Caminhos Cruzados



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— O pai não se importa... — diz Maria Luísa, co­mo se falasse do marido para uma terceira pessoa invisí­vel. — O pai acha até bonito.

— Ora. São coisas da mocidade. De repente ele cansa e senta o juízo...

— Sentava...

— Eu vou falar com ele.

— Ias...

Vendo que é inútil insistir, o coronel se refugia no churrasco com farofa.

Maria Luísa resmunga baixinho suas queixas, como se continuasse a falar com a terceira pessoa invisível.

— Eu não gosto de falar pra ele. Não tenho direito. A casa não é minha. O pai não tem energia, o chefe hão tem juízo, que é que se pode esperar dos filhos? — Sus­pira. — Eu quero só ver onde vai parar tudo isto. A filha dele se desfruta com os rapazes, o filho vive na casa de mulheres à-toa. Mas não falo porque não sou ninguém.

O relógio de três contos de réis canta doze badala­das, que ecoam com alguma solenidade pelo casarão.

68

Fernanda faz o prato do irmão. Pedrinho está pen­sativo, D. Eudóxia come o seu mingau em silêncio.



— A vizinha me contou — resmunga ela — que o seu Maximiliano está morre-não-morre.

— Também este tempo... — diz Fernanda.

— Os ricos não sentem. Têm tudo — insiste a velha. — Por que será que Deus não soube dividir direito?

— Deve estar tudo certo, minha mãe — retruca Fernanda sem nenhuma convicção.

— Qual!

— Coma, Pedrinho, que é que você tem? Está sen­tindo alguma coisa?



— Nada, mana, estou bem.

Se Cacilda — pensa ele — pudesse estar sentada ali no lugar vago da mesa... Se ela fosse uma moça de família. Era tão bom...

— Que gente triste, santo Deus! Criem ânimo! Um pouco mais de alegria! — anima-os Fernanda.

D. Eudóxia levanta os olhos de cachorro escorraçado:

— Para vocês, moços, fica muito bem dizer isso...

Fernanda sorri. Mas sorri nos lábios. Dentro, uma coisa lhe dói. Uma angústia. Não pode esquecer o que aconteceu. A princípio teve ímpetos de ir embora do es­critório imediatamente, sem esperar o prazo, sem aceitar a gratificação. Mas depois pensou na mãe, no irmão, nos compromissos, e ficou. Agora tem de procurar trabalho em silêncio, esconder tudo da mãe e do irmão. Se a mãe soubesse, desandaria a chorar, agourando desastres tre­mendos, fome, miséria, morte. Fernanda está resolvida a guardar segredo a todo o custo. Por isso sorri.

O silêncio se prolonga. Pedrinho come, pensativo, D. Eudóxia empurra o prato vazio. Estará farejando algu­ma desgraça? Tem os olhos na porta.

— Se o seu Maximiliano morrer eu tenho de ir ao velório.

Espanto de Fernanda:

— Mas a troco de que veio essa idéia?

— Ué! A gente precisa estar preparada.

— Mas ele não morreu.

— Garanto que morre hoje.

— Pode ser que não morra!

Outra vez o silêncio. Fernanda bate com a colher na mesa.

— Vamos, Pedrinho, acorda! Parece que andas apai­xonado!

Pedrinho sorri sem vontade. Ouve-se agora nitida­mente o barulho da chuva, que cai com mais força. O gramofone do vizinho começa a tocar a valsinha de todos os dias.

69

Os Leitão Leiria conversam.



— Que dizes? — pergunta D. Dodó ao marido.

— Muito bem, minha querida. Tiveste apenas um pequeno engano. D’Annunzio não é músico.

— Não é músico? Ora! Eu pensava...

— D’Annunzio é poeta e prosador.

— Que pena! E o resto?

— O resto está admirável.

— E ali naquela pergunta do traço característico do meu caráter... qual daquelas respostas tu achas que eu devo dar?

— Todas, Dodó, todas aquelas virtudes tu tens em quantidade.

D. Dodó sacode a cabeça, sorrindo.

— Não digas isso, meu filho.

