Caminhos Cruzados



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Armênio larga a caneta e relê a crônica. Esplêndida! Os rapazes do clube vão comentar. O número de Pathé Baby correrá entre as moças, de mão em mão. No dia seguinte elas lhe hão de sorrir agradecidas. Sim, porque todas sabem que Maurice des Jardins é ele. E Vera? Não se comoverá?

De repente Armênio se lembra de que D. Dodó está fazendo anos amanhã. Naturalmente haverá recepção na casa dos Leitão Leiria. Uma bela oportunidade para ele. Vai fazer uma tentativa. Quem sabe?

Vera é bela e educada. Sua família tem nome. A loja do velho prospera. (Armênio, como homem moderno, não despreza o dote. Não digo que um homem se case só por dinheiro. Mas quando pode unir o útil ao agradável, está claro que é melhor...) Haverá mais seguro partido para ele, para um bacharel, para um homem de futuro? Claro que não. Com o apoio de D. Dodó, que é um trunfo social, com o valor semi-oficial de Leitão Leiria, homem influente na política, provável futuro deputado — ele irá à Fama.

Por ora Armênio contenta-se com ir até a janela.

A chuva insiste.
62

As três portas da loja de ferragens de Brito, Moura & Cia. se abrem para a rua reluzente de umidade. Pas­sam vultos. Com intervalos longos cruzam bondes, baru­lhentos. Os caixeiros estão recostados ao balcão. De quando em quando pinga um freguês. As luzes acesas. Junto da registradora, a caixa — uma moça loura e nariguda — cochila.

Pedrinho olha o relógio de parede: onze e meia.

Como o tempo anda devagar nos dias de semana! Como corre aos domingos! Mana Fernanda também deve estar se aborrecendo no escritório. Mamãe decerto está na cadeira de balanço, encolhida debaixo do xale. E Ca­cilda?

Uma ternura mole como a chuva, mas quente como um sol, lhe invade o corpo. Pedrinho fica olhando para a porta mas não enxerga a porta nem a rua. Esta na casa de Cacilda, deitado com ela na mesma cama, aca­riciando os cabelos dela. Parece que está vendo de verda­de aqueles olhos verdes, aquele sorriso bondoso, aqueles seios miudinhos empinados, rijos, que ele já beijou qua­se chorando. Que bom se ela não fosse mulher da vida...

Se em vez de se conhecerem no beco eles se tivessem encontrado num baile de gente direita, tudo seria diferen­te... Noivavam, casavam, tinham filhos...

Por mais que faça, Pedrinho não pode afastar o pensamento de Cacilda.

Antigamente gostava de andar pelos cinemas e pelos salões de bilhar com os outros rapazes. Agora só deseja que o dia passe, a noite chegue e a aula acabe para ele poder ir ver Cacilda. Por que é que ela não gosta de mim? Pedrinho sente que ela o trata bem por pena, só por compaixão, porque ele é um menino... Tudo hoje está mudado. Em casa já notaram o jeito dele. Qualquer dia lhe descobrem o segredo. Três vezes faltou à aula só pa­ra ir ver Cacilda mais cedo. E sempre tem de esperar porque ela está com outros homens. É horrível.

— Seu Pedrinho!

A voz do gerente da loja. Pedrinho se sobressalta.

— Senhor!

— Que é que estava fazendo?

— Pensando.

— Pensando morreu um certo animalzinho...

O rapaz sorri tristemente. O gerente continua:

— Aproveite a folga e passe um espanador nas cai­xas de talheres, nas prateleiras. Vamos! Faça alguma coisa.

— Sim senhor.

Pedrinho pega o espanador. Amanhã vai comprar o colar bonito que viu na Sloper. Cacilda há de ficar alegre com o presente.

Entra um freguês. Tira o chapéu e o sacode no ar.

— Que tempo brabo! Nossa Senhora!

63

Cacilda olha, primeiro para as suas cartas, depois para a companheira, e diz:



— Quem joga é tu.

A mulher gorda de olhos pintados atira uma carta para cima da mesa. Cacilda sorri e atira outra.

A sala está sombria. Um sofá de palhinha e duas cadeiras, almofadas com bordados berrantes, um calen­dário na parede, retratos de artistas, abajur vermelho pendente do teto.

