Caminhos Cruzados



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A escuridão se faz mais funda.

D. Maria Luísa recorda.

Está em Jacarecanga e a hora do jantar se aproxi­ma. Vem da cozinha um cheiro de churrasco. Na frente da casa brincam as crianças da vizinhança. A negra Arminda caminha dum lado para outro diante do fogão, mexendo nas panelas. Manuel vem chegando da rua, vai para o banheiro, cantando. Chinita acabou de se vestir, está falando em ir ao cinema com as filhas do coletor. Zé Maria há pouco veio da loja e pede água morna para lavar os pés. O armário da varanda cheira a noz-moscada. A madressilva do muro tem um perfume mais forte quan­do anoitece. Tudo tão bom, tão calmo... Depois a famí­lia se. reúne ao redor da mesa. Zé Maria conta coisas da loja: discussões com o Madruga, boatos da política. Ma­nuel fala numa fita boa que vão passar no Ideal. Chinita diz que o vestido amarelo pode ser reformado, fica muito bonitinho com um enfeite marrom...

D. Maria Luísa começa a chorar.

O relógio grande bate sete badaladas que ficam res­soando pelas peças grandes da casa.

Zé Maria telefonou: “Não me espere. Vou ficar na cidade até de noite”. Chinita também mandou um recado igual. Manuel não dorme em casa há dois dias...

D. Maria Luísa sente vontade de morrer. Porém mais forte que essa vontade de morrer é a de voltar para Jaca­recanga, à procura da vida antiga.

Agora em torno dela — o silêncio, o frio, a noite e a carta.

78

A luz do luar se mistura com a do lampião da va­randa de João Benévolo. Cheiro de umidade. Frio.



Ponciano, palito no canto da boca, fala do tempo, indiferente.

— Ninguém dizia que ia parar a chuva de repente. Este tempo ninguém sabe direito.

Laurentina sacode a cabeça. João Benévolo tem von­tade de esbofetear o outro. Ponciano continua:

— Eu me lembro que no inverno de 1912...

O que ele diz depois João Benévolo não escuta por­que agora anda perdido no seu mundo impossível. Uma dor no estômago fá-lo voltar à realidade.

— É o diabo... — está dizendo Ponciano.

Napoleãozinho choraminga no quarto. O gramofone do vizinho começa a tocar. Laurentina suspira.

Sempre a fome — pensa João Benévolo — a gente é como um saco sem fundo. Não há comida que chegue. Que bom se inventassem um meio da gente não precisar comer! Ficava tudo mais fácil, não havia tanta necessida­de de trabalhar.

Ponciano coca Laurentina com o seu olhar frio. Ela está mais magra, mais abatida. Mas é a mesma. O jeito de falar fechando os olhos, os gestos lentos, a voz de nenê dengoso. Se a situação dura, ela se acaba. Mas antes que ela se acabe há de vir para ele. Agora é preciso ter pa­ciência. Ele podia arranjar um emprego para o marido. Mas melhor é deixar assim, para Tina ficar cansada. Um belo dia ele chega e diz: “Laurentina, o Janjoca não presta, deixe ele. Isso de viver assim na miséria é o diabo. Venha comigo. Pode trazer o filho, não faço caso.” Ela não resiste e vem. Paciência. Quem esperou até agora, pode esperar mais.

Silêncio na varanda, só quebrado pela música dis­tante do gramofone.

— Deve ter uma fresta na janela — diz Laurentina tremendo de frio. — Estou sentindo uma corrente de ar.

João Benévolo encolhe os ombros.

— Corrente de ar é o diabo...

Outra vez o silêncio.

Ponciano olha para Laurentina e faz planos. Manda botar mais uma cama no quarto. Ah! É verdade! Mais outra para o guri. Bom. Compra-se um guarda-roupa ba­rato, uns quarenta mil-réis... ou sessenta que seja... Mando pedir mais um mil-réis de comida no restaurante. Pode ser que a dona da casa dê o estrilo... Que se lixe! Eu pago. Se ela não se conformar, perde o inquilino.

Os minutos passam.

Irá deixar mais dinheiro hoje? — pensa João Bené­volo, odiando Ponciano.

Laurentina costura roupas do filho. E sente que os olhos de Ponciano estão postos nela, daquela maneira insistente, desagradável, como os olhos duma cobra. De­certo hoje ele comeu bem. Está de sobretudo — um sobre­tudo bonito, peludo, e manta de lã; em casa naturalmente tem cobertores grossos...

