos e por fim volta para o quarto.

D. Dodó acha-se ainda deitada, com as cobertas pu­xadas até o queixo.

Seu rosto redondo e gordo contrasta, amarelo, com a brancura das fronhas. Sua cabeça está envolta numa touca de seda circundada por uma fitinha cor-de-rosa. Seus olhinhos, espremidos ainda de sono, miram com simpatia o marido.

— Estou atrasado! — diz Teotônío, inclinando-se sobre a cama para beijar a mulher na testa.

Meu filhinho, não te esqueças da recomendada de Monsenhor Gross.

Leitão Leiria faz um gesto de enfado.

— É verdade! Que buraco!

Imediatamente arrepende-se do plebeísmo.

— Perdão, Dodó!

Os olhos da esposa mostram compreensão e tolerân­cia. Essas coisas escapam. Ninguém está livre...

Leitão Leiria fica pensativo.

— Tenho de arranjar um jeito...

Monsenhor Gross pede com empenho um lugar no escritório para uma recomendada sua. Diz que é moça muito culta, muito séria, datilógrafa hábil, com conheci­mentos de inglês e correspondência comercial.

— Faze o possível, sim? Ela é filha de Maria.

— Filha de quem?

— De Maria.

— Ah! Mas o diabo é que lá no escritório...

— Faze o possível. Foi Monsenhor que pediu... Com tanto empenho, com tanto interesse...

— Vou fazer o possível...

Trocam-se sorrisos de despedida.

Leitão Leiria desce para o andar térreo, enfia o chapéu e o impermeável, sai, recebe um respingo de chu­va e penetra no interior morno e perfumado do Chrysler.

D. Dodó levanta-se pensando no questionário da Gazeta.

58

Salu acorda com sede. Levanta-se de corpo dolorido, cabeça zonza e vai beber um copo dágua. Olha para o relógio, que está sobre a mesa-de-cabeceira: dez horas.



Espreguiça-se, abre a boca para um bocejo cantado e vai deitar-se de novo. Fica estendido na cama, de costas, com as mãos cruzadas atrás da cabeça. Recorda-se vaga­mente dum sonho: imagens esfumadas, coisas sem con­tornos definidos, sombras confusas. Mas a recordação de Chinita agora domina todas as outras. E ele recorda, rumina o seu gozo. Tudo foi fácil, bem como ele esperava. Nada de palavras: ação. E como o rosto dela se contorceu na surpresa da dor aguda, como o seu corpo moreno se dobrou num movimento de onda, e com que prazer vio­lento e ao mesmo tempo terno e comovido ele a penetrou! Naquele instante tudo em torno se esvaeceu, recuou para um último plano remoto. Os sons do jazz que vinham do palacete, o cheiro da relva, os ruídos dos bondes e das bu­zinas lá embaixo, na Floresta. Ele só tinha sentidos para a presença daquela carne quente que palpitava, daqueles olhos que brilhavam na sombra, daqueles lábios momos e úmidos que ele mordia, daqueles lábios abandonados a dizerem palavras que ele mal e mal ouvia. E, envolvendo tudo, aquele perfume de Chipre que emanava dela e lhe chegava à consciência como a fragrância mesma daquele gozo intenso e ansiado.

Pouquíssimos minutos. Depois a sensação de torpor e frescura que dá o desejo satisfeito. De novo ele sentiu sob as mãos o contato desagradável do veludo do vestido e compreendeu nitidamente o ridículo de sua posição. Levantou-se, compondo-se, Chinita se erguia devagar. E ele só tinha um desejo: fugir dali o mais depressa possí­vel. Mas ela choramingava, terna. Ele se inclinou para ouvir melhor.

— Que é que estás dizendo?

A voz dela era como de uma criança mimosa:

— Tu gostas mesmo de mim?

Abraçaram-se.

— Está claro que gosto, meu bem.

Os olhos dela brilhavam na sombra verde. A música do jazz chegava mais forte até eles, de mistura com vozes humanas.

— E agora?

Salu encolheu os ombros. Que resposta podia dar? Agora... amanhã se vê. Depois conversariam.

