Caminhos Cruzados



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Marcelo, filho de caudilho, criado à saia da mãe, che­gou a este conceito de marido: “O macho; o que manda; o que vai para a guerra; o que anda atrás de outras mu­lheres; o que cheira a sarro de cigarro e suor; o que escarra no chão; o que fala alto”. E mulher: “A que sofre, obedece, cala e espera chorando; a que faz o pão e tem filhos; a que nunca sorri”. Do pai guardou esta lembrança: “... marido rude, autoritário e egoísta, que muitas vezes che­gava a trazer amantes para casa”.17

Aristides Barreiro, cuja esposa é digna, mantém amante jovem de que se aproveita também o filho Aurélio.

Marcelo, de conduta um tanto ascética (chegou a pensar em ir para um convento), nos põe diante da cora­josa paciência da mãe (que nunca murmurou uma pala­vra de queixa ou amargura, mesmo quando a sós com o filho, deitada ao lado dele, na cama grande de casal onde havia muito o marido não dormia), e nos lembra que todas as tardes iam acender velas no oratório, a implorar a Nos­sa Senhora da Conceição que protegesse o chefe da casa, o velho caudilho cheio de pecados sensuais, rodeado de mortes de inimigos.





16 Verissimo, Erico. Obras completas. v. XI, p. 67.

17 Idem, p. 124.

6. A “revulsão interior”.

É no soberbo painel de O Tempo e o Vento que Erico nos apresenta a grande galeria feminina de sua obra. O mesmo traço genérico já assinalado continua a distinguir perfeitamente suas personagens masculinas das femini­nas.

Naqueles homens rudes, moldados por uma socie­dade que ainda conserva as lembranças recentes do semi-nomadismo, pastoril e guerreiro, predominam as afirma­ções pessoais sobre as tendências coletivas e gregárias. Poderosas estruturas individualistas, os melhores tipos dentre eles são ainda ego-altruístas, nos quais, subjacente às atitudes mais generosas, há sempre latente a agressi­vidade de um primitivo.

É justamente nessa atmosfera de modelos masculinizantes, que ele recorta o mais vivo e denso conjunto de mulheres de toda a literatura brasileira. Cheias de heroís­mo silencioso nos embates, de coragem resignada na ad­versidade, constantes e tenazes, apegadas ao seu torrão onde armam suas moradas de espera e renúncia, que as tormentas da vida não abalam, são como poderosa força centrípeta a conter o tumulto movediço dos peleadores aventureiros e a fixá-lo socialmente à terra.

Erico Verissimo não havia encontrado, até O Tempo e o Vento, o seu “verdadeiro assunto”. Apesar, da ascensão com que vinha se projetando no cenário nacional, era olhado com determinadas reservas, especialmente pelo grande consumo popular que vinha alcançando, interpre­tado por críticos meio preciosos como sinal de má qua­lidade.

Com esta obra ele experimenta a sua “revulsão in­terior”, semelhante à de Machado de Assis frente ao seu Memórias Póstumas de Brás Cubas. Tudo o que publicara anteriormente passa a ter o significado de uma fase preparatória para este momento que lhe valeu a conquista do posto de grande romancista, não só nacional, como continental.

Com este livro, na avisada opinião de Wilson Martins18, o eixo literário do Brasil, em matéria de roman­ce, que antes parecia estar no Norte, com Graciliano Ra­mos, se desloca para o Sul.

Vários elementos participam desta receita de sucesso, cuja primeira explicação está na perfeita correspon­dência entre a largueza de espectro do romance-rio e o amadurecimento do Autor. Senhor de todos os segredos da técnica romanesca, ele havia atingido um raro grau de harmonia e equilíbrio entre os três elementos irredutíveis que caracterizam o gênero: personagem, ambiência e ação.19 Em matéria de linguagem (sóbria, concisa, ele­gante e extremamente dúctil, ao mesmo tempo que des­tituída de extravagâncias e afetações retóricas), tinha che­gado ao esplendor da forma simples, com seu fluxo narratório de rio largo, alimentado de ricas afluências da história, das ciências, das letras, das artes. Em O Tempo e o Vento, sente-se como seu autor é muito mais conforma­do para os largos desenvolvimentos, para os grandes ares dos dramas coletivos, de preferência ao confinamento em problemas pessoais. As criaturas deste livro, frutos de uma ecologia e de uma sociologia especiais, tendo de en­frentar, em seus embates existenciais, as forças elementa­res da natureza, os caprichosos entrechoques dos homens numa fronteira indefinida, não se enredam em miudezas introspectivas. Nem por isso deixam de ter uma poderosa e marcadíssima individualidade.