Vera contempla os pais em silêncio. Um observador agudo veria desdém, zombaria nestes olhos claros e frios. O respeito que Vera tem pelos autores de seus dias é um respeito muito longínquo e divertido. Intimamente, sem nunca dar expressão à sua crítica, ela acha ridículo os exageros caritativos da mãe, o afã de aparecer como líder de todos os movimentos de beneficência, a ânsia de imi­tar Santa Teresinha. Vê, julga e cala. Não adianta falar. Vai à igreja porque a mãe lhe suplica que não deixe de ir. Mas não acredita muito na religião. No colégio das freiras que freqüentou, sempre foi uma rebelada. Lia às escondidas livros proibidos, continuou a lê-los depois que deixou o internato. A mãe lhe passa sermões diários. O pai tenta catequizá-la com palavras retumbantes. Monse­nhor Gross pega-lhe no queixo e lhe diz com os seus gri­tinhos desafinados: “Ofelinha tresmalhata!”. Mas ela continua no seu mundo: num mundo sem cor nem inte­resse, um mundo sem rumo certo, um mundo invertido. Bailes onde atura as impertinências do Dr. Armênio. Ami­zades periódicas: um caso com uma amiga que dum ins­tante para outro passa a ser a preferida. Passeios de auto­móvel, tardes juntas, ciúmes, arrufos e reconciliações... Agora Chinita...

Pensando na amiga, Vera não pode deixar de pensar numa palavra — idiota.

E a chuva continua a cair.

70

Cabeça mergulhada no travesseiro de fronha encar­dida, olhos em branco, boca aberta, respiração estertorosa, Maximiliano agoniza.



Perto da cama a mulher espera, desejando a morte do marido com certa ansiedade. Todo o amor se acabou. Maximiliano não é mais um homem. É uma coisa, uma espécie de bicho, mas um bicho que é ou, antes, foi o pai de seus filhos. Ela suporta tudo por um sentimento sub­terrâneo e misterioso de dever. Mas é melhor que ele aca­be duma vez.

O quarto está sombrio. Ratos movem-se pelos cantos. Maximiliano volta os olhos para a mulher, parece querer balbuciar alguma coisa, mas de seus lábios brancos só sai aquele som rouco. Em seu rosto, só os olhos têm um pouco de vida: pretos, saltados, brilhantes, olhando com ânsia para a companheira, dizendo algo que ela não en­tende, pedindo uma coisa que ela não lhe pode dar.

71

Clarimundo esfrega a palma da mão na vidraça embaciada e abre nela uma clareira para espiar a rua. A chuva continua a cair, as sarjetas estão inundadas, as te­lhas escuras das casas têm lampejos metálicos.



Clarimundo sente contra a ponta do nariz o contato frio do vidro e imediatamente se recorda duma situação igual a esta, duma impressão idêntica: frio na ponta do nariz, parado atrás duma vidraça, espiando... Foi há vinte anos. Era inverno e chovia. Na pensão onde ele mo­rava havia um silêncio gelado. Os homens estavam fora, trabalhando. As mulheres faziam tricô no refeitório. Ele tinha acabado de ler Ledantec e se erguera com os olhos acesos, tonto ante a grande revelação. A alma não era imortal. A alma não sobrevivia ao corpo. E de resto, que é isso a que se chama alma? (Clarimundo tinha vinte e oito anos e um amigo padre que lhe metia idéias na ca­beça.) Sim, agora Ledantec lhe revelara a verdade esma­gadora. Ele tinha vontade de sair gritando pela casa toda: “D. Maroca, a alma não existe! Seu Menandro, a gente morre e se acaba, está ouvindo? O Pe. Lousada está enga­nado! O Pe. Lousada não sabe!” Teve vontade de sair gri­tando, mas não saiu. Ninguém compreenderia: haviam de pensar que ele estava maluco... Ficou parado. A verda­de, porém, era-lhe insuportável. Não pôde mais ler, acer­cou-se da janela, esfregou o bafo da vidraça e ficou a olhar para fora. Não viu a chuva, nem as casas do outro lado da rua, nem o céu, nem os bondes que passavam. Via abstrações: a alma, a imortalidade, a verdade, a ciên­cia. Tudo se corporificava, tudo tinha uma forma, tudo era visível. A alma era um homem gordo que usava ba­tina. A verdade tinha a cara de Ledantec, que aparecia no frontispício do livro, numa água-forte. A imortalidade era um anjo branco com uma trombeta de ouro. A ciência tinha a figura dum professor velho, seu conhecido. Por mais que ele quisesse espantar do espírito aquelas corporificações absurdas, não conseguia: elas resistiam, impunham-se. E a discussão se estabelecia. Dum lado a ver­dade e a ciência: o professor barbudo e Ledantec de braços dados. De outro lado o Pe. Lousada gesticulava, amparado pelo anjo. E Clarimundo se perdia, vendo e ou­vindo mentalmente a disputa. O inesperado frio do vidro na ponta do nariz chamou-o à realidade.