— Vamos embora. Pode vir gente.

— Vai tu na frente — pediu ela.

— Está bem. Adeus.

Beijaram-se. E ele se foi, meio trêmulo, com um calor no rosto, pisando a relva dos canteiros, rumo do palacete.

Recordando, Salu torna a desejar Chinita. Levanta-se de novo e vai até a janela. A chuva cai. As chaminés das fábricas dos Navegantes atiram uma fumaça parda contra as nuvens cinzentas.

Que estará ela fazendo a estas horas?

Entra para o quarto de banho, despe-se, abre o chu­veiro e mete-se debaixo dele.

Dez minutos depois está vestido, fumando e cami­nhando no quarto dum lado para outro. Vêm-lhe agora ao espírito as primeiras dúvidas.

E se a pequena conta tudo aos velhos? Não, não po­de contar, impossível. E se ela vem com choros falar-lhe em casamento? Isto sim é que é possível. Mas uma moça rica não precisa casar...

Batem à porta.

— Quem é?”

— O café.

— Pode entrar.

A camareira entra com a bandeja do café. É uma chinoca baixa, vestida de preto, de avental e touca branca. Entra, cumprimenta e depõe a bandeja sobre a mesa.

— Já bati mais cedo, o senhor decerto estava dor­mindo.

— Está bem. Pode ir.

Salu fica olhando a criada. É uma mulher de pernas curtas e tortas, pés enormes. Que diferença!

De novo pensa em Chinita. A criada sai e fecha a porta. Salu despeja café na xícara e toma um gole.

No bule niquelado vê refletido o seu rosto: uma fi­gura grotesca, de cara oblonga e chata, numa caricatura ridícula e desagradável. Se ele fosse assim disforme, com estas mãos desproporcionais, este aspecto de microcéfa-lo... Não teria possuído Chinita ontem, nenhuma mu­lher havia de querê-lo. Se fosse assim deformado, que significação podia ter para ele a vida? Que seria o mun­do sem essa sensação esquisita de ser admirado, invejado, cobiçado?

As recordações se lhe atropelam na mente. Salu relembra o colégio. Os colegas o respeitavam porque ele era forte. As meninas o admiravam porque ele era bonito. Quando o grupo de amadores levava os seus dramas, sempre o escolhiam para galã. Com que entusiasmo re­presentava! O Pereirinha se vestia de mulher e caía em seus braços: “Meu querido Eduíno, sou toda tua!” E a castelã se abandonava ao bravo cavaleiro andante, largando sobre ele todo o peso do corpo. Salu falava num cochicho com o canto dos lábios: “Não seja besta, não larga o corpo assim que tu rasgas a minha armadura.” A armadura era de papelão... E no final, quando Edvino, resistindo à tentação, fugia para a montanha e, renunciando à vi­da, internava-se num monastério, a platéia rompia em aplausos, o pano caía e o padre-prefeito vinha felicitá-lo: “Muito bem Salustiano, admirráfel!’ Ganhava merenda especial, tinha licença de sair no domingo seguinte. E recebia bilhetinhos clandestinos das meninas do arrabal­de:

Mando-lhe esta violeta, veja o que quer dizer no livro dos significados das flores. Sua admiradora

Pearl White Brasileira.”

E em casa nas férias, todos achavam: “É a pérola da família.” — E na cidade do interior o mocinho estu­dante que vinha de férias era disputado...

Ainda a contemplar a cara feia que o espelho men­tiroso do bule lhe mostra, Salu lembra-se da sua primeira aventura de verdade. Ela se chamava Manuela e era filha dum coronel do exército. Tinha vinte e oito anos e ia casar com um guarda-livros de trinta e sete. Salu tinha dezoito. Amaram-se, encontravam-se às escondidas. O coronel fazia gosto no casamento com o guarda-livros. Os pais de Salu se opunham ao namoro. Mas o romance floresceu. Era na primavera e uma tarde Salu possuiu Manuela debaixo de pessegueiros floridos. Fugiu alarma­do. A moça passou um mês fechada em casa. Ao cabo de quinze dias, Salu verificou que sua paixão era apenas um desejo de aventura. O que ele amava era o amor e não Manuela. Veio fevereiro e ele voltou para o colégio e para as outras mulheres. Manuela não teve outro remédio senão ir para o guarda-livros. E casou-se de véu e grinal­da.