Ouve-se o tamborilar da chuva sobre um telhado de zinco. Uma goteira pinga dentro de um pote de barro. Vem do quarto próximo uma voz rachada e áspera:



Esta noche me emborracho, bien!

Me mamo bien mamao...

Anda no ar um cheiro enjoativo de extrato barato.

— A Rosa está alegre — diz Cacilda.

A mulher gorda sorri.

— O teu guri vem hoje?

Cacilda encolhe os ombros:

— Sei lá!

— Que negócio é esse de andar tirando crianças dos cueiros?

Cacilda não responde. Continuam a jogar, carta so­bre carta. A mulher gorda ganha a partida.

— Me deves dois pilas.

— Ahan.

Cacilda põe-se de pé.



— Não queres jogar outra?

— Não.


Vai para o quarto, olha para fora. Do outro lado do beco, a francesa está à janela por trás do vidro, atenta.

— A Liana está caçando... — diz Cacilda.

Da sala vem a voz da outra:

— Com este tempo é pescando...

Cacilda acende um cigarro. Sábado feliz aquele! Nunca em sua vida teve uma sorte tamanha. De manhã, cinqüenta mil-réis do rapaz moreno do Edifício Colombo. De noitezinha cem do velhote no rendez-vous da Rua das Acácias. Mas tudo se foi. Dívidas, aluguel, armazém, um par de sapatos, bâton, pó de arroz. Falta pagar a modista. Se viesse outro sábado como aquele... Mas qual! Sorte é para quem tem. Dia bom só acontece uma vez na vida. Para ela só aparecem estupores como aquele bobo do Pedrinho, guri recém-saído do berço. Fica ali sentado com um ar de idiota, dizendo bobagens, trazendo livrinhos, barras de chocolate.

Cacilda solta uma baforada de fumaça.

Mas ele é tão criança... Coitado, não tem culpa. São coisas da vida. Enfim... Não vale a pena tratar mal os outros. Ela não tem jeito. E depois não custa. A gente sempre se lembra do irmão...

A voz rachada torna a cantar o tango argentino. A chuva continua a cair sobre o telhado de zinco. A goteira pinga no pote.

64

No living-room da casa dos Leitão Leiria, enrodilhada num canto do sofá, Vera lê uma novela suspeita às escondidas da mãe, para despistar, cobre a capa do livro uma sobrecapa de papel pardo.



D. Dodó, inclinada sobre a sua escrivaninha, respon­de à enquete da Gazeta.

Em cima da mesa, um vaso bojudo com zínias. So­bre o parapeito da lareira, um relógio quadrado com pon­teiros e algarismos de prata. Pequenos quadros pelas paredes, almofadas por toda a sala, tapetes.

A Gazeta pergunta: Qual é o traço característico de seu caráter? D. Dodó hesita. A bondade? A caridade? O amor ao próximo? A humildade?... Soa bem. Fica tão delicado, tão modesto. Monsenhor Gross vai gostar. Bom. Melhor botar três traços — caridade, bondade e humil­dade — depois o Teotônio vai escolher.

Que pensa da vida? Meu Deus! Aqui está uma per­gunta difícil. Dodó levanta os olhos na direção de Vera:

— O que pensas da vida?

— A vida é uma droga! — diz Vera, e termina a frase mentalmente. Chove, os homens são uma espécie aborrecida, as mulheres são atraentes mas idiotas. Ar­mênio é um pobre de espírito, os novelistas não têm ima­ginação, Chinita está cretinamente caída por Salu, não lhe deu a mínima atenção na festa de ontem, os calos doem por causa do tempo. Sim: a vida é uma droga.

— Minha filha, não diga isso. A vida é boa, vale a pena viver para praticar a caridade e servir os pobrezi­nhos.

Pronto! Aqui está uma resposta magnífica. Nasceu naturalmente, portanto maior é o seu valor. D. Dodó escreve-a, contente.

Onde quisera ter nascido e em que tempo?

O assunto é delicado. D. Dodó morde a ponta da caneta, pensativa. A idéia lhe vem... com a ajuda do Anjo da Guarda.

— Eu quisera ter nascido na Galiléia, no tempo em que Jesus Cristo andava pela terra.

Que pensa da missão da mulher no mundo moderno?

A resposta brota logo. Como é bom a gente ter um Anjo inteligente!

— A missão da mulher é no lar. Educar os filhos, dirigir a casa, adorar o Senhor e o esposo legítimo.