Clarimundo recorda. Depois de Ledantec, sua vida mudou de rumo. Podia acabar no seminário, levado pelas cantigas do Pe. Lousada, mas enveredou para a ciência.

Os anos passaram. Livros e solidão. Vida tranqüila, algumas gripes, meia dúzia de conhecimentos novos, mais livros e mais solidão. Seis anos na pensão de D. Candoca. Cinco num hotelzinho barato. Depois: quartos em subúr­bios. Até que um dia uma impressão de frio na ponta do nariz faz a gente recuar vinte anos...

Clarimundo sorri. Através da cortina cinzenta da chuva ele vê as janelas do outro lado da rua. A moça es­tá falando com a velha de preto. Fraco, fraco, o som do gramofone do vizinho chega-lhe até os ouvidos. O pombal de D. Veva está empapado dágua, cabeças inquietas apon­tam nas janelas minúsculas. No quintal do Cap. Mota uma galinha arrepiada encolhe-se debaixo duma laran­jeira. Passa na rua um homem de capa cinzenta e pés descalços.

Clarimundo pensa em Ledantec, em seguida, brus­camente, tem consciência de uma grande necessidade do­méstica: precisa comprar uma cafeteira para, numa hora como esta, depois do almoço, saborear a sua xicrinha de café.

72

— Que é que a gente vai fazer?



A pergunta de Laurentina cai no silêncio úmido co­mo uma voz de náufrago perdido. E a voz se esvai no ar. O mar não tem mais fim. Por cima, o céu impiedoso. Não se avista terra. Nenhum navio nas proximidades. E os companheiros do naufrágio que estão com Laurentina na jangada são silenciosos e inúteis.

— Hein? — insiste ela. — Que é que a gente vai fazer?

Uma hora. Ninguém ainda falou em almoçar. As goteiras pingam agora dentro das latas transbordantes. O soalho da varanda está ensopado, a água começa a inva­dir o quarto de dormir onde Poleãozinho folheia uma re­vista velha. João Benévolo, enrodilhado em cima da cama, anda perdido pelo seu mundo glorioso e impossível. Lau­rentina torna a fazer a pergunta e espera.

— Pois é... — diz João Benévolo com ar remoto. — Pode ser que hoje o Dr. Pina resolva...

No íntimo ele sabe que o Dr. Pina nunca resolverá nada pela simples razão de que o Dr. Pina não existe. E é estranho, muito estranho... Apesar da necessidade, apesar da ameaça da miséria, intimamente, profundamen­te, ele tem o desejo de que as coisas continuem assim, sempre assim... É doloroso, não há dúvida... Melhor seria se a gente tivesse um palácio, automóveis, criados, roupas boas, perfumes... Mas já que se é pobre, o me­lhor é poder ficar quieto, de pernas cruzadas, pensando em coisas, pensando...

Laurentina não acredita no marido nem nas promes­sas do Dr. Pina, um homem que ela nunca viu. E se esse tal doutor das promessas fosse uma invenção, puramente, simplesmente uma invenção de João Benévolo? Oh! Mas seria o cúmulo se o marido além de molóide desse agora para mentiroso.

Napoleãozinho sorri para uma história do Pato Do­nald. Laurentina torna a baixar a cabeça. João Benévolo, embora a fome esteja a lhe dar cãibras no estômago, se compraz com imaginar que um dia se levanta de manhã, vai como de costume ao quintal, vê perto da figueira uma coisa brilhante no chão, abaixa-se... É uma chapa de ferro. Que será? De noite, quando todos dormem (a lua cheia ilumina o pátio, as estrelas palpitam) ele começa a cavar em torno da chapa de ferro. Cava, cava, cava até que descobre uma grande arca roída de ferrugem. Abre-a e recua, deslumbrado. Dentro da arca faíscam diamantes e dobrões de ouro. Conta tudo à mulher, em segredo. Fa­zem planos. Comprar um palácio, dar um banquete e de­pois fazer uma viagem... E imediatamente João Benévo­lo está já viajando no Neptunia. Mas...

— Janjoca!

A voz dolorida da mulher.

João Benévolo como um náufrago relutante dá às praias da realidade.

— Que é?

— Quanto sobrou do dinheiro do seu Ponciano?

— Dois mil-réis.