Tinha um bonito corpo e lindos olhos — pensa ago­ra Salu, sorrindo. E vê com a memória Manuela deitada de costas contra a terra roxa pintalgada de flores rosadas. Mas de repente a terra não é mais terra, é a relva verde e Manuela se transforma em Chinita. Um desejo quente começa a apossar-se do corpo de Salu. Ele se levanta brusco, aproxima-se do telefone e faz o disco girar quatro vezes.

— Alô? — Pausa. — Alô? — Casa do Cel. Pedrosa? Faça o obséquio de chamar a Chinita ao aparelho... Não, é um amiguinho. Ela sabe. Obrigado. — Pausa. Salu esmaga a ponta do cigarro no cinzeiro, estranhando a própria ansiedade, este desejo absurdo de ouvir a voz de Chinita, esta vontade latejante de vê-la de novo, tocá-la, beijá-la... Com o receptor ao ouvido, Salu percebe ruídos secos de passos ecoando numa grande sala. Deve ser ela. Alô?

59

Com as mãos enfurnadas nos bolsos do roupão de flanela, Noel encosta a testa na vidraça fria e olha para fora. A chuva cai sobre o seu jardim e sobre os telhados da Floresta. No fundo do pátio os coelhinhos brancos estão muito juntos, encolhidos dentro de sua casinhola. O vento sacode as árvores.



Noel sente um grande amolecimento interior, como se sua própria alma estivesse sendo batida pela chuva.

Tudo cinzento, tudo sombrio. Ainda há pouco, quan­do pegou da pena para escrever, a pena era fria, o papel era frio. As idéias lhe fugiam, esquivas. A sua persona­gem negava-se a viver. Inveterava-se na sua atitude parada: olhando da janela as crianças que brincavam de ciranda na rua. Sempre à janela, como uma estátua, como uma coisa de pedra, sem calor, sem alma, sem vida.

Tentou a leitura. Neste dia gris de duas dimensões, nem os livros têm sentido. As palavras não querem dizer nada. Parece que tudo se imobiliza num silêncio polar. Procurou um romance tropical. Encontrou nele um sol de gelo, uma vegetação de cinza e criaturas que diziam palavras brancas de sentido. Abriu cinco livros para fe­chá-los logo em seguida. Botou um disco no gramofone. A música lhe deu um pouco de calor, mas um calor tí­mido que se fundia no ar, devorado pela luz neutra desta manhã de chuva. Por fim ficou sentado, de olhos fecha­dos, caçando recordações.

A casa velha da Rua da Olaria, o colégio, tia Angéli­ca e as suas histórias. Uma noite de verão. Lua cheia, dessas que brotam de dentro das florestas encantadas. A casa em silêncio. Ele via um livro com figuras. Tia An­gélica cochilava a um canto. Pela janela Noel olhou o céu onde de repente uma estrela caiu, riscando de fogo o fundo azul.

— Tia Angélica! — gritou ele, apontando para fora. — Eu vi uma estrela caindo.

Então tia Angélica contou a história do fim do mun­do. Deus disse que os homens eram muito maus e que então Ele ia mandar uma chuva de estrelas para acabar com o mundo. Derrubou sobre a terra todas as estrelas do céu. Foi uma coisa tremenda: casas e gentes esmaga­das, homens, mulheres e crianças gritando de medo e dor, muitos ficaram loucos.

Encolhido de susto, Noel arriscou uma observação:

— Como é que o mundo nasceu de novo?

Tia Angélica não explicava. O céu noturno continua­va impassível.

Mas nem as recordações da infância satisfizeram Noel. E ele está agora aqui com o rosto colado à vidraça, a olhar para a chuva.