Qual o momento mais emocionante de sua vida?

— Foi quando me tornei religiosa.

Dodó reconta a história da doença do marido, da promessa e da conversão.

Quais os seus autores prediletos?

— S. Francisco de Assis, José de Alencar, Júlio Diniz e todos os autores católicos.

E os músicos?

— Verdi, D’Annunzio e o nosso glorioso Carlos Go­mes.

As outras perguntas se seguem. Que pensa da edu­cação moderna? Que pensa da moda? Que pensa do ci­nema? (“O cinema — responde D. Dodó — está corrom­pendo os nossos costumes patriarcais.” A frase é do ma­rido ou de Monsenhor Gross, ela não se lembra bem...)

Vem por fim a derradeira pergunta:



Está satisfeita com a sociedade em que vive?

O Anjo da Guarda é inflexível ao lhe impor a res­posta:

— Não. Há muito vício e maldade entre nós. Só seremos felizes no dia em que todos abraçarem a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana e compreende­rem os ensinamentos de Jesus, que disse: “Amai-vos uns aos outros.” Com o dinheiro que hoje se gasta em be­bidas e outros vícios poderíamos construir muitos asilos e hospitais para os desprotegidos da sorte.

D. Dodó termina o questionário. Suspira, aliviada. Foi um esforço regular. Que tudo seja pelo amor de Deus!

Vera fecha o livro e mete-se no quarto. Vontade de ver Chinita, sentir o perfume de Chinita, ouvir a voz de Chinita, apalpar o corpo de Chinita, morder os lábios de Chinita.

Senhor! Quando é que vai parar esta chuva? Quan­do? Quando? Quando?

65

O caso do Cel. Zé Maria Pedrosa é uma espinha que Leitão Leiria tem atravessada na garganta. Agora no si­lêncio do seu escritório as recordações voltam e com elas as reflexões amargas. Que indignidade!



Leitão Leiria atira o corpo para trás, a cadeira gi­ratória inclina-se com um ranger de molas. E, com os polegares nas cavas do colete, charuto aceso no canto da boca, ele fica de testa franzida, compondo um artigo que nunca há de escrever. Assim, desabafa. As frases lhe ocorrem, rápidas. As palavras vão tomando direitinho os seus lugares, como soldados acostumados à rígida disci­plina militar:

A sociedade moderna apresenta surpresas espan­tosas. Exemplifiquemos. Antigamente prevalecia ne­la a tradição das famílias. Já não era questão propriamente de sangue azul. Era a nobreza da edu­cação, da honra, da tradição e do cavalheirismo. A nata da nossa sociedade era composta de famílias cuja árvore genealógica... cuja árvore genealógi­ca... podia ser traçada desde a raiz até os ramículos mais insignificantes sem a menor falha, sem a menor mancha, sem a menor dúvida.

Leitão Leiria dá um chupão forte no charuto, con­tente consigo mesmo. Continua o processo mental de composição:



Ora, pois, meus senhores!

(Agora já não é mais artigo e sim um discurso.)



Que vemos nos nossos dias? Vemos a hierarquia do dinheiro, a aristocracia do vil metal. Vencem os que têm dinheiro no banco. São considerados bene­méritos, entram na sociedade e a sociedade não lhes pede credenciais, não lhes vasculha a vida, não lhes devassa o passado!

Leitão Leiria ouve mentalmente uma voz: Apoiado!



Índios boçais que mais parecem ter sido agarrados a maneador surgem e se impõem à nossa mais fina sociedade à custa de suborno, com o prestígio duma fortuna adquirida de maneira inferior: a loteria! Cortejam os pró-homens da política.

(E Leitão Leiria modestamente se inclui no número dos pró-homens.)



Adulam os prelados, cuja boa-fé procuram ilaquear despudoradamente!

O entusiasmo que lhe ferve no peito é tão grande que Teotônio se levanta e começa a caminhar em cima do seu tapete verde, de lá para cá. Sim. Zé Maria se vai impondo aos poucos. Vinte e cinco contos de réis para as obras da Catedral Metropolitana. Amanhã será conse­lheiro municipal. Mais tarde, deputado. Quem sabe? Não. Os homens como ele, Leitão Leiria, que têm um nome a zelar, uma filha a defender, devem arvorar-se em paladi­nos da causa do saneamento moral da sociedade. Ficar inerte é um crime. Agir! Mas de que forma? Escrever pela imprensa: descobrir as baterias, terçar armas em campo aberto? Claro que não, seria improfícuo. Melhor é lançar mão dos recursos da estratégia moderna. Guerra subterrânea, gases asfixiantes, submarinos, aviões, bom­bardear das nuvens. Sim, porque ele precisa pairar alto para que os respingos da lama não o atinjam.