7. A Trindade maior.

Três vultos femininos excepcionais, hoje destacados na paisagem literária do Brasil como criações ímpares, dominam a grande saga da formação social pampeana.





18 Martins, Wilson. Op. cit., p. 169.

19 Lins, Álvaro. Op. cit., p. 51.

Ana Terra é soberba. Símbolo telúrico, massa para gênese de fortes e bravos, de seu ventre, fecunda terra-mãe violada pelo mestiço Pedro Missioneiro, brotou a hu­manidade que tumultua os agitados duzentos anos cober­tos pela epopéia, a partir de 1745. Talvez em nenhuma outra criação de Erico Verissimo o embate de uma cria­tura com o atrito do cotidiano tenha atingido a intensi­dade lograda em Ana Terra. Em seu trânsito pelas aspe­rezas do meio barbaresco no qual se agita, há vários mo­mentos em que seu perfil se ilumina de surpreendente beleza ante os relâmpagos da adversidade. A evolução dos sentimentos que a levam a entregar-se ao índio Pedro Missioneiro é desenvolvida com raro virtuosismo. Ana se inquieta quando ele, que já a impressionara fisicamente, revela uma cultura superior aos seus, educado que fora pelos Padres. (Não só lia, mas também conhecia seus rudimentos de latim.)

Prestativo e atencioso, começa a perturbá-la até que, após um jantar, põe-se a tocar uma flauta. O sortilégio da música faz o resto. Começa a mobilização irreversível de seus sentimentos pelo único homem a seu alcance na­quele ermo melancólico.

“No momento em que ele abriu a porta, Ana Terra por um instante viu, ouviu e sentiu a chuva, o vento, a noite e a solidão.”20

Morto o índio pelos irmãos, como vingança, ela se fecha num obstinado mutismo e se dedica a criar o filho bastardo. Seu realismo, aguçado por muitos ventos adver­sos, levou-a a aceitar a morte da mãe como uma liberta­ção:

“Ana não chorou. Seus olhos estavam secos e ela es­tava até alegre porque sabia que a mãe finalmente tinha deixado de ser escrava”.21






20 Verissimo, Erico. Obras completas. v. XIII, p. 147.

21 Idem, p. 187.

Momento de singular grandeza é o da invasão dos castelhanos. Primeiro a decisão, tomada num segundo, de sacrificar-se, para salvar a cunhada e as crianças:

“Se me escondo eles nos procuram no mato porque vão ver pelas roupas do baú que tem mulher em casa. Se fico eles pensam que sou a única e assim Eulália e as crianças se salvam”.22 Seviciada pelos invasores, a casa arrasada, os homens de sua família assassinados, ela se ergue acima da tragédia, enterra seus mortos e espera. Espera e teima em viver por muitas razões:

“Queria viver, isso queria, em parte por causa de Pedrinho, que afinal de contas não tinha pedido a nin­guém para vir ao mundo. Mas queria viver também de raiva, de birra”.23 Era preciso avançar, se preciso fosse, enfrentando o desconhecido. Desenterra o dinheiro que seu pai guardara e se incorpora a uma caravana de car­retas para uma heróica e comovedora retirada:

“E assim Ana Terra viu ir ficando para trás a estân­cia do pai. Por algum tempo avistou as ruínas do rancho, as quatro cruzes perto dele, e mais longe, no alto de outra coxilha, a sepultura da mãe e do irmão mais moço. Seis cruzes... Lançou um olhar de despedida para a lavoura de trigo, e depois ficou olhando para o focinho tristonho de Mimosa que seguia a carreta no seu passo lerdo, com fios de baba a escorrer-lhe, dourados de sol, da boca úmi­da e negra.

“Seis cruzes...”24

Ia ajudar a fundar, também, Santa Fé. Depois, foi a vida áspera no povoado que nascia e com ela sua des­cendência. De seu Pedrinho, veio-lhe primeiro um neto, depois a neta Bibiana.