— Está úmido o chão — diz João Benévolo, só para dizer alguma coisa.

— Umidade é o diabo.

No outro quarto Napoleão da cama olha a Lua atra­vés da vidraça. A Lua! Se a gente pudesse voar como um passarinho e ir para a Lua? Que será que tem na Lua? Gelo? Água? Queijo? Decerto na Lua tem Tom Mix. Aquela coisa escura dizem que é S. José puxando o burrinho com a Virgem Maria e Jesus no colo. Mas será mes­mo que tem gente na Lua?

79

Começa o serão dos Leitão Leiria.



Sentada no divã, Vera continua a leitura de sua novela. D. Dodó faz tricô — um casaquinho para uma velha do asilo de mendigos. De quando em quando er­gue os olhos para olhar o escritório. Pela porta aberta vê o seu Teotônio de quimono azul, com a mão esquerda apoiando a fronte e a direita segurando um livro.

D. Dodó pensa no seu aniversário e dá graças ao Senhor. Mentalmente vai contando os pontos do tricô, as agulhas verdes de galalite se lhe agitam nos dedos ágeis. Enfim ela chega feliz e cheia de saúde aos cinqüenta e dois anos, — um pra cima, uma laçada — marido bem de negócios — três pra baixo — filha criada — um pra ci­ma, uma laçada — (as agulhas se movem, rápidas) — só o que me dói — três pra baixo — é que ela não seja Filha de Maria — um pra cima...

Vera esquece o livro e pensa em Chinita. Não a viu todo o dia. Telefonou. Disseram que não estava em casa. Que andaria fazendo na rua? No mínimo o idiota do Salu estava atrapalhando. Podiam estar as duas conversando agora, fechadas no quarto. Tanta coisa a dizer... No entanto ela tem de ficar aqui neste serão aborrecível, os velhos cada qual no seu canto, em silêncio. Depois vem a hora do chá. Mamãe fala mais uma vez no desejo que tem de que a sua querida filhinha resolva ficar Filha de Maria. “Será o dia mais feliz da minha vida!” O pai repetirá co­mo sempre: “A sua mãe tem razão, Vera!” E fará a cara mais grave deste mundo. Finalmente a hora de dormir, o quarto silencioso e aquela saudade de Chinita...

Leitão Leiria lê a vida de Bismarck. Sempre é bom a gente conhecer a intimidade dos grandes homens, co­mo ele, o que faziam, as lutas que travaram, as suas fra­quezas, as suas peculiaridades... Instruem muito, as leituras deste gênero. São um estímulo. Precisamos beber coragem e sabedoria nessas fontes...

E agora, lutando contra a página de composição ma­ciça em caracteres miúdos, Teotônio se sugestiona para poder continuar a leitura. Há dentro dele duas personali­dades distintas. — Uma é a do homem sensato que acha que o livro deve ser lido, porque é instrutivo, e edificante. O outro é o Leitão Leiria verdadeiro, o animal livre que acha mais sabor num romance policial ou numa história galante do que nas páginas sisudas e graves. — Continua — diz um. Minhas costas estão doendo — queixa-se o outro. — Mira-te neste espelho que é Bismarck: ele era forte e constante. — Mas eu posso ler outro dia. — Leia agora, veja que homem! — Eu sei, mas estou aborrecido. — Queres seguir a política? Então? Procura imitar Bis­marck! Haverá padrão melhor?

E Leitão Leiria, ao chegar ao fim duma página, ve­rifica que não compreendeu nada do que acaba de ler. Volta à primeira linha. O autor conta da mocidade de Bismarck. Descobrindo um trecho admirável, Leitão Lei­ria levanta-se com o livro na mão e vai mostrá-lo à mulher:

— Olha, olha só que bonito. — E lê:

De noite, quando bate duas horas, infelizmente com mais fervor do que se orasse pela salvação da minha alma, eu oro pelos meus.”

— Isto é um trecho da carta que Bismarck escreveu à mulher.

D. Dodó sorri.

— Não sei quem é esse Bismarck, mas já estou sim­patizando com ele...

Entre paternal e importante, Leitão Leiria explica:

— Bismarck, minha filha, foi um grande estadista. Alemão.

Volta para o escritório e retorna à posição.

A luta recomeça. Leitão Leiria faz um esforço herói­co para continuar a leitura. Acha a cadeira muito dura, as costas lhe doem, a luz é fraca, as letras do texto são muito miúdas.