Pensa em Fernanda. A estas horas decerto ela está trabalhando, escrevendo cartas enfadonhas, aturando as cretinices do patrão. Ela, uma mulher! Noel se recorda do que Fernanda lhe disse um dia: Não imaginas como é bom, depois dum dia aborrecido de trabalho, a gente voltar para casa e se entregar inteiramente aos livros. Eles assim têm um sabor diferente, maior, mais profundo.

Noel volta para a sua cadeira, senta-se e fica olhan­do a sala quieta. Os livros de lombadas coloridas se en­fileiram nas prateleiras. Nas paredes — os retratos de Debussy, de Beethoven, de Verlaine, de Ibsen. A vitrola de nogueira, o rádio. Livros, retratos de homens mortos, discos — Noel está cansado de fantasmas. O que sente é a necessidade de uma presença humana, dum ser de car­ne, osso e sangue, que tenha um coração, respire, fale, sinta, ame.

Um ser que o desperte, arrancando-o desta prisão e transformando-o de bicho de concha em pássaro livre para os grandes vôos. Um ser que, levando-o pela mão... Pela mão, como Fernanda nas manhãs que iam para o colégio...

E no silêncio do seu gabinete, Noel decide que é preciso dar um novo rumo à sua vida. Um homem não pode viver eternamente só. Precisa libertar-se do mundo dos fantasmas e entrar definitivamente no mundo dos vivos. O tempo passa e é urgente fazer alguma coisa positiva. Escrever um livro talvez. Conseguir uma posição na sociedade. A troco de que ele há de ser diferente dos outros? A troco de que deve considerar vergonhosos os de­sejos da carne? Tudo o que se sente é legítimo. No fim de contas ele tem dentro de si grandes coisas em potên­cia, uma energia adormecida. E, bem analisado, seu caso não lhe parece de uma dificuldade invencível. Aceitar o oferecimento do pai, fazer um esforço de concentração, matar o mundo de mentiras de tia Angélica, dedicar-se ao trabalho. E depois... depois...

Noel caminha agora dum lado para outro. É preciso sair desta prisão, voar para o ar livre.

Fica durante vários minutos a girar em torno destes pensamentos.

Mas tem inteligência bastante para compreender que tudo isto, bem no fundo, se resume numa coisa simples: ele está irremediavelmente apaixonado por Fernanda.

A chuva continua a cair.

60

Com o fone ao ouvido, Chinita fala em surdina:



— Sim... Eu vou. No Woltmann? Às cinco? Está bem. Adeus!

Larga o fone e sobe para o quarto. Fecha a porta, atira-se sobre o divã e fica ali deitada em silêncio.

Tudo tão confuso... Ela nem sabe que pensar. De noite teve sonhos horríveis. O pai morto, ela de luto, a mãe degolada, no meio dum campo sem-fim, e por toda a parte o rosto de Salu, que ao mesmo tempo não era Salu, mas sim o dum namorado antigo de Jacarecanga... De manhã, ao despertar, sentiu o corpo dolorido, como se tivesse tomado uma sova antes de deitar. Sensação de febre, e o amargor da decepção. O que ela julgava fosse uma coisa misteriosamente boa lhe tinha ferido os ner­vos com uma dor brutal. Pelo que lia em novelas proibidas para moças, pelo que insinuavam as amigas sabidas, ela como que já conhecia todos os segredos do amor. No en­tanto, secretamente, numa camada muito profunda do seu ser, esperava algo de melhor, de mais gostoso e me­nos violento.

Ainda agora Chinita parece sentir nas costas a as­pereza da relva. E ver a cara de Salu na sombra. E estremece de novo à pressão ardente daquelas mãos, daqueles lábios.

Quando voltou para dentro de casa, estava tão per­turbada, que parecia ia entrar toda nua no salão ilumina­do e cheio de olhos curiosos.

Chinita vê sua imagem no espelho do penteador, e contempla-se com amor e uma certa autocomiseração. Joan Crawford depois do encontro com Clark Gable no parque...