22 Idem, p. 196.

23 Idem, p. 206.

24 Idem, p. 210.

“Ao ver-lhe o sexo a avó resmungou: ‘Mais uma es­crava’. E atirou a tesoura em cima da mesa, num gesto de raiva e ao mesmo tempo de alegria.”25

Depois veio a guerra. E vieram muitas guerras. E as mulheres a esperar os maridos, os filhos, os netos que sempre partiam mas nem sempre voltavam.

Crescida à sombra de Ana Terra, a neta Bibiana dela herdou muitas coisas: os velhos ofícios, a arte de avaliar as pessoas, a desconfiança para com os homens, a fidelidade ao passado e a birra, a obstinação que a levariam a recusar inclusive o melhor partido de Santa Fé.

Do casamento por amor com o Capitão Rodrigo fi­caram-lhe a lembrança da felicidade breve e os filhos. Sua longa vida continua a tradição das mulheres do con­tinente: sofrer caladamente, esperando seus homens que partiam para a guerra. A vida de Ana Terra, como a de Bibiana foram marcadas, da infância à morte, pelo calen­dário das guerras e das calamidades, pois era assim que a gente de Santa Fé contava o tempo:

“... quando queriam lembrar dum fato (...) di­ziam por exemplo que tal coisa tinha acontecido antes ou depois da praga de gafanhotos (...) ou então duma pes­te qualquer que ataca o trigo, o gado e as gentes. (...) Os velhos diziam: ‘Foi na Guerra de 1800...’. Ou: ‘Foi na de 1811, ou na de 1816, ou na de 1825.. .V’ 26

Um ano após a morte de Rodrigo (num assédio que fizera com os companheiros Farrapos a Santa Fé), Bibiana volta a uma visita ao cemitério com os filhos, inundada de uma grande paz. Tinha certeza de que Rodrigo não morrera. Iria viver pela sua memória e criar a descendên­cia de ambos.


25 Idem, p. 240.

26 idem, p. 251.

Ambiciosa e prática na opinião do Dr. Winter (“Dona Bibiana! Ali estava uma criatura de valor. Com umas du­zentas matronas como aquela, estaria garantindo o futuro da província”),27 Bibiana desempenha um papel de gran­de sentido social para o futuro de sua família. Planeja e leva a efeito a conquista do Sobrado e das terras de seu proprietário, através do casamento de Bolívar com Luzia, herdeira daquela fortuna, feita pelo usurário Aguinaldo, em parte com os haveres da própria família de Bibiana que lhe foram hipotecados. Assim, seu neto Licurgo se apodera do Sobrado onde vamos encontrá-lo ao lado da esposa Alice e da cunhada Maria Valéria.

Como tantas heroínas de O Tempo e o Vento, a vida de Maria Valéria conheceu o fermento das dificuldades. Independente, corajosa, doceira, cozinheira, mãos habi­lidosas na renda de bilro, tomara conta da casa desde menina, quando ficou órfã.

Após a morte da irmã, não arreda pé do Sobrado, onde permaneceu solteira até o fim de seus dias, uma longa vida em que ela foi a providência geral da família.

Verdadeira mãe, com sua bondade carrancuda ajuda os sobrinhos a crescerem. Quem vai conviver com essa admirável titia é seu afilhado Rodrigo, bisneto do famoso capitão do mesmo nome. Formado em Medicina, volta ao Sobrado. Este passa a ser um centro social de grande im­portância em Santa Fé. A propósito de uma observação do pai sobre o interesse das moças casadoiras, responde Rodrigo:

“— Qual! Só tenho uma moça que me ama e me espera: Chama-se Maria Valéria e mora no Sobrado”.





27 Verissimo, Erico. Op. cit., v. XIV, p. 562.

Quando seu sobrinho-neto, Floriano Cambará, de volta de umas comemorações de um certo Ano Novo, ar­ruma as coisas no espírito para escrever a saga que pro­jetava, retorna ao casarão e ouve o ranger do balanço da cadeira de Maria Valéria, já quase nonagenária, mas ain­da lúcida, exprime todo o conteúdo humano da velha tia nesta frase:

“O Sobrado ainda está vivo”.