E um desejo traiçoeiro e mau lhe vai invadindo o ser. Como uma criança que planejava uma travessura, ele olha com o rabo dos olhos na direção da mulher. D. Dodó continua a movimentar as agulhas do tricô, absorta no seu trabalho. Leitão Leiria ergue-se de mansinho.

— Queres alguma coisa, meu filho? — pergunta Dodó. Teotônio sente um pequeno sobressalto desagradá­vel.

— Não, minha filha, não é nada...

Dodó não desvia os olhos do trabalho. Silenciosa­mente Teotônio vai até a prateleira de livros e tira dela um volume de capa amarela. Mansamente volta para a mesa e abre o livro, dissimulando, conservando aberto a pequena distância o “Bismarck”. E à sombra do Chance­ler de Ferro, Bocaccio conta as suas histórias. (É preciso conhecer os clássicos.)

D. Dodó pensa nos pobrezinhos da China, — um pra cima, uma laçada — no dia de amanhã, que naturalmen­te vai ser agitado — três pra baixo — felicitações, con­vidados para o almoço — um pra cima, uma laçada — recepção à noite...

Vera boceja.

80

Noel passou todo o dia a desejar esta hora. Ago­ra os dois estão sentados na escada, o luar clareia a rua, D. Eudóxia se balança lá dentro na sua cadeira, o corredor está envolto numa doce penumbra. Como Fer­nanda fica bonita assim na meia-luz, como os seus olhos brilham, como se emana dela um calor que dá confiança, vontade de ficar — ficar para sempre... Se tivesse co­ragem, ele lhe falaria com franqueza, diria tudo. Tomaria a mão dela, trazendo-a para bem juntinho de si e ficariam depois os dois abraçados, sem necessidade de dizer mais nada. E o mundo passaria a ter uma significação nova, a vida lhe mostraria uma face diferente, a sua solidão se quebraria, ele teria sempre junto de si uma criatura que o compreendesse, uma criatura terna e ao mesmo tempo de­cidida e forte. Se ele tivesse coragem... Sim, a penum­bra lhe dá mais ânimo. Sempre é melhor falar e dizer coisas íntimas quando o interlocutor não nos vê a face. . . Mas o que Noel teme é o som das próprias palavras mor­rendo no silêncio, sem eco. Apavora-o sobretudo o ridículo da situação.



O silêncio já dura alguns minutos.

Fernanda olha para Noel e tem vontade de afagar-lhe a cabeça de menino desamparado. Ele sempre lhe des­pertou instintos maternais.- é um pobre ser sem vontade que precisa duma pessoa que o guie pela vida em fora, levando-o pela mão. E ela nem ousa pensar em que a amizade de ambos possa tomar outro rumo. De sua parte não há de dizer nada. No entanto sente todas as palavras que Noel não diz. Lê fundo nos pensamentos dele, adivi­nha-lhe os desejos. No colégio sempre foi assim. Quando Noel se revolvia na classe, inquieto, tímido, sem coragem de pedir, e lançava para ela um olhar suplicante, Fer­nanda se erguia, compreendendo tudo, levantava e dizia: “Fessora, o Noelzinho quer ir lá fora.” Os outros riam. Mas era assim... Ela sabia quando Noel não tinha es­tudado a lição, sabia quando ele estava com medo. E agora ela pressente que o amigo tem uma confissão a fazer. Podia, como outrora, servir de alto-falante para seus pensamentos ou ir até ao encontro dele, esperando-o na metade do difícil caminho.

O silêncio persevera. Por mais que busque um assun­to, Noel não encontra outro além do desejo que tem de dizer a Fernanda que a ama. Ela sorri e continua calada. Noel sorri em resposta.

Lá de dentro vem a voz de D. Eudóxia:

— Olhem o frio, meninos! Podem apanhar um res­friado, uma pneumonia. Por que não entram?

— Estamos bem aqui — responde Fernanda. E em voz mais baixa, para Noel: — Mamãe sempre agourenta. Nunca vi tanta facilidade para inventar desgraça...

Outra vez o silêncio.

— Por que estás tão triste hoje, Fernanda?

— Triste, eu? Mas não!

Ri. Está claro que Noel não deve ficar sabendo que ela perdeu o emprego. Contar-lhe tudo poderia parecer uma insinuação, o mesmo que dizer: “Vês? Perdi o em­prego, estás na obrigação de me arranjar uma colocação, de me dar um amparo. Não somos amigos? Não fomos camaradas de colégio? E, a propósito, por que não me propões casamento?”