Laurentina suspira. Depois:

— Vai ali na esquina, compra um pouco de leite pro menino e o resto traz de salame pra nós. Compra também um pão.

João Benévolo se levanta, contrariado, e vai buscar o chapéu. Laurentina fica pensando no dia de amanhã. Morrer de fome ninguém morre, é verdade; em último caso se pede ajutório aos vizinhos... Mas e o aluguel da casa? E a conta do armazém? E os remédios para o Po­leãozinho?

Pensa em Ponciano, com raiva. Raiva porque ele tem dinheiro. Raiva porque ele insiste nas visitas. Raiva porque o homem olha para ela daquele jeito desagradá­vel. Raiva porque ela sabe que um dia, um dia...

— Tina!


A voz de João Benévolo, da porta da rua.

— Que é?


— Salame ou presunto?

— Salame, que é mais barato.

João Benévolo ergue a gola do sobretudo e se preci­pita para a rua, enfrentando a chuva. Como um herói.

73

A casa de chá está quase vazia, numa penumbra tranqüilizadora e morna. Num canto, duas inglesas lou­ras e feias bebericam coquetéis, fumam e conversam ani­madamente.



No primeiro momento Chinita só tem olhos para Salu. Este está aqui na sua frente. Por baixo da mesa seus joelhos tocam os dela. Por cima da mesa as mãos de ambos se enlaçam. Salu sorri, Chinita o contempla com uma pontinha de vergonha que não consegue apagar.

Um garçon se aproxima, atencioso.

— Que vai tomar? — pergunta Salu.

A voz dele é natural, firme, confiante — como se nada tivesse acontecido.

— Qualquer coisa.

— Coquetéis?

Chinita diz que sim com um sinal de cabeça. Salu ergue os olhos para o garçon:

— Dois Martinis secos.

Silêncio. Palavras soltas, vindas da mesa das ingle­sas, chegam aos ouvidos de Chinita. Well, my dear, I... Uma risada musical. Sure. Uma baforada de fumaça. Pausa curta. Depois: But you. must know .

E de repente Chinita de novo se imagina em Holly­wood: Joan Crawford na frente de Clark Gable. Pouco depois o garçon chega com os coquetéis bem no momento em que entra na sala um homem alto, de sobretudo escu­ro.

E a idéia de o recém-chegado ser um conhecido que pode sair a contar que a viu sozinha numa casa de chá com um homem — quebra o encantamento de Chinita, que esquece Hollywood.

— Salu, e se alguém nos vê aqui?

Outra vez a provincianazinha — pensa ele.

— Que mal faz?

A palavra mal lembra a Chinita o que aconteceu ontem. Ela se cala mas seus olhos dizem tudo. Salu com­preende. Ergue o cálice.

— Saúde!


Bebe. Chinita o imita. A conversa das inglesas ga­nha vida. O homem de sobretudo escuro pede um chá com torradas em voz alta.

Os olhos de Chinita se fixam no rosto de Salu e es­tão perguntando: “E agora que vai ser de mim?”

Inclinando-se bem para a frente como se fosse beijá-la, ele pergunta com voz macia:

— Arrependida?

Por um instante Chinita fica indecisa. Não esperava que ele tocasse no assunto assim desta maneira... Podia começar com rodeios. Arrependida?

Ela sacode a cabeça, fazendo que não. Mas intima­mente não sabe realmente o que sente. Aquilo tudo foi tão ligeiro, tão violento, tão doloroso, tão inesperado...

E Salu (efeitos da bebida? sugestão do ambiente?) de repente dominado por uma onda de ternura, começa a falar. Ao mesmo tempo que fala se despreza a si mesmo por ser tão idiota, tão tolo, tão piegas.

— Chinita, eu sei o que estás pensando de mim. Mas pouco me importa. Ainda hei de te provar que te amo de verdade.

Amo... — pensa ela. — Nunca pensei que ele pu­desse falar assim.

As inglesas pagam a despesa, amassam a ponta dos cigarros contra o cinzeiro, erguem-se e vão embora. Salu continua:

— Não, nem podes imaginar o que é o amor. O que aconteceu ontem foi uma coisa brutal mas inevitável, (Como isto parece uma cena de romance barato! — pen­sa ele.) Mas tu vais ver... Eu te mostro. O amor é lindo, lindo mesmo. Não foi Deus que fez o amor? Pois tudo que Deus fez é bom...