Mas num momento a provinciana que há dentro dela desperta e toma o lugar da menina que se traveste de estrela de Hollywood. E então todas as coisas lhe apare­cem com a sua realidade indisfarçável. Ela perdeu a vir­gindade. Não é mais moça, como se diz lá fora, mas uma mulher à-toa como aquelas muito pintadas e espalhafato­sas que moram nos casebres do Barro-Vermelho. Uma pessoa pode lhe atirar na cara aquele palavrão de quatro letras...

Chinita franze a testa a um pensamento alarmante.. E se ficar grávida? à medida que os segundos se escoam a sua inquietude vai crescendo. Não é impossível... Ela conhece casos. Uma prima que morava na estância... Um belo dia apareceu grávida... Escândalo. O pai quis dar um tiro nela. Tinha desonrado o nome da família. Choro na casa toda. A moça em segredo confessou a Chi­nita que tinha estado com o rapaz só uma vez. Só uma vez.

Agora Salu lhe telefonou marcando-lhe um encontro e ela não teve coragem de recusar. Apesar da decepção apesar da dor, apesar da vergonha...

É estranho — reflete Chinita, sem compreender — ela sente que agora gosta mais de Salu. Gosta dum modo mais profundo, mais sincero. Vontade de estar com ele, de passar a mão pelos seus cabelos. Vontade de viver com ele, sempre e sempre, ouvindo aquela voz metálica, vendo aquela cara morena. Sempre, sempre...

As lágrimas brotam nos olhos de Chinita.

De tristeza? De contentamento? De felicidade? De remorso?

Dentro do espelho Joan Crawford também chora.

61

Na porta da sala branqueja a placa:



Dr. Armênio Albuquerque Advogado

Sentado à mesa de trabalho, Armênio escreve a sua crônica para o Pathé Baby, semanário de vida social.

Na linda tarde outonal, o Poeta visita o seu jar­dim social.”

Afasta-se do papel e olha o período com carinho. O poeta é ele. Armênio sempre se julgou poeta. Um soneto aos vinte anos, depois, poemas soltos em revistas munda­nas, nas páginas literárias dos jornais, sem prejuízo dos arrazoados, requerimentos, petições. Porque o homem moderno mistura poesia com batatas; é poeta e ao mes­mo tempo pedreiro; romancista e representante comercial. Ele se gaba de seu grande dinamismo que lhe permite ser com sucesso e a um tempo advogado de dois sindicatos, cronista social duma revista, correspondente de dois jor­nais do Rio e leão da moda.

Armênio ergue os olhos e fica pensando. Depois a sua caneta de novo corre sobre o papel.

A rua é uma vitrina de brinquedos bonitos. Vemos Mlle Nilda Bragança, com o seu ar de dama antiga, Mlle Zaida Almeida qual fino bibelô de Saxe, com o seu lorgnon impertinente assestado para a fileira de jovens elegantes que estão parados às vitrinas, assistindo The Big Parade.”

Armênio continua a citar. A senhorita Fulana com o seu vestido de tal cor e o seu jeito assim. A senhorita Beltrana com seus olhos de amêndoas e a sua boca de rubi. E o desfile das flores continua. O Poeta olha para tudo, deslumbrado.

O cronista, que é amante do belo sexo...”

Armênio, escrupuloso, arrisca a palavra amante. Vai dar que falar. Alguém pode maliciar. Melhor substituir por admirador.

...admirador do belo sexo, olha para o espetá­culo maravilhoso de graça e donaire e exclama: Mon Dieu! je vous remercie pour ce magnifique spectacle!”

Mas agora o Poeta vê no meio da multidão uma fi­gura que apaga todas as outras.

Surge de repente, como uma aparição do céu, uma silhueta que parece saída das páginas do Vo­gue. Ê Mlle Vera Leitão Leiria, esguia...”

Leiria... esguia. Não fica bem. Melhor escrever:

esbelta, vestida de verde, com ‘Ses yeux bleu de Prusse...’ como disse Verlaine. O cronista sente fugir-lhe a terra aos pés e tem ímpetos de ajoelhar-se quando ela passa, fria, hietática, com o seu ar de sacerdotisa antiga.”



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