O Tempo e o Vento se decompõe em três momentos, cada um deles dominado por uma destas figuras de sua trindade feminina: o da epopéia, que apanha os primór­dios do Continente, com Ana Terra; o da história, abran­gendo o fim do Império e os primeiros anos da República, sob a tutela de Bibiana e o terceiro, o da crônica da socie­dade contemporânea, que tem como centro Maria Valéria. As duas últimas conviveram no Sobrado. Numa ocasião foram surpreendidas pela observação do Dr. Winter:

“Winter voltou a cabeça para a moça que estava a seu lado” (Maria Valéria). “Tinha uma simpatia parti­cular por aquela criatura que todo o mundo achava feia, mas na qual ele descobria um encanto secreto e meio ás­pero, muito mais atraente para seu gosto do que a ‘boniteza’ comum de Alice. Sempre que a via, muito alta, tesa e esbelta, o rosto alongado, os grandes olhos negros um pouco saltados, o nariz longo e fino, a boca rasgada de expressão um pouco sardônica, ele não podia deixar de fazer uma comparação: ‘comprida e aguda como uma lança’. A própria voz de Maria Valéria tinha algo de con­tundente. Em várias ocasiões, com intuito de conhecê-la melhor, Winter procurara levá-la a confidências, pois suspeitava de que havia naquela criatura muito mais coisas do que seus gestos e palavras revelavam. Não conseguira, entretanto, quebrar aquela espécie de armadura de gelo que envolvia a filha mais moça de Florêncio Terra. Aos vinte e quatro anos Maria Valéria tinha mentalmente quase a idade de Bibiana. Quando as duas mulheres se encontravam, Winter divertia-se a observá-las. Era evi­dente que existia entre ambas uma certa má vontade re­cíproca a que as gentes da província davam o nome de birra. (...). No entanto ele estava certo de que sendo necessário, qualquer uma daquelas duas mulheres era ca­paz dos maiores sacrifícios pela outra”.28

Tipo feminino de singular nobreza é Flora, esposa de Rodrigo. Sempre o mesmo critério por parte do autor com respeito à mulher: Rodrigo a escolhe primeiro pela cepa humana e pela sua dignidade, depois pela sua beleza, que não era pequena.

O “romance” que conduz a este modelo de matri­mônio feliz é de uma naturalidade que, se comporta um adjetivo, não pode ser outro, com perdão do desgaste: en­cantadora. Rodrigo inicia o namoro com ela já socialmente inclinado a resolver o assunto. Conversando com o irmão Toríbio sobre o problema casamento, transmite-lhe esta opinião sobre Flora:

“Acho que é uma moça como poucas. Recatada, cheia de prendas... de boa família... e bonita, não achas?”29

Razão muito forte nesta “inclinação social” por Flora é o conceito que desfruta seu pai. Fazendeiro, tendo sido uma das fortunas mais sólidas de Santa Fé, agora mal de negócios, continuava na posse de uma riqueza maior:

“Rodrigo criara-se ouvindo contar maravilhas do ca­ráter daquele homem que começara a vida como piá de estância”.30 O convívio de Flora com Maria Valéria no Sobrado vem revelar a Rodrigo o caráter bem temperado da esposa. A tia começara a reinar discricionariamente ali desde antes da morte da irmã, durante o dramático cerco dos federalistas. Nos últimos dias, quando até a energia um tanto selvagem de Licurgo parecia baquear, ela ainda estava de pé naquele desmancho. Não poucas vezes, nos momentos difíceis, dá ordens de comando, in­clusive ao próprio chefe da casa.






28 Idem, p. 913.

29 Verissimo, Erico. Op. cit., v. XV, p. 185.

30 Id. ibid.

Estava presente nela o estereotipo dinâmico de Bibiana, de quem herda, em traços tão fortes, o estilo de conduta. Agora vinha para sua companhia, com ares de senhora legal do Sobrado, a me­nina criada no fofo, sem títulos de luta, e ainda numa situação delicada de vivência, na disputa do afeto e das atenções do mesmo homem, para o qual elas eram como sogra e nora.