Para que meter Deus neste negócio? — pensa ela, defendendo-se contra a onda quente que também ameaça arrastá-la. Ela veio decidida a falar em casamento, em arranjar um meio de reparar o mal. No fim de contas, gosta de Salu, gosta de verdade. Por ele é capaz de todas as loucuras. E depois do que aconteceu, que loucura maior poderá cometer?

A voz dele continua, envolvente:

— Não me queiras mal. Eu te prometo um gozo tão grande, tão intenso...

A palavra gozo gera na cabeça de Salu uma visão tão perturbadora que de repente ele tem vontade de derru­bar a mesa e devorar Chinita a beijos. Todo o discurso preparado se perde, e ele exclama numa surdina apaixo­nada:

— Chinita, vamos até o meu apartamento, por favor!

Ela sente o choque da surpresa. No apartamento dele?

— Mas Salu!

— Aqui é impossível conversar...

— Mas... mas Salu!

Ela não atina com dizer outra coisa.

— Lá ninguém nos vê. Ficamos à vontade. Eu te mostro. Oh! Deixa disso, vamos embora.

A persuasão se vai transformando em raiva. A ternu­ra se funde com um desejo animal. Agora ele só vê em Chinita a fêmea convidativa que não merece gastemos com ela palavras escolhidas, a fêmea que deve ser subme­tida à força.

Chinita franze a testa, relutando.

— Vamos embora!

Os dedos de Salu se crispam em torno do pulso da moça. Ao contato quente, à pressão forte, Chinita sente um formigamento estranho no corpo. No entanto ontem tudo foi tão sem gosto, tão desagradável... Mas esta ex­citação está de novo a lhe dizer que existe um prazer misterioso que ela ainda não conhece, um gozo doido que estará um dia a seu alcance. E como Salu fica bonito e tentador assim de testa franzida, olhos brilhantes, boca retorcida! Como lhe fica bem este ar autoritário...

— Que mais tens a perder? — continua ele, brutal. — Vamos!

— Mas...


— Olha, rapariga. — A palavra rapariga magoa de leve Chinita que reconhece nela uma significação pejora­tiva. Mas a mágoa é um pingo dágua naquele deserto escaldante. — Olha, rapariga — repete ele — tu pensas que sempre vais ter dezoito anos? E esse corpo bonito? E esses olhos? E esses seios? Não demora muito e estás franzida, murcha, velha (Salu vai num crescendo), hor­rorosa! E que fizeste da tua mocidade? (Repete a frase dum romance que leu recentemente. O herói se chamava Henry e a sua técnica de conquista era esta: mostrar à mulher desejada que a vida passa, o corpo envelhece e o milagre da mocidade não se repete.)

Chinita fica olhando para Salu. Nunca o viu tão entusiasmado. Será mesmo que ele a ama de verdade?

Silêncio breve.

— Então? — torna a perguntar ele. — Vamos ou não vamos?

E os seus olhos se fixam insistentemente no rosto de Chinita. E ela sente que vai ceder, não por causa das palavras, que mal e mal ouviu; não por causa do fantas­ma da velhice, mas sim porque gosta de Salu e porque o calor desta mão peluda e morena, malvada e musculosa lhe está dizendo que existe no amor outra sensação que não é de dor nem de desgosto.

74

O Cel. Pedrosa dá palmadinhas repetidas nas ancas de Mlle Nanette Thibault, manicure, com um ar feliz, risonho e confiante de proprietário.



Nanette tudo suporta, passiva. Hoje precisa fazer um grande pedido. Todo o mundo tem automóvel. Por que ela não pode ter um também? Viu um Chevrolet mo­derno, novo, muito barato. O velho não vai negar... Bem preparado o caminho — carícias, elogios, provas de amor — a coisa não será difícil.

Zé Maria se refestela numa poltrona. Nanette se senta aos pés dele. Parece uma gata ruiva — pensa Zé Maria. Il me semble un cochon! — pensa ela. Mas para Zé Maria gata ruiva é um símile carinhoso, um elogio. Ele não resiste à tentação de dar voz ao pensamento:

— Tu parece uma gatinha amarela sentada nos pés do dono.

E ri — hê! hê! hê!

Nanette põe-se de quatro pés, arqueia o dorso e faz: Miau! Miau!

A risada do coronel cresce: hê! hê! hê! Ela continua:



Miau! Mi-au!

Se eu fosse vinte anos mais moço — pensa ele — eu também me parava de quatro e ia brincá de gato com ela. Mas os seus cinqüenta anos, as botinas apertadas e o ventre bojudo não lhe permitem a travessura.