Monsenhor Gross precisa saber, a qualquer preço, seja como for. Uma carta... Anônima, naturalmente, porque ele não pode expor-se. Assiná-la seria imprudên­cia. Podiam pensar que a inveja o movia... sim, uma carta.

Quando o fim é bom, todos os meios são justificáveis. De antemão Leitão Leiria se absolve do pecadilho.

Senta-se à mesa, toma dum papel sem timbre, da caneta e começa a escrever com letra de imprensa:

Ilustre prelado: Vejo-me na obrigação de lhe di­zer que esse Sr. José Maria Pedrosa que parece um cidadão decente e procura imiscuir-se nos meios católicos da nossa urbs é um homem sem moral que se dá o luxo depravado de ter uma amante. Sou um servo fiel da Igreja, por isto me julgo na obrigação moral de fazer esta denúncia. E para provar que a minha delação é bem fundada, digo-lhe o nome da Messalina teúda e manteúda pelo referido cidadão e o número da casa em que ambos escondem a sua ligação vergonhosa.

Mas de repente Leitão Leiria — tomado duma es­tranha sensação de culpa que lhe afogueia o rosto — rasga o papel em muitos pedaços miúdos e joga-o dentro da cesta.

Levanta-se e continua a caminhar dum lado para outro. Não, mas aquele bugre boçal precisa levar a sua dose! A coisa não pode ficar assim. E se ele escrevesse um bilhete denunciando-o à mulher? Havia de amargar-lhe pelo menos algumas horas...

Mas de novo Leitão Leiria repele a idéia.

De súbito lembra-se do pedido de Monsenhor Gross. Arranjar um emprego para uma protegida. Que fazer? Só há uma saída. Despedir Fernanda. Mas não se pode mandar embora uma criatura assim sem mais nem me­nos... Se ela desse motivo... Leitão Leiria pensa. Não pode botar D. Branquinha no olho da rua: é recomenda­da dum político. Na loja não há vagas, e mesmo a protegi­da de Monsenhor é datilógrafa... Sim, o lugar ideal para ela seria o de Fernanda. E então? Admiti-la sem despedir a outra? Impossível. As vendas diminuem, os tempos andam maus. Não atender ao pedido de Monsenhor? Também inadmissível.

Pára na frente do espelho, alisa o cabelo, ajeita a gravata e resolve: Fernanda tem de ser despedida. Custa, é duro, mas não há outra saída. Que diabo! Um homem não é dono do seu nariz, senhor de sua própria casa? Então? A gente deve botar de lado sentimentalismos tolos, quando estão em jogo interesses mais vitais. A amizade de Monsenhor Gross lhe é preciosa. E, depois, ele tratará de arranjar outro emprego para Fernanda. Sim, não há dúvida. Fernanda vai ser despedida. Mas é uma coisa de­sagradável... (Leitão Leiria discute mentalmente com Leitão Leiria.) É duro mas não há outro jeito... Mas e o sindicato? Se houver protesto? Qual! Fernanda nem se lembra... Como descalçar a bota? Com energia, com franqueza. Mas acontece que a pobre moça... Qual po­bre! Já me disseram que ela tem idéias vermelhas, lê livros comunistas. Se é assim... É, sim senhor, seja du­ro... Mas... Qual! Toque para a frente. O fim justifi­ca os meios...

Leitão Leiria toca a campainha.

Fernanda aparece.

— D. Fernanda...

Ela se aproxima do chefe. Alguns segundos de es­pera.

Leitão Leiria pigarreia, finge que está procurando na gaveta um papel. A moça continua na sua frente, imóvel, esperando. Os olhos brilham no rosto moreno. Que olhar decidido, que ar confiante...

— A senhora está satisfeita com o seu emprego?

— Se estou satisfeita? Claro que estou.

— Mas, quero dizer... não preferia ganhar mais?

Será que ele me vai aumentar o ordenado? — pensa ela.

— Bem, naturalmente seria muito melhor...