Aqui está por que Flora conseguiu se impor à senhora de fato do Sobrado:

“Tinha um bom-senso desconcertante. Era agora, por assim dizer, o poder moderador de sua vida. Ele notara o ressentimento, a ciumeira de sua madrinha, quando vira entrar no Sobrado, como senhora, aquela menina inexpe­riente. Flora, entretanto, desde o primeiro dia suportara as impertinências de Maria Valéria com um sorriso tole­rante e compreensivo, evitando qualquer atrito. E, com uma sabedoria digna dum político consumado, sempre que a outra com visível má vontade vinha consultá-la so­bre assuntos domésticos, respondia: ‘Ora, titia, a senhora é quem manda. E, depois, eu não entendo nada desses negócios de casa...’ ” 31

Assim elas foram envelhecendo no Sobrado e fora dele, nas voltas que Rodrigo deu em suas andanças pelo mundo e nos conflitos emocionais que viveu, sempre aju­dado pela compreensão da esposa e da tia:

“E em meio de tantos interesses desencontrados e conflitos em estado potencial, estavam agora aquelas duas mulheres que Floriano tanto amava e respeitava: sua mãe e Maria Valéria. A primeira portava-se com uma dignida­de comovedora. Não tinha ilusões quanto ao marido, co­nhecia-lhe todas as fraquezas e pecados, tanto os passados como os presentes, e não ignorava nem mesmo a existên­cia daquela amante de vinte anos...







31 Verissimo, Erico. Op. cit., v. XVI, p. 174.

Floriano, porém, jamais lhe ouvira uma palavra de queixa ou de censura”.32

8. A última ilha.

Fragmento desgarrado de O Tempo e o Vento, Inci­dente em Antares continua (ou encerra?) O Arquipélago, à feição de uma estranha ilha fluvial de grande romance-rio, formado pelo barro histórico das últimas enchentes políticas. Fora de qualquer dúvida, sua figura central é ainda uma mulher, Dona Quitéria, a matriarca dos Cam­polargos. Na história de duas famílias, cuja rivalidade de morte vem do alvorecer da hipotética Antares, ela repre­senta, ao lado de outra figura feminina, esposa de um con­temporâneo do bando rival, uma fonte de entendimento e de integração social. Outras mulheres de O Tempo e o Ven­to desempenham papéis semelhantes, como é o caso de Do­na Emerenciana, que se recusa a aceitar a persistência do tradicional conflito entre os Amarais e os Cambarás.33

Um dos últimos descendentes dos Campolargos era um homem sem nenhuma vocação para a liderança que lhe cabia desempenhar:

“Tinha terminado o curso ginasial e feito dois anos do curso de Direito. Gostava de ler, era meio indo­lente — um homem de boa paz. Ficou desconcertado quando se viu feito patriarca do clã dos Campolargos. Res­pondeu a essa situação com cólicas intestinais que dura­ram uma semana”.34 Como sempre, a mulher persona­gem de Erico não é do mesmo estofo:

“(...) sua mulher Quitéria, uma Campolargo tanto por parte de pai como de mãe, era uma criatura enérgica e inteligente, senhora de razoáveis leituras e até de uma certa astúcia política...” 35




32 Idem, p. 437.

33 Verissimo, Erico. Op. cit., v. XV, p. 249.

34 —. Incidente em Antares. 1. ed., 7. impr. Porto Alegre, Globo, 1972. p. 38.

35 Id. ibid.

“Eram bastante cordiais as suas relações com a mu­lher de Tibério Vacariano, D. Briolanja, conhecida na in­timidade como Lanja — outra que também não gostava do próprio nome de sabor arcaico. Nunca haviam tido nenhum atrito. Visitavam-se. Estimavam-se até. Trocavam receitas de doces, bolos e tricô. Lanja era o tipo da dona de casa, ocupada e preocupada com os filhos, os netos e os deveres domésticos, isso para não falar em sua devoção ao marido. Pode-se afirmar que as boas relações humanas entre essas duas damas contribuíram, mais que qualquer outro fator, para a consolidação da paz entre Campolargos e Vacarianos”.36

O marido de Dona Lanja, por sua vez, não fica atrás dos outros homens em virtudes:

“Dona Briolanja, que detestava o Rio de Janeiro” (on­de o esposo andava agora metido em falcatruas e negocia­tas) “com um provincianismo talvez animado de uma cen­telha de orgulho farroupilha, via com resignada apreensão as transformações por que passava o marido. Nada dizia, porém. Tinha o hábito, que mais parecia um vício, do silêncio. Voltava-se inteira para os filhos e os sobrinhos e para as atividades de dona de casa. Sabia também que, se interpelasse o marido por causa daquela sua vida de cassinos e aventuras eróticas (recebia às vezes cartas anô­nimas), ele lhe perguntaria, como já fizera uma vez: ‘Por acaso está te faltando alguma coisa, Lanja?’ ” 37

9. O manto da indulgência.

Em O Prisioneiro aparecem três mulheres principais, três ilhas que, de certa forma, constituem o único amparo ao feixe de angústias e frustrações que é o Tenente, per­sonagem de maior relevo psicológico envolvido no inferno da guerra.