Não. Ela não dirá nada enquanto não encontrar no­vo emprego. Se dissesse, Noel ficaria numa situação em­baraçosa. A notícia viria aumentar-lhe o desalento e a sensação de inferioridade.

E como nenhum dos dois acha o que dizer, o silên­cio perdura.

81

Parado à esquina, Pedrinho olha para a casa de Cacilda e tirita de frio. O vento, encanado no beco, é fino e gelado. As estrelas piscam. Lua cheia.



Pedrinho espera. A janela de Cacilda está fechada, sinal de que alguém está com ela. Deve ser o tal ami­go...

Passa o vulto dum guarda encolhido dentro do ca­pote. Uma risada solta de mulher. Por trás duma casa sobe um clarão violáceo, rápido como um relâmpago. Vozes.

Na janela de Cacilda aparece agora a luz vermelha. Pela porta da casa um vulto sai. O coração de Pedrinho começa a bater de esperança e ele se põe a andar apres­sado.

E na sombra da saleta já se vê aquela silhueta familiar, parada, tranqüila. E a voz conhecida, calma e boa, lhe diz:

— Olá, nego, entra que está frio.

quarta-feira

82

Seis horas da manhã. Clarimundo já pôs a água a ferver, lavou o rosto, escovou os dentes, arrancou a fo­lhinha e agora está lendo Einstein. Lá fora os galos can­tam, passam carroças. Aqui dentro o fogareiro chia.



Clarimundo olha longamente para o relógio, Fiorel­lo virá? Naturalmente vem. O convite foi bem claro, amanhã às seis e dez, vamos inaugurar a cafeteira. O professor olha para a cafeteira de folha que está em ci­ma da mesa, projetando na parede uma sombra azulada. Custou vinte mil-réis numa loja do Caminho Novo. Den­tro de alguns minutos — com ou sem o Fiorello — ela será solenemente inaugurada.

Clarimundo esquece Einstein por alguns instantes para fazer algumas variações sobre o tema — cafeteira. No fim de contas o café faz falta: de manhã, uma ho­ra depois do chimarrão, ao meio-dia, depois do almoço, à noitinha, depois do jantar, e antes de dormir, quando faz frio. Ora, o homem que vive preocupado com proble­mas transcendentes vai esquecendo as pequenas coisas da vida, os pequenos objetos que lhe podem proporcionar conforto. Que diria o homem de Sírio sobre a cafeteira nova? Qual a sua impressão? Enfim, uma cafeteira não deixa de ser uma novidade nesta vida, em que nunca acontece nada. Sua existência se escoa regulada por um horário rigoroso: tudo sempre às mesmas horas, sem o menor imprevisto. De repente acontece uma novidade assim como a cafeteira, convida-se um amigo, um vizi­nho para vir provar o primeiro café, conversa-se um pouco e quebra-se a monotonia do dia-a-dia opaco e repetido. Mas deixa estar que uma cafeteira... Batem à porta.

— Quem é?

E uma voz do corredor:

— O Fiorello, sô professor!

Clarimundo abre, Fiorello entra. Cumprimentam-se.

O sapateiro fala do tempo: o dia vai ser lindo, o frio é de rachar, nenhuma nuvem no céu, quem diria? com o tempo que fez ontem...

Sente-se, seu Fiorello.

O sapateiro obedece. Clarimundo, esfregando as mãos, vai ver se a água já ferveu. Abre a lata do café, pega da cafeteira e com o maior cuidado do mundo dá início à cerimônia.

— Porque tudo tem a sua ciência na vida, meu amigo.

O italiano sacode a cabeça num silêncio de respeito e conformidade. Clarimundo continua:

— Não pense que estou fazendo isto à toa. Procurei numa enciclopédia, quis ver como se fazia café. Não achei nada. — Despeja uma colherada do pó marrom dentro do saco. — Felizmente eu tinha um Manual da Boa Dona de Casa. . .

Pega na chaleira, que já está exalando vapor pelo bico, e despeja a água na cafeteira. O fresco aroma do café espraia-se no ar.

Fiorello boceja. Um tanto alvoroçado, Clarimundo vai buscar as xícaras e o açúcar.

— Tudo na vida tem a sua ciência, seu Fiorello!