Leitão Leiria invoca o seu Anjo da Guarda, mas o anjo não responde. Silêncio. Fernanda olha para o patrão e espera.

— Acontece que... que infelizmente a casa...

Pausa. Ela o incita:

— Sim?


Os modos dele são estranhos. Que haverá por trás de suas palavras? Leitão Leiria brinca com a medalha da corrente do relógio.

— Acontece que nós não podemos lhe aumentar o ordenado...

Fernanda sacode levemente os ombros.

— Paciência...

— Nem agora nem mais tarde.

— Não compreendo...

Nervoso, Leitão Leiria joga o charuto na cesta de papéis usados. Onde a sua energia? Onde a sua habilidade oratória? Onde a sua autoridade patronal?

De repente, sem transição, ele lança no rosto dela estas palavras desesperadas:

— Me disseram que a senhora é comunista!

Respira forte, começa a sacudir a perna, num frene­si. Fernanda mantém a serenidade:

— Não é verdade.

— A senhora nega?

— Nego.

O Anjo da Guarda, porém, está presente e Leitão Leiria se enche de coragem.



— Pessoa fidedigna me afirmou que a viu com li­vros vermelhos.

— É mentira.

Impassível, o rosto de Fernanda.

— Senhorita Fernanda, não diga mentira, é uma desconsideração.

Sem argumentos, Teotônio se refugia na indignação. Ela disse mentira. Ele foi, portanto, desconsiderado. Agora o caso é outro. Agravante para a ré.

— Repito que é mentira.

— Apresente então as provas...

— Apresente primeiro provas da acusação que me faz.

— Basta-me a palavra da pessoa que a denunciou...

— Pois para mim não basta. Nem a sua.

Leitão Leiria se empertiga:

— A senhora está me ofendendo. Não gosto de co­meter violências. Sempre fui inimigo das soluções drás­ticas. No entanto tenho ligações com o catolicismo... Sou um homem de idéias, de responsabilidade... Não me seria conveniente que soubessem que tenho empregados com idéias... com idéias...

— Já sei... — atalha Fernanda. — Não é preciso gastar palavras. Está procurando me despedir, não é mesmo?

— Sou forçado, em vista de tod...

Fernanda estende a mão como quem diz: Pare.

— Está bem. Quando quer que eu saia? Hoje?

Leitão Leiria agora é todo magnanimidade.

— Seria absurdo! Dou-lhe quinze dias de prazo e um mês de ordenado. Durante este tempo pode procurar outra colocação. Se quer que eu...

— Não se incomode que eu mesma cuidarei da mi­nha vida.

— Quero que compreenda...

— É só o que desejava?

— Por enquanto...

— Pois passe muito bem. Fernanda faz meia volta e se retira.

Leitão Leiria fica esfregando as mãos e gabando a sua tática. Guerra moderna: cercar o inimigo, solapar-lhe as trincheiras e por fim: carga de baioneta.

Vai ao telefone, pede ao centro da loja ligação para a sua casa. Alguns segundos depois a voz de Dodó viaja pelo fio.

— Meu amor, és tu? Comunico-te que a recomenda­da de Monsenhor Gross já está colocada.

Dois beijos estralados que partem simultaneamente de cada extremidade do fio pingam o ponto final ao rápi­do diálogo telefônico.

66

Virginia não acha paradeiro em casa. A solidão a sufoca. Saudade do sol, saudade de vozes humanas. Tem a impressão de estar num presídio. Caminha do quarto para a sala de jantar, desta para o hall, do hall para o escritório do marido, do escritório para o living. Abre livros e revistas para tornar a fechá-los logo depois com impa­ciência. Senta-se, ergue-se de novo. Liga o rádio para verificar em seguida que a estação local ainda não co­meçou a irradiar.



Que fazer? Não há remédio senão ficar deitada, pa­rada, pensando. Estende-se no divã. Vem da cozinha um cheiro adocicado de carne assada. Estes cheiros domésti­cos a mareiam. O cheiro do marido, o cheiro das criadas, o cheiro da cozinha, o cheiro especial de cada peça da casa... Tudo sempre igual, repetido, sem surpresa. Eter­namente a rotina familiar, o horário invariável, os mes­mos assuntos e probleminhas...

E chove por cima de toda esta chatice. Chove sem a menor trégua.