36 Idem, p. 39.

37 Idem, p. 49.

São as figuras da mãe, de sua comovedora de­dicação ao pai, um negro que ninguém aceita, inclusive o Tenente (um dos conflitos que o levam ao “suicídio” da guerra); a coragem, o bom-senso e a capacidade de sacri­fício da enfermeira e mestra, que assume para com ele o papel de uma irmã mais velha e a pobre flor de lotus, que lhe dá o único que tem naquele mundo em ruínas fí­sicas e morais: a sua pobre ternura.

É oportuno dizer, com motivo nesta passagem: o apreço e o respeito de Erico Verissimo pela mulher esten­deu-se até às decaídas. Quando as encontra, nunca adota para com elas uma atitude moralizante tipo tentação-que-da-castigo. Estende sobre elas um manto de compreen­são e de indulgência ou, no mínimo, as encara com um humor especial, temperado de certa ternura. Rosinha-Peito-de-Pomba, de O Retrato, é magnífica:

“(...) famosa na história galante da cidade, não só por ter dormido com várias gerações de santafezenses como também e principalmente por ter a postura e muitas das virtudes de uma dama romana... (...) Caíra na vida aos quinze anos e desde essa idade até o presente exercera a profissão com competência e honestidade” (...) “Nunca os levava para o quarto sem primeiro entretê-los na sala de visitas com uma conversação bem edu­cada e jamais se deitava com eles sem primeiro apagar a luz”.38

Rodrigo as recebia no consultório para exames, onde elas se portavam com um pudor até meio inocente. Um dia chega a reproduzir para Maria Valéria um diálogo que mantivera com uma dessas suas “cortesãs”.

“Maria Valéria escutou-o em silêncio e por fim disse: ‘Agora só falta você trazer uma dessas piguanchas para almoçar aqui em casa’.






38 Verissimo, Erico. Obras completas. v. XVI, p. 28.

Para escandalizar a Madrinha, Ro­drigo replicou: ‘Por que não? São mulheres muito limpas e direitas. E fique sabendo duma coisa, Dinda: nunca me faltaram com o respeito’.” 39

No Incidente em Antares, os sete mortos que ressus­citam e vêm, Dona Quitéria à frente, numa estranha pro­cissão que lembra ao pároco alarmado a chegada do Juízo Final, proceder ao julgamento dos vivos, num despudor de quem deitou fora a capa corpórea e pode dizer tudo, como Brás Cubas, há uma cena preciosa que atesta não só esta indulgência, mas também sua ternura pelos humildes e desprotegidos. Em geral as figuras ilustres são recebidas com uma séria repulsa, misturada de receio. Os que voltam do primeiro sono pos-mortem parecem não ter se liber­tado por completo de um certo senso de hierarquia, ainda têm resquícios de um decoro postiço. Não, porém, os hu­mildes e derrotados que viveram a solidariedade da misé­ria. Erotildes, que morreu tuberculosa, não tem contas a pedir, não volta para julgar ninguém. Vem apenas pro­curar Rosinha, sua companheira de desgraças.

Esta, quando vê a defunta chegar, não se alarma. Apenas se desculpa de ter ficado com seus haveres, seu vestido, seu sapato, bugigangas:

“— Quando te botaram no caixão fui eu quem te arrumou direitinho, te penteei, botei ruge na cara, batom

(...)


— Devo estar medonha.

— (...) para mim, viva ou morta, tu és sempre a Erotildes.

— Engraçado não teres medo de mim. Vim pela rua assustando meio mundo. Vi uma mulher desmaiar de sus­to na minha frente. Um pintor de parede (...) caiu da escada. (...) Até os gatos e cachorros fogem de mim. E tu, nem água...”



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