83

Fernanda acorda indisposta, meio estonteada, o corpo levemente dolorido, mas o sol da manhã lhe dá algum ânimo. Enfim a vida começa outra vez. E ela tem uma compreensão nítida e quase dolorosa da sua situação: é preciso que tudo continue a marchar em or­dem, que o irmão vá direitinho para a loja, tenha o seu café com pão e mel todas as manhãs; que a mãe tome o seu leite na cama e siga ignorando que ela foi despedi­da do escritório; é preciso arranjar uma colocação e con­tinuar mostrando para toda a gente uma cara alegre.



Abre as janelas, acorda Pedrinho e vai até a porta apanhar a garrafa do leite. Depois tira do peitoril da ja­nela os pães que o padeiro ali deixou pela manhã e vai acender o fogareiro. A garrafa de espírito de vinho está no fim: tem de mandar buscar outra. A torneira da pia está estragada: telefonar para a Prefeitura. Reclamar também ao leiteiro: que bote menos água no leite. Com­prar mais uma xícara.. .

Fernanda estende a toalha sobre a mesa. Um sol louro ilumina a sala. A última ruga de descontentamen­to se apaga no rosto dela. O dia está tão lindo, o céu tão azul... Ruído no quarto de Pedrinho; pouco depois, o som da água a escorrer no quarto de banho, a voz do ra­paz cantando uma canção de carnaval.

Fernanda parte o pão em fatias finas, para render mais. E ela mesma vai passando nele o mel, para evitar os excessos do irmão. A toalha está enodoada, mas hoje não é possível mudar porque a lavadeira... e por falar em lavadeira é preciso dizer à velha Arcanja que ultima­mente as roupas têm vindo muito amareladas e com um cheiro de fumaça.

Fernanda volta para a cozinha, abre a janela que dá para o quintal, estreito e sujo, recoberto de ervas, juncado de caixões velhos e montes de lixo. Mas até o quintal está bonito sob o sol matinal. As ervas rebrilham nas gotas de sereno. Uma galinha do vizinho está empoleirada na última tábua da cerca. Os quintais das re­dondezas, onde galos cantam, ganham vida. Ouvem-se vozes conhecidas, alguém racha lenha.

Fernanda olha para o céu e pensa em Noel. Queda-se imóvel e esquecida por alguns instantes, contente de sen­tir no rosto a carícia do sol e do vento brando e frio. Na sua vida, toda feita de preocupações miúdas, de quando em quando se abre uma clareira onde a figura de Noel aparece. E ela sente que é inútil continuar procurando iludir-se, inútil querer esconder de si mesma a verdade que vive dentro de seu coração...

Passa as horas distraída a escrever cartas comerciais no escritório, a fazer o serviço da casa, ou a ler os seus livros — mas lá de repente, a propósito dum raio de sol, dum pedaço de céu, duma nota de música, lhe vem à memória a imagem do amigo — aquele menino de olhar bom, aquela cabeça frágil que desperta, que lhe dá von­tade de acariciar.

Mas a água já deve estar fervendo. Fernanda volta-se rápida e grita:

— Pedrinho, venha tomar café!

Põe a aquecer o leite para a mãe. D. Eudóxia geme no quarto.

Os cabelos lambidos e úmidos, Pedrinho entra na varanda.

— Bom dia.

Assobiando, senta-se à mesa. Fernanda serve-lhe ca­fé e observa:

— Por que botaste hoje a roupa nova?

— Ora, mana...

— Vais estragar a fatiota no serviço...

Pedrinho não responde.

Fernanda toma o seu lugar à mesa.

— E quando tiveres tempo, corta essas unhas...

Pedrinho, que estava com a mão direita estendida, encolhe depressa os dedos.

Fernanda despeja café na sua xícara. O rapaz per­de-se em pensamentos. Vai hoje pedir ao gerente para sair meia hora mais cedo. Quer ter tempo de passar pela Sloper a fim de comprar o colar para Cacilda. Ela natu­ralmente vai ficar satisfeita. Deus queira que fique.

— Pedrinho, não voltes muito tarde para o almoço.

Ele sacode a cabeça.

À flor do lago preto que há na xícara de Fernanda, reflete-se a janela iluminada. Ela pensa em Noel.

84

Contente da vida, Armênio sai para a rua assobian­do uma valsa de Strauss. Que dia bonito para descrever numa crônica! Na manhã de ouro as silhuetas gráceis das nossas beldades...