Nanette levanta o braço, como um gato que ergue a pata para tapear um novelo de lã.

— De quem é essa gatinha bonita?

E Nanette faz de novo: Miau! Miau! — apontando com o dedo para o coronel, como quem diz: De você!

Zé Maria se fina de riso.

A hora é boa — pensa Nanette — eu vou pedir.

Levanta-se, senta-se no colo do amante, passa-lhe a mão pelos cabelos.

— Eu vou te pedir um favor...

— Ai! Ai! Ai! — faz Zé Maria, farejando pedido de dinheiro. — Olha que eu já lhe dei uma pelega de quinhentos trás-ant’ontem...

Nanette faz um muxoxo.

Non! — E finge indignação. — Non é dinheiro.

— Então que é?

— Zé Maria fica hoje para jantar com Nanette, oui?

75

Sete andares acima do apartamento de Nanette, Chi­nita agora tem a grande revelação. O quarto de Salu está imerso numa penumbra doce. O silêncio se prolonga, pa­rece que a vida parou. Agora só existe um lago de prazer, um lago fundo de águas quentes, encrespadas, cheio de arrepios e redemoinhos. Chinita fecha os olhos e se aban­dona, submerge sem pensar, sem ver. O rosto de Salu é uma mancha confusa na sombra. Ela só tem consciência dum contato esfrolante e morno, aflitivamente gostoso.



Salu se surpreende por descobrir uma nova Chinita. Uma Chinita sem solecismos, sem tolices, sem atitudes idiotas. Uma rapariga desamparada que coleia num mo­vimento de onda, que balbucia palavras que nem ela mes­mo entende, que se abandona, e crispa toda sob suas carí­cias. E ele chega a sentir por ela, de mistura com este desejo violento de posse, uma ternura mole, boa, com um pouquinho de piedade — qualquer coisa de mais profundo e mais sério do que ele próprio desejava.

O silêncio. E depois, quando Chinita sobe de novo à tona, o seu primeiro movimento é de pudor. Puxa apres­sada as cobertas até o queixo. Pela bandeira da janela agora se insinua uma réstia clara de sol.

76

Sol! — exclamou Virgínia mentalmente. E vai abrir a janela que dá para a rua. Grandes clareiras azuis no meio das nuvens cor de ardósia. Um vento frio vai em­purrando as nuvens rumo ao norte. Nas calçadas as po­ças dágua Coruscam. Das árvores pingam gotas irides­centes.



Virgínia pensa em Alcides. Está na hora de ele apa­recer. Naturalmente virá, como sempre. A chuva parou. E por que será que depois dum dia triste de chuva a sau­dade fica maior? Por que será?

Virgínia olha a rua. Passam bondes, as rodas esgui­cham água para os lados. Por trás dos morros da Glória e de Teresópolis ergue-se uma nuvem que é um paredão sombrio. Mas por cima da barreira escura, o céu é todo um clarão azul! As vidraças chamejam. Nos morros, zo­nas verde-escuro e verde-iluminado.

Os minutos passam. O relógio bate cinco horas. Mas Alcides não vem.

Virgínia, entretanto, espera.

77

D. Maria Luísa torna a ler a carta, pela terceira vez. Há frases que já sabe de cor...



seu marido, esse homem que, não respeitando os cabelos brancos que tem na cabeça nem a virtuosa esposa que recebeu no altar perante Deus e a Socie­dade, compartilha do leito duma prostituta que vive a suas expensas num luxuoso apartamento do Edifí­cio Colombo”.

A princípio ela não compreendeu. Tanta palavra amontoada e difícil... Mas depois a luz se fez. A carta queria dizer que o marido dela tinha uma amásia. Dizia até onde ela morava.

A carta foi entregue na porta. Anônima! Ela sempre teve medo das cartas anônimas.

D. Maria Luísa apaga a luz e senta-se no sofá, com a carta na ponta dos dedos. Silêncio no casarão, um si­lêncio frio de cemitério. Anoitece aos poucos.

D. Maria Luísa rumina a sua desgraça. Tudo está acabado. O rapaz se fina aos poucos, consumido pelas farras, pelas noites passadas em claro, pela bebida. A filha perdeu todo o respeito pelos pais, vive na rua, solta, como uma mulher da vida, desbocada, atrevida. Zé Maria perdeu o governo da casa e agora arranjou uma amante. Amigado! Maldito dinheiro! Ela bem sabia que dinheiro de loteria traz desgraça.



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