Na varanda Querubina põe a mesa para o almoço. Noca passa por uma porta carregando pratos, com o seu caminhar de angolista. Virgínia tem vontade de atirar-lhe um chinelo na cabeça. Um bando de fêmeas inúteis e indecentes, ganhando um ordenado mensal para não fa­zer nada, para andar se esfregando no chofer, no guarda-civil, no homem do gelo...

Um rumor. Virgínia volta a cabeça. Noel acaba de entrar. Mãe e filho entreolham-se em silêncio. Virgínia desvia o olhar. Noel fica junto duma prateleira de livros, a ler os títulos.

Na presença do filho, Virgínia lembra-se de Alcides. São da mesma altura, e têm o mesmo porte. Por um instante ela vislumbra o seu próprio ridículo. Mais tarde ou mais cedo aquilo tem que acabar. Um capricho? Tal­vez? Mas por enquanto é uma obsessão. Depois, tudo conspira contra ela: as pessoas da casa, o tempo, a cha­tice da vida, a imbecilidade espessa do marido, a frieza do filho — tudo. Ela fica sem defesa. Se ao menos tivesse uma ocupação... Uma vez chegou a sugerir a Honorato que fossem viajar. Buenos Aires, Montevidéu, ou Rio... Mas ele vem sempre com a desculpa dos negócios e ela continua dentro desta prisão enervante, com o relógio a dizer em surdina que o tempo passa, com os espelhos a gritarem que ela envelhece. As criadas a miram com sur­do ódio. Só os olhos de Noca é que a seguem com uma paixão servil e irritante de cão abjetamente fiel. Noel lhe foge sempre. Honorato a contempla com aquele ar tranqüilo de dono seguro de sua posse. A seu redor, ne­nhuma simpatia, nenhuma compreensão. Entre ela e todas as outras pessoas da casa, léguas e léguas de sepa­ração. Como fugir ao assédio do outro? Ê o único que a olha com ternura humana, o único que se interessa por ela. De resto, para que tantos escrúpulos? A vida passa, a velhice se aproxima. Por que não fazer uma escapada, já que viveu vinte e cinco anos acorrentada ao comercian­te Honorato Madeira? Por quê?

Mas a presença de Noel lhe cria uma inibição. Olhan­do para o filho, ela sente o absurdo de seu amor por Alcides. Noel apanha finalmente um livro e sai em silên­cio.

Longe dele, Virgínia sente-se mais à vontade.

É preciso decidir: ata ou desata. Assim como está a coisa simplesmente não pode continuar.

Mas outra dúvida lhe vem... Se o marido descobre? Enfim ela não pode ter com Alcides ilusões dum amor duradouro. Para ele tudo deve ser um capricho passageiro, uma extravagância... Honorato, de qualquer modo, é a garantia duma vida confortável: boa casa e bons ves­tidos, uma posição na sociedade, um lar.

Mas que lar! Acaso isto merece o nome de lar? (Ou­tra vez a revolta.) Uma casa assombrada, isso sim. Fan­tasmas por todos os cantos. O fantasma do marido, do filho, e o fantasma de tia Angélica, o mais pavoroso de todos, porque ainda assombra a alma de Noel.

A porta da rua se abre.

É Honorato que chega. Irritada, Virgínia sobe e vai fechar-se no quarto. Imagina a cara do marido: gordu­cha, imbecil, feliz. Como sempre ele dirá: Trabalhei co­mo um burro! E estralará o seu chocho beijo matrimonial.

No vestíbulo, Honorato Madeira tira as galochas, o impermeável e sai a gritar pela casa:

— Gigina! Ó Gigina!

67

Na sala de jantar do palacete do Cel. Pedrosa a ceia de Cristo do vitral hoje está apagada e sem fulgor.



Servido o almoço. Os pratos fumegam, o coronel come com entusiasmo, na sua frente D. Maria Luísa, de cabeça baixa, olha o prato vazio.

A criada entra para avisar:

— D. Chinita diz que não quer almoçar.

A cara de Zé Maria é toda um espanto:

— Ué? Que será que ela tem?

A mulher dá de ombros. A criada se retira.

— E o Manuel? — torna a perguntar o coronel.

— Não dormiu em casa. Ainda não veio.

— Que barbaridade! Esse menino ainda acaba fican­do tísico.

E sorri, com uma pontinha de orgulho, pensando nas farras do rapaz.



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