Armênio pára diante duma vitrina que expõe arti­gos para homens e namora uma gravata cor de vinho com bolotas dum verde oliva. Deve ser pura seda e deve sentar admiravelmente bem com a minha roupa casta­nha. Vou comprar.

Mas continua a andar. Pára na frente de outra vi­trina. Chapéus Stetson. Um manequim de cera — a pa­ródia dum homem de cabelos louros, sobrancelhas hir­sutas, lábios e faces muito carminados — exibe uma gabardina que os vendedores e os fabricantes garantem que é impermeável. Qual impermeável qual nada! — pen­sa Armênio. Ele já teve uma que tomou chuva, deixou passar a água e encolheu.

No fundo da vitrina, um espelho. De súbito, no meio dos chapéus, Armênio dá com uma fisionomia co­nhecida. Olá! E vê que a sua gravata está um pouco torta — que horror! Corrige a laçada, puxa um pouco para baixo a aba do chapéu, mira-se por alguns instan­tes mais e continua o seu caminho.

As fachadas das casas estão alegres, batidas de sol.

As torres da Igreja do Rosário se recortam contra o azul, e o vento faz rodopiar mansamente os galos dos cataventos. Vendo as torres, Armênio pensa em D. Dodó e no motivo principal que o trouxe à rua. Toma o rumo do edifício dos Correios e Telégrafos.

Ao guichê, pede um papel e rabisca o telegrama:

D. Dodó Leitão Leiria.

Av. 13 de Maio 2654.

Respeitoso venho depor vossos pés meus afetuo­sos cumprimentos motivo seu natalício, fazendo vo­tos vida perene e feliz.

Dr. Armênio Albuquerque

Relê o telegrama, satisfeito. Risca seu e escreve vosso, para ficar tudo direitinho.

O empregado do telégrafo não aceita a emenda. Le­vemente contrariado, Armênio passa a limpo o telegrama e substitui afetuosos por respeitosos. Mas descobre a se­guir que a palavra respeitoso já foi escrita e amassa, quase irritado, o papel. Na terceira tentativa, vence. Paga, mete o recibo no bolso e sai para a rua. Na praça, admira os ombros de atleta da estátua do Barão do Rio Branco, pensa nas vantagens e glórias da carreira diplo­mática e a seguir se entrega todo em pensamento à sua esquiva, exquise Vera.

Hoje à noite, na recepção de Mme Leitão Leiria, co­mo me tratará a ingrata?

85

De repente, Laurentina sentiu o que nunca tinha sentido em toda a sua vida: uma coisa estranha que lhe subia no peito, cada vez maior, mais quente, mais forte — uma coisa que se continuasse presa dentro dela era capaz de dilacerar-lhe as carnes.



E, sem pensar no que fazia, como que levada por uma força misteriosa, ela avançou para o marido de mãos erguidas e punhos cerrados.

— Pamonha! Nulidade! Água-morna!

João Benévolo recuou, assustado, correu para a sala de jantar e entrincheirou-se atrás da mesa. Ficou ali de olho arregalado, branco, sem fala, trêmulo. Nunca tinha visto a mulher daquele jeito. Ela nunca dizia nomes, nunca se revoltava. E agora, de repente, sem mais nem menos...

Depois de soltar aquela coisa sufocante, Laurentina atirou-se sobre a cama e ficou chorando sentidamente. Napoleãozinho desatou também o choro.

João Benévolo agora espera, o coração batendo com força, desgraçado, desamparado, sem voz nem ação.

Os minutos passam. Ele vai se aproximando da mu­lher, devagarinho, receoso. O corpo de Laurentina está sacudido de soluços.

— Tina... Tina... Que foi que eu fiz? — E a sua voz é trêmula, humilde, abjeta, a voz dum derrotado, do homem que perdeu o último vestígio de orgulho. — Que foi, meu bem?

E no momento mesmo em que repete a pergunta, João Benévolo compreende tudo. Não precisa que ela res­ponda. Ele sente tudo, embora preferisse não sentir. O dinheiro acabou. Onde se vai arranjar comida? Os dias passam e ele continua desempregado sem nenhuma es­perança. Só mentiras e promessas que não se cumprem. Os credores batem à porta a todo o instante. Já não há mais desculpas a inventar. Qualquer dia a velha Men­donça bota os trastes deles no olho da rua. Não, não pre­cisa que ela diga. Ele sabe. E como sabe, não torna a perguntar.



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